
Houve este mês um pânico patriótico...
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Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos marinha! Nós só temos marinha pelo motivo de termos colónias - e justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos marinha! Todavia a nossa marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento. Gasta 1.159.000$000!
Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras? Uns poucos de navios defeituosos, velhos, decrépitos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre, a mastreação carunchosa, a história obscura. É uma marinha inválida. A D. João tem 50 anos, o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos.
A Pedro Nunes está em tal estado que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever. O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes - mas não pode pedir troco.
A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar. Os oficiais da marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais. A Mindelo é um esquife - a hélice.
A Napiersaiu um dia para uma possessão. Conseguiu lá chegar; mas exausta, não quis, não pôde voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o Sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier insensível, como morta, não se mexeu.
Das oito corvetas que possuímos são inúteis para combate ou para transporte - todas as 8. Nem construção para entrar em fogo, nem capacidade para conduzir tropa. Não têm aplicação. Há ideia de as alugar como hotéis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas disfarçadas! E este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas!
Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor pelo respeito da idade. Quem ousaria atacar as cãs destes velhos?
Como nunca se sabe aquilo que se pode esperar de holandeses - basta que se recorde Luanda a quem acudiu Salvador Correia de Sá! - o ministro mandou avançar duas corvetas para o limite das águas territoriais. Que logo largaram do Alfeite com um marujo à proa a largar corda braça a braça, até ao rigor das 12 milhas, nem mais uma polegada. Chegadas ao local estenderam na crista das ondas uma clara linha de fronteira em fio de pesca. Enquanto volteavem em círculo, vigilantes e atentas, com o comandante na ponte de comando bufando forte e grosso para um megafone avisos previdentes e sensatos. As peças de artilharia armadas, apontadas ao bojo do navio invasor e os marinheiros no convés, assestando armas, prontos para a abordagem, sem arredar pé, nem para mijar. Enquanto isso, envergando farda de almirante, o ministro apresentava-se nos estúdios de uma televisão de subúrbio, acompanhado de trinta e oito calhamaços de direito marítimo e mais onze pareceres jurídicos subscritos pelo ministro do ambiente. Porque nem o comentador das noites de domingo nem o assessor das gasolinas são juristas em que um ministro possa confiar, mesmo abrindo os cordões à bolsa no que respeita a honorários.
Para lá da linha, severamente mantido em respeito, o barco invasor balouça ao sabor das ondas com a numerosa tripulação alinhada na amurada. Nada menos que seis marinheiros disfarçados à civil, dos quais três travestidos de mulheres. Para o embuste, tentando simular um cavalo de Troia, a ver se pega!
Investido nas funções de primeiro ministro Santana Lopes aproveitou as passagens de borla para vir ao Porto. Como se sabe nunca antes tinha estado a norte da Figueira da Foz e, mesmo assim, de passagem, mantendo gabinetes para despacho na linha e nos estúdios da RTP. Aproveitou e fez-se acompanhar da comitiva composta por ministros, chefes de gabinete, assessores, secretárias e contínuos, assim no género de uma excursão de freguesia do alto Minho a Fátima, para assistir à missa na capelinha das Aparições e participar na procissão das velas.
Reuniu o ministério onde já antes, por remniscência ultra esquerdista tinha também reunido o governo de José Barroso, também conhecido por Durão Barroso. No tardiamente reconstruído palácio do Freixo, obra de Nasoni, onde a câmara do Porto investiu, ao que se diz, cerca de dois milhões de euros. Para depois o deixar encerrado, sem utilização e sem préstimo, com as plantas do jardim a secarem e a humidade do Douro a aventurar-se de novo contra tectos e paredes. A fazer pensar que melhor teria sido investir o dinheiro na aquisição de mais um sarrafeiro para o ataque do Boavista.
Quis Santana reservá-lo para uso do governo. Sempre haveria um local fixo para a pernoita, fora da muralha fernandina para lá da qual, como se sabe, a permanência de forasteiros sempre foi fortemente condicionada. Além disso, localizado à beira rio, o palácio permitiria no futuro que todo o governo, triunfante, subisse o Douro desde o cabedelo no convés de um dos submarinos do ministro do mar, obtida que fosse a concordância do secretário de estado dos rios, ribeiros e outros cursos de água, excluindo esgotos e outros resíduos. Coisa inaceitável que nada estranha, Santana queria que tudo fosse de graça, como as viagens dos deputados e acompanhantes. Rio, que não o Douro, não pôde concordar com a desonesta proposta. Porque a câmara tem presidente e vereadores, chefes de gabinete e assessores, contínuos e motoristas a quem paga acima das tabelas para manter a motivação, assegurar o voto e prevenir as greves. O governo, por mais querido que fosse, tinha que pagar renda. O governo, natural e justamente, entendeu que isso iria abrir um perigoso precedente e seria o primeiro passo para que, de futuro, se lhe viesse a exigir que também pagasse outras contas a outros credores. O que não cabe na cabeça seja de quem for, por mais ministro ou secretário de estado que seja.
Além disso não é que o governo exigisse as louças de Limoges, os dourados das torneiras ou as tapeçarias de Arraiolos que, a bem da cultura, um qualquer coisa Carrilho mandou filosoficamente instalar na câmara de acesso ao seu gabinete, quando ministro. Mas nestas coisas, como noutras, nem oito, nem oitenta. O palácio do Freixo apenas dispõe de duas casas de banho, localizadas na cave. Sendo morosa, arquitectonicamente desaprovada por Siza Vieira, e exigindo projecto de engenharia de Segadães Tavares, a possibilidade da deslocalização foi posta de lado. E o palácio do Freixo foi recusado para sede nortenha do governo, face à exigência de renda e à falta de sanitas. De facto seria inconcebível e inaceitável que o gabinete se reunisse no piso superior e que, de repente, a meio de uma discussão mais acalorada, um qualquer ministro com mais ideias sobre o futuro do país e o bem estar dos eleitores, fosse instantaneamente acometido por violentas dores na tripa e corresse o risco de não ter tempo para descer à cave, desapertar o cinto e arrear as calças. Podendo ainda deparar-se com uma bicha - sem segundas, terceiras ou mesmo quartas intenções! - de utilizadores que o tivessem antecedido e que fossem portadores de senha com número mais baixo para apoiarem as nádegas na tábua.
E, como se sabe, as diarreias não têm respeito por nada nem por ninguém. Nem mesmo por quem, injustamente, se vê assim afectado de forma imprevisível e sem aviso. Nomeadamente aquelas que, à conta da contínua torrente das ideias, cientificamente se designam por diarreias cerebrais.
Não um, não dois, nem sequer cinco ministros apenas. Mas todo o governo - exceptuando o chefe ausente para vacanças nas baleares, de barriga ao sol na companhia de empresários espanhois - enfatiado domingueiramente se perfile em bicha fila a montante da Torre de Belém a ver passar navios e se assegure que nenhum deles leva a bordo, como contrabando, nenhuma pílula contraceptiva ou outra, por menor que seja. O ministro Portas seja louvado!
Em Portugal, é da história, das enciclopédias e dos almanaques que os tomates faltam sempre quando mais se necessita deles. Seja pelo sumo natural para os que o apreciam, seja até pelas saladas em que se incluem nos dias quentes de Verão. Conjuntamente com os pimentos, a alface, a cebola e os pepinos. Pois sem tirar nem pôr o título, com a devida vénia, é retirado da edição de hoje do jornal Tal & Qual, de um texto de Ana Músico - até o nome, até o nome! - que começa assim:
Os tomates portugueses arriscam-se a apodrecer na terra por falta de escoamento do produto nas fábricas de transformação quando, depois de dois anos de más colheitas, a campanha deste ano prometia repor os níveis perdidos.
Tudo, como sempre, cprresponde ao que foi suposição nossa. Apenas nos faltava era esta. Que depois de dois anos de más colheitas - só? - a deste ano corresse o risco de apodrecer por não sermos capazes de a aproveitar. Poderá o governo ou o nosso primeiro-ministro fazer alguma coisa para que se não desperdice, em benefício do progresso do país e do aumento da auto-estima dos portugueses, a boa a rara colheita de tomates nacionais? À consideração!
Quase uma semana depois as hostes do glorioso Sport Lisboa e Benfica continuam, com a melhor das boas disposições e o mais elevado dos optimismos a celebrar o apuramento para a Taça Uefa. Salientando que, como se viu no jogo de Bruxelas contra o Anderlecht, o Benfica não deu, quanto à possibilidade dessa qualificação, a menor das hipóteses aos belgas. Nunca estes, nem de longe, nem de perto, estiveram em vias de garantir a qualificação para a citada competição. Pois!
Mas por todas as razões, menos uma, tenho de alinhar neste de forma consciente e benemérita. A razão de sinal menos é, obviamente, a do Dr Rio, também meceredor de peditório em noite de S. João. Para melhorar o poder de fogo sobre Gaia, melhorar o guarda-fatos e permitir à Câmara do Porto a aquisição de um automóvel novo em que dignamente possa fazer-se transportar. E, se sobrar algum, atribuir um justo e generoso subsídio ao clube dos quadradinhos que permita manter como treinador principal o intelectual Jaime Pacheco, dileto discípulo do mestre poncha da Madeira. Sistematicamente queixa-se o Dr Menezes de não ser um cidadão que possa apresentar-se ao serviço andrajoso e mal vestido, a receber os munícipes que o elegeram com o cabelo eriçado, a barba por aparar, a camisa queimada nos sovacos pela química dos desodorisantes e as sapatilhas rotas como aquele atleta que o país mandou para Atenas à conquista de medalhas. E tem razão! Precisa de mais fatos, com a etiqueta Rosa e Teixeira aplicada em lugar visível, gravatas decentes e alguns pares de sapatos mais. Não precisam de ser tantos como os que a Catarina Furtado arruma debaixo da cama e que ocupam quase todo o fim de semana ao João Gil com a caixa da graxa na mão, sentado a um canto da varanda. Portanto, neste peditório, alinho. Tão generosamente como mo permitem os nossos ministros das finanças, a descer as taxas do IRS até perigosos níveis de afundamento e da saúde a manter-me saudável só de pensar que, graças a ele, mal se dá pelo começo da doença já se está nas termas a convalescer da operação. Além disso, para andar mal vestido, de simples bata branca sobre a reduzida tanga a ver-se-lhe à transparência, tinha o Dr Menezes continuado no hospital, como médico, a receitar aspirinas e a subscrever certidões de óbito. Aqueles a quem doía a cabeça nunca olharam para a forma como se vestia e os outros pura e simplesmente sempre persistiram em alhear-se de tudo. Neste momento, por exemplo, preocupa-me a forma como o Dr Menezes andará vestido pelas ruas do Mónaco, com todas aquelas princesas à solta, invejando-lhe a trigueirice cigana e cobiçando-lhe o apregoado desempenho de macho latino. Parecendo mais malucas que princesas. Porque a supertaça europeia é só amanhã e, nos entretantos, um homem não é de pau.
Assessor de Rui Rio tem ordenado superior ao do Presidente da República. Pois, e daí? A mui nobre, leal e sempre invicta cidade do Porto não é, com o devido respeito, a segunda cidade do Biafra. É, com muito orgulho e o perfeito domínio do futebol profissional nas últimas duas décadas, a segunda cidade deste imenso Portugal que ainda há-de cumprir seu ideal. Membro, de pleno direito, da pujante União Europeia, liderada pelo também insuspeito José Barroso, também conhecido por Durão Barroso, actualmente com gabinete em Bruxelas e casa de praia no barlavento algarvio. Que há-de ser dentro de dez anos, segundo em tempos se decidiu em Lisboa, o maior e mais competitivo mercado do mundo, incluindo o Afeganistão, o Bangladesh e a Palestina.
Parece que até há uma disposição legal qualquer a fixar o ordenado do Presidente da República em 6.879,94 euros, - o equivalente a cerca de 1.380 contos - ou seja cerca de 19 salários mínimos nacionais. Parece também que esse mesmo dispositivo estabelece os ordenados dos profissionais da política em função do do Presidente da República, também por vezes designado eufemisticamente por mais alto magistrado da nação, apesar da estatura meã. Parece ainda que ao abrigo das mesmas disposições legais o presidente da Câmara Municipal do Porto ganha actualmente 3.793,87 euros, - o equivalente a cerca de 760 contos - ou seja pouco mais de dez salários mínimos nacionais. Parece!
Porque o benemérito Rui Rio trabalha afincadamente para que no fim do mandato lhe erijam estátua no Passeio Alegre e lhe dêem o nome a uma travessa qualquer do Bairro da Pasteleira. Não quer nada para si, tanto que prefere dá-lo aos outros. O seu chefe de gabinete, por exemplo, ganha 7.242,84 euros, - o equivalente a cerca de 1.450 contos - ou seja cerca de 20 vezes o salário mínimo nacional. O que, se a aritmética não for uma batata importada de Espanha, permite concluir que ganha cerca de duas vezes mais do que o patrão. O que acaba por ser um precedente perigoso, caso os activos sindicatos que enxameiam o labirinto laboral se venham a aperceber da situação. E exijam ao engenheiro químico dos hipermercados que passe a pagar a cada operadora de caixa mais do que ele próprio leva para casa ao fim de cada mês para sustentar a mulher e educar os filhos.
Por mim, no mínimo, fico intranquilo com a situação. A menos que o ideólogo Luís Delgado venha a dedicar ao assunto, por um destes dias, a elevação do seu pensamento e a profundidade da sua escrita. No sentido de me esclarecer e mais do que isso para me restituir a tranquilidade. A ver se alivio o ministro da saúde da sua esforçada e dispendiosa comparticipação no famigerado Xanax com que adormeço.
Só ao sábado? Só ao sábado?? E eu que chego a cada dia a sentir-me muito mais f... do que no anterior. Ou é defeito meu ou é influência do governo. Vou nomear uma comissão de inquérito: rápida, isenta e credível. A começar pelos honorários, que serei eu a pagar-lhe!
Graças a Deus que está salva a honra do convento e recuperado o orgulho nacional ou a auto-estima para usar termo mais adequado a estes tempos modernos. Há dois dias atrás, depois de três jogos disputados, duas derrotas sem espinhas, três expulsões e a eliminação tardia eu próprio salientava que a comunicação social havia sido eliminada do torneio olímpico de futebol. Porque a comunicação social trata todos os assuntos como se estivesse a vender detergentes e com o mesmo rigor milimétrico que, a olho nu, se pode determinar a distância da Terra à Lua.
O país está cada vez mais assim: convencido do que não é e arrogante como não pode. Sai à rua com as solas dos sapatos rotas, a meterem água neste Agosto de chuva intensa e lágrimas esparsas, não se cansando todavia de apregoar que foram importados de Itália. Mesmo que tenham sido feitos algures, numa qualquer fabriqueta de Felgueiras. Exibe roupas caras de Armani, como se fosse o José Castelo Branco mas, por baixo, não usa nem tanga nem ceroulas, ou trás as cuecas borradas.
Não vale a pena invocar o Euro 2004. Se o país não aprendeu grande coisa em nove séculos de história não se pode esperar que o tenha aprendido em curtas duas semanas, com a Grécia a atravessar-se-nos no caminho por duas vezes de forma decisiva. Os nossos jovens partiram para as olimpíadas envergando uniformes desenhados por caros estilistas, de gravata ao pescoço e de colarinho desapertado, para cumprir calendário. Se se pudessem arrecadar as medalhas por correspondência teriam certamente participado a partir do Algarve, dominados os incêndios, enquanto petiscavam amêijoas à Bulhão Pato e se encharcavam em copos de cerveja.
As representações nacionais podem pecar por falta de qualidade e por excesso de convencimento. Mas nunca por reduzido número de elementos. Quaisquer dois atletas são desde logo escoltados por uma comitiva de uma boa dúzia de acompanhantes que, à borla, vão a sítios onde é difícil ir, mesmo com recurso ao crédito do Banco Espírito Santo. Se acaso se ganha alguma coisa - o que em regra é raro e imprevisível - toda a comitiva se atropela no desordenado monte que se forma para chegar ao herói, felicitá-lo, dar-lhe três beijos e um abraço, e ser convenientemente apanhado por uma câmara de televisão que leve as imagens até Marte e, com o devido respeito, até Sarilhos Pequenos.
Quando não se ganha nada - o que em regra é frequente e previsível - toda a escolta destroça e deserta, nem sequer conhece os intervenientes, apenas deu o seu afincado e patriótico contributo para que tudo corresse bem e os resultados fossem outros. Ainda agora com a olímpica selecção de futebol que fez um percurso de apuramento exemplar, tanto nos resultados como nas emotivas comemorações em que, pelo menos, terá deixado um balneário reduzido a escombros. Depois de justamente eliminada - a nossa querida televisão de serviço público diria tragicamente eliminada - os dirigentes apareceram para disparar em todos os sentidos, remota reminiscência dos livros de cowboys lidos no passado.
O sentido do interesse nacional, da manutenção do cargo, do ordenado e das mordomias a qualquer custo, felizmente, contribuiu para que Gilberto Madail - uma indefinível figura de meio homem, meio lobisomem - que superiormente tutela a Federação Portuguesa de Futebol, de conta e ordem do presidente da Câmara de Gondomar, tivesse resolvido a questão com a emissão de um comunicado que, tudo leva a crer, terá sido redigido por um dos gajos que moram por aqui. Para tanto bastou, como bastava, que pedisse desculpa aos portugueses que são uns sentimentalões que se desfazem em lágrimas por qualquer merda. Podes manter-te Madail, podes manter-te! E podes continuar a viajar e a pôr-nos os cornos à vontade que mantemos os braços abertos para acolher-te. Se te demites quem te paga o ordenado, as viagens e as pensões de cinco estrelas?
Derrotada, a comunicação social virou o bico ao prego com a mesma leviandade com que distribuira as medalhas antes da partida. E ainda com o último jogo por terminar foi classificando a participação portuguesa de vergonhosa e de outras coisas que o tento na língua impediu que dissesse alto. A comunicação social de facto foi esta tarde eliminada do torneio olímpico de futebol. Ontem já o tinha sido no torneio de judo para atletas até aos 81 quilos quando Nuno Delgado foi eliminado logo no primeiro combate. Ele, que segundo a RTP era aquele em quem os portugueses depositavam as maiores esperanças para a conquista de uma medalha. Acredito. Mesmo que não tenha ouvido nenhum a falar disso.
Só por isso se compreende - e se aplaude, a mãos juntas e até que doa - que o telejornal da nossa querida televisão de serviço público, pela boca da D. Fátima de Campos Ferreira, abra com o maior problema que afecta o país nesta quarta-feira, dia 18 de Agosto de 2004: o comunicado de três páginas do futebolista Luís Figo anunciando que vai fazer uma pausa na sua participação na selecção nacional de futebol. Se este é de facto o drama que impede o Dr Sampaio de ir de férias, que impõe ao Dr Santana um fugaz descanso de apenas cinco dias e que determina o regresso antecipado dos deputados a S. Bento, então não ficam dúvidas. Portugal é um paraíso e os portugueses, todos, são felizes.
Quanto a Luís Figo talvez se decida a interromper a pausa. Aos cinquenta e cinco anos. Para jogar com os netos!
Mais salgado do que insonso, tantos anos de trabalho queimando a vida e as pestanas. Para agora assim, acabar morto à má fila, às mãos sujas de um pequeno grupo de sacanas. Não chegam das duas mãos os dedos todos para contar os anos investidos. A escola primária, o rigor da professora, a força educativa da menina de cinco olhos e o exame brilhante, com distinção. O relógio de pulso ganho, dourado, a rebrilhar como se fosse ouro puro. Os parabéns do regedor, do abade e do padeiro. A vaidade, o orgulho, vale sempre mais ir à frente do que ser terceiro.
O liceu de seguida, os colegas novos e o primeiro namoro. Um pouco tarde, que o amor é às vezes fogo que não arde. Dificuldades nos exames, notas nem sempre altas, as saídas à noite e alguns copos. E já agora também uma ou outra bebedeira, não se diga que o vinho seja flor ou perfume que se não cheira. O triunfo e a chegada à faculdade para o curso de direito, o roteiro das repúblicas, a capa e o canudo. O orgulho da família e a festa que se seguiu, como se fosse no Entrudo. A opção profissional, mais tempo de estudo, a magistratura e a carreira.
O convite finalmente, anos passados, para cargo de destaque. Mais amigos, mais paródia e mais chatice. A carne é fraca e às vezes há coisas a que se não pode resistir. É uma vez sem exemplo, que se lixe. A imprevidência, a ingenuidade e algum desleixo. A conversa descuidada e telefónica com amigos ditos de Peniche. Vamos em frente, sem preocupações, que a ministra é fixe.
Não dá para acreditar, não pode ser que o director de uma tal polícia de investigação se sinta como gigante e aja como anão. E depois invente. Falou com o acreditado jornalista porque era amigo, casa comum, duas janelas e um postigo. Pelo telefone porque era o que tinha à mão, nunca lhe passou pela cabeça que a conversa pudesse ser gravada. Quanto mais roubada. Não foi tramóia nem desdita, foi cabala. Razão tinha o outro que o disse antes, sem dúvidas ou hesitação: foi cabala. Todo o mundo contra ele e os jornais, com a ministra demitida e os traidores habituais.
Quem acredita em fadas e varinhas de condão e consegue imaginar Salvado como cinderela de sapato perdido, arrastado pelo chão? Quem acredita em tão grande estudo para tão estranha ignorância? Quem acredita que lhe serve a ele o sapatinho que dá como perdido? Mais valia que, a ser assim, outra qualquer coisa, de preferência, tivesse sido. Ao menos cego, surdo e mudo. E já agora comedido!
A selva é esta, diária, de águas pútridas, cheiros nauseabundos e procedimentos de concurso público. Não a de Ossela, Oliveira de Azeméis, terras de cacau, domínios de coronéis. O reino é também este, o mesmo que, apesar de tudo, os fogos de Verão não consomem e que os aviões que o país não possui também não conseguem extinguir. Aquietem-se que em duas semanas chega a festa do avante e quanto aos submarinos hão-de vir.
O Verão e a canícula são propícios à ida a banhos, longe das cinzas dos incêndios e das concentrações de bombeiros em montes sem estradas e sem água e quando tudo acabar só fica a mágoa. Não favorece o Verão outra coisa sublime senão o descanso de não fazer nada, o empanzinar do almoço até às três da tarde, a sesta embalada ao som grave do trombone com que se ressona e a ida vespertina para a esplanada sobre a areia, a petiscar camarões da nossa costa e a beberricar umas imperiais até que sejam horas para o peixe grelhado do jantar ligeiro sob o caramanchão. E a noite então é que vai ser, uma, duas, três, quatro é que não.
Não é o Verão época que estimule a meditação como um qualquer convento de carmelitas descalças, onde se vive enclausurado, ao menos por essa via e por vocação ao abrigo dos perigos da selva e destes reinos de faz de conta. Seja a malta séria, atilada de todo ou mesmo tonta. Mas pode-se tentar, mesmo quando o facto político dominante é a forma como os iraquianos nos agradeceram o contributo que estes reinos deram àquele areal desértico a jorrar petróleo espesso e malcheiroso. Com quatro biqueiradas no cu, desde a Grécia, ao vivo e em directo como se já fosse o Zézé Camarinha agarrado ao utensílio naquilo a que a inteligência nacional e a academia de letras entenderam chamar a quinta-feira das celemerdades. Na piedosa clemência para com pessoas, doenças e outras enfermidades.
E então, depois de uma semana de insónias, noites mal dormidas, a cabeça a estoirar, febres de quarenta graus sem contar com os quebrados e sem ligar às contas do engenheiro, encharcado em comprimidos - puta que pariu o xanax! -, genéricos ou não, parece que é assim. Adriana Calcanhoto Partimpim.
Primeira argola olímpica
Um tal de Octávio qualquer coisa que, ao que se sabe, nem sequer é familiar de um outro Octávio malvado, eleitor de outra freguesia, plantador de fernão pires e malvasia e criador de frangos do campo, cumpre contrato de trabalho a termo certo numa coisa parecida com jornal, letras grandes na primeira página, princípios e rigor arquivados na sanita. Por intrometidos e empenhos, do abade ao sacristão, presença nas missas de domingo e comunhão, um sindicato laico e santo, com presidente de barbas longas como se apóstolo fosse, lhe reconheceu competência para que sem exame passasse a jornalista encartado como condutor de automóveis que atropela velhinhas nas passadeiras pintadas em cruzamentos. Em que atravessam burros, asnos e jumentos.
Vai daí atirou-se o tal de jornalista à selva dos reinos e ao reino das selvas que a ordem dos factores é obituária. Em grande superfície de 18 hectares ou menos, como a Quinta de Serralves, passou a comprar resistente gravador e quantas cassetes fosse a imaginação capaz de magnetizar ou des. Telefone em casa já tinha, sem nome na lista de assinantes por causa dos impropérios, das ameaças dos maridos encornados e da preservação da intimidade senão há até quem nos ligue a meio da queca, quando se está no bem-bom de todo e peca.
Ligou ao salgado, amendoins e castanha de caju vinda da beira-Índico, - Moçambique estraga-nos com mimos e tira-gosto! - eram tu-cá tu-lá, jogos de sueca sob a sombra de tílias centenárias em tardes de Verão, quem perder paga o almoço de domingo, porra. Então que dizes, apostas ou não? Disparou o gravador, foi puxando pelo cordel, cassete atrás de cassete, até perfazer algumas cinquenta horas - foda-se, cinquenta horas? - seguidas ou interpoladas, tanto faz que o contrato tem a duração de seis meses. Tanto tempo, nem tudo são trunfos, nem tudo serão revezes.
Encomendou material, montou fábrica, que cassete já não vende bem nem em Vandôma, muito menos às segundas-feiras na feira de Espinho. Por mais e melhor que seja o trabalhinho. Passou tudo a CD, tradução erudita e por extenso compact disk, foi produzindo em série para baixar o preço e aumentar a competitividade externa. Que a vida é só uma e quando menos se espera apaga-se a lanterna. Lançamento, pois! O sucesso, as sessões de autógrafos nas lojas da Fnac, sempre à hora de saída dos empregos, como se chama a menina, então lá vai, com muito carinho e um grande beijinho para a Mariazinha. Tantos de tal etc e coisa, assinado o próprio. Cumprimentos em casa, ao namorado e à tiazinha.
Giro de carteiro, solene e certo como antigamente, uma cópia na caixa de correio de cada redacção. Nada de descaminhos, tudo certo pois então. Já está, que alguém há-de ouvir a música, marcar o compasso e acompanhar-lhe o ritmo. Lavada a roupa, pendurados à janela os lençóis sob os quais Ney Matogrosso cantou, abrir a mansarda e gritar a plenos pulmões para o tráfego parado nos semáforos: fui roubado! Mas não pensem que mesmo assim venha a ser quilhado.
Meu dito, meu feito! Não há nada nem ninguém que me ultrapasse, sou definitivamente o maior, ainda posso brilhar como defesa central. O Ricardo Carvalho que se cuide, arranjei-lhe o contrato mas não lhe garanto a exclusividade do lugar. Nunca mais, até nova passagem do cometa Halley, conseguirá um presidente que tende a transformar-se no Alberto João das Antas, sob o meu comando, vencer a taça Uefa e a Liga dos Campeões. E, de seguida, encher os bolsos à custa das compras que, de saída, eu venha a propôr ao meu novo czar russo.
Eu vim de um mundo à parte do disparate, continuo a viver num mundo à parte do disparate e vou viver sempre num mundo à parte do disparate. Como um dos melhores deste mundo à parte do disparate.
Estou desolado com o meu horóscopo para a semana que vai de 13 a 19 do corrente. E ainda mais desolado me confesso quando vejo serem as previsões obra de Miguel Sousa, que não conheço, mas que tem um ar simpático e marialva, com um penteado à anos sessenta, sorriso enigmático e cotovelo apoiado com a mão a segurar o queixo enquanto o polegar lhe afaga o rosto. Não são visíveis nem o telenóvel nem as chaves do carro, mas a camisa branca, com a gola passada por cima da gola do casaco escuro desportivamente desabotoado, acabam por denunciá-lo. Deve pelo menos ter um Mercedes ou um Audi, ou até ambos, arrumados numa garagem espaçosa na sua moradia da Malveira da Serra. Tudo indica que tem preparado bem os seus próprios horóscopos. Quanto a mim, mesmo que se anuncie como o vidente das estrelas, manifesto-me desiludido e desapontado.
Ser do signo touro é assim como que uma fatalidade pela qual nem sequer sou responsável. Aconteceu. Nasci entre 21 de Abril e 21 de Maio, não houve o cuidado de antecipar as coisas o que faria de mim carneiro, nem de as adiar o que me rotularia de gémeos. Acontece que já na escola, por razões que nunca comprendi, as minhas colegas afivelavem um sorriso trocista, baixavam os olhos e depois, meio comprometidas e disfarçando o que podiam, afastavam-se de mim a rir como galinhas tontas. Uma ou outra parecendo-se mesmo com uma vaca louca do secretário de estado da agricultura, morador na Golegã, praça do município número quatro, segundo andar direito.
Quanto ao horóscopo propriamente dito. Cartas: amor e tráfico. Então isto faz algum sentido? Que eu saiba o amor pode associar-se ao ódio ou a uma cabana. Nunca pensei que se chegasse à desfaçatez de o associar ao tráfico, não se sabe nem de quê nem tão pouco em que quantidade. Passo!
Cor da semana: azul-escuro. Azul nunca combina com escuro, pelo menos a norte do Douro. Combina sempre com branco, em partes iguais e às listas verticais.
Números da sorte: 3 e 5. Somados dão oito, dia do senhorio. Então isso é sorte? Multiplicados dão quinze, dia em que o ordenado se acabou e me falta meio mês para receber outro.
Dia favorável: sábado. Favorável para quê? A minha sogra vem de manhã, impede-me de estar na cama até mais tarde e de andar pela casa à minha vontade, descalço até ao pescoço. Almoça connosco para agravar o orçamento, repete até a sopa, acaba-me com o pudim e com o maior desplante, depois de se empanzinar, anuncia andar a padecer de um certo fastio que quase a não deixa comer.
Amor: tempo de emoções intensas. Poderei ser surpreendido por novas paixões. Solidificação das relações existentes. Não vou para a quinta dos famosos onde talvez vibrasse com os dotes para a agricultura da Cinha Jardim e do Zé Castelo Branco, a menos que estes deixassem a enxada e se entretivessem com outro assunto qualquer. Surpreendido por novas paixões, lagarto, lagarto. Solidificar relações isso sim, pode ser positivo. Especialmente se se tratar da minha sogra e a solidificação for com cimento Secil. Ajuda-me a mim e, em menor escala, à família Queirós Pereira, que bem precisa.
Dinheiro e trabalho: seja persistente. Evite criar problemas. Até ao fim do mês nada mais me resta do que ser persistente na espera do ordenado, que o patrão não autoriza vales ao caixa. E sorte tenho eu de ainda ter patrão. Não crio problemas não. Ando teso e calado até ao fim do mês, rezando para que ele tenha dinheiro para me pagar o ordenado antes do dia quarenta e cinco. Que o raio do Ferrari só em gasolina consome-lhe os olhos da cara.
Saúde: vá ao dentista. Com todos os dentes extraídos há anos em consequência de uma piorreia, usando placa, que raio vou eu fazer ao dentista? Sabendo, ainda por cima, que levam uma fortuna por cada consulta. E que, nesta altura do mês, já estou mais teso que eu sei lá o quê.
Fomos solidários com o Iraque, coitados! Depois de tantos anos sujeitos à opressão de Saddam vieram participar como cidadãos de um país libertado, exemplarmente democrático. A solidariedade não devia extinguir-se nas Lages, na GNR ou na opção de José Barroso, anteriormente também conhecido por Durão Barroso. Mesmo assim tivemos azar porque três dos golos que nos marcaram bem podiam ter sido falhados e como compensação pela expulsão do Boa Morte (Má Morte?) poderíamos ter sido beneficiados com uma grande penalidade. Além disso três ou quatro cotoveladas esbarraram violentamente nas trombas dos adversários e falharam a baliza. Fica-nos a certeza que nos treinos ganhamos sempre, às vezes até por muitos. Não se pode reduzir a participação à familiaridade dos treinos? Falam todos a mesma língua, já se conhecem, dava-se-lhes a medalha. É melhor tratar da proposta a apresentar ao Comité Olímpico. Talvez seja sensível à ideia, talvez até mais do que os marroquinos que se seguem.
Um leitor fez chegar ao Pessoas respostas dadas em testes/fichas de trabalho de Língua Portuguesa. Parece mentira mas é verdade! Além das ideias fenomenais, a ortografia também é muito original! Aqui fica.
OS LUSÍADAS
Os Lusíadas foram escritos pelo cantor Luís de Camões que os dividiu em 10 cantos e que assim deu trabalho a 10 cantores, tendo contribuído para a dimunuição do desemprego em Portugal. É por isso que o Camões é tão importante no nosso país e tem um dia só para ele.
GIL VICENTE
En não tenho duvidas que o Gil Vicente é muito importante, a pesar de nunca ter ganhado o campionato de futebol. É importante porque às vezes ganha ao Benfica, otras ao Sporting e otras ao Porto tirando a eles o primeiro logar. E também por isso é que a sua obra é dramática porque é um drama para os benfiquistas, os sportinguistas e os portistas quando ganha.
A congregação não é unânime quanto à língua em que deve ser dita a missa e frades há que divergem mesmo no que respeita ao teor do padre nosso e ao conteúdo do catecismo. Embora tementes a Deus, não raras vezes se manifestam ruidosamente sobre as razões do oposto e o seu contrário. Tanto assim que em situações mais agitadas os claustros são evacuados pelos guardiões do templo, para salvaguarda da fé e da ordem.
Muitas vezes a custo o frade superior mantém a calma e impõe a disciplina, metendo a mão no fundo bolso do hábito singelo e recorrendo ao terço que lhe ofereceram em Fátima, benzido pelo Santo Padre. Persegue sempre, na fé de Cristo e na inquebrável devoção a Maria, o bem da congregação e dos irmãos que a compõem. Quando o entende necessário, como agora, emite uma nota pastoral a esclarecer a razão da sua fé e o porquê das suas convicções.
Vozes infiéis recentemente se manifestaram contra o facto dos irmãos viajarem de avião, com direito a bilhete em classe executiva, podendo trocar esta pela capoeira da turística e fazer-se acompanhar de uma outra pessoa que não necessariamente o cônjuge. Segundo S. João Bosco a possibilidade do acompanhante poder ser outro que não o cônjuge fica a dever-se a motivos razoáveis, incluindo a idade e de saúde.
Quanto à idade, era perfeitamente previsível. Os religiosos devem beneficiar, como qualquer cidadão, do direito à reforma e às generosas pensões que a segurança social paga por aí. Se tiverem sido capelões de um qualquer regimento destacado para as guerras de África terão garantidos mais 13 euros mensais. Palavra do submarino ministro dos submarinos e da defesa. Já não se compreende a preocupação com a saúde. Quando impossibilitados estão abrangidos pelo eficiente sistema nacional de saúde. Caso careçam de alguma cirurgia, como se sabe, é só ligar para a linha azul do ministro Pereira que, pessoalmente, se empenhará junto do senhor José de Melro Mello para que o respectivo nome seja inscrito no princípio da lista. Se mesmo doentes se arriscarem a viajar, é celestialmente dispensada a presença de acompanhante, que o invisível e atento Anjo da Guarda tomará o assunto a seu cargo. E os religiosos, prudentemente, terão o cuidado de, em terra, encomendar a alma a Nossa Senhora de Fátima. Ámen.
Temos agora um segundo e pior exemplo. Tanto queria ser ministro, ter avião às ordens e tratamento protocolar a condizer que Paulo Portas prometeu mundos e fundos por feiras e mercados. Beijou peixeiras, escamou peixe, visitou quartéis e almoçou com antigos combatentes em cujos refeitórios acabou a fazer faxina. Depois fez um alarido desgraçado a dizer que tinham ido ele e o seu partido a conseguirem fazer aprovar uma lei que estabelecesse o direito a uma pensão a atribuir aos antigos combatentes.
Muitos percalços e alguns anos depois o ministro da defesa, que nunca foi militar e apenas terá marchado nas fileiras da mocidade portuguesa, anunciou o estabelecimento de uma pensão de 13 euros mensais - 155 anuais - a favor de cada antigo militar que tenha cumprido dois anos de comissão nas frentes de guerra coloniais. Os que na Índia estiveram prisioneiros, pelo que diz o jornal, recebem 100 - 1.200 anuais.
Esta é a estória de como a montanha pariu um rato ou de como um director de jornal com poucos princípios e nenhuns escrúpulos, sem saber o que é ordem unida e sem nunca ter visto uma pistola Walther de 9 milímetros, pousa a sovela e a chinela de sapateiro e é alcandorado à categoria de ministro. A bordo de um submarino flamejante de oitocentos milhões de euros - mais de cento e sessenta milhões de contos. Com periscópio! Podia ao menos ter aprendido na vida que a atitude não é ricícula: é insultuosa. Mas para isso, infelizmente, não basta ser ministro. É preciso ser bem mais!
Por aquele tempo o Huambo era Nova Lisboa, o bairro de Benfica era o Bairro de Benfica, a Missão do Canhe era a Missão do Canhe, o cestinho de morangos custava meia-cinco. As quitandeiras subiam do vale do Queve carregando pesadas cestas à cabeça e filhos remelosos e adormecidos amarrados às costas. Saíam pelo escuro da madrugada, os pés descalços e gretados, subindo pela beira da estrada de terra. Pela valeta, tumultuosas e barrentas, corriam águas da chuva que chovia, terra que era penico do céu, mais tarde lhe chamaram. Outras vezes pisavam o pó frio e vermelho do tempo seco, os corpos frágeis vacilando ao peso da carga e tiritando aos frios da aurora que entravam pelo velho dos panos que vestiam.
Quando por ali chegavam tinham caminhado duas a três horas, era longe de mais o vale do Queve, o dia clareava, o sol havia de nascer escondido atrás de nuvens carregadas de chuva para chover. Montado na sua bicicleta com motor, pequeno, magro e triste, haveria de passar o senhor Duarte Pacheco carregando a sua pasta de cobrador do grémio do milho. Usava sempre o chapéu e a gravata preta, nunca o confessou, diziam que era o luto pela morte do irmão, ministro de Salazar, falecido de acidente. A casa térrea, pequena e periférica, ficava numa esquina, os pregões entravam pelas janelas de madeira com vidros pequeninos seguros ao caixilho com preguinhos ponta de paris e massa de vidraceiro. Um pouco acima a igreja do bairro continuava em construção lenta, ainda sem altar-mor e sem missa. Do outro lado, mais abaixo, era a casa do senhor Louçã, homem pequenino, caçador, ausente por longos períodos, pai de uma filharada de alguma meia dúzia ou mais.
Sabia-se sempre quando o senhor Louçã estava de regresso. Pela camioneta Fargo, velha, com a carroçaria em madeira, a desfazer-se, estacionada no largo fronteiro à casa. Pelas barricas de madeira, espalhadas sem ordem, abertas num dos topos e pela carne que secava pendurada nas cordas, à sombra, como se fosse roupa acabada de lavar. As peles secavam ao sol, abertas e espalhadas por cima do capim, com os olhares dos filhos vigiando o céu e a disposição do Altíssimo que nunca mandava aviso antes da bátega. Que muitas vezes caía entre dois relâmpagos e um trovão que estremecia as casas, derrubava as panelas de alumínio na cozinha e chegava mesmo a quebrar os pequeninos vidros das janelas.
Ao domingo, vestidos de lavado, sapatos engraxados e a gola da camisa branca dobrada por fora das abas do casaco, subíamos a pé a estrada que dava para a cidade para irmos à missa na Sé. Depois se voltava, era uma peregrinação semanal, atravessava-se a linha férrea do CFB sob pontões metálicos por onde passavam os comboios. Às vezes até só as locomotivas em manobras, deitando fumo pela chaminé, silvando vapor junto às rodas, estas patinando sobre os carris na sofreguidão do esforço. O maquinista puxava a corda do apito, intervaladamente, com habilidade, quase parecia uma melodia. Os ajudantes alimentavam a caldeira, iam jogando os toros de eucalipto para a fornalha, na passagem podia ver-se o crepitar das chamas e o incandescente das brasas. Transformando a água em vapor e em cavalos que eu não via e que não podia entender.
Depois assim de repente. Dominados os incêndios, exaustos os bombeiros, esvaziadas as barrigas de água dos canadaires, apressa-se a chuva. Tarde e a más horas, respondendo aos chamamentos e às orações de valha-me Nossa Senhora e de salve-se quem puder. Persistente, contínua, estragando o veraneio, arrastando as cinzas pelas ribanceiras. Levando o perigo maior às estradas onde ele, impenitente, já circula sem tolerância zero e fora do turno da brigada de trânsito. Não dá para aguentar. Esta chuva temporã não tem o cheiro a terra seca. Vou apanhar o primeiro avião e vou-me embora para Pasárgada. Não dá para apanhar avião e seguir para a Sambizanga ou para o Makulusso. Ninguém que chega aí de camisa branca metida dentro das calças, cinto a lhes segurar e sapato novo a brilhar como espelho de ver o penteado!
Mais preocupante do que o roubo é o prejuízo. Ainda não ouvi dizer quantas cassetes foram. Mas esta manhã ouvi falar de mais de cinquenta CD's, um deles de experiência. Na rádio, enquanto pico no teclado, ouço Caetano Veloso. Deve ter sido pedido pelas gajas da glória barata. Adiante. Aquilo não foi roubado de uma redacção de jornal mas de uma editora multinacional. Tipo movieplay ou emi ou vidisco, sei lá. Mas era uma indústria! O lançamento? Para aí na feira da Vandoma, sábado, às três da madrugada. Enquanto os polícias dormem a sono solto que a hora não é nem de fazer filhos. Sem autógrafos e sem factura como queria aquela ministra das finanças, para reduzir o défice do orçamento.
O que se espera? A corrida desesperada aos leitores de cassetes e de CD's. Como às ventoínhas nos dias passados, de trinta e cinco graus à sombra e quando ainda havia serra do caldeirão para arder. Vão subir os preços e vender-se todos os trastes e se não, esperem, a ver se o economista de serviço o não vem anunciar. Os stocks vão esgotar-se rapidamente como se estivesse a vender-se camarão de Moçambique a cinco milreis, com uma laurentina de brinde por cada quilo. Ó amigo moçambicano - que a gente é da terra onde vive! - faça-o por mim, vá ao Alto Maé, passe pela Imperial, deite abaixo um prato deles e uma de litro. Sim, estupidamente, como o calor reclama e o Chico recomenda. A gente não se conhece, mas um dia pago-lhe. E agradeço-lhe, que isto é favor de monta, mesmo pagando.
Ah! Quanto às cassetes. Vão aparecer todas, trezentas e cinquenta e oito, marca TDK, de sessenta minutos cada uma, com as gravações intactas e perfeitamente audíveis. A título de garantia de autenticidade e certificado de origem. Vai ter é de investigar-se se foram ou não ouvidas. Se o gajo que as trouxer não quiser falar voluntariamente, usam-se métodos da GNR. À cachaporra. Até o gajo confessar que estão todas, não falta nenhuma, ninguém as ouviu, ninguém sabe que merdas lá estão gravadas e ninguém tinha sequer leitor de CD's. Afinal talvez o desembargador não precise de ser aposentado compulsivamente.
O país não escorrega, embora o ditado garanta que quem escorrega também cai. O país está a cair, de norte a sul. No Porto os edifícios em ruínas ornamentam as ruas e os locais mais nobres e mais históricos. Numa simbiose perfeita entre público e privado. Na incúria e no desleixo andam de mãos dadas, creio mesmo que se invejam e que à noite, à socapa, se deitam na mesma cama e mantêm relações de incesto . O ministério da Justiça anuncia o seu propósito de assegurar receitas extraordinárias no bacará e de investir parte dos lucros - contando com o ovo no cu da galinha - na aquisição de edifícios para alojar, com dignidade, os seus serviços e os seus funcionários. Enquanto a Justiça manifesta a intenção de comprar edifícios outros ministérios deixam ruir construções e monumentos. O Palácio do Freixo tem a assinatura de Nasoni, arquitecto a que o Porto está umbilicalmente ligado para sempre. Foi um conjunto de escombros, pasto livre de silvas e ervas daninhas, até que a Câmara promovesse a sua recuperação. A reconstrução custou uma fortuna que teria sido melhor utilizada na construção de habitação social ou no aumento dos vencimentos da vereação. Para ainda não ter destino definido.
Serviu para que o comissário José Barroso lá reunisse o governo uma vez e decretasse que o Douro não voltasse a transbordar. Depois para uma exposição sobre o gheto de Varsóvia que Rui Rio não sabia bem onde alojar e que não queria que atravessasse o rio. E, mais recentemente, para que Santana desse a ilusão de regionalizar a dívida da câmara da capital e o défice do orçamento e manifestasse preocupação pelas elevadas taxas de desemprego que afectam o distrito.
A cidade que Fernando Gomes diz orgulhar-se de ser património mundial cai aos bocados. Ele assobiava para o lado, quem lhe sucedeu mijava de alto, quem lá está parece que toca harmónica de boca. Um ou outro invisual, para não dizer cego, permanece sentado às esquinas, tocando concertina na expectativa esperançosa da moeda. Quando, por insondáveis razões da física, um edifício se desmorona o país para, os responsáveis abrem a boca de espanto e a polícia interdita a rua fronteira. Como a semana passada aconteceu em Lisboa onde o aluimento de ruínas a que ainda chamavam prédio e de que se cobravam rendas. Com tanto azar, segundo o presidente da vereação, que a física não cedeu aos apelos de que adiasse a queda por uma semana. Se o tivesse feito, teria sido derrotada. Hoje, religiosa e pontualmente, estariam a ser iniciadas obras coercivas, a mando da própria câmara. Ficaram desalojadas algumas cinquenta pessoas, o que não é nada se comparado com o número de metros que mede o raio da Terra ou mesmo com a lotação do estádio da Luz ou a quantidade de euros que albergam as contas bancárias do seu presidente.
Alto e bom som, de fato e gravata, barba feita e cabelo domado à força de brilhantina, um senhorio veio logo dizer publicamente de quem era a culpa. Quando um prédio cai a culpa é do Estado. Quando um prédio cai a culpa é do congelamento das rendas. Fossem estas razoáveis e todos os senhorios formariam fila às portas das câmaras a requerer licenças para obras de conservação e de restauro. Como se verifica com os arrendamentos que são posteriores ao terramoto de 1755 e ao Marquês de Pombal. A porta de entrada avaria? Ninguém a repara. As lâmpadas dos patamares fundem-se? Ninguém as substitui. Os esgotos entopem? Ninguém os desimpede. A questão, naturalmente, não se esgota aí e ninguém sabe nem onde e muito menos como se esgota.
Mas em Portugal, como sempre, não se assumem responsabilidades: descartam-se. Prolixa, a televisão aproveitou a derrocada e o encerramento das ruas adjacentes e montou câmaras. Com brilhantes estagiários agarrados a microfones como se fossem gelados da Olá. Orgulhosos na sua qualidade de repórteres com todo o bairro a apontá-los a dedo quando no dia seguinte entrarem no café. Dissertam, fazem perguntas graves e inteligentes, sorriem para a família em casa, presa ao sofá, fremente de emoção. Maria quer ser uma estrela, Ana gostava de ser uma princesa. Onde dormes tu? No chão! Onde tomas banho? Dentro do alguidar! Explicítas a culpa do Estado e do congelamento das rendas. E de nós todos também!
Alegando que esse facto é essencial à dignidade do cargo desempenhado a Assembleia da República entende que os deputados deverão ter direito a viagens de avião em classe executiva. Confortados com a circunstância de lhes ter sido acautelada a dignidade os deputados podem utilizar a classe turística e fazer-se acompanhar de quem entenderem, desde que isso não represente acréscimo de custos relativamente à classe executiva. Assim sendo poderão fazer-se acompanhar pela mulher, pelos filhos, pela namorada ou mesmo por qualquer Mónica Lewinski de reduzida dimensão ou concubina que possam ter a cargo.
A representação saírá obviamente reforçada. No estádio de Sevilha, por exemplo, duas pessoas hão-de gritar muito mais vezes e muito mais alto o nome do país. Mesmo que isso não garanta que alguém o venha a ouvir e, muito menos, a fixar. Mas a representação será numericamente representativa, muito mais bandeirinhas serão desfraldadas ao vento andaluz e o barulho será ensurdecedor.
Consta que na sua época o Zé do Telhado tirava aos ricos para dar aos pobres, coitados dos ricos! A evolução e o progresso levaram a isto: os assaltos não são perpetrados na escuridão fria e chuvosa das noites de Inverno. São-no em pleno Verão, quando o país anseia por ser representado nas Caraíbas e no golfo do México, em plena luz do dia e ao abrigo de leis e regulamentos que os novos Zés do Telhado redigem, propõem e aprovam. Que o presidente da República se lembre deles no próximo 10 de Junho e os condecore a todos. Como assaltantes!
Foi preciso que o governo se tirasse de cuidados, calçasse as tamanquinhas e fosse ao Porto - mais precisamente, à Rua de José Falcão - recrutar um ministro da justiça para que este descobrisse a verdadeira vocação do ministério: jogar na bolsa. Como todas as decisões inovadoras também esta, desde logo, desencadeou reacções contraditórias. Chegados do remanso bucólico da Quinta das Lágrimas ainda se ouvem os aplausos silenciosos do bastonário da ordem. Algures da tranquilidade tépida das águas do mar Egeu chega também, rápida e desabrida, a silenciosa recrimanção da ex-ministra, estendida ao sol na proa de um pequeno iate de família. De permeio, como habituais desmancha-prazeres, berram os funcionários enquanto manuseiam volumosos processos atados com cordeis e roídos pela traça. Mas, à cautela e para o que der e vier, vão dissimulando no meio das folhas amarelecidas pelo tempo alguns boletins do totoloto.
Doravante não haverá motivos para reclamar da justiça e condenar-lhe a atávica morosidade ou o excessivo zelo da prisão preventiva. Velhinhas divorciadas, aguardando a fixação de pensões de alimentos e arrimadas a previdentes bengalas, poderão entreter-se na sala de slot machines de que os tribunais de família passarão a dispôr enquanto um estagiário envelhece numa arrecadação à procura da sentença. Os menores, mais práticos e menos exigentes, poderão sentar-se pelo cimento dos corredores, tirando uma passa e jogando à moedinha enquanto aguardam pelo despacho de reinserção e pelo carro que os transporte.
Mais exigentes, os facínoras que esperam pelo juiz, pelo julgamento e por penas de prisão maior, terão salas de jogo nos tribunais criminais dispersos pelo país. Poderão aí jogar a dinheiro conjuntamente com advogados, testemunhas e magistrados, mas deverão ser todos portadores de licença de admissão e não serão toleradas dívidas de jogo. Para processo já bastará aquele com que se confrontam e não permitirão os tribunais que, sob telha sua, nasçam mais questões com incobráveis cujo monopólio, como se sabe, pertence às empresas operadoras de comunicações móveis.
Mais tranquilas apesar do afã do expediente, as conservatórias e os notários diversificarão, com vista à privatização próxima, o leque das suas actividades. Criarão salas de estar, utilizando mobiliário de estilo moderno e fabrico espanhol - de que outro lado também poderia ser? - onde, confortavelmente, se poderá aguardar até à hora de encerramento das repartições, ver filmes indianos nos diversos canais da tevê cabo e jogar socialmente a canasta. O fornecimento do chá e dos bolinhos será garantido por um complicado e eficiente sistema de outsourcing para que se assegure o contínuo funcionamento da cadeia de abastecimento e nunca faltem a canela para o pastel de nata e o adoçante de reduzidas calorias para as senhoras que a gulodice privou miseravelmente de cintura.
Estudantes despediram-se do Presidente cessante da República Dominicana, Hipólito Mejía, nas imediações da Cidade Autónoma de Santo Domingo, quando este tentava, num dos seus últimos actos oficiais, inaugurar uma biblioteca. O mandatário transmite ao sucessor, Leonel Fernandez, no próximo dia 16. Os estudantes explicaram a sua atitude por o chefe de Estado pretender inaugurar uma biblioteca sem livros. O incidente só não teve piores consequências por os guarda-costas de Mejía terem disparado para o ar e dispersado os jovens.
Por um lado os estudantes são jovens responsáveis e pacíficos. Entregam-se ao estudo na perseguição de um canudo que, decerto, lhes garantirá o desemprego até aos 30 anos. Facilitam um pouco no período da queima das fitas, sem que a culpa seja deles. E disso se ressentem, antes e depois, as classificações. Especialmente a Português e a Matemática, o que não tem também nenhum especial significado. Por umn lado porque toda a gente usa nos dias que correm um computador e um corrector ortográfico. Plantado de pé, como um pequeno pinheiro bravio, a escrever estórias manuscritas sobre o tampo de uma es