Ainda há dias, com espavento, se noticiava a conclusão das obras junto ao Hospital de Santo António. As mesmas, recorde-se, inseriam-se na renovação da zona no âmbito da Porto 2001 que Deus haja.
Sem grande esforço de memória o portuense recorda ainda a primeira inauguração do jardim da Cordoaria, numa manhã de temporal, por entre a água barrenta dos charcos e o lamaçal escorregadio, com as obras a anos de estarem concluídas. Deslocou-se de Lisboa o engenheiro Guterres, solícito, vaidoso e com a vergonha convenientemente arrumada no fundo da algibeira.
Passados anos, sem que haja no horizonte imediato a perspectiva de nenhum acto eleitoral, eis que o presidente da Câmara se passeia pela zona, anuncia a conclusão das obras, incha o peito de orgulho. E, convenientemente, deixa a vergonha no fundo da algibeira, mesmo para lá do lenço de cambraia com que afaga a fronte.
Ontem, dia 4 de Novembro de 2004, em frente ao Hospital de Santo António, o Largo de Abel Salazar apresentava o aspecto que a imagem documenta. Enquanto poucos e não apressados trabalhadores continuavam a assentar pedra, revirar terras e remover entulho. No meio, reduzido a estátua, Júlio Dinis estava, como se pode verificar, verde de todo. Foi antes do jogo e não celebrava seguramente o dilatado resultado do Sporting contra uns gregos quaisquer. Só podia ser de raiva. Pelo abandono em que o deixaram no meio da terra lavrada ou pelo trabalho que, mesmo depois de morto, lhe deixaram para fazer. Com ou sem inauguração, há-se certamente seguir-se a sementeira.
A ponte de Maria Pia completa hoje 127 anos de vida. Sem glória, sem préstimo, sem utilização. Foi abandonada como traste velho que se não quer. Teve-se em 1996 a ideia de criar um comboio turístico entre a Alfândega do Porto e a estação de General Torres, em Gaia. O orçamento para a empreitada era de 8 milhões de euros, previa-se a entrada em funcionamento em 1998, a tempo da Cimeira Ibero-Americana. Essa data foi depois adiada para o ano de 2000 que, pelo calendário que se usa na Câmara Municipal do Porto, ainda não chegou. Nem se sabe se algum dia chegará.
Em 1997 um empresário alemão, louco e fugido a qualquer desconhecido hospício das margens do Reno, apresentou um projecto para uma linha de eléctrico que ligasse o Palácio de Cristal ao Convento de Santo António, em Gaia. Não passaram à história, nem o alemão, nem o projecto. Na Câmara não se falam línguas, ninguém sabe linguagem gestual, o entendimento é coisa de surrealistas. O máximo que se sabe é ceder terrenos, assinar licenças de construção, arrecadar emolumentos e assobiar para o lado.
O PDM do Porto chegou a incluir uma circular de eléctrico entre esta cidade e Gaia, cruzando a ponte. A ideia foi abandonada, chegou a falar-se no metro mas conclui-se que não tinha condições. O metro há-de um dia cruzar o tabuleiro superior da ponte de Luiz I, os eléctricos hão-de cruzar a ponte de Maria Pia com o mesmo garbo com que descem a Rua de 31 de Janeiro e com o mesmo risco radical com que aterram na Praça de D. João I. O projecto mais recente é o da adaptação do tabuleiro da ponte a pista ciclo-pedonal. O protocolo foi assinado em Março passado pelo ministro das Obras Públicas, as câmaras do Porto e Gaia e a Refer. O ministro mudou, os presidentes das câmaras não se falam, a Refer é um sorvedouro de dinheiros públicos de tal forma que é o cidadão que tem de pagar os ordenados aos administradores e garantir as mordomias inerentes àquilo a que chamam a dignidade dos cargos.
Sem surpresas George W. Bush acaba reeleito para um segundo mandato de 4 anos à frente dos destinos do Estados Unidos da América. O que daí resulta para o resto do mundo, e particularmente para a Europa, é a maior dependência ou a progressiva colonização a que continuarão sujeitos.
Não deixa de ser sintomático que apenas nos Estados Unidos Bush conseguisse ser eleito. Como é ainda muito mais sintomático que apenas ali as eleições se disputassem. A clareza do sistema ou a falta dela, a sinuosidade das regras, as contradições, o que poderia ter sido, são questões que deixaram de ter interesse.
Quanto ao resto, a antena continua ocupada pelos papagaios de serviço, analistas encartados, portadores de mestrados e licenciaturas. Mastigando as palavras à míngua de sono e à falta de repouso, fizeram previsões, apostaram numa montada, perderam na escolha, exprimem justificações e falam incontornavelmente na estratégia. Contorcendo-se para que caibam no molde e lhes sirva o sapatinho de cristal que a Cinderela perdeu na pressa da retirada.
Em três linhas, simples e lineares, Nuno Guerreiro diz tudo. Nenhuma sondagem se pode confundir com nenhum resultado, nenhuma sondagem tem satisfatória credibilidade. Nenhuma sondagem é mais do que um rudimentar e grosseiro indicador. Culpa tem quem por simples razões de negócio as impinge como sendo mais do que isso. Mas a ética é um dos princípios do tempo dos dinossauros de que nem sequer os fósseis chegaram até nós!
O Sport Comércio e Salgueiros, o velho e respeitável Salgueiral, é uma histórica instituição da cidade. Pertence-lhe, faz parte do seu património. No âmbito desportivo, a par do Futebol Clube do Porto, do Boavista, dos Passarinhos da Ribeira. Sem ter sido campeão europeu, sem ter ganho competições da Uefa, sem se ter sagrado alguma vez campeão nacional. A nível da cidade é um monumento, de granito talhado à mão, escurecido pelo tempo e pelos muitos invernos que viu passar, desde que foi fundado em 1911.
São de drama os tempos que o Salgueiros atravessa. Despromovido à divisão de honra , foi esta época relegado para a segunda divisão B, zona norte. Ao que parece por não ter a sua situação regularizada perante as entidades oficiais e perante a Liga de Futebol profissional, sendo certo que esta, cuidadosamente, se manteve calada. Mesmo quando o seu presidente persiste em chamar indústria ao que os adeptos julgam desporto e se sabe que todos os clubes, sem excepção, estão carregados de dívidas e não são instituições em que possa confiar-se.
O início de época do Salgueiros, na segunda divisão B, tem sido trágico. Perdeu os primeiros nove jogos, marcou cinco golos, sofreu trinta e sete, não amealhou um único ponto. No último domingo, em casa, foi goleado por dez a zero pelo Vizela. Entretanto, há dias, uma assembleia geral destituiu o presidente da Direcção, José António Linhares, e convocou eleições para o dia 12 deste mês. Entretanto constituiu-se uma comissão administrativa que conduzisse a agremiação até às eleições.
Hoje o presidente destituído, pela manhã, ocupou as instalações do popular clube de Paranhos. Dizem uns que lá se barricou e que se recusa a abandonar o lugar. Ele, por si, diz apenas estar no desempenho das suas funções e que assegura que será reeleito no dia 12. O que não deixa de ser um claro e surpreendente acto de acrisolado clubismo e de nobre filantropia por parte do senhor Linhares. Especialmente quando o clube soma nove derrotas em nove jogos e possui - ou possuía! - um incalculável património imobiliário em Vidal Pinheiro. Em terrenos livres para a construção de largos milhões de contos de edifícios. Pelo menos deixa que pensar. Enquanto, à cautela, a polícia se mantém na Rua de Álvares Cabral, em frente à sede da colectividade.
E nós? E os adeptos, os sócios, os simpatizantes, os admiradores? As estruturas do futebol-indústria, os saudosistas do futebol-desporto, os presidentes de junta, os deputados municipais, a vereação? Todos calados, com o rabo entre as pernas, vamos desempenhar as funções de gatos-pingados e enterrar o Salgueiros em campa rasa? E mandar rezar-lhe a missa do sétimo dia? Para que repouse em paz?
Ontem, numa qualquer cerimónia realizada na Universidade de Évora, um jovem usando traje académico e com ar de quem já anda pelo centro histórico há uns anos, exigia, em nome dos alunos, um ensino de qualidade. Salientava que aqueles deveriam ser estimulados a aprender, a devotarem-se ao estudo, a reservarem à frequência das aulas o tempo necessário e à prática das praxes aquele de que se pudesse dispor.
Poucos dias antes, a outro nível, os pais dos jovens que este ano deverão prestar provas de avaliação no nono ano - acompanhados por alguns políticos para quem todos os meios são bons - defendiam que os exames pura e simplesmente não deveriam ser levados a efeito. A pretexto de todos os sobressaltos por que passou o início do ano lectivo e do atraso na abertura efectiva dos estabelecimentos de ensino.
Ambas as intervenções são o espelho do desorientado país que mora a oriente do Cabo da Roca. Não têm nenhum bom senso e muito menos o suporte de qualquer raciocínio lógico, mesmo elementar. Somos definitivamente o país em que, arrogantemente, toda a gente sabe de tudo, sem nunca ter aprendido nada. Alguns concursos televisivos, cuja audiência se apoia no valor dos prémios que se podem alcançar - é a retoma, é a retoma! - são encenações confrangedoras daquilo que os portugueses, regra geral jovens, sabem sobre a vida e sobre o mundo que os cerca.
O estudo é obviamente como o trabalho que a maior parte das pessoas realiza: um castigo. Mas do qual, quer se queira quer não, depende a subsistência. Não é um divertimento, uma feira popular, uma discoteca ou um bar copiado da Irlanda. Na escola há peões diversos, hierarquias, tarefas e funções estabelecidas. Não compete aos alunos dar aulas aos professores nem aprová-los, com distinção ou sem ela. Não compete aos pais definir as regras do jogo e estabelecer o conteúdo dos testes a que serão submetidos os filhos. Não compete aos professores fazer aquilo que a família não faz e inverter o estado de coisas sobre a má criação e a falta de maneiras das criancinhas.
Não sabendo os alunos português, como não sabem, nem eles são definitivamente burros nem a culpa, sem contraditório, é forçosamente da gramática. Não sabendo os alunos matemática, como não sabem, nem o seu coeficiente de inteligência é negativo nem a culpa é obviamente da tabuada. Do mesmo modo que não são incompetentes todos os professores e exemplares todos os pais. E também não é nenhum ministro da educação, seja Maria ou seja Manuel, que vai modificar o estado de coisas. Mesmo que force os alunos a terem por única companhia, durante 24 horas, a gramática ou a álgebra.
A Câmara do Porto, talvez mais do que qualquer outra instituição deste pequeno país, tem sido palco de lutas pessoais, traições, projectos particulares, fins abjectos e trajectos sem escrúpulos. E sempre, sempre, tendo ao leme pilotos incompetentes, incapazes de determinar as coordenadas e estabelecer o rumo. Orgulhando-se em tempos idos de ser conhecida pela capital do trabalho a cidade é hoje a capital do desemprego. Sem nenhum orgulho. E caminha, velozmente, para ser a capital do ridículo e o expoente máximo da incúria e da incompetência. Ambos irresponsáveis. Ambos ilesos e sem pena.
A série de obras realizada nos últimos anos é disso ilustração bastante, quadro de autêntico mestre. A cidade foi reconhecida como património mundial pela Unesco: pouca gente o sabe e ninguém o nota. Foi capital europeia da cultura em 2001: ainda tem em construção a sua obra emblemática que é a famigerada Casa da Música. Gastou uma fortuna na construção de um edifício a que um mal intencionado chamou transparente: ainda está para descobrir para que é que ele serve e o que lá há-de pôr. Construiu aquilo a que pretensiosamente chamou Funicular dos Guindais: não sabia depois quem iria explorá-lo e quase que ninguém conseguia pôr a geringonça em andamento. Expulsou o toxicodependente da Viela do Anjo, requalificou - como eu gosto desta palavra, a Dra Edite Estrela ainda me há-de dar uma lição sobre ela! - a zona, gastou um balúrdio e chamou a fanfarra para a inauguração. Depois abandonou tudo, mandou retirar a polícia, convidou o toxicodependente a regressar, entaipou janelas, portas e portões.
Felizmente o Porto tem gente atenta. Gente que antes de mim, com melhor conhecimento e mais apropriadamente ergue o braço e solta o grito. Levo apenas à cidade o meu insignificante contributo na denúncia. A Viela do Anjo e o que se passa com ela é apenas mais uma vergonha. Que pode não ter rosto mas que, seguramente, tem responsáveis!
O slogan escolhido é:
O que, razoavelmente, apenas pode acontecer de uma forma: com a expansão imparável de Portugal. Com cruzadas ou sem elas. Com guerras santas ou mesmo laicas. Com ou sem evangelização. Para além dos montes Urais, até ao fim do mundo. Não se vê de que outro modo possa haver mais Europa e, com isso, mais Portugal!
