Estarão prejudicados os contactos telefónicos. Não dispomos nem de "voice mail" nem de "call center". Andámos à procura de quem nos traduzisse ambas as expressões para recrutarmos alguém, em trabalho temporário para ajudar os empresários e o país, mas não o conseguimos. Não sabendo que anúncio publicar, em português, claro!, desistimos da ideia. Funciona à boa maneira portuguesa: baixam-se os estores e fecha-se a porta.
Que alternativas temos nós, consumidores? Pagar pontual e religiosamente as facturas que nos mandam. Sem reclamar coisa nenhuma, porque não vale a pena. Desvantagens dos monopólios de facto: fazem o que lhes apetece e ainda lhes sobre tempo. Então hoje isto está demais! Fica-se velho a aguardar que uma qualquer página seja descarregada. Desisto!
José Saramago foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em função do conjunto da sua obra. Literária, naturalmente. Não cabe na cabeça de ninguém que o tenha sido pelas suas descobertas no âmbito da química ou sequer em resultado da sua actuação em favor do bem do próximo, à semelhança da madre Teresa de Calcutá.
Lançou agora o seu Ensaio sobre a lucidez, um novo romance, ou seja, mais uma obra de ficção. A literatura é, como a música ou a pintura, uma manifestação de arte. E nunca a arte conseguiu afastar-se tão completamente da realidade social circundante que tivesse sido capaz de a ignorar. Por mais árdua e persistente que tenha sido nos percursos feitos.
Daqui para a frente é perfeitamente abusivo que se pretendam extrapolar premissas de um romance para a realidade política em que subsistimos, por mais miserável que esta seja. Achou a editora aproveitar o lançamento do livro para uma provocação alargada, convidando pessoas com percurso político relevante. Descobriu, com isso, a mais forte alavanca de promoção que poderia ter imaginado e, coisa rara no analfabeto mercado português, a primeira edição sai para os escaparates com cem mil exemplares.
Entenderam os convidados o propósito do convite que lhes foi feito e assumiram a provocação. A nosso ver uma das mais lúcidas posições é defendida por Mário Soares, embora parta de pressuposto incorrecto. Recusa a hipótese significativa do voto em branco numa perspectiva real e afirma que à democracia apenas se deve opor mais democracia, para a melhorar, para a fazer evoluir, para levar o cidadão a participar cada vez mais. Teoricamente o princípio está certo. Na prática e no caso português à democracia tem-se oposto sempre menos e pior democracia, com maior afastamento do eleitor que não participa e se não vê sequer representado, ainda que remotamente.
O resto é irrelevante. Interessa lá que Saramago eleitor seja candidato em eleições reais e que Saramago ficcionista romanceie a defesa no voto em branco! Interessa é mudar o sistema, afastar da política profissional os oportunistas, os corruptos e os demagogos. Nisso é que estamos interessados e isso, infelizmente, não é ficção nenhuma!
1 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
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2 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
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3 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
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4 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
Fica a comunicação social dispensada de proceder à divulgação das declarações de sua excelência, por razões óbvias. Nenhum jornalista, seguramente, quererá aproveitar-se de coisa nenhuma para denegrir ainda mais a imagem de um tal ministro.
Ainda o estudo não foi adjudicado, já o país se esqueceu e o ministro viajou para Bruxelas a reclamar o subsídio. Porque o ministério é muito mais dependente do subsídio do que da fome ou até mesmo da miséria. Depois há sempre o recurso à comparação, inevitavelmente favorável, de se poder assegurar que a situação é muito mais negra no Biafra ou até mesmo em Angola, apesar do petróleo, dos diamantes e do José Eduardo dos Santos. Entretanto prosseguem as obras para que o Euro 2004 comece sem sobressaltos, a tempo e horas, satisfazendo as condições que, ditadora, a UEFA impõe aos donos da bola. Nesse dia nenhum subalimentado sentirá o estomâgo colar-se-lhe às costelas. Estarão todos fartos, de barriga cheia.
A fome e a miséria não são nem uma fatalidade nem uma vergonha. São um crime de que nos deveríamos acusar todos, voluntariamente, sem necessidade do Ministério Público. Ser julgados sem direito a nenhuma defesa. Condenados sem prerrogativa de recurso para nenhuma outra instância. Não é apenas o ministro que anda distraído. Esse anda-o por função e exigência do protocolo, ninguém espera nada dele, pelo menos de bom. Mas nós não, nós vemo-los pelas esquinas da noite, quebrando o frio à força de alcóol, aquecidos por dentro à custa do tabaco. Esgaravatando sacos e contentores dos nossos restos, como crianças de África, avidamente procurando os restos que ninguém deixou. Nós, afinal, esbanjamos. Os nossos animais de estimação recusam o alimento que evitaria a morte de duas crianças antes de chegaram à escola. Recusamos a misericórdia de uma moeda para um pão e ficamos a aguardar os resultados do estudo do ministro.
É uma espécie rara a espécie humana. Tanto se degladia, tanto se agride, tanto se flagela e nunca se extingue. Como uma praga. Não temos, quanto a isto, muito de que nos orgulhar. E, estupidamente, estamos convencidos que sim!
Comentário dos portistas: Oi cambada! Lixámos os mouros dos dois lados da segunda circular, carago. Pensavam que o que tinham pago chegava para os noventa minutos de jogo mas só deu para oitenta e oito. Comemo-los todos! Comentário do Francisco, comodamente sentado no sofá da sala, comando do televisor na mão, copo de Martin's 20 ao lado, com alcagoitas para o "tira-gosto": Uff!
Número de exemplares do Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, publicados pela Editorial Caminho e colocados à venda na passada quinta-feira: 100.000. Estão incluídos três exemplares distribuídos a cada um dos convidados a participar no lançamento oficial, a saber, Mário Soares, Marcelo Rebelo de Sousa e José Barata Moura. Está também incluído mais um, oferecido a título de promoção ao Homem a dias, que nos próximos três meses o irá ler em público e em voz alta, nas feiras, lotas e romarias do país. Fará apenas uma interrupção de dois dias, a 12 e a 13 de Junho próximo. No primeiro deles para deixar que os ouvintes assistam, sem interferências, ao primeiro jogo do Euro 2004. No segundo, que é domingo, para que vão à missa e depois disso sigam para a interminável fila que levará às praias da costa. Quem não puder apanhar sol deve resguardar-se e, se assim o entender, ir votar para o Parlamento Europeu. Mesmo sem saber que parlamento é esse, para que serve ou, ao menos, quais são os candidatos nacionais e que currículo possuem. Percentagem da população portuguesa que não costuma ler livros: 54,1%. Menor do que os 58% das empresas que não pagaram IRC em 2002, o que corresponde a um louvável esforço de colocar a cultura acima dos impostos. A este propósito é injusto que o ministro Roseta permaneça na penumbra e ninguém saiba o que faz ou onde mora. Daqui segue, em sua homenagem, o ramo de flores que tanto merece e a admiração sem limites com que o contemplamos. Posição ocupada por Portugal na escala dos países da União Europeia com menor índice de leitura: 1. Indicador obtido antes do alargamento a mais dez parceiros, em Maio próximo. O triunvirato constituído pelos ministros da Educação, do Ensino Superior e da Cultura conseguiram entretanto acautelar os interesses nacionais e garantir que a nossa posição não será afectada pelo alargamento. O nome de cada um deles vai ser dado pelo Dr Rio a novas ruas do Porto que receberão ainda, durante a noite, a plantação das respectivas placas toponímicas que, segundo o próprio, terão a importância da torre dos Clérigos daqui a 30 anos. Ele mesmo será mais conhecido ainda em vida do que Nicolau Nazoni depois de morto. Só não sabe é se será como presidente da Câmara!
Fê-lo, segundo disse, porque lhe restariam apenas condições para permanecer no governo: ter um chefe de gabinete, não sei quantas secretárias, três caixotes de prebendas. Mas deixava de ser exequível o seu projecto, que todavia não disse qual era.
Também, verdade seja dita, nunca ninguém o descobriu ou soube dele, tão confidencial se manteve sempre. O único a saber foi aquele deputado do queijo, de Ponte de Lima. E vocês recordam-se ainda de quanto é que o engenheiro teve de pagar por isso?
Quase na mesma altura alguém se dava ao cuidado de fazer contas pela quadragésima quinta vez, sobre os benefícios fiscais que aproveitam a um casal desfeito, com dois filhos, por comparação com um casal à antiga portuguesa, fiel a um casamento para a vida e para a morte, como teve o cuidado de lhes referir o padre que os casou.
Não cabem aqui as muitas considerações que estas questões despertam em nós e que, muito mais fundamentadamente, deveriam despertar nos responsáveis, embora não despertem. Mas diga-se, de passagem e apesar disso, quanto à natalidade, que deveria haver propósitos e projectos para inverter a situação ou, no mínimo, para lhe reduzir a dimensão. Não é esta, como sabemos, a vocação dos nossos políticos. Que não têm projectos e que, quanto a ideias, se ficam muito aquém das do professor Pardal dos livros de quadradinhos da nossa juventude.
Quanto à incidência fiscal sobre os casais desmantelados, de há muito se sabe também como e a quem isso aproveita. E fases houve em que, com essa única intenção, muitos casais formalmente se desfizeram para recolherem os frutos possíveis. Depois, aparentemente, a questão perdeu fulgor porque a evasão fiscal se tornou mais fácil, generalizou-se, passou a ser - como é - normal declarar rendimentos de cem e gastar duzentos. Como? Simples! Ou sendo severamente forreta, tipo Manuel Damásio, ou alegando herança recebida da tia solteira e rica ou ainda, tipo Pedro Caldeira, ter ganho muito dinheiro na bolsa de valores.
O país, como se dizia em "post" anterior, tem um ministério da administração interna. E também tem um ministério cujo nome deveria ser o do desemprego e da insegurança social. Mas, ao contrário do anterior, este tem um titular. Largamente apoiado, pelo menos quando, de cachecol ao pescoço, se esparrama na tribuna do estádio da Luz para assistir ao Benfica - Estrela da Amadora. Seis milhões, segundo contagem do Sr Manuel Damásio, gritam o seu nome, como benfiquista. Ao invés, fora do estádio, os mesmos seis milhões vaiam-no e cobrem-no de impropérios, como governante.
Confrontado com ambas as situações descritas o Dr Bagão manifestou desagrado. Não por palavras, mas viu-se pelo sobrolho carregado, quase se confundindo com o da Dra Manuela Leite em dia de reunião de negociações com aquele Sr Picanço, sobre os aumentos do funcionalismo. De palavras foi parco e contido, graças a Deus. Porque se mais abrira a boca maior disparate se lhe teria de também ouvir. Disse ele que a fiscalidade não aumenta o número de nascimentos!
O que é brilhante porque vem em defesa de teses que um seu colega de partido, - perdão, o homem é independente, quase nos esquecíamos disso! - que teve a honra de poema manuscrito e dedicado à sua pessoa por Natália Correia, quando assegurou aos parlamentares seus colegas que o acto sexual era para fazer filhos. Bagão Félix, anos depois, vem lucidamente reafirmá-lo. A fiscalidade pode ser um grande coito, mas não aumenta o número de nascimentos. Para o número de nascimentos, tenha-se isso presente, é o acto sexual. Como ensinou João Morgado, que tinha feito só um filho. E a nós a fiscalidade não fez nenhum. Mas tenta!
O governo tem na sua estrutura um ministério da administração interna. Mas o ministério, infelizmente, não tem um ministro, tem um fenómeno do Entroncamento. Mais propriamente um nabo que, sozinho, dará para todo o concurso da sopa dos ditos que o major Valentim dos ... de ... anualmente promove em Gondomar. Tanto assim que o aumento de mais de 23.500 crimes entre 2002 e 2003 não representa, em sua opinião, nenhum aumento de insegurança. Em boa verdade não houve mesmo nenhum aumento do número de situações criminosas, as pessoas é que se queixaram mais dos crimes.
Está visto que as pessoas se queixaram do mesmo crime mais que uma vez, muito provavelmente em diferentes esquadras de polícia. Com um dia de sol, o meio do mês já passado, o orçamento familiar pior do que o do Estado, o cidadão levanta-se, espreguiça-se e questiona-se sobre o que pode fazer com tão bom tempo. Almoçar fora não, por falta de dinheiro para a gasolina, ou para os transportes, para o frango assado, para as batatas fritas congeladas há dez meses. De repente ocorre-lhe! Há dois meses fui assaltado por um esqueleto armado de seringa, exigiu-me a carteira, fui apresentar queixa. Nunca mais me disseram nada. Vou dar um passeio e apresento queixa de novo. Foi isso, as pessoas queixam-se de tudo, quase sempre sem razão nenhuma, e reincidem! Já não se contentam em queixar-se uma vez e queixam-se várias. Como o ministro que se não limita a dizer uma mentira: repete-a até dignamente se convencer de que fala verdade!
As agressões a polícias aumentaram 40 por cento, muito acima da inflação e, ainda, muito mais acima dos aumentos que, nos dois últimos anos, a ministra das finanças esbanjou com os funcionários públicos. Mas o híbrido de ministro assegura ter-se cansado de querer regenerar todos com palavras doces e palmadinhas nas costas. E ameaça que terminou o tempo da desautorização das forças policiais, das hesitações e das ambiguidades.
Haja Deus! Olha se não tinha terminado?
Narciso Miranda chamou agora a si o pagamento dos 33.000 euros - 6.600 contos, pasme-se! - gastos na campanha, anunciando que os pagará do seu próprio bolso. O vereador Rocha apresentou a demissão que, todavia, não foi aceite. Diz Narciso que ele agiu de boa fé, o que naturalmente não chega. Porque, se chegar, basta que se invoque a boa fé para de seguida se cometerem os maiores dislates, em nome da transparência e do interesse público. A decisão do Senhor de Matosinhos levanta um outro problema, já velho. Sabe-se quais são os ordenados dos autarcas e, com isso, que Narciso precisará de quase um ano de trabalho para pagar a factura. Pergunta-se como conseguirá subsistir, prescindindo do ordenado. Sabendo-se também que no país tudo é possível. Até comprar uma moradia na Quinta da Marinha por meio milhão de contos ganhando-se apenas o salário mínimo nacional. Não é um país de contrastes, este. É antes um país de milagres! Ah! Como era politicamente correcto, os colaboradores mais próximos de Narciso Miranda designaram por aproveitamento político miserável a atitude de alguns seus opositores ao levantarem a questão. Tendo-se mantido calados, não teria havido aproveitamento e talvez um dia destes se encontrassem todos, numa sexta-feira depois do horário de trabalho, a uma mesa da Marisqueira Majara. Assim…
Nos dois últimos dias cruzaram-se espadas, salvo seja, entre Maria Filomena Mónica e Pedro Santana Lopes tendo, como pano de fundo, a figura sarcástica de Eça de Queirós. Tudo a propósito de um edifício que a Câmara de Lisboa adquiriu pensando ser o que não era e para albergar o que não existe, chamando-lhe Casa Eça de Queirós. Para onde, desde logo, nomeou directora.
Dizendo-se Filomena Mónica não queiroziana há que reconhecer, no mínimo, que saberá mais sobre Eça que Santana Lopes sobre o concelho que administra. Tem trabalhado muito em torno da figura do escritor e contribuído vigorosamente para a sua divulgação. Sem subir à cátedra, tirar da carteira os óculos para ler ao perto e falar para uma plateia caduca, com a cabeça pendente de sono e de indolência.
Santana Lopes respondeu-lhe ontem, à sua maneira, como se o fizesse nas páginas de A Bola e escrevesse a crónica do Rio Ave - Sporting, tentando arrasar o árbitro por lhe ter recusado as prendas para a mulher e para os filhos, tão convictamente adquiridas.
Hoje Vasco Pulido Valente vem pronunciar-se sobre o assunto na sua meia coluna do Diário de Notícias. No seu estilo cáustico, com o desprezo que dedica às pessoas de quem fala. Por uma vez, vale a pena ler!
Tirem-na daquele filme, antes que a película pegue fogo. Poupem-nos! Deixem que seja o Seara a falar do Benfica e a dizer o que é que falhou na táctica contra o Inter!
Hoje Santana, na condição de vice-presidente do PSD para que o não confundam com presidente da câmara, confessa-se no Diário de Notícias, nestes termos: Não sei quantos cantos ao certo seriam devidos para descrever as musas que me têm aparecido ao longo da vida. Nem todas têm trazido apenas bons momentos. E é natural que nenhum de nós possa satisfazer todas as musas. Considero uma injustiça haver uma Casa Fernando Pessoa em Lisboa e não haver uma casa dedicada a Eça de Queirós. Também concordo que será bonito haver uma casa dedicada a Cesário Verde. Depois as injustiças, em segundo lugar. Há muito mais gente a precisar e a merecer a deferência. Uns vivos, outros não. É preciso saldar dívidas do seu consulado para com Saramago, que até está por cá. E amanhã terá de certeza no seu gabinete os pedidos formais, expedidos por correio azul, do professor Freitas do Amaral, de Mário Cesarini, de Urbano Tavares Rodrigues. Calado e de sobronho carregado, António Lobo Antunes há-de aparecer-lhe a meio da manhã, a pedir-lhe a chave. E a saltitar, lançando gritinhos estridentes, há-de aparecer-lhe, para o almoço, a Margarida Rebelo Pinto. A saber se lhe destinou casa em algum dos bairros sociais e se lha entrega!
Bem, vamos por partes e, sendo assim, comecemos pela primeira. O que este gajo vem dizer à malta é que nem os dez cantos dos Lusíadas chegariam para albergar todas as musas em que se tem inspirado. Mas não se nota nada, pelo menos no que respeita a obras de cultura. Apareceu agora um livreco, dez anos depois, sem merecimento. Mas ele confessa e diz que nem todas lhe têm trazido bons momentos. O maganão! Afinal tem estado apenas nessa, de curtir. E assume que é natural que se não possam satisfazer todas. O que, no caso dele, a fazer fé nos boatos, deve ser verdade. Mas deve-se tentar. Além disso hoje há outros recursos, é questão de se informar.
Já quanto à realização de estudos a perspectiva é diferente. Por completo. Os portugueses fazem estudos em barda que, todos juntos, não servem para nada. Juntam dois ou três jovens, pagos a quinhentos escudos à,hora sem recibo,- como o Dr Portas fazia na Universidade Moderna, em defesa da igualdade de oportunidades - mandam-nos para a Rua de Santa Catarina a uma qualquer hora de ponta, fazem-nos correr atrás das pessoas apressadas que passam a caminho do almoço ou de regresso a casa, colocar-lhes meia dúzia de perguntas rápidas e imbecis que não travam a pressa mais que dois minutos. Depois metem a simples centena de respostas obtidas, intercaladas com todos os "não me chateie" que as acompanharam, num computador construído a partir de componentes importados de Taiwan e extraem conclusões sobre toda a área metropolitana do Porto. Com uma margem de erro sem expressão acabam a concluir que toda a gente adora o presidente da câmara, acha o metro do Porto o sistema de transporte mais eficiente do mundo e o Futebol Clube do Porto, definitivamente, maior que o Leixões.
Ainda hoje o Jornal de Notícias escreve em título "Utentes não estão satisfeitos com os centros de saúde", referindo-se a um estudo realizado pela Deco em Junho e Julho do ano passado, como se fosse necessário fazê-lo para chegar a tão brilhante conclusão. Ali se diz que um terço da população espera um mês por uma consulta do seu médico de família, quando o tem. Em Espanha isso consegue-se de um dia para o outro. Se a consulta for de especialidade a situação complica-se e a espera alarga-se para o dobro do tempo: dois meses. Se for no Algarve, apesar de Espanha ficar logo na outra margem do Guadiana, a questão piora ainda mais. No dia da consulta, cuja chegada é logicamente festejada com bolo-rei, espumante da Bairrada e foguetes, a espera ronda as duas horas. Em instalações que em nada se parecem com o gabinete de nenhum ministro, sem luz, sem ventilação e, quase sempre, sem cadeiras.
É de enaltecer o trabalho da Deco? Claro que é, a começar desde logo pelo número de inquiridos: cerca de cinco mil. Em relação a 2000, três anos antes, as coisas melhoraram? Não se dá por isso! O ministro da saúde vai olhar para os números? Vai chamar ao seu gabinete os responsáveis da Deco para melhor se esclarecer? Claro que não! Vai continuar a falar no sucesso das listas de espera para as cirurgias: dos que estavam inscritos há dois anos já ninguém espera. Os que não foram operados, morreram. Daí para cá ninguém mais se inscreveu, o país passou a ser saudável. Ou medroso. Quem dava cabo da saúde dos portugueses era o engenheiro Guterres, já ninguém sofre de almorróidas ou toma Prozac para se sentir feliz. Ou, então, já há mais medo da cura do que da doença!
Entretanto é isto que permite ao Hospital de São João, S.A. gastar mais de cinco mil contos a fazer publicidade a si próprio, como se se masturbasse. Como aqui, num outro "post", referimos ontem. São os sinais da retoma já claramente visíveis por aquelas bandas. O dinheiro já sobre onde sempre faltou. Gasta-se é mal e naquilo em que se não deve. O que espanta é que ninguém seja responsável por coisa nenhuma. Mesmo que o ministério não tenha tido conhecimento prévio da iniciativa, o ministro acabará a louvar tão proficientes gestores. E a propor mesmo que sejam condecorados no 10 de Junho.
Acha ele que as reacções do Banco Central Europeu são sempre atrasadas. Poderiam melhorar-se as coisas mas, infelizmente, não tem o Sr Luís Delgado condições que lhe permitam aceitar mais um honroso convite, ainda por cima além fronteiras. Mas regista a questão em agenda. Perderia o país se o dito emigrasse. Muito, porque dele deriva esta dinâmica que o bardo do regime enaltece em esconsos versos alexandrinos: é a guerra, é a guerra!
Descobriu ainda que, afinal, tem também um "feeling" especial para as questões da transparência, da bolsa de valores e das contas das empresas. E entende, muito doutamente, que a revelação dos vencimentos dos administradores das empresas cotadas em bolsa - imensas em Portugal, como se sabe! - não representam nenhum acréscimo de transparência. Ao contrário, são espreitar pelo buraco da fechadura da casa de banho. A ver que publicação se entretêm a folhear aqueles que, embora ricos, se contorcem no desconforto da sanita: as enciclopédias do Sr José Vilhena ou a Hola da última semana.
E não deixa, felizmente, passar em claro o encontro feliz do Dr Durão Barroso com o Sr Tony Blair. Para relembrar que a aliança histórica é forte - deixando de lado aquela velha questão do ultimato - e que a ajuda britânica, nomeadamente para a produção e comercialização do vinho do Porto, é perfeitamente fundamental. Um homem em forma, no seu melhor. Como o juiz de Castelo de Paiva que se decidiu por atribuir a causas naturais a queda da ponte de Entre-os-Rios e não levar a julgamento os areeiros por não terem culpa nenhuma.
O Conselho de Administração, consciente do papel central do Hospital de S. João na modernização e na implementação das necessárias reformas estruturais que têm vindo a ser preconizadas por Sua Excelência o Sr. Ministro da Saúde, vem, publicamente, informar os utentes do SNS dos resultados do seu exercício relativos a 2003. Com esta divulgação, o Conselho de Administração pretende ainda homenagear a dedicação e o esforço dos profissionais de saúde deste Hospital, responsáveis últimos pelo êxito que estes resultados demonstram. As considerações são a transcrição por extenso do que pode ler-se nos quadros e, no essencial, salientam que se fizeram mais consultas, por exemplo, com menos dinheiro, menos horas extraordinárias e menos funcionários. O que talvez queira significar que o funcionamento será optimizado sem nenhum dinheiro, sem horas extraordinárias e com os funcionários todos disfrutando das merecidas pensões de reforma. Já agora, sem aumentos! O presidente do conselho de administração, que deve muito provavelmente ser um médico, poderia ter-se previamente aconselhado com alguém que soubesse alguma coisa de números. Bastar-lhe-ia até que chamasse, directamente da janela do gabinete, algum aluno da Faculdade de Economia que passasse na rua e que lho perguntasse. Quando se fala de resultados, fala-se inevitavelmente de resultados contabilísticos e o Hospital de S. João, à semelhança de outros, passou a ser uma sociedade anónima, embora com o capital social com uma estrutura esquisita. Ou, melhor dizendo, sem estrutura nenhuma: é de accionista único, neste caso o Estado. Portanto o Hospital S.A. deveria divulgar contas e não indicadores sobre os quais se não sabe sequer como foram obtidos e a que critérios obedecem. E, mesmo assim, deveriam essas contas ser certificadas por entidade externa e independente, vulgarmente referida como auditores ou, no caso português, como revisores oficiais de contas. Assim fica-se pelo desbragado elogio do ministro, para que contenha qualquer remoto pensamento de exonerar seja que administrador for. E ainda pelo auto-elogio que, magnânimo, torna extensivo aos profissionais de saúde ao serviço. Como se diz, elogio em boca própria é vitupério. Ou pior!
Seguem-se dois quadros preenchidos, como se disse atrás, com números vazios e sem certificação de rigor, acompanhados de considerações inúteis e patetas. Comparam-se, relativamente aos anos de 2002 e 2003, os números de consultas externas, hospital dia, urgências, intervenções cirúrgicas e internamentos. Depois, num segundo quadro, os subsídios à exploração, as horas extraordinárias e o número total de funcionários.
Para Santana Lopes é perfeitamente indiferente que o hotel Bragança fosse na Rua do Alecrim ou na Rua de Vítor Cordon, tanto mais que ele não era o presidente da câmara e, portanto, não é responsável. Mesmo que se não deva divulgar a idade de ninguém, ele nem sequer tinha nascido. Depois as coisas ocorrem-lhe sempre com algum atraso, tanto assim que só deu por ter sido o responsável pela cultura do país, passada uma dúzia de anos e não se sabe depois de quantas passagens pelas docas. É sempre uma concessão da sua parte dedicar um espaço à instalação de uma Casa de Eça de Queirós, uma vez que não o conheceu e não espera tê-lo como cliente do novo casino em cuja construção está empenhado, a bem da redução dos aviltantes níveis de pobreza no concelho e da erradicação da toxicodependência no Intendente.
A Dra Ana Piedade foi seleccionada como directora, seguramente em resultado de concurso público e no mais escrupuloso respeito pelas transparentes normas que a autarquia tem em vigor, embora com carácter reservado por questões de segurança. Depois, como a própria defende, o que é relevante é o facto do edifício se situar numa zona a transbordar de referências queirozianas. Sendo assim poderia o mesmo ter sido adquirido, com igual e inatacável lógica, no Porto, na Póvoa de Varzim ou mesmo em Havana. Nos Campos Elíseos não, que o preço por metro quadrado está pela hora da morte. E como é o próprio presidente da câmara a decidir "estas coisas", muita sorte houve em que o mesmo, pura e simplesmente, não tivesse decidido que Eça nem sequer existiu porque dele se não fala no Kremlin.
Ficámos curiosos quanto ao facto da haver queirozianos encartados. Perseguindo um dos objectivos do governo, que é elevar-nos o orgulho, - travestido de auto-estima! - solicitamos a Maria Filomena Mónica o especial favor de nos fornecer o endereço da entidade que emite os respectivos cartões, para que possamos solicitar o nosso. Para juntarmos, na carteira, aos que já lá exibimos, do Círculo de Leitores, do Automóvel Clube, do Inatel, das sapatarias Charles e dos Armazéns Marques Soares. Muito obrigados!
Os dois grandes partidos políticos da vida airada, PSD e PS, no secretismo dos gabinetes e à má fila, como convém a cada um deles, parece que admitem, em conjunto, viabilizar a possibilidade das mesas de voto, nas próximas eleições para o parlamento europeu se manterem abertas até às dez horas da noite. Como isso é coisa que lhes interessa apenas a eles, acordam no segredo a ver se, em conjunto e mais uma vez, ludibriam o eleitor.
Despreze-se a possibilidade dos nossos políticos não fazerem ideia do país em que vivem. Isso é um lugar comum, já toda a gente deu para esse desgraçado peditório, não há mais nada a acrescentar. Do país que deveriam servir - e não servir-se dele, como se fosse uma prostituta! - os políticos apenas conservam o passaporte, de preferência diplomático.
Nos fóruns que entretanto se promovem sobre o assunto há intervenções de doutores que têm defendido teses sobre a questão e constatado que a abstenção tem crescido desde 1999. Não refere esta perspectiva, por uma vez que seja, o crescente desinteresse do eleitor pelos políticos que elege, pelo incumprimento das promessas que fazem e pela nebulosa transparência com que actuam. Prefere referir-se ao eventual desconhecimento que o eleitor tem - o burro! - sobre a influência que a abstenção pode transmitir aos resultados.
Noutra perspectiva há quem defenda a obrigatoriedade do voto, sugestão que também nada tem de novo. É assunto sobre o qual todos os partidos, cada um por si, estão absolutamente de acordo. Voto obrigatório e no partido especificado, obviamente o deles. O desacordo só surge na última parte, naturalmente. O voto é, a nosso ver, a primeira manifestação de liberdade democrática. Fazer dele uma obrigação corresponde, desde logo, a interferir com a liberdade do cidadão que se não reveja na série de "cromos" que se apresentam como candidatos. Que o recenseamento o seja, é outra coisa, como a posse do bilhete de identidade.
Mas o que é imediato, aquilo que é referido sistematicamente pelo eleitor que não faz mais do que votar, é o generalizado descrédito dos políticos em quem já ninguém acredita. Ninguém vai empenhadamente participar num acto que lhe não diz nada, que nada contribui para a sua felicidade ou para o seu contrário. Como o são as queixas, também generalizadas, dos que se confessam enganados, por ingenuidade, por este governo e por quantos o antecederam. Não estão estes também, como masoquistas, na disposição de alimentar a farsa. Como quem diz: quanto mais me bates, mais eu gosto de ti!
Com pompa e circunstância o governo anunciou ontem, pela boca do primeiro-ministro, um conjunto de cem compromissos - vocábulo de conteúdo indefinido e de cumprimento duvidoso - a concluir até 2006, na data da celebração do 10º aniversário do Dia Internacional da Família. Fê-lo no Teatro Nacional D. Maria II que, como se sabe, é o local mais frequentado pelas famílias lisboetas e que apenas é ultrapassado na noite de Santo António pelo Pátio Alfacinha. Não é igualmente frequentado pelas famílias residentes na província, nomeadamente no Douro Litoral, Trás-os-Montes e Beiras, devido ao congestionamento das auto-estradas e ao elevado preço dos bilhetes de comboio.
As cem medidas constituem, obviamente, um extenso manifesto de intenções que, preferencialmente, contempla aquilo a que chama medidas sociais em detrimento de incentivos fiscais. Claro! Antes de mais é preciso assegurar que as medidas, na eventualidade de serem implementadas, não representarão nenhuma quebra na arrecadação de receitas e, se possível, nenhuma subida nas despesas suportadas pelo orçamento. Depois anunciam-se generalidades ambíguas, sem nada de concreto, que possa amanhã vir a comprometer o governo. Quer dizer, sem custos imediatos, a campanha eleitoral para as legislativas de 2006 está em marcha!
Os enunciados chegam a ser caricatos. A reforma parcial e a redução do tempo de trabalho entendem-se como incentivos à promoção da família. No que, naturalmente, são precedidos pelo desemprego, pela pré-reforma, pelo trabalho precário e pelo encerramento irreversível das empresas. Como, a propósito, agora acontece com a Bombardier na Amadora. E como, ao que parece, vai acontecer de seguida e até ao final do ano, com a Delphi na fábrica do Linhó, Sintra.
Trata-se, neste caso, deste governo e da coligação que politicamente lhe serve de muleta. Mas a questão é mais profunda e denuncia a ignorância, o desinteresse e o desrespeito da classe política para com o país real que a emprega e que lhe paga. Os políticos não conhecem o país nem estão interessados em conhecê-lo. Desconhecem os seus problemas e não estão minimamente interessados em conhecê-los. As taxas de natalidade atingiram mínimos nunca sonhados. As populações estão cada vez mais envelhecidas e abandonadas. Não há estruturas onde se possam acolher, não há sistema de saúde que se ocupe de as tratar. O Estado, naturalmente, demarca-se de quaisquer responsabilidades que lhe possam ser imputadas, não vá o diabo tecê-las.
Se em vez de intenções fossem anunciadas medidas concretas, que não se limitassem a ser compromissos vazios, nem sequer seriam necessárias tantas. Se assim fosse, os problemas estariam extintos antes de consumidos todos os remédios.
Não há nenhuma intenção de estabelecer paralelos entre o funcionamento da justiça no reino da Suécia e na república de Portugal, mesmo que ambos os países sejam membros efectivos da União Europeia. O que, por si, evidencia as diferenças que existem entre os diversos estados membros, na justiça como no resto.
O Dr Carlos Tavares é, ainda, o ministro da economia. É um mal-amado, mesmo que se apresente diariamente no seu melhor, de cabelo arranjado, fato feito à medida e sapatos engraxados por um paquete. Apesar dos esforços, dos cuidados com que os vendedores de banha da cobra lhe tratam da imagem, não consegue convencer e tem de tomar a bica sempre sozinho, solitário e apressado, como se tivesse lepra. O engenheiro dos supermercados já publicamente lhe fez saber que, este ano, lhe não manda pela Páscoa nem as amêndoas, nem o pão de ló.
Hoje, desavergonhadamente, veio fazer concorrência desleal ao plumitivo Cabo Delgado, digo, Luís Delgado, explicando o aumento superior a 4 por cento que os combustíveis já sofreram desde o início do ano, altura em que os respectivos preços foram liberalizados. Dizendo, de forma subentendida, que os portugueses são burros - ele é português mas já viajou muito pelo estrangeiro! - e que o cu não tem nada a ver com as calças.
Disse sua excelência, insolente, que a culpa é do clima e dos rigores do inverno que atrasaram, e muito, a sementeira da beterraba na Lapónia e a apanha da fava no concelho de Almeirim. Como se isso não bastasse, esgotaram-se as reservas que ainda havia no Beato e os custos de exploração do petróleo das Berlengas dificultam a rentabilidade da concessionária. Como um mal nunca vem só - como os ministros - a república federativa da banana e da madeira reduziu a quota com que abastecia o país, substituindo-a por poncha sobrada do arraial do Chão da Lagoa.
O país conclui que não precisa de cangalheiro. Já tem ministro de economia e isso basta-lhe!
Reconhecido, o povo de Boticas quotizou-se, como se faz nos casamentos e nos funerais, e adquiriu uma vitela para oferecer ao Dr Durão Barroso. Deu-lhe banho, aparou-lhe os cascos, escovou-lhe os pêlos e limpou-lhe a espuma do nariz e a ramela dos olhos vivos. Aspergiu-lhe pelo dorso uma fragrância suave e campestre a carqueja e mandatou o presidente da câmara para que fizesse o discurso e se encarregasse da entrega.
Embevecido, o primeiro-ministro mirou a bezerra de pata a pata, enxotou-lhe as moscas das orelhas, passou-lhe rapidamente a mão direita pelos cornichos a despontar. E agradeceu. Para todavia anunciar que não dispunha no quarto dos filhos de mais nenhum sítio no beliche onde a futura vaca pudesse, confortavelmente, repousar. Levá-la para a residência oficial não dava muito jeito e podia até ser comprometedor. As vitelas, como as crianças, prejudicam sempre o trabalho dos adultos e, se deixadas à sua sorte, não sabem o que fazem, estragam as plantas e sujam as mãos com terra. Além disso, e mais perigoso ainda, seria a vitela poder entrar pelo hemiciclo em hora de plenário e interromper os discursos importantes, usando da palavra. E, se o fizesse, o que poderia dizer? Se calhar contestar o governo, a coligação e o ministro da defesa. Além disso, por estratégia, nem sequer interessava nada que a oposição pudesse conhecer a vaca com que anda a coligação, por causa da inveja.
Sendo assim, agradeceu muito, fez à vitela um último e terno olhar cúmplice e pediu que lha mandassem depois, acondicionada numa caixa térmica. Feita em bife e em carne para a sopa!
Utilizando helicópteros e mísseis, sob a direcção directa do conhecido humanista Ariel Sharon, casualmente primeiro-ministro, Israel conseguiu esta manhã um importante troféu de caça. Abateu, com apenas três disparos, o líder espiritual do Hamas, 67 anos, tetraplégico desde os 12, inutilizando ao mesmo tempo a cadeira de rodas em que se deslocava a velocidade supersónica. Ao que parece, entrava ou saía de uma mesquita próxima de casa, conhecido local de planeamento de operações de agressão como, em Telavive, são conhecidos locais de culto as fábricas de munições e os quarteis.
Céleres e solidários os americanos recomendaram calma, salientando que os mísseis custam dinheiro e que se não devem gastar três se se conseguir fazer o mesmo trabalho apenas com dois. O mundo, e particularmente o médio oriente, sentiram-se desde logo mais seguros e dizem os correspondentes das agências noticiosas que até se passou a respirar melhor. Não há, para já, perigo de maior para aqueles que consigam recolher-se a abrigos subterrâneos, a 50 metros de profundidade, desde que lá se mantenham 24 horas por dia.
O pacifismo campeia, ganha adeptos, recusa a guerra e a violência. Gandhi, afinal, era um principiante primitivo que não sabia nada de nada.
Primeiro, foi tarde. O Verão acabou em Setembro do ano passado, há seis meses, e tudo ficou calado. Nem palavras, nem gestos. Depois a verba anunciado representa, em escudos, cerca de oito milhões de contos. Menos, cremos nós, do que o subsídio com que o Estado financiou a construção de qualquer de cada um dos dez estádios para o Euro 2004. Directamente! Porque não se pode dar o mínimo crédito a um tal de José Luís Arnault quando diz e repete, como se falasse para parvos, que não houve nenhuns desvios nos custos de construção dos estádios. Houve! Os estádios custaram mais do dobro do que aquilo que foi inicialmente programado.
O Estado apenas manteve os subsídios directamente atribuídos aos donos de cada um deles. Mas omite, malevolamente, como se falasse para burros, os custos suportados pelas autarquias - que até são donas de alguns deles como acontece com Faro-Loulé, por exemplo! - e os que são suportados por organismos autónomos como, por exemplo, a construção de acessos. Que, se não fosse a bola, nem daqui a dez anos estariam construídos! E os dinheiros envolvidos, nestes casos, também são públicos.
Assim sendo, a montanha limitou-se a parir um rato, ainda por cima enfezado. Tanto mais que, segundo os jornais, no ano passado, com os resultados que se viram, tinham sido atribuídos ao combate aos incêndios cerca de 30 milhões de euros. Ou seja, cerca de seis milhões de contos.
O que se estranha é que o Dr Barroso continue a ser muito aplaudido pelas mentiras. A não ser que lhe batam palmas pela qualidade da representação. A ser assim ainda o veremos numa das próximas telenovelas da TVI a contracenar com Rui de Carvalho e Eunice Munoz. Mas não vai ter nem horário nobre, nem audiência. Muito menos palmas!
O lançamento de uma primeira pregadela do presidente da câmara, ele próprio, ao meio dia em ponto quando os pobres apontam à porta da sopa da Ordem da Trindade. Cautelosa por causa dos dedos e das unhas, na Rua da dita, da Trindade. Três televisões, incluindo as de Gaia, terreno minado e inimigo, sete emissoras de rádio, 3 jornais diários, 27 jornais regionais, duas centenas de convidados. Beberete, lanche rico de casa pobre, com biscoitos de sortido húngaro e refrigerantes sem gás. Arrumadores de rua reconvertidos de toxicodependentes em alcoólicos. Automóveis de gama alta estacionados nas traseiras, adquiridos em regime de locação que quer dizer "leasing", a gente não tinha dinheiro para tal dignidade.
Notificados os presidentes das juntas e dos clubes de futebol que compareceram todos, acompanhados dos vogais. O respeito é muito bonito, o partido é um patrão inteiro quando manda, o beberete é uma tentação. Ai os diabetes, amanhã vai ser fortalecida a dose matinal de insulina, se Deus quiser há-de voltar tudo ao normal.
O Porto, pronto. Ganhou placas toponímicas novas, de aplicação fácil como a abertura das latas de atum. Até presidente de câmara é capaz de fingir que prega uma, a primeira, a predilecta, subido numa grua como concorrente do um contra todos, o Malato no chão a fazer as perguntas, o computador pum, a dar as respostas. São muitas, todas com letras brancas sobre fundo verde escuro. Daqui a trinta anos serão uma das marcas da cidade, como a torre dos Clérigos ou a ponte de Luiz I, o presidente é modesto graças a Deus, usa gravatas compradas numa loja de chineses. Faltou-lhe referir o Jorge Costa e o Vítor Baía que na altura já terõao arrumado as chuteiras, mesmo que o Jorge Nuno seja ainda presidente. No cumprimento do 43º mandato, com maioria ou sem ela, ele é que manda e pronto, o José Mourinho já por essa altura deve ter chegado a seleccionador do Quatar.
Agora falta só levar ao outro lado da rua mais um contínuo, mesmo dos antigos, se ainda houver, com a quarta classe das escolas da Trindade. Para ele tentar ler o nome e dizer: façam as letras maiores porra, que assim ninguém lê nada. Tanto faz é para os analfabetos! E a cor, nem o filho do major gosta, ainda se fossem cor de rosa como a pantera. Agora verde! Ah, são as cores do Rio Ave, tinhas comprado o árbitro, adivinhaste o resultado. Não precisavas era de gastar tanto dinheiro, um a zero chegava, ficavas com algum para aumentar o tamanho das placas e das letras. Então não era ó pascácio?
Este seu novo evangelho não prevê a contrição, de forma a não provocar a interrupção da obra e a impedir a sua conclusão dentro da duração do mandato. Este evangelista de turno, confuso com o papel a desempenhar, julga-se Fernão Mendes Pinto, traveste-se de Fernão Mendes Minto, sobe "Por este rio acima "a cantar "a guerra é a guerra". Continuasse Luís Francisco Rebelo na Sociedade Portuguesa de Autores e teria que pagar os respectivos direitos. É mais complacente Manuel Freire, acha que são tudo recalcamentos de juventude, leva-se à conta da "Pedra filosofal". Que trapalhada vai por aquele rio abaixo!
Sem nenhuma justificação o local de realização da final da Taça de Portugal em futebol voltou, disparatamente, à ordem do dia. Com achegas sem nenhum sentido, verdade seja dita. Por um lado o presidente do Porto, Pinto da Costa, a defender a final a duas mãos. Como a poderia ter defendido à melhor de cinco, por exemplo. Deve tê-lo feito por ironia, a título provocatório, atirando os foguetes e ficando a ver onde as canas irão cair. A Taça é uma prova a eliminar, a uma só mão, incluindo a final. E assim deve continuar a ser para que mantenha algum encantamento, para que permita que alguns pequenos cheguem um pouco mais longe. Porque, como se sabe, não estamos num país onde isso possa ocorrer normalmente, com toda a naturalidade.
Depois a questão do local que o Dr Madail diz, depois de apurados os dois finalistas, manter-se em aberto. Não pode haver finalistas apurados sem saberem onde vão jogar. É uma questão perfeitamente surrealista. Ou se mantém um determinado estádio - pode ser o do Jamor, porque não? - atribuindo aos finalistas o mesmo tratamento, inclusive no que respeita ao número de convites e de bilhetes para venda. Se a Federação não for capaz de assegurar essa isenção e de garantir essa neutralidade, é melhor fechá-la de vez. Ou se diz, antes da primeira eliminatória, em que estádio será disputada a final. E lá será, mesmo que um dos finalistas seja o proprietário do estádio e, por isso, se sinta em casa.
Apenas acontece que o futebol é como o resto do país, ou pior. Não é exemplo de coisa nenhuma e todas as movimentações são determinadas por interesses inconfessáveis, sem lisura e sem transparência. Se assim não fosse a questão pura e simplesmente não seria questão nenhuma.
Há uma semana atrás os jornais apareceram cheios de publicidade à morte do pai do presidente da Câmara de Matosinhos, Narciso Miranda. A morte é, para todos nós, um assunto difícil de gerir, muito mais ainda quando se trata de alguém muito próximo. Como o pai. Entende-se a dor, manifesta-se a solidariedade necessária, deixa-se que as pessoas se recolham à sua intimidade e à sua dor. Mas este desenlace foi publicitado por todos os jornais, em anúncios de grandes dimensões e, em Matosinhos, ninguém que tenha ligações à Câmara ficou de fora. Fê-lo a Câmara, os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento, a Matosinhos Sport, a Associação para a Animação de Matosinhos, a Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos, a Matosinhos Habitat. Os custos, segundo uma estimativa da revista Focus, terá rondado os 25.000 euros, o equivalente a 5.000 contos. Quase o correspondente ao salário mínimo de cinco pessoas durante um ano inteiro. Com dinheiros públicos, é claro. Porque, mesmo estando lá quase desde a idade média, o presidente Narciso Miranda não é dono da autarquia. O assunto é melindroso e tem havido alguma relutância em abordá-lo. Mas o descontentamento e a desaprovação têm lugar mesmo no interior do Partido Socialista, a que desde sempre Narciso pertence. Infeliz, por caricata e grotesta, foi a explicação dada pelo vereador socialista Fernando Rocha. Por um lado porque anuncia que não houve irregularidade nenhuma, tanto mais que a oposição não levantou a questão na última reunião da edilidade e este pormenor constitui, a ser ver, sinal suficiente de legalidade. Depois porque, quanto aos critérios, esclarece: "considerámos que as pessoas iam gostar de saber para, solidariamente, dar um abraço ao presidente da câmara". Pergunta-se agora, humildemente, deste canto: e as pessoas sabem melhor e mais depressa quando os anúncios são de página inteira e publicados em jornais de norte a sul do país? E quanto ao abraço de solidariedade: já acabou a fila? Já está descongestionada a central telefónica da câmara? O ritmo do expediente já observa de novo a cadência normal?
Citando, diz Francisco José Viegas que é impossível explicar. Mais do que isso, meu caro: é impossível acreditar, mesmo ouvindo!
A legitimidade dos governos, numa perspectiva política, decorre do mandato que se entende ter-lhes sido atribuída pelo voto em eleições livres e justas. Esta a premissa de que se parte.
Duas questões genéricas mas fundamentais. Não assiste o direito ao Dr Durão Barroso, nem a ninguém, de achar que a Espanha venha ou não a ter problemas em consequência daquilo que os seus governos legítimos tenham ou venham a decidir. É um problema espanhol que deve ser resolvido pelos espanhóis, sem interferências ou pressões do exterior. Seja de quem for.
Outra relaciona-se com a invocada legitimidade dos governos, que se não contesta. Mas a situação trás à tona uma questão bem mais profunda: a de não poder entender-se que a legitimidade se possa tomar, alguma vez, por poder absoluto. A legitimidade não permite e não justifica tudo. Há decisões que claramente transcendem a esfera de competência dos governos e que apelam não à representação dos cidadãos mas à sua mais estreita participação.
Um ano depois é, mesmo que tardiamente, tempo para ponderar e reflectir sobre quem ganhou com a guerra e o que se ganhou com ela. Milhares de civis inocentes acabaram mortos, milhões desalojados, famintos e sem possibilidades de recurso a meios de subsistência. Os atentados e as mortes continuam diariamente. Nada nem ninguém, em nenhum lugar, passou a sentir-se em maior segurança. Gastaram-se fortunas cujo valor ninguém será capaz de calcular. A alimentar as indústrias de guerra e a globalizar a subnutrição, a fome e a morte de adultos e crianças que não dispõem, numa sociedade que se diz da abundância, de pouco mais de mil calorias diárias para subsistir. Não temos nenhuma razão para nos sentirmos orgulhosos!
Hoje não escreveu sobre o facto de ontem, após prolongamento, a Al-Quaeda ter arrebatado a Taça do Rei e deixado os nossos compatriotas Luís Figo e Carlos Queirós a roer as unhas. Vítimas indirectas do terrorismo que se apresentou em campo com o nome de Saragoça.
Ontem, alegando a falta de encomendas nos próximos anos, a Bombardier bombardeou 400 trabalhadores, anunciando-lhes o encerramento da fábrica e o termo dos contratos. Por via amigável, é claro. Fecha-se a fábrica, pagam-se as indemnizações e ficamos todos os amigos. Até porque as indemnizações serão superiores aos mínimos a que a legislação obriga. Os trabalhadores que fabricavam comboios limitar-se-ão, de futuro, a ver os comboios passar. Sem que, seguramente, apitem três vezes! O ministro Carmona Rodrigues empenhou-se pessoalmente no assunto. Com a mesma convicção com que se empenhou na pouca vergonha da TAP, deixando as coisas seguirem o seu curso normal e não fazendo coisa nenhuma.
Hoje os trabalhadores reuniram-se em plenário, aprovaram uma moção, seguiram em grupo para a Câmara da Amadora para a entregarem ao respectivo presidente. Este, ao que parece, estava ausente para o seu habitual banho turco. O governo, pela boca do ministro, disse não poder fazer nada mas que era uma notícia muito triste. Por solidariedade embargou-se-lhe a voz e rolaram-lhe pela face duas lágrimas furtivas que enxugou com o lenço de cambraia. A partir de amanhã, disse, no seu ministério os funcionários usarão gravata preta e fumo negro nas mangas dos casacos. Ele próprio dará o exemplo. Todo o governo, incluindo o primeiro-ministro, os ajudantes e os assessores estão inconsoláveis.
Os trabalhadores, como seria de esperar, interpretaram mal a situação e confundiram alhos com bugalhos. A única coisa de que realmente percebem é de bigornas e de marmitas para transporte do tacho. Então não vêem eles que o que realmente está em causa é o controlo da inflacção, a redução do défice público e, evidente para quem quiser ver, a retoma imparável no concelho da Amadora!
Creio, por mim, que a direita faz por estar e por se manter onde sempre esteve, da mesma forma, com a mesma descabelada arrogância e a mesma atávica falta de cultura e de princípios. Mesmo assim perdendo, de longe, para o radicalismo erecto do conselheiro Albino dos Reis. A direita dele não aceitava qualificativos e afirmava-se como nacionalista, em defesa da fé e do império. A de hoje traz os bolsos cheios de pedras recolhidas na queda do muro de Berlim e chama a si a suprema função de deixar entrar no paraíso os que ela própria rotula de bons. A direita de hoje não tem por ideal nada mais do que comprar submarinos e arrecadar a comissão. Desde que, obviamente, a não declare ao fisco para efeitos de IRS.
A esquerda foi sendo arrastada dos lugares que tradicionalmente ocupava pela acção de motoniveladoras que lhe cilindraram as ideias e arrasaram os ícones. Conserva consigo aquilo que ainda resta de cultura, conhece os clássicos, ainda se ocupa com a filosofia. Ainda escreve livros, como o senhor Manuel Alegre. Mas foi-se convertendo à construção civil, optando pelo casamento religioso e aderindo, progressivamente, às peregrinações a Fátima e à vespertina reza colectiva do terço. Quando chega ao poder não se reclama de coisa nenhuma e procura o consenso no seu próprio regaço, para o não perder logo de seguida. Inaugura com pompa e circunstância as obras que a direita lançou - sem concurso! - e lança ela própria - também sem concurso! - as obras que a direita há-se orgulhosamente inaugurar quando chegar a sua vez.
No meio de ambas o cidadão aguarda, feito mexilhão, gastando o subsídio de desemprego nos bilhetes de acesso ao futebol para ter motivo que lhe ocupe o resto da semana. Desacredita os sindicatos, que não promovem a bola e não asseguram nem o emprego nem o aumento dos salários. De resto, cada bacorada lhe serve de palavra de ordem, venha de onde vier, já que não serve para nada.
São os nossos políticos a fazer as leis que, na sua iluminada perspectiva, mais e melhor acautelam os nossos interesses de cidadãos comuns. Fizeram algumas, que não revogaram, sobre a obrigatoriedade dos detentores de cargos políticos apresentarem, anualmente, manifestos da sua acumulada miséria, porque ninguém acreditaria que fossem ricos. Mantém-se o hábito, sem penalização, de seguir a tradição do país e de não o fazerem apenas pelo prazer do ilícito e do risco. Como se fossem todos os elementos da academia de Coimbra, reunidos em plenário ao ar livre, na Praça da República, a virar-nos os rabos, baixarem as calças e mostrarem os cus alvos e mimosos onde se poderia ler, de cu a cu, escrito a marcador vermelho sobre as nádegas de leitão pronto para a matança: não pagamos!
Creio ter hoje descoberto, finalmente, grande parte da resposta. Quando o professor Marcelo Rebelo de Sousa - o mesmo daquela série semanal da TVI que passa aos domingos à noite, a meio das notícias, e que põe meio país de olhos no televisor e outro meio com pânico de olhar para ele - abre o livro e conta, de fio a pavio, o que ganha, como o ganha e onde o gasta. Depois disto eu próprio seguiria os mesmos procedimentos dos políticos. Por vergonha não apresentaria o tal manifesto, perfeitamente arrasador. Alguém compreenderia que um político eleito pudesse levar seis meses para ganhar aquilo que o professor Marcelo arrecada num mês? Claro que não, porque é uma ignomínia. Um atentado à condição de político. De nada tendo valido, até hoje, as reclamações do Dr Almeida Santos sobre o assunto. E ainda diz que são líquidos de descontos e lhe sobra tempo para os torneios de ténis, de Wimbledom a Roland Garros! Porra que é mesmo javardar os gajos!
A credibilidade confunde-nos. Quer isso dizer que não foram feitas por fotocópia autenticada como as normas legais estabelecem? Ou que não foram publicamente celebradas na presença de um notário, com a assinatura reconhecida na qualidade?
Em Nova Iorque, a 11 de Setembro, tinha havido ameaças credíveis que George W. Bush, por questões congénitas, não entendera? Em Madrid, a 11 de Março, os correios extraviaram a carta registada, com aviso de recepção? Em Lisboa, o conceito de credibilidade é o mesmo das contas públicas que a Dra Manuela Leite prepara? Esperemos, sinceramente, que não!
Antes do patriarca Loureiro o vir dizer publicamente ainda poderia haver dúvidas. Depois disso, nem se admitem. O futebol profissional é o espelho do país e o major o do futebol, o de Gondomar e o do Metro do Porto.
Ontem noticiou-se que uma auditoria ao Estrela da Amadora apontava para irregularidades da ordem dos 300 mil contos, cerca de um milhão e meio de euros. E ainda que não havia contas preparadas depois do ano 2000 e que se desconhecia o paradeiro do respectivo presidente. Este, seguramente, por mera questão de privacidade e por horror aos holofotes do palco e ao chinfrim dos metais da orquestra.
Hoje, José Maria Salvado, ex-presidente daquela agremiação, vem afirmar que nunca mexeu em dinheiro e que o futebol nem era sequer um pelouro seu. Está de consciência tranquila e assegura que apenas se limitou a assinar cheques. Prevê-se que amanhã, a conselho do presidente da Liga, venha acrescentar que, afinal, nem sequer chegou a ser presidente do Estrela da Amadora. Para não comprometer o ministro Arnault e as declarações que ontem fez, enaltecendo a construção de dez estádios para o Euro 2004, sem desvio nas verbas orçamentadas. Como disse, Dr?
Sílvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano e presidente do AC Milan, veio a público esclarecer que é ele quem realmente gere tudo no clube a que preside. E tudo quer dizer mesmo tudo, porque chegou ao ponto de dizer que é ele que constrói as equipas para cada jogo.
Tenho passado os olhos na imprensa desportiva e só oiço falar em Milan de Sacchi, Zacheronni e de Ancelotti, mas nunca no Milan de Berlusconi. Devo dizer que há 18 anos que sou eu que faço as equipas, dito as regras e compro os jogadores.
Percebe-se, e para bem de todos já o deveria ter dito há muito mais tempo. Berlusconi é um crasso erro de "casting" que ocupa o cargo errado. No AC Milan, a fazer as equipas, é que ele estava bem. Basta até atentar no posicionamento da equipa. Quase campeão em Itália e com boas perspectivas na Liga dos Campeões.
A ministra das Finanças apressa-se para emitir uma declaração em que relembrará a Belmiro de Azevedo o seu dever patriótico de enviar para o país as suas poupanças para fazer face à subsistência dos familiares que se manterão pelas berças. É um bom princípio a retoma - já ouvimos este termo, não sabemos onde! - das remessas dos emigrantes. Para ajudar a balança de pagamentos e a construção de estádios para a bola.
Há precisamente trinta anos, na madrugada de 16 de Março, de forma romântica e sem qualquer operação montada com um mínimo de hipóteses de sucesso, uns poucos militares saíram das Caldas da Rainha e marcharam sobre Lisboa. Constatando a falta de apoios e verificando a posição de forças leais ao governo da época, regressaram ao ponto de origem. Ao fim do dia era emitido o seguinte comunicado oficial.
Passados quarenta dias a ordem era subvertida em todo o país e o 25 de Abril restituia-lhe a liberdade usurpada muitos anos antes. Um grupo de militares fazia-o sem tiros e sem sangue. Permitiria o embarque dos governantes destituídos, tranquilamente, sem serem molestados.
Também em consciência digo a V. Exa. que não precisará de prestar contas a ninguém. Uma ministra não é uma mulher a dias a quem se confiam dez euros para ir à mercearia da esquina, comprar detergente para a loiça e a quem, depois, se confere a devolução do troco até ao último cêntimo, na dúvida de que pudesse ter utilizado o dinheiro necessário ao custo de uma carcaça para enganar o estômago. Isso seria naturalmente aviltante e o país, mesmo não reconhecendo a dedicação de quem o governa, ainda não chegou a tanto, mesmo que as razões lhe sobrem para esse mau feitio.
Acontece apenas que a obra de V. Exa. fala por si, se justifica a si própria, está à vista de toda a gente que, diariamente, contacta com os diversos serviços do seu ministério. Apenas o Sr bastonário da Ordem dos Advogados - um ingrato e mal agradecido - persiste na ideia premeditada de que o também respeitável ministro da agricultura tem, como engenheiro agrónomo, as mesmas aptidões para as funções e as teria certamente desempenhado com a mesma incompetência. Assim como V. Exa. teria tratado da questão dos frangos com nitrofuranos e dos porcos a evacuarem para o rio Liz com a mesma primária competência.
Um dia destes nós próprios, por imposição legal, nos deslocámos a uma das muitas lojas que o ministério de V. Exa. tem espalhadas pelo país, sob a equívoca designação de tribunais. Não fomos mal atendidos, mesmo que o diligente funcionário quase nos tivesse posto, diplomaticamente, na rua. Porque V. Exa. manda que os funcionários respeitem e tratem com deferência os contribuintes que pagam para os ordenados deles e para o seu. Mas acontece que ninguém sabia de nada, nem queria saber. Mesmo quando as situações eram de lógica linear se pronunciaram pelo disparate do sistema e pela faculdade de reclamação para a ministra. E fizeram-nos o preço a olho, como qualquer feirante com menos escrúpulos: mediram-nos de alto a baixo, sentiram-se 15 centímetros mais altos, olharam-nos para o cambado dos sapatos e estabeleceram 500 euros. Em consequência do protesto, condescenderam: está bem, 400 euros, como os ciganos. Com o devido respeito devido à etnia e ao Sr João Garcia. Os tribunais estavam parados no que respeita à área técnica, passaram a está-lo também na administrativa. Com a informatização - mal pensada, mal concebida e mal implantada - os tribunais não funcionam, os funcionários não funcionam, as tesourarias não funcionam. A única pessoa que funciona, porque se não cansa em repeti-lo, é V. Exa. Mas ninguém dá por isso, nem nunca deu.
Para que se notasse talvez fosse melhor que V. Exa. se incluísse numa das alíneas das muitas reformas que vem promovendo. Que o mesmo é dizer que se auto-reformasse. Poupava-se V. Exa. ao que mais salienta: a dedicada entrega ao trabalho em benefício de todos os portugueses. Com natural prejuízo do marido, dos filhos e dos netos, que o não merecem!
Mas o Dr Pacheco Pereira é, apesar disso, um homem inteligente, mesmo que ainda não tenha servido para ministro, como o Dr Portas. Poderia ser igualmente sensato e considerar que somos nós, eleitores, que lhe temos arranjado todos os empregos, não nos tratando como burros ou atrasados mentais.
A ideia que pretende expressar nas duas linhas acima não é sequer uma desonestidade intelectual: é um delírio. Digno do plumitivo Luís Delgado que, passe a rima acidental, ainda não chegou a deputado.
Como é usual a revista americana Forbes publicou a sua lista dos 587 milionários mais ricos do mundo. Não há grandes novidades e, honestamente, é assunto que não preocupa muito os portugueses em que nos incluímos. Fronteiras adentro é questão que apenas diz respeito a António Chapallimaud e a Belmiro de Azevedo que, parece, têm assegurada uma reforma mais confortável do que aquelas que o Dr Barroso promete aumentar até não sabemos onde.
O Bill Gates, com os seus 48 anos, continua à frente. Tem razões para dormir tranquilo e pode até pagar razoavelmente à empregada doméstica e à ama dos filhos. Chega-lhe para usar um automóvel topo de gama para si e permitir que a mulher use também um utilitário próprio, desde que se refreie nos consumos. Pode, com alguma contenção, matricular os filhos em escolas particulares e pagar o suplemento para o autocarro que lhos irá buscar a casa. Que é de sua propriedade, embora modesta, com um pequeno jardim verde, uma curta piscina arrumada a um canto do quintal e uma garagem em que, apertados, cabem os dois automóveis da família.
O mais novo é um alemão de nome esquisito, que ocupa o 262º lugar na lista e que tem apenas 20 anos. Não lhe invejamos a condição, coitado. Deve ter começado a trabalhar ainda na barriga da mãe, nascido de 7 meses, de cesariana por não dispor de tempo para ajudar no parto. De certeza que só come hambúrgueres, de pé e à pressa, enquanto emborca a coca-cola do copo plástico. Não deve ter tido tempo sequer para tirar a carta de condução e deve deslocar-se nos transportes públicos. À pendura, para não gastar dinheiro, porque de outro modo não teria chegado tão cedo à lista da Forbes.
Dos nomes incluídos na lista, 23 residem em Moscovo. O que, desde logo, permite concluir que o comunismo foi a melhor via para a criação de riqueza e para o enriquecimento. Porque, naturalmente, as fortunas não foram construídas depois do regime ter sido posto de borco, de mãos algemadas atrás das costas, enquanto o senhor Ieltsin ia fazendo provas de vodka pura. Aconselhados pelo consultor Pacheco Pereira, nenhum deles mentiu sobre a fortuna: limitou-se a atrasar a sua divulgação e a ser criativo quanto ao montante.
Só não percebemos é onde e como o Dr Pacheco ainda arranja tempo para este tipo de aconselhamento e assessoria. De certeza que deve andar a trabalhar em excesso, o que se lhe não recomenda. Mesmo que possa receber os seus justos honorários nas ilhas Caimão.
Não é novidade para ninguém que ontem se realizaram eleições gerais em Espanha. Poucos devem ainda desconhecer os resultados que produziram. O poder político muda de mãos. No cumprimento positivo do desiderato da alternativa. Os nossos jornais dizem que a Espanha virou à esquerda, sem aviso prévio e sem pôr pisca-pisca.
As eleições em Espanha quase chegaram a ser mais assunto cá do que lá. Antes delas ninguém sabia como ia ser e as previsões eram apenas para despistar curiosos inoportunos. Prognósticos, como dizia um antigo intelectual do nosso futebol, só no fim do jogo.
As nossas televisões montaram quartéis em Madrid, enviaram jornalistas do topo da hierarquia. Deram ao assunto a importância que, definitivamente, não tinha para nós. E, em alguns casos, superaram mesmo a atenção que as televisões espanholas lhes dedicaram.
Esta manhã já toda a comunicação social se pronuncia sobre o que aconteceu, e isso é público. Já se sabe até no mais recôndito ponto da China. E, com uma persistente queda para o exagero, já toda a gente sabe como e porque aconteceu. Descrevem-se fases, enumeram-se razões. Só não descobre um mínimo de bom senso que imponha alguma prudente contenção. A prudência não é atributo português.
Ontem à noite, ter permanecido um pouco mais de tempo ligados aos canais de televisão espanhóis, permitiria extrair algumas conclusões importantes. Desde logo sobre a forma sóbria e profissional com que a cobertura do acto eleitoral foi feita. Sem a insistência na opinião vulgar e inútil das centenas de comentadores, confortavelmente sentados em estúdio, com bebidas à descrição e charutos para os intervalos. Ouvidos responsáveis dos diversos partidos políticos, conhecidos os resultados, a antena mudou para outras questões. Realmente não é só o salário mínimo deles que é mais elevado do que o nosso. Na corrida para a Europa em que, esfalfado e deitando os bofes pela boca, o nosso governo se diz empenhado, já não levamos o atraso que vai de Madrid a Lisboa. Já nos levam o avanço de Madrid à remota ilha do Corvo.
Como se esperava, foi um debate elevado, isento e justo. Como se evidencia nos curtos apontamentos que seguem, as ideias abundaram e a discussão também. Tantas como os pontos de vista. O eurodeputado Ribeiro e Castro salientou o excessivo peso ideológico da Esquerda na Comunicação Social e referiu, pelo menos, dois jornalistas que são simpatizantes do PS, outros dois do PCP e - perfeita heresia - um do Bloco de Esquerda.
Opinião diversa teve o intelectual António Pires de Lima que, como sabem, declama comunicados para as câmaras da televisão do Estado cujo presidente, comunista, foi nomeado pelo Dr Carvalhas. Para alegar que a imprensa em Portugal continua mais à esquerda que o país real. Que ele não sabe onde fica, mas de que já ouviu falar. E promete começar a conhecer logo que puder, tendo até mesmo adquirido o último mapa de estradas do Automóvel Clube.
Ao advogado Proença de Carvalho não foi possível estar presente por ter um convívio de antigos alunos do liceu. Mandou um vídeo com um testemunho em que salientava que ainda se não pode dizer que o pluralismo esteja consagrado nos media. Foi muito aplaudido e os presentes que tinham o seu número de telemóvel enviaram mensagens, a felicitar e agradecer o contributo inestimável, erudito, etc e coisa.
Finalmente o professor universitário João Marques de Almeida extravasou do tema e referiu-se à recusa do Dr Mário Soares em debater com o Dr Portas publicamente. De forma isenta e muito sensata - como se esperava da sua condição de pedagogo - comparou a atitude do Dr Soares à menorização com que o Estado Novo tratava os portugueses. Há uma raiz totalitária no pensamento de muitos dos que se dizem defensores da democracia e, afinal, não sabem o que é praticar a liberdade. Acrescentou ainda que, como toda a gente sabe, o ex-presidente da República continua a ser influenciado pelo marxismo-leninismo. Salientou não ter pessoalmente queixas do Estado Novo, nem sequer na época em que, ainda de calções, foi um garboso chefe de quina da Mocidade Portuguesa. E prontificou-se a dar explicações gratuitas aos que, como o Dr Soares, se deixam ainda influenciar pelas macabras ideias dos senhores Marx e Lenine.
A encerrar foi cantado em coro, desafinado, o hino nacional. Os que não sabiam a letra de cor ou ficaram calados ou seguiram atrás dos outros, fazendo de segunda voz. Um êxito!
O presidente dos Estados Unidos pode não ter aderido ao protocolo de Kiotto, pode entender que não tem que dar satisfações às Nações Unidas, pode, por mero lapso, esquecer-se de avisar previamente o seu amigo José nos fins de semana em que viaja para o seu rancho, calça botas de bico, se escarrancha no dorso de um garanhão e, com falta de jeito, falha as laçadas aos cornos de uma rês mais dócil do que Tony Blair.
Mas é solidário com as mulheres e não se esquece de o manifestar no dia que internacionalmente lhes é dedicado. Até porque, no mínimo, conhece duas: uma que é sua mãe, outra com quem casou. Este ano chegou mesmo a pensar que conhecia três e assinalou-o com empenho.
Congratulando-se com a libertação, pelo governo líbio, de Fathi Jahmi, uma responsável local que foi presa em 2002 por defender a liberdade de expressão e a democracia, segundo disse.Azar dos azares! Acontece apenas que Fahti Jahmi é um engenheiro de 62 anos e, sem dúvida, do sexo masculino, segundo confirmação da Amnistia Internacional.
Carlos Horta e Costa, que é o presidente do Conselho de Administração dos Correios, terá dito que a empresa possui 75 balcões em Trás-os-Montes e Alto Douro e que está prevista a passagem de 26 para as juntas de freguesia e a criação de 4 lojas em que também participará a companhia de seguros Fidelidade Mundial. Acrescentou ainda que, no seguimento de um protocolo celebrado com a Associação Nacional de Juntas de Freguesia, na região transmontana já foram transferidos 4 balcões e, em todo o país, 500 postos desde 1989. Como habitualmente a acção em curso foi apelidada de reestruturação da rede de lojas dos CTT e foi ainda afirmado que a mesma não levará ao encerramento de nenhum balcão, mas apenas ao melhor atendimento, serviço e apoio aos cidadãos. De modo directo e muito sintético poderia afirmar-se que em cada palavra dita há uma falsidade camuflada, consciente, premeditada, do tipo gato escondido com o rabo de fora. Em segundo lugar as juntas de freguesia que são, como se sabe, o elo mais baixo da estrutura política que espartilha o país. Ainda não foram privatizadas nem consta que haja a intenção de as privatizar: ninguém daria nada por elas. Os autarcas que as servem são eleitos e beneficiam de empregos e de ordenados que, na grande maioria, nunca teriam. São também eles, na maioria dos casos, pessoas com alguma representatividade na terra mas com baixa instrução e com muito pouca ou nenhuma preparação para o desempenho dos cargos que, teoricamente, são para servir a comunidade. Então a primeira e grande perspectiva surrealista de tudo isto é termos o Estado sentado à mesa consigo próprio, negociando não se sabe o quê, na intenção única e sem imaginação de aldrabar o cidadão. Atitude em que é recorrente e em que não tem emenda possível. É um caso perdido. Mas, apesar de tudo, tal não basta ao Dr Horta e Costa, que vai mais longe, não se sabendo em defesa de que interesses ou de quem. Porquê? Desde logo porque o projecto visa pura e simplesmente retirar da alçada dos CTT os balcões que passarem para as juntas de freguesia e os que passarem a ter a participação da seguradora Fidelidade Mundial. Encerrando-os. O que persistir, daí para diante, será da responsabilidade ou das juntas ou de quem tiver assinado o contrato, seja a mercearia do largo ou o talho da esquina. Mas não dos CTT a que, politicamente, preside o Dr Horta e Costa. Finalmente a história dos 500 postos agenciados desde 1989. Balcões dos CTT e postos de correio são coisas completamente distintas. Ninguém melhor que o Dr Horta e Costa o sabe. E ninguém melhor que ele, intencional e premeditadamente, mentiria a este respeito e desta maneira. Um balcão é uma loja dos CTT, a encerrar com a passagem para a responsabilidade das juntas de freguesia. Um posto é o quiosque ou a mercearia do largo, que tem meia dúzia de selos que adquiriu com desconto e que aceita as cartas para serem expedidas. Para não variar, o Dr Horta e Costa esgrime, como os outros, a perspectiva temporal do monopólio do correio ser aberto à iniciativa privada. E de, por isso, ser preciso aumentar a produtividade, reduzir pessoal e aumentar os resultados. O serviço público de correios não é rentável, ninguém se vai interessar por ele, nem o Dr Horta e Costa. Aquele que pode sê-lo não é serviço público e os CTT vêm-no progressivamente desviando para empresas que, ridícula mas intencionalmente, enquadram num hipotético grupo CTT. Com resultados desastrosos porque, que se saiba, o sector privado não é gerido por comissários políticos. Destes apenas aproveita os favores e paga à tarefa. Sem recibo e muitas vezes em géneros!
A edição de sexta-feira do Diário de Notícias inclui uma pequena notícia proveniente de Trás-os-Montes com o título equívoco "Correios passam para as juntas". Depois refere declarações produzidas por Carlos Horta e Costa, em Murça, no final de um encontro com autarcas transmontanos.
Em primeiro lugar sobre a empresa, juridicamente classificada como sociedade anónima, de que o Estado, que politicamente nomeou o Dr Horta e Costa, é o único accionista. O que significa em termos de facto que as assembleias gerais de accionistas contam com a participação única de um funcionário do ministério que, credenciado para o efeito, se apresenta no local, à hora marcada, para discutir consigo próprio e aprovar, por unanimidade e aclamação, as contas, os resultados e o denodado esforço dos profícuos gestores a quem prestará público louvor. Lavrado em acta!
Em terceiro lugar o grupo segurador Fidelidade Mundial que, para quem não sabe, pertence à Caixa Geral de Depósitos. E esta, como os CTT, é uma sociedade anónima que tem apenas um accionista: o Estado. Tudo o que se disse em relação aos correios é verdadeiro em relação à Caixa. Com duas diferenças essenciais. Os correios prestam um serviço público e, pelo menos em relação a ele, não deveriam visar o lucro como se fossem um supermercado. A caixa, ao invés, não assegura serviço público nenhum e apresenta anualmente os lucros mais avultados do sector bancário, pormenor que faz corar de inveja e de raiva o engenheiro Jardim Gonçalves.
Depois os CTT estão-se marimbando para a melhoria do atendimento, do serviço e do apoio aos cidadãos que, na gíria diária, tratam por "clientes". Tanto assim que o emprego que garantem é cada vez mais precário e, como o próprio Dr Horta e Costa disse, há balcões que estão actualmente abertos apenas uma ou duas horas diárias. Amanhã estarão encerrados todas. A junta, a mercearia ou o talho aceitarão as cartas, venderão os selos, aviarão ao freguês o quilograma de arroz carolino e a carne de vaca para cozer, sem gorduras e sem osso.
A mesma notícia não referia o número de hospitais de campanha de que dispõe o estado espanhol nem sequer o número dos que utilizou para acorrer às necessidades decorrentes dos atentados do passado dia 11, em Madrid. Mas referia, significativamente, que os mesmos estavam montados e a funcionar apenas uma hora depois de se terem verificado as explosões. A capacidade logística para acorrer a situações de emergência também deve fazer parte de quaisquer planos de segurança. Ou esta ideia é equívoco nosso e basta que sejamos apenas suficientemente preventivos?
Duas linhas apenas. Para assinalar os cinco meses que hoje passam em relação ao início dos "posts" regulares neste blogue.
Atingiu grandes audiências? Não! Há que respeitar, nesta casa, os Barnabés e os Blogs de esquerda cuja antiguidade é um posto. Pretendia atingi-las? Não! Não somos, de todo, pela globalização selvagem e nunca pretendemos disputar o espaço a terceiros. Cada macaco no seu galho! Divertimo-nos? Sim, seguramente, bastas vezes. Divertimos os outros? Não respondemos a perguntas difíceis! Mesmo que tenhamos sido nós a fazê-las.
Vamos continuar? Sim! Para mal de alguns e tédio de muitos outros. O que vale é que há cada vez mais alternativas. Segundo a página de acolhimento diz o nosso Paulo que já vemos em 1058.
Depois vem um certo preciosismo sobre preferências de esquerdas e direitas. Naturalmente que os autarcas do CDS não gastam dinheiro na aquisição de bilhetes para a festa do Avante. Como todos os seus parceiros de direita, segundo o estudo, gastam mais em aquisições de terrenos e construções. Do mesmo modo os autarcas do Bloco de Esquerda não gastam dinheiro na compra de missais e de paramentos para o pároco da freguesia. À semelhança dos seus colegas de esquerda preferem investir mais em material de transporte, maquinaria e outro equipamento.
O estudo salienta ainda que os défices e as despesas de capital são mais elevados nos municípios dirigidos por políticos de direita. Por isso mesmo, na última campanha eleitoral para a Câmara do Marco de Canavezes, um dirigente nacional do CDS afirmou publicamente, dirigindo-se a Avelino Ferreira Torres: V. Exa. gere os dinheiros públicos como ninguém. Sabem que ainda hoje é criticado pelo que disse? Quando disse a verdade! Gerir como ninguém não significa gerir como deve ser, pois não?

Mais de 300.000 crianças são actualmente utilizadas como soldados em conflitos armados em 50 países do mundo, segundo estimativas das Nações Unidas.
Todas as crianças inquiridas foram raptadas antes dos 13 anos e permaneceram, em média, mais de dois anos na guerrilha ugandesa.
Fui raptada de noite, de minha casa, em 1996, pelo Exército de Resistência do Senhor. A caminho do Sudão, um dos rapazes capturados tentou escapar e fui obrigada a bater-lhe até o matar. Um dia espancaram-me porque deixei cair um bidão de água. Recebi treino militar durante um mês no Sudão. Depois combati contra os exércitos do Uganda e do Sudão. Íamos às aldeias buscar comida e raptar outras crianças. Um dia, fui entregue a um comandante para ser sua mulher. Fiquei grávida e tive um menino. Durante um combate consegui escapar, mas tive que deixar o meu filho no bosque. Não sei o que lhe sucedeu.
Comentários? Completamente desnecessários!
Para aumentar a produtividade há uma primeira receita infalível: travar o crescimento da massa salarial. Uma segunda receita que recomenda a manutenção de salários baixos. E uma terceira que aponta para a redução de salários que ainda são muito elevados. Para conseguir salários baixos o primeiro caminho que se recomenda é a liberalização dos despedimentos. Um segundo caminho seria dar maior flexibilidade ao regime dos despedimentos. Finalmente, uma terceira alternativa seria facilitar os despedimentos. Há uma conclusão única que se pode extrair de tudo isto: é preciso aumentar a produtividade com os salários mais baixos que for possível, despedindo os trabalhadores que ainda representem custos para a empresa.
A grande maioria dos gestores - respeitosos, venerandos e obrigados - pertence à classe política desprovida de cargo. São comissários políticos que não sabem nada do que fazem mas que sabem muito bem que nunca serão responsabilizados seja pelo que for. Como sabem que estão ao melhor nível europeu no que respeita a remunerações, e isso é o que lhes interessa.
O governador do Banco de Portugal salientou ontem que
ensino fraco, pouca inovação e má justiça impedem o desenvolvimento do país. São elementares verdades de la Palisse que não esgotam o rol. Apenas lhe dão início. Mas é preciso salientar ainda que os lugares de topo nas empresas são ocupados por quem exibe maiores habilitações, a inovação não é tarefa dos contínuos e a má justiça não é feita pelos residentes da Quinta do Mocho.
Agora Portugal tem também um predestinado editor que indica ao país os caminhos da retoma e da felicidade. E ao mundo os processos para decretar a democracia, reduzir os índices de mortalidade infantil e ganhar todas as guerras. Mesmo aquelas em que o inimigo não é conhecido e mora em local incerto. Pena é que seja ainda tão novo, com apenas 46 anos, e lhe seja difícil regressar à batalha de S. Mamede para nos corrigir o sinuoso percurso que a história nos foi traçando.
Mas, felizmente, tem sorte o Haiti quanto ao seu futuro. Assim um dos aviões que regularmente descola da Portela, com destino às Caraíbas, leve no seu bojo o editorial de hoje e, à passagem pela ilha, o deixe cair sobre Port-au-Prince amarrado com uma guita a uma pedra. Para que possa ser conhecido e, naturalmente, seguidos os seus doutrinais conselhos.
Amanhã uma infinidade de burocratas estará ocupada na redacção de constituições, decretos e portarias. A instituir a democracia, a eliminar as pensões raciais entre mais pretos e menos pretos, a redigir os estatutos das instituições democráticas que nunca existiram. O futuro não será automaticamente melhor sem Aristide. E o passado também não, nem o presente.
Siga ainda adiante ao menos a notícia, até Massachussets, ao encontro do senhor John Kerry. Para que o mesmo possa saber que a mostarda Heinz, que enche a conta bancária da sua mulher, já chegou ao nariz do senhor José Manuel Fernandes. E que este, como um amigo sincero, o adverte relativamente às suas afirmações sobre Aristide e o Haiti. Porque um autocrata eleito não passa a ser um democrata eleito. Um mais preto eleito não passa a ser um menos preto eleito. Um autocrata mais preto eleito não passa a ser um democrata menos preto eleito.
As notícias foram sendo actualizadas e os números foram subindo. Agora mesmo, no noticiário das 18 horas, ouvimos falar em 190 mortos e mais de 1.200 feridos. Em Espanha a polícia proclama que a responsabilidade é da ETA que, até ao momento, não reivindicou a paternidade do inqualificável acto. Nem isso é importante. Porque os mortos estão mortos e os feridos estão feridos.
Fica-nos a convicção cada vez mais firme sobre tudo isto. Nenhuma morte, nenhum ferido, nenhuma violência pode ter justificação. Seja onde for, seja pelo que for, seja para o que for. Sejam quais forem os respectivos responsáveis!

O país faz luxo na vulgaridade com que evidencia os seus conhecimentos de inglês. Fala hoje com o mesmo à vontade e a mesma propriedade de "call centers" com que antigamente se falava de "off side", embora nessa época toda a gente dissesse guarda-redes e apenas os literatos se referissem ao "goal keeper". Mas, apesar disso, envia responsáveis para Paris que não sabem francês e que precisam de intérprete. Nem lhe passa pela cabeça que isso possa ser ridículo, quanto mais cabotino. Apenas porque o país de há muito perdeu a noção de ridículo e não sabe o que seja isso de cabotino.
Do mesmo modo, o país não fala português. Limita-se a linguarejar um híbrido portinhol ou françoguês. Livre quanto baste, sem regras e sem rigor. E o uso da língua é um exercício de ortografia, de sintaxe, de domínio do vocabulário e, essencialmente, de rigor. Mas, quanto a rigor, estamos infelizmente conversados. O senhor Fernando Pessa bem prolongou a sua permanência entre nós, até aos cem anos. Não conseguiu com isso evitar as asneiras do José Rodrigues dos Santos, apenas se limitou a vê-lo transformar-se em professor universitário. Mesmo a doutora Edite Estrela, que abandonou Carrazeda de Ansiães para se furtar às influências do mirandês, sucumbiu trucidada nas intenções e na Câmara de Sintra. Decidiu-se pela emigração porque, ao que parece, em Estrasburgo se reconhecem - e remuneram - melhor o poliglotismo e os penteados.
Não pode, deste modo, o país esperar que as suas escolas confiram licenciaturas, mestrados e doutoramentos em engenharia mecânica e a população resultante, academicamente qualificada, saiba fazer uso correcto da língua depois de não ter sido obrigada a nenhuma leitura que não fosse a do tio Patinhas e a dos irmãos Metralha. Talvez por essa razão alguns dos mais consagrados escritores portugueses tenham queimado as pestanas a estudar ciências naturais e biologia para dar consultas e usar estetoscópio ao pescoço. Talvez por isso também muito boa gente com a pasta cheia de pós-graduações em comunicação social pudesse render muito mais e muito melhor a fazer transplantes de rins e a engessar canelas.
É de salientar a atitude dos partidos políticos que suspenderam, esperemos que definitivamente, as acções de campanha relacionadas com as eleições do próximo domingo. Quanto ao resto, só resta a condenação. Vigorosa e sem condições. Nunca nada justificou a violência e a morte. Nunca nada o vai justificar.
Numa altura em que o Dr Barroso viaja pelo Brasil e diz maravilhas do seu governo e dos brilhantes resultados que tem conseguido alguém, em Portugal e nas suas costas, presumindo-se ser da sua confiança política, divulga que, afinal, o rei vai nu.
O Instituto Nacional de Estatística divulga indicadores relativos ao ano passado e diz que o PIB registou uma quebra de cerca de 1,5 por cento. Adianta ainda que, em princípio, essa quebra terá sido fortemente influenciada pela contracção do consumo e pela redução da procura interna. Não há nenhuma surpresa nisso. Se o governo foi ao bolso das pessoas e lhes tirou alguns patacos é óbvio que os mesmos deixaram de estar disponíveis para o consumo.
Quer todavia parecer que a direcção do INE não tem grande futuro pela frente. Não conseguiu evidenciar a mesma criatividade que a ministra das finanças tem demonstrado na redução do défice. E, sendo assim, ou virá a ser substituída por falta de competência política, ou será reencaminhada para acções de formação adequadas. Para a adquirir!
Há dias atrás um jornal diário publicava, com mais de três meses de antecedência, os resultados de uma sondagem sobre as eleições europeias. Apontavam para uma abstenção da ordem dos setenta por cento. De seguida o Presidente da República, publicamente, veio declarar-se "aterrado" com as perspectivas. Decorrem daqui e desde logo, no mínimo, dois equívocos. Cada vez mais grosseiros e cada vez mais irreversíveis.
Segundo, sobre a aterrorização. Ainda ontem líamos, nem sabemos onde nem dito por quem, que se não compreendia que a democracia portuguesa, com curtos trinta anos de vida, apresentasse tão evidentes sinais de arteriosclerose aguda. Pretendia dizer-se que tem idade para ter algum juízo porque está no limiar da maioridade. É falso. Com trinta anos a democracia portuguesa nem sinais dá de começar a gatinhar e ameaçar com os primeiros e inseguros passos. Pelo contrário. O Dr Sá Carneiro, cremos, falava em bipolarização. Um termo que o eleitor não sabe o que significa, mas que também não interessa. Aí a tem, tipo pescada de rabo na boca. De um lado uma classe dominante, ocupando o poder e dominando a economia, classificando-se a si própria de elite. Sem princípios, sem escrúpulos, sem cultura e sem instrução. De outro uma classe dominada, dócil, sentindo o garrote do crédito a quebrar-lhe a cervicais, sabendo que depende do agiota para subsistir.
Compará-las é confundir alhos com bugalhos. Conciliá-las é como esperar a convivência exemplar entre judeus e muçulmanos. Dar-se-ão bem, às mil maravilhas, quando houver entre eles muros com oito metros de altura, revestidos de arame farpado e carregados de explosivos em ambas as faces. Quem é eleito não tem nada a ver com quem o elege, e cada vez o tem menos. Seria importante que a convencida classe política se questionasse sobre o total afastamento do eleitor. Fizesse um exame de consciência e examinasse a sua própria conduta. Tentasse perceber porque razões é tratada abaixo de cão. E saísse depois a terreiro para assumir responsabilidades, coisa que nunca foi muito apanágio do país. Explicando porque razões estava ali e para quê.
É que hoje ninguém sabe para que servem sejam que eleições forem. A não ser para arranjar empregos aos eleitos, aos familiares, aos compadres e aos amigos. De resto, não muda nada. A não serem as moscas. Que, quanto mais recentes, mais varejeiras!
Hoje enaltecemos este homem e a coluna que vai mantendo, a par de cinquenta e oito outras actividades que desenvolve, diária e simultaneamente. Vale a pena ler a sua crónica de hoje ou, pelo menos, o seu último parágrafo.
Que os portugueses têm desde sempre uma muito má relação com a matemática não é novidade para ninguém. Toda a gente se recorda ainda do embaraço que causou ao engenheiro Guterres um cálculo simples, de quaisquer seis por cento, relacionados com o PIB. Engasgou-se, mastigou, engoliu em seco e adiantou depois, à quarta tentativa, que apenas era necessário fazer a conta. As dificuldades provinham, recorde-se, de um homem inteligente, - não se confunda com governante eficiente! - por acaso licenciado em engenharia com a média de 19 valores.
Agora que o governo nomeie para coordenadora do ensino do português em França uma pessoa licenciada em matemática suscita-nos algumas reservas, mas adiante. Fica-nos a suposição que se pretende, dessa forma, melhorar os padrões de ensino da matemática aos franceses que aprendem português. Mais surrealista é a característica da pessoa não saber francês, o que obriga os seus interlocutores a saberem português. Chauvinistas como são, os franceses estão-se marimbando para o domínio da língua de Camões. Então a nomeada tem que fazer-se acompanhar por um intérprete que a acompanha para todo o lado. Ela fala em português, o intérprete traduz para francês. O interlocutor responde em francês, o intérprete traduz para português.
Não lembra nem ao diabo, pois não? Mas lembra ao nosso patriótico governo!
Se algum dia alguém tivesse a infeliz ideia de encher jornais, revistas, rádios e televisões com assuntos de Portugal no seu melhor, bem que lhes poderiam dobrar o número de páginas e alterar a duração dos dias para que as emissões pudessem ser ainda mais longas. Mesmo assim o espaço ou o tempo não seriam suficientes, ainda que cada figuração num jornal se limitasse à dimensão da coluna do Dr Eduardo Prado Coelho e das revistas de coração fossem excluídos os dramas pessoais da D Rute Marques. Para já não falar, em termos mais eruditos, na cultura que nos transmite o Sr Jorge Perestrelo em cada golo que nos relata ou em cada "rapa na rapaqueca" que nos conta.
Ainda agora, a questão da TAP e do Dr Cardoso Cunha que é o presidente do conselho de administração. O Dr Cardoso Cunha ocupou já todos os lugares políticos onde as remunerações suplantaram sempre as que o Dr Paulo Portas paga aos seus competentes assessores e, provavelmente, o valor da reforma do Dr Eduardo Catroga. Nessa condição veio publicamente revelar que não tinha visto nenhumas contas da transportadora e que as não tinha aprovado. O que quer dizer que sendo o mais alto responsável pela gestão da empresa, tendo sob sua responsabilidade a manutenção de uma contabilidade - está bem, pode ser criativa! - e a elaboração anual de contas, ela não sabe de nada, ele não viu nada, ele pura e simplesmente não estava lá. Se calhar nunca soube quanto lhe pagavam e não sabe mesmo se o têm feito integral e atempadamente.
Obviamente por despeito, corre o boato de que entre ele e o brasileiro Fernando Pinto se trava uma guerra surda - foi assim que ouvimos referi-la! - em que, portanto, se não ouve o estampido dos tiros e o estrondo da metralha. É uma guerra cirúrgica - que é um termo e uma técnica muito utilizados nas guerras feitas por profissionais - que não causa prejuízos à audição dos intervenientes e os dispensa da utilização daqueles horrorosos protectores para os ouvidos. O motivo? Ora! Naturalmente alguma atraente mulata de dezoito anos de S. Salvador da Baía!
Não haverá provavelmente ninguém que ande tão a leste do mundo em que vive como os portugueses. Os portugueses ignoram ostensivamente o mundo real e objectivo em que vivem para construírem realidades etéreas que não existem e sobre as quais, convencidos, se perdem depois em longas dissertações teóricas. Que não servem rigorosamente para nada a não ser para alimentar a prosa com que se vai entretendo o Dr Vasco Pulido Valente nas colunas do Diário de Notícias.
Hoje o professor Cavaco Silva fez a apresentação pública do segundo volume daquilo a que ele próprio chamou "Autobiografia política". A dois anos de distância, face à mediocridade do espectro político que nos rodeia e à incontinência alarvemente ambiciosa do Dr Santana Lopes, tornou-se desde logo presunção corrente que o ex-primeiro ministro se iria pronunciar sobre as eleições presidenciais, aquilo que entenderia deverem ser as funções do presidente e, inclusivamente, a clarificação da sua posição - ou da sua não posição, como gosta mais o Dr Guilherme Silva! - como eventual candidato.
Não era preciso esperar que o homem falasse para saber que, a ele, o não atrapalham dessa maneira. Com a sua voz pausada, de timbre aparentemente rude, fez aquilo que ia fazer: apresentar o seu livro. Teceu considerações sobre os anos em que, a um tempo, foi presidente do partido e chefe do governo. Fez algumas revelações que, naturalmente, estarão mais detalhadamente descritas nas folhas impressas. E não foi além disso, como teria obrigação de saber quem se não tivesse ainda esquecido da segurança com que sempre geriu algumas situações. Mesmo que com irritante antipatia.
Teve suficiente suavidade no discurso para dizer que não seria cortesia sua estar a pronunciar-se sobre aquelas eleições quando o actual titular do cargo tem ainda dois anos de mandato para cumprir. Agora, amanhã, o Sr Luís Delgado, que é um português dos quatro costados, vai convictamente dizer que o Dr Santana Lopes tem o caminho livre e a eleição garantida porque o professor Cavaco não é candidato. Começará a correr pelos cafés onde toma a bica o boato de que já está confirmadamente indigitado para assessor de imprensa. E julgará, com a imaginação fértil que lhe atravessa os dias, que é imprescindível para o progresso e até mesmo para a sobrevivência do país. Terá razão: o mundo com portugueses destes é realmente muito mais divertido!
Felicitemos hoje todas as mulheres porque o dia lhes é internacionalmente consagrado. Deveríamos também tê-las felicitado ontem, da mesma maneira, sem que o dia tivesse dedicatória especial. Deveremos fazê-lo ainda amanhã, já fora do prazo oficial, sem que o calendário nos mande assinalar seja o que for. Deveremos fazê-lo todos os dias da semana, de domingo a segunda-feira, sem a recomendação de instituições internacionais ou nacionais. Apenas porque, salvo questões físicas que apenas funcionam como factor de aproximação, são seres humanos rigorosamente iguais aos homens.
Achamos, pessoalmente, uma bizarria esta história do dia mulher, do dia da criança, do dia do idoso, do dia da solidariedade. Parece-se assim com uma velha questão religiosa que permitia comer carne no decurso da Quaresma desde que se adquirisse a respectiva bula. Dá a sensação de que tratando hoje bem todas as mulheres, convidando-as para jantar, dando-lhes flores, escrevendo poemas que lhes dedicamos, nos desobrigamos de continuarmos a fazer o mesmo durante os 364 dias que se seguem, em que poderemos agir livremente.
Mais do que ridículo parece-nos inteiramente desonesto reservar às mulheres um número determinado de lugares aos mais diversos níveis, nomeadamente político, que pura e simplesmente não serão cumpridos. É igualmente desonesto que lhes reservem tarefas idênticas às dos homens e se lhes pague remuneração inferior. Como o é também esperar ter com elas o prazer de fazer um filho e depois ficar tranquilamente a aguardar que ultrapassem as dores do parto, dêem banho à criança, a alimentem, a vistam para a escola e lhe revejam os deveres escolares.
É de facto difícil, senão impossível, esperar que algum dia venha a haver situações de consenso social seja sobre o que for. Quando numa comunidade elementar, composta apenas por duas pessoas, cuja única diferença é terem sexos diferentes, vai a desigualdade que se conhece. Mais do que enaltecer as qualidades da mulher num dia determinado, este deveria constituir uma oportunidade única para um necessário acto de contrição e para a correcção de erros que têm a mesma idade da espécie. E que, pelo andar da carruagem, tendem apenas a desaparecer com ela, por muito que se repita o contrário.
Tirou! No Porto, falando no início das celebrações do 30º aniversário do CDS - que não dos 30 anos propriamente ditos, que esses só chegarão depois de 25 de Abril! - perdeu a dimensão da avestruz e assumiu a que lhe é mais familiar, de atrevido galito de combate. Para dizer que basta de questiúnculas com o Dr Soares pai, com bicada de um lado, resposta do outro. E, demagogo e desmemoriado, fez por assumir o papel de bom samaritano, tentando recordar que o CDS que votou contra a Constituição de 1976 foi o mesmo com o qual o Dr Soares pai, pouco tempo depois, se coligou para formar governo.
Não gostamos nem do Dr Paulo Portas, nem do Dr Soares pai e por isso estamos à vontade. Para recordar que hoje o PP do Dr Portas não tem nada a ver com o CDS da época e que, mesmo o Dr Soares pai, muito pouco tem a ver com o que regressou de Paris a seguir ao 25 de Abril. Quanto ao peso político ou histórico de cada um, goste-se ou não deles, não é preciso mandá-los subir para a balança. Olha-se e vê-se logo pelo perfil!
Assinalem-se os 83 anos de vida do Partido Comunista Português, completados ontem. É importante reconhecer o desempenho do PCP na luta contra o regime saído do 28 de Maio. Sem tréguas ou desfalecimentos. Com sangue, suor e lágrimas. Com acções espectaculares cujos pormenores são preservados na penumbra, como a evasão do Forte de Peniche, e com acções menos meritórias, a seguir ao 25 de Abril. Custa hoje ver que o PCP continua definhando, órfão que se mantém de um dirigente ímpar como foi o Dr Cunhal. Num país em que o espectro político é um árido vazio de ideias, difícil seria pretender que, no PCP, as coisas fossem diferentes. Tanto mais que todos os outros partidos existentes, com representação parlamentar ou sem ela, lhe devem sempre alguma coisa. Como os portugueses, mesmo sem serem comunistas e sem precisarem de o ser. Que o futuro lhe reserve as ideias que lhe faltam. Ao partido e a toda a classe política do país.
Hoje registem-se os 47 anos que a RTP completa. Com a história de ser pioneira e de ter feito, no passado, grandes coisas em benefício do entretenimento e da cultura dos portugueses. Caminho que subverteu e abandonou, mantendo-se hoje numa luta inglória contra as televisões generalistas, abdicando de princípios, de ética e frequentemente de moral. Invocando o serviço público que presta mas que se não vê. Hoje mesmo, e talvez se pense que seja isso, anunciou que a 13 de Junho - dia em que se realizam as eleições para o parlamento europeu - a estação fará a cobertura desse acontecimento, relegando para outro canal a transmissão de um qualquer encontro de futebol enquadrado no Euro 2004. Acontece que as eleições europeias nunca despertaram e não vão despertar grande interesse público porque, sendo connosco, não se sabe bem se são para nós. A mais de três meses de distância estima-se já que a abstenção - a grande vencedora de todas as eleições - poderá ultrapassar os 60 por cento. Que o futuro reserve também à RTP um outro caminho. A bem do público e em detrimento da classe política que a controla e a utiliza na perseguição dos seus objectivos.
O Dr Jorge Lacão é, segundo cremos, licenciado em direito. É, de longa data, figura proeminente e eminência parda do Partido Socialista, em Santarém. É, há anos que lhe dão o pleno de uma reforma dourada, deputado à Assembleia da República. É, nesta última, presidente da comissão parlamentar de ética. Que, parece que por deficiente formulação, acaba de rejeitar o levantamento da imunidade parlamentar a alguns deputados. Quanto à recusa, nada a apontar. Quanto à eventual incorrecta formulação do pedido, também não. Portugal é o país que é, se alguma coisa for feita correcta e atempadamente estamos, definitivamente, perante um acaso ou uma anormalidade.
Mas agora pretende que o procurador geral da república aponte e justifique publicamente os critérios de selecção das fotografias incluídas no processo Casa Pia. Amanhã vai querer saber os critérios a seguir na audição dos arguidos na instrução do processo, a cor da roupa interior do procurador, o número que calçam os advogados. Depois os critérios a que obedeceu o sorteio do juiz. As notas de curso que teve e o enunciado das provas a que respondeu. Chegará o dia em que quererá saber, antecipadamente, os critérios do polícia de giro - se na altura os houver de novo! - para autuar os condutores infractores.
Quer dizer, o Dr Jorge Lacão está cansado da política e pretende mudar de actividade. Para super polícia. O cidadão comum regista e agradece a mudança. Tardia, é claro. E espera que não acumule, como é cada vez mais habitual, a reforma de um lado com o ordenado do outro.
O ministro Morais Sarmento disse ontem que o governo queria que os 30 anos do 25 de Abril fossem festejados "sem carga político-partidária" e sob a perspectiva da "evolução" do país. Acrescentou ainda que "é para todos importante que sejam expurgadas de cargas político-partidárias e que constituam uma festa nacional, com uma intensidade e um apelo que envolvam toda a sociedade portuguesa". E não terminou sem dizer que "os valores de Abril não são compatíveis com comemorações rotineiras e enquadradas em considerações meramente ideológicas".
O ministro da presidência podia ser imprevisível quando iniciou funções, altura em que ninguém sabia quem era, a não ser no boxe. Hoje é mais do que previsível e ninguém esperava que pudesse dizer coisas diferentes das que disse. Como ele bem sabe todos os partidos políticos do espectro parlamentar têm, desde sempre, tentado apropriar-se de determinadas datas politicamente relevantes da história nacional. Não apenas do 25 de Abril, mas igualmente do 10 de Junho e do 5 de Outubro, por exemplo. E assim vai continuar a ser, mesmo que o partido do Dr Sarmento reivindique a data e as comemorações só para si.
Hoje não se põe sequer a falsa questão da ideologia, que ele ainda qualificou de vulgar. Porque nos dias que correm se não vê - e o facto não se restringe à realidade portuguesa - que o chamado "combate" político assuma feições ideológicas. As ideologias, se as havia, acompanharam na queda o muro de Berlim. Mas não estão presentes na construção de todos os muros da Cisjordânia.
As comemorações de uma determinada data nacional seriam nacionais numa sociedade de consenso, em que todos fossem capazes de sobrepor interesses colectivos a benefícios individuais. O que, como se sabe, não é o caso. Em relação a nada. A sociedade portuguesa, a que hoje parece ser chique chamar "sociedade civil", sem que ninguém minimamente venha definir o que isso é, perde-se em questiúnculas menores, desgasta-se em tempestades em copos de água. Consegue o partido do Dr Sarmento, ao menos, conciliar a perspectiva que anuncia sobre as comemorações do 25 de Abril, por exemplo, com o seu parceiro de coligação que, desde sempre, considera a data uma catástrofe nacional e a verbera vigorosamente?
Agora bom seria é que a assembleia, constituída por 230 néscios sem verticalidade e sem vergonha, reconhecesse que alguém esteve por detrás do acontecimento, com objectivos definitivamente políticos, que não ideológicos. E fosse capaz de reconhecer a esses homens, independentemente do trajecto pessoal que depois possam ter seguido, o mérito que tiveram. Até na forma como depois foram empurrados de cena, esquecidos e lançados em campa rasa. Sem ter sido preciso recorrer ao uso de armas, como sempre é preciso fazer para manter os estados de guerra.
Sobre a questão do aborto já aqui dissemos dias atrás que não tínhamos uma posição definida. O que, todavia, não corresponde a dizer que temos uma não posição. Quer em todo o caso parecer-nos que, com um mínimo de senso comum e sem hipocrisias, a questão começa por pertencer ao foro científico e, depois, ao domínio da saúde pública. Salvo mais sensata opinião, só depois disso se levantarão os problemas éticos e morais que acabarão por cair no domínio da política.
É salutar que as pessoas discordem umas das outras, especialmente quando isso decorre do facto de terem ideias próprias e de as defenderem. Sem artifícios, sem batota e sem utilizarem argumentos rasteiros. Sem simularem grandes penalidades e sem passarem o tempo da discussão a atirar-se para o chão inventando rasteiras e caneladas que não receberam.
Ontem foi assunto do dia a distribuição em estabelecimentos de ensino, a crianças de pouca idade, de um folheto cujo conteúdo mais do que inconveniente é desonesto e abjecto. A produção do referido folheto parece ter sido da responsabilidade da Associação SOS Vida, contrária à extensão da liberdade para a prática do aborto - não sabemos se mesmo contrária às disposições legais actualmente em vigor! - e encabeçada por um padre católico. Este, de modo ridículo e com pouca ou nenhuma inteligência, declarou publicamente que havia de facto entregue esse folheto de pretensa propaganda, mas que não sabia onde o mesmo teria sido distribuído. O que, hipoteticamente, dá liberdade a cada um de nós para distribuir bombas e explosivos, que sabemos mortíferos, desde que são façamos ideia da utilização que lhe darão de seguida.
Para além disto entendemos que as funções do sacerdote, seja ele de que religião for, se esgota no âmbito daquelas que lhe confere a igreja que representa. Independentemente de, como homem, poder ter opinião, a que tem o mesmo direito do que qualquer outro. Não percebemos a intromissão activa da religião nas questões políticas. Ou científicas, ou de saúde pública. Ainda por cima da forma ignóbil e rasteira como, neste caso, se processou.
No seguimento da farsa a D. Lili declarou a uma revista da área que Portugal tinha parado. Que tinha recebido muitas chamadas e mensagens no seu telemóvel, incluindo do Manuel da Fonseca. É óbvio que parar Portugal é, linearmente, sabotagem económica. Quando o Dr Barroso se desdobra a apregoar a retoma que só ele divisa, e mesmo assim com a ajuda dedicada de muitos assessores a fazerem de oftalmologistas, vem a senhora com uma rábula de mau gosto parar o país.
Quanto a Manuel da Fonseca, cada pessoa tem o que quer ou o que conhece. Mas atormentou-nos de início imaginar que o nosso Manuel da Fonseca, o de O fogo e as cinzas, pudesse ter arranjado telemóvel e pachorra, lá onde repousa, para ajudar a D. Lili a parar o país.
A menina tem que ser capaz de controlar as suas emoções querida. O amor é um fogo que arde sem se ver como outro dia ouvi dizer o tio Carlos Castro. Mas a paixão é muito pior, parece um palestiniano armadilhado a explodir numa carruagem do comboio da linha. Quando assim é, querida, vá tomar um duche. O mais frio possível. É como fazem nas churrasqueiras, a atirarem água para cima das brasas muito assanhadas, para lhes esmorecer a violência. Olha que fala a experiência da tia.
Depois é preciso ter calma para não dar o corpo pela alma, como canta o querido do Marco Paulo. Roma e a Mouraria não se fizeram num dia, como diz o provérbio. Muito mais do que isso levou o Marquês de Pombal a construir a ponte de Vila Franca e a sua mãezinha a escrever o nome dela com uma caneta de tinta permanente.
A menina tinha tudo à sua disposição, querida. O hotel, o rapaz, o pretexto. Que fogo menina! O mundo não acaba hoje e o rapaz, por mais que seja usado, também não. Desgasta-se. Não se gasta. Há um provérbio que diz que quem espera nunca alcança, mas o querido do Chico Buarque fez uma cantiga a dizer que é mentira. Eu nunca a ouvi, que não gosto dele, mas já me contaram.
Não percebo é uma coisa Pimpinha. Então não era a menina que estava num fogo pegado, pior do que os fogos de Verão na serra de Sintra? E foi esvaziar o extintor no quarto do rapaz?
Então não era a menina que precisava do seu fogo apagado? Ou não era com o extintor? Sua sabidona! Malandreca. Quem sai aos seus não regenera, pois não?
Ainda ontem uma conhecida estação de rádio fez eco de um protocolo entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Mac Donald's contemplando a selecção de crianças para entrarem em campo conjuntamente com as equipas no decurso do Euro 2004. Que excluía todas aquelas que pudessem ser portadoras de qualquer tipo de deficiência, física ou mental. Questionada sobre o assunto a Sra vereadora responsável salientou que isso eram exigências das normas da UEFA que, obviamente, se sobrepunham às posturas municipais. E que, sendo assim, não havia nada a fazer. Mas anunciou também, solene e magnânima, que iriam ser adquiridos bilhetes para crianças deficientes. Quer dizer, limitou-se a revelar-nos que os presidentes da Uefa e da Câmara Municipal de Lisboa são uma e a mesma pessoa.

Hoje, depois de meio mundo ter andado a berrar sobre o assunto, a mesma Sra vereadora veio a público anunciar que tinha havido apenas um lapso e que, depois de se ter apercebido da situação, prontamente denunciou o protocolo. A Sra vereadora não teve dúvidas, a Sra vereadora não se enganou. Sua excelência limitou-se a cometer um ligeiro e insignificante lapso. O que faz, fá-lo por desígnio do Altíssimo, assegurando os padrões de desempenho tão característicos do país
A Uefa e a Mac Donald's emitiram também, sobre o assunto, um comunicado conjunto. Ambas devem ser, para felicidade sua, dirigidas por portugueses. Nunca houve nenhum tipo de exclusão em relação às crianças a seleccionar. Nem quanto à raça, embora se dê preferência à branca, nem quanto à religião, embora seja recomendável evitar islamitas, nem quanto ao clube da sua preferência, embora seja recomendável que este pertença ao sistema de que fala o Dr Dias da Cunha. A mesma liberdade foi assumida quanto às aptidões físicas ou mentais. Apenas se pretende que as crianças sejam capazes de correr os cem metros em onze segundos, saltar oito metros em comprimento e ultrapassar a fasquia a dois metros no salto em altura. E que, mentalmente, sejam capazes de calcular o volume da esfera e resolver a quadratura do círculo. Numa palavra, que sejam portuguesas!
Manuela Moura Guedes, a conhecida mulher do director da TVI, afirmou que nesta estação de televisão tem mais intervenção do que tinha como deputada do grupo parlamentar do PP. Embora a afirmação seja de uma chocante ingratidão, porque lhe arranjaram um tacho jeitoso numa altura em que recebia o fundo de desemprego e pensava abrir uma loja de venda de flores na Damaia, não deixa de ser verdadeira.
Mas as coisas sempre têm mudado, continuam a mudar e hão-de continuar. Mal sabia Camões que escrevia para ser cantado, algumas centenas de anos depois, pelo José Mário Branco de quem, aliás, nunca ouvira falar, nem nos confins dos mundos que percorreu.
Também no CDS/PP - nós preferimos assim, como o Santana Lopes que diz sempre PPD/PSD - as coisas mudam. Começaram em Braga, com o Dr Monteiro a sair de lá vendo-a por um canudo. Hoje o partido tem a intervenção que nunca teve. O Dr Portas exige que o Dr Barroso o trate por Sua Excelência, define as regras do jogo em que ambos se empenham, estabelece a duração de cada parte e, mais descarado do que o major Loureiro, sorteia o árbitro que mais lhe convém. No aeroporto não pisa as salas onde o Dr Soares pai aguarda embarque para Estrasburgo, - quem manda neste país sou eu, não sou? - benze-se sempre que ouve falar no filho, segreda ao primeiro-ministro que o Dr Pacheco nem cristão novo é. Estabelece a percentagem do défice, marimba-se nos reformados da Nazaré, deixou de gostar do peixe espada da Madeira. Senta-se em S. Bento e com o ar esfíngico de uma pirâmide egípcia, mantém-se calado e nem retribui as vénias do Dr Telmo Correia.
Hoje o CDS/PP são três táxis de deputados, quatro autocarros de intervencionistas e alguns comboios de assessores novos, brilhantes e amigos a ganharem mais do que o ministro. Hoje, apesar de tudo, tem ele mais influência do que tinha no Independente. Neste, foi latindo à volta do Dr Cavaco, agarrando-se-lhe às calças e rasgando-lhas. Hoje leva o Dr Barroso pela trela, não permite que este alce a perna onde lhe apetece, mantém o Dr Guilherme Silva bronco, reverendo e obrigado. Só felicita o Dr Pires de Lima pelas bacoradas que lhe saem da boca. Como se fosse um cruzado.
Nós sim, somos ricos, gastamos o que temos e o que não temos, estamos à cabeça de grandes acontecimentos e, mentirosamente, as estatísticas colocam-nos no rabo de tudo. É tudo falso, o país navega calmamente, em velocidade de cruzeiro, com o Sr Herman José ao leme de um iate fazendo de Vasco da Gama, com todas as velas pandas. Politicamente o país existe apenas em S. Bento onde se passa tudo, para se não passar nada.
A nossa classe política é um género importado dos filmes do Sr Steven Spielberg que não tem nenhuma semelhança com as pessoas do nosso dia a dia. Nem fisicamente e, muito menos, intelectualmente. O exercício das suas funções não é um coito, é uma masturbação permanente. Praticada por pessoas que o Estado deveria forçar ao descanso ou ao exílio no interior do país.
Ontem o assunto foi um não assunto. Toda a gente sabia que o pontapé do Sr Guilherme Silva, mesmo sem barreira, sairia ao lado da baliza. Nunca seria golo. Mesmo assim passou-se o tempo a discutir as dimensões e o peso da bola, a pelica das chuteiras e os tónicos que o Sr Telmo Correia usa para o cabelo. Hoje variou-se. Transformou-se um bronco presidente de câmara numa questão nacional e, provavelmente, assegurou-se-lhe a eleição daqui a dois anos numa outra câmara que mais lhe interessa.
O país não tem, felizmente, outros problemas. É fácil adivinhar a agenda para a semana que se segue, porque amanhã já é o primeiro dia do resto do fim de semana. Por ordem, vão ser analisadas as implicações dos fenómenos do Entroncamento na retoma da Dra Manuela Leite. A relação entra a sopa de nabos de Gondomar e o sucesso da família Loureiro na sua ascensão ao poder. As perspectivas do jornalismo português sobre a comercialização dos capões de Freamunde. As influências indirectas da enxertia das vinhas do Douro no estilo literário do Dr Pacheco Pereira.
Não está em causa, portanto, a discussão que ontem decorreu no parlamento indígena, inútil e indigna. Inútil porque antecipadamente se sabia já que ia dar em nada, e burro é aquele que sabe não ter forças suficientes para empurrar uma locomotiva e persiste em fazê-lo. À espera do milagre. Indigna pela descarada hipocrisia e alarve desfaçatez de muitos dos intervenientes. Pelos argumentos absurdos e pela forma desonesta como os alinhavaram. Mas os nossos deputados já nos habituaram a isso, embora acabem sempre a surpreender-nos.
Mas não é a posição ou a não posição, de decúbito dorsal, de cócoras ou outra, que motiva este apontamento. São apenas as manifestações exteriores. Palhaços há-os a mais e pagos exageradamente, nas bancadas dos grupos parlamentares. Não era, em nossa opinião, necessário encher as galerias de aprendizes e deixar cá fora, ostentando cartazes, aqueles que não couberam lá dentro. Sempre divididos em grupos, como as fanáticas claques que vão ao futebol, não para ver o jogo mas para a arruaça.
É deprimente ver que se ordena à polícia que faça evacuar as galerias porque os seus ocupantes não assistem ao que se passa no hemiciclo mas, manifestando-se, pensam influenciar o estado de coisas. O mesmo se diga dos que, por falta de lugar, ficam na rua, ocupando ambos os flancos do edifício, não fossem pegar-se à porrada. E acabam tratados como vândalos e marginais de menor expressão.
É claro que tudo isto decorre da conhecida credibilidade do nosso parlamento e dos seus membros. Mas essas são contas de outro rosário. Que, por mais que se queira, nunca será alterada nem ali e muito menos por aquela via.
No ano de 2003 os lucros da EDP aumentaram 13,7 por cento, muito acima da taxa oficial de inflação e, segundo queremos acreditar, um bocado acima dos aumentos que, durante o mesmo ano, asseguraram aos seus trabalhadores. Isto quer dizer que, em números absolutos, os lucros de 2002 foram superiores a 67 milhões de contos e os de 2003 ultrapassaram os 76 milhões.
Para que estes números de anormal dimensão possam ser um pouco melhor entendidos, tomando como base o salário mínimo em vigor para o ano em curso, no valor de cerca de 73 contos mensais, os lucros de 2002 dariam para pagar, durante um ano, a mais 76.000 pessoas e os de 2003 a quase 87.000.
Uma única e simples conclusão, supomos, pode extrair-se. A crise nem sempre atinge todos e, regra geral, atinge muito menos aqueles que mais se queixam. Não vale a pena estarmos a fazer conjecturas sobre este assunto. Mas vale seguramente a pena estarmos atentos à divulgação dos resultados de outras conhecidas empresas. Apenas para lhes manifestarmos a nossa sentida solidariedade.
Por maior que queira ser, por mais competente que seja o Sr Chirac, por melhor governo que tenha, duas conclusões se podem extrair. A primeira é que a União Europeia não irá expulsar o país da comunidade e, quando alguém pensar em sanções, lá estará o governo português, magnânimo, para perdoar. A segunda é que os franceses, definitivamente, não sabem nada de contas públicas.
Em Portugal ninguém se entende com os números e apenas a Dra Manuela Leite teve nos seus tempos de liceu mais de dez a matemática. Mas de finanças públicas percebe ela. Tanto, tanto, que ninguém a entende e ninguém sabe para que servem os seus amplos conhecimentos. Tanto mais que só ela e o seu chefe de governo conseguem divisar a apelidada retoma, ao virar da esquina do betão e do cimento. Mas, mesmo assim, nem o Sr Francisco Van Zeller, com óculos progressivos, de forte graduação, consegue ver coisa nenhuma.
Não seria uma ideia permitir que a Dra Manuela fosse dar uma ajuda ao Sr Chirac, aproveitasse para dar uns passeios de barco rio Sena acima, visse as novidades da moda que a portuguesa Fátima Lopes lá exibe e arrecadasse umas coroas? A nós não nos faria diferença nenhuma, especialmente quando a actualidade política é dominada pela iníqua discussão sobre o aborto. E a ela também não, que há muito passou de prazo.
O Zé Castelo Branco é uma pessoa tão conhecida como a Lili Caneças, mas menos louro. E com mais dinheiro porque ela sobrevive hoje do rendimento mínimo porque, com a idade que tem, não pode requerer a reforma. Não é um vadio, um galdério que passa o dia a coçar o cu das calças pelas paredes do Intendente, a sacar às raparigas do ataque a magreza do apuro e a espetar agulhas de seringas nas veias para ganhar ânimo.
Frequenta locais chiques como os transportes públicos de Lisboa, - por recomendação do Santana Lopes - veste-se sempre com roupas de marca, das cuecas ao sobretudo, mora em casas com porta para a rua e número de polícia pregado por cima, faz-se acompanhar da esposa que, com educação, leva pelo braço. Tem até uma profissão que não é nada de realizar eventos no Forte de São Julião, como a Cinha Jardim. É marchand de arte! O nosso dicionário, que é escolar e antigo, não está preparado para estas palavras difíceis e nós também não. O máximo que encontrámos foi "marchante" a referir-se ao que negoceia em gado para os açougues, mas não acreditamos que seja isso o que ele faz. Ou, pelo menos, o gado com que trabalha não o encaminhará para o açougue.
Vejam lá que desta vez o mordomo até lhe bateu. Atirou-lhe com o ferro de engomar à cara, embora se não note. Quando apenas se pretendia que lhe passasse as rugas a ferro, depois do sono. E arremessou-lhe às pernas a tábua de engomar, em vez de lha pôr a jeito para ele se escarranchar nela e espreguiçar-se. Tendo-o feito aos gritos, embora não lhe faltando ao respeito e assegurando-lhe sempre o tratamento contratado de doutor. O Zé, felizmente, conteve-se. Ele tem uma reputação a defender e se replicasse no dia seguinte os jornais estariam cheios com a notícia por não haver nada mais importante. Assim não! Os jornais estão cheios mas é da notícia do mordomo.
Mas ó marchante doutor Zé, aquilo também não era um mordomo. Um gajo que acompanha um técnico da TV Cabo à casa de banho, lhe leva uma toalha e se prontifica a limpar-lhe as costas e depois, ao segundo dia, o leva até ao quarto para falar com ele sobre os canais da Play Boy e do Hot Sex, não é um mordomo. E a nós não nos soa bem aquela de ter falado numa amiga italiana a quem tinha dito que o técnico tinha um grande coiso. Que coiso ó Zé?
Parabéns major! Demorou tempo, porque o senhor já é homem de alguns netos. Mas mais vale tarde do que nunca e, que raio, alguma vez na vida o senhor havia de acabar por compreender alguém para além de si. No futebol, como o senhor diz, há gente que se não contém e que perde a cabeça. Ficam-nos dúvidas aqui apenas quanto ao seu entendimento de que o presidente da Câmara do Marco é gente. Mas condescendemos, estamos na Quaresma! Quanto ao perder a cabeça, sabemos como isso é. E olhe que até há situações em que a cabeça se perde mais depressa e com muito maior facilidade. E gozo também, já agora!
Olhe, a mesma reflectida opinião não teve, apesar de ser quem é, o ministro da Administração Interna. Então não é que mandou instaurar um inquérito ao ocorrido, mesmo que antecipadamente saibamos todos os resultados de todos os muitos inquéritos que se instauram pelo país fora? E aproveitou para enaltecer o comportamento das forças da GNR que, segundo declarou, contribuíram para impedir que o árbitro fosse agredido. Quando toda a gente viu que as coisas se passaram exactamente ao contrário. A GNR esforçou-se, muito bem e com sucesso, por impedir que o árbitro, de apito em punho, tivesse agredido à cabeçada o digno e vetusto autarca. Apesar de na oportunidade, e segundo o insuspeito Dr António Pires de Lima, o mesmo não estar no campo como presidente da câmara. Condição que deixara em casa, por ser domingo.
Há dois dias atrás o Benfica comemorou o seu primeiro centenário como instituição. Tacticamente o seu ilustrado presidente omitiu o nome de Vale e Azevedo como presidente eleito que foi do mesmo clube. A questão passou, é naturalmente uma nódoa, mas a nódoa que o Moreirense depois foi deixar no linho das comemorações fez esquecer a primeira.
Antes disso, durante a semana, o governo tinha-se deslocado ao parlamento para mais uma inútil discussão mensal com os deputados. Que, por si, mesmo com as elevadas taxas de absentismo que se conhecem, são garante suficiente da inutilidade quotidiana. No decurso do processo, gargalhando, o Dr Barroso referiu-se a comunistas envergonhados. Depois parece ter-se ofendido ele, o seu governo, o seu partido e provavelmente a sua família, quando alguém lhe recordou a sua militância no partido do grande educador da classe operária. E depreciativamente comentou: "coisas dos dezoito anos!".
O que quer dizer que o que se faz aos dezoito anos não conta, dá-se-lhe o desconto que a tenra idade justifica, não se tem ainda nenhuma responsabilidade. Ou, alternativamente, que aos dezoito anos ninguém sabe o que faz e que, nessa idade, todos são uma frequente espécie de atrasados mentais. Ou, ainda, que pela incomodidade do discurso, o Dr Louça que está no parlamento como deputado é um inimputável de dezoito anos ou um raro género de mongolóide, de óculos e sem gravata. Tipo "geração rasca" como defende o Sr Vicente Jorge Silva.
Depois mudam a agulha dos carris, passam-se para o campo adversário, submetem-se à força do dinheiro, passam a vestir-se no Rosa e Teixeira e escondem até onde podem o percurso passado. De que se envergonham eles e a família. Se são confrontados com a situação chamam à mudança, evolução, do mesmo modo que chamam "fromage" ao queijo". E desculpam-se com o facto de terem dezoito anos e de só não mudar quem é burro. Enganam-se! Os burros, que são ou devem ser uma espécie protegida, enquanto os políticos não, apenas têm de burro o próprio nome. São dóceis, humildes, honestos. E orgulhosamente burros.





Ontem tivemos a oportunidade de ver passar na televisão, repetidamente, as imagens de hipotético incidente. E ainda de ouvir o próprio que uma estação de televisão, em boa hora, convidou a estar presente num dos seus noticiários. Ficou-nos perfeitamente claro que nos tínhamos precipitado no "post" de ontem que, desagradavelmente, não obedecia à isenção que se exige sempre que se emitam opiniões em relação seja a quem for. Mesmo que esse alguém seja Avelino Ferreira Torres.
Primeiro as cenas registadas apenas nos mostram uma pessoa bem vestida, sem nenhum aspecto andrajoso, bem penteado e de sapatos a brilhar da graxa, com uma gravata sóbria a combinar elegantemente com o fato. Vê-se como serenamente e de forma educada se dirige a uma das linhas laterais do campo não se vendo, todavia, como surgiu assim, de repente, naquela zona do estádio. Mas sendo ele presidente da câmara, ainda por cima há mais de vinte anos, até pode ter acontecido que tenha caído do céu. Como caiu aos eleitores do Marco, sempre com a queda amortecida pelo uso de pára-quedas. Não se ouvem as palavras que diz, mas um homem daqueles, desempenhando as funções que desempenha, certamente que ajuda os velhinhos a atravessar as ruas e dá sempre uma moedinha aos arrumadores de rua, mesmo que tenha estacionamento privativo. E se deixou de dar um ou outro chupa-chupa às crianças das escolas que visita em triunfo, foi apenas porque, nos dias que passam, ainda podiam levantar falsos testemunhos a seu respeito.
A sua presença na televisão foi um acto de elementar ética jornalística: ouvir os interessados antes de os condenar. Mais do que isso acabou depois a revelar-se perfeitamente fundamental. Avelino Ferreira Torres - que o jornalista sugeriu gostar de ser tratado por senhor presidente - apareceu com o mesmo aspecto limpo e asseado e com ar de quem até já tinha jantado num bom restaurante, bebendo verde tinto da sua região, que ele é bairrista, naturalmente à conta da autarquia ao serviço de quem estava. Foi cordato, moderado, utilizou sempre uma linguagem simples mas correcta a que nem a Dra Edite Estrela ousaria por reparos. Nem sequer o senhor Fernando Pessa, de saudosa memória.
Aconselhou o jornalista, desinteressadamente, a consultar urgentemente um oftalmologista, por ser vesgo. Não teve este a mesma educação ou o elementar bom senso de lhe agradecer o gesto. Como devia! Depois, cordialmente, chamou-lhe mentiroso e mesmo aldrabão, de dedo indicador em riste. Mas sempre educadamente, de sorriso nos lábios, metendo no bolso, mais uma vez, o partido a que o Dr Portas julga que preside. Ficámos esclarecidos e aqui, sítio onde diariamente se deslocam dois leitores, nos penitenciamos pelos erros de avaliação cometidos ontem.
Só para finalizar. Se hoje a discussão da questão do aborto no parlamento não tiver o desfecho que desejamos, amanhã de manhã estamos no hemiciclo de S. Bento. Para partir as bancadas todas a pontapé. Pagámo-las com dinheiro do nosso bolso, não foi? Sorte terão os deputados que, assim cedo, estarão ainda no primeiro sono. Senão haveriam também de levar os fundilhos das calças em bom estado. Também fomos nós que os pagámos, não foi?
A de sábado passado inclui uma afirmação de Cláudio Ramos à revista Nova Gente, que se transcreve: "Estou grávido. Tenho enjoos, como muito mais do que comia, estou cansado". Nós, ignorantes, não sabemos que é este tal Cláudio Ramos e a Grande Reportagem também nos não ajuda muito porque dele apenas acrescenta ser um "rapaz que aparece na televisão".
Ora na televisão aparece muito rapaz, muitos deles até a fingir, e a indicação não chega para sabermos quem é. A televisão é assim um pouco como a noite: à frente das câmaras todos os rapazes são pardos. Esperançados, recorremos à internet e ao Google onde não falham as mais estrambóticas pesquisas e procurámos em toda a rede. Rapaz que aparece na televisão e faz declarações à Nova Gente deve ser conhecido de Valongo a Fernão Ferro, a caminho de Massachussets.
Sabem quantas respostas obtivemos? Cerca de 130.000 em menos de meio segundo. Das duas, uma. Ou o Google inventa um número e pronto, ou o rapaz é mesmo conhecido e nós, portugueses genuínos apesar da má língua, vergamo-nos ao peso da nossa ignorância. Estivemos quase a desistir da redacção deste "post" mas, bem vistas as coisas, acabámos foi a desistir de saber quem era o Cláudio Ramos porque o Euro 2004 está quase à porta e, até lá, não tínhamos hipóteses de ler tudo o que a internet nos oferece para que nos instruamos. Ao invés, optámos por ajudar o rapaz nas dificuldades que atravessa. E, não sabendo quem é, escolhemos duas fotografias das que o Google nos ofereceu, nitidamente obtidas em diferentes alturas da vida.
Olha Cláudio, sejas tu o famoso que fores, no universo onde o fores, do Iraque a Marte, onde qualquer dia se pode ir até no Metro do Porto. Nós acreditamos que tenhas enjoos e isso deve ser da alguma coisa que tenhas comido e que te caiu mal por ainda não estares habituado. Estás cansado porque, como tu dizes, comes de mais, e se calhar comes o que não deves e és guloso. Não te empanzines, come menos, sê mais moderado, olha que o mundo não acaba hoje. Pergunta ao Carlos Castro que ele já te esclarece e te dá os conselhos de que precisas. Quanto a essa ideia de estares grávido, acalma-te. Primeiro porque a paternidade tem que ser assumida pelo galdério que te emprenhou e depois até podes pensar que é gravidez e não ser. Podes ser é marreco. Como claramente és da cabeça, com essa diarreia cerebral com que te pronuncias.
Avelino Ferreira Torres é, para quem não saiba, ainda o presidente da Câmara do Marco de Canavezes. Cargo que exerce à maneira antiga: ocupa o poder há trezentos anos, privilegia naturalmente a competência dos familiares e dos amigos, usa e abusa do que lhe não pertence, em proveito próprio e vai-se sistematicamente marimbando na série de processos em que é arguido. Só lhe falta apresentar-se no Ministério das Finanças numa segunda-feira de manhã, de pasta na mão, à cobrança daquilo que a Dra Manuela Leite lhe deve e não paga. Como já anteriormente fez um seu colega democrata das ilhas onde, há muitos anos e para mal dos nossos pecados, esbarrou um aprendiz de marinheiro que dava pelo nome de Gonçalves Zarco.
Este homem polivalente, de múltiplas e surpreendentes capacidades, anunciou já que será candidato à Câmara de Amarante nas próximas eleições autárquicas. Mas, por enquanto, mantém-se no seu posto, a menos que algum mandado de detenção seja emitido em seu nome. No seu concelho ele manda ou quer mandar em tudo. Quando o não faz em seu próprio nome fá-lo por intermédio de interposta pessoa. Como o major Valentim Loureiro que, ao jantar, pede contas ao filho João sobre o que fez no Boavista.
Ferreira Torres, deste jeito, também manda na equipa de futebol do Marco de Canavezes, que disputa a divisão de honra e que ontem defrontou, em casa, o Santa Clara, dos Açores. Aproveitando a razoável afluência de munícipes, aproveitou para iniciar o seu período de pré-campanha eleitoral e pata ser o grande protagonista do jogo. À boa maneira portuguesa, muito polida e politicamente, discordou de uma decisão do árbitro. Começou, de longe, por lhe insultar a mãe, o pai, a mulher e os filhos. Sempre de ciganos para cima. Não satisfeito, dirigiu-se ao banco de suplentes e reclamou directamente com o juiz. Como este o ignorasse, talvez por não saber quem era sua excelência, exaltou-se ainda mais e pontapeou material de apoio ao quarto árbitro e até talvez mesmo o próprio árbitro. Terminado o encontro, entrou dentro do terreno de jogo para enfrentar o homem do apito.
Depois recordou-se que era domingo, que tinha ido à missa de manhã e que tinha comungado, contou silenciosamente até dez - o que demorou um bocado porque não sabe contar lá muito bem! - e virou apaziguador. Protegeu o árbitro das suas próprias investidas e das do público e conduziu-o, de mão no ombro, até aos balneários. A notícia não refere é se lhe deu banho ou não!