
Mais do que um recomeço, mais do que o início de uma nova fase, a Constituição europeia parece um obituário. Uma espécie de fim de festa. Tenta, não com armas, mas com cláusulas legais, consolidar à força uma ficção, como sejam a cidadania europeia, a opinião pública europeia e a democracia europeia. Na verdade, a Constituição é a tradução exacta do impasse a que as políticas nacionais estão a chegar. Os políticos nacionais, em cada vez maior dificuldade para tratar e resolver os seus problemas, transferem para o continente decisões e competências com o firme propósito de as retirar do alcance dos povos. A Europa, isto é, a União, ainda não tem qualquer capacidade séria para tratar das garantias fundamentais dos cidadãos, dos seus direitos e deveres e da sua representação democrática. Para que uma Constituição escrita tivesse um qualquer fundamento, uma qualquer utilidade, seria necessário termos diante de nós um continente muito mais ligado, isto é, sociedades muito mais entrosadas, instituições e empresas mais conjugadas, homens e mulheres mais miscigenados, obras mais comuns, circulação mais efectiva, escolas mais articuladas e sentimentos mais partilhados. Mas tudo isto feito livre e voluntariamente, de "baixo para cima", como se diz.
A ponte de Luís I, um dos mais belos ex-libris da cidade do Porto, com o tabuleiro inferior ainda em obras, foi inaugurada em 31 de Outubro de 1886, faz hoje 118 anos. Foi inaugurada no mesmo dia em que o rei que lhe deu o nome completava 48 anos.
A ponte é fiel testemunha dos últimos 118 anos de história das margens do rio Douro, cuja ligação facilitou. Não tivesse sido um novo projecto de travessia, envolvendo o trajecto do metro para Santo Ovídio, continuaria votada ao abandono, degradando-se cada vez mais, até que chegasse a interdição ou desabasse a tragédia. Ligeiramente a montante do rio, senil e magnífica, jaz ao criminoso abandono das autoridades da região e do país a ponte D. Maria. Pasto de silvas e de todo o género de ervas daninhas desde que foi aberta aos comboios a ponte de S. João.
Por curiosidade refira-se que a construção da ponte de Luís I foi adjudicada em 1879 à empresa belga Societé de Construction Willebroeck por 402 contos de réis. As obras que actualmente ali decorrem foram orçadas em oito milhões de euros, cerca de um milhão e seiscentos mil contos.
Por ali mora gente muito ilustre, fina de trato, erudição bastante, areia de mais para uma camioneta velha habituada às livres savanas de África e às picadas das terras do fim do mundo. Vital Moreira, académico reconhecido e deputado desistido, posta por lá. Não discuto o que deixa escrito, quem sou eu, já me basta o esforço de perceber, tantas vezes desconseguido como a bóia a balançar por cima das ondas. Que me vira a embarcação de patilhão para o ar e me encharca os ossos com excesso de maresia e de salpicos.
Hoje vão por lá só para este absurdo divertimento do caso surrealista antes que as anedotas cheguem todas do congresso de Oliveira de Azeméis, com a Pensão Suiça e Ferreira de Castro ali tão perto, na freguesia de Osela. A Câmara Municipal de Coimbra abre concurso para a admissão de dois coveiros, com contrato a termo certo, por seis meses. É requisito obrigatório a escolaridade mínima e dá-se preferência a quem já possua experiência profissional no desempenho das funções. O processo de selecção incluirá avaliação curricular e entrevista.
Não vejo que possa espantar-se seja quem for e menos ainda o professor Vital. De espantado basta o Dr Pacheco, e mesmo esse só às vezes. O concurso pode não ter explicação científica e não exigir cálculo matemático complexo como o que, mentalmente, fazia o engenheiro Guterres. Mas tem explicação linear e raciocínio raso. Seguramente que em campanha o Dr Encarnação prometeu reduzir a zero o índice de mortalidade no concelho. Está a cumprir: dois gajos, em seis meses, vencendo pela letra V, com direito a subsídio de refeição, deverão ter concluída a tarefa de enterrar toda a gente. Mortos importantes não podem, mesmo no Portugal dos pequeninos, ser enterrados por analfabetos, suprema humilhação. Deve exigir-se profissionalismo, fomentar a produtividade, avaliar as capacidades, exigir competência.
O Dr Encarnação fará parte do júri. O digno vereador do pelouro também. Em representação da clientela, satisfeita e fidelizada, que morto irão eles nomear? Irão importunar o D. Afonso Henriques?
Todos os dias chego sempre na Ma-schamba, mesmo ainda quando é sábado ou até que seja domingo. Está bem! Às vezes até que chego tarde, a enxada me pesando em cima das costas, o caminho nunca que é direito. Carreiro, trilho de cabrito, para cima, para baixo, cada curva assim dessa maneira. Não adianta para ficar até tarde, caminho para casa é para fazer antes do sol dormir, arranjar comida para lhe cozinhar, comer tabaco a ver as estrelas que Deus adiantou pôr lá para cima, nem sei como conseguiu.
Mesmo que o tempo é curto, não fui eu que lhe fiz. Capino sempre ao menos daqui pracolá, junto o capim dos laldos, para secar, vejo batata doce que está crescida, às vezes levo-lhe umas folhas para lhe cozinhar com azeite de palma e mais do nosso peixe seco. A mandioca que está grande, pouco que falta para lhe arrancar. Quando conseguir adianto de comer mesmo assim crua, pelo caminho do carreiro, até que faz os dentes me ficar mais branco.
Hoje, com a chuva que choveu, até que cheguei mais tarde. Já adiantei dizer primeiro. Encontrei que patrão tinha vindo lá, mais cedo do que eu, no carro dele, na estrada dele, nem que nasce capim, nem que passa cabrito. Plantou essas coisas que não lhe conheço o nome, não sei se dá as frutas dela, se serve para comer. Mas que cheira mal de verdade, virge Maria! Também não faz mal: quem não gosta não come. Quem não gosta também não precisa de cheirar. Deixa lá, é essas complicações dos brancos. Coisas deles!
Sendo assim proclama, um pouco à imagem do antigo e reformado chefe: deixem-nos trabalhar a eles! Quando todos os partidos da oposição reclamam a presença do professor Marcelo para assistirem ao vivo a um dos seus responsos, a maioria com o chefe Silva à frente, recusa. Com a alegação, brilhante, de que é preciso deixar trabalhar a Alta Autoridade para a Comunicação Social e aguardar pelos muitos e inconclusivos relatórios que a mesma certamente há-de emitir sobre as intermináveis audições que vem promovendo. Depois disso, logo se verá!
Pois! Como dizia aquele humorista brasileiro que Salazar se encarregou de mandar expulsar por piadas subversivas e atentatórias da moral pública: pimenta no cu do outro…
Hoje, em Roma e por motivos simbólicos, é assinado o tratado a que na gíria se tem chamado a Constituição Europeia. A assinatura do tratado foi prejudicada pelo que aconteceu no parlamento de Estrasburgo no que se refere à aprovação da nova Comissão Europeia, liderada por José Barroso. Mas o prejuízo causado não impede que a cerimónia reúna chefes de Estado e de Governo e se vista de gala.
O Presidente da República portuguesa escreve mesmo um artigo cujo título é ambíguo e espúrio: um dia de festiva responsabilidade. Porque, no que respeita aos cidadãos, o carro anda à frente dos bois. O tratado foi redigido e acaba assinado nas costas e à revelia do cidadão. Apenas depois disso se fará um referendo e se processará a ratificação - ou não! - do tratado. Nasce a dita constituição europeia, que continua a perseguir objectivos políticos, um pouco como um prédio que se começa pelo telhado.
As democracias, sem querer fazer teoria sobre a questão, não se fortalecem restringindo a participação dos cidadãos e ampliando as competências daqueles que os representam. Entendo, pessoalmente, que acontece exactamente o contrário: quanto mais expressiva for a participação do eleitor, tanto mais robusto resultará o sistema. Eu, eleitor inscrito na Junta de Freguesia de Santo Ildefonso, no Porto, não fui até agora tido nem achado na construção do tratado que hoje é assinado em Roma. Nem mesmo quando o meu número foi descarregado dos cadernos eleitorais e exerci o meu direito de voto nas últimas legislativas.
Sempre me fascinou a história que no Porto enche todas as ruas. Aqui, na Rua de Cedofeita, esteve instalado o quartel general das tropas liberais. Mudando-se do palácio dos Carrancas por causa da artilharia miguelista que, de Gaia, ali poderia chegar. O primeiro, o único semáforo em funcionamento há trinta anos, pendurado a meio do cruzamento das ruas da Constituição e Antero de Quental, accionado manualmente por um sinaleiro. A economia crescendo no café, com o cimbalino sendo coisa rara, uma verdadeira excepção.
Leio, como versículos da bíblia, quanto Germano Silva vai escrevendo no Jornal de Notícias e na Visão. Imagino o que ele trabalha para me dar mais meia dúzia de linhas de coisas que desconhecia. E que coisas continua a ensinar-me! Mas a baixa foi restando ao abandono, de prédios nobres transformando-se em ruínas, em plenas ruas de Sá da Bandeira e de Santa Catarina. A baixa está deserta de pessoas e de vida. A maioria dos seus habitantes morreu, o activo comércio de há anos fechou portas. Os fregueses morreram, os comerciantes seguiram-nos, as grandes superfícies contribuíram com o resto.
Dói-me, pela saudade, que a baixa do Porto passe a ter de novo e apenas uma sala de cinema. A única, por carolice de um visionário que acredita. As outras - algumas não tão antigas como isso! - conservam as portas encerradas, acolhem ratos, gatas com cio e, por vezes, desiludidos escravos da droga. O município promete a revitalização. E enquanto a promete pratica o esbanjamento na construção da Casa da Música. E mantém fechado, sem uso e sem destino, o cinema Batalha. Ali mesmo, na praça com o mesmo nome, onde a história foi arrancada à força do camartelo, sob os auspícios da capital europeia da cultura. Quase nem velhos há que lhe ocupem todos os bancos em algumas tardes soalheiras de Outono.
Tudo está bem quando acaba mal. O país está igual a si próprio e não nos surpreende. Eça de Queirós, que foi fraco de corpo e débil de saúde, pode continuar no seu descansado sono dos justos. Com uma lápide de mármore pesando alguns trezentos quilos a imobilizar o que ainda lhe resta do esqueleto. Que da lucidez das ideias e da certeza da crítica ainda resta felizmente tudo. Cada coisa é a um tempo e em obediência aos princípios da escola do ministro não sei quê da silva, aquilo que é e o seu contrário. A uma notícia de última hora contrapõe-se sempre uma outra notícia de mais última hora do que a anterior.
A novela da liberdade de imprensa prossegue. Com os actores e serem chamados ao palco para os encores. Deprimente é que esses actores se comportem como se o público não fosse mais do que um bando de carneiros, locomovendo-se em quatro patas, sem vontade, sem ideias e sem sabedoria. Como era de prever o professor Marcelo foi ontem, com o trabalho de casa feito, prestar declarações. De uma ponta à outra contradisse o que antes, no mesmo local, dissera o patrão da TVI. Linearmente salientou que o mesmo dissera mentiras e faltara à verdade.
Na mesma noite regressou o patrão para dizer que não compreendia as palavras do professor e que dos mais de quinze anos que leva disto sabe muito bem que é sagrada a independência de jornalistas e comentadores e que nunca se fala sobre as ideias que exprimem. Alguém, mesmo o espírito de António Maria Lisboa ou o que resta do físico de Mário Cesariny de Vasconcelos, pode acreditar nisto? Por mais surrealista que seja a encenação e desajeitado o desempenho dos actores?
Se assim é podemos avançar para vermos os operadores de caixa do Continente a agruparem-se à porta da loja, nos seus tempos livres, a vender batatas da Póvoa, nabos de Gondomar e cebolas de Rio Maior. Supormos que o presidente do Benfica contratou José Veiga para dirigir o futebol profissional do clube pelo seu benfiquismo e para que contribuísse para a vitória do Porto na superliga. E ainda que Pais do Amaral paga a José Eduardo Moniz, como pagava a Marcelo Rebelo de Sousa, para que defendessem os interesses da concorrência, revelassem comportamentos comprometedores de familiares seus e se empenhem em dizer mal de si. Ou, finalmente, que o primeiro-ministro contrata assessores para cuidar da imagem de José Sócrates e levar a oposição ao poder e à maioria absoluta.

Gallegos: (ruido de fondo).... Les habla el A-853, por favor, desvíen su rumbo quince grados sur para evitar colisionarnos... Se aproximan directo hacia nosotros, distancia 25 millas náuticas.
Americanos: (ruido de fondo)... Recomendamos que desvíen su rumbo quince grados norte para evitar colisión.
Gallegos: Negativo. Repetimos, desvíen su rumbo quince grados sur para evitar colisión.
Americanos: (otra voz americana) Al habla el Capitán de un navío de los Estados Unidos de América. Insistimos, desvíen ustedes su rumbo quince grados norte para evitar colisión.
Gallegos: No lo consideramos factible ni conveniente, les sugerimos que desvíen su rumbo quince grados sur para evitar colisionarnos.
Americanos: (muy caliente) LES HABLA EL CAPITÁN RICHARD JAMES HOWARD, AL MANDO DEL PORTAAVIONES USS LINCOLN, DE LA MARINA DE LOS E.E.U.U., EL SEGUNDO NAVÍO DE GUERRA MÁS GRANDE DE LA FLOTA NORTEAMERICANA. NOS ESCOLTAN DOS ACORAZADOS, SEIS DESTRUCTORES, CINCO CRUCEROS, CUATRO SUBMARINOS Y NUMEROSAS EMBARCACIONES DE APOYO. NOS DIRIGIMOS HACIA AGUAS DEL GOLFO PÉRSICO PARA PREPARAR MANIOBRAS MILITARES ANTE UNA EVENTUAL OFENSIVA DE IRAQ. NO LES SUGIERO... LES ORDENO QUE DESVÍEN SU CURSO QUINCE GRADOS NORTE!!!!! EN CASO CONTRARIO NOS VEREMOS OBLIGADOS A TOMAR LAS MEDIDAS QUE SEAN NECESARIAS PARA GARANTIZAR LA SEGURIDAD DE ESTE BUQUE Y DE LA FUERZA DE ESTA COALICIÓN. UDS. PERTENECEN A UN PAÍS ALIADO, MIEMBRO DE LA OTAN Y DE ESTA COALICIÓN...
POR FAVOR, OBEDEZCAN INMEDIATAMENTE Y QUITENSE DE NUESTRO CAMINO!!!!!
Gallegos: Les habla Juan Manuel Salas Alcántara. Somos dos personas. Nos escoltan nuestro perro, nuestra comida, dos cervezas y un canario que ahora esta durmiendo. Tenemos el apoyo de Cadena Dial de La Coruña y el canal 106 de emergencia marítimas. No nos dirigimos a ningún lado ya que les hablamos desde tierra firme, estamos en el faro A-853 Finnisterra, de la costa de Galicia. No tenemos la más puta idea en que puesto estamos en el ranking de faros españoles. Pueden tomar las medidas que consideren oportunas y les dé la puta gana para garantizar la seguridad de su buque de mierda, que se va a hacer hostia contra las rocas, por lo que volvemos a insistir y le sugerimos que lo mejor, mas sano y más recomendable es que desvíen su rumbo quince grados sur para evitar colisionarnos.....!!!!
Americanos: Bien, recibido, gracias.
A Câmara Municipal da Maia negociou com a banca o recebimento antecipado das rendas que presumivelmente lhe hão-de ser devidas nos próximos vinte e cinco anos. A Câmara Municipal da Covilhã seguiu-lhe o exemplo e, de momento, não se sabe ainda qual a autarquia que irá aderir ao sistema em terceiro lugar. Mas a verdade é que se vão alinhando, como se fossem para a consulta externa.
O estratagema - ou truque como seriamente já foi classificado por um dos respeitáveis políticos que democraticamente elegemos todos os quatro anos - possibilita que sejam contornadas as disposições do poder central, via Manuela Ferreira Leite, que limitam o endividamento das autarquias. Houve até já quem comparasse o expediente ao utilizado por aquela assessora do Banco de Portugal quando cedeu, ao preço da uva mijona, os créditos mais ou menos mal parados que o Estado detinha sobre contribuintes relapsos.
Mal ou bem - a meu ver mal, porque tal denuncia a incapacidade e a incompetência do Estado na gestão do que é seu! - aquela vendeu dívidas que já existiam, que estavam vencidas, que não tinham sido pagas na devida altura e que, por isso, estavam em mora. O que é diferente de ceder alguma coisa que apenas se supõe que possa vir a ser devido daqui a vinte e cinco anos, quando a maioria dos presidentes de câmara tiver morrido e apenas Narciso Miranda se mantiver à frente de Matosinhos para continuar a levar à lota as comitivas eleitorais do seu partido. Cumprindo o seu último mandato, depois de legalmente estes terem sido finalmente limitados a um máximo de trinta e cinco.
Além disso ouvi que alguém enaltecia o tal dito truque, porque não era nenhum empréstimo. E fico à espera que todos os engenheiros civis inscritos na Ordem se libertem dos muitos inquéritos sobre o encerramento do túnel do Rossio para virem publicamente revelar os cálculos de uma tal engenharia financeira. Como é que alguém consegue da banca, adiantados, vinte e cinco anos de receitas sem que isso seja nenhum empréstimo! Que o mesmo é dizer, por mera questão de analogia, que a famigerada Casa da Música - ex-libris do Porto 2001, capital europeia da cultura - vai em quatro vezes o custo inicialmente previsto sem que haja o mais ligeiro desvio e sem que o ilusionista Luís de Matos tenha, por qualquer acaso e alguma vez, feito parte das sucessivas administrações.
Pais do Amaral tranquilizou-me quando assegurou que não era pressionável e que nunca tinha sido pressionado, salvo nos idos de noventa. É de homens assim, íntegros e tesos como Brites de Almeida, que o país precisa. O inefável director do diário de referência do proletariado considerou um disparate que se fizessem reuniões para derrubar o governo e vender o Terreiro do Paço a um conhecido construtor civil à luz do dia, a uma mesa da Brasileira do Chiado. Admitiu todavia que se poderiam fazer mas à noite, numa esconsa rua, encostados a um candeeiro de iluminação com a lâmpada convenientemente fundida. Como aconselham os manuais!
Um qualquer governo que tem ministros, secretários de estado e assessores completa hoje 100 dias, mais tempo do que um vulgar namoro de adolescentes e do que o necessário para que um frango de aviário, alimentado a ração e proibido de dormir, seja posto à venda nos talhos convencionais ou nas grandes superfícies. E que quase parece tanto tempo como aquele há que, obsessivamente, o ministro das finanças aguarda que o Benfica ganhe o campeonato. Com ou sem ajuda do sistema, com ou sem ajuda do árbitro Olegário Benquerença.
O túnel da CP que liga Campo de Ourique ao Rossio foi encerrado ao tráfego na última noite. Manhã cedo, embora de aspecto asseado, com a barba feita, o cabelo cuidadosamente penteado e o fato à medida, um senhor chamado Braancamp Sobral dava uma conferência de imprensa, confirmava o encerramento, esclarecia que a decisão era sua e que a suspensão se manteria por 60 dias. Adiantava ainda que o túnel tinha cem anos, que havia problemas já reportados em 1927 - época em que lá a CP ou a Refer ou seja o que for não existiam e, portanto, não são responsáveis! - e que a decisão assenta num relatório do LNEC agora conhecido. Quanto a razões referia muito vagamente a patologia, sem adiantar qual era esta: se tonturas, vómitos, cefaleias ou fezes soltas.
Com a abertura do expediente, a partir das nove como usam todos os amanuenses pontuais, apressou-se a oposição - sem teleponto mas aguardando pelas agruras do contraditório - a barafustar que o governo deixara a obra centenária cair em ruínas. Sem nenhuma manutenção e sem nenhuns cuidados, o que desde logo responsabiliza - salvo seja! - toda a gente a partir de el-rei D. Carlos tão barbaramente assassinado no regresso da caça à perdiz. Atribuíram-se ainda culpas ao buraco cuja abertura garantiu a Santana Lopes a promoção a primeiro ministro e assobiou-se para o lado como fez o Dr Sampaio quando lhe assinou o termo de posse.
Coisa rara, o ministro das obras públicas, especialista em petróleos, portagens de Scuts e túneis, veio a público disponibilizar-se para esclarecer tudo e toda a gente, mesmo que isso lhe não fosse solicitado. Até que tu, meu caro António, vens revelar que te encomendaram um serviço e que já há quatro anos o completaste. Quanto a decisões, as mesmas de sempre. Aquilo até está enterrado, ninguém vê, não é obra prioritária porque nem o pároco a divulga nem leva o eleitor a decidir sobre o seu voto. Se abatesse, logo se via. Sempre se esperou que a vereação e o governo - fossem os que fossem - pudessem cair primeiro.
Entretanto toda a classe política se comporta como um preocupado bando de galinhas tontas. Correndo em todos os sentidos, cacarejando com estridência, batendo as asas, pondo o ovo em andamento, no desnorte da corrida. Exibe-se no seu melhor esplendor, no glorioso afã de tirar o cavalo da chuva e sacudir a água do capote. Este país, de facto, enche-me o peito!
Obviamente que não ponho em causa o que aqui escreve a Carolllina. Mas não posso acreditar no que leio e recuso-me a fazê-lo. Esta Loyola, mesmo vice-presidente da Comissão Europeia, assume o comportamento do burro a olhar para o Palacio.
Apenas alguém com menos de cinco centímetros cúbicos de massa encefálica e um coeficiente de inteligência que apenas possa ser visto ao microscópio seria capaz de, despudoradamente, desejar assim, ao vivo e em directo, a morte fosse de quem fosse.
Confesso publicamente que nunca gostei do Dr Salazar nem do Dr Caetano, mas nunca me passou pela cabeça que melhor seria morrerem para que eu deixasse de me preocupar com isso. De um extremo ao outro do espectro político que se senta em S. Bento não gosto de ninguém e, no entanto, podem todos eles dormir descansados. Nunca, nem em sonhos, me passou pela cabeça atentar contra a vida fosse de quem fosse ou, sequer, desejar-lhes a morte.
Uma pessoa - presume-se que o seja! - que certamente saberá ler, escrever e contar. Uma pessoa a quem estão cometidas responsabilidades políticas importantes, no âmbito de uma comissão em que estão representados 25 Estados. Uma pessoa simples que seja, dotada de pouco senso comum, poderá alguma vez pronunciar estas palavras? Invoco a filosofia futeboleira do Dr Loureiro, presidente do Boavista: depois de ter visto um porco a andar de bicicleta já me não admiro com coisa nenhuma!
Mas a proposta feita, no sentido dos professores serem colocados nos tribunais a assessorar juízes, é o de que mais racional e sensato foi dado ouvir neste início de século, depois do professor Marcelo ter feito votos e recolhido ao mosteiro de Singeverga. Por um lado os ministérios não têm lugares compatíveis para todos e mesmo Luís Delgado tem o seu gabinete preenchido. Depois a globalização - ou seja lá o que for! - exige que as pessoas se adaptem a outras tarefas, sejam polivalentes, tenham simultaneamente a capacidade de matar e de ser mortas, contribuam para a melhoria da competitividade em plano de igualdade com a descida das taxas do IRC. Para enriquecimento dos empresários e glória - fácil! - da economia nacional.
Depois nunca isso prejudicaria a celeridade e a qualidade atávicas da justiça portuguesa. Nem a reconhecida isenção de, sobre o mesmo caso, decidir hoje assim e amanhã assado. Ao invés, tantas vezes tem sido assegurada por trolhas que se justificaria até que a recuperação da baixa do Porto fosse cometida a especializados e experientes desembargadores da Relação. Seria o mesmo que levar os incendiários presos em Custoias para a floresta, a preparar atempadamente a época de fogos do ano que vem. E os professores são gente instruída, portadora de drs antes do nome, dinamizadores de manifestações culturais e frequentadores assíduos do café de Serralves. Seriam muito bem capazes de desempenhar funções de escrivão, presidir a colectivos, inquirir testemunhas e cagar sentenças. Como os outros!
Entretanto, inquirido sobre o assunto, Francisco Pinto Balsemão considera-o uma fantasia e não adianta mais detalhes. Ficam os estudiosos suspensos da ambiguidade da afirmação, não sabendo se a referência seria a fantasia de carnaval, fantasia sexual ou mesmo qualquer outra. A dúvida prejudica, para já, o comportamento de Júlia Pinheiro e o superior desempenho do jumento. Como se isso não bastasse José Eduardo Moniz declara à comunicação social não comentar inutilidades e disparates o que fez imediatamente cair a cotação das acções em bolsa e aumentar a ameaça de qualquer oferta pública de aquisição, de natureza hostil.
No seu gabinete, rodeado de assessores e secretárias, o presidente da PT ouve cassetes de áudio, folheia enciclopédias e percorre uma a uma todas as citações a que o horroroso serviço ADSL do grupo lhe permite chegar, de forma a documentar-se para amanhã ser recebido no Largo do Rato. O seu objectivo é justificar a nomeação de Luís Delgado com três citações de Séneca e dois versículos da Bíblia.
Bastam uma birra ligeira de S. Pedro e uma chuvada um pouco mais forte! E Portugal encharca-se, Lisboa inunda-se e o Tejo transborda para além do cais das colunas. Na travessia os cacilheiros, promovidos a celebridades com o sobrenome de catamarans, agoniam-se nos buracos do caminho e no medo do naufrágio. O piloto prende-se ao leme, evoca Fernando Pessoa, reza baixinho todos os versos do Mostrengo. A tripulação acompanha. Os passageiros dançam de bombordo a estibordo, agarram-se à amurada, deitam a carga ao rio, varrem o convés como esfregonas compradas nas lojas dos trezentos.
Na margem os pontões não balançam: saltam frenéticos, impossibilitam a atracação. Os passageiros munem-se de terços, invocam a Senhora de Fátima, rezam o Padre Nossa, olham o Terreiro do Paço suplicando pela melhoria do tempo e o abrandamento dos ventos. A empresa concessionária decide-se por nova imobilização dos barcos, culpa S. Pedro que não devia ter birras, desculpa-se com o rio que corre para o mar, afirma que estão velhos e são inadequados os pontões a que se atraca. E salienta que é baixa a remuneração dos administradores e elevada a taxa do IRC que o governo prometeu baixar.
Os barcos fazem um vistaço e ficam a matar na fotografia. Pena é que sejam forçados a navegar à superfície de águas revoltas de um rio que corre ao contrário, com pressa de chegar. Dar-se-iam de certeza muito melhor em superfícies planas e macias, enxutas e sem ondas. Poderá previdentemente a empresa pensar nisso?
Mal vai o país se pensa que não tem outra doença que não seja um pequeno quisto sebáceo, inofensivo, que se pode extirpar com a facilidade de que fala o cirurgião Mário Soares, quase sem anestesia e sem necessidade de convalescença. Pior ainda se puder pensar que a doença se localiza apenas ao nível dos balneários e das salas de imprensa dos estádios de futebol e que, por isso, é passageira e está temporalmente localizada. Não minimiza o abcesso nem reduz o inchaço supor que o problema se pode ultrapassar com a mudança do regime alimentar dos senhores da Costa, Vieira ou Veiga que, desde sempre, nunca se afirmaram como frequentes consumidores de chá nem como súbditos da rainha Victoria. Vai mal porque está redondamente enganado!
Ainda há momentos um chamado fórum diário da TSF lançou na arena o deputado Arons de Carvalho e o jornalista Mário Crespo. Como duas mulheres de soalheiro ou, com o devido respeito, duas varinas de canastro à cabeça, transbordando de petinga, e mão ameaçadoramente na cintura. Este país é uma vergonha em que nos limitamos a eleger democraticamente pequenos ditadores a que nem chega o ridículo de Chaplin. Aprendizes de feiticeiro que se cultivam a ver o burro da quinta das inutilidades e a ler a filosofia política de Thomaz e de Pinochet. Deus nos ajude a vermo-nos livres deles, porque a vontade, infelizmente, está visto que nos não basta.
A pretexto de apenas ser o governo que responde perante o eleitor - como se o governo respondesse perante fosse quem fosse, ainda por cima perante o coitado do eleitor! - o ministro Sarmento começou a anunciar ontem as suas futuras funções de director de programas da RTP. Em regime de acumulação e a bem do inestimável e apregoado serviço público. Tocado pela varinha de condão o ministro é premonitório e desde logo assegura o contraditório antes dele ser necessário ou mesmo desejado. Princípio tão elevadamente caro ao seu colega de governo, não sei quê da silva, temente a Deus, a Nossa Senhora de Fátima e à cabala, tenha esta origem objectiva ou subjectiva. Com um tiro abatem-se dois melros e não há, mesmo entre os portadores de licença de caça, mais exímio caçador.
Mas é preciso estar-se atento à forma como dispara e para onde dispara o ministro-caçador. Porque aparentemente quer fazer disto tudo uma coutada apenas sua, para onde convida familiares, amigos e apoiantes a troco de uma visita ao oceanário. Para depois se reunirem todos à volta da mesa a empazinar-se de cozido à portuguesa, emborcar garrafões de vinho e deliciar-se no doce pastoso do pudim. Caçador assim, ainda mesmo que introvertido e solitário, já se não via desde o tempo do Dr Salazar. E, por mim, não há saudades nenhumas!
Ouço numa qualquer emissora de rádio, daquelas que o destino e o marketing, para mal dos nossos pecados, põem sempre perto de nós, que na Europa apenas os trabalhadores da Eslováquia descontam mais do que os portugueses quando se encontram doentes. Quer dizer, recebem menos comparativamente com o que lhes é pago quando estão sãos como um pêro de Alcobaça.
No caso português isso nem comove nem preocupa. O português é, por ascendência e pedigree, mais do que saudável. Habitualmente nasce escorreito, mesmo que numa ambulância que presumivelmente se encaminhava com a mãe, em trabalho de parto, para uma maternidade ou um centro de saúde. Não padece de doenças congénitas e é temente a Deus como muito bem recomenda aquele italiano que o Dr José Barroso quer como comissário. A tísica foi um problema de saúde pública, foi quase extinta com a repressão que lhe foi movida pelo estado novo, está mais ou menos de volta sem que se possa dizer que tenha voltado a ser problema que roube espaço à importância da habilidade para a horticultura da D. Cinha.
Mesmo não sendo muitas vezes incluídos nas estatísticas, os casos de sida são diminutos. Ainda que os portugueses, por convicção e patriotismo, não utilizem preservativos. Melhor do que isso: abstêm-se! Não caiem nas calçadas, não metem os pés nos buracos das ruas, não têm nevralgias com o dia de S. senhorio ao dia oito e os hipermercados do engenheiro Belmiro, avisadamente, não vendem a crédito e não aceitam cheques que não sejam visados.
O português é tão saudável que o ministro da saúde reduz a comparticipação nos medicamentos, o Dr Cordeiro acha que as farmácias acabarão a vender revistas do coração e a aceitar apostas do totoloto e a fasquia para ingresso nas faculdades de medicina é intencionalmente alta para prevenir o desemprego futuro. Os poucos jovens médicos que terminam o internato alistam-se nos médicos sem fronteiras e viajam pelo mundo a prescrever vacinas contra a febre amarela e gotas para o nariz.. Os hospitais não têm listas de espera, a não ser de médicos à procura de primeiro emprego ou de um contrato a prazo por seis meses. Mesmo a limpeza é realizada por empresas externas e, pior do que isso, há muito pouco para limpar. Os doentes portugueses são poucos, recebem mal e são exemplarmente asseados.
Só por isso e só agora, por ironia do destino, descubro porque se usa dizer "vai morrer longe". Em Portugal, com tão resoluta saúde, é de facto difícil morrer-se. Como na Eslováquia, somos uma sociedade saudável que não necessita de grandes subsídios quando adoece. Apenas porque não adoece!
Mas ao desporto como escola de virtudes converti-me sem grandes dificuldades e quase nenhuma resistência. Os colegas que mais cresceram jogavam voleibol, os que namoravam as miúdas mais giras eram uns artistas na patinagem, os que mandavam maior capado desde cedo eram praticantes de andebol. Os outros quase que se limitavam a ficar com as miúdas que sobravam, nunca chegaram a calçar mais de trinta e oito e dificilmente ultrapassaram o metro e setenta de altura. Alguns fizeram uma coisa que se chamava exame de aptidão, matricularam-se em universidades, concluíram cursos superiores. Casaram-se invariavelmente com raparigas de um metro e cinquenta, acne persistente na face, tendência prematura para a obesidade. Quase sempre se divorciaram, arranjaram namoradas, frequentaram grupos onde apenas se jogava o gamão.
Mais recentemente, em moldes modernos, quando as pessoas se deslocam de metro e os árbitros usam apitos dourados, o major Loureiro convenceu-me que o futebol era um desporto que fora promovido a indústria - quando inquiri que produtos fabricava responderam-me que isso não era pergunta que se fizesse mas que, de qualquer modo, eram os resultados! - e que era perfeitamente exemplar. Como desporto e como indústria.
Os clubes não devem nada ao Estado, os dirigentes desportivos são a nata da sociedade civil, os estádios são frequentados pelas mais distintas figuras públicas e pelos mais renitentes rufias da pedreira dos húngaros e do bairro do lagarteiro. Não duvidei, tão pouco pus em dúvida. Se quem o afirma é o homem que é, a quem se não conhece um só emprego mas muitos, ainda por cima militar de carreira com patente superior a furriel, é para acreditar.
E a semana passada foi, em cada dia, um reinventado exemplo disso com a lenha que se foi juntando para a fogueira que ontem ardeu no estádio da Luz. E que apenas começou com alguns quinze minutos de atraso embora depois, para compensar, se tivesse prolongado pela noite dentro e pelos dias que vão seguir-se. Foi comovente que os festejos tivessem sido extensivos às mulheres, filhos, namorados e amigos dos dirigentes corporativos que usam gravata, vestem fato e não precisam do futebol para nada, nem sequer para viverem. A Liga e o major decerto reafirmarão a exemplaridade sensata do futebol profissional, embora ainda o não tenham vindo dizer, seguramente devido a outras ocupações.
Por mim, há muito me fiz adepto fervoroso dos Onze Bravos do Quinzau, que passados quinze minutos de jogo já eram quinze. Porque todos queriam jogar para ganhar e a única batota que conheciam era esta.
Ao que parece quinta-feira passada o gabinete do primeiro ministro emitiu um comunicado para informar que face à sua ida ao parlamento nesse dia e ao ponto em que se encontrava a preparação da proposta do Orçamento do Estado, não estavam criadas as condições para que, nesse mesmo dia, pudesse estar presente no jantar que o presidente da república oferecia em honra de Joaquim Chissano, presidente de Moçambique. Em duas palavras dizia que não ia e, como razões, poderia ter também apontado uma qualquer nevralgia ou uma unha encravada.
Mas nessa noite esteve presente na Moda Lisboa, uma solenidade em que o estado a que isto chegou deveria fazer representar-se. Por se tratar de uma rara manifestação cultural a que já antes tinha aderido a memória do senhor Bocage e a sensata senilidade do senhor José Vilhena. Cautelosamente nenhum convite tinha sido dirigido ao senhor Saramago, evitando qualquer embaraço que o seu evangelho ainda pudesse causar aos descendentes políticos do senhor Sousa Lara.
Depois Chissano é um dirigente africano, negro e careca, a fazer a sua última viagem de circum-navegação, antes de abandonar o cargo por força de uma constituição que, agora, os países de África também usam. Com um discurso de comunista convertido à doutrina do senhor Luís Delgado, com a foice e o martelo na lapela e uma fotografia do Papa a espreitar-lhe do bolso do casaco. Desinteressante! Nada que pudesse comparar-se com as raparigas que percorrem a passerelle, de pernas ao léu, maminhas provocantemente arrebitadas, o olhar fatal de quem mata. As sensaboronas obrigações do estadista às vezes também têm contrapartidas!
Com a globalização e o mercado único surgiram como extraterrestres as santanetes, produzidas na China, vendidas em série nas lojas dos trezentos e um euro, reflectindo já a queda dos preços que a moeda única trouxe para benefício de reformados e beneficiários do rendimento mínimo, como os futebolistas desempregados da segunda divisão.
Agora o neo liberalismo do carapau e da serra da Arrábida deslocaliza a cova das Beiras, encerra as minas da Panasqueira, cria anticorpos nos Olivais e na Gomes Teixeira e o marketing, criativo e incansável, lança no mercado as socranetes. Mini saia, perna ao léu, meia de vidro, sapatos da Charles comprados nos saldos com cartão.
Qualquer dia, com papel higiénico e água corrente - já privatizada para reduzir o défice e equilibrar o orçamento - ainda um qualquer ismo importado das Américas há-de ter a sua quota de mercado nas retretes.
Uma nova novela teve ontem, em S. Bento, o primeiro episódio. Sócrates, com o apelido de um dentista brasileiro antigo campeão do mundo de futebol, anunciou com arrogância o primeiro confronto com Santana Lopes. Esqueceu-se que sempre que se fala de confrontos o país se estigmatiza na ideia de um ringue e na figura do Sr Tarzan Taborda, aos urros, calçando botas de cano curto e envergando à cintura uma pele de leopardo cobrindo-lhe as nádegas e as vergonhas. E na vítima do combate, um qualquer brutamontes mongol, de cabeça rapada, olhos em bico e bigode curto com corte descaído como se fosse uma papoila descolorida e murcha. Sabendo, sempre, que a questão será resolvida à tapona, em cima do estrado, contra as cordas, atropelando o juiz, invadindo o espaço reservado às cadeiras e aos assistentes das primeiras filas.
Depois Sócrates apresenta-se penteado, de equipamento novo, com o nome gravado nas costas da camisola e exibindo, orgulhoso, a braçadeira de capitão de equipa. Tomando uma pequena parte pelo todo e referindo que foi eleito, mas esquecendo-se que a grande maioria dos que pagam bilhete não foi tida nem achada no assunto e que, mesmo daqueles que votaram, o voto de uns vale mais do que o voto de outros. Sendo engenheiro civil entra no jogo como ajudante de trolha, tentando jogar como extremo esquerdo cujo pé canhoto é cego de todo, sem habilidade e sem treino. E, como se sabe, os seis milhões de adeptos do Benfica não elegeram o Sr Luís Filipe Vieira, como já não tinham eleito o Sr Manuel Vilarinho.
Até o original Anacleto estranhou que, tendo-se o hemiciclo transformado em galinheiro, nenhuma galinha tivesse posto o ovo entre dois cacarejos e apenas um bezerro tivesse surgido no meio do curral, cambaleando, procurando o tabuleiro da ração ou o fardo da palha. A desesperança, todavia, vem do facto de se anunciar a dicotomia numa luta de galos de aviário entre os quais a maior diferença é a exactidão com que são rigorosamente iguais. Na marca das roupas, no vazio de ideias, nos agradecimentos aos Srs Machado de Assis e Camilo Castelo Branco pela remessa dos seus últimos êxitos literários. Estamos feitos!
Saiu depois de três dias de recolhimento, os olhos encovados, a barba por fazer, o pouco cabelo em desalinho. De todo faminto e meio desidratado proclamou: não vai haver eleições para a câmara, vou negociar com os irresponsáveis e apresentar de novo o projecto à vereação. Que grande novidade, até a Rua Escura já sabia!
Por um lado legaliza-se a venda de bebidas alcoólicas e carrega-se cada litro de cerveja com impostos. O orçamento fica, portanto, ansioso à espera da cobrança. Depois proíbe-se a venda a menores de 16 anos e obrigam-se estes a socorrerem-se de intermediários se houver quem, ao abrigo da lei, lhes recuse a venda e o consumo. Finalmente divulgam-se as estatísticas a revelar que os jovens, indistintamente do sexo e cada vez mais da idade, bebem em excesso, embebedam-se, recorrem aos serviços de urgência dos hospitais em coma alcoólico.
Por um lado legaliza-se a venda de tabaco, faz-se das respectivas empresas unidades de rentabilidade assegurada, impõe-se a cada cigarro o peso fiscal que, apesar do preço, o consumidor nem sequer imagina. Obriga-se a que cada maço de cigarros ostente dísticos ridículos em letras gordas: o tabaco mata. O orçamento, ávido, fica à espera da cobrança, os hospitais dos doentes, os cangalheiros dos mortos. Em alguns casos os marmoristas hão-de trabalhar campas e gravar lápides, as autarquias vender sete palmos de terra a preços da Avenida dos Aliados. Depois proíbe-se a venda a menores de não sei quantos anos que, mais uma vez, ou se socorrem de intermediários ou, como se diz na gíria dos fumadores, vivem da crava. No caso da venda lhes ser recusada e do comerciante abdicar dos sete por cento de comissão.
Portugal segue feliz e contente, com sete a um à Rússia, incontinentes benefícios do neoliberalismo e da globalização. Desenrascando, contornando, pervertendo!
Pretendia-se ir acompanhando o dia a dia do país, cada vez mais nu, cada vez mais pobre, cada vez mais sem respeito e sem princípios. Apesar disso seguindo arrogante e convencido, agrilhoado ao fatalismo atávico da ignorância e da falta de cultura. A única forma de lidar com tal realidade é com ferros curtos, escarnecendo e vestindo de ironia e de sarcasmo cada facto e cada personagem.
Desiderato difícil, desiderato não conseguido. A ironia e o sarcasmo são, definitivamente, trabalho de grupo. E o Placard segue pelo tempo como nasceu: apoiado numa só cabeça, servindo-se de apenas duas mãos e utilizando um único teclado. Mesmo assim este é, segundo rezam as estatísticas do site anfitrião, o post 740. O que denota a regularidade com que foi mantido, à custa de largo esforço muitas vezes, sem nenhuma piada quase sempre.
Será que nestas circunstâncias se justifica que prossigamos? Para já e por enquanto a resposta é sim. Enquanto formos inventando horas e pensando que as verdades mais dolorosas são as que se denunciam à gargalhada. Difícil é que as pessoas riam da desgraça. E muito mais difícil é que aceitem rir-se de si próprias.
Tento conciliar - e compreender! - o facto do Ministério da Saúde anunciar que espera empresarializar - palavra cujo significado não conheço e para o qual não há dicionário que me ajude - mais 30 hospitais até 2006 com o facto do Grupo Mello manifestar o desejo de metade do serviço nacional de saúde estar nas mãos de privados até 2010. Estamos disponíveis para salvar o sector da saúde, introduzindo-lhe maior competitividade, foram as palavras de Salvador de Mello durante um almoço com jornalistas.
Um salvador, obviamente, só pode salvar seja o que for que o destino lhe faça cair em mãos. Por mim não elegia, por mim nomeava um salvador para cada lugar e para cada coisa, precisasse ou não de ser salva. Mesmo contra sua vontade, se esse fosse o caso e a GNR tivesse efectivos para isso, mesmo que regressados do Iraque. Para a junta de freguesia, a assembleia municipal, a vereação, o parlamento e o Estoril Praia que José Veiga acaba de trocar por libras esterlinas, ao arrepio da moeda única.
E aumentava a competitividade salvando mais depressa, mais barato, sete dias por semana, com recurso ao trabalho precário, aos contratos a termo, às horas extraordinárias voluntariamente impostas e livremente não remuneradas e utilizando o "outsourcing" - outra puta de palavra que só é gíria na quinta dos ramelosos -, o ácido acetilsalicílico e o bisturi eléctrico. Sobrando energias, porque tanta solidariedade também cansa, mandava levantar uma estátua gigante ao salvador na outra margem, em Almada, quatro vezes mais alta do que o Cristo Rei. Porque salvador e benemérito nunca foram tão sinónimos!
Malhas que o império tece. Por eventual excesso de zelo e com intenções premeditadamente políticas, não jaz morto mas arrefece um município da Madeira que acaba de ficar, de repente, sem ponta de sol. O apóstolo que garante a evangelização dos ímpios e a purificação das almas denunciou o acto e assegura que os responsáveis, a serem descobertos, serão severamente punidos e as almas condenadas às penas do purgatório. Por mais que se aproxime da santificação e do convívio com santos e beatos, com ele ninguém brinca. Vão ficar pendentes, por mais uns tempos, os delitos por excesso de desmazelo. Sem castigo e sem contraditório. Parece que não têm revestido propósitos políticos!







terça-feira, 12 de Outubro de 2004
Pedido de desculpas
Por tudo o que foi dito, pela minha imprudência, pela piada de mau gosto e pelo péssimo exemplo que dei ..... a todos, peço desculpa.
O gesto dado foi impensado descredibilizando-me perante todos. Talvez me dêem outra oportunidade, talvez não, só tenho que aceitar as consequências de tão irreflectido acto.
Uma vez mais, as minhas desculpas.
[Permalink] 14:49 | Publicação: Deputado CARLOS RODRIGUES | Comentários (0) | 'Trackback/Pingback' (0)
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Com o avançar da idade e o crescimento da conta bancária Herman José, de há muito, perdeu a graça julgando ter ganho credibilidade. Ao invés, Alberto João Madeira mantém a credibilidade e vê aumentar a graça do que diz e a facilidade com que diverte as pessoas.
Uma das suas últimas e brilhantes ideias foi contratar o circo Cardinali para palco da campanha eleitoral que decorre na região. Onde há dias entrou para pronunciar um dos seus 48 discursos diários, todo escarrapachado em cima de um elefante, não se sabe se em cuecas se em fantasia de carnaval. Para depois afirmar:
Basta de gente ridícula aqui na Madeira! É preciso pô-los fora! Vamos fazer disto um sítio decente.
De facto! Ridículo mesmo teria sido a entrada do elefante montado no Alberto João, com o orçamento regional a suportar os custos da contratação e Jaime Ramos a rir à gargalhada e a bater palmas até lhe doerem os dedos. O que me desencanta na política é exactamente isto: a seriedade com que se faz, a forma como leva as coisas a sério, todo o muito pouco respeito que me merece.
Santana Lopes, envergando o fato do primeiro casamento, usando óculos de quem tem a vista cansada como as operadoras de caixa do Continente, cabelo puxando para trás deixando a descoberto pronunciadas entradas que conferem alguma respeitabilidade apesar do gel, falou ao país. Fê-lo sem recurso ao teleponto, lendo durante mais de dez minutos um texto escrito em folhas de papel branco como qualquer aluno leria a lição do dia se houvesse professores colocados e a sua escola funcionasse normalmente.
Deu à comunicação a mesma dignidade que lhe daria qualquer sindicalista regional ou o vogal de qualquer associação de comerciantes concelhia do interior. Nitidamente não percebia o que significavam os números que pronunciava nem isso era importante. Fez a apresentação pública do orçamento de estado e, como pároco de turno, indicou ao hesitante eleitor insular o sentido de voto para o próximo domingo. Conteve-se e não se aventurou a fazer prognósticos sobre o Benfica - Porto do próximo fim de semana. Por pudor não referiu sequer as ajudas materiais que o país recebe em bananas da Madeira e queijos de S. Jorge.
Enumerou tudo o que o seu governo já fez e decidiu em menos de três meses, trabalhando vinte e quatro horas de dia e outras vinte e quatro de noite como, no passado, sugeriu Samora Machel. Culpou de tudo os governos que antecederam a feliz coligação em que o seu gabinete tem reduzido o desemprego à razão de treze unidades por dia e, sobre o arrendamento urbano, ameaçou excomungar António Salazar e a sua governanta, D. Maria. Não prometeu para já a descoberta do caminho marítimo para a Índia, mas certamente chegará ao Brasil, fundará cidades, construirá igrejas e evangelizará o gentio. Este país há-de cumprir seu ideal!