A Itália é uma península com o feitio de uma bota. Portugal é um deserto com uma bota que não sabe como descalçar.
Os líderes dos principais partidos políticos, como é normal, não sabem a quantas andam. Mas, com a aproximação das eleições para o parlamento europeu, ainda se enervam mais, confundem datas, metem os pés pelas mãos e não sabem o que dizem.
O Dr Santana Lopes pede aos portugueses que mostrem um cartão vermelho à oposição. O Dr Carvalhas quer que seja mostrado um cartão vermelho ao governo. O Bloco de Esquerda, o Partido Comunista e a Nova Democracia reúnem-se num trio, tipo Cabeças no Ar, compram uma viola, um baixo e uma bateria e tocam em conjunto no funeral do bloco central. Apenas o Dr Manuel Monteiro é polivalente e assegura que tocará, com o mesmo virtuosismo, qualquer um dos três instrumentos. O Dr Ferro Rodrigues fala num ajuste de contas. Com o passado, com o presente e com o futuro. Por outras palavras, anuncia o seu harakiri público.
É óbvio que estes castiços estão equivocados com o início do Euro 2004, um dia antes. Ainda os fiéis não chegaram para a celebração, nem a procissão saiu das naves das igrejas, e já reclamam cartões de expulsão para os adversários. As eleições europeias são a 13 de Junho, dia de Santo António, feriado municipal de Lisboa. Não se enganem e não procurem continuar a enganar-nos a nós. Passem pela Brasileira, ao Chiado. Não precisam de entrar. Na esplanada o solene Fernando Pessoa terá a gentileza de vos dar um calendário de bolso. E de zombar da vossa ignorância e do vosso convencimento!
O cidadão português não é exigente. É ignorante, convencido e injusto. Com a sobranceria dos trinta por cento de analfabetismo mantém a convicção de ser o melhor do mundo e acha ter sido tramado por tudo e por todos quando isso não acontece. E, como sabemos por experiência própria, nunca acontece.
O cidadão português desdiz sempre dos outros, mas nunca de si próprio. Ou porque falam línguas que ninguém entende, como os finlandeses, ou porque bebem como esponjas, se embebedam e provocam desacatos como os adeptos do Manchester United. Mas, apesar disso, não entende nunca o que diz o Dr Alberto João com o seu sotaque cerrado da Ribeira Grande nem o português lapidado, como se fosse um diamante da Lunda, da Dra Edite Estrela. Orgulha-se, paralelamente, de ter a mais alta taxa de alcoolismo da União Europeia e de ainda haver velhos e novos, nos meios rurais, que tropeçam e caiem pelas valetas, grossos como um cacho, onde adormecem ao relento da noite. A curtir a desgraçada!
Para além disso são invariavelmente injustos. Primeiro para com os estrangeiros, depois para com os nacionais que não torcem pelo mesmo clube, que não frequentam a mesma sala de cinema ou não vêem os mesmos programas de televisão. Juntam-se em associações sem fins lucrativos, que depois são consideradas de utilidade pública, para afrontar tudo e todos. Em defesa do ambiente, por exemplo, criticam-se os que estabelecem suiniculturas que lançam directamente no remanso bucólico do rio Liz os mal cheirosos dejectos. Ou os que dão a recantos menos divulgados da serra da Estrela um aspecto mais típico e mais trágico, abandonando a céu aberto as marrãs mortas no parto. Em uníssono, depois, critica-se e ataca-se o governo, seja qual for a sua cor partidária, como se ele tivesse feito alguma coisa. Embora todos saibam, à partida, que nunca fez nada.
Ainda agora, na edição de sexta-feira, o Jornal de Notícias publica uma fotografia do Sr José Eduardo Martins, ilustríssimo Secretário de Estado do Ambiente, e cola-lhe ao lado uma seta com o bico virado para baixo acompanhando-a do seguinte texto: "Mas que proposta! Como é que se pode multar quem não separa o lixo? Vigiando os caixotes? Remexendo os sacos à procura de indícios?". Para começar, a seta e o texto estão a mais: o jornal não tem que emitir opinião, tem apenas que noticiar. Um secretário de estado é um responsável político, como um presidente de uma junta de freguesia. É uma pessoa de respeito. O que pensa que faz, pensa sempre também tê-lo feito a bem da comunidade, no interesse nacional, patrioticamente. E, no caso vertente, já bastava o ar espantado do secretário de estado como se fosse perseguido por uma brigada completa da polícia de trânsito ou pelos cobradores de fraque da Dra Manuela Leite.
O cidadão português tem que, por uma vez, compreender e aceitar o patriotismo dos que o governam e passar a ser ilustrado, humilde e justo. Passando também a ser exigente. Portugal está na vanguarda dos países que adoptam medidas rígidas de protecção ao ambiente. A Quercus, definitivamente, vai dissolver-se e os seus membros perder-se nas galerias calcárias das serras de Aire e Candeeiros. A coligação entre o partido comunista e os verdes deixa de ter razão de ser, para descanso do primeiro-ministro. O país, orgulhosamente, deixa para trás os americanos que renegaram o protocolo de Kyotto e que, em defesa do ambiente, apenas desencadeiam guerras e queimam derivados do petróleo. Somos o primeiro país a ter um secretário de estado do lixo. Depois de já termos tido e de continuarmos a ter muitos ministros para o lixo, Quanto à regulamentação das multas, segue para a semana. Para já o secretário de estado está de fim de semana!
O Benfica é, a partir de hoje, também uma instituição centenária. Começou por ser um pequeno grupo, cresceu, ganhou estatuto, atravessou fronteiras. Acabou, como o país e à semelhança deste, a vogar num mar alteroso, pejado de dificuldades, indo além daquilo que era humanamente possível. Improvisando e acreditando que o improviso é a chave para o sucesso. É indiferente que tenha seiscentos mil ou seis milhões de adeptos. O Benfica é, honestamente, uma instituição que ganhou o estatuto de não pertencer à Travessa do Jardim do Regedor, de não pertencer à cidade de Lisboa e de não pertencer ao país que é Portugal. O Benfica para mim, que não sou sequer benfiquista, é uma instituição que pertence ao mundo porque, à sua medida e com a sua glória, se foi apoderando dele. Os centenários, sejam do que for, são para felicitar. E por isso, sinceramente, quero aqui lavrar o registo dessas felicitações.
Mas não deixei de me surpreender hoje com a evocação que durante um jantar de ontem foi feita dos ex-presidentes que ainda vivem e onde se integram nomes de grande admiração e prestígio. Chocou-me que não tivesse sido referido o nome de Vale e Azevedo, que toda a gente sabe estar preso. Condenado num caso, suspeito noutros. Também aqui que ele seja herói ou vilão é perfeitamente irrelevante. Ninguém pode apagar a sua história e ninguém o deve fazer. Ninguém omite da história nacional que temos os reis que julgamos indignos do país que somos. Concorde-se ou não com as suas ideias e com a sua prática, Salazar foi presidente do Conselho de Ministros e figura dominante do século passado. Bom ou mau, honesto ou não, inocente ou culpado, Vale e Azevedo foi presidente do Benfica. O Benfica foi, é e será sempre superior a quem o serve e muito mais a quem dele, eventualmente, se tenha servido ou pretendido fazê-lo. A sua glória é superior à de qualquer pessoa e prevalecerá intacta, aconteça o que acontecer.
A omissão não é obviamente bonita. Até por ser absolutamente desnecessária, independentemente do propósito que tenha perseguido.
Boa noite a toda a blogosfera. Com licença do Dr António Lobo Antunes, boa noite também às coisas aqui em baixo. Hoje voltei a Ourém e acabo de regressar. A cidade continua intransitável, com obras em pleno centro, que nunca mais terminam. Tudo ao mesmo tempo, tudo no período de inverno, tudo a monte e fé em Deus, segundo a táctica do José Maria Pedroto.
Dá para, infelizmente, confirmar a imbecilidade com que foram arrancadas árvores cujas idades, de longe, suplantavam a idade física e mental da ilustre vereação. Ficou-me, de longa data, uma muito feliz frase de Manuel da Fonseca que dizia que "antigamente o largo era o centro do mundo". Referia-se, segundo presumo, a Santiago do Cacem, a sua cidade de sempre. Onde, majestoso, continua imutável o velho largo em frente ao edifício dos paços do concelho.
É mais pobre o espaço que circunda os paços de concelho de Ourém. Incaracterístico, desordenado, abandonando o edifício da câmara sem enquadramento em coisa nenhuma e a combinar rigorosamente com nada. E onde nada foi feito, se calhar à semelhança do que acontece no interior com a vereação. Que, apesar disso, plantou já há tempos uma modernice de uma rotunda na entrada ocidental da cidade, com um monstruoso mamarracho rodeado de calhaus por todos os lados e uns cilindros evocando as freguesias do concelho cujos nomes, praticamente, se não conseguem ler.
O largo, o do alentejano Manuel da Fonseca, nesta transição para o Ribatejo, em frente ao Café Central, morreu. As árvores foram arrancadas, calcetou-se tudo de novo, num arranjo que não diz com os edifícios fronteiros. Com pretensões de grande cidade, onde a mesma solução é ainda mais estúpida, plantaram-se pinos cuja função, teoricamente, será impedir o estacionamento em transgressão. Não impedirão coisa nenhuma, serão torcidos, partidos e arrancados como vem acontecendo nas cidades onde já foram adoptados. Porque também nisso Ourém é única: não há onde estacionar em lado nenhum. Mas, mesmo assim, há parcómetros ao longo de toda a avenida que, recorde-se, é a estrada que liga Leiria a Tomar.
Mas, seguramente, é rica a câmara e não tem problemas cruciais a resolver, pelas prioridades que estabelece. Sei, pessoalmente, que isso não é verdade. Cada freguesia do concelho é um problema agudo. Algumas delas, se calhar, só vêem o Sr Catarino em véspera de eleições, quando vai distribuir vídeos inúteis pelos lares de idosos que, em suas casas, vivem muitas vezes em condições perfeitamente indignas.
De permeio o país julgou-se governado por um celibatário inteligente, beato e tonto. Que julgava fazê-lo por inspiração divina e que se sentia no dever de exorcizar os infiéis usando os serviços dos mais díspares mandatários. Nunca no percurso histórico de nenhum país, a vida de um homem teve expressão que lhe sobrevivesse por longo futuro. E assim foi também com este. Não teve a memória que dele ficou tempo suficiente para ir à fonte e lavar as mãos do sangue que deixara secar-lhe entre os dedos.
Hoje o país nem pensa que é governado seja por quem for: pura e simplesmente sabe que o não é. De quatro em quatro anos, na melhor das hipóteses, gastam uma fortuna para que uma trupe de eleitores vá fazer uma cruz num quadrado, dobrar um papel em quatro e metê-lo, à força, numa caixa de aglomerado. Saem dali, eleitos, 230 privilegiados, quase sempre os mesmos, que vão passar o tempo a discutir o sexo dos anjos e dos netos que já emprenham as filhas e as noras. Quando a ciência tem hoje meios fáceis e expeditos de saber se é menino ou menina.
À falta das conferências, renovou-se a tourada. Já não só de Verão, às quintas-feiras, transmitidas em directo nos serões da RTP. Já não há pachorra para assistir à barbárie de carregar sobre touros indefesos, espetar-lhes ferros afiados no dorso e, depois de sangrados, retirá-los da arena para abate e venda como carne para bife nos supermercados. Não! A tourada, arrogante, convencida e inútil, transferiu-se para o hemiciclo de S. Bento. Onde, de mês a mês, comparece o governo como quem presta contas à mulher a quem, ao modo antigo, nunca sequer deu mesada para o governo da casa.
Por incrível que pareça, o que se discute? O sexo dos anjos, a perda das colónias e o défice do orçamento. As discussões arrastam-se, monótonas e tristes, entre os quase três e os cerca de cinco por cento. O menos bem que o governo consegue - porque o governo nunca consegue nada mal! - é sempre culpa do passado, que não foi dele, mas da oposição. A oposição acha sempre que o último bem que o país teve foi o último governo que ela própria liderou. Não há ideias, nem imaginação, nem idoneidade, para além daquelas. Há oportunismo! Tão grosseiro, tão descarado, tão demagógico que o eleitor se sente muito cumprimentado, como atrasado mental que dele, sistematicamente, vão fazendo. Cada vez mais.
Ainda esta manhã o primeiro ministro acusava uma deputada da oposição, - cuja beleza física enaltecia, o maganão! - de nunca ter ido a eleições. O que deixa a suspeita, grave e intolerável, de haver deputados que ocuparam os seus lugares na bancada servindo-se de jagunços. Mais: ria-se o mesmo assim um bocado a despropósito, porque é primeiro-ministro e porque tem um curso superior, de políticos a que chamava comunistas envergonhados. E gargalhava, quase alarvemente. De facto é raro que haja quem possa apregoar a constância e a fidelidade ideológica do Dr Barroso. A não ser no interior do seu partido!
Na última quarta-feira as atenções do país concentraram-se no novo estádio do Dragão, no Porto, onde se disputava o encontro de futebol entre Futebol Clube do Porto e o Manchester United. Como habitualmente os políticos apinharam-se, pondo-se em bicos de pés e esticando perigosamente os pescoços como se fossem girafas, na expectativa de que alguém conhecido lhes acenasse com o rectângulo mágico de um convite para a entrada.
O Dr Madail, apesar de ser o presidente da nossa cinzenta Federação Portuguesa de Futebol, não mereceu a honra de ser considerado face visível do sistema pelo Dr Dias da Cunha. Tem um ordenado elevado, viaja em classe executiva, frequenta hotéis de cinco estrelas mas, quanto ao sistema, estamos conversados. É um peão, e mesmo este não é de rei ou de rainha.
À sua chegada ao estádio o Dr Madail vinha exausto e furioso, espumando. Tinha demorado quarenta minutos a chegar. Ele, que segundo confessou, beneficia de alguns privilégios, entre eles o de dispor de estacionamento no interior do recinto. Não se admitia uma tal falha porque, disse, entidades estrangeiras, como câmaras ocultas, registavam detalhadamente tudo o que se passava.
Desde o Dr Mário Soares que assiste a todos os portugueses, democraticamente, aquilo a que ele chamou o direito à indignação. Deve ter sido o máximo que teve a filantropia de compartilhar connosco e com o Dr Madail, obviamente, também. Para além disso quem é o Dr Madail? Um político que fez escola nas bancadas de S. Bento, e isso chega para que se desconfie dele e não se dê grande importância àquilo que diz. Quanto ao resto, levante-se cedo, saia a tempo e horas, porte-se como se fosse um portuense vulgar. É uma honra que a cidade lhe confere, mesmo temporária. Ou então reclame mais privilégios, adquira um helicóptero, contrate um piloto, faça por ser mais uma face do sistema. À atenção do Dr Dias da Cunha e da próxima entrevista que este der ao Sr José Vilhena.
Ridícula, por espantosamente imbecil, a desculpa adiantada pelo Dr Rui Rio. Como político profissional limitou-se a sacudir a água do capote: culpou a PSP. Deve ter sido por esta corporação, transida pela paranóia da bomba e do atentado, ter encerrado ao trânsito metade da cidade. Quanto às bombas, só houve as do sul-africano McCarthy e as de cheiro que sobraram dos corsos de terça-feira de Entrudo.
Durante anos a fio andámos a apregoar, em termos de competição olímpica, o facto raro de termos ganho uma medalha nas provas de vela. Depois, pela mão do eterno Mário Moniz Pereira, o atletismo português adquiriu visibilidade, garantiu estatuto e largou Carlos Lopes pelo mundo fora a ganhar competições e medalhas.
Como o governo quer e nós acreditamos, as coisas evoluíram. Um estudo cujos resultados agora foram divulgados colocam o país em terceiro lugar num conjunto de treze que foram visitados com o objectivo de analisar o custo de vida em 55 cidades. Não é brincadeira, a um terceiro lugar, para todos os efeitos, corresponde a medalha de bronze. E ainda um lugar no pódio, um ramo de flores, dois beijinhos na face dados por uma jovem ariana de nacionalidade indeterminada, um flácido aperto de mão circunstancial de um dirigente careca e o reconhecimento efusivo dos nossos compatriotas e dos antigos colegas de escola que hão-de mandar-nos postais de felicitações.
E sobretudo o orgulho - desculpem, mas embirramos com a tal auto-estima! - , ainda quente, como pneu usado regressado da recauchutagem. Sabermos que os preços em Viana do Castelo estão ao nível de Bruxelas e acima dos de Paris recorda-nos Pedro Homem de Melo e a sua determinação dita, repetida e cantada de lá irmos. Finalmente! Em alguma coisa somos iguais ou superiores aos outros. O Porto à frente de Londres! E de Manchester, ficou ontem mais do que provado. Por dois a um. Sem vaidade e sem arrogância. Humildemente, como diz o pai dele, o Sr Mourinho limitou-se, no fim, a declarar: "somos os maiores, ficou provado, sete ou oito também estaria certo".
Há lá comparação que se possa fazer entre o Tamisa e o Douro? O típico barco rabelo, carregado de pipas de néctar produzido nos socalcos, acostando ao cais de Gaia pode lá ser comparado a alguma coisa? Não é possível confundir os encantos do rio Lima, com a esconsa ponte do Sr Eiffel por cima, com o rio Sena com a torre do mesmo senhor apenas ao lado. Montmartre, Place Pigale - e o que ela tem de encantamento! - contam alguma coisa se comparados com a baixa vianense! Ou com Moledo!
Por isso mesmo não percebemos como é que amanhã, legalmente, uns trolhas quaisquer do Chile, arraçados de índio, possam produzir uma zurrapa ordinária, engarrafá-la e colar-lhe um rótulo a dizer "Vinho do Porto". Mas disso quem sabe é o engenheiro Sevinate Pinto, que é do governo e que já deve ter estado no Chile.
Sua excelência a ministra da Justiça, Dra Maria Celeste Cardona, anunciou ontem no parlamento, solenemente, a intenção de eliminar os baldes higiénicos nas prisões até ao fim de 2006, como uma das medidas de grande alcance que se enquadra na reforma de todo o sistema prisional. Recorde-se que na semana passada a deputada do PSD Teresa Morais tinha apresentado um projecto de resolução com vista à erradicação do balde até 2005. Sua excelência, que funciona muito organizadamente por encomenda, foi ontem sensível à questão e assumiu o compromisso.
No final dos trabalhos foi sua excelência muito cumprimentada pelo alcance da sua reforma e os jornalistas presentes correram a transmitir a notícia às suas redacções para as parangonas da ordem. Os telejornais dedicaram ao assunto a subida honra de ser notícia de abertura e num deles estiveram mesmo presentes a ministra e um balde. Este estava, naturalmente, fechado com uma tampa hermética para que não exalasse o mínimo cheiro.
Em termos económicos espera-se que os produtores de louças sanitárias aumentem a capacidade das linhas de produção das suas fábricas e que os importadores de Espanha reforcem as suas encomendas periódicas. A medida assumirá também, deste modo, a condição de factor positivo da muito ansiada retoma económica.
O serviço público é diariamente invocado no caso específico da televisão e dos dois canais que continuam a ser propriedade do Estado. Para benefício do cidadão? De maneira nenhuma! Apenas para benefício ilegítimo do Estado e do poder político que o governa. A televisão de serviço público não é diferente da privada que, aliás, reclama também para si o estatuto de serviço público. Faz por competir com ela, nas dezenas de minutos de publicidade, nas anunciadas 500 horas sobre um campeonato de futebol, na aquisição de concursos que não revestem nenhum interesse cultural e, muitas vezes, nem sequer de simples entretenimento. E na contratação de apresentadores pelos dois palmos de cara, pelo compadrio, pelo favor puro e simples.
Mas outras coisas há que têm beneficiado, legalmente, do estatuto de serviço público. Entre elas, por exemplo, o telefone, que acaba de perder esses estatuto. O Público de hoje insere uma consciente denúncia da situação e sugere que as alterações que os ditos deputados da nação aprovaram, pura e simplesmente são inconstitucionais. Mas, quanto ao sector das comunicações, nada é de estranhar.
A chamada privatização iniciou-se na década de noventa, quando o governo, premeditadamente e de má fé, na intenção clara da negociata futura, cindiu a empresa pública CTT em duas, daí resultando a Telecom Portugal, para vender em lotes. Para facilitar as coisas a quem hoje lá manda - e o Dr Miguel Horta e Costa, tendo sido empregado dos CTT, foi para a PT como empregado do grupo Espírito Santo! - o governo emitiu um decreto e possibilitar, durante cinco anos, a aposentação vantajosa dos empregados vinculados à Caixa Geral de Aposentações. E prorrogou-o, contrariamente ao que fez com dispositivo similar aprovado para abranger os funcionários dos CTT.
A privatização deu os resultados que se conhecem. A empresa é um monopólio poderoso e, como um polvo, foi criando tentáculos sucessivos no campo das telecomunicações móveis, da televisão por cabo e dos acessos à internet. As receitas foram aumentando e o número de empregados reduzido, com a institucionalização do trabalho precário, seja sob a forma de contratos a prazo, seja sob a forma ilegal dos chamados recibos verdes. A qualidade dos serviços decresceu assustadoramente. O atendimento não existe. A prepotência é o lema da empresa. O monopólio consolida-se e a ténue concorrência que, nalguns sectores, chegou a sonhar, protesta e abandona o campo. Para que qualquer luta seja justa é preciso que os contendores, no mínimo, possam dispor de armas idênticas. Não é o caso.
O caso do serviço público telefónico não é um escândalo porque já nenhum de nós acha escândalo seja o que for. Mas é um atentado perfeitamente espartano às populações rurais, envelhecidas, cada vez mais isoladas, mais sozinhas e mais abandonadas do país. Que não têm um sistema de saúde decente, - onde o ministro, apesar disso, manda operar à má fila mesmo os que o não desejam, segundo apregoa! - nem fornecedores alternativos de electricidade e água e que, agora, verão que o telefone é um luxo, embora dele necessitem para contactar com a sede do concelho, a dezenas de quilómetros.
Ser português é cada vez mais um fardo que se carrega, uma vergonha que nos dias passados se escondeu atrás de uma máscara de fabrico chinês. E que hoje, quarta-feira de cinzas, tivemos que retirar. Para a exibirmos em público, como se tudo estivesse bem, como se não soubéssemos de nada.
Com isto tudo acabamos a confundir alhos com bugalhos e, frequentemente, toucinho com velocidade, coisa que não faz sentido nem para o Michael Schumaker. Com a erudição de gente letrada, que muito escreve para jornais e que muito fala de cátedra em conferências pagas, vem sendo ultimamente referida com insistência a hipótese de se verificar nas sociedades no nosso tempo uma perigosa tendência anti-semita. Não o cremos e, bem ao contrário, não se vem fazendo a confusão de coisas distintas. O problema de Israel não pode confundir-se com a generalidade semita. Que o Sr W. Bush se não oponha, não diga palavra, sobre os métodos que o Sr Sharon vem seguindo é apenas sinal daquilo que todos já sabemos. Fá-lo por ignorância, por dependência e por impotência. Não cremos que o problema do médio oriente - ou da Palestina, para sermos mais exactos! - se venha a resolver com os atentados suicidas que se têm repetido. Mas, seguramente, não hão-de também resolver-se pela construção de muros de betão armado, tenham eles oito ou vinte metros de altura. O muro resolverá tanto com resolveu o de Berlim. Do qual, não sabemos a que propósito nem com que intenções, um bocado está em exibição no santuário de Fátima. Como se fosse coisa que se adorasse!
Ninguém esperava, mesmo hoje, terça-feira gorda, que o esqueleto da Dra Manuela Leite pudesse esconder a caveira atrás de uma máscara da Barbie, a brincar de ministra das finanças numa terra de faz de conta. Aquele ar sisudo, o sobrolho carregado, as sobrancelhas densas e o fato tradicional não auguram nada de bom. Mas não era preciso chegar a tanto, o dia era de folia mesmo que o Dr Barroso ache que o país está de tanga e que o tempo, francamente, não tenha convidado muito ao seu uso, por causa dos resfriados.
Mas a Dra Manuela Leite fez com que 200 genuínos portugueses, se calhar alguns deles com os impostos rigorosamente em ordem, talvez outros bem sucedidos empresários e convictos patriotas, tivessem hoje ficado com as carnes fumadas do cozido à portuguesa atravessadas nas goelas. O que, valha-nos isso, impediu o estridente berro de revolta e um simulacro de grito do Ipiranga II, na margem de um dos ribeiros poluídos e quase secos cujos vales esventram as províncias do país.
Segundo as notícias que foram sendo divulgadas, sem que hoje seja o dia das mentiras, foi salientado que, devido a sinais exteriores de riqueza, o fisco está a apertar o cerco a 200 portugueses. Que descanso terão, doravante, os prósperos industriais e competentes gestores do vale do Ave que, à custa de grandes sacrifícios e muita poupança, conseguiram construir uma modesta moradia de cem mil contos e comprar automóveis para a família no valor de mais cinquenta mil? Mesmo que honestamente tenham inteiramente declarado o salário mínimo que auferem e as despesas de farmácia que suportam com a sogra, reumática, com quem coabitam?
E o senhor Manuel Damásio? Coitado! Mesmo que tenha ganho muito dinheiro na bolsa, o senhor Pedro Caldeira ficou-lhe com grande parte dele. Os seus rendimentos são escassos e a sua casita, na Quinta da Marinha, foi comprada em saldo ao mister Joe Berardo, apenas por quinhentos mil contos. O que lhe atrapalha a vida não é, felizmente, a conta da farmácia da sogra. Mas os gastos da D. Margarida em roupa interior e ainda a sua serôdia decisão de ter ido estudar História da Arte. Com as propinas ao custo que estão!
Os denominados empresários portugueses têm andado demasiado activos. Coisa rara, atendendo, na generalidade dos casos, à provecta idade que o bilhete de identidade lhes confere e ao merecido descanso de que, há longo tempo, estão necessitados.
Primeiro, segundo os jornais, quarenta foram à Presidência da República para manifestarem a sua apreensão ao Dr Jorge Sampaio. Sentiam fugir-lhes para Espanha o seu sentimento patriótico e a gestão das empresas a que chamaram, muito sensatamente, "centros de decisão". Julgando, e bem, que o euro é a moeda única em cujo primeiro comboio viajamos, os accionistas da Somague entenderam que o patriotismo varia na razão directa dos euros que se possuem. Sendo assim, venderam aos nossos vizinhos do lado. Ficaram aliviados das responsabilidades e sobrecarregados com euros caindo-lhes dos bolsos. Patrioticamente.
Depois, ainda segundo os jornais, reuniram-se 500, muito religiosamente, no convento do Beato. No seguimento de uma iniciativa patriótica do Dr Carrapatoso que, como toda a gente sabe, é o maioral da portuguesíssima Vodafone, acidentalmente com sede numa qualquer obscura "street" londrina. Para bem do país e tranquilidade das consciências enunciaram trinta princípios essenciais, tão vazio o primeiro como o último. Para preservação da espécie reclamaram, mais uma vez e com acrisolado patriotismo, a liberalização dos despedimentos. Auto-denominaram-se "compromisso Portugal" e regressaram, triunfantes, ao remanso das famílias e ao seio descaído das mulheres.
Agora, ainda segundo os jornais, reuniram-se os chefões das associações patronais e, patrioticamente, reafirmaram a sua fé na ladainha do Beato. Pouco dados às letras e tendo visto recusado o convite endereçado ao Dr António Lobo Antunes para que fosse ele o relator, tiveram que ser eles a redigir o documento. Claro, linear e objectivo como impõe a objectividade dos números. Foram felizes e não se perdeu nada que o Dr Lobo Antunes tenha continuado entretido com os Cus de Judas. Senão atente-se no seguinte parágrafo:
Há que garantir o dinamismo da procura interna, assente no investimento e na evolução sustentada do consumo, sobretudo do consumo privado, por via da libertação de maior rendimento disponível das famílias.
... não basta termos passaporte europeu: importa sentirmo-nos, vivermos e trabalharmos como europeus.
A obtenção de níveis adequados de receita pública depende mais da criação de riqueza assente na redução dos custos de produção, que da impossibilidade de um esforço contributivo insuportável às empresas e aos cidadãos, que acaba por trair perversamente os seus objectivos, como a quebra da receita fiscal o vem demonstrando.
Ficamos na dúvida, porque tanto o senhor de La Palisse com o senhor Luiz Pacheco poderiam ter escrito tão belas linhas. Mas não temos dúvidas em relação a um aspecto: país que tem empresários destes, não precisa de trabalhadores. Força com a liberalização dos despedimentos. Avante por Nossa Senhora de Fátima e pelo Conde de Ourém!
Queremos crer que, por inadmissível lapso, o sentido do título foi irrecuperavelmente adulterado. Era para ser: "Os malabaristas e as presidenciais" e não como saiu. Na edição de amanhã sairá a correcção, depois do senhor José Manuel Fernandes ter incumbido um redactor de serviço da redacção da habitual secção: "O Público errou". Fica tudo esclarecido.
Segundo cremos este defensor oficioso do plumitivo candidato Santana Lopes, foi seu ajudante no tempo em que este era ajudante de ministro. Quer dizer, Manuel Frexes foi ajudante de um ajudante de ministro. Agora reclama para si, que não para o concelho que lhe paga, a prerrogativa de nomear o próximo presidente da república. Fique descansado, o seu patrão tem memória curta para muitas coisas, mas há-de recordar-se desta quando chegar a altura. Talvez consiga que seja nomeado candidato do partido à vereação da Covilhã!
Apenas um reparo. Acha o senhor Manuel Frexes, como diz, que Santana Lopes ou alguém provou o que vale indo a votos? O senhor não é deste mundo, o senhor vive mesmo muito longe da respeitável cova das Beiras. O senhor é de facto um extra-terrestre que acredita em fantasmas.
O tempo é de descontracção e divertimento até amanhã, às 24 horas. Tão falhos de imaginação como os treinadores de futebol, ocupamo-nos como eles. A dizer mal dos árbitros e a plagiarmos tácticas alheias que nos levem a pensar sermos incorrigivelmente divertidos como as gentes dos climas quentes. Enchemos o olho com o que, em tempo real e sem fingimento, nos manda o Brasil. E para reduzirmos a depressão crónica com que nascemos, juntamos aos ansiolíticos a companhia passageira e paga de figuras de telenovela. Com a crise financeira já utilizamos, em alguns casos, prata da casa, havendo que recrute concorrentes do Big Brother, dos Ídolos e, se calhar, do Quem quer ser milionário.
Amanhã manda a tradição que nos empanzinemos à mesa, com travessas de tamanho XXL, repletas de cozido à portuguesa, a transbordarem, à força de um maduro tinto encorpado, não importa de que região. Comemoramos, a um tempo, a folia do Entrudo e o espírito mordaz e cirúrgico do saudoso José Rodrigues Miguéis naquele livrinho exemplar que é o "É proibido apontar". No dia seguinte é quarta-feira de cinzas, acabou a dança e a folia como nos lembra a cantiga do Chico Buarque, começa a Quaresma e o jejum, até à Páscoa. Salvo quem tiver ido à sua paróquia adquirir a necessária bula, ninguém deve comer carne. O que vem, neste período de imagens cobertas nas igrejas, por tecidos tristes, roxos e púrpura, inflacionar o preço já de si proibitivo de qualquer tipo de carne.
Nada fica mal no decurso destes dias. Toda a gente faz o favor de nos tomar por incontidos foliões, a quem se perdoam todas as ousadias ou excessos. Ninguém se ri do país que somos, todos lhe damos o desconto que a época justifica. Rotulamos tudo de brincadeira de carnaval, achamos que algumas são excessivas, mas seguimos adiante porque um dia não são dias. Pegamos, como exemplo, na edição de hoje do Público e não tomamos a sério o seu director, os seus editorialistas, os seus redactores ou os seus fotógrafos. A edição é de carnaval e está tudo dito!
O destaque da primeira página diz que a economia portuguesa andou dois anos para trás em 2003, segundo a conclusão de um qualquer estudo. Brincadeira de carnaval, mal disfarçada, em letras grandes, ainda por cima na página de acolhimento. Desde logo, como conclusão de um estudo, como se alguém pudesse levar isso a sério. Em Portugal não se estuda, nem nas escolas e mesmo nestas, o pouco que se estuda não serve para nada. Depois a economia a andar para trás! Para trás mija a burra, isto é um país prafrentex, há dois anos que ninguém nos aguenta, estamos a caminho de sermos um dos países mais desenvolvidos da Europa. Se aquilo não fosse uma grosseira brincadeira de carnaval nem o Dr Santana Lopes queria ser presidente da República e andava a desafiar o professor Cavaco para a porrada.
Uma curta notícia, ainda na primeira página, sobre o arranque do Fantasporto. Em castelhano, dizem! O director daquilo, que até parece que é de boas famílias, o Mário qualquer coisa, tem um apelido esquisito, mas não parece castelhano. Os castelhanos deu cabo deles o celebrado Condestável, como uma pequena ajuda da padeira. Outra, sobre a saúde: novo sistema acaba com o papel nas urgências. Não se pode acreditar, não é? Então manter o papel é uma elementar questão de higiene e, mesmo com ele, já se sabe a limpeza que por aí vai.
Na secção nacional vem o Dr Carvalhas com um apelo a dizer que é preciso mudar de orquestra. O homem, que passa a vida calado, resolveu também vir brincar ao carnaval. Então quando a malta ensaia o ritmo frenético das danças sul-americanas, atira ao ar cartuchos inteiros de coloridos confetis, sente os pés presos nos montes de serpentinas espalhadas pelo chão, aproveita a confusão e se afiambra no par que sobrou, vem este e manda parar a música como se um respeitável baile de carnaval fosse uma insignificante dança das cadeiras. Alguém acredita nisso?
No caderno local um artigo com o título "Romaria ao funicular dos Guindais já começou". A malta não tem grande instrução, isso é verdade. Depois, para confundir, chamam àquilo funicular de manhã e elevador à tarde. Às segundas-feiras não chamam nada porque a geringonça precisa de descanso. Mas não se confunde aquela porcaria com a santa da Ladeira e ninguém vai em peregrinação para um depósito de sucata. Ainda por cima a pagar um bilhete chamado "andante" para uma coisa que se recusa a mexer-se do sítio e que, depois de dois minutos de subida, precisa de duzentos litros de água e de uma hora de repouso. Para recuperação.
O que vale, de facto, é que seja carnaval. E que ninguém leve nenhuma destas e de outras brincadeiras a mal. A partir da quarta-feira de cinzas é que a porca vai torcer o rabo!
A senilidade é sempre extemporânea e inconveniente. Apesar da idade daqueles que visita é, mesmo assim, invariavelmente prematura. Como neste caso.
O bispo resignatário de Dili, D. Ximenes Belo, desempenhou um importante papel que nunca é demais referir nos longos anos que acabaram por levar Timor Leste à independência. Afirmou-se, adentro de fronteiras, como a voz dissonante, firme e ponderada perante a ocupação e os métodos pouco ortodoxos do poder indonésio.
A comunidade internacional acabou a reconhecer esse papel e a galardoá-lo com o Prémio Nobel da Paz, em conjunto com Ramos Horta, outro timorense resistente e ilustre. Nenhum deles pareceu deslumbrar-se com o facto e continuaram as suas missões.
Depois, de modo prematuro, D. Ximenes afirma não se sentir em condições para continuar a desempenhar o cargo de bispo e pede escusa. Pensou-se que arrumaria as chuteiras, se recolheria e iria descansar dos trabalhos e do longo caminho percorrido. Puro engano! Quando estava tudo tão bem, quando era reconhecido como o artífice que de facto fora, acaba por vir estragar tudo. Manifestando ambições políticas. É-lhe proibida essa disposição? Obviamente que não. O que a mim me acontece é apenas ter a sensação de que, por exemplo, José Saramago, depois de galardoado com o prémio Nobel, se decida a enviar um livro seu a concurso. A uns quaisquer jogos florais de um pequeno concelho do interior alentejano. Não diz a bota com a perdigota!
Não há, todavia, nenhum problema. O Dr Santana Lopes tem segurança pessoal e está sob vigilância permanente, não tem a Dra Ana Teixeira da Silva motivos para temer pela sua integridade. Ao menos o Dr Santana Lopes não poderá causar-lhe nenhum problema: está sob a atenção vigilante da polícia!
O Porto já se habituou a não se admirar com nada e a interpretar tudo como fatalidades do destino. Não se admira que o Futebol Clube do Porto ganhe campeonatos seguidos apesar do Sr Mourinho se queixar da rudeza dos adversários e da parcialidade dos árbitros. Não se admira com a extensão das escavações que cada vez mais se espalham pela cidade e, se lhe disserem que são feitas a pesquisar petróleo, acredita e acha que está tudo bem. Não se admira que o Dr Dias da Cunha diga que as faces visíveis do intrincado sistema do futebol nacional são as dos Srs Pinto da Costa e Valentim Loureiro, embora estranhe que o Dr Pimenta Machado não tenha lugar no pódio. Não se admira de que o Porto tenha obtido o estatuto de património mundial, meio mundo tenha dito publicamente que o facto era uma grande vitória e que, até hoje, se não tivesse dado rigorosamente por nada. Não se admira sequer que o ex-presidente da Câmara, Dr Fernando Gomes, venha manipular números e conceitos teóricos para dizer que o norte - e naturalmente o Porto - estão mais pobres do que eram. Esquecendo-se que foi presidente de câmaras, deputado, ministro e eurodeputado e que da sua acção política em todos os cargos deveriam ter resultado, pelo menos, responsabilidades solidárias. Porque, de resto, não resultou coisa nenhuma a não ser o lugar cativo na tribuna vip do estádio do Dragão.
Não se admira ainda que o Dr Rio tenha vindo a público para alinhar a hierarquia formal dos cargos públicos: Presidência da República, Presidente da Assembleia da República, Primeiro Ministro e Presidente da Câmara do Porto. Mas admira-se que o Sr Pinto da Costa não preceda o próprio Dr Rio e que o Presidente da Junta de Freguesia de Miragaia não venha logo a seguir a ele. Mas já nos habituámos a isso, vamos aguentando, continuando leais e sempre invictos.
Não podemos é tolerar, nem que desenterremos a Maria da Fonte, é que um qualquer presidente da Câmara de Lisboa, que nem sequer figura na hierarquia, possa beneficiar de protecção pessoal por parte de agentes especiais da PSP. Por isso eles faltam onde são necessários, os roubos às bombas de gasolina aumentam, os esticões são mais que muitos, os documentos pessoais aparecidos no entulho, com fotografias irreconhecíveis, não têm conta. Enquanto isso, a quarta figura do estado percorre a pé, sozinho, apenas sob o olhar distraído do seu motorista, os vinte metros que separam o lugar de estacionamento do seu automóvel de serviço da porta que utiliza para entrar na Câmara. Ao fim de semana se vai comer uns camarões a Matosinhos - um concelho hostil, governado pelo régulo Narciso Miranda! - fá-lo por sua conta e risco e se decide ir beber um copo à ribeira de Gaia - outro concelho hostil, mas sem governo nenhum! - nunca sabe se regressará a casa são e salvo.
É preciso que o ministro Figueiredo Lopes, por uma vez, esteja atento a alguma coisa e corrija rapidamente a situação. Não vá dar-se o caso de acontecer alguma desgraça ao Dr Rio. Ou até dele próprio ser demito, no meio da sua permanente distracção, sem ter dado pelo facto de ter sido ministro. Mesmo invisível!
Mas depois, felizmente, acrescentou que dentro dele há uma matriz, um "chip" programado a repetir, inutilmente desde há vinte anos: "um governo, uma maioria, um presidente". Tranquilizámo-nos! O homem não passa afinal do robot que sempre se pensou que era, resultado da electrónica, programado de alto a baixo, mas a agir sempre da mesma repetitiva forma. Como as máquinas multibanco a repetirem metalicamente, quando a gente se distrai: "retire o seu cartão, retire o seu dinheiro".
O "chip", espera-se, vai ser comido com a mesma voracidade com que o são os seus semelhantes. Quando der por ela está desactualizado e o Miguel de Sousa Tavares pode andar de cara descoberta. Ao menos por isso valha-nos a santa electrónica.
Quanto à lentidão, são mais as vozes do que as nozes, como diz o povo do Sr Jorge Perestrelo. O Público de hoje vem afirmar, com os habituais zelo e isenção do seu director, que há fraudes fiscais em Trás-os-Montes com desvio de verbas por apurar ao fim de 12 anos. Um pequeno atraso, nem tão grande que mereça reparo, mas está bem. Há mais tempo do que isso estão o Sr Narciso Miranda na Câmara de Matosinhos e o Sr Pinto da Costa no Futebol Clube do Porto e nenhum deles parece cansado!
A investigação leva dez anos, recolheu milhares de páginas - um desperdício de papel inqualificável - que indiciam inúmeras fraudes. Visados, entre outros, o então Director Geral de Florestas e o actual Presidente da Câmara de Boticas. Terão sido indevidamente pagos valores significativos na alegada prática de crimes de corrupção, - que toda a gente sabe não existir em Portugal. O único que discorda é o Dr Dias da Cunha! - peculato, participação económica em negócio, falsificação de documentos, abuso de poder e favorecimento pessoal.
É sempre a mesma coisa: indícios, indícios, indícios. Nunca ninguém sabe, nunca ninguém viu, nunca ninguém lá esteve. Como na história do marido que se julga traído pela mulher e que contrata, a peso de ouro, um detective particular que lhe siga os passos. E este vê-a entrar, acompanhada por um marmanjo de aspecto reguila e ar suspeito, num quarto de pensão. Pelo buraco da fechadura ainda foi possível ver que ambos se despiam, até que o marmanjo tivesse pendurado na chave, pelo lado de dentro, o gorro que trazia enfiado na cabeça. A observação terminou aí e a sua tarefa só prosseguiu, de novo na rua, passadas duas horas. Correu ao seu cliente a fazer-lhe o relato minucioso. Não, não lhe tinha sido possível verificar se tinham assumido posições mais íntimas ou de decúbito dorsal. E o desconfiado marido tem que reconhecer que lhe não trazem mais do que indícios e que, afinal, persiste a eterna dúvida de sempre: ser ou não ser corno!
Apesar das acusações graves os processos têm sido, muito justamente, arquivados. Mesmo que o Ministério Público seja o primeiro a dizer que "existem indícios que fazem suspeitar de autorização de despesas antes do cabimento, de concursos para obras já realizadas, de trabalhos pagos e não realizados, projectos elaborados por funcionários, propostas irregulares, irregularidades nos concursos, desdobramento de despesas, facturas e recibos sem datas e sem destinatários e recibos em duplicado". O arquivamento, todavia, nunca foi decidido sem que primeiro e de forma veemente os suspeitos tivessem negado quase todas as acusações e, quando assumiram alguma, salientaram sempre tê-lo feito sem qualquer intenção criminosa.
Bem diz a exemplar autarca de Felgueiras que não fugiu. Limitou-se a pegar num automóvel que, por acaso, lhe deu o seu ex-marido. Dirigiu-se a Madrid para comprar alguma lingerie de que precisava para as missas de domingo. Passou acidentalmente pelo aeroporto de Barajas onde parou para tomar café. Vieram impingir-lhe um bilhete de avião, a preço de saldo, para um voo a partir dentro de minutos. Lembrou-se que bem lhe saberia o mergulho na praia de Copacabana e que novo alento lhe daria para continuar a trabalhar em benefício dos seus queridos munícipes. Aproveitou! Com espanto e muita indignação - direito que o Dr Mário Soares teve o cuidado de instituir! - soube dois dias depois que lhe tinham decretado prisão preventiva no âmbito de um processo que nem sabe do que trata. Assim, a frio, sem saber ler nem escrever! Agora está exilada, que ela é autarca mas não é burra!
Crisóstomo Teixeira é o presidente da CP onde, mesmo não havendo lucros, não ganhará o salário mínimo e não prescindirá do uso de carro de serviço, topo de gama, e de cartão de crédito que, como se sabe, são ferramentas essenciais a qualquer inovador método de gestão. Mas ao menos este justifica tudo o que se investir, pelos métodos verdadeiramente inovadores que vem implantando na empresa.
Recentemente e com o pretexto de tornar a duração da viagem Porto-Vigo mais curta decidiu-se pela supressão da paragem na estação da Trofa, a cerca de 20 quilómetros do Porto. Medida de aplaudir, naturalmente. Tempo é dinheiro e enquanto não houver TGV a malta que sai do Porto, de comboio, para ir ao marisco aos restaurantes galegos nunca mais lá chega. Palmas, portanto.
Depois disso, e a pedido de um grupo de excursionistas, permitiu que o mesmo comboio fizesse uma paragem para que se pudesse ir comer uma lampreia à bordalesa, copiosamente regada com um verde tinto de estalo que se produz na região. Claro que a atitude é igualmente de aplaudir. Se os excursionistas não tinham urgência especial em estar à porta do El Corte Ingles, se lhes sobrava o apetite para a lampreia e se tinham dinheiro no bolso que a pudesse pagar, a paragem serviu muito justamente para dinamizar a economia regional. Palmas também, portanto.
O que é pena é que um homem destes esteja a perder-se na gestão de uma empresa pública que custa todos os anos milhões de contos aos bolsos dos contribuintes. Deveria ser aproveitado para tarefas mais nobres e mais de acordo com a sua real vocação e com a novidade dos seus procedimentos. Seguramente o Dr Barroso se não esquecerá dessas qualidades e, a bem do país, as aproveitará. Esperamos que o Dr Sampaio também se não esqueça e tome em consideração o desempenho do homem no próximo 10 de Junho. Agraciando-o e pendurando-lhe ao pescoço a comenda de qualquer coisa. Ele merece!
Assumindo o papel de pedagogo que, como é do conhecimento geral, não resultou com a sua dileta aluna Fátima Felgueiras, foi confrontado com a seguinte pergunta, colocada por um aluno do 11.º ano:
Porque é que existe a ideia de que só vamos trabalhar para o poder local se formos amigos do presidente da câmara?
O que Narciso Miranda respondeu ou tentou responder nem sequer interessa. É um político português, profissional há mais de um quarto de século, não há vício ou manha que não traga na manga. Quanto ao aluno é claro que, no mínimo, merece o destaque de ser incluído no Quadro de Honra da Escola. Por mérito próprio!
Um pequeno apontamento, por exemplo, recorda-me hoje que em 1996, vitimado por um "very light", morreu no estádio nacional um adepto do Sporting que dava pelo nome de Rui Mendes. Os tribunais condenaram a Federação Portuguesa de Futebol, a que preside o Dr Gilberto Madail - um vilão, está à vista! - a indemnizar a família. De recurso em recurso a Federação tem-se eximido a pagar aquilo a que a justiça a condenou. O que significa que a Federação apenas reconhece e aceita a justiça que passa pela cabeça oca do seu presidente. Que à custa de dinheiros alheios vive como um nababo, viaja nos aviões em classe executiva, hospeda-se em hoteis de luxo e é seguido por grupos de paquetes a carregarem-lhe as bagagens para que se não canse.
A Federação tem a mesma vergonha que lhe transmite o seu presidente e professa os mesmos princípios de honestidade, reforçados pela conduta do Presidente da Liga que acha que tudo é, no futebol nacional e à sua imagem, inatacável, transparente e exemplar. Ser português deixou há muito de ser uma fatalidade: é uma vergonha permanente que não tem nem emenda, nem solução. Fosse o Dr Gilberto Madail um homenzinho responsável, nem sequer seria necessário que fosse homem, mesmo com h minúsculo, e o assunto não andaria em bolandas, de tribunal em tribunal. Porque a Federação não pugna por justiça, - nenhuma vida é ainda avaliada em euros - mas fá-lo apenas pela fuga à responsabilidade e, linearmente, pelo roubo.
Não nos importaríamos que o país pudesse ser comparado a um circo, se este fosse da qualidade dos de Moscovo ou de Monte Carlo. Mas não é assim. Este nosso circo nacional emprega outros artistas mas, para o público, só actuam os palhaços e, infelizmente, aqueles que melhor fariam em procurar outra actividade.
Só assim se pode entender a palhaçada à volta da hipotética soltura, por trinta segundos, do Dr Vale e Azevedo. Sabe-se, desde sempre, que não há a mínima coordenação entre organismos oficiais, seja sobre o que for. O cidadão habituou-se a que diferentes serviços públicos lhe solicitem a mesma informação repetidamente e vezes sem conta. Está ele, que está preso há anos, revoltado? Anormal seria que o não estivesse, porque revoltada deve estar qualquer pessoa de elementar bom senso. Não propriamente com a prisão dele, que faz parte dos processos em que é arguido. Mas com a forma irracional como as coisas funcionam nesta terra.
Que justiça, de facto, se pode esperar de um conjunto de tribunais de diferentes instâncias, onde muitos dos seus membros se entregam ao exercício de práticas surrealistas? Ou julgam eles ter os predicados dos Srs Breton ou Picasso? Se assim é, mudem-se. Rapidamente!
O Porto, com a mania das contas à sua maneira, tem aspectos rídiculos e provincianos que, como o Dr Rio e os seus antecessores, nos fazem rir. Mas também tem coisas sérias, que devem ser respeitadas, com que se não deve brincar. Antigamente, segundo diziam, uma delas era o trabalho. Nos dias que correm são os desempregados. Daqui a pouco o único homem que trabalha no Porto é o engenheiro Belmiro de Azevedo. Porque precisa e, por isso, o faz mesmo no dia de aniversário. E sendo quase o único a trabalhar vai fazendo crescer o seu pecúlio à custa de incapazes a calaceiros a quem, ainda por cima, paga.
Ontem foi vísivel em Faro a preocupação com o jogo de futebol que ali teve lugar e com a segurança. Dos jogadores, dos árbitros, dos convidados e da própria assistência. Aviões de combate sobrevoaram o estádio a afugentar as gaivotas, peças de artilharia foram apontadas às entradas principais e a polícia de choque manteve-se alerta na conferência de imprensa dos seleccionadores a controlar-lhes os movimentos. Quando menos se espera, segundo dizem, o diabo tece-as! Em Olivença chegou a pensar-se que era desta, que a libertação estava eminente.
Mas o Porto prepara afincadamente a cidade para o início do Euro 2004. O Fubetol Clube do Porto decidiu, por vontade própria, substituir a relva do estádio do Dragão, já em muito mau estado depois dos inúmeros jogos que ali se realizaram depois da inauguração. O Dr Rio, gratuitamente, pôs os motoristas de táxi a aprender inglês e quase todos já, no fim de cada corrida, nos dizem com pronúncia de fazer inveja ao Dr Mário Soares, "ten euros". Os autocarros dos STCP passaram a ostentar dizeres igualmente em inglês, a maioria dos quais não sei o que significa porque não sou taxista.
Nas costas do assento do motorista há uma tabuleta a dizer "driver" que um amigo meu me disse ser o nome de um daqueles paus de jogar aquele jogo da relva e dos buracos, de que os ingleses gostam muito e que parece que se chama golfe. Não entendo a relação, mas acho que fica giro. Escrever lá motorista não tinha graça nenhuma, já toda a gente sabe. A modalidade está a ser um sucesso, não se fala de outra coisa nas lojas dos hamburgueres e comenta-se à ganância mesmo dentro dos autocarros. Tanto que estes, do lado de dentro e por cima das portas, têm mesmo escrito "exit" para o assinalar.
Agora, alguns novos, postos a circular há apenas alguns dias, têm escrito a todo o comprimento "running on natural gas", em letras grandes. Não tenho culpa de não saber o que quer aquilo dizer e para que serve. Fui perguntar a um polícia que conseguiu andar no inglês do Dr Rio fazendo-se passar por taxista. Lá me esclareceu que aquilo era de facto por causa do Euro e que era um aviso a recomendar "ou te piras ou atiro-te com a granada de gás". Admirei-me e perguntei-lhe se a ameaça era feita assim, sem mais nem menos. Respondeu-me apenas "fuck you" mas não traduziu. Pela cara dele penso que era para eu me pirar também!
Ontem, por razões de ordem pessoal, não estive no Porto. Mal eu sabia o que iria perder porque, se o adivinhasse, poderia o governo cair, o Dr Vasco Pulido Valente publicar a sua crónica antes de tempo ou mesmo o Sr Luís Delgado divulgar os resultados das presidenciais daqui a dois anos e picos que eu não arredaria pé. Queria estar na primeira linha, a gozar o espectáculo e a agitar freneticamente uma bandeirinha da cidade, gritando vivas a Portugal e ao Porto 2001, capital europeia da cultura.
Com pompa, música e circunstância foi inaugurado o elevador dos Guindais. Uma das obras de referência da Porto 2001 que, quando concluída, ninguém sabia se servia para alguma coisa e nem sequer queria pegar nela. Mesmo tendo tido tempo suficiente para lhe escolherem o nome, há dois dias atrás chamavam-lhe funicular, que eu até achei um nome bué de fixe, quanto mais não fosse porque não sabia o que queria dizer. Hoje o jornal já lhe chama só elevador, que é um nome vulgar, qualquer prédio de três andares tem um e às vezes mais.
A cabine, com capacidade para 25 pessoas, foi engalanada, com a bandeira nacional, a da cidade e a do chamado Metro do Porto. Por fora, sem prejudicar a vista de que se pode disfrutar durante o percurso, foram afixados cartazes com as esfinges do Ministro das Obras Públicas, dos presidentes das câmaras de Porto e Gondomar, do presidente do chamado Metro do Porto e ainda do Presidente da Liga de futebol. Como o major Valentim, com muito sacrifício das suas horas de descanso e da sua conta bancária, acumula mais que um cargo o cartaz com a sua esfinge tinha, muito justamente, o triplo do tamanho dos outros. E eu acho que até devia ser maior porque ele, sem ofensa, é assim um meia leca que não tem muito mais de metro e meio.
À hora marcada os voluntariosos Mareantes do Rio Douro já tinham malhado nos bombos para lá e para cá, alguns tinham mesmo as peles rebentadas, as ilustres personalidades perfilavam-se no cais de embarque, felizes e sorridentes querendo ir todas na primeira viagem. Forem embarcando muito ordeiramente, obedecendo à chamada que o Sr major fazia, a lembrar os seus tempos de tropa. Ao vigésimo quinto perguntou "quantos são" como sé seu hábito e disse, elevando a voz "alto e para o baile, não entra mais ninguém".
O Sr ministro já vinha preparado, - quem vai para o mar avia-se em terra! - tirou do bolso a tesoura novinha em folha que trazia, em aço inox, cortou a fita bicolor, verde e mermelho, as cores nacionais, deitaram-se foguetes que estoiraram no ar, alguns transeuntes tiveram que furtar-se à queda das canas, a charanga tocou a Maria da Fonte, toda a gente bateu palmas ruidosamente como se aplaudisse o Sr Quim Barreiros. De peito cheio, de ar e orgulho, o Sr major pensava baixinho: "hoje até podiam ser o dobro deles, aviava-os rodos".
Cortada a fita, foi o Sr ministro convidado a virar o pinxavelho que punha a geringonça em movimento. Nova salva de palmas, foguetes de morteiro, os mareantes capricharam no ataque aos bombos. A cabine, o elevador, o funicular ou lá o que é permaneceram silenciosos e imóveis. Não soltaram um gemido, não se ouviu um silvo, não se deslocaram um dedo que fosse. O Sr bispo do Porto reforçou a água benta, o Sr major benzeu-se, o Dr Rio tirou o terço do bolso, o Sr presidente da Liga começou a matutar que nunca se podia confiar no árbitro sem lhe ter pago antes.
Deve ser excesso de peso, alvitrou alguém que sabia da poda, que sabia como tinham sido as tripas à moda do Porto, generosamente regadas que o cravinho da Índia puxa. Sairam todos, os mais crentes benzeram-se, os outros seguiram-lhes o exemplo, alguns com a mão esquerda, para não parecer mal. Decidiram embarcar apenas dez, alguns ficaram para as viagens seguintes, outros desistiram. Não fosse aquela porra - quarto nome dado à geringonça - precipitar-se pela escarpa abaixo. O ministro, de sorriso amarelo, virou o pinxavelho, os fotógrafos, atentos, registaram o acto, os operadores de câmara gravaram para os jornais da noite, os presidentes das juntas, com lugar nas filas de trás, puseram-se em bicos de pés para também apareceram nas fotografias e nas televisões. A geringonça, sem coração, não se incomodou com a angústia e com a ânsia de ninguém: manteve-se imóvel. Nem o mais pequeno movimento, um curto lampejo uma imperceptível faísca. Nada.
Voltaram a sair, voltaram a entrar, o Sr bispo esgotou a água benta, o Sr major tinha o braço cansado de tanto sinal da cruz, o Dr Rio convocava a vereação e falava em sabotagem, os populares apinhavam-se no cimo da subida para verem a geringonça e o ministro. Alguns já comiam do farnel que tinham trazido, algumas crianças impacientavam-se, queriam era uma pastilha elástica, choravam, as mães prometiam-lhes porrada. Pela quarta vez o Sr ministro deu à coisa - salvo seja! - e surpresa, a geringonça iniciou-se lentamente na subida, os dez passageiros agarraram-se uns aos outros para não baldearem, os mais medrosos encomendaram-se a Deus e aos Santos, pediram a benção ao Sr bispo, foram rezando discretamente para os julgarem valentes, como sempre fica bem nas cerimónias públicas.
No topo da escarpa, longos e dolorosos 280 metros depois, os repórteres atropelavam-se, todos queriam registar as primeiras declarações dos ilustres bandeirantes do funicular. Com ministro ou sem ele, o Sr major não podia deixar também falar, até porque não é mudo e nem sequer gago.Com um sorriso aberto, do tamanho do percurso, declarou "a viagem foi maravilhosa". Ninguém se admirou. Toda a gente sabe que o futebol chafurda numa pocilga que nem vedada é, cheira a merda por todos os lados e o Sr major, que é um optimista, continua a dizer que lhe cheira a perfume Givenchy!
O desmentido é sobre uma prédica dominical do professor Marcelo e sobre declarações públicas do Dr Júdice, bastonário dos advogados. Ambos disseram que o Dr Barroso era um super-ministro da justiça e que a Dra Celeste Cardona, como ministra, não existia. Já figurava apenas na lista telefónica do Dr Portas, para a eventualidade de algum recado. É mentira! A Dra Celeste Cardona existe, de carne, osso e funções como ministra. Ainda ontem a vi na televisão e esta manhã soube que, afinal, está de facto empenhada na mais elevada reforma da justiça de que há memória. E começou por cima, a nomear pessoal dirigente para cargos onde nós, contribuintes, lhes pagamos ordenados na casa dos 5.500 euros, o equivalente a 1.100 contos. Um dos nomeados é autenticamente um JDEP - entenda-se jovem director de elevado potencial - de apenas 29 anos de idade e apenas licenciado há três. Como experiência profissional, tem a que o tempo lhe permitiu adquirir: nenhuma. Limitou-se a levar à escola os netos da ministra e em passar por sua casa a certificar-se de que o cachorro estava sossegado e ainda tinha ração e água. Mas tem uma vontade incontrolável de se entregar às suas novas funções, acelerando a máquina a que tem direito e utilizar o cartão de crédito no marisco barato que servem em Huelva.
A pergunta, embora um pouco tardia, é sobre a telenovela das presidenciais em que iremos maioritariamente abster-nos daqui a mais de dois anos. Disse publicamente o Dr Santana que nunca foi influenciado e nunca cedeu a pressões, fosse de quem fosse. Aqui já eu estava a rir, o que até é raro acontecer-me. Mas disse ainda que sempre pensou por si, sempre decidiu pela sua cabeça. Aqui desatei à gargalhada, num riso pegado, que ainda não parou. Então quem não tem cabeça para nada, ela serve-lhe para decidir o quê?
Defeito meu, se calhar congénito, não há nada a fazer. Muitas vezes tenho grandes dificuldades em compreender determinadas situações e outras há que, de todo e por mais que me esforce, não consigo entender. O Tribunal de Aveiro mandou ontem em paz 17 arguidos que foram julgados por alegada prática de aborto clandestino, por não ter reunido provas suficientes para condenar nenhum deles. Até aqui, tudo bem. Os tribunais são independentes do poder político e devem continuar a sê-lo. Com a certeza de que essa independência não seja comparada à do Dr Bagão Felix perante o partido que o indicou para o governo porque esta é verdadeiramente falsa. Dr Portas nenhum indica para um cargo de ministro uma pessoa que não esteja sintonizada com o partido e que não seja da sua inteira confiança. A falta de filiação partidária - entenda-se a falta de cartão - não tem o mínimo significado. Não se passa a ser mais benfiquista quando se apresenta um proposta para sócio ou quando a direcção a aprova!
Os tribunais têm que julgar no âmbito de legislação que não produziram e que não têm competência para alterar. De forma independente do poder político, limitam-se a aplicar as leis que este lhes espalha em cima da mesa. Não compreendo, deste modo, todo o alarido que durante o julgamento foi feito à porta do tribunal, com manifestações e cartazes apelando à alteração da lei. Ou, pelo menos, não compreendo nem sequer aceito a presença da Dra Odete Santos e do Dr Miguel Portas, por exemplo, no meio daquela gente. É natural, e acontece, que nos julgamentos de província apareçam e se concentrem à porta dos tribunais, amizades, conhecimentos e simpatias das partes. Mesmo que não intencionalmente, são sempre uma forma, mesmo frouxa e indirecta de pressão. Mas limitam-se ordeiramente, e regra geral, a aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos. Não passam de acompanhantes dos concorrentes aos concursos de televisão. São inofensivos de todo, não reclamam nenhum outro estatuto e não esperam nenhuma outra atenção.
A presença de políticos profissionais é diferente. E sendo diferente é estultícia, porque não quero crer que a Dra Odete Santos tivesse marcado presença como artista de teatro e o Dr Miguel Portas como economista. É-o por se terem enganado na porta, ainda por cima sabendo-o. Não tenho, por mim, uma ideia definitiva e consolidada sobre o aborto. Mas aceito que a respectiva legislação deva ser revista e mais, em resultado de novo referendo. O poder político, como se sabe, odeia os referendos quase tanto como os eleitores. Quer ser miguelista, perfeitamente absoluto, legitimando-se a si próprio como uma ditadura temporalmente limitada. Representativa sim, sem que se saiba de quê ou de quem. Participativa nunca, em nada e por ninguém.
Mas os políticos presentes, a meu ver, deram um tiro no pé e devem ter ficado sem a cabeça do dedo grande. A Dra Odete declarou mesmo que tinha sido uma decisão exemplar. Se a afirmação pudesse ser verdade estávamos conversados em relação à justiça. A sentença foi o que deveria ter sido, no âmbito e na vigência das leis que a suportaram. Interpretações extensivas serão um abuso e uma rábula. Os abusos não sei onde ou como são tratados. Mas as rábulas ainda sobem aos palcos do Parque Mayer!
No norte o panorama não é muito melhor, apesar dos esforços da família Loureiro, um exemplo de boas maneiras adquiridas na tropa. E o patriarca, que ainda utiliza um posto militar antes do nome, que o diga. Mas, mesmo assim, faltam maneiras, apesar das pessoas terem frequentado escolas nas Fontaínhas e acabado, por vezes, nos bancos da aristocrática Católica. Ninguém parece ler os livros, perfeitamente essenciais, da D Paula Bobone, o que é uma pena.
No domingo passado o casal Pinto da Costa, terceira edição, viajou para Lisboa. Mais precisamente para o novo estádio da Luz, para assistir ao Benfica - Porto. O Sr Pinto da Costa, todas as câmaras o focaram, foi sentar-se no banco, na companhia dos Srs Mourinho e Reinaldo Teles, para fiscalizarem a equipa de arbitragem e darem uma ajuda aos jogadores se ela viesse a ser necessária. A senhora de Pinto da Costa III meteu à carteira um dos convites recebidos, solicitou o acompanhamento de uma equipa de guarda-costas e dirigiu-se ao camarote presidencial. O Sr Luís Filipe Vieira, que teve explicações de etiqueta com a D Paula, levantou-se solícito para receber Sua Excelência, cumprimentá-la, agradecer-lhe que tivesse vindo e indicar-lhe humildemente o seu lugar. Começou por estender-lhe a mão, baixa para que a senhora não pensasse que ele lhe ia dar algum estalo e para que os guarda-costas se mantivessem tranquilos, embora vigilantes. Ficou de mão estendida como se fosse um cachorro a obedecer às ordens disparatadas do dono porque a senhora achou que não tinha que cumprimentá-lo. Claro que não tinha, se tivesse ficado a ver o jogo na companhia do Bobby e do Tareco com quem, dizem, se entende às mil maravilhas. Nem por causa da ração se desentendem.
O Sr Loureiro pai anunciou já a realização de acções de formação que possam melhorar o comportamento das pessoas em relação a aspectos sociais de tal importância. Luta é com dificuldades para arranjar sala com capacidade para tanta gente porque muita há que precisa de ser reciclada e mais do que uma vez. Como o lixo.
O Dr Manuel Monteiro é aquele rapaz magro, de óculos grossos e olhos míopes encovados nas órbitas, que militou na juventude do CDS até ser presidente. Dedicou-se ao partido, desleixou os estudos, foi subindo na hierarquia. Não se sabe como nem quando teve uma aberta, foi tirar o canudo, neste país sem se ser doutor não se consegue ser coisa nenhuma na vida. Nem vereador!
Por limite de idade, no partido, passou aos seniores. Ensaiou palavras de ordem, slogans eleitorais, fez o esquisso de cartazes, foi eleito deputado, chegou de novo a presidente. Sempre com o seu inseparável amigo de peito, Paulo Portas, a dar-lhe a sombra protectora e o itinerário para o paraíso. Até que este, cansado da sacristia e aspirando ao sabor requintado dos doces de convento se rebelou. Em Braga, terra de tão antigas tradições cristãs, à vista do cónego Melo. A revolução triunfou, o Dr Monteiro perdeu o emprego, não recebeu a indemnização que lhe era devida e incompatibilizou-se com o patrão.
Fez a travessia do deserto do Sahara, para lá e para cá, sem um cantil de água com que pudesse dessedentar-se, sem um camelo que lhe pudesse dar descanso às pernas, sem um oásis onde, para além de piscinas de águas tépidas pudesse haver algumas odaliscas para o relaxamento. De regresso a casa recebeu, às dez da noite, uma chamada telefónica de um conhecido banco da nossa praça a oferecer-lhe um crédito pessoal em condições que nem sequer dá para acreditar. Aceitou, mas sob condição: não poderia nunca revelar à Deco que condições eram essas, de que beneficiava.
Meteu ombros à tarefa de fundar um partido novo em tudo. Na designação, nos estatutos, nos militantes, no projecto. Até ele iria mudar. Começou pelos óculos e da roupa interior nada se sabe, mas há quem assegure que usa boxers com o twetee estampado, a amarelo, na braguilha. Começou por se candidatar a presidente do novo partido e, de seguida, a eleger-se.
Daí para cá, realmente, tudo mudou. O Dr Monteiro é imparável e onde as câmaras de televisão chegam apenas um conhecido adepto do Futebol Clube do Porto consegue chegar-se à frente antes dele. Quase todas as semanas consegue beneficiar de seis linhas num dos jornais que se publicam. Na manhã do último domingo, à saída da missa, foi mesmo cumprimentado com deferência por dois casais de reformados. A filha de um vizinho do andar de baixo trata-o carinhosamente por padrinho e o porteiro do prédio onde mora insiste em curvar-se à sua passagem e em trata-lo por "senhor presidente". Dá-lhe alento!
Já anunciou ser candidato à junta de freguesia, à câmara municipal, ao parlamento europeu. De novo à presidência do partido, - como querido líder - ao parlamento nacional. Sem ninguém lhe pedir nada não quis correr o risco de se esquecer e anunciou o seu apoio a um dos candidatos, que não existem, à presidência da república. Nos últimos dias reafirmou o seu apoio ao candidato que, só Deus sabe, há-de ser ou não ser. E adiantou que se não fosse, ele próprio avançaria com a sua candidatura. Espera-se a reacção do herege Santana Lopes que, se for muito mais burro do que é permitido por lei, há-de optar por se manter na arena. Para ser tratado abaixo de cão na TVI e seguramente humilhado nas urnas pelo Dr Monteiro. Enquanto, em fundo, o Sérgio Godinho continuará a cantar o "arranja-me um emprego".
Dizia a minha avozinha, que Deus tem porque era uma santa, quando se referia aos naturais da freguesia que tinham demandado Lisboa e que por lá se entretinham a empinar copos de três ao balcão das tabernas do Cais do Sodré, a coçar o cu das calças pelas paredes da estação do Rossio e a conspirar contra o regime do Dr Salazar porque, apesar dos excedentes de produção, não baixava o preço do copo, que eram pessoas que não prestavam, que por lá andavam, na política. Sempre lhe dei razão embora nunca concordando com ela. Sempre lhe dei razão porque o respeitinho era, nessa época, uma coisa muito bonita. Respeitavam-se os pais, os avós, os professores, o pároco e, de um modo geral, toda a gente. Hoje a palavra deixou de ter significado, caiu em desuso, não consta dos dicionários e até a erudita Dra Edite Estrela se não recorda já muito bem de quando deixou de a aplicar.
Mas nunca concordei com ela porque, como jovem excessivo, a bebedeira ao balcão de uma taberna de Lisboa, virando copos e engulindo pasteis de bacalhau, era o máximo a que um provinciano, depois de ter ido à escola, poderia aspirar. Mesmo assim tinha alguns assomos de honestidade e achava que as palavras da minha avó eram também demasiado injustas para a malta de indigentes, néscios e pequenos marginais que semalmente enchiam a camioneta a caminho da capital. Achava que não mereciam um tal insulto e, se enveredavam pela política, não era pelo que lhes tinha sido ensinado pela professora primária. Seria das leituras, dos livros da falecida Agência Portuguesa de Revistas em cujo enredo, para triunfar, bastava ter um coldre pendurado à cintura, com uma pistola, e ser capaz de sacar dela e premir o gatinho mais rápido que a velocidade da luz.
Apesar de o usar agora, acho que o vocábulo peixeirada é inadequado e atentatório do bom nome das peixeiras que, de canastra à cabeça, ainda percorrem as ruas da cidade, visitando regularmente os seus velhos clientes que se mantêm vivos. A mim, pessoalmente, nunca me enganaram. A sardinha, o carapau e a chaputa que apregoam, vivinhos da costa, sempre foi aquilo que me venderam. A preço justo, muitas vezes a pagar no fim do mês, porque o ordenado sempre se me acabou ao dia quinze.
Mas a mais de dois anos de distância, quando o Dr Sampaio, à bolina, navega tranquilo a meio do seu segundo mandato, há gente nervosa, que se infiltra como agentes secretos nos copos de água dos casamentos para que não receberam convite, faz por ser vista à entrada das igrejas, gesticula por um lugar na tribuna das manifestações culturais que são os desafios de futebol e lamenta não poder ser filmado ao lado do Sr José Mourinho quando o mesmo, sabiamente, se pronuncia sobre o estado da erva e a desordem da areia em que a mesma medra.
À semana o governo segue as orientações do Dr Barroso para, ao domingo, o professor Marcelo se sentar a despacho, nem sempre observando as recomendações dos pareceres que lhe submetem. Não está prevista a pronúncia do Tribunal Constitucional sobre a legitimidade que seja. Há dois dias o professor Marcelo, que é muito religioso e que vai sempre à missa antes de se sentar para despacho, oficiou empenhadamente uma cerimónia fúnebre, encomendando aos anjinhos um corpo ainda quente, mas inerte e vazio que apenas se mantém de pé à custa do betão e, à noite, à custa de luzes feéricas e de músicas ultrasónicas.
Como acontece nas paróquias de província, nem sempre os fiéis estão de acordo com o padre, embora lhes fraquejem as pernas de medo com o conteúdo das prédicas que lhe ouvem do púlpito abaixo. Alguns organizam-se, socorrem-se das criancinhas que ainda têm na escola, exigem que o bispo transfira o indesejado para um sítio próximo da raia. Porque até foi capaz de criticar o Sr presidente da junta, um homem tão bom, tão simpático e que dá sempre para todos os peditórios. Outros são mais afoitos, nem reunem tropas, insultam o padre, espalham o boato de que se embebeda todos os dias, de que come como um alarve, - sendo apenas um abade! - que não visita regularmente o lar de idosos e que anda metido, por debaixo da sotaina, com duas catequistas e uma rapariga que serve em sua casa. Às vezes referem mesmo os muitos filhos que tem e cuja paternidade não assume, escudando-se na história do celibato e da castidade.
É esta peixeirada que já para aí vai, na praça pública, à conta de umas eleições que estão a mais de dois anos. Com a particularidade dos intervenientes principais terem aprendido a ladaínha no mesmo seminário, ajudado à missa na mesma igreja de bairro e usarem batinas da mesma cambraia, em tons de laranja forte. Revelando em público os segredos que as carenciadas viúvas de véu negro que vão à confissão lhes confiaram em sussurro.E ainda dizem que somos um povo que não trata de nada com antecedência e que vai entregar a declaração do IRS no último dia do prazo. Decerto que o Dr Cunhal exclamaria: olhem que não, olhem que não!
Desde logo o programa socorre-se de uma encenação perfeitamente dantesca, muito a propósito da nenhuma massa encefálica que armazenam as cabecinhas, pequeninas, de quem dirige a casa. Depois um apresentador inenarrável em tudo, até no nome. Perfeitamente a condizer com o resto. Mais cinquenta concorrentes, todos numerados com rodelas grandes, como se fossem presidiários, e que lá estão para bater palmas, responder a perguntas ofensivas para a cultura geral dos frangos de aviário e para serem afastados, sem proveito, sem glória, sem nada. Ainda mais um, o concorrente de facto, esparramado numa cadeira que algum serralheiro imaginou ser o máximo do disaine nacional, a que chamam trono e que elevam à altura dos trapézios de circo, para que não fuja a meio.
Para acabar, um genérico que não lembra ao diabo. Cada nome e cada função são acompanhadas de sonoros rebentamentos, como se se tratasse da paz no Iraque e dos muitos sangrentos atentados que a perturbam. Realmente! Mesmo não querendo, mas por uma questão de cultura, anuncio definitivamente a minha conversão a canais codificados de que não digo o nome. Sempre se corre o risco de aprender qualquer coisa!
Se alguém nos ler será legítimo que estranhe que venhamos aqui afixar notícias do Porto 2001, capital europeia da cultura, quando decorre o terceiro ano posterior ao termo daquele em que o acontecimento se verificou. Mas isso acontece porque, como o país, esses poucos leitores têm andado mais distraídos do que deviam.
Gozavam os lisboetas com a anedota do Metro do Porto, e tinham alguma razão. Agora temo-la todos e podemo-nos rir em conjunto. De facto ainda nos não constou que já tivesse sido inaugurada a linha do de Lisboa que passa pela estação do Terreiro do Paço. Nem, que o saibamos, o Dr Santana Lopes terá mandado espetar um painel gigante em cada uma das esquinas da praça a dizer: "Já viu que estamos aqui a tirar a água toda para os combóios poderem passar?".
Mas o Porto 2001 não foi e ainda não deixou de ser maior anedota do que a do Metro. A rua onde se situa o Coliseu, onde o evento foi solenemente inaugurado com a presença da rainha da Holanda, foi pavimentada à pressa, para se apresentar de cara lavada quando sua magestade chegasse. Depois então seriam as obras completadas como devia ser. Não foram, até hoje!
As ruas e os passeios que foram pavimentados de novo estão em petição de miséria desde o dia seguinte. O paralelo foi arrancado, uns pinos espetados nos passeis para evitar o estacionamento foram partidos, torcidos, arrancados. Algumas peças de ferro forjado que cobriam as floreiras nos passeios já desapareceram e, que se saiba, ninguém apareceu a vendê-las na feira da Vandôma.
Na fronteira entre o Porto e Matosinhos construiu-se um mamarracho a que, pomposamente, chamaram edifício transparente. Depois de pronto ninguém sabia que uso dar-lhe, e continua a não saber. Está ao abandono, camarata permanente dos ratos dos esgotos e gaivotas velhas e doentes.
Estenderam-se linhas para a circulação de eléctricos. Nunca por lá passou nenhum e receamos que nenhum há-de passar durante este século. Depois, no próximo, certamente o Dr Fernando Gomes, de novo na Câmara, há-de trazer até nós o Porto 2101, capital de qualquer coisa. E requalificar os melhoramentos então seguramente obsoletos.
Praças emblemáticas foram deixadas esventradas depois dos inconfessáveis interesses da construção civil terem plantado parques de estacionamento subterrâneos. Repor pavimentos era, segundo se disse, responsabilidade da Câmara. Esta, a custo, fê-lo em alguns sítios, ameaça fazê-lo quando tiver dinheiro noutros e chegou ao ponto de embargar as obras noutros ainda.
Mas a próxima quarta-feira vai ser dia de festa. No âmbito do Porto 2001 construiu-se aquilo a que se chamou depois o Funicular dos Guindais, com 286 metros de extensão e um desnível de 61 metros. As cabines têm capacidade para 25 pessoas e, supunha-se, serviriam para trazer gente da beira rio para cima e inversamente. Acabadas as obras ninguém sabia quem e como iria a geringonça ser explorada. Tinha custado uma fortuna e ninguém a queria. Dificilmente poderá ser rentável. Lá se acabou por impingir a exploração daquilo ao Metro do Porto. Há poucos dias, mas atempadamente porque o atraso não é assim tão grande, o Instituto Nacional do Transporte Rodoviário emitiu autorização para que a coisa funcione. Daqui a dois dias, coincidindo com a visita ao Porto de Sua Excelência o Senhor Ministro das Obras Públicas, professor Carmona Rodrigues, o funicular vai entrar em funcionamento. Nesse dia andará abaixo e acima, num corrupio, superlotado, com tantos passageiros que não caberão nas cabines. Todos à borla. D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto, que mora quase ao lado irá benzer a geringonça, as autoridades civis e militares. E aspergir água benta pelas imediações. Os sinos da velha Sé tocarão melodias de festa e os marginais fugirão Rua Escura abaixo, a fugir deles todos.
Como se sabe o professor Carrilho persegue afincadamente lugares que anteriormente tenham sido ocupados pelo Dr. Santana Lopes. Não sabíamos porque razão. Mas, com a sapiência que se lhe conhece e que faz dele uma sub-aproveitada inteligência, veio o Sr Luís Delgado elucidar-nos sobre o assunto: o actual presidente da Câmara de Lisboa nunca perdeu nenhumas eleições, da concelhia do partido ao parlamento europeu, de deputado ao parlamento nacional à Câmara da Figueira. Nunca, embora se ache que isso é gabarolice, levou uma tampa duma garina nas noites de sexta-feira ou regressou a casa sem ter quem lhe aquecesse os pés e lhe preparasse os flocos para o pequeno almoço.
Foi assim que o professor Carrilho foi ministro da cultura, geriu superiormente as relações do seu ministério com o Porto 2001, aguardou pacientemente que o banqueiro Santos Silva se demitisse e deixou as obras da Casa da Música em velocidade de cruzeiro. Em embarcação à vela e sem vento que ameaçasse soprar, mesmo fraquinho, nas três semanas que se seguiam. Agora, com encargos familiares acrescidos e com um filho para criar, deu um passo em frente anunciando a sua disponibilidade para ser candidato do partido à Câmara de Lisboa. O que, em português que as pessoas entendam, quer dizer que anunciou publicamente que quer ser presidente da Câmara.
Para o combate o professor Carrilho iniciou os treinos na sexta-feira passada, envergando uma vestimenta de Rambo e conduzindo alguns golpes que deliciaram a ganapagem do Arco do Cego. Um fotógrafo de uma dessas revistas culturais que por aí se publicam, tipo Seara Nova, atreveu-se a querer fotografar, sem autorização, a senhora Carrilho e o seu jovem rebento. O filósofo-político não gostou da brincadeira, foi-se ao automóvel onde o fotógrafo se acoitava, sacou-lhe a maquineta e foi-se embora para casa, a fazê-la em bocadinhos, dando cabo das imagens recolhidas até ao último bit. Realmente o combate promete. Parece que o ministro Morais Sarmento, retirado da actividade por já não ter idade para aquilo, já reservou lugar na primeira fila de cadeiras.
Uma das características desse modelo foi nos últimos dias, mais uma vez, divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística que veio revelar que, no último trimestre do ano de 2003, o número de desempregados no país aumentou 18.200. Este número significa, grosso modo, que, de Outubro a Dezembro, ficaram desempregadas:
mais de 6.000 pessoas em cada mês;
mais de 1.500 pessoas em cada semana;
mais de 200 pessoas em cada dia e
mais de 8 pessoas em cada hora.
E o comício dos quinhentos reinvindica, além destes resultados, a liberalização dos despedimentos. A pretexto do aumento da produtividade e do interesse nacional. O Dr Barroso tem o modelo de desenvolvimento em marcha.
Mas o que de facto parece acontecer é o Dr Barroso comer muito queijo. Da serra da Estrela, de Nisa, de Azeitão, suiço, francês, holandês. No género do que vier, morre! E porquê? Porque foi esta semana a Espanha, distribuir vénias a el-rei D. Juan Carlos e salamaleques ao José Maria e reconheceu que Portugal estava atrasado relativamente aos nossos vizinhos, mas sem culpa nenhuma dele. Esse atraso é, também neste caso, uma pesada herança do passado. Porque, segundo disse, Portugal teve uma descolonização muito difícil de resolver - o que continua a ser verdade porque, contra a vontade do ministro Portas, o Dr Soares pai, reconhecido criminoso da nossa praça, continua em liberdade e sem julgamento - e ainda porque as nacionalizações de 1975 prejudicaram as empresas.
Mas então o Dr Barroso já lhe não chega a pouca vergonha de truncar o seu currículo político? Ainda que seja por culpa do queijo. Então o queijo agora também já faz que não se lembre de que pintou paredes, bateu palmas e gritou palavras de ordem sobre todas as nacionalizações, incluindo talhos, mercearias e bancas de mercado? Continue assim, continue. Continue a esquecer-se de tudo. Esqueça-se do seu vice-presidente Santana Lopes que ele já lhe faz a cama!
A baixa do Porto, aos fins de semana, está deserta. Pouco falta para que o esteja também aos dias de semana. As pessoas que aí moram contam-se pelos dedos ou pouco mais. As ruas mais emblemáticas, em termos tradicionais, estão cheias de edifícios em ruínas e de lojas fechadas que, entretanto, faliram. A cidade tornou-se perigosa durante o dia e, muito mais, durante a noite. O Dr Rio, seguindo as pisadas do Dr Gomes, seu antecessor mas associado de um outro clube, fala em revitalizar a baixa. Por revitalização entende-se cada vez mais a ressurreição dos mortos mas, ao que parece, para o efeito o Dr Rio tem o mesmo jeito que o Dr Gomes. Quer dizer, nenhum! A única revitalização visível é a da prostituição. Progressivamente as raparigas de cinquenta anos e de ancas largas a não caberem nos modelos XXL das mini-saias têm cedido o lugar a jovens de leste em que só não cabe nas mini-saias aquilo que elas não querem. O ataque é em pleno dia, durante as horas de expediente porque, como se disse, à noite a cidade está abandonada. Fazem a quem passa sempre a mesma pergunta, certamente por falta de vocabulário: vamos?
Não se vê um polícia, a não ser daqueles que a câmara põe na rua e que têm um tabuleiro de damas, a verde e branco, pintado nos bonés. Da PSP, nem sombras. Dizem os maldizentes que estão para o Iraque, a libertá-lo e a manter a paz que se sabe. Fiscais civis, de trânsito, a aplicar multas nos parcómetros, há muitos. Contratados a prazo ou a passar recibo verde. De resto o condutor é livre como em nenhuma outra cidade, Lisboa incluída. Pode conduzir enquanto usa dois telemóveis ao mesmo tempo e vai ainda deitando o rabo do olho para as pernas das garinas que se saracoteiam rua abaixo. Ninguém o incomoda, lhe chama a atenção, o autua. Pode atropelar livremente, nas passadeiras ou fora delas, e seguir descansado ao seu destino. Se fôr preciso alguém há-de ter a ideia de chamar o 112 para seguir para as urgências ou para a morgue. Sendo ambas da alçada do ministro Pereira, não há filas de espera em nenhuma delas. Só nos centros de saúde há uma extensa fila de espera mas é de médicos. Em falta!
Mas hoje, domingo, ao início da tarde, a cidade deu por si mais do que segura. Um a dois polícias em cada esquina, de apito na boca como se fossem apitar o Benfica - Porto. E treinando para isso, soltando silvos agudos e prolongados, como se fossem mostar cartões vermelhos. Porquê? Porque a baixa ia ser palco de filmagens relacionadas com o Euro 2004 e o trânsito era preventivamente desviado para itinerários alternativos. Quem veio de longe, como de Gaia ou Matosinhos, para amanhã poder dizer no emprego que no fim de semana tinha ido ao Porto, sentiu-se frustrado, e com razão. Mal conseguiu ver as montras gradeadas da Zara e por pouco o não deixavam subir as escadas rolantes do Via Catarina.
Quer dizer, a polícia só realmente se apercebeu do risco quando as equipas de filmagens anunciaram vir para a baixa. E aí encheu as ruas. Senti-me confortado. O Porto é sentido para o Rui Veloso, é seguro para mim. Mas esses tais das filmagens, com todo este aparato policial, devem ser uns bardinos que nem sei. Seguramente uma cambada de ladrões e de malfeitores de que a cidade não tem memória. A avaliar pela forma como se protegeu!
Em Portugal o futebol tem funcionado como toda a gente sabe e o major Loureiro repetidamente afirma: de modo exemplar. A tempos um construtor civil, um tesoureiro de uma associação de magarefes ou um qualquer novo rico de cuja fortuna se desconhece a proveniência, senta-se à mesa com uns amigos de peito, come uns cozidos à portuguesa, bebe uns litros de vinho do Dão e avança ao assalto da presidência de um qualquer clube de futebol. Como na política, promete o que nunca vai cumprir, anuncia reforços, exibe cheques carecas e contratos-promessa com atletas que nunca existiram. É eleito e na semana seguinte recruta à pressa meia dúzia de brasileiros que jogavam futebol de praia nas areias de Copacabana, descobre mais dois acabados de cumprir suspensões por uso de substâncias proíbidas, recomendam-lhe mais três que jogam no escalão inferior dos regionais mas com potencial em que ainda ninguém reparou. O presidente da junta recomenda-lhe um treinador que, acidentalmente, está livre e este leva consigo dois adjuntos e um treinador de guarda redes.
Como sempre entendem-se, verbalmente, à mesa, com o prato a transbordar de cozido e o copo convenientemente cheio de maduro tinto. Num dos dias seguintes hão-de assinar um contrato formal e os objectivos são estabelecidos logo ali: é para ganhar, mais nada! Começa o campeonato e aquela tropa fandanga lá vai entrando em campo, sempre com atraso, deita os bofes pela boca, baixa bué de sarrafada nas canelas do adversário. Ao fim de quatro jogos a equipa encaixou quatro derrotas, sofreu quinze golos, marcou três e, pior do que isso, perdeu com a equipa mais representativa da freguesia do lado, ainda por cima no seu campo. O presidente em exercício reune-se com o treinador depois da última derrota, já sem prato e sem copo à frente, mesmo no balneário, e rescinde o contrato. Por não terem sido atingidos os objectivos? Não! Por não se ter ganho. É assim sempre, quem comanda o grupo de homens é que se vai embora, leva uns dinheiritos para voltar à terra e à família, hão-de continuar a cumprimentar-se se no futuro se vierem de novo a encontrar.
Mas as coisas que assim têm sido já não são só assim. Na Liga de honra foi recentemente despedido um treinador porque de facto não obtinha resultados positivos, quer dizer, vitórias. Mais do que isso! Nos estágios jogava à sueca com os jogadores, não se tendo conseguido apurar se o jogo era a dinheiro. E, pior, quando se aproximava a hora da telenovela abandonava a prelecção, esquecia a estratégia e colava-se ao televisor. Tudo falhas graves, atropelo de elementares regras de comando. Se ao menos, mesmo em conjunto com os atletas, saísse à meia noite para um passo de dança numa discoteca e um copo num sítio recatado e discreto. Agora essa da telenovela realmente é imperdoável. Como poderia o homem, no dia seguinte, dirigir o plantel com a Marisa Cruz a encher-lhe a cabeça de intenções pecaminosas?
Chegámos aqui, num aspecto, iguais ao país: sem saber nada. Mas também chegámos aqui diferentes dele num outro aspecto: com a consciência de não sabermos nada quando o país se assume como se soubesse tudo. Quatro meses, em termos de blogosfera - aprendêmo-lo durante este período - são uma eternidade. Mas não são tempo significativo para nenhuma pessoa e para os frangos só o são por causa do uso dos nitrofuranos.
Passada essa eternidade, pouco mais sabemos. Ou, talvez melhor dito, temos melhor consciência de quanto não sabemos coisa nenhuma. Cruzámo-nos com pessoas que não conhecemos, passámos a visitar-nos reciprocamente quase todos os dias, admirámos e apoiámos "posts" que publicaram, inserimos comentários. Fomos retribuídos umas vezes, ignorados outras, malcriadamente tratados poucas.
Não temos um contador que pareça o conta quilómetros dos Mercedes 180 que andaram na praça mais de trinta anos. Temos um número de visitantes reduzido mas estabilizado. Não somos nenhum Barnabé Rebelo de Sousa que se multiplica e desmultiplica em cada dia. Nem pretendemos sê-lo. Somos o que somos, ponto final.
O objectivo principal era percorrer os ancoradouros da rede, porto aqui, porto acolá. Colher informação, aprender, emitir opinião num sítio que o Dr Vasco Pulido Valente ainda não controla. Há gente que aqui, como em todo o lado, leva tudo muito a sério. Temos tido um propósito diferente: levarmos tudo ainda muito mais a sério. Tanto que gostaríamos de o fazer até que o riso nos levasse às lágrimas. É essa tentativa que vai prosseguir, como forma pessoal de também nos divertirmos um pouco.
E, para assinalar quatro meses de vida, que não chegam ainda à duração de um contrato de trabalho a termo certo, abençoado pelo ministro Bagão Felix, basta. Continuemos. Para bingo!
Eu sei que escrever na primeira pessoa deixa sempre o rasto de um certo pretensiosismo. Mas também sinto que isso dá uma outra convicção às ideias e às palavras. De forma que hoje é deliberadamente que o faço. É verdade que sendo sexta-feira, dia 13 ainda por cima, deveria logo de manhã ter tido a sensatez de ficar na cama, tapar a cabeça com os cobertores, não ouvir rádio, nem ler jornais, nem sequer ver televisão. Não fiz nada disto, a gente não acredita em bruxas mesmo quando está farto de saber que as há e pronto, foi o que se viu.
O Instituto Nobel norueguês divulgou uma lista de nomeados para o Prémio Nobel da Paz 2004 que, pelos vistos, é mais longa do que as alegações do juiz Rui Teixeira no caso Carlos Cruz. Graças a Deus que ainda não tive acesso à sua versão integral, mas o que já soube bem me chega. Não me apoquenta muito que não tenham nomeado o Sr José Castelo Branco, a D Cinha Jardim ou a D Pureza Teixeira da Cunha. Acho até que o Papa João Paulo II, mais do que o prémio, ambicionaria que o ouvissem algumas vezes e em algumas coisas. Quanto à União Europeia não percebi bem se tinha sido nomeada pela união dos seus membros, se pela intransigância na defesa dos mais atrasados.
Não quero fazer comentários à nomeação dos Srs Bush e Blair. Bastam as centenas de milhar de mensagens de protesto que hão-de fazer transbordar todos os fiordes. Mas não posso calar a injustiça e tenho que me revoltar. Não posso abafar a revolta e tenho que protestar. Não posso admitir como honrado português que não seja incluído no baralho o Dr Durão Barroso, depois dos sacrifícios que nos exigiu e da acção, determinante, que desenvolveu.
O Dr Barroso cedeu gratuitamente os Açores para um encontro que lá se realizou e a que chamaram cimeira. E se não foi gratuitamente, pelo menos foi sem factura, contra o que a Dra Manuela Leite recomenda. Dispôs-se a ir propositadamente de Lisboa para dar o seu conselho sábio e desinteressado. Deixou-se ficar sempre para trás para se proteger da eventual investida de qualquer tresmalhada vaca leiteira, ida de barco da ilha de S. Jorge. Falou inglês com os dois, correcto e quase sem sotaque que quase parecia o Dr Jorge Sampaio. Falou castelhano com o Sr Aznar, sorriu nas conferências de imprensa, para as câmaras de televisão e para as criancinhas. Disse que sim, que dava o seu acordo para que fossem libertar o Iraque, mesmo que tivesse que ser à força e contra vontade dos iraquianos. E regressou ao continente a rezar padres nossos e a lamentar que o Sr Carlos César ainda não tenha perdido as eleições na região.
Trouxe-nos a todos nós, que residimos no continente e que confiamos cegamente na convicção com que nos aldraba, provas irrefutáveis de que o Sr Saddam era um perigo para o mundo e para as Berlengas. Exibiu documentos que evidenciavam que o Iraque dispunha de armas de inimaginável poder destrutivo, conservadas em petróleo e enterradas a seiscentos metros de profundidade. Falou de fotografias de pipe-lines que as transportavam além fronteiras. Mostrou bilhetes postais de petroleiros, com comandantes gregos na ponte de comando, cujas entranhas quase rebentavam da fartura de crude negro, a camuflar químicas que fariam de Lavoisier um principiante. Declarou-se aliado e manifestou-se contrário às posições de kamasutra do Sr Chirac. Foi um valente, quase como quando militava no MRPP e andava a pintar paredes de braço dado com o Dr Pacheco Pereira.
Quando o Sr Bush veio dizer que a guerra tinha acabado ele não se lhe opôs e achou que estava bem. Sentiu-se que o mundo estava muito mais seguro e tinha o eixo sobre o qual gira como se fosse novo. Nunca mais no Iraque houve desavenças ou atentados. Nenhum impulsivo árabe virou o rabo para os soldados americanos e levantou o raio das saias para o mostrar. O Dr José Lamego arranjou emprego e emigrou, vestindo calças desportivas e camisas D'assenta, recebendo em euros, a seu pedido. Para que a paz se não alterasse, mandou para lá a GNR que logo ao segundo dia teve de cavar a terra árida do deserto para trazer o Sr Saddam à superfície. Ajudou a fazer-lhe a barba com creme de barbear Gillette e penteou-lhe os cabelos que metiam nojo. Não lhe pôs gel porque ele não quis e lavou-lhe os dentes com pasta Colgate. Manteve-o amarrado de pés e mãos durante os interrogatórios, não fosse ele magoar-se sozinho. Teve sempre o cuidado de embrulhar em pano turco os objectos com que lhe foi dando alguma porrada para lhe soltar a língua. Mandou lá um ministro vivo, de carne e osso, mesmo que politicamente já fosse tão plástico com o perú que o Sr Bush lá foi servir.
E tudo para quê? Para nada. Para agora, mais uma vez, nos sentirmos marginalizados como pequeno país que somos. Vermos a nossa auto-estima igual à dos sportinguistas depois de terem sido eliminados da taça pelo Vitória de Setúbal. Ou à dos benfiquistas depois daqueles sete do Celta de Vigo, galegos do catano. Não está certo! Dêem o prémio a quem quiserem, faça-lhes muito bom proveito, guisem-no com batatas, metam-no num sítio que eu cá sei. Por mim, se lá estiverem os Srs Bush ou Blair, garanto que não vou à Noruega. Nem integrado na comitiva do Dr Jorge Sampaio.
O presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, e o primeiro ministro britânico, Tony Blair, são alguns dos nomeados para o Prémio Nobel da Paz 2004, apesar de terem empreendido a guerra de agressão contra o Iraque e de ter fracassado a intenção de encontrar as armas de destruição massiva, que foi o seu principal argumento para a invasão.

A União Europeia que se dividiu relativamente à guerra contra o Iraque também figura entre os candidatos ao galardão, de acordo com o anúncio feito pelo Instituto Nobel que no próximo domingo encerra o prazo para a recepção de candidaturas que, como todos os anos, são submetidas por parlamentares e ministros de todos os países, anteriores galardoados e professores universitários, entre outros.

Chegam-nos montes de candidaturas, declarou em Oslo o director do Instituto Nobel e influente secretário da comissão a quem incumbe a responsabilidade de designar o vencedor. Disse ainda que estavam a receber muitas cartas e cerca de 500.000 mensagens diárias de correio electrónico de pessoas apoiando as candidaturas ou manifestando-se contra elas.
Bush e Blair merecem definitivamente o prémio, declarou um membro da ala direita do parlamento norueguês que nomeou ambos para o prémio de 2004 que susteve que embora não tenham encontrado as armas de destruição massiva "derrotaram um ditador e fizeram com que o mundo fosse mais seguro".
Outros nomeados são a União Europeia pelo facto de ter decidido acolher no seu seio antigos estados da órbita soviética, o Papa João Paulo II, o Exército de Salvação, o ex-presidente checo Vaclav Havel e dissidentes chineses.
Em 13 de Fevereiro de 1965, depois de atraído a uma cilada especialmente montada para o efeito, o general Humberto Delgado foi barbaramente assassinado por diligentes funcionários da Pide de triste memória. Foi figura grada do regime do Dr Salazar, e por isso mesmo chegou a general, até ter decido participar nas eleições presidenciais de 1958. Depois disso foi afastado das suas funções e acabou por solicitar asilo político à embaixada do Brasil quando sentiu que era mais activamente perseguido.
Não foi uma figura consensual e é hoje uma personalidade quase esquecida por todos e mesmo rejeitada por muitos. Mas a política faz-se muito e cada vez mais destes desencontros. Basta que, mais recentemente, atentemos na forma como foram tratados os militares que restituiram a liberdade ao país e que deram à classe política que temos a possibilidade de livremente o poderem ser. Não está em causa a gratidão, nem sequer o reconhecimento. Está em causa tão somente o respeito devido a todos os seres humanos e princípios de conduta que tenham em consideração a moral e a ética.
Cremos que ainda ontem ouvíamos lamentar-se alguém de Niza, Portalegre, Alto Alentejo. E logo nos soou aos ouvidos a voz poderosa, clara e emotiva de João Villaret a dizer a Toada de Portalegre como só ele sabia, a transmitir-nos a revolta que de facto algumas coisas às vezes merecem. A população envelhecida é de cerca de oito mil almas que dispõe apenas de três médicos para acorrer a todas as freguesias do concelho. Há mais uns estagiários que ninguém sabe se acederão a ficar depois de terminado o estágio e toda a gente se fica na expectativa, aguardando. Que decisão seria simples e linear? Logicamente arranjar mais alguns médicos. Que faz o ministro da saúde? Manda operar pessoas nos hospitais que o Sr José de Mello explora e que são nossos na maioria dos casos.
Coisa idêntica se passa com o tabaco que, segundo o Dr Pádua, faz mal à saúde, pode estar na origem do cancro do pulmão, seguramente mata. Haja Deus que o governo, se calhar num qualquer noticiário da TSF, também já ouviu o Dr Pádua. Vai daí mandou escrever em todos os maços de cigarros disparates como "o tabaco mata", aumentou os impostos, concedeu novas licenças de importação e deixa que o contrabando campeie e seja rentável. Quer dizer, o estado sabe que o tabaco mata, contrariado avisa o incauto fumador que isso acontece e depois enriquece - no caso português para depois esbanjar - à custa de quem deixa impunemente matar. A tabaqueira, naturalmente, fomenta o cultivo e faz adiantamentos aos produtores por conta da próxima safra. Nós, simplórios, se calhar ainda tínhamos a tentação de ilegalizar a produção e a transformação do tabaco!
Com os acidentes de viação e as muitas mortes que causam passa-se a mesmíssima coisa. Orgulhoso por ainda não sentir que o Dr Barroso também já é o ministro da administração interna, o Dr Figueiredo Lopes encomendou e vai mandar instalar não sei quantos radares digitais. Para vigiar os excessos de velocidade e puni-los severamente com multas, apreensões de cartas e processos crime. Se bem que o meio mais eficaz no combate aos excessos de velocidade seja indiscutivelmente as multas. Pelo menos é o que dá mais dinheiro. Provavelmente nós, humildes e curtos de inteligência, apesar dos cursos e das universidades, seríamos tentados a transformar as auto-estradas em campos de nabos - como se houvesse falta deles! - e a impôr aos fabricantes de automóveis instrumentos de limitação à velocidade dos veículos.
Ao menos o governo acerta na medida que agora anuncia de proibir que se fume nos locais de trabalho. De facto, depois de longas, inúteis e infrutíferas negociações acaba por ceder perante as centrais sindicais e acordar na redução do número de horas de trabalho semanal. Consoante o número de cigarros que se fumam assim também, proporcionalmente, a redução das horas de trabalho. Quase, por nós, lastimamos ter deixado de fumar. Continuaremos forçados ao cumprimento das quarenta horas até ao início da noite de sexta-feira. Mas se ainda fumássemos sessenta cigarros por dia...
Já não achamos certo que se proiba o consumo de álcool nas áreas de serviço porque isso contraria o slogan que todos temos subconscientemente gravado no cérebro: se conduzir, não beba. E se a gente entra nas áreas de serviço para meter gasolina, verificar o nível de água do circuito de refrigeração e verter águas também podia muito bem virar duas cervejolas. Enquanto não estamos a conduzir. Se proibirem a sua venda, lá teremos que as levar de casa!
Dos alentejanos contam-se muitas anedotas com as quais, supomos, os mesmos se divertem muito mais do que quem as conta. Esta passa-se, como muitas, à hora da sesta, num dia de canícula, na planície heróica, à sombra protectora do chaparro. Dois compadres vão intervalando a sonolência persistente com o diálogo breve. E diz um deles, mais dado a divagações filosóficas: ó compadre então você já viu, tudo o que Deus faz é pelo melhor. Veja aqui, com um sol abrasador destes, no meio da planície, Deus fez nascer este chaparro grande, protector, a cuja sombra nos acolhemos e onde, ao fresco, passamos pelas brasas.
O outro, naturalmente, concorda. É mesmo assim, nem sequer é por falta de argumentos que não replica. E vai intercalando os monossílabos da sua concordândia com os polissílabos dos seus roncos. Eis senão quando um pardalito cansado de esgaravatar se vem também acolher à copa do chaparro, num ramo alto. Necessidade fisiológica que afecta todos, até mesmo os pardais, solta-se e larga na cabeça do primeiro compadre aquilo a que, por falta de melhor termo, chamaremos simplesmente uma cagadela.
Sem se perturbar, perfeitamente no ritmo e no tom dos roncos do companheiro do lado, o primeiro compadre prossegue nas suas divagações filosóficas e exclama: não há dúvidas! Realmente tudo o que Deus faz, fá-lo pelo melhor. Ó compadre você já imaginou o que seria se as nossas vacas voassem?
Confessamos que chegámos a ter dúvidas a esse respeito, mas dissipámo-las. O nosso Governo - e merece aqui letra maiúscula! - é como Deus: tudo o que faz, fá-lo pelo melhor. Mesmo quando qualquer dos seus membros se empoleira, como sempre, muitos galhos acima de nós e nos caga no alto da cabeça está a velar pelo nosso bem estar, pela nossa satisfação - aquela mesma que o eurobarómetro vem depois dizer que não existe - e pela promissora resplandecência do nosso futuro. Vale-nos, naturalmente, que o governo não utilize aviões F-16 em formação ordenada, como se fosse a esquadrilha Asas de Portugal, a largar aquele cone muito aberto de fumos coloridos.
Mas tudo isto parece não ter nada a ver com o crescimento regular, certo e persistente do desemprego que já fez com que o Dr Bagão Felix passasse a ser visita assídua de casa do Dr Durão Barroso, para o café depois do jantar. Mas a verdade é que tem tudo a ver. Porque o desemprego, afinal, não é fatalidade nenhuma. Bem pelo contrário. O desemprego corresponde a uma forma afincada e consciente do governo promover a formação profissional e tornar cada desempregado num potencial polivalente. Os nossos desempregados são os mais qualificados da Europa e metem inveja à mais arrogante civilização ariana. Têm diplomas das mais diversas e esquisitas licenciaturas como comércio internacional, marketing, guarda-livros criativos. E exercem as mais ajustadas funções como caixas de supermercado, picheleiros, monitores de artes marciais.
Alguém há-de, algum dia, não sabemos nem onde, nem quando, fazer justiça ao iluminado governo que nos conduz. Porque afinal vem criando desemprego apenas para reciclar os desempregados que daí resultam. E que aí estão, os mais e melhor qualificados da Europa. Enquanto os do Sr Chirac não sabem mais do que falar francês e o Sr Carvalho da Silva persiste em não entender a meritória acção do ministério!
Que os gregos sejam os segundos mais pessimistas da Europa, aceita-se e é coisa que nos não preocupa nada. Gregos já eles são com mais uma desilusão ou outra, com história ou sem ela. Agora nós, só pode ser engano. Os portugueses são, graças a Deus e ao governo, um povo felizmente orgulhoso do seu passado, do seu presente e do seu futuro. Somos o país que D. Afonso Henriques resolveu fundar para ter uma nacionalidade, navegámos por mares nunca dantes navegados, descobrimos as ilhas da Madeira e de Porto Santo, dobrámos o Cabo Bojador e Vasco da Gama foi o primeiro a descobrir o caminho marítimo para a Índia. O segundo ainda não apareceu mas os esforços continuam e deve estar por pouco. E na Madeira, como descendente directo de Zarco, já está o Dr Alberto João.
Demos ao mundo grandes personalidades e algumas até acabaram santos, como Santo António de Lisboa. Ganhámos prémios Nobel, como o professor Egas Moniz e o emigrante Sr José Saramago. O Benfica teve o Eusébio com dezassete anos a alinhar na equipa de honra e varremos o Barcelono e o Real de Madrid em dois anos seguidos. Em 1966, em Inglaterra, arrasámos o que nos apareceu pela frente e, em consequência disso, nem a Coreia ainda conseguiu reunificar-se.
Construímos um Centro Cultural de Belém dentro dos prazos e dos orçamentos, como é nosso rigoroso hábito. O mesmo fizémos com a Expo 98, com a ponte Vasco da Gama e com o Porto 2001, capital europeia da cultura. Tão bem feita que ainda continua por acabar e as ruas que foram arranjadas estão piores do que estavam antes. As populações acumulam-se, à noite, à frente da que há-de ser a porta de entrada da Casa da Música. Para assistir aos concertos do Sr Burmester, se ele ainda tocar quando o palco estiver pronto.
Temos dez estádios novos a vamos disputar a fase final do Euro 2004 sem necessidade de jogarmos a fase de qualificação. Ganhamos menos que os espanhois mas as mulheres deles são muito mais gastadoras do que as nossas. Temos um governo mais novo do que o deles e, portanto, mais atraente e cheio de ideias inovadoras. O nosso primeiro ministro prometeu fazer de Portugal um dos melhores países da Europa e só temos que esperar porque sabemos que não nos vai enganar. As nossas cidades, em especial a de Lisboa, são as mais povoadas, as mais atraentes, as mais cativantes de todas. A cada hora que passa o Dr. Santana Lopes manda plantar um novo painel com a sua fotografia e o Dr Rui Rio abre uma nova crise com o Sr Pinto da Costa.
Somos um povo feliz que se manifesta, aqui e agora, contra o disparate do eurobarómetro. Temos aí, para o que der e vier, o Portugal em acção, com logotipo e tudo. E a acção nota-se melhor nos dias em que a função pública está em greve porque as pessoas estão mais na rua, para verem. Não há crise nenhuma, ainda ontem mais de 500 senhores importantes se reuniram para tratarem da nossa vida. Não vamos deixar de confiar neles, como confiamos no padre que nos baptizou. Vamos mandar às urtigas esses instrumentos de medida europeus que não se sabe como funcionam nem para que servem. Mas que são uma porcaria. Nós somos felizes, sentimo-nos satisfeitos, temos uma história de que nos orgulhamos. Até fomos os melhores colonizadores do século vinte, segundo o Mar Salgado. Íamos agora sentir-nos deprimidos, dar crédito às crónicas dos Srs Vasco Pulido Valente e Luís Delgado e tomar Prozac para animar. Nem pensar!
Apesar da solenidade, da ementa, dos claustros e do convento já se adivinhava que a missa ia ser dita em latim e se sabia a ladaínha de cor e salteado. Um equívoco apenas quanto aos objectivos enunciados, desculpável em pessoas muito mais habituadas a lidar com números do que com palavras. Por lapso, erro tipográfico ou má qualidade da magnetização das fitas, e ainda por má dicção, passou o entendimento de que se tratava de um "compromisso Portugal". Corrige-se, faz-se uma errata, imprime-se numa folha de formato normalizado e distribui-se. Queria dizer-se "comprimir Portugal". Sendo que, mesmo assim, Portugal ainda está a mais, meio desenquadrado e fora do contexto.
Para além do dito corrente nunca tivemos conhecimento de que uma montanha tivesse parido fosse o que fosse. É naturalmente abusiva a conclusão de que o Evereste tenha parido um rato que, coitado, morreria de frio logo à nascença por se ter armado em João Garcia. Nem a serra da Estrela ou de Candeeiros pariram fosse o que fosse. O Convento do Beato voltou a ser transformado em rico auditório de ricas universidades, em refeitório com mais conforto e melhor ementa do que os refeitórios dos quarteis, mas não se viu convertido em maternidade Alfredo da Costa. Nada, de novo, ali deu ontem o seu primeiro berro de vida nem usou a primeira fralda. Descartável!
Os jornais de hoje publicam a ladaínha, traduzida para português, que os relapsos alunos já levavam no bolso, a título de cábula, para se não esquecerem de nenhum ponto. Nunca se fala em Portugal, que já se não sabe se existe e que nunca esteve em causa. Sabendo-se, isso sim, que difícil é comprimir aquilo que não há. À saída, no fim dos trabalhos, eram tecidos largos encómios à distinção dos presentes e às inconfundíveis gravatas de setenta contos. Veladas críticas foram sussurradas sobre o antiquado mau gosto de alguns fatos comprados nos saldos e às indisfarçáveis olheiras de um ou outro, provavelmente chegado aos trabalhos directamente da árdua noitada. Enquanto se tapava a boca com a mão e se continha o arroto, elogiava-se a ementa, muito justamente. Especialmente o divinal faisão apanhado à mão por pretos licenciados importados da Guiné e as ovas de esturjão pescado a pontapé por pés descalços recrutados no Uzebequistão. Sem referência passaram as vulgares batatas a murro, - na ementa dignamente designadas por "pommes de terre" - mesmo que especialmente criadas em estufa numa diminuta herdade alentejana de 500 hectares.
Conclusão nova e unânime é a de garantir maior flexibilidade na legislação laboral, permitindo o despedimento. Não se conclui que seja necessário mandar à escola empresários e gestores, indiscutíveis herdeiros e seguidores do Dr Salazar, no simples e linear cumprimento de uma missão divina. A de criar riqueza para eles e para a família.
A globalização gera riqueza, mas acentua as desigualdades e exclui quase um terço da população mundial dos seus benefícios.
Ó senhor engenheiro! Nunca percebemos bem como um homem que é engenheiro, que parece que é licenciado com uma média de 19 valores, se possa dar tão mal com os números como o senhor se deu sempre. Para ser admitido no Técnico teve a Matemática - a famigerada! - como nuclear e depois, como político, muitas sessões legislativas percorridas, não era capaz de dividir seis por dois, pedia a tabuada, depois a máquina de calcular e, por fim, dizia aos presentes que fizessem as contas. As contas, senhor engenheiro, fazia a sua empregada doméstica na mercearia, quando havia mercearias! E quando as pessoas ganhavam para terem empregadas domésticas.
Agora diz-nos que a globalização gera riqueza mas não diz nem que tipo de riqueza nem para quem. O roubo, mesmo aquele ordinário, por esticão, também gera riqueza. Para o bolso do gatuno. Também gera desigualdades no que respeita às vítimas. Também exclui dos seus benefícios todos aqueles que o não praticam. Também então tem, muito naturalmente, os seus benefícios.
Creio que foi um químico que estabeleceu uma lei dizendo que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. O senhor saberá o nome dele, ter-lhe-á mesmo visto o retrato, se calhar até empinou a tal lei. A riqueza também é um pouco assim, é gerada à custa de alguma coisa. Não é como pensávamos em crianças que havia árvores das patacas e que bastava abaná-las para que o chão ficasse pejado de libras em ouro, como se fossem azeitonas.
A globalização que gera riqueza e acentua desigualdades se calhar é um sistema de vasos comunicantes de cujo funcionamento a política fez com que o senhor se esquecesse. Se enriquece uns e empobrece outros estamos no roubo por esticão. Como a vítima, quem se lixa é o mexilhão. E se deixa à margem uns quantos, a quem nem aquece nem arrefece, até se calhar deixa de ser globalização.
Caramba, senhor engenheiro! O senhor tem andado tão calado, tão entretido com a sua presidência da internacional socialista, com a sua pensão a cair-lhe certinha na conta da Caixa Geral de Depósitos, que a Dra Manuela ainda vai arranjando dinheiro para isso. Estava tudo a correr tão bem! E logo em tempo de inverno, quando até as moscas parece que emigraram, vai abrir a boca. Para dizer disparates. Não havia necessidade, não era?
Recordamo-nos de, há já anos atrás, um amigo nosso nos ter telefonado de longe e cedo, numa manhã fria de sábado e de inverno, a perguntar-nos se sabíamos que diligências precisava de levar a efeito para poder abrir uma farmácia. De cor e de ouvir dizer respondemos-lhe que para se poder ser proprietário de uma farmácia, antes de mais, era preciso ser-se licenciado pela respectiva faculdade, mesmo que isso não bastasse. E que, para o ser de outra forma, indirectamente, seria preciso utilizar uma interposta pessoa, licenciada, em nome de quem teria de ser emitido e de se conservar o respectivo alvará. Retorquiu-nos que um negócio desse tipo era para fazer com um irmão e que, mesmo assim, seria caso para pensar duas vezes.
De facto as restrições à abertura e à propriedade de farmácias são, em Portugal, ainda muito mais escandalosas do que o resto. Tanto que se não trata de proteccionismo porque o ultrapassa sem nenhuma abertura, sem nenhum respeito, sem o mínimo sinal do liberalismo sem princípios que campeia pelo país, de norte a sul.
O professor Vital Moreira publica hoje, sobre o assunto, um artigo objectivo e lógico. Essencialmente por duas coisas: pela frontalidade e pela clarividência. Quem quiser saber como se constroem, se muram e se conservam "quintas" não pode dispensar a sua leitura. Mas poderá, depois dela, questionar-se sobre as razões que levam toda a gente do tecido económico a não reclamar, não berrar, não exigir nada. Em nome e em benefício de uma hipotética sociedade civil que ninguém define e não sabe o que é. No mínimo é um procedimento sem nenhuma transparência - já que a lógica, como se sabe, é a da batata - ferozmente conduzido pela Associação Nacional de Farmácias e pelos seus dirigentes.
Ficamos no entanto curiosos em relação à ementa e aos vinhos que serão servidos ao almoço, que não devem incluir nem frango da China nem qualquer zurrapa, feita a martelo, sem controlo de origem. Assalta-nos ainda a dúvida sobre a presença do Sr, José de Mello que, a confirmar-se, poderia animar um pouco os debates e lançar uma certa imprevisibilidade sobre o preço a fixar para a venda a Espanha.
Por nós adiantamos uma revelação. Não somos filiados em partidos políticos, nem sócios de clubes de futebol, tão pouco membros de associações empresariais que hoje se sentarão à mesa, para almoçar, no Convento do Beato. E não acreditamos na representatividade das sondagens em que se toma por um todo de dez milhões uma insignificante parte de mil que, em determinado momento e face a certas circunstâncias, declaram as suas preferências.
A ser assim, e a fazer fé naquela história de haver seis milhões de benfiquistas, preferimos pedir a proposta para o estádio da Luz. Ao menos ficamos desde logo com uma certeza. No mínimo será uma assembleia muito mais representativa. E quanto ao almoço, não há problemas. A malta não exige iguarias sofisticadas nem vinhos que a D. Paula Bobone possa considerar crime provar sem a respeitosa observância das regras constantes dos seus manuais. A maioria contenta-se com uma bifana e uma cerveja de lata e muitos até nem gastam nada!
Sair é diferente. Se o tempo estiver seco é possível concluirmos que as auto-estradas não apresentam poças de água que chegam a parecer a albufeira do Castelo de Bode. Podemos verificar que afinal as obras do Metro do Porto - que anda à superfície com medo do escuro - já vão muito mais longe do que pensávamos, quase a chegar à Mealhada, com bonecos articulados a mandarem-nos abrandar. É possível perder largos minutos numa fila diferente e chegar à portagem para pagar o serviço por inteiro, como se tudo estivesse bem e para evitar que o Sr José de Mello - um patriota do tempo do Sr Miguel de Vasconcelos - case uma neta com um infante espanhol e lhe transmita os direitos da concessão.
Ir, como nós fomos, a Ourém é descobrir a longa história que temos e fazer arqueologia, mas sem curso. A cidade, embora pequena, tem a descoberto uma área muito maior do que Conimbriga ou Mirobriga. O presidente da câmara tem ali feito muito mais pela arqueologia do que o Dr Cláudio Torres já fez em Mértola. Só quase está por esventrar a avenida principal porque é essencial para que a estrada de Leiria chegue a Tomar. E o homem ali permanece, leal e fiel, no desempenho das suas funções, sem ter sido promovido. Lembrem-se dele para as eleições europeias que por aí vêm. Ele ganhava mais e o concelho, de certeza, também!
Custou mas agora sim, parece que vai. Tive grandes dificuldades em perceber a razão que levou o país a pôr em marcha a construção de dez estádios novos. Mesmo que dentro de alguns meses aí esteja a fina flor do futebol europeu para meia dúzia de jogos, umas especialidades gastronómicas tipicamente portuguesas e uma ida às docas. É verdade que não havia nenhuma razão financeira de peso que me levasse a criticar o assunto. Afinal o Estado limitara-se a comparticipar os projectos de modo simbólico e para isso o Estado ainda serve. Nunca se sabe é quando paga. O resto dos custos foi suportado pelos institutos autónomos e pelas autarquias. Dos institutos foi excluído aquele do Dr Armando Vara, criado para aumentar a segurança rodoviária e que acabou a representar a insegurança política dele. Só política, de certeza! Das autarquias foram excluídas a da ilha do Corvo e a das Selvagens. Da Madeira o que esperamos, o que convictamente suplicamos a Deus Nosso Senhor, é que nem sequer nos envie o Dr Alberto João a cobrar-nos aquilo que lhe devemos. Que ele diz, mesmo sóbrio, que é muito.
Depois comecei a perguntar-me para que serviriam os estádios depois do Euro 2004, com algumas, poucas, dezenas de jogos por ano. Nos jogos não haverá problemas, a lotação estará sempre completa, os bilhetes até são baratos. Um pouco mais carotes são os do Euro e viste-os por um canudo, o que também não admira. Mais cara é a cocaína e vende-se sem necessidade de campanhas parvas de publicidade. Mas os tempos de inactividade, os espaços entre dois jogos e mesmo a inexistência de equipas na região acabaram a preocupar-me. O do Algarve, por exemplo, nem vai servir para que lhe seja dado o nome do presidente do clube que o utilizar. E quanto ao uso nunca se sabe se haverá alguma hipótese de o alugar aos marroquinos, com toda a porrada com que os enchemos ao longo da história, com as fitas que temos feito por causa das pescas e com o facto de saberem, pelos jornais, que o Dr Barroso é tu-cá, tu-lá com o W. Bush, o T. Blair e o M. Aznar.
Mas por alguma coisa os nossos clubes são o exemplo de que fala o major Loureiro e geridos por dirigentes quase vítalícios que são muito melhores do que profissionais. Nisso têm eles e os adeptos fartas razões de regozijo, mesmo que os resultados desportivos às vezes tardem. O primeiro a diversificar a actividade foi o do Dragão. Afastada a possibilidade de extrair areia de debaixo do relvado, com receio de que venha a acontecer ao estádio o mesmo que à ponte de Entre-os-Rios, admitiu-se a possibilidade de vender como pasto a relva excedente. Infelizmente as explorações pecuárias das imediações nem galinhas criam, preferindo importá-las do Vietname, e os porcos dão-se melhor pelas redondezas de Leiria embora disso se queixem as mulheres que, à moda antiga, ainda lavam roupa nas margens dos rios.
O Sr Pinto da Costa acaba de celebrar um contrato de cedência do estádio para servir como igreja. Modestamente, porque catedral dizem que é o estádio da Luz e ele não quer com as entidades eclasiásticas os mesmos problemas que tem tido com a câmara desde que lá mora o Dr Rio. Nada de confusões porque as que há já chegam. Não foram reveladas as condições do contrato, nem no que respeita a contrapartidas financeiras nem no que se refere à duração. Uma coisa, no entanto, é certa. Esta é mais uma fonte de receita enquanto o Sr Deco, com a sua tendência para frequentemente mudar de mulher, é um factor de custo importante. O que se sabe, isso sim, é que as celebrações começaram sem perda de tempo.
José Magalhães e Marina Salomé já se lá casaram. Alheios aos problemas do relvado porque os pombinhos voam e, recém-casados, não desataram logo a correr um atrás do outro, aos insultos e aos arremessos. Fica para mais tarde, quando começarem a fartar-se um do outro. Quanto à noite de núpcias tiveram de ir para outro lado. O Sr Pinto da Costa ainda não avançou com o projecto de alugar quartos. Mas conta que lá se possam realizar, em Junho próximo e à semelhança de Lisboa, os casamentos de S. João.
Mas há uma coisa que me confunde. Os italianos eram donos de parte da Petrogal porque em tempos a compraram ao Estado português que detinha integralmente o seu capital. Quer dizer, o que os governos de Portugal fizeram foi pôr a Petrogal no prego para arrecadarem algum dinheiro. Depois, quando a quiseram ir buscar de volta porque o Sr José de Mello se mostrou muito zangado por não terem feito o negócio com os espanhois, tiveram que desembolsar juros a taxas de agiota e pagar muito mais do que tinham recebido. Além disso não percebo que o governo e o Dr Portas andem num berreiro contra as franjas da economia que são propriedade do Estado porque dão prejuízo que nós, contribuintes, pagamos. E o governo e o Dr Portas estão lá para defender os nossos interesses, como contribuintes, enquanto a Dra Manuela Leite lá está para nos lixar e para nos levar a guita toda. Então sendo assim terá acontecido que se distraíram por momentos na defesa dos nossos interesses e aumentaram a nossa participação nos prejuízos?
Os noticiários da televisão trouxeram-me de novo a tranquilidade e restituiram-me o orgulho. O ministro da economia, de que a gente não sabe o nome, que ainda menos imaginamos aquilo que faz e que só sabemos quem é quando, muito penteadinho, aparece na televisão, veio confirmar que realmente o negócio tinha sido feito. Que, em troca, o Sr Berlusconi não comprou a televisão do Estado, nem os caminhos de ferro, nem sequer a TAP. E que, cumprindo a vocação do governo de nos proteger a acautelar os nossos interesses, essa parte do capital da Petrogal, para o ano, será de novo vendida a privados. Quer dizer, como contribuintes só vamos ter de cobrir os prejuízos durante este ano. O governo e o Dr Portas afinal mantêm-se atentos e cuidadosamente vigilantes e, em 2005, farão de novo a venda a um trouxa qualquer que há-de dar por aquilo uma pipa de massa.
Não sei muito disto - para falar verdade, não sei nada disto - mas creio que estamos convictamente a entrar na globalização. Mais convictamente do que entrámos na guerra do E. Bush, com o ministro Figueiredo Lopes que nunca mais conseguia mandar os GNR para o Iraque para apanharem o Saddam. E quando os mandou, foi a pé e sem dinheiro para pagarem a renda ou comparem o bacalhau para o Natal. Nisto não, já nos mexemos, ao que parece, como peixe na água. Vendemos por cem, compramos por quinhentos, vamos vender de novo por cem e nada nos garante que, com a dinâmica, não voltemos a comprar por oitocentos. Por isso temos dos melhores gestores da Europa, a avaliar pelos ordenados que recebem, pelos automóveis em que se deslocam e mandam as crianças para a escola, pelo número de cartões de crédito que lhes enche as carteiras e pelos destinos que seleccionam para as suas curtas férias de três meses por ano.
Agora quero é ver o Estado a prosseguir no negócio, a comprar as televisões do Sr Berlusconi, o coliseu de Roma, a Torre de Pizza e a Juventus de Turim. As gôndolas de Veneza e o AC Milan com o Rui Costa e tudo. A Parmalat é que não, que de contabilidade dita criativa sabem eles mais que o governo português todo. Quando derem por ela a Itália é nossa, a globalização é connosco!
Já não havia pachorra e já não era sem tempo. Santana Lopes acaba de declarar, textualmente, ao Diário de Notícias:
Tem de passar o tempo da sucata. A sucata na política já não interessa para nada, já não se aguenta.
O que desde logo quer dizer que, terminado o mandato na Câmara de Lisboa, o mesmo irá solicitar a aposentação. Assistindo-lhe o direito a requerer múltiplos subsídios e pensões, como deputado, governante, autarca e dirigente desportivo, espera-se que o estado o trate melhor do que trata muitos milhares de idosos a quem paga a pensão mínima. Até porque ele tem também múltiplos encargos com múltiplas pensões de alimentos. A pagar a múltiplos filhos e a múltiplas ex-mulheres.
O Sr José Mourinho não tem nenhuma culpa de ser de Setúbal. Terra laboriosa, sacrificada, de boa gente. Mas onde nunca constou da gastronomia regional nenhum chá que desse às pessoas a noção mínima de bom senso e a imagem elementar da educação. De facto teria recolhido mais e melhores ensinamentos se tivesse sido educado em Fafe, cujo chá regional certamente o teria desemburrado. O marmeleiro é uma maravilha e dizem que resulta em qualquer idade, mesmo nos casos difíceis.
Já se sabia que o homem era ignorante, inculto e cabotino. Em consequência, arrogante. Mas fazia o seu trabalho, fazia a equipa ganhar competições, atingia objectivos, demonstrava profissionalismo. Uma coisa que em Portugal não tem tradição e se não sabe o que é. Por isso os muitos defeitos lhe iam senso desculpados: nas comemorações qualquer zurrapa serve de champanhe.
Hoje veio a público ler um documento excepcionalmente mal escrito no sentido, na forma e na provocação imbecil. Podia ter pago mais uns euros a um advogado para que lho redigisse. Assim o delegado da liga no jogo de sábado passado pode tratá-lo como seu par na desdita do analfabetismo. A credibilidade que tinha e que era consequência dos resultados obtidos pela equipa, enterrou-a nesse dia. Hoje pôs-lhe a pedra tumular em cima.
No mesmo dia o seu patrão veio também a público para se portar como um fariseu. Deixando no balneário a ironia e o sarcasmo cáustico que uitiliza e prescindindo da inteligência, veio baixar as calças à frente de toda a gente e virar o cu para a assistência. A forma como às vezes se trata a ordinarice dos outros acaba por ser ainda mais ordinária do que ela. É de estranhar no caso vertente, tratando-se de um homem experiente, habituado a situações de pressão, familiarizado com o futebol exemplar que o major Loureiro instituiu.
Lamenta-se! O futebol é como o país: nem tem emenda, nem apresenta melhoras. Temos todos que fazer um esforço no sentido de exportar também os dirigentes. Mesmo que tenhamos de pagar-lhes parte dos ordenados, como se fossem jogadores idos por empréstimo. Como diz o ditado, mais vale tarde do que nunca. Porque de facto já devia ter sido.
Não era de esperar outra coisa. Toda a vida tenho ouvido dizer que, de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Dito com a sabedoria popular que a escola não ensina e que, por mais que uma vez, tive oportunidade de confirmar. Uma vez, andava eu a pé, junto à margem do rio Minho, em Monção, veio uma ventania do lado de lá que levou pelo ar toda a roupa que estava a secar às janelas e voaram as tendas que os campistas tinham montado, com tanto gosto, quase mesmo junto à margem. De outra um amigo meu decidiu-se por ir a Vigo fazer compras aos saldos do Corte Inglês e aproveitou para ir ver o Celta para saber como era possível que uma equipa de galegos pudesse aviar o Benfica de sete a zero. Conheceu uma chica, tomou-se de amores, dois meses e estava casado. Outros dois e já ele era corno, com tudo o que pertence, incluindo as hastes. Portanto, nunca fiando.
Agora, à sorrelfa, as diligentes e vigilantes autoridades açorianas, detectaram num barco de pesca espanhol que foi ao porto para meter gasóleo, licenças de pesca emitidas pelo governo espanhol. Ilegalmente e sem dizerem nada a ninguém. O assunto foi superiormente comunicado a quem devia ser: ao comandante do porto, ao comandante dos bombeiros, ao chefe da brigada fiscal, ao presidente do governo regional e ao ministro da defesa. Como sempre as autoridades envolvidas demonstraram de novo a sua eficiência e a notícia veio apanhar o ministro da defesa ainda na cama, envergando um pijama de cetim azul celeste.
Mais que alvoroço a notícias caiu como uma bomba e gerou de imediato o pandemónio. O ministro levantou-se a gesticular e aos berros, enquanto vestia por cima do pijama um robe de pano turco em tons de verde alface. Passou a correr pela casa de banho, mais modesta do que a que o Dr Carrilho mandou fazer no ex-gabinete dele, a tirar a ramela dos olhos e mandou convocar os chefes de estado maior e a D Cinha Jardim, sua assessora para determinados assuntos de logística.
Estão todos, nesta altura, reunidos à volta de uma mesa grande sobre a qual se espalham mapas escolares, cartas militares, manuais de estratégia, o regulamento de disciplina militar, cinzeiros de vidro a transbordar de beatas e até mesmo uma pasta de documentos para despacho que lhe trouxe ontem o seu chefe de gabinete a propor a admissão de meia dúzia de assessores de cujo apoio ele está muito carecido. A D Cinha anda fora e dentro, num corrupio, a trazer-lhe chávenas de chá preto e comprimidos de bem-u-ron para a enxaqueca e para as dores. Quis dar-lhe primeiro chá de tília, o ministro recusou. Que o acalmava, lhe reduzia a agressividade guerreira o poderia transformar em presa fácil para qualquer soldado castelhano, sem galões e sem medalhas.
Contam-se aviões, canhonheiras, submarinos e armas em geral. Verifica-se o prazo de validade das munições e confirmam-se os stocks de combustíveis. Escolhem-se itinerários, sítios para vencer os rios, locais para as emboscadas. Certifica-se que toda a infantaria tem calçado em bom estado, para aguentar a longa marcha. Pedem-se bandeiras nacionais, novas e grandes, que possam ser içadas nos mastros das fortalezas conquistadas, como sinal drapejante de soberania. A decisão sobre a invasão é unânime, a mesma está eminente. Nem vai dar tempo para instruir o embaixador no sentido de que regresse a Oeiras e se entretenha pelo Cascais Shopping enquanto o assunto se resolve.
Consulta-se finalmente e pela última vez o manual de estratégia do Sr Raúl Solnado que, no país, é ainda quem mais sabe de guerras. Decide-se contrariar as suas posições e não aguardar pelo fresco da manhã. É tempo de inverno, o tempo está macio, sem chuva, sem vento e com nuvens altas. Vai aguardar-se pelo crepúsculo para desencadear a operação, à noite todos os gatos são pardos, ninguém nos vê. Os espanhois estão fodidos!
A ideia que os portugueses antigamente tinham da Noruega era a de ser uma terra no cu de judas, a que faziam o favor de chamar país, quase a chegar ao polo norte, onde andava tudo às avessas. Era de noite quase todo o ano, via-se gelo e pinguins em todas as fotografias e os noruegueses pareciam múmias em tamanho grande, calçando botas altas e embrulhados em casacos de peles. Sabia-se que chamavam trenós aos carros e que estes não tinham nem rodas nem motor, sendo puxados por cães. O sol, quando lhe dava para isso, aparecia à meia noite e apanhava as pessoas a dormir, não servindo para nada, nem para ir para a praia. Gente pobre, coitada! Falavam uma língua que nem ao diabo havia lembrado e não tinham nem fado, nem vinho. E de certeza que futebol também não porque ninguém ia semear relva no gelo e depois jogar sempre de noite, se calhar à luz mortiça de meia dúzia de candeeiros a petróleo.
Depois soube-se um pouco mais quando o Algarve começou a plantar prédios nos sítios das figueiras e os donos iniciaram o aluguer dos apartamentos no verão para comporem o orçamento familiar. Começaram, por essa época, a aparecer pela praia da Manta Rota umas calmeironas grandes como o caraças, de olhos azuis e muito estúpidas de tão louras, que ninguém entendia. Nem o Zézé Camarinha, que estava em início de carreira, a cumprir estágio, se aventurou apesar dos seus varonis dezoito anos. Com elas não se podia ir nem aos figos que os apanhavam todos e a gente tinha que ficar à espera que secassem os que caíam ao chão.
Hoje os portugueses estão mais informados e sabem mais qualquer coisa. Sabem que para além do que havia antigamente ainda há bacalhau a dar com um pau que eles, todos juntos, não conseguem comer. Como ficaram um bocado mais espertos, o que sobra vendem-no para Portugal onde os descendentes do almirante Tenreiro o armazenam e, por sua vez, o vendem às mercearias e aos supermercados que depois, a nós, consumidores que mantemos o vício, nos levam o couro e o cabelo por cada quilo. Salgado e cortado às postas.
Foi esta Noruega que o Dr Jorge Sampaio resolveu ir visitar para ver se lhes dá uma ajuda, coitados, que nem à Europa pertencem nem usam o euro como nós. Fez bem! Não percebemos é para que é que levou tanta gente com ele se lá faz um frio que nem te digo. Dizem que foi para o negócio mas também pode ser um problema se eles só pagam em bacalhau. E o jornal ainda dizia que houve negociantes de bacalhau que ficaram amuados por não terem sido incluídos na comitiva. Nem sei porquê, se aquilo nem se deve parecer nada com Cancun!
O que eu soube agora, pelo jornal, é que eles têm mais de três vezes a superfície de Portugal - em gelo, está visto! - e são cerca de metade dos que nós somos. Aquilo é um deserto, mas de gelo. Toda a gente sabe ler e escrever, o que é esquisito. Se o ministro da educação deles fosse igual ao nosso nem escolas havia. Com aquela gente tão espalhada só deve haver escolas com menos de dez alunos e o Dr David Justino acha que essas não dão rendimento e, por isso, devem ser encerradas. A capital, Oslo como fui obrigado a aprender em geografia, tem menos habitantes do que a Amadora e, coitados, não têm nenhum estádio de jeito, enquanto nós temos aí dez à espreita para o Euro 2004 e para a porrada. Não têm auto-estradas e, apesar de terem evoluído um bocado, muitos ministros deles nem doutores são e nem ganham para andar de automóvel. Têm de andar a pé e de transportes públicos. Mas acho que os devemos ajudar, se já ajudamos Timor e a Guiné Bissau. Assim talvez consigam entrar para a Europa e receber umas coroas - euros, queria eu dizer! - valentes em subsídios, como nós recebemos. Para fazerem a mesma coisa que nos fizemos e as estourarem em vivendas, automóveis Porsche e garrafas de champanhe nas capelinhas do Cais do Sodré.
Hoje tudo é de admitir. As pessoas não se cumprimentam: insultam-se nas filas de trânsito. Não conversam: berram nas filas das caixas dos supermercados. Não respeitam os outros: apenas exigem que os outros as respeitam.
Ontem, quase como a RTP2 prescindiu dos serviços de Carlos Pinto Coelho, o embaixador Jorge Ritto, detido preventivamente como arguido do processo Casa Pia, despediu o seu advogado Rodrigo Santiago.
São caricatas as declarações públicas que este fez sobre o assunto, quando confrontado com a situação:
Antes de ser despedido:
Não fui contactado e não acredito que o senhor embaixador tomasse tal decisão sem me dar satisfações. Eu presumo que isto não passa realmente de um boato. Não acredito que o embaixador Jorge Ritto tivesse uma atitude dessas, que eu não posso deixar de considerar uma garotice, para não dizer mesmo uma pulhice.
Depois de ser despedido:
Hoje, o senhor embaixador telefonou-me e depois de termos conversado concluímos que as razões do senhor embaixador eram atendíveis e deu-se uma cisão/ruptura com toda a dignidade. Conversámos e resolvemos pôr fim à nossa relação profissional. Evidentemente que não é com alegria. Foi um processo ao qual eu dei muito de mim.
Comentários? Alguém acha que são necessários?
Mas este sítio é obrigatório e quem o põe à disposição de todos, à distância de um clique, deveria ser premiado. Mesmo que também recusasse o prémio. A malta anda distraída e ocupa-se a visitar o Dr Pacheco e coisas que por lá aparecem, cada vez mais, por simples operação de corta e cola. Como hoje, em que não resistiu ao disparate: "De onde estou é cedo, de onde me lêem é tarde. A que horas deixa de ser "early morning"?
Pessoalmente nunca gostei de voltar ao mesmo assunto. Até porque o dia a dia se não cansa de nos trazer novos temas, novos encantos, novas desesperanças. O único assunto a que volto sempre, com convicção e por deleite, é Portugal. Nunca o conhecemos de todo, nem no pior, tão pouco no melhor. Aprendo em cada dia, aumento o gosto, acrescento a dedicação. Reforço o orgulho e a esperança, até que extravasem como na maré cheia. Mas hoje lá tem que ser.
O país esperou a semana passada, impaciente, que o sábado chegasse para se sentar em frente à televisão e olhar para Alvalade. O país é uma forma de dizer, nem toda a gente tem ainda tevê cabo. Mas a maioria tem mais do que um receptor de rádio, paga despercebidamente a taxa nas contas da electricidade e pode, como supremo privilégio, ouvir o Sr Jorge Perestrelo grunhir para o microfone como se fosse um orangotango.
O jogo, sabe-se pelo que se viu a seguir, foi aquilo que foi. Todas as equipas, incluindo a de arbitragem, tiveram um comportamento patriótico. A exemplo do país empataram, não andaram nem para a frente, nem para trás. É verdade que o Sr José Mourinho, que nesta altura apenas espera pelo passaporte para emigrar, que já tarda, disse algumas palavras que não foi o seu pai a ensinar-lhe. Mas o rapaz saiu de casa muito cedo, andou por longe, teve más companhias, descambou. O Sr Vítor Baía escusava de ter deitado abaixo aquele brasileiro lingrinhas, um zé ninguém, sem físico para um estalo, que passou por ele feito exterminador implacável. Mas, apesar de não ter arcaboiço sequer para peso pluma, também se não acredita que tivesse caído redondo, a contorcer-se como se tivesse sido possuído pelo demónio, quando o Sr Jorge Costa, amistosamente, lhe foi alisar os cabelos, meio revoltos pela chuva e pelo o vento. De outros disparates nem se fala mais, isto é uma coluna séria e quando olha para o futebol fá-lo de forma serena. Sabe que, como disse o Sr major Loureiro, o futebol profissional, com ele ao leme, é o melhor que o país tem.
Mas agora vem a comissão de disciplina com castigos. Quanto aos jogos de suspensão, é como o outro. Cinco cartões amarelos dão um jogo de suspensão, é um exagero mas temos de nos conformar. São precisas cinco tentativas para partir uma perna a um adversário, quase sempre falham todas, não se aleijou ninguém e tira-se assim o pão da boca a quem trabalha. Mas as multas. Deus meu, que está tudo doido.
Toda a gente sabe que os clubes não estão falidos, nem sequer atravessam dificuldades financeiras. Estão muito longe de estar como o país: de tanga. Por isso mesmo o Sr major os recomenda, como exemplo. Mas acabaram de fazer grandes investimentos em estádios que aí estão, novinhos, para receberem uma dúzia de jogos do Euro 2004. Houve apenas uma ligeira comparticipação do estado, apesar de serem contribuintes idóneos, sem dívidas ao fisco e sem impostos por declarar. Nunca a Dra Manuela Leite mandou o seu cobrador do fraque a visitá-los! Depois, o resto, foi comparticipação das câmaras municipais e dos institutos públicos que, para que se saiba, são entidades privadas. Mais! Em Guimarães a câmara suportou os custos e o Dr Pimenta Machado, em assembleia geral, aceitou receber o estádio como doação, evitando que a autarquia tivesse que suportar elevados custos de manutenção. Um mecenas!
Mas as multas de quase 500 contos! A comissão sabe o que são 500 contos, algum dos seus membros já alguma vez os viu, sabe quantos cafés se podem tomar, quantas entradas isso paga na Cova da Onça? E aos jogadores, a quem os clubes pagam cada vez menos e cada vez mais tarde. Multas de cinquenta e de trinta contos? Não tarda nada e estão a aplicar-lhes multas iguais ao valor do salário mínimo. Esquecem-se que é rapaziada nova, que tem filhos na escola e na catequese, que tem que lhes pagar os transportes e as amas quando à tarde ficam em casa. Para as mães irem às Amoreiras e ao Colombo fazer as compras para a casa e tomar uma bica a correr.
Não há dúvidas, a ministra Celeste Cardona tem de tirar um dia de férias e ir dar formação àquela gente, para aprender o que é a justiça. Isso ela sabe bem o que é. E o Sr major é o que se sabe: paga logo. Sem recibo, desde que não vá dizer nada à ministra das finanças.
O que não admira, se toda a gente o faz! Agora o que custa sempre é sermos os últimos a saber e vermo-nos sozinhos no palco, com as luzes dos projectores em cima, no desempenho do papel de corno. A plateia, das duas uma, ou se compunge ou se ri à gargalhada. Qualquer uma das situações nos embaraça, custa-nos contar aos amigos, chegar a casa e encarar a mulher e os filhos, todos sem nenhuma culpa.
Pela minha parte garanto que me ensinaram na escola que Portugal ficava, geograficamente, no extremo mais ocidental da Europa. Lamento não ter sido suficientemente precavido e ter guardado os manuais por onde o aprendi porque hoje já me teriam sido de grande utilidade. Assim, olho para os poucos mapas escolares que ainda tenho pendurados nas paredes, a simular Guernicas e outros picassos, e apenas acentuo as minhas convicções. Mas os mapas também já são antigos, como eu e a minha geografia.
Hoje, com o espanto natural de um ignorante, leio que uma agência de publicidade moveu uma acção contra o ICEP, um organismo oficial cujo objectivo é promover o comércio externo, por este ter apresentado Portugal como o país mais ocidental da Europa numa qualquer campanha. Alegando que a ideia lhe fora roubada e que isso constitui plágio grosseiro e inadmissível.
Quer dizer, quando muitos de nós foram obrigados a aprendê-lo assim, fomos pura e simplesmente enganados. Fomos obrigados a aprender as linhas férreas como se fossem a Salvé Rainha, com entroncamentos, estações e apeadeiros e, afinal, elas não existem. O que existe é só a linha do norte e, mesmo esta, só tem uma estação em Vila Nova de Gaia. Levámos porrada para aprender rios, nascentes e afluentes de ambas as margens e depois preparámos o farnel, fomos em passeio para visitar os locais e os rios secaram, afluentes incluídos. Aprendemos os pontos cardeais como sendo quatro e agora, de repente, dizem-nos que são apenas três, enquanto não forem apenas dois.
Percorremos a costa de norte a sul, seguimos para sotavento até Vila Real de Santo António, nem aí nos detivémos. Fomos do Minho a Timor, sem paragens nem escalas técnicas. Ensinaram-nos cabos, penínsulas, baías e enseadas que recitámos como tabuada, com hesitações, erros e reguadas. Afinal a costa não existia, era um plágio. Grosseiro e inadmissível.
Valha-nos ao menos essa derradeira ponta de orgulho. O país, esse, existe. É tão original, tão diferente, tão típico que, seguramente, não pode ser plágio nem de nada, nem de coisa nenhuma. É perfeitamente impensável. E seria muito mais grosseiro e muito mais inadmissível. Não há outro. Era só o que faltava termos agora uma Dra Manuela Leite que fosse um plágio. Nem na Patagónia!
Os jornais de hoje, quase em uníssono, dão nota das preocupações do governo. É isso que, no essencial, me tranquiliza. Que me conforta e me permite que continue a dormir o sono profundo de sempre, sem recurso a pílulas e a comprimidos. Já era assim em criança, quando o simples facto de saber que a minha mãe se ia deitar preocupada com a probabilidade elevada de eu, com menos de dois anos de idade, mijar na cama. Isso, imagino-o hoje, entorpecia-me, contribuia para que adormecesse mais rapidamente, fazia com que dormisse como um anjinho, - creio que já ouvi isto da boca não sei de quem! - sonhasse com a praia, o mar e as ondas. Depois, claro, acordava sobressaltado e num berreiro pegado. A minha mãe levantava-se contrariada, mudava-me a fralda a repetir os mais inimagináveis palavrões e regressava à cama. Eu ria-me, virava-me de lado, adormecia de novo.
Ainda hoje continuo com a mesma atitude perante o quotidiano da vida. Desde que saiba que, pelo que ouço dizer, vivemos num país de direito, tenha conhecimento de que há um governo legítimo e consciência de que este se preocupa comigo, estou descansado. Podem vir-me com as tretas habituais, a tentar dizer-me que o país de direito mantém nas prisões milhares de detidos sem culpa formada, que a corrupção alastra, que o consumo e o tráfico de droga aumentam. Não quero saber disso, é o despeito e o radicalismo dos gajos que até comem criancinhas ao pequeno almoço. Só pode ser isso!
O que eu sei é que quando o governo se preocupa, a seguir aprova leis novas. E o assunto fica resolvido, mesmo que ninguém as cumpra ou esteja sequer preocupado com isso. Mas a situação tem enquadramento legal, os professores de direito irão ensinar isso aos seus alunos, somos civilizados. É assim que vai ser resolvida a questão da violência nos estádios: por decreto. Realmente é inadmissível que o governo - cujos membros até nem vão à bola! - tenha decidido e comparticipado pacificamente a construção de dez novos estádios e agora, ainda a festa não começou, já se registem cenas destas, a borrar a pintura. A estragar equipamentos e a arrancar e partir cadeiras.
Por decreto, proiba-se a violência e institua-se a amizade pessoal e institucional dos Drs Soares pai e Portas ministro. Ratifique o parlamento, sem tibiezas, que a Dra Celeste Cardona continua ministra. Proiba-se o professor Marcelo de demitir membros do governo aos domingos à noite, quando os mesmos se preparam para meter as crianças na cama e rezar o terço. Legisle-se sobre a condição dos Drs Pimenta Machado e João Loureiro e renegue-se, no preâmbulo, a qualidade de energúmenos dos adeptos dos clubes que dirigem. Agracie-se, sobretudo, o major Loureiro, de ofícios mil e capacidades "nil", pelas normas definitivas que vai conseguir que a liga de futebol aprove. Para que a porrada, ao menos, possa ser adiada para depois dos jogos. Mesmo que ainda possa começar nos estádios, nas salas de imprensa!

É obra! Depois dos Srs W. Bush e T. Blair anunciarem a constituição de comissões independentes de inquérito, que eles próprios nomeiam, para esclarecerem situações menos claras sobre o que se passou em relação ao Iraque, eis o orgulho nacional em vias de ser restaurado. O governo, seguramente com intervenção relevante da ministra da justiça, para justificar o epitáfio do professor Marcelo, anuncia que vai cadastrar os desordeiros.
Para quem tiver dúvidas, fica a imagem do jornal que o noticia, em primeira página. Apenas uma questão elementar: O Sr José Manuel Fernandes converteu-se? Ou passou-se? Ou decidiu colocar o seu cargo nas mãos do patrão?
Como diria o regedor de Vila Nova de Gaia: atenção ó vocês, sulistas, elitistas e liberais! Quando o Herman José se anafou de todo, de cu tremido em Rolls Royce, a trincar charutos havanos e a fazer cruzeiros no Tejo, navegando à bolina até Vila Franca, com muita razão, preocuparam-se. Quem, de futuro, iria ter o raro condão de divertir-vos, com uma maioria no governo e com eleições previsíveis apenas depois dos quatro anos da praxe? Os políticos, naturalmente, não. Durante esse período de quatro anos andarão entretidos a divertirem-se uns aos outros. E uns com os outros!
Foi a altura em que algum olheiro do Benfica veio ao Porto, assistiu a um qualquer espectáculo barato e descobriu aquele rapaz assim desajeitado, meio parecido com o filho do Sr Pinto da Costa que a televisão do estado persiste em meter-nos em casa. Achou-lhe alguma graça, meteu-lhe um contrato a prazo certo à frente do nariz, levou-o a fazer alguns espectáculos na Rua da Betesga para que parecessem sempre de lotação esgotada. A malta que gosta do Big Brother também vai gostar deste gajo. E tinha razão!
Acabado o contrato, o mesmo viajou de regresso ao Porto, no TGV que o Dr Barroso se apresta para inaugurar, pela primeira vez, e que faz a viagem em menos de doze horas. Mas quando cá chegou acima tinha um jovem humorista, usando gravata e de penteado assim à Paulo Catarro, a divertir o pagode com anedotas de morte. A primeira é que se apresenta como vereador da câmara do Dr Rio, condição que o Óscar Branco nunca ousou assumir. Melhor ainda: vereador da habitação e acção social.
Anotem apenas as respostas que deu numa curta entrevista que hoje viu a luz cinzenta de mais um dia de inverno. E gargalhem à vontade, mas evitem as lágrimas e apertem o diafragma.
Como justifica tantos pedidos de realojamento que, alegadamente, não têm resposta?
O que eu estou a pedir às juntas, e lamento que alguns presidentes de junta não tenham percebido isto bem, não são listas de famílias de carência habitacional, são listas de casos verdadeiramente excepcionais em que se possa cumprir o objectivo de resolver o problema da casa, da família e provocar uma melhoria social naquela família.
O que é para si um caso "verdadeiramente excepcional"?
Todos aqueles que os presidentes de junta me apresentem.
E quando um presidente de junta apresenta uma lista com cinquenta casos que considera "prioritários"?
Quando são verdadeiramente excepcionais são seis ou sete. Cinquenta já não são. Uma lista de 50 casos não é sequer considerada. Arquiva-se. Quem faz isso prova que está mais interessado em fazer política contra o vereador da Habitação do que em resolver os problemas excepcionais.
Não são necessários comentários. E vossa excelência, senhor vereador, apresente-se assim, sem marcação, em Carnaxide, pergunte pelo Dr Balsemão, meta-lhe um empenho, peça-lhe um lugar. Para um programa curto, antes ou a seguir aos malucos do riso. Tem o sucesso garantido. E para não perder o mandato por faltas, demita-se. Lembra-se de que o prometeu aos seus munícipes se não conseguisse, no seu primeiro ano em funções, acabar com todos os arrumadores dispersos pelas ruas da cidade, a estenderem a mão à moeda. Não acabou. Esqueceu-se de recorrer às execuções sumárias, que talvez tivesse sido a única forma!
Ninguém tem dúvidas de que o ministro Figueiredo Lopes é um governante discreto, tal o modo como passa despercebido. Nunca ninguém dá por ele, e é nessa perspectiva que se evidencia. Quando aparece em público chama a atenção, o seu discurso é fluido - fluido até demais, corre como o verde tinto! - e as câmaras de televisão não o largam.
A semana passada, à falta de futebol a sério no Algarve, encenou uma simulação para testar a segurança do estádio construído propositadamente para o Euro 2004. Correu às mil maravilhas e quem, nas redondezas, teve a oportunidade de se aperceber do exercício lamenta já que depois de Junho o relvado venha a ser pasto de cabras do monte, descidas até à beira mar para sol e banhos.
Ontem montou uma operação a sério, como se fosse uma operação do Big Brother, no estádio de Guimarães. As suas polícias deixaram que o jogo decorresse normalmente, que atletas e adeptos se insultassem e disputassem a supremacia em cenas de pugilato, que arrancassem as cadeiras e as arremessassem a quem passasse, mesmo aos seus homens. Tudo isto sem reagir, deixando que os presentes pudessem manifestar livremente as suas emoções. Conseguiu-o quase sem que ninguém se tivesse aleijado. A segurança do Euro, pela parte do ministro, está garantida. Mais do que isso, as suas polícias não baixam o cassetete sobre ninguém, encolhem-se e só agem se houver mortos. Para os remover para as casas mortuárias.
Pelo comportamento sensato, pelas simulações exemplares, por toda uma vida dedicada - desinteressadamente! - ao bem público, pelos contínuos esforços desenvolvidos a favor da paz, é de justiça que o ministro Figueiredo Lopes seja indigitado para o prémio Sakannov.
Deu uma conferência de imprensa para seu desagravo e para rebater as acusações, mas não permitiu perguntas por não trazer preparada a cábula para a resposta e poder atrapalhar-se com o improviso. Revelou que apenas tem empregados na autarquia cinco sobrinhos, dois cunhados e vários outros familiares e amigos. Não sabe dizer ao certo quantos mais familiares e amigos são, porque os não está a contar todos os dias e não toca a reunir uma vez por mês para fazer a chamada. Pensa, em todo o caso, que talvez não sejam mais do que trinta.
Todos foram admitidos por concurso, coisa que nem o ministro Portas faz, e nunca nenhum dos admitidos reclamou das classificações. E ele, Narciso, nunca fez parte dos júris desses concursos até ao fim, ausentando-se sempre que as coisas já estavam convenientemente encaminhadas. Por casualidade chegou mesmo a tomar conhecimento apenas depois do concurso de que havia admitidos, que namoravam com filhas de vizinhos das secretárias de elementos da sua vereação que, afinal, eram seus sobrinhos. Não ia tirar os pelouros aos vereadores, pois não?
Quanto ao seu gabinete, dispõe apenas da colaboração de um assessor de imprensa, que está a fazer um bom serviço pelo que se vê, de um fotógrafo que o faz aparecer nas fotografias como se fosse um engenheiro formado em Oxford como Alves dos Reis e de um motorista, por ele próprio ainda não ter carta de condução por chumbar sempre no código. Não sabe quanto ganha cada um deles, aliás ele nem sabe mesmo o seu vencimento, tal é o desprendimento que revela em relação aos bens materiais. Sabe, isso sim, é que cada funcionário da autarquia custa a cada cidadão, por ano, curtos 83 euros, o equivalente a pouco mais de dezasseis contos e quinhentos. Não sabe nem lhe importa saber quem é que faz a cobrança, desde que paguem.
Não sabe e nunca ouviu falar no desígnio "no jobs for the boys" porque não percebe línguas estrangeiras e polaco ainda menos. Mas assegura que o engenheiro Guterres nunca lhe recomendou ninguém porque, se o tivesse feito, teria tido o maior gosto em ser-lhe útil. Desde que lhe escrevesse o cartão em português e com letra de imprensa, para a perceber melhor!
A manhã levantou-se hoje macia de frio e quieta de vento. Sem folhas caídas de Outono e sem bátegas de chuva, de ontem, a correrem pelas sarjetas. Em casa as pessoas levantaram-se mais tarde, deram o pequeno almoço às crianças e vestiram os fatos domingueiros. Saíram para a missa das onze de aspecto compungido e passo vacilante. Responsáveis e solícitos os contínuos das repartições públicas, em dia de descanso e de louvação, saíram mais cedo. A tempo de passarem pelos locais de trabalho e, cuidadosamente, desceram as bandeiras para apenas meia altura do mastro, em visível sinal de pesar. Nas ruas os polícias, poucos por falta de verba da corporação, circulavam aprumados e erectos, envergando farda de gala. Nos quarteis, nos que ainda se mantêm abertos para defesa da honra nacional e das fronteiras, os soldados de guarda usavam espadas, embora ambaínhadas, e luvas brancas de usar nas guardas de honra ao ministro.
No interior das igrejas - e são muitas em toda a cidade! - o período da quaresma fora antecipado. As imagens estavam cobertas por véus cor de púrpura, o alegre garrido dos enfeites fora suprimido. Os padres celebrantes, sem sacristão que a crise já não permite luxos desses, apresentaram-se para o ofício vestidos a condizer. Sisudos, tristes e de faces macilentas. Foram tão breves na homília como no sermão, às vezes não contiveram lágrimas furtivas de sentimento profundo, em silêncio distribuiram a hóstia a quem desejou comungar. Antes da saída as pessoas beijaram-se e abraçaram-se, mesmo sem se conhecerem, como se fossem todas família. Amanhã, que é outro dia, poderão voltar a ignorar-se livremente,a hostilizar-se e a buzinarem umas atrás das outras nas filas de trânsito, como se fossem doidas.
O Sr Pinto da Costa chegou à igreja de Santo António das Antas - cuja mudança de nome, para S. João das Antas, está pendente do deferimento do bispo - como chega a toda a parte, sentado à frente, no banco direito de um BMW - o Sr Salvador Caetano fica em dívida, pela propaganda! - conduzido pelo seu eterno e fiel braço direito. Usava gravata preta e protegia-se do frio que afinal não fazia vestindo um longo e caro sobretudo que os adeptos o haviam forçado a aceitar como prenda de aniversário. Foi muito cumprimentado à saída, na escadaria de acesso à porta principal, onde quase toda a gente acorreu a rodeá-lo e a dar-lhe conforto para que contivesse as lágrimas e, num esforço sobre-humano, suportasse a dor. Limpando a um imaculado lenço de bolso a maquilhagem das beijoqueiras foi agradecendo, dizendo palavras de circunstância, conformando-se.
Tudo, num ápice, acontecera ontem à noite, depois de terminado o jogo em Alvalade. Desarmado mas de mau feitio o Sr José Mourinho disparara contra tudo e contra todos. Até toda a coragem das primeiras figuras oportunistas e inúteis da alta política do país, que se sentara na tribuna, evitara passar-lhe pela frente. O Sr presidente da liga calou a pergunta de saber quantos eram para, insignificante, se encolher disfarçadamente a um canto da sala, quedo e mudo. O árbitro prescindiu do banho, antes que se fizesse tarde, e correu a meter-se no carro com o equipamento e o apito transbordando do saco desportivo. A equipa adversária fechou por dentro, e à chave, o balneário que ocupava e ficou a aguardar, jogando à sueca em grupos de quatro, que do exterior lhe viesse a indicação de que podiam seguir ao encontro das mulheres, dos filhos e das namoradas.
O Sr Mourinho chegava ao fim do seu discurso, com os operadores de câmara tremendo como varas verdes. Vociferendo! Contra os roubos do árbitro, as manhas do adversário e as artimanhas dos seus discípulos. De nada lhe servindo a educação grosseira, a instrução analfabeta e a estupidez da sua cultura. Proclamando: foi tudo uma merda! Vou abandonar o país! Por isso é que a cidade amanheceu o domingo com este sentimento de angústia e esta inevitável dor de perda. Toda a gente o chora e pergunta: ainda não partiu? Quando a resposta for afirmativa as coisas voltam ao normal e a alegria regressa. Pela sombra!