Dos dois indicadores transcritos podem extrair-se desde logo ilações importantes. Por um lado a solidariedade militante e activa que a União Europeia devota, carinhosamente, às suas vacas, atribuindo a cada uma um subsídio diário superior a 2 euros e a 400 escudos.
Por outro lado a forma discriminatória como menospreza ou ignora a maioria da população do continente africano onde, como se sabe, a subnutrição e a fome são realidades que conduzem à morte crianças e adultos.
Terá a União Europeia já concluído, em consequência de algum estudo idêntico aos que foram realizados para optimização dos custos da ponte de Coimbra, que a preservação da espécie bovina é muito mais importante para a globalização e para o bem estar comum do que a preservação da espécie humana?
A ponte que hoje foi inaugurada em Coimbra, ligando as margens do rio Mondego, não é um projecto de engenharia. Tão pouco é um equívoco e não lhe basta o epíteto de trapalhada. Mais do que isso, é uma novela completa, com enredo complicado, a começar pelo custo.
O contrato inicial previa um custo de menos de seis milhões de contos. Acabou a custar mais de quinze, quase três vezes mais. O projecto inicial pertence a um professor catedrático do Instituto Superior Técnico mas a obra é entregue ao empreiteiro sem que o mesmo esteja completo. O dono da obra contrata o projectista como consultor e, com a concordância deste, o empreiteiro faz o mesmo. As obras estiveram suspensas, o projectista foi dispensado, de permeio houve material dispendioso que se partiu e teve de ir para o entulho.
Em substituição do projectista inicial foram contratados os projectistas preteridos no concurso, em razão da escolha do primeiro. Arrasaram o concorrente e o projecto, defendendo que a ponte acabaria por cair sozinha. Em vésperas da inauguração um relatório do Tribunal de Contas sustenta que as alterações produzidas beneficiaram o empreiteiro e transferiram os prejuízos para o Estado. Ao mesmo tempo desvaloriza um relatório anterior, da Inspecção-Geral de Obras Públicas e Transportes, afirmando que o trabalho desta se circunscreveu a questões técnicas e não inquiriu com a profundidade que devia. O relatório da Inspecção considerava, todavia, esta ponte um verdadeiro caso exemplar de como não promover, projectar e construir uma obra pública, sendo que um dos relatores fora no passado sócio do projectista, com quem se incompatibilizou.
Entretanto o projectista inicial sentiu-se prejudicado e ofendido. Nomeou advogado com quem analisa a hipótese de agir judicialmente contra os responsáveis. Por mera casualidade o advogado é o Dr Guilherme Silva, deputado do PSD e chefe do respectivo grupo parlamentar. Tanto quanto se sabe, de momento, não há envolvimento de figuras ligadas ao futebol profissional ou isso não foi revelado.
Com pompa e circunstância, mas sem vergonha de ninguém, a ponte foi hoje inaugurada. Sendo primeiro-ministro Durão Barroso, presidente da câmara Carlos Encarnação, líder do maior partido da oposição Ferro Rodrigues e presidente do Futebol Clube do Porto Jorge Nuno Pinto da Costa. José Mourinho já antes gritara: tirem-me deste filme, e vai a caminho do Reino Unido. Quanto à história, mais detalhada, pode ser vista em pormenor por estas paragens.
O tempo muda tudo! Mais vaidosas, exibicionistas e malvadas do que nunca, as famílias portuguesas já não aprisionam canários e rouxinóis em gaiolas douradas. Primeiro porque conduziram aquelas espécies a vias de extinção, o que elevou os preços a valores exorbitantes. Depois porque as gaiolas douradas desapareceram do mercado, por falta de clientela, em consequência da globalização e da concorrência oriental. Hoje aprisionam outras aves, menos dotadas para o canto mas que, apesar de tudo, chilreiam despreocupadas pelas manhãs dentro. Arrumam-nas numa tosca gaiola de madeira, encostada ao mais sombrio canto da varanda, construída com tábuas de pinho arrancadas às caixas de fruta que os agricultores nos mandam do oeste.
Não tendo a mesma vocação para o canto, chilreiam. E exibem, agitando-se numa vaidade que parece humana, a sua plumagem colorida e atraente. São os periquitos que, desde a Austrália, chegaram à gaiola do ministro Portas. Cantar, não cantam. Mas encantam na sua plumagem multicolor e no convencimento com que se miram ao espelho. Não está certo que homem tão responsável, clarividente e importante os queira, injustamente, responsabilizar pelo exagero do preço da alpista que comeram. Não meta os periquitos no défice. Porque, a ser assim, ainda acabamos a ver os pavões no forte de S. Julião, só cor e plumas, peito inchado do silicone e de tanga!

Esta semana a classe política parece ter-se fingido escandalizada por picardias menores, decorrentes da linguagem utilizada nos debates ou mesmo nos diálogos. Mas a classe política, ela própria, não representa o país em nada, nem em coisa nenhuma. Nem nisto! E, assim sendo, a última e derradeira coisa a que deve ter direito é a escandalizar-se seja com o que for.
A classe política, de há muito, não tem nenhumas ideias. E, naturalmente, quem não tem ideias também não tem palavras novas. Os partidos políticos são meros grupos de interesses, herméticos como a maçonaria e secretos como a Opus Dei, que nada têm a ver com o país. Alternadamente acabam a ocupar as cadeiras do poder, não por terem convencido o eleitorado mas, inversamente, por tê-lo defraudado. O eleitor não vota a favor da melhor proposta que lhe apresentam. Ao contrário, vota conscientemente contra o incumprimento e a desonestidade de quem ganhou as eleições anteriores. Quando se apresenta à assembleia de voto o eleitor não faz uma cruz no boletim para eleger fulano. Fá-lo apenas para impedir a reeleição de sicrano!
Na rua, a perturbar-nos a tranquilidade e o sono, está de novo meia dúzia de automóveis, cedidos por candidatos ou emprestados por empresários que esperam o retorno financeiro. Levando ao volante um voluntarioso manga de alpaca, empregado a título precário, ao abrigo de um contrato de trabalho a prazo certo, com uma bandeira drapejando ao vento e um megafone ranhoso debitando palavras com a qualidade de um gravador de cassetes comprado de madrugada, na feira de Vândoma. À mistura com a música que nas romarias de recônditas aldeias o pároco tolera, a pretexto da oferenda e das receitas da quermesse.
Ainda ontem, para o éter, os principais candidatos às eleições europeias debateram não se sabe o quê. Pelos vistos a ideia principal que atravessou o tempo foi uma mera questão de paternidade. Sabendo-se que hoje, e por lei, não há filhos ilegítimos. Os portugueses nem sabem quando se realizam as eleições para o parlamento de Estrasburgo e muito menos para que servem, a não ser para garantir apetecidos empregos a 24 cidadãos que os seus partidos seleccionaram. Como sendo os melhores e os mais capazes? Nada disso! Apenas por terem sido os que, à socapa, melhor e mais rapidamente manobraram os bastidores, ultrapassaram o próximo, fizeram tábua rasa de todos os princípios e, triunfalmente, se aprestam a envergar o fraque para os bailes de debutantes e para os coquetails de fim de tarde, regados a champanhe de boa cepa.
Que propostas concretas apresentaram? Nenhumas! Que, honestamente, são tantas quantas o eleitor poderia esperar. Em vez disso privilegiaram a discussão sobre o pai, a mãe, os tios, os padrinhos e até mesmo os parentes afastados do défice orçamental. Há quem se não conforme com a paternidade, atribuída imperativamente pelo código civil, e quem se não satisfaça com a condição de mãe, género barriga de aluguer e inseminação artificial. E continuou por divulgar o enésimo segredo de Fátima, a data exacta do regresso do Desejado e a parte a que assistia a razão no conflito que opôs D. Afonso Henriques à senhora sua mãe. Ao menos! Não se anunciou a alteração do que, por definição, é o metro linear: vai continuar a ser a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre. Graças a Deus!
Estão certos os portugueses, até mesmo quando apenas 35 por cento manifesta a intenção de ir votar. Até porque dos 42 por cento que dizem saber a data de realização apenas 33 depois acertam na resposta.
Quanto à participação a nível dos 15 países que votaram em 1999 aí fica um pequeno quadro elucidativo. O fenómeno não é português: é de modo geral genérico. Ninguém liga nada ao Parlamento Europeu. Porque, certamente, ninguém acalenta expectativas em consequência do voto. É um parlamento burocrático cujos membros afiançam representar os cidadãos. Sendo certo que ninguém representa os cidadãos que não votaram. E estes são a maioria!
As corporações de bombeiros não recrutam mercenários no estrangeiro e, sob a supervisão tetraplégica do ministro, servem-se do material que possuem. Os bombeiros, todos eles, não têm parques automóveis. Têm depósitos de sucata, a céu aberto, funcionando sem regras e sem licenças, no meio dos pinhais. Não são meios de combate a fogos, são rastilhos. Arrastados para o combate a fogos, recusam-se. A meio das subidas e nos sulcos dos acessos improvisados estacam e negam-se a prosseguir. Em pouco tempo exigem que lhes acudam a eles, com meios rudimentares. Onde se salientam, pela inovação tecnológica, o balde de plástico e a vassoura de carqueja.
Há viaturas que estão permanentemente de baixa, sem subsídio de doença. Passam o ano a ser submetidas a exames dispendiosos que, apesar disso, nada ajudam ao diagnóstico. Vão à radiologia seis, sete vezes por ano, em alguns casos, a ver como vão os índices de alcatrão nos pulmões, como impenitentes fumadores. A entidade reguladora, que deve depender do ministro da saúde, acha mal e acha anómalo. Não lhe interessa a doença, interessa-lhe apenas a economia. Preocupa-se com o facto de algumas viaturas se apresentarem aos exames para que outras foram convocadas. Ainda por cima sem identificação e sem bilhete de identidade. Como fantasmas! Aquilo que o país mais tem e que, estupidamente, não exporta.
O país já tem uma longevidade democrática para compreender que nada é anómalo. Nem as filas de espera nos centros de saúde, nem a queda vertical da qualidade dos serviços na PT e nos Correios. Tão pouco o roubo praticado nas autarquias a que chamam peculato. Mesmo condenado, com sentença em vias de cumprimento, nenhum presidente de câmara roubou. Cometeu peculato! Não se aceita, assim, que seja recriminado um convívio na floresta, para os lados de Lamego, cujos participantes foram transportados de helicóptero mas que, de facto, levavam braçadeiras de vigilantes e telemóveis inúteis no fundo da algibeira. Que mal tem que haja agora viaturas que façam sete ecografias por ano, quando têm de se deslocar de ambulância? Há viaturas que não existem? Que se não sabe a quem pertencem? E daí?
Asseguram agora que quadruplicou o número de inspecções de viaturas e que triplicou o respectivo custo. E então? É a crise e o rigor financeiro que a mesma impõe, pela mão da ministra das finanças. Por isso é que a função pública não deve ser aumentada. Mais! Deve é conformar-se com menores salários para ajudar à retoma e ao descontrolado esbanjamento noutros sectores. Para ajudar ao Euro e ao ordenado do cobrador de impostos que a Opus Dei, em visão, recomendou ao Terreiro do Paço.
Todos nós, de facto, andamos azuis por dentro, há imenso tempo. Sem que esse azul seja o do sangue da nobreza. Serviu o facto para que expandíssemos esse azul retraído, atormentado, enclausurado dentro do peito. O futebol esmagou as declarações políticas, reduziu a nada o feitio de sogra da Dra Manuela Ferreira Leite, relegou para as calendas as decisões do ministro Portas sobre os submarinos e, já agora, sobre a privatização das Ogma.
A falta de sensibilidade política não levou o governo a aproveitar o sinal evidente da retoma, vindo de Gelsenkirchen, vestido de azul e branco. O poder de compra de quem correu atrás da bola cresceu ontem drasticamente, na ordem de 20.000 contos por cabeça. No caso do Sr José Mourinho, mesmo sentado no banco, cresceu mais: cerca de 100.000 contos. No seguimento disto não vai custar nada ao governo proceder a aumentos intercalares na função pública e no salário mínimo. Até já começou, com a admissão de novo director para os impostos, a ganhar um ordenado que se veja, parecido com os que se praticam na superliga e na administração do Metro do Porto.
Os desmancha prazeres mantiveram-se insensíveis e conservaram as suas colunas de opinião tristes, nebulosas e preocupadas. José Manuel Fernandes, muito para o sério, insurge-se contra aquilo a que chama relatórios políticos da Amnistia Internacional e acha ridículo que se diga que se vive hoje, em relação aos direitos humanos, a pior situação dos últimos cinquenta anos. E que se misturem factos com opiniões quando, em relação a ele, ninguém se preocupa que só emita opiniões sem nenhuns factos. Pacheco Pereira prossegue com a sua laboriosa questão a saber se as democracias podem hoje conduzir uma guerra. Para maior credibilidade, fá-lo na condição de vice-presidente do Parlamento Europeu. Sempre é um bocado diferente de ser o Abrupto feito pelos seus leitores, sujeitos ao exame prévio do censor que aí é o conhecido comentador da Amareleja. Sem admissão de comentários.
É uma quinta-feira chocha, esta. Cinzenta em tudo, no tempo encoberto e nas temperaturas envergonhando-se também por detrás das nuvens. Depois da noitada e dos shots o país está de ressaca, dormindo a sono solto. Mesmo quando caminha, com passo trôpego e inseguro. Realmente o futebol é assim como uma maldita cocaína. Entorpece. Nem sequer há quem anuncie novas greves.

O governo foi de manhã porque à tarde o primeiro-ministro vai à bola. Com muita honra e a convite da UEFA. À espera de alguns dividendos convertidos em votos também. Seguramente acompanhado por uma caterva de ilustres parlamentares que mais não sabem do que tratar a política, o eleitor e o país a pontapé e à cabeçada. E reclamar sobre a ridicularia dos honorários que lhes pagam. A política é cada vez mais uma actividade a que falta honestidade, transparência de processos, elevação e boas maneiras. A política não é nenhum exercício cívico, é uma bandalheira. A que falta inteligência, cultura e ideias sensatas. É ela que recupera a antiquada imagem da empregada doméstica, perfeitamente injusta, que regateia o preço das hortaliças e reclama da carestia de vida. Não há improvisos, há insultos, Não se assiste a debates, ouvem-se peixeiradas. Não se trocam impressões, discute-se histericamente, aos gritos, de mãos nas ancas.
Hoje, aquilo que o governo anunciava como sendo o debate sobre a ciência e a inovação acabou como coisa normal, que não surpreende e muito menos entusiasma. Acabou a ser o circo de fim de festa, com artistas em idade de pré reforma, necessitados de sopas e descanso. Um debate sobre a indecência e a má educação a que até já falta a truculência do saudoso Sousa Tavares. Se bem me lembro…
Era um país envergonhado, rural e submisso. Cada cidadão corria a esconder-se sempre que um automóvel se divisava ao fundo da rua principal e curvava-se, respeitosamente, à passagem de qualquer poderoso envergando casaco escuro e gravata preta. O regedor e o pároco eram a autoridade, faziam localmente as leis, velavam pelo seu cumprimento, puniam os prevaricadores. Mesmo o Terreiro do Paço, por mais pretensões que Lisboa pudesse ter, era mais uma freguesia. E S. Bento outra, onde o Dr Salazar governava e zelava pelos bons costumes com a bênção do cardeal Cerejeira. Não era permitido o uso do biquíni e ele próprio usava ceroulas todo o ano e nunca vestiu calções ou mostrou os joelhos, temente que era a Deus e às suas eventuais manifestações de desagrado.
Era, como continua a ser, um país triste. Sem iluminação pública e com o azeite ardendo numa combustão lenta nas lamparinas suspensas nas naves das igrejas. Por razões ditas de segurança o Dr Salazar não ia a lado nenhum ou, quando se dizia que ia, já tinha ido. Como licenciado em direito era um guarda livros meticuloso, muito diferente dos criativos que, há poucos anos, proliferaram pelo Parque Expo. O que estava certo, porque os licenciados em direito sempre foram os profissionais mais polivalentes do país e sempre serviram para tudo, incluindo a política e a advocacia.
Hoje, para variar, Portugal é um país atrasado, desavergonhado e triste. Apesar da evolução de Abril de 1974, o país arrasta-se na cauda da Europa e o Cabo da Roca nem sequer mudou de nome. Mesmo que o Dr Barroso, investido nas funções de um Salazar mais novo, esbraceje e grite que nos próximos dez anos o país se transformará num dos maiores da Europa. Como já prometia D. Afonso Henriques, assim que se viu livre das saias da mãe e cavalgou por aí abaixo à trolha ao mouro. Julga-se, talvez, um Alexandre Magno invencível, capaz de comandar um exército até aos confins da Ásia mas incapaz de marchar sobre Olivença e expulsar os castelhanos. Aproveitando a desconcentração por causa do casamento real.
A vergonha, perdeu-a. Terá sido a única coisa em que evoluiu como promete o Dr Barroso, para pior. Mesmo os poderosos não mentem com quantos dentes têm na boca, como se dizia. Mentem como mais e não se preocupam sequer em salvaguardar as aparências. Assumem-se, a um tempo, como beatos que o Vaticano há-de consagrar e como vilões de que o povinho troça. Frequentam mais o futebol do que a igreja, de onde as televisões ainda não transmitem, em directo, as missas e as novelas da vida real. De todos os quadrantes e a todos os despropósitos invoca-se a cabala. Nenhum criminoso é preso por estupro, por roubo ou por abuso sexual de alunos da Casa Pia. É-o apenas em consequência da cabala, mesmo que aquelas sejam qualidades que actualmente enriquecem o currículo. Mesmo de quem já o tem longo e completo. Nenhum partido perde eleições nas urnas: é defraudado à custa da cabala montada na lei eleitoral e nas mesas de voto. O governo, linearmente, recusa-se a cumprir obrigações e a pagar dívidas, como um caloteiro que ninguém respeita e de quem todos zombam. Como sempre, é caloteiro e arrogante: sobra-lhe em pergaminhos o que lhe falta em dinheiro. Invoca o interesse nacional e a cabala, montada pela oposição e pela herança do bloco soviético, com Carlos Carvalhas à frente. No futebol só se ganha quando a farsa do árbitro não é nomeado pela cabala do sistema e o apito que usa brilha ao sol, de dourado. A cabala justifica tudo, está contra todos, é omnipresente. A cabala vem à superfície como os golfinhos e navega em águas profundas como o peixe espada preto.
Na lota de Matosinhos, desde tempos medievais em que Narciso Miranda nem era ainda presidente da Câmara, cabala é peixe, como a sardinha. Um peixe menor, sem interesse, que não dá nem para o isco e que as próprias conserveiras nunca aproveitaram muito no passado. Os comerciantes do ramo, com porta para a rua e alvará de licença, sentem-se defraudados com a concorrência desleal, com o país inteiro a apregoar cabala. Que ninguém quer, nem para o gato. Mesmo a preços de merda!
Desde logo no que respeita à responsabilidade. O futebolista só assume ser responsável quando mete golo na própria baliza, e mesmo assim desde que o adversário não tenha chutado contra si. O político nunca assume ser responsável porque acha que nunca mete golos na sua baliza ou dispara tiros para os seus próprios pés. Se for a nível de dirigentes a semelhança é ainda muito maior. Para ambos os sectores apenas são seleccionados os melhores e como o país é pequeno e tende demograficamente para o pousio, há muitas vezes necessidade de sobrecarregar as mesmas pessoas com variados cargos. Contra a manifesta vontade destas, que muito prezam o descanso e o convívio com a família, enquanto vêem televisão. É por isso que vemos autarcas a gerirem o futebol, dirigentes desportivos a administrarem fábricas de tecidos e administradores de sociedades desportivas a gerirem actividades nocturnas. Os melhores são poucos e, mesmo assim, uns são melhores do que outros.
Mas as coisas estão em vias de se inverter num país em que, diga-se, tudo tende cada vez mais a ser invertido. O mais evidente sinal disso deu-o ontem o Zé quando proferiu o seu discurso de encerramento no conclave enquanto o Paulo, abanando a cabeça em sinal de aprovação, assistia como convidado de honra. Até aqui o Zé tem responsabilizado o passado, omitindo o presente e renegando o futuro. As culpas vêm todas de trás e o passado não nos legou, como se sabe, nada de bom. A não ser a fama do brandy Constantino que, hoje, nem sequer tem quota de mercado que justifique pronunciar o seu nome. Vai ser diferente doravante.
O Zé assumiu-se e responsabilizou directamente o partido do Cassete Carvalhas por todos os problemas que acontecem ou venham futuramente a acontecer e que se relacionem com a segurança do Euro 2004. Decidiu-se, o que merece aplauso. O avião com turistas chega atrasado e as meninas pedirão desculpa em nome do país salientando ser a culpa do partido da foice. Meia dúzia de ingleses bêbados quebram o mobiliário de um restaurante e a culpa é do estalinismo. Quatro funcionários de turno faltam no controlo de passaportes e sente-se que as culpas devem ser assacadas ao marxismo-leninismo. Os polícias de giro - quando já só há giros de carteiros, e mesmo assim cada vez menos - fazem greve de zelo e isso é culpa da festa do Avante. Aconteça o que acontecer, mesmo aquilo que estamos longe de imaginar, a culpa é de atribuir ao camarada Cunhal que aproveita a vetusta idade que tem para as programar no longo silêncio dos seus anos.
O Zé, que parecia meio desajeitado para a bola, sem altura para defesa central, jogou em antecipação. Quando o adversário lá chegou com a cabeça já ele tinha atirado a bola pela linha de fundo, a pontapé. Quase marcava era golo na própria baliza, mas havia a desculpa de ter o adversário à ilharga. Queremos ouvir agora é a opinião abalizada do especialista Gabriel Alves!
Para botar discurso e dizer que, afinal, a União Nacional andava a passear-se por aí, atenta, veneranda e obrigada. De modo corporativo e colonial, deitando o canto do olho para as imensas riquezas naturais da Madeira e das Desertas, especialmente as bananas e o petróleo.
Embasbacamo-nos! Então não tinha sido já o Marcelo Caetano a acabar-lhe com a identidade? Perfilhando-a com um nome novo e mandando-a a aprender o mesmo catecismo, embora com diferentes catequistas.
O Alberto João que, pelos vistos, disse e partiu. Para estar no dia seguinte à saída das missas a comprar votos, a copo de poncha e a bolo de caco. Mas parece estar equivocado, o que surpreende, com aquela cabeça e aquela memória. Ele não quereria referir-se, ao menos, à Acção Nacional Popular, muito mais moderna, embora provinciana, presumivelmente também já extinta? Se o não estiver, é preciso acabar com a hidra. Chamar à acção esse Hércules acabado de recauchutar sem ninguém que tivesse tido a coragem de descer à arena e enfrentá-lo. Para que uma a uma lhe decapite todas as cabeças, lhas esmague, lhes ponha triunfalmente em cima o sapato tamanho 45. Porque quem avisa…
Mas, de regresso, ainda encontrámos no monte das sobras o jornal Público. Mesmo sendo domingo José Manuel Fernandes ataca de novo no Iraque. Para dizer que o ministro iraquiano dos negócios estrangeiros veio a Portugal para deixar um aviso e pergunta quem o terá escutado. Desde logo ficamos a saber que afinal o Iraque tem um governo e um ministro dos negócios estrangeiros, realidade que desconhecíamos. Mesmo assim, ninguém, aparentemente, ouve esse ministro. Nem é preciso. Se José Manuel Fernandes o ouviu, mesmo que tenha sido em árabe e sem tradução, isso basta. Porque ele, de certeza, entendeu muito mais do que o ministro terá dito ou até mesmo pensado dizer.
Tanto assim é que o ministro, segundo JMF, se declarou agradecido a todos os que ajudaram à libertação do seu país. Para acrescentar de seguida que ninguém gosta de viver sob a ocupação de uma potência estrangeira. Quase nos confundimos, mas o raciocínio árabe de JMF não parece encaixar muito bem. Ele quer dizer que o Iraque é livre mas que está ocupado por forças estrangeiras? Como a Madeira? Mas é um herói, virado para o mar no ponto mais ocidental da Europa, suficientemente afastado do Iraque, continua a proclamar que aceitar que a batalha está perdida na retaguarda é ceder à fraqueza. Se fosse no parlamento ouviria bravos, de Telmo Correia e da sua turma. Mesmo quando compara a situação com a ocorrida com Churchill, depois da capitulação da França frente ao invasor nazi. Que é uma comparação feliz, que não ocorre a todos. É como comparar toucinho com velocidade no que respeita às características radioactivas de ambos!
Também no Expresso João Pereira Coutinho dizia que neste fim de semana a única pergunta que os portugueses deveriam colocar era: Letizia ou Santana. Faltou-nos a legitimidade pelos motivos já apontados antes e não colocámos questões. Também, mal por mal, nunca poríamos a questão de Santana. Mas sabemos que qualificativos serão utilizados para catalogar os que o fizeram…
José Leite Pereira, no Jornal de Notícias, acha patético o comentário socialista de que Durão agiu pela calada da noite no caso da substituição do ministro do Ambiente. Tem razão! No PS deveriam ouvir mais a Teresa Salgueiro cantar os dias são as noites para não confundirem as coisas. Vejam lá se o assunto atrapalhou Santana Lopes. Nem por sombras! Às quatro da madrugada o homem funciona em pleno. Bem bom!...
Meia realeza rumou a Madrid, acompanhada de meia república frustrada por lhe faltar a linhagem e o brasão. A Lili Caneças, apesar disso, ficou patrioticamente no país. Para explicar aos portugueses que cá ficaram as coisas que eles nunca entenderiam sem a sua intervenção. Estúpidos!
A despedida de solteiros celebrou-se um pouco por todo o lado, segundo os hábitos e os costumes gastronómicos de cada região. Especial, especial a que ocupou a noite de Oliveira de Azemeis. Onde actuaram bobos da corte e azémulas. Mas há piadas que são de todo originais, o que hoje é difícil de conseguir: uma pida nova sobre Bush, lançada na Califórnia, chega ao Piodão em dez segundos.
Mesmo assim, e para além da farra e da festa - o que pressupõe Superbock à descrição como na queima -, preocupa o défice democrático nos Açores, especialmente na ilha do Corvo, pela sua expressão demográfica. Já não é tão recente, embora seja também preocupante, o aviso sensato que lança o bobo das Desertas, sobre os perigos dos comunismos, mesmo que se trate só de estudos sobre eles. Por comerem criancinhas e o perigo reside exactamente aí: é que ainda há criancinhas! O terceiro bobo não se apresentou especialmente inspirado: as sextas-feiras à noite nunca o puxaram muito para a região saloia e para a província. Fica à espera de saber a toillete da noiva, incluindo a cor e feitio da tanga!

Mas a solução, apesar de tudo, é rirmo-nos. Porque se o dia a dia nos torna depressivos, nos carrega de stress, apenas por pensarmos na renda de casa, na alimentação e nas contas de água e electricidade, vejam o que seria se caíssemos na grandessíssima asneira de tentar levar a sério a vida do país. Na primeira semana, seguramente, aventurávamo-nos a atravessar a linha do norte, exactamente no momento em que o pendular seguia a caminho de Santa Apolónia. Ou de Campanha. Nenhuma companhia de seguros aceitaria que subscrevêssemos uma apólice do ramo vida e nem o religioso banco do engenheiro Jardim Gonçalves nos valeria no crédito para a compra de casa.
O jornal Público insere hoje, na primeira página, o título Estádios do Euro arrasam as finanças das Câmaras. Uma novidade e, mais do que isso, uma descoberta. Este jornalismo há-de levar o país a descobrir o caminho marítimo para a Índia, ainda neste século e, provavelmente, a terras de Santa Cruz a meio do seguinte. Acompanha a notícia apontando alguns pequenos desvios nos custos, acidentalmente desfavoráveis, que raramente se verificam nas realizações de sucesso do país. Como no Centro Cultural de Belém, na Ponte Vasco da Gama, na Expo 98, nos estádios do Euro.
Depois, apesar do aumento incontrolado e vertiginoso dos custos, vem a dúvida. Como com o edifício transparente e com o funicular dos Guindais, no Porto. Elaborado o projecto, construído um rigoroso orçamento de custos, adjudicada a obra e terminada esta, não se sabe para que serve e ninguém a quer, nem de graça. Em relação aos estádios põe-se agora essa questão no que se refere ao do Algarve. Realizados os três encontros do Euro 2004 que para aí estão programados não se sabe que uso dar-lhe. Nem para pasto de ovelhas servirá, praticamente já ninguém investe nos rebanhos. Pelo menos de ovelhas!
De forma recorrente e demagógica o Estado canta vitória. Proclama que até gastou menos do que previa. Porque, como se sabe, as Câmaras não são instituições públicas e devem entretanto ter sido sorrateiramente privatizadas pelo ministro das polícias e dos fogos. Hoje são certamente parte da herança de António Champalimaud. E a Dra Leonor Beleza vai ter de administrar uma parte dela.
Começou a circular publicamente, como sempre com base em factos, boatos e suposições de que nunca se saberá nem a origem nem a identidade, que a ministra das finanças tinha ido, à sorrelfa e de má fé, recrutar o novo director dos impostos ao Banco Millenium, representação portuguesa da Opus Dei. Consta, ao mesmo tempo, que o novo director irá ganhar 60.000 euros mensais, o equivalente a doze mil contos e a cerca de 165 salários mínimos nacionais. O que permite, desde logo, afirmar que o homem não vale por dois mas, muito mais apropriadamente, por 165.
A tarefa primária do director de impostos será combater a evasão fiscal, fazer crescer a receita, - de modo a que o Estado autoproclamado rigoroso e sovina possa gastar mais à ganância - e conseguir a cobrança dos impostos que ninguém paga e aguarda que prescrevam com o tempo. Quer dizer, um cobrador de fraque, usando fato de seda pura e deslocando-se no banco de trás de um automóvel topo de gama, levando no bolso meia dúzia de cartões de crédito, todos de cor dourada.
As funções compreendem-se. Agora não sendo o homem nem futebolista, nem treinador brasileiro, não tendo sido eleito deputado europeu pela Itália, não indo fazer baixar o preço do petróleo ou levar a nossa querida - e pública! - RTP a dar lucros à maneira das empresas do Bill Gates, parece-nos que o ordenado é um bocado elevado. Para cobrador de fraque é caro!
Hoje, num muito curto mail, António Segadães Tavares teve a gentileza simples e amiga de me comunicar o facto. A ampliação do aeroporto do Funchal, cujo projecto lhe pertence, já havia sido distinguida com o Prémio Secil de Engenharia em 2003. Agora, entre 17 nomeações, foi um dos dois vencedores do Prémio IABSE OstrA, edição de 2004, destinado a galardoar a melhor obra de engenharia civil a nível mundial, e que é atribuída pela IABSE - International Association for Bridge and Structural Engeneering. A outra obra vencedora foi o museu de arte de Milwakee (EUA), projectada pelo internacionalmente conhecido arquitecto Santiago Calatrava que, entre outras obras, é o autor da Gare do Oriente, na EXPO, em Lisboa.
Na Expo 98, em Lisboa, com projecto de arquitectura de Siza Vieira, pertence também a António Segadães Tavares o Pavilhão de Portugal.
Homem simples e simplesmente excepcional diz-me António Segadães no mail que talvez eu gostasse de saber. Sim, gosto, mesmo que isso me não cause nenhuma admiração. Mas simultaneamente corta-me todas as palavras possíveis, ainda por cima quando se trata de um amigo vindo do antigamente, na vida e que, a todos os títulos, sempre foi bom em tudo. Abrir um dicionário de adjectivos é, grosseiramente, uma atitude menor e um olhar convencido e vaidoso para o umbigo. Porque entendo, pela amizade e pelo carinho que lhe devoto que falar dele é, sem nenhum pudor, ousar falar de mim para só dizer o melhor.
É gratificante, todavia, ver que alguma coisa feita em Portugal - enquanto Alberto João não proclama a independência da Madeira e das Desertas - é, pela positiva, reconhecida internacionalmente. Nós portugueses, com o orgulho pelas ruas da amargura, tal como o bolso, que só estamos habituados a ver o carro vassoura e a apregoarmos que, com a força anímica do governo, ainda acabamos a pisar as calcanhares à Grécia.
Um apertado abraço de parabéns, António. Em Junho, se a ti te sobrar tempo e a mim me crescerem algumas economias, a gente encontra-se pela zona da Batalha, para almoçar. E conversarmos de como voava o bico de lacre e zunia o maribondo, com a chuva trazendo-nos aquele cheiro a terra à mistura com salalé perdendo as asas e passeando-se na areia fresca.
A manhã noticiosa anuncia que a ministra das finanças substituiu uma declaração de IRS pelo facto de aí não ter incluído uma verba de 15.000 euros relativa à venda de uma casa na zona de Sintra. Um dos irmãos da ministra, o advogado sortinguista Dias Ferreira, já publicamente confirmou a situação e anunciou que a mesma se ficara a dever a um misto de ignorância e esquecimento. Mais dois irmãos da ministra também terão sido vítimas do mesmo vírus e não terão igualmente declarado as mais valias realizadas.
Entretanto, no ministério, um porta-voz da ministra anunciou não ter havido nenhum esquecimento. O que se compreende. Era o que nos faltava termos uma ministra que nunca se engana, que raramente tem dúvidas e que depois, grosseiramente, se esquece! Para mais, além da ministra, a estatística registaria mais três irmãos seus esquecendo-se ao mesmo tempo e do mesmo assunto. A doença passava a ser congénita, afectando a família toda sem que, a prazo, se pudessem arrolar as mal formações que poderia causar nem tão pouco a forma clínica de as combater e erradicar.
Mas, especialmente à atenção do Dr Dias Ferreira, fica pendente a questão. Então o Dr acha que há sistema que possa resistir, mesmo às investidas do seu correligionário Dr Dias da Cunha, quando se posiciona no centro da área um defesa central alto, rápido, tecnicamente evoluído e fisicamente dotado mas que não salta, não corre e é preguiçoso? E que, ainda por cima, é distraído e se esquece dos adversários? Essa, só contaram para si, não foi?
A actualidade nacional é habitualmente dominada, dia a dia, durante a semana, pelo futebol. De segunda a quarta a discutir resultados, condenar os árbitros, lamentar as vitórias morais, realçar os fora de jogo e os golos marcados em posição irregular ou mesmo com a mão. Depois, de quarta a sexta, a criticar a nomeação dos árbitros, conferir os atletas lesionados, em má forma ou mesmo apanhados nas malhas do dopping pelo uso de uma qualquer droga proibida que faz bem às amígladas. Hoje, especialmente, a actualidade do país tem sido dominada pelos 23 convocados para a selecção que irá disputar a fase final do Euro 2004.
Já ontem o país se manteve impaciente e nervoso, até às três da tarde, como se fosse casar a sua única filha, rica, com um pelintra que, com a comunhão de adquiridos, assinasse um passaporte para a fortuna. O drama da chamada comunicação social, a especializada e a outra, já era tentar adivinhar se Vítor Baía seria ou não um dos eleitos, ainda que estivesse cansadíssima de saber que o não seria. Como não foi.
Logo a seguir à enumeração, lenta e pausada, dos nomes dos seleccionados o Sr Scollari foi questionado sobre as razões porque decidira assim. Não sendo simpático, passando a vida a dizer em voz alta que não exerce o cargo para fazer fretes, tentou responder polidamente. Para acabar a dizer, aliás muito correctamente, que lhe competia falar sobre os 23 que escolhera e não propriamente sobre algumas centenas que deixara de fora. O que está rigorosamente certo.
Hoje os jornais preencheram as primeiras páginas com títulos de mão cheia e as páginas interiores com dados biográficos sobre os 23 cavaleiros da Távola Redonda. As datas de nascimento, a altura, o peso, a cor dos olhos e a medida do colarinho. Promoveram-se debates públicos, que ainda não terminaram, e auscultou-se a opinião dos ouvintes. Os portugueses podem ser preguiçosos, levantar-se tarde, abandonar a escola antes de tempo e produzir pouco como se não cansa de salientar o ministro da indústria. Mas sabem de tudo, especialmente de futebol. Hoje o seleccionador Scollari foi apelidado de cabo lateiro, sargento e general. Elogiou-se-lhe o critério - de que ele nunca falou - e reclamaram-se explicações, patrioticamente, em nome do país. Adiantaram-se conselhos tácticos e sussurraram-se infalíveis estratégias de vitória. Cantou-se o hino nacional, enrolou-se a bandeira das quinas ao redor do tronco, a emoção embargou vozes e outros, mais frágeis, deixaram cair a lágrima furtiva.
O governo? Bem, como tanto gosta, passou despercebido, sem se falar dele. Em plena estação do Rossio um bando de secretários de estado foi metendo impunemente a mão nos bolsos dos contribuintes que regressavam a casa. Sem polícia que os importunasse e muito menos os ameaçasse com a prisão e a companhia do Dr Vale e Azevedo. Ontem também, um ministro que não tem jeito nem para a prédica nem para o sermão, anunciara a privatização da água. Ninguém lhe ligou nenhuma, como se isso não interessasse. Com o Euro 2004 à porta, de facto, é espúrio estar a discutir a questão da água. Se Deus quiser, no próximo inverno, há-de chover muita!
A renovação do Jardim da Cordoaria, foi incluída nas obras do Porto 2001, Capital Europeia da Cultura a que prosaicamente chamaram obras de requalificação. Na altura, sem nenhuma obra concluída, a cidade recorda o ridículo da cerimónia de inauguração que trouxe ao norte, numa invernosa manhã de chuva e lama, o primeiro-ministro António Gueterres.
As obras continuaram, até que o ano acabasse e a sociedade Porto 2001, dona delas todas, se extinguisse por ter ultrapassado o prazo de validade. A respectiva presidente, Teresa Lago, não conseguira fazer valer, como gestora, os seus conhecimentos de astrofísica e andara permanentemente à porra e à massa com um desajeitado rapaz, de mais de um metro e noventa, que à altura era presidente da Câmara.
A Porto 2001 extinguiu-se, Teresa Lago rumou à Assembleia da República como deputada, a política sempre tem muito mais a ver com a astrofísica do que as obras na rua. Estas ficaram como estavam: paralisadas. Sem dono, sem dinheiro para as concluir, ao abandono. Aliás como outras que transformaram em crateras aparentemente vulcânicas algumas das velhas praças do burgo. Teresa Lago partia e orgulhava-se do que tinha feito: o Porto 2001 tinha sido um sucesso.
Mal ou bem, tarde ou cedo, as coisas lá acabaram por ser retomadas e as obras dadas por concluídas. As velhas ruas e as velhas praças foram completamente descaracterizadas, removeram-se lagos e fontes que o portuense julgava terem nascido nos locais, arrancaram-se árvores centenárias e, de um modo geral, não se plantou uma que fosse. Utilizaram-se materiais de qualidade inferior, fez-se pressa para assinar autos de recepção, pagar aos empreiteiros, arrecadar as luvas.
Agora o Jardim da Cordoaria vai entrar de novo em obras para substituir o sistema eléctrico que, como o resto, é novo e ainda cheira a isso. Mas a necessidade de substituição decorre do facto de o actual não ser compatível nem com o normal funcionamento do jardim nem com as operações regulares de manutenção e limpeza do espaço, segundo o vereador do Ambiente, Rui Sá. O autor do projecto não comenta a decisão, alegando desconhecê-la. Mas recorda que a obra foi aprovada, fiscalizada e acompanhada pela Câmara do Porto e que o projecto tem direitos de autor.
Parece que as coisas não têm corrido lá muito à maneira a Manuel Monteiro, apesar do extenso currículo: licenciado em direito, sem ser por convite, e docente convidado da Universidade Lusíada e da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes. Presidente do Partido da Nova Democracia, ex-presidente do CDS, ex-amigo de Paulo Portas, inimigo de estimação do ministro da Defesa, ex-deputado à Assembleia da República e candidato a deputado ao Parlamento Europeu.
Sendo assim e seguindo conselhos de La Palisse pelos quais, há já dez anos, um americano esperto a que chamam guru (ou canguru?) cobrou uma porrada de massa, optou por diversificar a actividade. Assim sendo, criou uma empresa de transportes, arranjou um endereço na internet e partiu para a propaganda directa. O que quer mudar? Recheios de habitação, mobiliário de escritório, apartados de balanço, jornais velhos e revistas do coração, objectos frágeis? Consulte-nos. Atendemos vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Apesar de católicos praticantes vamos à igreja por turnos, sem prejuízo dos compromissos assumidos e da satisfação das encomendas em carteira, sem nenhum aumento de preço.
Não vá, telefone! Se quiser mudar o recheio da habitação carregue um, para mudar móveis de escritório carregue dois,… para não mudar nada, desligue. É serviço garantido, com certificado de qualidade.
Na falecida União Soviética teve que se atirar ao trabalho bem jovem, num país onde o salário mínimo não era e não é dos mais elevados da Europa. Além disso a propriedade, dizia-se, era colectiva e a acumulação de riqueza radicalmente proibida.
Aos 37 anos Abromovich é conhecido por ser dono do Chelsea, clube londrino de futebol, que adquiriu em meados do ano passado por cerca de 50 milhões de euros, mais de 10 milhões de contos e, desde há duas semanas, como quase certo futuro patrão de José Mourinho, o humilde e nada arrogante treinador do Futebol Clube do Porto.
Mas, para além do futebol, tem interesses dispersos por negócios com petróleo, alumínio, aviação, produtos alimentares, farmacêuticos e televisão. Faz ainda uma perninha na política e é também dono de uma equipa de hóquei no gelo e procura adquirir uma equipa na liga norte-americana.
Vive de modo espartano numa casa de renda económica, em Moscovo, ocupando apenas 42 hectares e tem ainda residências em Inglaterra, França e várias regiões russas. Dispõe de vários iates, possui um Boeing 767 e gosta de comer piza e de vestir calças de ganga. Não consome álcool ou tabaco. Apesar das múltiplas ocupações, sobrou-lhe tempo para se casar e para fazer cinco filhos.
A revista americana Forbes coloca-o no 25º lugar entre as pessoas mais ricas do mundo. Porra! Para enriquecer honestamente, à custa do trabalho, não fugindo aos impostos, num país onde a propriedade era colectiva, muito deve ter o desgraçado trabalhado desde a morte da mãe. Portanto, nos últimos 36 anos. Até mesmo o nosso António Champalimaud, morreu muito mais velho e tinha umas pequenas economias que, por vezes, acrescentara por vias pouco transparentes.
Se o governo do Dr Barroso fosse diligente, patriótico e esperto, reunia em plenário e dizia à ministra das finanças para abandonar a ideia peregrina e disparatada que tentar vender património do Estado apenas constituído por terrenos rurais sem nenhuma utilidade e por barracas em ruínas que nem os honestos industriais da construção civil cobiçam. Em vez disso propunha ao Sr Abramovich a venda do país todo, num lote único, incluindo a Quinta da Marinha para ele poder alojar a criadagem. De modo transparente: por ajuste directo!
Sendo o país, como se sabe, esmagadoramente católico, que tem a Sé de Roma a esconder aos fiéis, mesmo que estes frequentem cada vez menos as suas igrejas? Quanto ao silêncio do governo, é compreensível. Mais do que isso, insere-se na sua prática habitual de morder pela calada. E, por razões pessoais, seria incómodo para Durão Barroso entrar solenemente nas instalações da Secretaria de Estado, correndo o risco de Arnaldo Matos estar à coca entre os peregrinos da Praça de S. Pedro e de o poder ver entrar.
A Suiça é hoje, mais do que ontem, uma pequena mancha isolada na Europa Central. Geograficamente pequena, mesmo assim cerca de um quarto da sua superfície é ocupada por neves a que nem o degelo primaveril acaba por valer. Mais de vinte por cento da sua população é composta por estrangeiros. O que sempre nos chegou, a seu respeito, é que se trata de uma país rico, composto por não sabemos quantos cantões, professando uma neutralidade militante e que fabrica relógios e chocolates. De precisão uns, de qualidade superior outros.
Não vemos reportagens de visitas de estado à Suiça, os seus governantes, que nos lembremos, não visitam regularmente o nosso país e não dispõem de forças armadas convencionais há muitos anos. Não nos chegam também ecos da agitação social diária e não consta que nenhuma equipa Suiça de futebol tenha ganho a Liga dos Campeões ou sido sequer finalista. Mas, apesar disso, o Jornal de Notícias de hoje reserva-lhe, na última página, uma curta notícia, a uma coluna, de pouco mais de uma dúzia de linhas, que achamos interessante transcrever.
Os suíços rejeitaram, por referendo, três projectos de alterações às reformas, ao aumento do IVA, bem como ao regime fiscal, medidas apoiadas pelo Governo e pelo Parlamento. Os eleitores recusaram, por 67,9 por cento dos votos, reformas prevendo, nomeadamente, que a partir de 2009, a idade de reforma passasse dos 64 para os 65 anos, como os homens, bem como uma redução das pensões das viúvas. Por outro lado, 69 por cento dos suíços disseram não a um aumento do IVA destinado a financiar as reformas e as pensões de invalidez. O Governo defendia o aumento de um por cento para as reformas e de 0,8 por cento para a pensão de invalidez. A reforma fiscal foi rejeitada por 65,9 por cento.
Quanto a nós, portuguesinhos, que nos esquecemos com facilidade de tudo, já se nos varreu o resultado do referendo que o governo do Dr Barroso realizou, antes de aumentar a taxa do IVA para 19 por cento. Embora ainda nos recordemos que o aumento se não destinou ao financiamento de coisa nenhuma mas, muito apenas, a diminuir a desgovernado défice orçamental. O nosso Estado, proprietário rico, deixa ao abandono e em petição de miséria um vasto património, de cuja manutenção nem sequer sabe cuidar. Enquanto permite, arbitrariamente, que ministros adquiram submarinos para patrulhamento das fronteiras e vendam, ao desbarato e a pagar tarde ou nunca, dívidas e monumentos em ruínas. Tudo, se necessário, com a aprovação do nosso parlamento rural e profundo. Mas vão à Assembleia da República, vão. Auscultem um a um os seus 230 deputados sobre o que pensam da extensão do referendo a um conjunto de matérias de maior interesse colectivo. Depois contem-nos as respostas que obtiveram!
Dentro de menos de um mês, por sinal no dia em que se celebra um dos santos populares mais queridos do país, vão realizar-se eleições para o parlamento europeu. Há um ou dois dias mais uma das sondagens que com despudor tomam uma ínfima parte pelo todo proclamava que mais de metade dos inquiridos não sabiam sequer em que data se irão realizar. E, naturalmente, muito menos saberão para que servem, quantos deputados elege o país, que duração tem o seu mandato, que funções terão. Não sabem e não se interessam. Pura e simplesmente marimbam-se nisso, e fazem muito bem.
Não se admite que os partidos do governo promovam o obscurantismo do eleitorado, mas compreende-se. Ocupam o poder, ainda hoje não sabem muito bem como lá chegaram, perseguem o propósito único de o conservar. Depois de mais de dois anos a viver à grande e à francesa continuam a justificar todos os desvios, todos os deslizes e toda a incapacidade com a herança que lhes foi legada pelo engenheiro Guterres que aproveitou a primeira oportunidade para se escapulir pela esquerda baixa.
Já quanto aos partidos da oposição a questão é diferente. E partidos da oposição com hipóteses futuras de serem chamados ao governo há, em boa verdade, apenas um. Gostemos dele ou não, sejamos ou não frequentadores da Quinta da Atalaia, cumprimentemos o Dr. Louçã e a D. Ana Drago, digamos ou não alguma coisa ao Manel. E esse partido é, obviamente, o partido socialista. Que persegue uma táctica de avestruz, enterra a cabeça na areia e proclama que é preciso mostrar um cartão amarelo ao governo, como se isto fosse um desafio de futebol promovido pela liga do arguido major.
A título de opinião o deputado Fernando Gomes, que não foi melhor ministro que Figueiredo Lopes, dá a uma crónica o título "Más novas" e arrola uma ladainha de desgraças que têm acontecido ao governo, como se isso lhe tirasse o sono e o apetite. Ideias não apresenta uma, propostas não as faz, insiste a querer dar razão ao primeiro ministro quando fala de aves de agoiro e propõe a ordem da liberdade para um Bokassa madeirense. Não interessa o arrolamento sistemático e exaustivo das desgraças. Interessa saber como se pode inverter a situação!
O próprio Ferro Rodrigues equivoca-se com frequência. Goste do Sporting, mantenha o lugar cativo, vá aos jogos - se é masoquista, porque é para sofrer mais um pouco! - e deixe os cartões para os árbitros. Deixe-se de ajustes de contas. Se a questão é de desagravo desafie Barroso para um duelo à moda antiga, num dia de semana, manhã cedo, para a Praia das Maçãs. Deixe-se de suspeitas sobre se Durão remodela antes ou depois das europeias. Diga-nos o que nos propõe, como corrige os desmandos do ministro do grupo Mello, que pensa da actuação do Bagão e que propõe. Elucide-nos! Diga-nos quem propõe para o parlamento europeu, porquê e com que projecto. Fale-nos da Europa onde os políticos se enfartam, pedagogicamente informe-nos. Se não souber mais, ao menos diga-nos que as europeias são a 13 de Junho, a seguir à noite das sardinhas no pátio alfacinha.
Ouço e leio que Bruno Baião, em coma profundo desde terça-feira passada, morreu. Em boa verdade, e infelizmente para ele e para os seus, foi apenas e finalmente declarado morto. Porque, tanto quanto nos quer parecer, o infeliz atleta do Benfica estava praticamente morto desde aquela data.
O desenlace relança de novo algumas questões que julgamos importantes e cuja explicação deve ser procurada até à exaustão. Clinicamente declarado apto para a prática do futebol, Bruno tinha, todavia, antecedentes clínicos que não eram de desprezar e que, ao que cremos, o impediram de praticar desporto durante uma época.
Fica agora, prematuramente morto um jovem a quem a vida ficou a dever muitos anos, a dúvida sobre eventuais disfunções cardíacas e sobre a assunção do risco que, em relação a isso, muita gente resolveu assumir.
Não vamos invocar a moral ou a ética no futebol, porque não existem. Muito menos agora quando as cúpulas do dirigismo que o conduzem são investigadas sob fortes suspeições e largos indícios de falcatruas para muitos e variados gostos. Mas é preocupante que numa coisa a que impropriamente alguns persistem em chamar desporto se pratique, à vista de todos e a troco de inconfessáveis interesses financeiros, uma autêntica escravatura destes tempos de globalização. Os homens não são mercadorias que se compram e se vendem, arrecadando chorudas margens de lucro. Recorde-se que ainda recentemente, sobre o termo da ligação de Luís Figo a José Veiga, - que ninguém sabe quem era ou o que fazia antes de ser proclamado "empresário" - veio a público que este tinha arrecadado um milhão de contos com a mudança do futebolista do Barcelona para o Real de Madrid. Que riqueza foi produzida? A quem aproveitou? De que serviu?
Que tantas mortes seguidas, umas de atletas conhecidos, outras de actores anónimos, não sejam em vão. Que impliquem as investigações que sejam necessárias. Que desencadeiem a emissão de normas que, claramente, estão em falta ou são inadequadas. Em memória dos que morreram e em defesa dos que sobrevivem!
Ainda manhã cedo, sendo sábado, vi-me na auto-estrada do norte, rumando a sul. Bom tempo, sol aberto, céu quase sem nuvens, previsões a indicarem temperaturas de início de Verão, que se aproxima. Trânsito intenso mas tranquilo, o código da desbragada caça à multa ainda a marinar.
Saída em Fátima, muita gente, muitas excursões, mas ultrapassada a grande afluência de peregrinos para a data mítica de 13 de Maio. Paragem breve, um café, meia dúzia de passos, alguns alongamentos como quem se prepara para entrar em campo a dois minutos de expirar o prolongamento. Descida até Ourém, apanhando de frente, imponente e altaneiro, o castelo, no cimo do monte. Ligeiramente abaixo a Colegiada, solene e magnífica. Imagino o chafariz, cá em baixo, algumas vezes centenário, jorrando água continuamente, desde sempre.
Almoço em Ourém, onde as obras, para já, parecem terminadas. Há coisas de que não gosto, mas os buracos foram tapados, o caos tornou-se menor, parece controlado. É um regresso frequente este, a Ourém. Frequente e breve, sempre breve de mais. À tarde partirei de novo, de regresso ao Porto, mais duzentos quilómetros para percorrer.
Vou ao Agroal, no fundo da ravina, onde uma nascente sem parança engrossa o caudal do Nabão, a caminho de uma cidade mítica como é Tomar. O local está quase deserto, meia dúzia de automóveis de quem habitualmente frequenta o café, as águas transparentes, uma azenha teima no volteio interminável da sua roda, sem fim e sem utilidade.
Um salto a Tomar, para ser apenas de passagem, a verificar se lhe chegam cristalinas as águas que lhe vêm do Agroal. Não sei o que se passa, há festa e barracas dispostas ao longo do rio. Inverto a marcha, falta-me o tempo e a disposição para me perder no aglomerado de pessoas que diviso. Passo pela capela de Nossa Senhora da Piedade, edificada inicialmente no século catorze, vejo a cidade lá ao fundo, tranquila, arrumada, preparando-se para a canícula do Estio. Do outro lado, único e incomparável, o Convento de Cristo, com o castelo ao lado. A dimensão, a nobreza que, mesmo ao longe, se reconhece e se admira.
Caminho já de volta com um desvio a rever, depressa que o tempo é curto, o aqueduto de Pegões, obra de engenharia que certifica a capacidade de quem o projectou. Ali permanece hoje, atravessando campos de pousio, sobranceiro e inútil, para a fotografia. A missão para que foi edificado, cumpriu-a. Agora, aposentado, permanece digno e orgulhoso, com a consciência do dever cumprido. Os tempos mudaram, não beneficia de nenhum subsídio de desemprego, deixam-no no ermo do vale, abandonado, sem cuidarem dele. Não admira que assim seja, é o que vemos dia a dia.
Deixo, também breve, o cumprimento aos bloggers de Tomar, cidade amiga, cidade perto, cidade de voltar sempre, de que eu, pessoalmente, gosto tanto. Por isso, uma vez por outra, seja qual for a estação do ano, um regresso breve, sempre com redobrado encanto, sempre com renovada certeza: é para voltar de novo. Para já, estou de regresso a casa!