Considerando, por outro lado, que mesmo antes de se demitir Durão Barroso se esqueceu de que era primeiro-ministro. Considerando mesmo que se chega a duvidar de que alguma vez tenha tido consciência de que o era. Considerando ainda que o mesmo estranha que pessoas que aplaudiam a eventual nomeação de António Vitorino para presidente da Comissão Europeia agora lhe critiquem o facto de ter sido ele a aceitar o cargo.
Conclui-se que, como já era há muito largamente suposto, Durão Barroso se considera comissãrio europeu e não primeiro-ministro. Conclui-se pela depravada insensatez de ter feito promessas que nunca pensou cumprir e de ter assumido compromissos que nunca pensou satisfazer. Não havendo pena substantiva que se lhe possa aplicar, melhor será que se faça dele enchido e se pendure no fumeiro. Terá comprador na próxima feira do fumeiro de Barroso!

Não confundir com pirose, dispepsia com sensação de calor na parte inicial do aparelho digestivo, acompanhada de excessiva secreção salivar; ardor que se sente no estômago; azia. Que é, frequentemente, uma consequência da infecção com piroseira, usualmente tratada com água gaseificada, sais de fruta ou alkazelser nos dias imediatos à detecção dos sintomas.
A mesma TSF, diariamente também, emite um chamado forum para discussão de temas da actualidade, ainda aqui com a participação dos ouvintes. Alterando parcialmente o figurino na medida em que convida figuras públicas e profissionais da comunicação a emitirem também opinião sobre o assunto do dia. Não é grave que acedam a isso, mesmo que se critique a única intenção de visibilidade pública que parece estar-lhe subjacente. Mas depois de profissionais reputados, com um currículo construído ao longo de muitos anos, aceitarem a participação em programas com o comissário político Luís Delgado, travestido de jornalista, já nada se estranha. E a continuar assim, tudo acaba por se aplaudir.
O forum de hoje, sobre o assunto Durão Barroso - Comissão Europeia - Santana Lopes, foi uma bancada central matinal, no seu melhor: um chorrilho de asneiras e uma vitrina para disparates de todo o quilate e de todos os sentidos, naquilo que se refere à participação dos ouvintes. Cheguei mesmo a imaginar Santana Lopes, no balneário, rezando fervorosamente a uma minúscula imagem de Nossa Senhora de Fátima. Positivo? O consenso gerado em relação do primeiro-ministro do Luxemburgo para presidente da Comissão Europeia, antes de ser aventado o nome de Durão Barroso. Que recusou, baseando-se no facto de ter sido eleito para o cargo que desempenha. Mesmo à margem de todas as normas legais chamava-se a isto ÉTICA. Que os responsáveis, em Portugal, definam o conteúdo do termo e promovam a sua inclusão na próxima edição dos dicionários escolares da Porto Editora. A ver se alguém aprende!



Concluídos os quartos de final do Euro 2004, apenas sobrevivem os apurados nos grupos A e D. O que quer dizer que será perfeitamente possível que os apurados nesses grupos se voltem a encontrar na final para, entre si, definirem o vencedor. Os analistas profissionais - desta e de outras áreas - não deixarão escapar esta ocorrência. Sendo assim, as meias finais deixarão pelo caminho os apurados em mais um dos grupos iniciais. Ou Portugal e Grécia ou Holanda e República Checa. Podendo antecipar-se uma final entre Portugal e Grécia ou entre a Holanda e a República Checa.
Uma conclusão, acreditamos, não merece neste momento nenhuma contestação. A República Checa já justificou a razão porque está nesta fase final e já deu claramente a entender para que é que cá está. Será difícil contrariar-lhe os intentos.
A 27 de Junho de 1885, no Porto, nasceu Guilhermina Suggia. Na mesma cidade, depois de ter espalhado o seu talento por múltiplas paragens, veio a falecer em 30 de Julho de 1950. Na sua residência, na Rua da Alegria 665.
119 anos não são o centenário de coisa nenhuma e, ainda menos, o bicentenário. Mas um aniversário é sempre um aniversário e, por essa razão, a efeméride é aqui hoje referida. Bom seria que o fosse apenas por isso. Mas não! Porque a Câmara do Porto despreza autenticamente os seus filhos, mesmo aqueles que levaram o seu nome a outras e distantes paragens e que o carregaram de prestígio. Não é à Câmara a que preside o Dr Rio que nos referimos. É a ela e a todas as que a antecederam, que muito mais se empenharam em ir à bola, a colher a visibilidade cabotina de efeminados participantes no Big Brother. É ainda, inevitável e infelizmente, às que hão-de seguir-se-lhe pelo maniqueísmo atroz do sistema do voto e do método de Hondt.
Não sabemos que executivo camarário deu o seu nome a uma rua e que operário diligente, obedecendo a ordens superiores, afixou placas com ele nos prédios das esquinas, sem saber a quem pertencia, com uma ortografia aparentemente errada, que nada lhe dizia. Sabemos que muito perto, a menos de um quilómetro, na sua residência da Rua da Alegria 665, morreu Suggia. Não há nas paredes exteriores da casa nada que o assinale ou que sequer diga a quem pertenceu. E desde a morte da sua proprietária tem passado por vissicitudes várias. Foi sede de organização sindical, esteve vazia, foi posta à venda. Nos seus anexos funciona actualmente uma oficina de ciclomotores. Descobriu-se-lhe, finalmente, um destino sóbrio, honrado e respeitoso. E de todo indigno. Mesmo que o som estridente de um motor a dois tempos não possa, nunca, confundir-se com o som de nenhum rabecão. Muito menos de qualquer violoncelo. Muito menos empunhado por Guilhermina Suggia.
Se isto já era o que era com Barroso e com o governo sombra a que tem presidido... Mas por muito que isso seja contra a minha vontade, nunca votei para nenhum primeiro-ministro, nem para nenhum presidente de câmara, nem para nenhum presidente de junta de freguesia. Contribui - ou não! - para a eleição de deputados, vereadores, membros de junta. E as regras foram estabelecidas não por quem elege mas por quem é eleito, ocupa cargos e desempenha funções.
Mas tem graça invocar o aspecto formal da questão e reclamar a prática informal que se acredita que convem. Arranje-se é maneira de mudar as regras e transformar o assunto em questão séria. Agora não me perguntem como é que se evita que Santana chegue a S. Bento e se sente à mesa com Portas, bebendo ambos pelo mesmo copo. Mas, se o conseguirem, serei o primeiro a aplaudir porque assim o quero. E não será só para deixar Luís Delgado na outra margem!
Pergunto-me se é a distância que suaviza as emoções, o raciocínio e as palavras. Mas creio que não porque ele confessa não ter coração para penaltis. Obrigado Francisco, passe a audácia de fazer crer que frenquentámos a mesma escola, na Rua das Fontaínhas. É bom verificar que há bom senso em algum lado. Que conscientemente alguém o apadrinha. Com a fria tranquilidade com que o Postiga adorna os penaltis dele.
Sem surpresa, Avelino rebateu todas as acusações. Até porque, como claramente se viu, as televisões tinham feito passar habilidosas montagens de laboratório em que, inclusivamente, houve o cuidado de inserir o "Directo" no cantinho superior. Depois porque lhe assistia sempre alguma razão e algum direito sobre o mobiliário que alegadamente terá pontapeado. Quanto mais não fosse porque ele próprio o adquirira, mesmo que eventualmente com receitas devidas à Câmara pela ocupação de bancas e lugares no mercado municipal. Além disso quem o conhece sabe bem que se trata de pessoa pacífica, temente a Deus e devoto de Nossa Senhora de Fátima a cujo santuário, em peregrinação, se desloca todos os anos. Utilizando o automóvel, o motorista e o combustível pagos pela autarquia com base no voto popular que o elegeu. Única estroinice de cada peregrinação: o repasto no conhecido restaurante Tia Alice, porque a suavidade da comida lhe protege a úlcera no estômago e o pesado do preço fica a cargo da tesouraria municipal. Por isso mesmo sempre aumentou generosamente o tamanho da vela que deixa acesa ao lado da capelinha das aparições.
Para que não ficassem dúvidas Avelino esclareceu a juíza que não irrompeu relvado dentro: limitou-se a entrar nele serena e tranquilamente, a convite da equipa de arbitragem, cujos elementos até já conhecia e um dos quais fazia mesmo o favor de ser seu amigo de longa data. Não barafustou com nada nem com ninguém: invocou os progenitores dos árbitros e limitou-se a rezar-lhes pela alma que, em alguns casos, encomendou ao Altíssimo. Não pontapeou placas nenhumas: limitou-se a afastá-las do caminho para que não fossem ingloriamente pisadas e corressem o risco de quebrar-se. Em boa verdade, como com sinceridade disse à juíza, limitou-se a entrar em campo apenas para evitar que houvesse merda.
Ao que consta a juíza sensibilizou-se com o altruísmo demonstrado pelo autarca. E corre pela caserna que no Largo do Caldas o Dr Portas se ocupa a redigir um segundo comunicado, garantindo que haveria Euro 2004 na mesma, ainda que o PSD tivesse perdido mais deputados nas eleições europeias. O Dr Nobre Guedes prepara um P.S. - salvo seja! - para acrescentar-lhe, garantindo que o sucesso do Euro seria muito mais evidente se o país todo, de alto a baixo e de norte a sul, fosse habitado por avelinos como o do Marco. Em vez de se ter enchido de bandeirinhas feitas na China, utilizando corantes que os industriais nacionais já dizem que fazem mal à tosse, encarecem a construção de moradias e tornam em miragem a sedução de namoradas eslavas, de olhos claros e longos cabelos louros.
Hoje, que é dia de S. João, o doutor que até tem jeito para isso, com obra publicada em letra de forma, tinha de certeza conseguido alinhavar meia dúzia de quadras alusivas ao dia e concorrido ao concurso do Jornal de Notícias. Muito provavelmente teria arrecadado algum prémio e coleccionado algumas menções honrosas. No mínimo teria ganho um mangerico ou mesmo dois, com diplomas a acompanhar. Com isso teria, ao menos hoje, deixado o país em paz, convencido de que ao fim da tarde vai ter alinhada a esquadra invencível frente ao cais das colunas e partir a atravessar o canal da Mancha. Despejar infantaria em Ramsgate, subir o Tamisa e invadir Hyde Park e o palácio de Buckingham. Neutralizar a guarda real, fazer soar os tacões nos corredores longos e sombrios e apanhar o príncipe de Gales, de ceroulas, a levantar-se do catre.
Isto mesmo que tenha razão. Porque de facto Portugal olha para a Europa como os políticos que tem olham para o país que Portugal é e para o povo que o habita. Como diz, como bois a olhar para palácios! Os políticos que o país tem não lhe conhecem as coordenadas e apenas sabem onde fica a Costa da Caparica por causa da praia e a Ericeira por causa do marisco. Sabem do Piódão por causa dos postais e de Monsanto por causa do médico Fernando Namora. Mas já não sabem nada de Boleiros ou da Picha que, todavia, pertencem ao país real. E de Santiago de Cacém nem querem saber porque Manuel da Fonseca até era comunista.
De resto os políticos sabem de futebol ainda muito mais do que o país. Basta que se atente na aplicação com que se devotam ao estudo e às várias acções de reciclagem que frequentam. Nos estádios do Euro, da Superliga, de Sevilha ou mesmo de Gelsenkirchen!
Assombro-me de espanto, doutor! Porque, como sempre ouvi dizer, há dias em que se não pode sair de casa e se deve permanecer calado as 24 horas do dia, até que se esgote o último minuto. O doutor não está a atingir o patamar do ridículo, o doutor já lá está de corpo inteiro e de pleno direito. Com joanetes, canelas, meniscos, coxas, vértebras cervicais e todas as cãs prematuras que lhe habitam o couro - salvo seja - cabeludo. E isto não muda, por mais que se troque de óptica e por mais que se altere o prisma por onde o assunto seja analisado.
Primeiro, é óbvio que o doutor se deitou tarde, dormiu mal, acordou com aquela incomodativa enxaqueca, confunde o raciocínio e acaba a dizer disparates como se fossem poemas de Régio ditos por Villaret. É da ressaca e isso, habitualmente, passa desde que se não persista na conduta. Parece-me estar a vê-lo no miradouro das caves Taylor's, em cuja cantina social aproveitará para almoçar, na companhia do engenheiro patrão dos patrões, desfrutando da mais espectacular vista que se pode ter sobre a cidade, do outro lado do rio. E, como eu, ter assombrações. Divisar por artes mágicas deste S. João da folia e do alho porro, o doutor Rio sentado em plena praça do cubo, de fato domingueiro e perna traçada, saboreando um vinho fino seco a fazer boca para o almoço também próximo.
O doutor não pode ou não deve lamentar-se de nada. Nenhuma quadrilha de jagunços importados directamente de uma telenovela brasileira lhe foi encostar aguçados e ameaçadores facões ao abdómen para que se candidatasse ao cargo. E sendo assim, como diz o povo, quem corre por gosto não cansa. O doutor, ao que sei, até é daqueles doutores de verdade, que receita comprimidos, manda fazer análises e radiografias e nos carrega com um dedo mágico exactamente onde nos dói, fazendo-nos doer ainda mais. Não é nenhum doutor da mula ruça, a desenhar anúncios para plantar na sua Avenida da República ou a frequentar a chamada academia de Alcochete, ao serviço de uma qualquer rádio de Gaia, a fazer perguntas ao Fernando Couto sobre o estilo literário de William Shakespear.
Depois o doutor não sabe - desculpe que lho diga assim, cara a cara! - é governar a sua vida e o seu dinheiro. Por um lado porque o doutor não valoriza outras coisas que lhe são garantidas pelos palermas que o elegeram. E, obviamente, pelos parvos que também não tiveram nada a ver com isso. O carrito, a gasolina, o motorista fardado, a verbazita para representação, os telemóveis gratuitos, os almoços na cantina e os cafés no bar da autarquia, somados, se calhar ainda dão para meia dúzia de boxers de algodão e quatro pares de peúgas que cubram a canela. Quanto ao ordenado, receba-o e entregue-o à patroa. Intacto! Porque ela não precisará sequer de assessores licenciados em economia para fazer melhor do que o doutor faz. Quanto à roupita, incluindo o fato, aproveita uma segunda-feira de manhã e leva-o à feira de Espinho. Compra-se muita coisa em conta, alguma até de marca, especialmente nas barracas que se aproximam de Silvalde. No resto, basta estar atento aos bons exemplos. Lembre-se que muito menos ganha o Manuel Damásio, que nem doutor é. E veja com que esforço consegue pagar a prestação da casita, ter os filhos a estudar no colégio e frequentar uma ou outra festita para que o convidam os amigos mais próximos. A que se apresenta sempre de fatito e gravata lavados, carregando uma garrafita de vinho do Porto debaixo do braço, para não parecer mal. E ainda consegue, mesmo assim, embrulhar um Mercedes em celofane vermelho para oferecer de prenda de anos à Margarida. Aquilo sim, aquilo é que é gente de tino! Veja se aprende!
Depois quem mais perde é sempre quem mais tem para perder. O postulado é sobremaneira confirmado pelos resultados obtidos pelos partidos dos Drs Monteiro, Garcia Pereira e Carmelinda Pereira que não perderam nenhum deputado. E, mesmo que lhes somem os resultados, continuam a não perder nada. Esta constatação vem aproveitar aos resultados alcançados pelo Bloco de Esquerda. Poderá, em consequência, o Dr Miguel Portas, adquirir andar em Estrasburgo com financiamento a 40 anos. Nunca mais perderá o mandato até que atinja o limite de idade e se resolva à clausura numa pequena moradia algures, para os lados da Malveira.
Sobre o Euro 2004 do seu contentamento aquele australopitecídeo escreve no jornal 24 Horas, de hoje:
Jornalistas, ex-jornalistas, cineastas, arquitectos, colunistas, médicos, etc., etc., tudo "botava faladura"!
Uns, aproveitando-se para demonstrarem o ódio que têm ao futebol, os Pacheco Pereiras da vida, crónicas patéticas assinadas por um tal Prado Coelho, num jornal onde a classe intelectualóide deste país se vai masturbando, o "Público", e onde esse jornalista? cronista? poeta? escritor?, sei lá o que o homem é, cognominava o ambiente que se vive à volta dos jogos de Portugal como "alienantes".
Outros, com responsabilidades acrescidas porque já fizeram ou fazem parte do meio, jornalistas, não conseguem despir a camisa do clube da sua preferência, escrevem prosas inenarráveis, tentanto crucificar Scolari!
Um blog fino é outra coisa. Tanto assim é que assinala hoje, com pompa e circunstância, os seis primeiros meses de existência. Mesmo com algum atraso, como diz. A festa é no Lux, a partir das dez da noite e toda a gente, virtual ou não, é convidada a comparecer. Acompanhada de posts, com cachecol ao pescoço ou mesmo embrulhada na bandeira pátria. Imitando um adepto do Cristiano Ronaldo ou o explorador Silva Porto, algures no interior inóspito do continente africano, cercado por indígenas com ar ameaçador.
Um blog fino começa por só ter actores principais, oito segundo o genérico. Não há subsídio do ministério do Dr Roseta, por mais generoso, que chegue para pagar a participação do elenco. Todos são galardoados, com óscares, comendas e medalhas de ouro da cidade. Todos ocupam posição destacada nesta sociedade de elites, em que nem todos somos peões de uma geração rasca. Mas somos hoje, isso sim e cada vez mais, membros militantes de uma geração à rasca.
Não vamos estar presentes. Decisão que certamente não implicará o cancelamento das celebrações nem o pranto sustenido dos bloggers mais sensíveis. Apenas porque o Porto fica a norte do rio Douro, mais distante ainda que a freguesia do Dr Menezes e as camionetas da Renex nunca chegam a horas a lado nenhum. Depois porque se não divulga o tipo de traje a envergar e poderia ser ultrajante aparecer à porta usando sandálias cambadas, calções com alforges nas pernas e camisola amarela com riscas azuis como se fossemos um viking, fervoroso adepto do número onze, Mr Larson. Além disso Lux não tem para nós - coisas de província e de geração! - outro significado que não seja o de sabonete usado por nove em cada dez estrelas de cinema. Oito já lá estão e a espuma ainda disponível há-de certamente ser, justamente, reservada para o Dr Prado Coelho. De resto, não haverá mais nada para ninguém!
Mas não queremos deixar de apresentar cumprimentos. E fazer votos para que prossigam e para que recolham largos e estimulantes benefícios e prebendas. A gente só tem a aprender com quem é melhor do que nós. Por isso continuaremos a ser visita. Embuçados nesta capa virtual, ninguém nota sequer a forma como nos apresentamos vestidos. Usando jeans comprados na feira de Espinho. Sem marca!
João Soares, ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, cargo para cuja reeleição foi preterido por Santa Lopes e por pouco menos de um simples milhar de votos, vem-se pondo em bicos de pés e anunciando a sua disponibilidade, patriótica, para se candidatar a secretário geral do Partido Socialista.
Ontem, numa longa entrevista concedida ao jornal de José Manuel Fernandes volta a subir para o banquinho e a tirar a cabeça de fora, reafirmando a mesma disponibilidade. Porque, diz, o partido a que pertence não tem tido nem ideias nem projectos para o país. Não os enumera, logicamente. Não se pode arrolar para a lavandaria a roupa que se não possui. Mas, do seu lado, as coisas mudam.
Candidata-se porque, segundo diz, é um homem de confiança. Que naturalmente se dispõe a conduzir homens e mulheres que, obviamente, o não são. Mas também só a ele, e até agora, o ouvi dizê-lo. E todos dizem de si próprios rigorosamente a mesma coisa. É assim um tipo de elogio em boca própria a que vulgarmente chamam vitupério.
Contrapõe ao passado e ao presente as suas ideias e o seu projecto que diz que os outros não têm tido. E não vai mais adiante. Nem como uma ideia, nem com nenhum projecto. Igualzinho não apenas ao seu partido mas ao espectro político completo: o vácuo! O vazio de todo. Salvo a experiência anterior que aponta: esteve doze anos na Câmara Municipal de Lisboa. Cuja presidência, recorde-se, herdou de Jorge Sampaio quando este foi eleito para a Presidência da República. Sem nenhumas eleições.

Agora é só esperar. Como já há quem faça, desde ontem à tarde, à porta da Federação Madaíl de Futebol, na perspectiva de conseguir um dos anunciados 500 bilhetes de ingresso ainda disponíveis.
Esta manhã, na ida apeada para o trabalho - como sempre faço! - vou evitar passar pelas imediações dos centros de emprego. Apenas para evitar as intermináveis filas de espera. Porque no Porto as do desemprego, creio, já nem sequer são ultrapassadas pelas das criancinhas à procura do primeiro bilhete de identidade. E para o Porto o Dr Federação ainda não anunciou a disponibilidade de nenhum bilhete!
Valeu-lhe à reputação meia dúzia de motequeiros arruaças que ele tem permitido que estacionem em transgressão e mais alguma dezena de amigos de peito, com quem andou na escola primária a errar nas contas e a dar erros no ditado e mais tarde, na vida, a emprestar algum dinheiro a juros para desenrascar alguma atrasada prestação da casa e que, reconhecidamente, lhe estão gratos para o voto incondicional e para o resto da vida. A organização, como habitualmente, ficou a carga da assessoria camarária. Discreta, experiente e eficaz. Tanto assim que o cortejo parecia mesmo mais numeroso e as fotografias do compadre Avelino, coladas com fita adesiva às portas dos automóveis, a brilhar de lavados, iam mesmo a matar.
Tal recepção obrigou Avelino a mais um discurso, à porta de casa, antes de se recolher ao conforto do lar doce lar, petiscar umas fatias de presunto acompanhado a broa e a verde tinto, porque se deve ser educado e agradecer aos amigos. Sem meias tintas anunciou que ia recorrer da sentença que o condenara a uma pena de três anos de prisão. Primeiro porque a sentença tinha sido pré-concebida. Certamente por inseminação artificial, como se faz com as vacas. Depois porque ele é mais sério do que as pessoas que o julgaram. Além disso, quem quiser que dê uma volta por Bragança de onde é natural a juíza que presidiu ao colectivo para se certificar de que ela ainda há pouco deixou de tomar leite. Enquanto ele, como macho latino, nunca provara nem leite, nem mesmo chá. Mesmo que, cá para nós, lhe fizesse bem, mesmo em adulto, um conhecido chá de Fafe, desde que a dose fosse substancial, que só assim resulta! Para depois concluir que vai renunciar ao mandato no Marco para preparar a eleição, arrasadora, a Amarante. Mas apenas porque assim quer porque ele tem mais poder do que aqueles juízes: tem o voto do povo.
Esperam-se agora, depois da ressaca provocada pelo golo contra os espanhóis, as declarações equilibradas e sensatas, de apoio incondicional e de sábia conduta política, dos correligionários Portas e Guedes. Os dois democratas mais conhecidos pelas peixeiras que, no bairro, ainda vendem porta a porta!

Regresso de Ourém onde hoje, 20 de Junho, se comemora o dia da cidade, a tempo de assistir ao Espanha - Portugal. Com expectativas e apreensões múltiplas. Depois de tudo é óbvio que se não ressuscitou D. Nuno Álvares Pereira - 3º Conde de Ourém, recorde-se! - nem se travou nenhuma outra Aljubarrota! Mas o povo está hoje muito mais motivado do que estava há uma semana atrás para eleger deputados a um parlamento que nem sabe onde fica e para que serve!O que desde logo resulta deste desdobramento é a criação exponencial de cargos, especialmente de administradores, na maioria das vezes em regime de acumulação. De funções, vencimentos e mordomias, claro está. De facto só comecei a perceber alguma coisa sobre institutos públicos quando patrioticamente o Dr Armando Vara criou um que espalhou alguns painéis nas bermas das auto-estradas, encomendados com a maior das isenções a fornecedores que, só depois ele soube disso, tinham frequentado consigo a escola primária.
Infelizmente, quando começava a perceber alguma coisa daquilo o Dr Vara veio à televisão dizer que se não demitia mas demitiu-se. E, depois disso, o tal instituto foi extinto. Mas, de qualquer modo, ninguém me tira da cabeça que os institutos e as empresas municipais são criados para a melhoria das condições de vida das populações, o aumento da competitividade e o desenvolvimento do país. Até que este seja, como promentiu o Dr Barroso, um dos mais desenvolvidos da Europa.
Há dias o Dr Santana demitiu, democraticamente e ao que parece, toda a administração da EPUL, diminutivo da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa. Por intrigas, procedimento em que os políticos e os gestores públicos têm especialização, como os médicos ortopedistas e oftalmologistas. Vejam que, ao que consta, começaram a circular pelos corredores acusações sobre despesismo, incompetência e desacertos nas contas.
Ora se há coisas que o Dr Santana não tolera é a tendência dos subordinados para a despesa. Há assuntos que ele reserva para si e não subdelega. Quanto à incompetência a acusação não faz sentido: todos foram admitidos no seguimento de concurso público que incluiu provas profissionais especialmente exigentes. Como aliás é cada vez mais hábito no país. O desacerto nas contas é um eufemismo que também é despropositado. Quando muito ter-se-á verificado alguma criatividade, o que apenas é de enaltecer. Porque, se isso fosse censurável, onde é que já há muito teria ido parar a Dra Manuela Ferreira Leite?
Há dias atrás os órgãos de comunicação social noticiaram a detenção de algumas dezenas de pessoas e a apreensão de algumas dezenas de quilos de haxixe, em consequência de uma operação policial de invulgar envergadura. Até aqui, tudo bem. Entre outras, é também para estas coisas que as forças policiais existem. Muito mais do que para irem aquartelar no Iraque, abandonar as ruas e as noites ao voluntarismo vândalo e marginal de passageiros da madrugada ou ocuparem garbosamente as selas de bestas de pêlo luzidio, na perspectiva de, por distracção, aprisionarem o Bin Laden em carne e osso.
Mas a notícia salientava um pormenor, aparentemente determinante: um dos detidos era filho da actual deputada e vice-presidente da Assembleia da República, Leonor Beleza. Ele próprio era ainda mais insignificante do que o tio Zé Manel que, para além de irmão da ex-ministra, ainda ao menos se chamava Zé Manel. Este, o filho, nem nome tem, coitado. Da mesma forma e à semelhança invulgar do que acontece com todos os outros, mais de trinta. Não têm nomes e não se lhes conhecem os progenitores, como se fossem a um tempo e contra o que dispõe o Código Civil, filhos de pai e mãe incógnitos.
Este pormenor, obviamente, não é informação. Com todas as letras, é apenas uma grosseira e inqualificável filha da putice. E é, ao mesmo tempo e muito, o espelho daquilo a que no país se vai chamando comunicação social. Os jornais, as rádios e as televisões vendem com base em publicidade que ultrapassa todas as fronteiras do mau gosto, da imbecilidade e da má fé. Atente-se, por exemplo, na grosseria dos anúncios do Banco Espírito Santo sobre um jogo de futebol contra a Grécia, de triste memória. Dizendo, mais ou menos, vamos deixá-los em ruínas. O "criativo", como é de uso dizer-se, responsável pela brilhante ideia terá noção de as tais ruínas terão universalmente muito mais importância do que este diminuto rectângulo que se estende para oriente a partir do Cabo da Roca? Depois, se isso era ainda possível, fomos nós a resultar em escombros, feitos ruínas patetas da nossa confrangedora arrogância. Falta a tudo isto o que sobrava da poesia de O'Neil e de Ary dos Santos, por exemplo.
Mas se aquilo é informação, fica aqui expressa a petição pública. Preciso de ser urgentemente reciclado, da ponta dos cabelos às unhas dos pés e da epiderme ao mais profundo das entranhas. Excluindo a vesícula que um credenciado cirurgião, há mais de dez anos, teve o trabalho de extrair-me. Este não é um país em que se possa viver. E não é por força da sistemática fragilidade dos ministros do ambiente, venham ou não poluídos com anedotas parvas ou com contas bancárias em francos suíços.

Assim de repente, sem contar, fui esta tarde ver o Grécia - Espanha. Quanto ao Euro 2004 creio ter ficado vacinado. Não será vírus que voltará a afectar-me, nem mesmo de forma imprevista. Por diversas razões.
O futebol não tem hoje nada a ver com desporto. É um negócio que movimenta rios de dinheiro e que eu, honestamente, não vislumbro qual a riqueza que cria. Os espectadores, que pagam os ingressos a preço de ouro - quando o ouro tinha a tendência permanente de subir - são tratados como facínoras. As redondezas do estádio - o Bessa XXI - um dos famosos dez que construímos para isto, estavam repletas de polícias. Apeados, de moto, em carros de serviço, a cavalo, eu sei lá.
À entrada é-se mais vasculhado do que se fosse para a União Soviética, quando esta existia. É-se apalpado, não se pode transportar para o interior do recinto uma garrafa de água, em recipiente plástico, nem que seja de 25 centilitros. Quase nos ficam com a fotografia da namorada e nos confiscam os preservativos como se fossem armas de arremesso.
Depois, neste caso particular, o estádio. Pretensiosamente designado por Bessa XXI, assim um pouco à maneira do Papa João XXIII que Deus haja. Aquilo não é um estádio, é um monstruoso esquife de cimento armado com capacidade para dezenas de milhar de pessoas. No centro da cidade, circundado de prédios por todos os lados, sem qualquer preocupação de enquadramento urbanístico. Fica-me a certeza de que o projecto arquitectónico não é, de certeza, de Siza Vieira. Não lhe conheço, de facto, a paternidade de abortos idênticos.
No interior, repleto, são os espectadores que fazem a festa. Os gladiadores defrontam-se entre si, sob a ameaça de um senhor de apito na boca e vestindo fato diferente. Com a canícula de arrasar, correm a custo, pontapeiam-se de vez em quando, rebolam-se no chão para descansar um pouco e apanhar o fresco da relva. Uma grande vantagem em relação ao que vejo na televisão. Não se estão permanentemente a ouvir aqueles horrorosos comentadores, todos descendentes do Gabriel Alves, que sabem tudo de tudo. Sobre as opções erradas do treinador e sobre os maus passes dos futebolistas. Só isso de facto me deixa na dúvida se não será preferível enfrentar o ar ameaçador, tipo Exterminador Implacável, de pelo menos três companhias da polícia de choque. Ah! Quanto ao resultado não vale e pena dizer nada. Vamos todos andar a ouvir falar dele até que comece o próximo encontro. Amanhã, às cinco da tarde!
Portugal é uma pessoa colectiva que nunca se engana e que raramente tem dúvidas. Tudo aquilo em que se mete é um sucesso desde que no Terreiro do Paço, durante meia hora, haja distribuição gratuita de cerveja quente e de febras mal assadas e cobertas pelo inevitável pó das obras com que Santana embeleza a cidade.
Não importa que as coisas dêem sistematicamente prejuízo nem há a preocupação de o apurar com o mínimo rigor. Não interessa saber antecipadamente para que servem as coisas e determinar a viabilidade económica dos projectos. A bola ainda não chegou ao pé de quem vai rematar para a baliza e já a bancada, eufórica, grita golo. O governo, em funções há mais de dois anos, passa a vida, tranquilamente, a afirmar que o desemprego cresce por culpa do governo anterior. E, como instituição de um país sem rei nem roque, exime-se alegremente a cumprir as suas obrigações e a pagar aos seus credores. Médicos e funcionários entram em greve reclamando do Estado o que este lhes deve há alguns anos. Dentro de pouco tempo ver-se-ão coagidos a fazer-se representar nas greves pela descendência porque eles já estarão internos em lares da terceira idade. Se alguma instituição particular se tiver dado ao trabalho de os construir. Porque o Estado, como o eleitor, abstém-se.
Depois dos desastres cada um de nós aponta com segurança todas as causas e se vangloria de os ter podido evitar com múltiplas soluções. Todos, de repente, passaram a saber tudo. O último exemplo que, cabisbaixo, vai jorrando pelos cafés e pelos restaurantes, é o Euro 2004. Especialmente depois de ter sido perdido, sem espinhas, o jogo contra a Grécia. Impacientes os jornalistas - que não informam, mas que acusadoramente inquirem! - atropelam-se nas salas de imprensa. Como maquiaveis de pacotilha esmeram-se nas perguntas. Plenas de calhandrice, de vazio e de má fé. Não perguntam: acusam. Não ouvem e menos percebem: inventam.
O que é óbvio requer três páginas de jornal, duas horas de microfone aberto e doze passagens pelas emissões televisivas. Como se fossem a coisa mais complexa com o que o país, alguma vez, se viu confrontado. Incluindo o desaparecimento de el-rei D. Sebastião e o cativeiro do Infante Santo. Todos querem, antecipadamente, saber como vai ser escalada a equipa para defrontar amanhã a Rússia e que táctica vai perfilhar. Mas isso é hoje. Amanhã, à posteriori, todos saberão como deveria ter sido e vão questionar porque não foi. Portugal, Portugalzinho!
Apesar disso, procurei o meu velho e encarquilhado cartão de eleitor. Descobri o amarrotado bilhete de identidade em que apenas a fotografia me agrada mais do que o espelho. Passei pela junta de freguesia a saber onde funcionaria a mesa de voto e lá fui eu votar. Heróico e destemido, com bandeiras nacionais, murchas, penduradas das janelas, sem força para flutuarem a um vento mais fresco que viesse de norte. Hesitei, de esferográfica na mão e com o boletim de voto, imóvel, esperando por mim. Vou por Saramago ou não? Acabei por não ir e por decidir por mim. Não votei branco. Nem nulo.
Pensei na altura que tinha contribuído para eleger um patriota eurodeputado nacional. Ou para evitar a eleição de outro. Mantive a ideia, mesmo depois de encerradas as urnas e completado o escrutínio. Mas, mais uma vez, tinha sido enganado e comecei a compreendê-lo ainda durante a noite.
A reunião da comissão política do PSD, para analisar os resultados, tirou-me as últimas ilusões. O imprevisível e erudito Dr Santana Lopes veio dizer que os portugueses - entre eles eu, que me não abstive! - tinham manifestado o seu descontentamento face à situação social do país. E eu convencido que, apesar da miserável percentagem de participação do eleitorado, o que tinha havido eram eleições para o parlamento europeu. Só me ocorre reagir como a Catarina!
[Carlos Coelho]
Se é isso que de facto lhe interessa Dr! Já se deu ao trabalho de fazer as contas, utilizando o vosso considerado método de Hondt? Que rica banhada! Fica toda a gente sem emprego. Os abstencionistas fazem favor de indicar os seus 19 deputados!
Santo António deve seguramente ver-se grego esta noite para, em Lisboa, ver as marchas descer a avenida, cantando a erguendo arcos a balões. O mesmo sacrifício deverá fazer Santana Lopes que, por dever de ofício, terá que aguentar a pé firme. Mas não há de facto grande estímulo para a festança. O raio dos gregos não ajudaram à auto-estima do país, como agora se vai dizendo. E o país é de extremos, como se sabe. Antes de tudo começar já somos os maiores, não há concorrência que nos faça sombra, além de nós sobra o vazio. Se as coisas correm mal - e correm muitas vezes! - a depressão é imediata, enchemos as agendas dos psiquiatras com marcações de consultas e agravamos a défice do ministro da saúde com o indiscriminado consumo de ansiolíticos e anti-depressivos. E a única coisa que nos devolve a tal malfadada auto-estima é de facto o futebol porque já nem o fado ajuda. Desvirtuado que foi sendo, no Bairro Alto, com simulacros de folclore e preços exorbitantes para turista velho, endinheirado e burro. E para a fotografia digital porque a instantânea já passou ao museu de antiguidades.
Mas a noite, por estas e por outras, não deve ser longa demais. Amanhã é preciso acordar cedo para ir votar numas eleições que ninguém disse para que eram. Só se falou de cartões a duas cores, por não haver mais, como se isto tudo não passasse de mais uma jornada gloriosa dos Passarinhos da Ribeira. Pode-se votar nem que seja à maneira de Saramago, seguindo o manual que fez publicar para o efeito e exposto nas montras das livrarias. Talvez isso ajude um pouco a recuperar a esperança para o jogo de quarta-feira, com a Rússia. Talvez nessa altura dê para desmarcar a consulta, mesmo sem razões objectivas. Não nos preocupemos muito com isso. Como antes, há muitas coisas que apenas Freud explica!

Não nos podemos queixar do árbitro. Não nos podemos queixar da sorte. Não nos podemos queixar de nada. A não ser do resultado. O céu não tem favoritos. O futebol também não!
Já que nos meteram nesta embrulhada, vamos adiante. Gasto o dinheiro no cimento e nos tijolos, aparada e regada a relva, montadas as redes nas balizas, não há alternativa. Mas façam-no sem o pernicioso convencimento que nos é tão peculiar. Façam-no com a humildade dos que são realmente grandes e que não precisam de o apregoar.
Lembrem-se que nunca se ganhou nenhum lance sem meter o pé, nunca se ganhou uma bola alta sem saltar, nunca se evitou que uma bola saísse sem correr atrás dela. Muita coisa se pode ter ganho sem trabalho, raramente alguma coisa se ganhou sem esforço. Sejam metódicos, humildes e profissionais.
Vamos começar como os outros, num plano de rigorosa igualdade. Sem sermos melhores do que eles e sem termos ganho coisa nenhuma. Esta tarde as coisas começam quando Colina apitar para isso. Durante noventa minutos, fora os trocos, só ele manda, só ele decide. Não compliquem o que é fácil, deixem que faça o seu trabalho, acatem as suas decisões, não deixem que a emoção e os nervos vos traiam. Depois, ainda esta tarde, as coisas apenas terminam quando Colina, de novo, apitar para isso.
A sorte constrói-se. É preciso é acreditar nela e persegui-la. Esforçarmo-nos por alcançá-la e não sentirmos que entramos em campo com ela metida no bolso. Força cambada. O Porto todo, hoje, mudou de cor!
Cada comitiva foi convenientemente isolada no degradante sossego de um hotel de luxo, posta de quarentena, não vá qualquer um dos seus elementos transmitir a febre amarela ou a tísica aos incautos e ingénuos indígenas. De muito longe, por entre grades metálicas, fortes lentes fotográficas acompanham os gestos de rapazes de cabelos compridos, barba por fazer e longos pelos nas pernas. Que se entretêm a correr sobre campos relvados, saltando à corda e saltando com colegas escarrapachadas às cavalitas.
As arenas, entretanto, estão prontas. Fortemente guardadas por dispositivos de segurança discretos, incluindo milhares de homens, dezenas de cães amestrados em farejar droga e apanhar fugitivos pelos fundilhos e centenas de cavalos treinados na arte de obedecer aos gestos dos cavaleiros. Não podem ser sobrevoadas e os submarinos que a heróica marinha do país há-de receber não poderão submergir e passar-lhes por debaixo, espiolhando o que se passa. Diz-se que a ansiedade cresce e chega a temer-se que câmaras de gás tenham sido montadas para o sacrifício de inocentes. Um senhor alto e de cabelo inteiramente rapado, falando uma língua qualquer parecida com italiano, de ar suspeito e aspecto irremediavelmente sinistro, foi exibido ontem perante as câmaras de televisão trazendo um apito pendurado ao pescoço por um cordel. Seguramente deve ser um dos carrascos.
O governo diz que está tudo a postos, embora se estranhe o silêncio que sobre o assunto têm mantido os ministros Arnault e Lopes. Mesmo que aquele tenha escrito uma carta em papel linho bond de 120 gramas por metro quadrado, de cor bege, fazendo aos nativos promessas de amor para a legislatura em curso e para a próxima. De passagem referiram as televisões e as rádios que as prisões foram esvaziadas para poderem receber estes malfeitores de luxo, usando grossos livros de cheques e inesgotáveis cartões de crédito, em ouro puro de 18 quilates. À cautela é preciso proteger o pé descalço e o sem abrigo, não vão estes ser saqueados por essa chusma de esquisitos invasores, vestindo camisolas garridas e emborcando cerveja em canecas de três litros.
A gente não conhece Deus, nunca o viu pessoalmente, e no entanto acredita na sua existência. Porque acredita na palavra honrada de seminaristas, párocos, cónegos e restante hierarquia da igreja. Nem todos conhecemos Avelino Ferreira Torres mas acreditamos na palavra séria, honrada e responsável dos dirigentes do seu partido, alguns exercendo funções governativas que, no passado recente, puseram as mãos no fogo pela sua honestidade e salientaram mesmo que o país precisava era de muitos políticos como ele.
Hoje Avelino Ferreira Torres, ausente nos Estados Unidos ao serviço da autarquia do Marco de Canavezes, a comemorar o dia de Portugal, foi condenado a três anos de prisão por crime de peculato. Peculato, em linguagem vulgar, quer dizer simplesmente roubo. O que, sem mais, quer dizer que foi condenado como ladrão.
Isto significa que altos responsáveis do seu partido, nomeadamente Luís Nobre Guedes e Paulo Portas, consideram que o país, apesar da evolução que tem registado, continua a apresentar uma lastimável falta de ladrões. Só assim se compreende que publicamente declarem que o país precisa de muitos como ele para preencher todas as vagas existentes.
Fica a sugestão para que aproveitem já as edições de fim de semana do Jornal de Notícias, cujas tiragens são mais numerosas, e façam publicar um anúncio de página na secção de Precisa-se. Para o recrutamento. Não achamos que se devam exigir grandes qualificações. Talvez o cartão de militante seja suficiente, com um empurrãozito do ministro. Nem é preciso concurso público!
Joaquim Ferreira do Amaral é de longa data um militante político importante de um dos partidos no poder. Foi um importante ministro dos governos de Cavaco Silva. Construindo auto-estradas e enfrentando manifestações de camionistas na ponte 25 de Abril. Sendo candidato, vencido, à presidência da república.
No uso de competências que detém, o governo nomeou-o para um importante cargo de gestão no grupo Galp. Dez vezes melhor remunerado do que qualquer cargo ministerial e beneficiando das mesmas ou mesmo de mais mordomias. Mas é um cargo de gestão.
Em curto espaço de tempo demos pela presença de Ferreira do Amaral a fazer campanha para as europeias. E hoje a produzir discurso numa concentração de ex-combatentes das guerras coloniais. Grupo em que abstracta e globalmente também nos incluímos porque, como ele, podemos reivindicar o mesmo estatuto. Sem o termos alguma vez feito e sem o pretendermos alguma vez fazer.
Apenas nos pareceria de elementar boa educação, ou de moral básica ou mesmo de primário sentido ético que um gestor tivesse a consciência cívica de se distanciar de propósitos ou de manifestações políticas. Ou que se mantivesse profissionalmente na política, de corpo, alma e coração, recusando cargos em que o cu, nitidamente, não tem a ver com as calças. Ou não deveria ter!

O que está a montante é a luta pessoal de dois homens. Inútil, estúpida e demagógica na forma como desfralda a mentirosa intenção de resolver problemas colectivos e servir populações. O que se futura, a jusante, é essa mesma luta, egoísta e criminosa, entre esses mesmos dois homens. De que inevitavelmente serão vítimas as populações que eles afirmam dispor-se a servir. Chamem-se pelos nomes, com frontalidade. Mande-se que dêem dois passos em frente os autarcas socialistas de Matosinhos, Narciso Miranda e Manuel Seabra.
Resolva-se o problema, sem hesitações. Excluam-se ambos. O sistema político deve prever ferramentas que se não limitem a atribuir mordomias e benesses, a reduzir cuidados de saúde, a formalizar a instituição da miséria e a comprar submarinos para patrulhar todos os ribeiros que confluam no rio Minho, à cadência da desova da lampreia. O sistema não deve segregar o presidente da república e impor-lhe apenas a ele o cumprimento de dois mandatos sucessivos. Como se de si pudesse partir todo o perigo para a democracia, para o progresso e para a conservação da nacionalidade. Limitem-se todos os mandatos de todos os cargos políticos. Sejam simplesmente profissionais todos os cargos que, embora públicos, se situem abaixo da hierarquia do poder político. Que o país se não limite à propaganda balofa sobre a condição de civilizado, mas que a demonstre. À semelhança dos outros, que a pratique!
Nenhum político, depois de mais de vinte anos no exercício do mesmo cargo, tem projecto colectivo nenhum. Seja ele elemento de uma junta de freguesia, de uma câmara municipal ou de um parlamento nacional. E a política - deve-se ensiná-lo persistentemente ao eleitor - é um exercício de cidadania, em benefício de comunidade e não em proveito próprio. Nenhum político o deve ser utilizando os métodos dos coronéis do café e do cacau que Jorge Amado descreve nos seus livros. Servindo-se de capangas sem consciência e sem escrúpulos que fornecem violência a troco de meia dúzia de sardinhas e de uma caneca de vinho verde.
Nenhum dos citados terá a dignidade de, verticalmente, renunciar. São ambos demasiado pequenos para serem capazes de tão nobre decisão. Que o partido a que pertencem chore a perda por que passa, saia do acto eleitoral que se segue e, sem perda de tempo, decida como deve. Enquanto o sistema político, ele próprio, não for ajustado à intransigente defesa dos cidadãos. Que deve servir e de que não deve servir-se, como vem sendo regra!