Estarão prejudicados os contactos telefónicos. Não dispomos nem de "voice mail" nem de "call center". Andámos à procura de quem nos traduzisse ambas as expressões para recrutarmos alguém, em trabalho temporário para ajudar os empresários e o país, mas não o conseguimos. Não sabendo que anúncio publicar, em português, claro!, desistimos da ideia. Funciona à boa maneira portuguesa: baixam-se os estores e fecha-se a porta.
Que alternativas temos nós, consumidores? Pagar pontual e religiosamente as facturas que nos mandam. Sem reclamar coisa nenhuma, porque não vale a pena. Desvantagens dos monopólios de facto: fazem o que lhes apetece e ainda lhes sobre tempo. Então hoje isto está demais! Fica-se velho a aguardar que uma qualquer página seja descarregada. Desisto!
José Saramago foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em função do conjunto da sua obra. Literária, naturalmente. Não cabe na cabeça de ninguém que o tenha sido pelas suas descobertas no âmbito da química ou sequer em resultado da sua actuação em favor do bem do próximo, à semelhança da madre Teresa de Calcutá.
Lançou agora o seu Ensaio sobre a lucidez, um novo romance, ou seja, mais uma obra de ficção. A literatura é, como a música ou a pintura, uma manifestação de arte. E nunca a arte conseguiu afastar-se tão completamente da realidade social circundante que tivesse sido capaz de a ignorar. Por mais árdua e persistente que tenha sido nos percursos feitos.
Daqui para a frente é perfeitamente abusivo que se pretendam extrapolar premissas de um romance para a realidade política em que subsistimos, por mais miserável que esta seja. Achou a editora aproveitar o lançamento do livro para uma provocação alargada, convidando pessoas com percurso político relevante. Descobriu, com isso, a mais forte alavanca de promoção que poderia ter imaginado e, coisa rara no analfabeto mercado português, a primeira edição sai para os escaparates com cem mil exemplares.
Entenderam os convidados o propósito do convite que lhes foi feito e assumiram a provocação. A nosso ver uma das mais lúcidas posições é defendida por Mário Soares, embora parta de pressuposto incorrecto. Recusa a hipótese significativa do voto em branco numa perspectiva real e afirma que à democracia apenas se deve opor mais democracia, para a melhorar, para a fazer evoluir, para levar o cidadão a participar cada vez mais. Teoricamente o princípio está certo. Na prática e no caso português à democracia tem-se oposto sempre menos e pior democracia, com maior afastamento do eleitor que não participa e se não vê sequer representado, ainda que remotamente.
O resto é irrelevante. Interessa lá que Saramago eleitor seja candidato em eleições reais e que Saramago ficcionista romanceie a defesa no voto em branco! Interessa é mudar o sistema, afastar da política profissional os oportunistas, os corruptos e os demagogos. Nisso é que estamos interessados e isso, infelizmente, não é ficção nenhuma!
1 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
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2 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
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3 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
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4 - Não acredito que haja algum português que queira aproveitar-se do Euro 2004 para prejudicar a imagem do seu país.
Fica a comunicação social dispensada de proceder à divulgação das declarações de sua excelência, por razões óbvias. Nenhum jornalista, seguramente, quererá aproveitar-se de coisa nenhuma para denegrir ainda mais a imagem de um tal ministro.
Ainda o estudo não foi adjudicado, já o país se esqueceu e o ministro viajou para Bruxelas a reclamar o subsídio. Porque o ministério é muito mais dependente do subsídio do que da fome ou até mesmo da miséria. Depois há sempre o recurso à comparação, inevitavelmente favorável, de se poder assegurar que a situação é muito mais negra no Biafra ou até mesmo em Angola, apesar do petróleo, dos diamantes e do José Eduardo dos Santos. Entretanto prosseguem as obras para que o Euro 2004 comece sem sobressaltos, a tempo e horas, satisfazendo as condições que, ditadora, a UEFA impõe aos donos da bola. Nesse dia nenhum subalimentado sentirá o estomâgo colar-se-lhe às costelas. Estarão todos fartos, de barriga cheia.
A fome e a miséria não são nem uma fatalidade nem uma vergonha. São um crime de que nos deveríamos acusar todos, voluntariamente, sem necessidade do Ministério Público. Ser julgados sem direito a nenhuma defesa. Condenados sem prerrogativa de recurso para nenhuma outra instância. Não é apenas o ministro que anda distraído. Esse anda-o por função e exigência do protocolo, ninguém espera nada dele, pelo menos de bom. Mas nós não, nós vemo-los pelas esquinas da noite, quebrando o frio à força de alcóol, aquecidos por dentro à custa do tabaco. Esgaravatando sacos e contentores dos nossos restos, como crianças de África, avidamente procurando os restos que ninguém deixou. Nós, afinal, esbanjamos. Os nossos animais de estimação recusam o alimento que evitaria a morte de duas crianças antes de chegaram à escola. Recusamos a misericórdia de uma moeda para um pão e ficamos a aguardar os resultados do estudo do ministro.
É uma espécie rara a espécie humana. Tanto se degladia, tanto se agride, tanto se flagela e nunca se extingue. Como uma praga. Não temos, quanto a isto, muito de que nos orgulhar. E, estupidamente, estamos convencidos que sim!
Comentário dos portistas: Oi cambada! Lixámos os mouros dos dois lados da segunda circular, carago. Pensavam que o que tinham pago chegava para os noventa minutos de jogo mas só deu para oitenta e oito. Comemo-los todos! Comentário do Francisco, comodamente sentado no sofá da sala, comando do televisor na mão, copo de Martin's 20 ao lado, com alcagoitas para o "tira-gosto": Uff!
Número de exemplares do Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, publicados pela Editorial Caminho e colocados à venda na passada quinta-feira: 100.000. Estão incluídos três exemplares distribuídos a cada um dos convidados a participar no lançamento oficial, a saber, Mário Soares, Marcelo Rebelo de Sousa e José Barata Moura. Está também incluído mais um, oferecido a título de promoção ao Homem a dias, que nos próximos três meses o irá ler em público e em voz alta, nas feiras, lotas e romarias do país. Fará apenas uma interrupção de dois dias, a 12 e a 13 de Junho próximo. No primeiro deles para deixar que os ouvintes assistam, sem interferências, ao primeiro jogo do Euro 2004. No segundo, que é domingo, para que vão à missa e depois disso sigam para a interminável fila que levará às praias da costa. Quem não puder apanhar sol deve resguardar-se e, se assim o entender, ir votar para o Parlamento Europeu. Mesmo sem saber que parlamento é esse, para que serve ou, ao menos, quais são os candidatos nacionais e que currículo possuem. Percentagem da população portuguesa que não costuma ler livros: 54,1%. Menor do que os 58% das empresas que não pagaram IRC em 2002, o que corresponde a um louvável esforço de colocar a cultura acima dos impostos. A este propósito é injusto que o ministro Roseta permaneça na penumbra e ninguém saiba o que faz ou onde mora. Daqui segue, em sua homenagem, o ramo de flores que tanto merece e a admiração sem limites com que o contemplamos. Posição ocupada por Portugal na escala dos países da União Europeia com menor índice de leitura: 1. Indicador obtido antes do alargamento a mais dez parceiros, em Maio próximo. O triunvirato constituído pelos ministros da Educação, do Ensino Superior e da Cultura conseguiram entretanto acautelar os interesses nacionais e garantir que a nossa posição não será afectada pelo alargamento. O nome de cada um deles vai ser dado pelo Dr Rio a novas ruas do Porto que receberão ainda, durante a noite, a plantação das respectivas placas toponímicas que, segundo o próprio, terão a importância da torre dos Clérigos daqui a 30 anos. Ele mesmo será mais conhecido ainda em vida do que Nicolau Nazoni depois de morto. Só não sabe é se será como presidente da Câmara!
Fê-lo, segundo disse, porque lhe restariam apenas condições para permanecer no governo: ter um chefe de gabinete, não sei quantas secretárias, três caixotes de prebendas. Mas deixava de ser exequível o seu projecto, que todavia não disse qual era.
Também, verdade seja dita, nunca ninguém o descobriu ou soube dele, tão confidencial se manteve sempre. O único a saber foi aquele deputado do queijo, de Ponte de Lima. E vocês recordam-se ainda de quanto é que o engenheiro teve de pagar por isso?
Quase na mesma altura alguém se dava ao cuidado de fazer contas pela quadragésima quinta vez, sobre os benefícios fiscais que aproveitam a um casal desfeito, com dois filhos, por comparação com um casal à antiga portuguesa, fiel a um casamento para a vida e para a morte, como teve o cuidado de lhes referir o padre que os casou.
Não cabem aqui as muitas considerações que estas questões despertam em nós e que, muito mais fundamentadamente, deveriam despertar nos responsáveis, embora não despertem. Mas diga-se, de passagem e apesar disso, quanto à natalidade, que deveria haver propósitos e projectos para inverter a situação ou, no mínimo, para lhe reduzir a dimensão. Não é esta, como sabemos, a vocação dos nossos políticos. Que não têm projectos e que, quanto a ideias, se ficam muito aquém das do professor Pardal dos livros de quadradinhos da nossa juventude.
Quanto à incidência fiscal sobre os casais desmantelados, de há muito se sabe também como e a quem isso aproveita. E fases houve em que, com essa única intenção, muitos casais formalmente se desfizeram para recolherem os frutos possíveis. Depois, aparentemente, a questão perdeu fulgor porque a evasão fiscal se tornou mais fácil, generalizou-se, passou a ser - como é - normal declarar rendimentos de cem e gastar duzentos. Como? Simples! Ou sendo severamente forreta, tipo Manuel Damásio, ou alegando herança recebida da tia solteira e rica ou ainda, tipo Pedro Caldeira, ter ganho muito dinheiro na bolsa de valores.
O país, como se dizia em "post" anterior, tem um ministério da administração interna. E também tem um ministério cujo nome deveria ser o do desemprego e da insegurança social. Mas, ao contrário do anterior, este tem um titular. Largamente apoiado, pelo menos quando, de cachecol ao pescoço, se esparrama na tribuna do estádio da Luz para assistir ao Benfica - Estrela da Amadora. Seis milhões, segundo contagem do Sr Manuel Damásio, gritam o seu nome, como benfiquista. Ao invés, fora do estádio, os mesmos seis milhões vaiam-no e cobrem-no de impropérios, como governante.
Confrontado com ambas as situações descritas o Dr Bagão manifestou desagrado. Não por palavras, mas viu-se pelo sobrolho carregado, quase se confundindo com o da Dra Manuela Leite em dia de reunião de negociações com aquele Sr Picanço, sobre os aumentos do funcionalismo. De palavras foi parco e contido, graças a Deus. Porque se mais abrira a boca maior disparate se lhe teria de também ouvir. Disse ele que a fiscalidade não aumenta o número de nascimentos!
O que é brilhante porque vem em defesa de teses que um seu colega de partido, - perdão, o homem é independente, quase nos esquecíamos disso! - que teve a honra de poema manuscrito e dedicado à sua pessoa por Natália Correia, quando assegurou aos parlamentares seus colegas que o acto sexual era para fazer filhos. Bagão Félix, anos depois, vem lucidamente reafirmá-lo. A fiscalidade pode ser um grande coito, mas não aumenta o número de nascimentos. Para o número de nascimentos, tenha-se isso presente, é o acto sexual. Como ensinou João Morgado, que tinha feito só um filho. E a nós a fiscalidade não fez nenhum. Mas tenta!
O governo tem na sua estrutura um ministério da administração interna. Mas o ministério, infelizmente, não tem um ministro, tem um fenómeno do Entroncamento. Mais propriamente um nabo que, sozinho, dará para todo o concurso da sopa dos ditos que o major Valentim dos ... de ... anualmente promove em Gondomar. Tanto assim que o aumento de mais de 23.500 crimes entre 2002 e 2003 não representa, em sua opinião, nenhum aumento de insegurança. Em boa verdade não houve mesmo nenhum aumento do número de situações criminosas, as pessoas é que se queixaram mais dos crimes.
Está visto que as pessoas se queixaram do mesmo crime mais que uma vez, muito provavelmente em diferentes esquadras de polícia. Com um dia de sol, o meio do mês já passado, o orçamento familiar pior do que o do Estado, o cidadão levanta-se, espreguiça-se e questiona-se sobre o que pode fazer com tão bom tempo. Almoçar fora não, por falta de dinheiro para a gasolina, ou para os transportes, para o frango assado, para as batatas fritas congeladas há dez meses. De repente ocorre-lhe! Há dois meses fui assaltado por um esqueleto armado de seringa, exigiu-me a carteira, fui apresentar queixa. Nunca mais me disseram nada. Vou dar um passeio e apresento queixa de novo. Foi isso, as pessoas queixam-se de tudo, quase sempre sem razão nenhuma, e reincidem! Já não se contentam em queixar-se uma vez e queixam-se várias. Como o ministro que se não limita a dizer uma mentira: repete-a até dignamente se convencer de que fala verdade!
As agressões a polícias aumentaram 40 por cento, muito acima da inflação e, ainda, muito mais acima dos aumentos que, nos dois últimos anos, a ministra das finanças esbanjou com os funcionários públicos. Mas o híbrido de ministro assegura ter-se cansado de querer regenerar todos com palavras doces e palmadinhas nas costas. E ameaça que terminou o tempo da desautorização das forças policiais, das hesitações e das ambiguidades.
Haja Deus! Olha se não tinha terminado?
Narciso Miranda chamou agora a si o pagamento dos 33.000 euros - 6.600 contos, pasme-se! - gastos na campanha, anunciando que os pagará do seu próprio bolso. O vereador Rocha apresentou a demissão que, todavia, não foi aceite. Diz Narciso que ele agiu de boa fé, o que naturalmente não chega. Porque, se chegar, basta que se invoque a boa fé para de seguida se cometerem os maiores dislates, em nome da transparência e do interesse público. A decisão do Senhor de Matosinhos levanta um outro problema, já velho. Sabe-se quais são os ordenados dos autarcas e, com isso, que Narciso precisará de quase um ano de trabalho para pagar a factura. Pergunta-se como conseguirá subsistir, prescindindo do ordenado. Sabendo-se também que no país tudo é possível. Até comprar uma moradia na Quinta da Marinha por meio milhão de contos ganhando-se apenas o salário mínimo nacional. Não é um país de contrastes, este. É antes um país de milagres! Ah! Como era politicamente correcto, os colaboradores mais próximos de Narciso Miranda designaram por aproveitamento político miserável a atitude de alguns seus opositores ao levantarem a questão. Tendo-se mantido calados, não teria havido aproveitamento e talvez um dia destes se encontrassem todos, numa sexta-feira depois do horário de trabalho, a uma mesa da Marisqueira Majara. Assim…
Nos dois últimos dias cruzaram-se espadas, salvo seja, entre Maria Filomena Mónica e Pedro Santana Lopes tendo, como pano de fundo, a figura sarcástica de Eça de Queirós. Tudo a propósito de um edifício que a Câmara de Lisboa adquiriu pensando ser o que não era e para albergar o que não existe, chamando-lhe Casa Eça de Queirós. Para onde, desde logo, nomeou directora.
Dizendo-se Filomena Mónica não queiroziana há que reconhecer, no mínimo, que saberá mais sobre Eça que Santana Lopes sobre o concelho que administra. Tem trabalhado muito em torno da figura do escritor e contribuído vigorosamente para a sua divulgação. Sem subir à cátedra, tirar da carteira os óculos para ler ao perto e falar para uma plateia caduca, com a cabeça pendente de sono e de indolência.
Santana Lopes respondeu-lhe ontem, à sua maneira, como se o fizesse nas páginas de A Bola e escrevesse a crónica do Rio Ave - Sporting, tentando arrasar o árbitro por lhe ter recusado as prendas para a mulher e para os filhos, tão convictamente adquiridas.
Hoje Vasco Pulido Valente vem pronunciar-se sobre o assunto na sua meia coluna do Diário de Notícias. No seu estilo cáustico, com o desprezo que dedica às pessoas de quem fala. Por uma vez, vale a pena ler!
Tirem-na daquele filme, antes que a película pegue fogo. Poupem-nos! Deixem que seja o Seara a falar do Benfica e a dizer o que é que falhou na táctica contra o Inter!
Hoje Santana, na condição de vice-presidente do PSD para que o não confundam com presidente da câmara, confessa-se no Diário de Notícias, nestes termos: Não sei quantos cantos ao certo seriam devidos para descrever as musas que me têm aparecido ao longo da vida. Nem todas têm trazido apenas bons momentos. E é natural que nenhum de nós possa satisfazer todas as musas. Considero uma injustiça haver uma Casa Fernando Pessoa em Lisboa e não haver uma casa dedicada a Eça de Queirós. Também concordo que será bonito haver uma casa dedicada a Cesário Verde. Depois as injustiças, em segundo lugar. Há muito mais gente a precisar e a merecer a deferência. Uns vivos, outros não. É preciso saldar dívidas do seu consulado para com Saramago, que até está por cá. E amanhã terá de certeza no seu gabinete os pedidos formais, expedidos por correio azul, do professor Freitas do Amaral, de Mário Cesarini, de Urbano Tavares Rodrigues. Calado e de sobronho carregado, António Lobo Antunes há-de aparecer-lhe a meio da manhã, a pedir-lhe a chave. E a saltitar, lançando gritinhos estridentes, há-de aparecer-lhe, para o almoço, a Margarida Rebelo Pinto. A saber se lhe destinou casa em algum dos bairros sociais e se lha entrega!
Bem, vamos por partes e, sendo assim, comecemos pela primeira. O que este gajo vem dizer à malta é que nem os dez cantos dos Lusíadas chegariam para albergar todas as musas em que se tem inspirado. Mas não se nota nada, pelo menos no que respeita a obras de cultura. Apareceu agora um livreco, dez anos depois, sem merecimento. Mas ele confessa e diz que nem todas lhe têm trazido bons momentos. O maganão! Afinal tem estado apenas nessa, de curtir. E assume que é natural que se não possam satisfazer todas. O que, no caso dele, a fazer fé nos boatos, deve ser verdade. Mas deve-se tentar. Além disso hoje há outros recursos, é questão de se informar.
Já quanto à realização de estudos a perspectiva é diferente. Por completo. Os portugueses fazem estudos em barda que, todos juntos, não servem para nada. Juntam dois ou três jovens, pagos a quinhentos escudos à,hora sem recibo,- como o Dr Portas fazia na Universidade Moderna, em defesa da igualdade de oportunidades - mandam-nos para a Rua de Santa Catarina a uma qualquer hora de ponta, fazem-nos correr atrás das pessoas apressadas que passam a caminho do almoço ou de regresso a casa, colocar-lhes meia dúzia de perguntas rápidas e imbecis que não travam a pressa mais que dois minutos. Depois metem a simples centena de respostas obtidas, intercaladas com todos os "não me chateie" que as acompanharam, num computador construído a partir de componentes importados de Taiwan e extraem conclusões sobre toda a área metropolitana do Porto. Com uma margem de erro sem expressão acabam a concluir que toda a gente adora o presidente da câmara, acha o metro do Porto o sistema de transporte mais eficiente do mundo e o Futebol Clube do Porto, definitivamente, maior que o Leixões.
Ainda hoje o Jornal de Notícias escreve em título "Utentes não estão satisfeitos com os centros de saúde", referindo-se a um estudo realizado pela Deco em Junho e Julho do ano passado, como se fosse necessário fazê-lo para chegar a tão brilhante conclusão. Ali se diz que um terço da população espera um mês por uma consulta do seu médico de família, quando o tem. Em Espanha isso consegue-se de um dia para o outro. Se a consulta for de especialidade a situação complica-se e a espera alarga-se para o dobro do tempo: dois meses. Se for no Algarve, apesar de Espanha ficar logo na outra margem do Guadiana, a questão piora ainda mais. No dia da consulta, cuja chegada é logicamente festejada com bolo-rei, espumante da Bairrada e foguetes, a espera ronda as duas horas. Em instalações que em nada se parecem com o gabinete de nenhum ministro, sem luz, sem ventilação e, quase sempre, sem cadeiras.
É de enaltecer o trabalho da Deco? Claro que é, a começar desde logo pelo número de inquiridos: cerca de cinco mil. Em relação a 2000, três anos antes, as coisas melhoraram? Não se dá por isso! O ministro da saúde vai olhar para os números? Vai chamar ao seu gabinete os responsáveis da Deco para melhor se esclarecer? Claro que não! Vai continuar a falar no sucesso das listas de espera para as cirurgias: dos que estavam inscritos há dois anos já ninguém espera. Os que não foram operados, morreram. Daí para cá ninguém mais se inscreveu, o país passou a ser saudável. Ou medroso. Quem dava cabo da saúde dos portugueses era o engenheiro Guterres, já ninguém sofre de almorróidas ou toma Prozac para se sentir feliz. Ou, então, já há mais medo da cura do que da doença!
Entretanto é isto que permite ao Hospital de São João, S.A. gastar mais de cinco mil contos a fazer publicidade a si próprio, como se se masturbasse. Como aqui, num outro "post", referimos ontem. São os sinais da retoma já claramente visíveis por aquelas bandas. O dinheiro já sobre onde sempre faltou. Gasta-se é mal e naquilo em que se não deve. O que espanta é que ninguém seja responsável por coisa nenhuma. Mesmo que o ministério não tenha tido conhecimento prévio da iniciativa, o ministro acabará a louvar tão proficientes gestores. E a propor mesmo que sejam condecorados no 10 de Junho.
Acha ele que as reacções do Banco Central Europeu são sempre atrasadas. Poderiam melhorar-se as coisas mas, infelizmente, não tem o Sr Luís Delgado condições que lhe permitam aceitar mais um honroso convite, ainda por cima além fronteiras. Mas regista a questão em agenda. Perderia o país se o dito emigrasse. Muito, porque dele deriva esta dinâmica que o bardo do regime enaltece em esconsos versos alexandrinos: é a guerra, é a guerra!
Descobriu ainda que, afinal, tem também um "feeling" especial para as questões da transparência, da bolsa de valores e das contas das empresas. E entende, muito doutamente, que a revelação dos vencimentos dos administradores das empresas cotadas em bolsa - imensas em Portugal, como se sabe! - não representam nenhum acréscimo de transparência. Ao contrário, são espreitar pelo buraco da fechadura da casa de banho. A ver que publicação se entretêm a folhear aqueles que, embora ricos, se contorcem no desconforto da sanita: as enciclopédias do Sr José Vilhena ou a Hola da última semana.
E não deixa, felizmente, passar em claro o encontro feliz do Dr Durão Barroso com o Sr Tony Blair. Para relembrar que a aliança histórica é forte - deixando de lado aquela velha questão do ultimato - e que a ajuda britânica, nomeadamente para a produção e comercialização do vinho do Porto, é perfeitamente fundamental. Um homem em forma, no seu melhor. Como o juiz de Castelo de Paiva que se decidiu por atribuir a causas naturais a queda da ponte de Entre-os-Rios e não levar a julgamento os areeiros por não terem culpa nenhuma.
O Conselho de Administração, consciente do papel central do Hospital de S. João na modernização e na implementação das necessárias reformas estruturais que têm vindo a ser preconizadas por Sua Excelência o Sr. Ministro da Saúde, vem, publicamente, informar os utentes do SNS dos resultados do seu exercício relativos a 2003. Com esta divulgação, o Conselho de Administração pretende ainda homenagear a dedicação e o esforço dos profissionais de saúde deste Hospital, responsáveis últimos pelo êxito que estes resultados demonstram. As considerações são a transcrição por extenso do que pode ler-se nos quadros e, no essencial, salientam que se fizeram mais consultas, por exemplo, com menos dinheiro, menos horas extraordinárias e menos funcionários. O que talvez queira significar que o funcionamento será optimizado sem nenhum dinheiro, sem horas extraordinárias e com os funcionários todos disfrutando das merecidas pensões de reforma. Já agora, sem aumentos! O presidente do conselho de administração, que deve muito provavelmente ser um médico, poderia ter-se previamente aconselhado com alguém que soubesse alguma coisa de números. Bastar-lhe-ia até que chamasse, directamente da janela do gabinete, algum aluno da Faculdade de Economia que passasse na rua e que lho perguntasse. Quando se fala de resultados, fala-se inevitavelmente de resultados contabilísticos e o Hospital de S. João, à semelhança de outros, passou a ser uma sociedade anónima, embora com o capital social com uma estrutura esquisita. Ou, melhor dizendo, sem estrutura nenhuma: é de accionista único, neste caso o Estado. Portanto o Hospital S.A. deveria divulgar contas e não indicadores sobre os quais se não sabe sequer como foram obtidos e a que critérios obedecem. E, mesmo assim, deveriam essas contas ser certificadas por entidade externa e independente, vulgarmente referida como auditores ou, no caso português, como revisores oficiais de contas. Assim fica-se pelo desbragado elogio do ministro, para que contenha qualquer remoto pensamento de exonerar seja que administrador for. E ainda pelo auto-elogio que, magnânimo, torna extensivo aos profissionais de saúde ao serviço. Como se diz, elogio em boca própria é vitupério. Ou pior!
Seguem-se dois quadros preenchidos, como se disse atrás, com números vazios e sem certificação de rigor, acompanhados de considerações inúteis e patetas. Comparam-se, relativamente aos anos de 2002 e 2003, os números de consultas externas, hospital dia, urgências, intervenções cirúrgicas e internamentos. Depois, num segundo quadro, os subsídios à exploração, as horas extraordinárias e o número total de funcionários.
Para Santana Lopes é perfeitamente indiferente que o hotel Bragança fosse na Rua do Alecrim ou na Rua de Vítor Cordon, tanto mais que ele não era o presidente da câmara e, portanto, não é responsável. Mesmo que se não deva divulgar a idade de ninguém, ele nem sequer tinha nascido. Depois as coisas ocorrem-lhe sempre com algum atraso, tanto assim que só deu por ter sido o responsável pela cultura do país, passada uma dúzia de anos e não se sabe depois de quantas passagens pelas docas. É sempre uma concessão da sua parte dedicar um espaço à instalação de uma Casa de Eça de Queirós, uma vez que não o conheceu e não espera tê-lo como cliente do novo casino em cuja construção está empenhado, a bem da redução dos aviltantes níveis de pobreza no concelho e da erradicação da toxicodependência no Intendente.
A Dra Ana Piedade foi seleccionada como directora, seguramente em resultado de concurso público e no mais escrupuloso respeito pelas transparentes normas que a autarquia tem em vigor, embora com carácter reservado por questões de segurança. Depois, como a própria defende, o que é relevante é o facto do edifício se situar numa zona a transbordar de referências queirozianas. Sendo assim poderia o mesmo ter sido adquirido, com igual e inatacável lógica, no Porto, na Póvoa de Varzim ou mesmo em Havana. Nos Campos Elíseos não, que o preço por metro quadrado está pela hora da morte. E como é o próprio presidente da câmara a decidir "estas coisas", muita sorte houve em que o mesmo, pura e simplesmente, não tivesse decidido que Eça nem sequer existiu porque dele se não fala no Kremlin.
Ficámos curiosos quanto ao facto da haver queirozianos encartados. Perseguindo um dos objectivos do governo, que é elevar-nos o orgulho, - travestido de auto-estima! - solicitamos a Maria Filomena Mónica o especial favor de nos fornecer o endereço da entidade que emite os respectivos cartões, para que possamos solicitar o nosso. Para juntarmos, na carteira, aos que já lá exibimos, do Círculo de Leitores, do Automóvel Clube, do Inatel, das sapatarias Charles e dos Armazéns Marques Soares. Muito obrigados!
Os dois grandes partidos políticos da vida airada, PSD e PS, no secretismo dos gabinetes e à má fila, como convém a cada um deles, parece que admitem, em conjunto, viabilizar a possibilidade das mesas de voto, nas próximas eleições para o parlamento europeu se manterem abertas até às dez horas da noite. Como isso é coisa que lhes interessa apenas a eles, acordam no segredo a ver se, em conjunto e mais uma vez, ludibriam o eleitor.
Despreze-se a possibilidade dos nossos políticos não fazerem ideia do país em que vivem. Isso é um lugar comum, já toda a gente deu para esse desgraçado peditório, não há mais nada a acrescentar. Do país que deveriam servir - e não servir-se dele, como se fosse uma prostituta! - os políticos apenas conservam o passaporte, de preferência diplomático.
Nos fóruns que entretanto se promovem sobre o assunto há intervenções de doutores que têm defendido teses sobre a questão e constatado que a abstenção tem crescido desde 1999. Não refere esta perspectiva, por uma vez que seja, o crescente desinteresse do eleitor pelos políticos que elege, pelo incumprimento das promessas que fazem e pela nebulosa transparência com que actuam. Prefere referir-se ao eventual desconhecimento que o eleitor tem - o burro! - sobre a influência que a abstenção pode transmitir aos resultados.
Noutra perspectiva há quem defenda a obrigatoriedade do voto, sugestão que também nada tem de novo. É assunto sobre o qual todos os partidos, cada um por si, estão absolutamente de acordo. Voto obrigatório e no partido especificado, obviamente o deles. O desacordo só surge na última parte, naturalmente. O voto é, a nosso ver, a primeira manifestação de liberdade democrática. Fazer dele uma obrigação corresponde, desde logo, a interferir com a liberdade do cidadão que se não reveja na série de "cromos" que se apresentam como candidatos. Que o recenseamento o seja, é outra coisa, como a posse do bilhete de identidade.
Mas o que é imediato, aquilo que é referido sistematicamente pelo eleitor que não faz mais do que votar, é o generalizado descrédito dos políticos em quem já ninguém acredita. Ninguém vai empenhadamente participar num acto que lhe não diz nada, que nada contribui para a sua felicidade ou para o seu contrário. Como o são as queixas, também generalizadas, dos que se confessam enganados, por ingenuidade, por este governo e por quantos o antecederam. Não estão estes também, como masoquistas, na disposição de alimentar a farsa. Como quem diz: quanto mais me bates, mais eu gosto de ti!
Com pompa e circunstância o governo anunciou ontem, pela boca do primeiro-ministro, um conjunto de cem compromissos - vocábulo de conteúdo indefinido e de cumprimento duvidoso - a concluir até 2006, na data da celebração do 10º aniversário do Dia Internacional da Família. Fê-lo no Teatro Nacional D. Maria II que, como se sabe, é o local mais frequentado pelas famílias lisboetas e que apenas é ultrapassado na noite de Santo António pelo Pátio Alfacinha. Não é igualmente frequentado pelas famílias residentes na província, nomeadamente no Douro Litoral, Trás-os-Montes e Beiras, devido ao congestionamento das auto-estradas e ao elevado preço dos bilhetes de comboio.
As cem medidas constituem, obviamente, um extenso manifesto de intenções que, preferencialmente, contempla aquilo a que chama medidas sociais em detrimento de incentivos fiscais. Claro! Antes de mais é preciso assegurar que as medidas, na eventualidade de serem implementadas, não representarão nenhuma quebra na arrecadação de receitas e, se possível, nenhuma subida nas despesas suportadas pelo orçamento. Depois anunciam-se generalidades ambíguas, sem nada de concreto, que possa amanhã vir a comprometer o governo. Quer dizer, sem custos imediatos, a campanha eleitoral para as legislativas de 2006 está em marcha!
Os enunciados chegam a ser caricatos. A reforma parcial e a redução do tempo de trabalho entendem-se como incentivos à promoção da família. No que, naturalmente, são precedidos pelo desemprego, pela pré-reforma, pelo trabalho precário e pelo encerramento irreversível das empresas. Como, a propósito, agora acontece com a Bombardier na Amadora. E como, ao que parece, vai acontecer de seguida e até ao final do ano, com a Delphi na fábrica do Linhó, Sintra.
Trata-se, neste caso, deste governo e da coligação que politicamente lhe serve de muleta. Mas a questão é mais profunda e denuncia a ignorância, o desinteresse e o desrespeito da classe política para com o país real que a emprega e que lhe paga. Os políticos não conhecem o país nem estão interessados em conhecê-lo. Desconhecem os seus problemas e não estão minimamente interessados em conhecê-los. As taxas de natalidade atingiram mínimos nunca sonhados. As populações estão cada vez mais envelhecidas e abandonadas. Não há estruturas onde se possam acolher, não há sistema de saúde que se ocupe de as tratar. O Estado, naturalmente, demarca-se de quaisquer responsabilidades que lhe possam ser imputadas, não vá o diabo tecê-las.
Se em vez de intenções fossem anunciadas medidas concretas, que não se limitassem a ser compromissos vazios, nem sequer seriam necessárias tantas. Se assim fosse, os problemas estariam extintos antes de consumidos todos os remédios.
Não há nenhuma intenção de estabelecer paralelos entre o funcionamento da justiça no reino da Suécia e na república de Portugal, mesmo que ambos os países sejam membros efectivos da União Europeia. O que, por si, evidencia as diferenças que existem entre os diversos estados membros, na justiça como no resto.
O Dr Carlos Tavares é, ainda, o ministro da economia. É um mal-amado, mesmo que se apresente diariamente no seu melhor, de cabelo arranjado, fato feito à medida e sapatos engraxados por um paquete. Apesar dos esforços, dos cuidados com que os vendedores de banha da cobra lhe tratam da imagem, não consegue convencer e tem de tomar a bica sempre sozinho, solitário e apressado, como se tivesse lepra. O engenheiro dos supermercados já publicamente lhe fez saber que, este ano, lhe não manda pela Páscoa nem as amêndoas, nem o pão de ló.
Hoje, desavergonhadamente, veio fazer concorrência desleal ao plumitivo Cabo Delgado, digo, Luís Delgado, explicando o aumento superior a 4 por cento que os combustíveis já sofreram desde o início do ano, altura em que os respectivos preços foram liberalizados. Dizendo, de forma subentendida, que os portugueses são burros - ele é português mas já viajou muito pelo estrangeiro! - e que o cu não tem nada a ver com as calças.
Disse sua excelência, insolente, que a culpa é do clima e dos rigores do inverno que atrasaram, e muito, a sementeira da beterraba na Lapónia e a apanha da fava no concelho de Almeirim. Como se isso não bastasse, esgotaram-se as reservas que ainda havia no Beato e os custos de exploração do petróleo das Berlengas dificultam a rentabilidade da concessionária. Como um mal nunca vem só - como os ministros - a república federativa da banana e da madeira reduziu a quota com que abastecia o país, substituindo-a por poncha sobrada do arraial do Chão da Lagoa.
O país conclui que não precisa de cangalheiro. Já tem ministro de economia e isso basta-lhe!
Reconhecido, o povo de Boticas quotizou-se, como se faz nos casamentos e nos funerais, e adquiriu uma vitela para oferecer ao Dr Durão Barroso. Deu-lhe banho, aparou-lhe os cascos, escovou-lhe os pêlos e limpou-lhe a espuma do nariz e a ramela dos olhos vivos. Aspergiu-lhe pelo dorso uma fragrância suave e campestre a carqueja e mandatou o presidente da câmara para que fizesse o discurso e se encarregasse da entrega.
Embevecido, o primeiro-ministro mirou a bezerra de pata a pata, enxotou-lhe as moscas das orelhas, passou-lhe rapidamente a mão direita pelos cornichos a despontar. E agradeceu. Para todavia anunciar que não dispunha no quarto dos filhos de mais nenhum sítio no beliche onde a futura vaca pudesse, confortavelmente, repousar. Levá-la para a residência oficial não dava muito jeito e podia até ser comprometedor. As vitelas, como as crianças, prejudicam sempre o trabalho dos adultos e, se deixadas à sua sorte, não sabem o que fazem, estragam as plantas e sujam as mãos com terra. Além disso, e mais perigoso ainda, seria a vitela poder entrar pelo hemiciclo em hora de plenário e interromper os discursos importantes, usando da palavra. E, se o fizesse, o que poderia dizer? Se calhar contestar o governo, a coligação e o ministro da defesa. Além disso, por estratégia, nem sequer interessava nada que a oposição pudesse conhecer a vaca com que anda a coligação, por causa da inveja.
Sendo assim, agradeceu muito, fez à vitela um último e terno olhar cúmplice e pediu que lha mandassem depois, acondicionada numa caixa térmica. Feita em bife e em carne para a sopa!
Utilizando helicópteros e mísseis, sob a direcção directa do conhecido humanista Ariel Sharon, casualmente primeiro-ministro, Israel conseguiu esta manhã um importante troféu de caça. Abateu, com apenas três disparos, o líder espiritual do Hamas, 67 anos, tetraplégico desde os 12, inutilizando ao mesmo tempo a cadeira de rodas em que se deslocava a velocidade supersónica. Ao que parece, entrava ou saía de uma mesquita próxima de casa, conhecido local de planeamento de operações de agressão como, em Telavive, são conhecidos locais de culto as fábricas de munições e os quarteis.
Céleres e solidários os americanos recomendaram calma, salientando que os mísseis custam dinheiro e que se não devem gastar três se se conseguir fazer o mesmo trabalho apenas com dois. O mundo, e particularmente o médio oriente, sentiram-se desde logo mais seguros e dizem os correspondentes das agências noticiosas que até se passou a respirar melhor. Não há, para já, perigo de maior para aqueles que consigam recolher-se a abrigos subterrâneos, a 50 metros de profundidade, desde que lá se mantenham 24 horas por dia.
O pacifismo campeia, ganha adeptos, recusa a guerra e a violência. Gandhi, afinal, era um principiante primitivo que não sabia nada de nada.
Primeiro, foi tarde. O Verão acabou em Setembro do ano passado, há seis meses, e tudo ficou calado. Nem palavras, nem gestos. Depois a verba anunciado representa, em escudos, cerca de oito milhões de contos. Menos, cremos nós, do que o subsídio com que o Estado financiou a construção de qualquer de cada um dos dez estádios para o Euro 2004. Directamente! Porque não se pode dar o mínimo crédito a um tal de José Luís Arnault quando diz e repete, como se falasse para parvos, que não houve nenhuns desvios nos custos de construção dos estádios. Houve! Os estádios custaram mais do dobro do que aquilo que foi inicialmente programado.
O Estado apenas manteve os subsídios directamente atribuídos aos donos de cada um deles. Mas omite, malevolamente, como se falasse para burros, os custos suportados pelas autarquias - que até são donas de alguns deles como acontece com Faro-Loulé, por exemplo! - e os que são suportados por organismos autónomos como, por exemplo, a construção de acessos. Que, se não fosse a bola, nem daqui a dez anos estariam construídos! E os dinheiros envolvidos, nestes casos, também são públicos.
Assim sendo, a montanha limitou-se a parir um rato, ainda por cima enfezado. Tanto mais que, segundo os jornais, no ano passado, com os resultados que se viram, tinham sido atribuídos ao combate aos incêndios cerca de 30 milhões de euros. Ou seja, cerca de seis milhões de contos.
O que se estranha é que o Dr Barroso continue a ser muito aplaudido pelas mentiras. A não ser que lhe batam palmas pela qualidade da representação. A ser assim ainda o veremos numa das próximas telenovelas da TVI a contracenar com Rui de Carvalho e Eunice Munoz. Mas não vai ter nem horário nobre, nem audiência. Muito menos palmas!
O lançamento de uma primeira pregadela do presidente da câmara, ele próprio, ao meio dia em ponto quando os pobres apontam à porta da sopa da Ordem da Trindade. Cautelosa por causa dos dedos e das unhas, na Rua da dita, da Trindade. Três televisões, incluindo as de Gaia, terreno minado e inimigo, sete emissoras de rádio, 3 jornais diários, 27 jornais regionais, duas centenas de convidados. Beberete, lanche rico de casa pobre, com biscoitos de sortido húngaro e refrigerantes sem gás. Arrumadores de rua reconvertidos de toxicodependentes em alcoólicos. Automóveis de gama alta estacionados nas traseiras, adquiridos em regime de locação que quer dizer "leasing", a gente não tinha dinheiro para tal dignidade.
Notificados os presidentes das juntas e dos clubes de futebol que compareceram todos, acompanhados dos vogais. O respeito é muito bonito, o partido é um patrão inteiro quando manda, o beberete é uma tentação. Ai os diabetes, amanhã vai ser fortalecida a dose matinal de insulina, se Deus quiser há-de voltar tudo ao normal.
O Porto, pronto. Ganhou placas toponímicas novas, de aplicação fácil como a abertura das latas de atum. Até presidente de câmara é capaz de fingir que prega uma, a primeira, a predilecta, subido numa grua como concorrente do um contra todos, o Malato no chão a fazer as perguntas, o computador pum, a dar as respostas. São muitas, todas com letras brancas sobre fundo verde escuro. Daqui a trinta anos serão uma das marcas da cidade, como a torre dos Clérigos ou a ponte de Luiz I, o presidente é modesto graças a Deus, usa gravatas compradas numa loja de chineses. Faltou-lhe referir o Jorge Costa e o Vítor Baía que na altura já terõao arrumado as chuteiras, mesmo que o Jorge Nuno seja ainda presidente. No cumprimento do 43º mandato, com maioria ou sem ela, ele é que manda e pronto, o José Mourinho já por essa altura deve ter chegado a seleccionador do Quatar.
Agora falta só levar ao outro lado da rua mais um contínuo, mesmo dos antigos, se ainda houver, com a quarta classe das escolas da Trindade. Para ele tentar ler o nome e dizer: façam as letras maiores porra, que assim ninguém lê nada. Tanto faz é para os analfabetos! E a cor, nem o filho do major gosta, ainda se fossem cor de rosa como a pantera. Agora verde! Ah, são as cores do Rio Ave, tinhas comprado o árbitro, adivinhaste o resultado. Não precisavas era de gastar tanto dinheiro, um a zero chegava, ficavas com algum para aumentar o tamanho das placas e das letras. Então não era ó pascácio?
Este seu novo evangelho não prevê a contrição, de forma a não provocar a interrupção da obra e a impedir a sua conclusão dentro da duração do mandato. Este evangelista de turno, confuso com o papel a desempenhar, julga-se Fernão Mendes Pinto, traveste-se de Fernão Mendes Minto, sobe "Por este rio acima "a cantar "a guerra é a guerra". Continuasse Luís Francisco Rebelo na Sociedade Portuguesa de Autores e teria que pagar os respectivos direitos. É mais complacente Manuel Freire, acha que são tudo recalcamentos de juventude, leva-se à conta da "Pedra filosofal". Que trapalhada vai por aquele rio abaixo!
Sem nenhuma justificação o local de realização da final da Taça de Portugal em futebol voltou, disparatamente, à ordem do dia. Com achegas sem nenhum sentido, verdade seja dita. Por um lado o presidente do Porto, Pinto da Costa, a defender a final a duas mãos. Como a poderia ter defendido à melhor de cinco, por exemplo. Deve tê-lo feito por ironia, a título provocatório, atirando os foguetes e ficando a ver onde as canas irão cair. A Taça é uma prova a eliminar, a uma só mão, incluindo a final. E assim deve continuar a ser para que mantenha algum encantamento, para que permita que alguns pequenos cheguem um pouco mais longe. Porque, como se sabe, não estamos num país onde isso possa ocorrer normalmente, com toda a naturalidade.
Depois a questão do local que o Dr Madail diz, depois de apurados os dois finalistas, manter-se em aberto. Não pode haver finalistas apurados sem saberem onde vão jogar. É uma questão perfeitamente surrealista. Ou se mantém um determinado estádio - pode ser o do Jamor, porque não? - atribuindo aos finalistas o mesmo tratamento, inclusive no que respeita ao número de convites e de bilhetes para venda. Se a Federação não for capaz de assegurar essa isenção e de garantir essa neutralidade, é melhor fechá-la de vez. Ou se diz, antes da primeira eliminatória, em que estádio será disputada a final. E lá será, mesmo que um dos finalistas seja o proprietário do estádio e, por isso, se sinta em casa.
Apenas acontece que o futebol é como o resto do país, ou pior. Não é exemplo de coisa nenhuma e todas as movimentações são determinadas por interesses inconfessáveis, sem lisura e sem transparência. Se assim não fosse a questão pura e simplesmente não seria questão nenhuma.
Há uma semana atrás os jornais apareceram cheios de publicidade à morte do pai do presidente da Câmara de Matosinhos, Narciso Miranda. A morte é, para todos nós, um assunto difícil de gerir, muito mais ainda quando se trata de alguém muito próximo. Como o pai. Entende-se a dor, manifesta-se a solidariedade necessária, deixa-se que as pessoas se recolham à sua intimidade e à sua dor. Mas este desenlace foi publicitado por todos os jornais, em anúncios de grandes dimensões e, em Matosinhos, ninguém que tenha ligações à Câmara ficou de fora. Fê-lo a Câmara, os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento, a Matosinhos Sport, a Associação para a Animação de Matosinhos, a Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos, a Matosinhos Habitat. Os custos, segundo uma estimativa da revista Focus, terá rondado os 25.000 euros, o equivalente a 5.000 contos. Quase o correspondente ao salário mínimo de cinco pessoas durante um ano inteiro. Com dinheiros públicos, é claro. Porque, mesmo estando lá quase desde a idade média, o presidente Narciso Miranda não é dono da autarquia. O assunto é melindroso e tem havido alguma relutância em abordá-lo. Mas o descontentamento e a desaprovação têm lugar mesmo no interior do Partido Socialista, a que desde sempre Narciso pertence. Infeliz, por caricata e grotesta, foi a explicação dada pelo vereador socialista Fernando Rocha. Por um lado porque anuncia que não houve irregularidade nenhuma, tanto mais que a oposição não levantou a questão na última reunião da edilidade e este pormenor constitui, a ser ver, sinal suficiente de legalidade. Depois porque, quanto aos critérios, esclarece: "considerámos que as pessoas iam gostar de saber para, solidariamente, dar um abraço ao presidente da câmara". Pergunta-se agora, humildemente, deste canto: e as pessoas sabem melhor e mais depressa quando os anúncios são de página inteira e publicados em jornais de norte a sul do país? E quanto ao abraço de solidariedade: já acabou a fila? Já está descongestionada a central telefónica da câmara? O ritmo do expediente já observa de novo a cadência normal?
Citando, diz Francisco José Viegas que é impossível explicar. Mais do que isso, meu caro: é impossível acreditar, mesmo ouvindo!
A legitimidade dos governos, numa perspectiva política, decorre do mandato que se entende ter-lhes sido atribuída pelo voto em eleições livres e justas. Esta a premissa de que se parte.
Duas questões genéricas mas fundamentais. Não assiste o direito ao Dr Durão Barroso, nem a ninguém, de achar que a Espanha venha ou não a ter problemas em consequência daquilo que os seus governos legítimos tenham ou venham a decidir. É um problema espanhol que deve ser resolvido pelos espanhóis, sem interferências ou pressões do exterior. Seja de quem for.
Outra relaciona-se com a invocada legitimidade dos governos, que se não contesta. Mas a situação trás à tona uma questão bem mais profunda: a de não poder entender-se que a legitimidade se possa tomar, alguma vez, por poder absoluto. A legitimidade não permite e não justifica tudo. Há decisões que claramente transcendem a esfera de competência dos governos e que apelam não à representação dos cidadãos mas à sua mais estreita participação.
Um ano depois é, mesmo que tardiamente, tempo para ponderar e reflectir sobre quem ganhou com a guerra e o que se ganhou com ela. Milhares de civis inocentes acabaram mortos, milhões desalojados, famintos e sem possibilidades de recurso a meios de subsistência. Os atentados e as mortes continuam diariamente. Nada nem ninguém, em nenhum lugar, passou a sentir-se em maior segurança. Gastaram-se fortunas cujo valor ninguém será capaz de calcular. A alimentar as indústrias de guerra e a globalizar a subnutrição, a fome e a morte de adultos e crianças que não dispõem, numa sociedade que se diz da abundância, de pouco mais de mil calorias diárias para subsistir. Não temos nenhuma razão para nos sentirmos orgulhosos!
Hoje não escreveu sobre o facto de ontem, após prolongamento, a Al-Quaeda ter arrebatado a Taça do Rei e deixado os nossos compatriotas Luís Figo e Carlos Queirós a roer as unhas. Vítimas indirectas do terrorismo que se apresentou em campo com o nome de Saragoça.
Ontem, alegando a falta de encomendas nos próximos anos, a Bombardier bombardeou 400 trabalhadores, anunciando-lhes o encerramento da fábrica e o termo dos contratos. Por via amigável, é claro. Fecha-se a fábrica, pagam-se as indemnizações e ficamos todos os amigos. Até porque as indemnizações serão superiores aos mínimos a que a legislação obriga. Os trabalhadores que fabricavam comboios limitar-se-ão, de futuro, a ver os comboios passar. Sem que, seguramente, apitem três vezes! O ministro Carmona Rodrigues empenhou-se pessoalmente no assunto. Com a mesma convicção com que se empenhou na pouca vergonha da TAP, deixando as coisas seguirem o seu curso normal e não fazendo coisa nenhuma.
Hoje os trabalhadores reuniram-se em plenário, aprovaram uma moção, seguiram em grupo para a Câmara da Amadora para a entregarem ao respectivo presidente. Este, ao que parece, estava ausente para o seu habitual banho turco. O governo, pela boca do ministro, disse não poder fazer nada mas que era uma notícia muito triste. Por solidariedade embargou-se-lhe a voz e rolaram-lhe pela face duas lágrimas furtivas que enxugou com o lenço de cambraia. A partir de amanhã, disse, no seu ministério os funcionários usarão gravata preta e fumo negro nas mangas dos casacos. Ele próprio dará o exemplo. Todo o governo, incluindo o primeiro-ministro, os ajudantes e os assessores estão inconsoláveis.
Os trabalhadores, como seria de esperar, interpretaram mal a situação e confundiram alhos com bugalhos. A única coisa de que realmente percebem é de bigornas e de marmitas para transporte do tacho. Então não vêem eles que o que