janeiro 31, 2004

O compadre alentejano da Dra Manuela Leite

O compadre para o conselho de administração. Para ajudar à reforma!Vivendo no Porto devoto ao Alentejo a admiração dos horizontes que vão para lá da vista. Gosto das terras, das pessoas e das cantigas. Não há, portanto, nada de pejorativo na figura simpática do compadre que, como garantia, se deve exigir alentejano. Como o pão!

Como do Brasil se diz ser o país do carnaval, este é o país da gargalhada. É tempo perdido produzir programas humorísticos para a televisão como agora, por decreto, o ministro Sarmento impôs àquilo a que chama sociedade civil. Não vale a pena subsidiar os filmes cómicos do jovem cineasta Manoel de Oliveira, mesmo que possam sair vencedores do festival de Cannes. É apenas para benefício das empresas de celulose a edição de suplementos de jornais e de revistas que supostamente pretendam fazer rir. O riso está em toda a parte, a todas as horas. O português, mesmo quando chora, chora por não conseguir conter a gargalhada.

A indústria do riso é, por isso, uma indústria em recessão. Não tem de que se queixar: acompanha todo o resto no uso excitante da tanga. Compreende-se, também por isso, que o Sr Herman José tenha gasto uma fortuna em despesas de investigação para descobrir uma alternativa que lhe garantisse a renovação do contrato com a SIC e lhe desse dinheiro para barcos, automóveis e charutos. E optou por apresentar programas que não têm graça nenhuma em que os convidados são sempre os mesmos e se apresentam periodicamente, por escala, como as farmácias de serviço.

E senão reparem! Foi criado o Centro Hospitalar de Lisboa que incorpora os hospitais de S. José, Capuchos e Desterro. Seguindo uma filosofia de gestão a que, em mirandês, alguém chamou "small is beautiful", o governo junta. Para tornar mais pequeno. Depois precisa de nomear dirigentes, sem recurso a coisa nenhuma, apenas à sua vontade, não está vinculado a nada, muito menos ao eleitorado. Socorre-se de um jovem reformado da função pública, - só está reformado há três anos! - o médico Manuel Guimarães da Rocha, e indigita-o para presidente do conselho de administração. Mas então o país já se não contenta com a ignomínia do trabalho infantil? Precisa ainda do trabalho senil? Mais do que isso, é legal, é legítimo, é ético, é deontologicamente correcto, é moral recrutar um reformado de 68 anos de idade, a precisar de sopas, descanso e dos programas de turismo senior do Inatel e forçá-lo a trabalhar de novo? Mesmo que o cargo lhe componha o orçamento familiar e lhe garanta mais uns cobres para que ofereça mais umas pastilhas elásticas aos netos? Parece, racionalmente, que não!

Perdão, peço desculpa, afinal parece racionalmente que sim! Se eu tivesse informação privilegiada fazia como o filho do Sousa Cintra: aproveitava para arrecadar uns milhões e depois oferecia um veículo todo o terreno de topo de gama aos bombeiros. Para ir à caça aos fins de semana. Sim, eu! O comandante, se quisesse, podia ir dar uma volta comigo. Mas tive-a apenas agora, quando nada me adianta! Este reformado começou por ser contestado por se alegar que a sua nomeação era política. De estranhar, porque é coisa rara entre nós. O que nos faz rir duplamente, a nomeação e a política. Mas afinal não há razão. O Dr Guimarães da Rocha foi forçado ao trabalho, depois de estar a gozar a sua merecida reforma, por razões meramente familiares e de amizade. É compadre da Dra Manuela Leite. Mas não sei se é ou não alentejano, o que também é indiferente!

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As conferências para a fina flor do entulho

Porto: as conferências dos 30 anos do 25 de AbrilInexplicavelmente o Dr Rio tomou uma aitude. Depois de ter ido, por duas vezes, inaugurar os acessos ao novo estádio do Dragão enquanto o Sr Pinto da Costa os agradecia ao governo, resolveu promover no Porto um ciclo de conferências sobre o 30 anos do 25 de Abril. Para, segundo declarou, modificar a imagem de um Porto zangado.

O acto em si não é de desespero, é de puro esbanjamento. Estando a câmara falida não se compreende que passe a vida a empenhar-se ainda mais em festas de que a construção civil nada aproveita. A iluminação das ruas, pelo Natal, foi o que se viu. Era tal a luminosidade que em Santa Catarina tinha que se levar a mão a proteger os olhos sempre que um passante acendia o isqueiro para pegar fogo ao cigarro. Para acalmar a turba montaram-se postos itinerantes da polícia e dos bombeiros que, alegremente, foram trocando entre si saudações da época e presentes das lojas dos trezentos. Mas que, mesmo assim, na noite da consoada foram comer o bacalhau para casa.

Como se isso não tivesse bastado, promoveu-se a passagem de ano na Praça da Liberdade. Mais uma vez, para benefício dos lucros da EDP, com muita luz, roulottes de bifanas e de farturas, selhas de cerveja e refrigerantes, sem necessidade de pedras de gelo para refrescar porque estava frio. Contratou-se uma música qualquer, depois do Rui Reininho ter declinado o convite porque já se deixou de actuações assim, para o pé descalço. Com o tempo de lua nova e a noite escura, o Sr Pedro Abrunhosa não conseguiu adquirir óculos que lhe mostrassem o caminho, e não chegou a tempo. E, em noite de festa, estão todas as lojas fechadas na cidade de Penafiel, regressou a casa e ficou ao borralho a ver televisão.

A música entrou pela madrugada dentro, até altas horas. O relógio da câmara, que fora acertado à saída dos funcionários, marcava já meia noite e quinze minutos quando a orquestra deu o derradeiros acordes. No primeiro dia útil do ano as discotecas da cidade correram aos paços do concelho a apresentar reclamações iradas contra a concorrência desleal e nocturna que o Dr Rio persistia em fazer-lhes. Foi preciso que o engenheiro Rui Sá cofiasse a barba e puxasse dos galões para acabarem todos no Embaixador a tomar o café a meio da manhã.

Agora um ciclo de conferências, ainda por cima no edifício da alfândega, que fica fora de mão e em local húmido, mesmo à beira rio. E a lista de conferencistas convidados, longa e de qualidade, como os lagostins das marisqueiras de Matosinhos. Que de certeza se não contentam em comer um hamburguer na Imperial - quem havia de dizer que a Imperial ia acabar naquilo! - e descer a pé até ao rio, a remoê-lo. Devem exigir jantar na Cooperativa dos Pedreiros e serão certamente satisfeitos, desde que não desviem o olhar curioso para as ruínas daquilo que foi a casa da D Guilhermina Suggia. Sendo já longe, haverá automóveis dignos para os transportar. Confortáveis, para que não arrotem e vomitem o creme queimado no trajecto.

Mas coisa de referência, até o Sr Carlos Castro estava à porta para espreitar as toilletes. Muito bem acompanhado, por sinal. Creio é que depois também não seguiu para a conferência e preferiu subir ao quarto, para relaxar. O sucesso transpirou e o engenheiro Nuno Cardoso sentiu como grande afronta não ter sido convidado. Nem para o jantar, nem para a plateia. E garantiu que esta, onde se viram sentados quatro assistentes, teria o dobro só à conta da concelhia a que preside. A organização desmontou-lhe a vaidade e a irritação em três tempos: a entrada era livre, tivesse aparecido.

Desmancha prazeres, veio uma organização com nome de dois quilómetros e descrição adicional de mais três, lamentar que não tivesse sido permitida a entrada de público. O município desculpou-se com a lotação da sala e a falta de lugares vagos. A tal comissão instaladora da interassociações - que não se instalou coisa nenhuma, está visto! - acusou "estas comemorações de ficarem assim limitadas a uma elite, excluindo-se a participação popular".

E, assim sendo, as conferências são de facto destinadas à elite que o Dr Rio entende como tal. Para elas, pelos vistos, é apenas convidada a fina flor do entulho da sociedade tripeira. Olé!

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janeiro 30, 2004

A ministra da justiça é inimputável?

A ministra da justiça é inimputável?No parlamento português, onde nada se passa, verificou-se hoje um desaforo que ameaça virar tragédia. Cumprindo a sua agenda mensal foi o primeiro ministro visitar aquele asilo de reformados, a encorajá-los por causa da carestia de vida e a prometer-lhes o céu assim que a chuva cesse e as nuvens cinzentas se dissipem.

Discursos atabalhoados e inúteis a que, invariavelmente, o árbitro que preside à mesa foi pondo termo dizendo: "o seu tempo acabou, faz favor de terminar senhor deputado". Foi havendo de tudo, desde aplausos de pé, a pateadas e a urros de agravo às mulheres e às mães dos oradores.

A maioria que apoia o governo não precisou sequer de ver dúvidas esclarecidas e não contestou nada. É fervorosamente crente e temente a Deus e entende, como lhe ensinou o catecismo, que Deus não se discute. Acredita-se!

O Dr Ferro, mesmo assim e parece que pela primeira vez, pôs algumas dificuldades ao primeiro ministro, que vacilou. Mas o Dr Ferro tem o discurso atropelado de espectador do estádio de Alvalade, quando exaltado discorda das decisões do árbitro. Ganha em vigor emocional e desconexo o que perde em clarividência.

O Dr Carvalhas tem as ideias arrumadas e o discurso racional e sóbrio. Mas é demasiado monocórdico, proclama verdades que ninguém refuta mas que todos ignoram. Cumpre o seu papel, sai para o camarim, quase não ouve aplausos. Acusando-o sempre de usar uma cassete o primeiro ministro responde-lhe usando outra. Como num combate de boxe, passou-se mais um assalto em que não houve vencedor. Nem aos pontos.

O Dr Louça questionou o primeiro ministro pelo apoio expresso que, no parlamento, não garantiu à ministra da justiça. Que há dois ou três dias se desdobrou em explicações pelo país fora, à hora do Big Brother, a contar histórias da carochinha em que ninguém - nem ela! - acredita. E, desatino, sugeriu ou inquiriu sobre a sua inimputabilidade. As galerias tolheram-se de frio, as bancadas da maioria espumaram de raiva. A ministra, até agora, não me apercebi que tivesse dito nada. As bancadas da oposição ruborizaram, beberam água, já conseguiram conter a gargalhada.

Ofendida e mal paga, a bancada do partido da ministra anunciou que iria processar o herege do Dr Louçã e que o convidava, se não fosse cobarde, a solicitar o levantamento da imunidade parlamentar que o protege, para responder em tribunal. A gargalhada voltou a soltar-se à bancada minoritária da oposição, e parece que ainda continua. O Dr Louça classificou de garotice o anúncio e ficou à espera do desafio varão, para o duelo. É sexta-feira e seguem todos para o fim de semana, em S. Martinho do Porto, apesar da qualidade perdida de que nos conta, sapiente, o Dr Prado Coelho. Amanhã a bola e o Sporting - Porto vão fazer esquecer tudo. Independentemente do resultado e de se saber se a ministra é imputável ou não!

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Ser português é cada vez mais difícil

Ser português, hoje, não é uma condição. É uma fatalidade, é uma ignomínia. É sobretudo um risco permanente. Nem se acredita como foi possível ao país percorrer, aos solavancos e por caminhos travessos, quase novecentos anos de história e chegar aqui. Nada adianta ao cidadão ficar em casa, para se resguardar. É assaltado na cama, se preciso for. Pela pouca vergonha do discurso e pela mão ligeira da ministra das finanças.

O país perdeu o dinheiro, a capacidade de se endividar, o orgulho e a vergonha. Nem os nacionalistas fervorosos acham que vale a pena replantar as estátuas do Dr Salazar e recuperar o hino da mocidade portuguesa com novo arranjo musical. O país é um jogador compulsivo que perdeu tudo, incluindo os brasões e os aneis que confiadamente depositou nas casas de prego. E que persistentemente se apresenta em cada noite à porta do casino, a tentar que o porteiro o deixe entrar.

O país não está de tanga, está nu. Mas sem ser rei nenhum, é um simples plebeu, um sem abrigo abandonado na rua aos rigores do inverno e à violência dos empresários da noite. De tanga está o governo e a classe política, vazia e idiota, que se queixa de ganhar mal e de viajar pouco. Que já não vê o próprio umbigo sem o auxílio do espelho de aumento.

O estado já não é um ladrão, é uma quadrilha. Em que o chefe apenas manda quando não está nem ausente nem de costas. Porque se isso acontecer é traído pelo submisso primeiro ajudante que o substitui, mesmo sem mandato. E sem pedir licença.

O presidente da república vai acabar o segundo mandato e ser posto na rua como qualquer jovem licenciado a exercer funções de caixa num supermercado, ao fim de dois contratos de trabalho a termo certo. De nada adianta que tenha o discurso consensual e o raciocínio cartesiano. E do mesmo lhe servirá que a família tenha investido na sua educação anglo-saxónica, tenha aprendido inglês e saiba piano. Vai seguramente ser canonizado como o foi Santo António, mas depois de ter passado à história. Antes disso limitou-se a falar para orelhas moucas cujos donos assobiaram para o lado.

A classe política deixou de estar associada fosse ao que fosse de que o país pudesse orgulhar-se. E no entanto proclama o orgulho nacional a que passou a chamar auto-estima e vai ao futebol. Congela os ordenados aos trabalhadores e aumenta os seus. Promove o desemprego para ainda hoje poder apregoar que o combate. Deixou de ser uma educada graçola de salão para passar a ser uma ordinária anedota da vida.

A economia só existe nos manuais e estes são de autores estrangeiros e não têm quem os traduza. Os seus agentes, apóstolos convictos da ignorância e da vaidade, usam expressões estrangeiras sem saberem português. Deixaram de ir aos cinemas mas, mesmo em casa, não são capazes de ler as legendas dos filmes que passam na tevê cabo. Qualificam-se a si próprios de gestores, fixam-se elevados ordenados, atribuem-se automóveis importados de alta cilindrada. São adeptos do sexo sem constrangimentos mas não usam preservativo. Nem vêem os programas do Dr Júlio Machado Vaz.

Os trabalhadores, naturalmente, só existem para trabalhar. A continuar assim acabarão a fazê-lo de sol a sol e sem intervalo para a sesta. Como escravos. Numa selva em que os macacos verdadeiros, de rabo comprido, estão em vias de extinção e apenas são protegidos em gaiolas, no jardim zoológico. Enquanto o patronato em alvoroço reclama do salário mínimo muito elevado e da inutilidade das contribuições para a segurança social. E vai à socapa recrutando imigrantes de proveniência indefinida, a trabalharem pela sopa e a pernoitarem nas soleiras das portas.

O desporto é mais do que nunca uma inantíngivel escola de virtudes, com toda a estrutura do futebol profissional à cabeça. Em que o presidente da liga publicamente declara, aos berros, que ele é o exemplo sem mácula para que o país se deve voltar. Pensando, estúpido, que fala a sério. E fala, porque o país todo é uma fralda descartável que o bébé usou para tudo, sem o controlo a que os adultos ainda se obrigam.

A cultura quase só tem acolhimento no estrangeiro. Um escritor português para ser galardoado com o prémio Nobel, tem que de ter fixado residência em Espanha. E que ter sido afrontado por um qualquer governante que um tribunal veio a julgar como ladrão. Os outros, todos os outros, abstêem-se, não querem saber, não visitam as feiras do livro, não comparecem aos serões de poesia na Fundação Eugénio de Andrade.

O conhecimento português, invariavelmente, encontra-se emigrado. Só vem a férias uma vez por ano, e por pouco tempo. Internamente o conhecimento concentrou-se, é atributo de uma só pessoa, e mesmo assim é preciso que seja ela a proclamá-lo. Para além da adesão à União Europeia, da inclusão no grupo do euro e dos constantes atropelos às normas do pacto de estabilidade e crescimento, o saber reside no senhor Vasco Pulido Valente. Só ele sabe, só ele diz, só ele tem opinião. E só ele a reduz a escrito, de forma escorreita e sem erros de ortografia. Como se fosse uma cartilha. Como pode um tal país deixar de ser uma degenerescência?

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Mãos ao ar!

Mais do que a notícia, o riso assaltou-me logo que vi as imagens passarem na televisão. Por timidez, quis conter-me. Tratava-se da segunda figura da hierarquia do Estado, mesmo em privado deveria ser respeitada. Pelo menos antigamente. Agora o Daniel publica-a e, em título, proclama: cercado pelo pecado!

É uma graça! Mas pode sugerir outras. Para que exibe cada uma das senhoras um dístico a dizer "aborto"? Para pessoalmente se identificar? Para identificarem o sorridente cercado, rendido, de mãos no ar? Para se identificarem com alguém ou alguma coisa? Os dísticos, obviamente, não eram necessários. A não ser pelo rídiculo, pelo bizarro e pela anedota!

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janeiro 29, 2004

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso

Greg Dyke, ex-director geral da BBC. Demitiu-se!Ontem foi divulgado o relatório Hutton que deixou mais tranquilo Tony Blair sobre a questão do Iraque e sobre a sua promessa de se demitir do cargo que desempenha, caso aí lhe viessem a ser atribuídas quaisquer responsabilidades. A comunicação social passou a utilizar vocábulos como "absolvido" e "ilibado", creio que por simples descuido e não intencionalmente ou por ignorância do seu significado objectivo.

Mal ou bem, todavia, nem sequer é isso que interessa muito. Interessam as consequências que, de imediato, os responsáveis da BBC, particularmente visados no documento, daí extraíram. Demitindo-se sem que lho tivessem exigido e sem que os editoriais do Sr José Manuel Fernandes tivessem já sido lidos em Downing Street.

Neste país de Pacheco a Dra Celeste Cardona desdobrava-se em peregrinações. À Assembleia da República, onde lhe exigiram que fosse. Às televisões, onde pensou meter no bolso a curta atenção dos telespectadores. Teve um desempenho perfeitamente burlesco. Em nenhum lado convenceu nenhum deputado, nenhum cego acreditou na sinceridade da expressão que não viu, nenhum surdo levou a sério as palavras que não ouviu.

Questionada sobre alhos, politicamente respondeu bugalhos. Sobre as possibilidades de se demitir em consequência das trapalhadas que a tiveram por fulcro, respondeu que seria ministra emquanto o Dr Barroso assim o entendesse. Como se lhe perguntassem as horas e respondesse que estamos em Janeiro.

Não são precisas muitas palavras, até porque se não pretende comentar aquilo que não carece de nenhuma explicação para que se entenda. Apenas se salienta a forma de estar. Da Dra Celeste Cardona não! Do director geral da BBC, Greg Dyke.

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Os portugueses pelam-se pela estatística

D. Afonso Henriques pelava-se por dar porrada aos mourosNo início da nacionalidade os portugueses, que eram poucos, pelavam-se por perseguir os mouros, atirá-los dos cavalos abaixo, encher-lhes os corpinhos de nódoas negras. Com D. Afonso Henriques à frente, envergando uma armadura adequadaà moda e à estação do ano, destruiam-lhes as searas, invadiam-lhes as cidades, assaltavam-lhes as fortalezas. Lendas há - e não podem ser mais do que lendas! - que dizem que depois, no espólio da refrega, lhes ficavam com as mulheres e com as filhas. Para as converterem. Tudo sempre à cachaporrada!

Mais recentemente o professor Freitas do Amaral, farto do direito e do sistemático insucesso dos alunos cábulas, dedicou-se à literatura. Como poderia ter-se dedicado, como muita gente, à pesca. Escreveu peças de teatro e biografias, entre elas a de D. Afonso Henriques. Aligeirou-lhe, felizmente, o peso da armadura, o ginete do temperamento e a violência da espadeirada. Afinal D. Afonso não fora assim tão bruto como a tradição e a escola nos fizeram acreditar. Estudara em bons colégios do ensino privado, tivera boas amas, - em todas as acepções! - fora assíduo no catecismo, era um diplomata. Negociava sempre, antes de se decidir pela porrada. De uma forma muito mais racional do que aquela que observaram os vietnamitas em relação aos americanos. De facto Ho Chi Min encheu-os primeiro de porrada e só depois disso, cheios de hematomas, com pernas partidas e apoiando-se em canadianas, os sentou a uma mesa, em Paris, para negociar.

As coisas mudaram, para que ficassem mais na mesma. Os portugueses hoje, que são mais do que eram, pelam-se por futebol, por televisão e por estatística. Estas predilecções levaram à falência dos clubes, dos cinemas e do sistema estatístico nacional. Os clubes já estavam falidos, quase ninguém deu por nada, muito menos se preocupou fosse com o que fosse. Metendo a cabeça na areia, como avestruzes de meias altas, os clubes empenharam-se freneticamente na construção de estádios, a fingir de ricos. Os cinemas encerraram, transformaram-se em bingos, encerraram de novo, alguns converteram-se em locais de culto da igreja universal do reino de Deus e do seu bispo Macedo. A estatística que já era complicada, falsa e inútil foi invadida por determinações comunitárias e cada cidadão passou a receber, mensalmente, dois questionários de resposta obrigatória. Com cujo preenchimento perde o equivalente a quatro dias de trabalho, descontando os intervalos para o almoço e para as idas ao café.

Os portugueses adoram a estatísticaMas o país converteu-se à estatística, adora a estatística, ama a estatística e não consegue fazer nada sem recurso a ela. Os políticos que não sabem a tabuada dos quatro, mesmo os presidentes das juntas de freguesia, não prescindem da estatística. Anotam quantos cigarros fumam por dia, quantos cafés tomam, quantos eleitores evitam nos curtos trajectos que fazem a pé, quantas horas faltam para o fim de semana. Os treinadores de futebol não as dispensam, a não ser o Sr José Mourinho cuja cabeça, dizem, regista e tem memória de tudo. Os outros sabem os jogadores que têm por escalão etário, os minutos que cada um deles jogou, as vezes que foi ao dentista, o número de vezes que teve a ousadia de fazer caretas ao árbitro.

Mas a estatística usa-se como muleta e não serve para nada. Ainda hoje os jornais revelam que os alunos do nono ano de escolaridade tiveram médias negativas a Português e a Matemática. Como se ninguém soubesse, toda a gente abre a boca de espanto e mostra ameaçadores incisivos cavalares. Exploram-se os resultados: as raparigas são menos más a português, os rapazes a matemática. Os ricos têm as melhores notas, os pobres as piores, como a maior parte das coisas na vida. A situação é preocupante, o país pensante engendra soluções sem mais perda de tempo, desenha manifestos de intenções. E vai-se ficar por aí, pelos apelos de mãos à obra e pelas intenções. É o país do mãos à obra e das intenções, mas nunca sai disso. Nem se atira à obra nem se aventura para além das intenções, mesmo que o povo diga que o inferno está cheio delas. E das boas! Para o ano a cena vai repetir-se, com este ministro ou com outro. Vão invocar-se hábitos gregos e desgraças nigerianas, comparar resultados, ver que tudo vai como dantes. Vai repetir-se o espanto e a exibição do corta-palha, com os incisivos menos ameaçadores porque já cederão à cárie e ao mau hálito.

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janeiro 28, 2004

O alegre ministério da justiça e do riso

A nova ministra da justiça e do risoO povo português tem a fama, e claramente o proveito, de ser um povo triste e macambúzio. De forma que se justificava e, mais do que isso, se aplaude com entusiasmo a decisão de agora ter mudado a denominação daquilo que tem sido conhecido apenas por ministério da justiça. Uma coisa intangível, que ninguém vê, que amiúde se diz que é cega, que não funciona e que vem sendo superiormente dirigida pela Dra Celeste Cardona. Portanto, mudou-se-lhe o nome! Congratulamo-nos como cidadãos e como eleitores. Felicitamos o primeiro ministro e todos os ministros de estado. Desejamos à nova ministra as maiores venturas no exercício das suas altas funções. Recomendamos ao bastonário dos advogados que se mantenha atento, para aprender porque a Dra Celeste não será ministra toda a vida.

Teve o Dr Barroso a fortuna de ter à mão, disponível, a Dra Celeste para o exercício do cargo. Ela, que para além das funções de estado, mantém viva a sua veia de humorista burlesca, admiradora da "stand up comedy" que eu não sei bem o que é mas que me faz rir muito. A propósito de uma questão relacionada com descontos para a segurança social que o seu ministério não pagou, emitiu ontem um comunicado que é uma autêntica sinfonia do riso em oito pontos e um epílogo a que faltam, infelizmente, as ilustrações do Sr José Vilhena. O país está em boas mãos, está bem entregue, podem fazer ressuscitar o Dr Salazar. Não é preciso que faça de novo o mesmo trajecto de antanho, ele ressuscitará como morreu: convencido de que continua a ser o primeiro ministro. E deixem que o seja por um dia, que tal tempo basta.

A Dra Celeste que não conhece tradição nenhuma, muito menos a inglesa, saberá então da sua demissão à boa maneira dele. Na manhã seguinte, pelas páginas do Correio da Manhã. Amén!

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É a cultura, estúpido!

in Grande ReportagemOlhe doutor, estive quase tentado a tratá-lo assim mesmo, só por doutor, depois da trabalheira que me deu escrever o seu nome direito. É que eu sou à antiga, escrevo de papel e caneta de verdade, sempre que me engano amasso a folha, deito-a para o cesto e recomeço tudo de novo. E o seu nome é complicado, não é o Manuel Maria, é o apelido, o Carrilho, parecia-me haver sempre para ali uma perna a mais, muitas letras dobradas, sabe como é, a ileteracia. Mas cada vez que quase me decidia pela desistência lembrava-me daquela cena do Vasco Santana a dizer. "chapéus há muitos, seu palerma!" e ressaltava-me a analogia porque doutores também há muitos. Então persisti, gastei quase meia resma de papel, tive de encher duas vezes o depósito da caneta, ocorreu-me e visitei o seu sítio na internet. Graças a Deus! Ajudou-me muito!

Que sublime! É nestas coisas que de facto se reconhece, mesmo que parcialmente e por defeito, o nível cultural das pessoas e a exigência elementar em relação à decoração das casas de banho onde lavam as mãos, ajeitam os cabelos e arreiam as calças para sentarem o traseiro imaculado na sanita da Vista Alegre. Desde logo a elevação da mensagem de acolhimento, na primeira página: "não há nada pior que o catastrofismo que se segue a uma derrota - a não ser, talvez, o ilusionismo sobre as suas causas.". Só a palavra "catastrofismo" obrigou-me a ir ao dicionário três vezes, só encontrava catano e catarro, ainda agora vou a pé, de regresso a casa, a repeti-la continuamente, a ver se se me solta a língua e me não atrapalho quando a pronuncio. Sobre o ilusionismo percebo, já vi, tem a ver com aquelas coisas impossíveis que faz o Sr Luís de Matos que já uma vez, no velho Calhabé, pôs com um aperto de dedos o meu filho a deitar moedas de euro pelo nariz.

Sabe que, de malandrice, que eu posso ser meio analfabeto - cada vez me dizem mais: és como o país, não te preocupes! - mas não sou burro de todo, pedi ao meu filho, o mesmo, aquele das moedas de euro pelo nariz, e fomos pesquisar a internet para vermos o sítio do Dr Pedro Santana Lopes. Sabe o que encontrámos? Um sítio com uma página só escrita, nem uma fotografia, o texto mal arrumado, com o título escrito a vermelho - devia ser dirigido aos amigos dele! - a dizer: "Biografia (oficial) de Pedro Santana Lopes.". Assim mesmo: oficial! Ele devia ter era a coragem do doutor, andar de namoro com a D. Bárbara, assumir a relação, ir de braço dado com ela às festas da Operação Triunfo, casar-se, fazer-lhe um filho. Em público, à vista de toda a gente, menos essa de lhe fazer o filho, está bom de ver. Havia de ser bonito! Cada namoro, um filho. Cinco registados no registo civil, por causa do subsídio, sei lá eu quantos sem registo, mais os do estrangeiro, nas visitas de trabalho político, com passaporte diplomático. Aquilo é cada cavadela, cada minhoca! Logo pela data de nascimento: dia de S. Pedro! Então isso admite-se? São Pedro é santo da Afurada, nem do Porto! Em Lisboa tem que ser Santo António ou então não tem perfil. Aldrabe o registo, suborne o conservador, diga que a mãe se enganou nas contas, que a pai até estava para as campanhas de África há dois anos, mas trate de corrigir o bilhete de identidade.

Depois vem com aquela do povo esperar de um político obras e não filosofia. É parvo! Obras o povo espera dos construtores civis. Da filosofia não espera nada. Dos políticos, com sua licença doutor, o povo só espera merda! Mas o doutor digo-lhe, assim equipado como nessa fotografia que lhe mando para acrescentar ao seu sítio na internet, não tem rival. Um trolha bem vestido, com gravata ao pescoço e sapatos engraxados. Com educação e com estudos, que sabe falar seja com quem for, até com estrangeiros. Pode até ir ao biscate a casa da Dra Manuela Leite, para desentupir a pia e reparar a torneira do bidé. Vai olhar para si e não vai sequer ter o desplante de lhe perguntar se o doutor passa recibo. Um trolha assim, distinto. Era o que faltava!

Publicado por LFV em 05:41 PM | Comentários (1) | TrackBack

A visão incompleta do Dr Cadilhe

A oração e a folia andam de mãos dadas. A agradecer!Desde que acabei a catequese e fiz a comunhão solene que tenho em relação aos milagres a mesma esquisita convicção que tenho em relação às bruxas: não acredito neles mas sei que existem. Mas esta manhã, quando na casa de banho e de boca aberta fazia por escovar os caninos, a escova caiu-me e quase mudava de opinião. O Dr Cadilhe pronunciava-se claramente sobre algumas obras de grande dimensão que o país - de pequena dimensão, não vá nenhum de nós continuar a pensar o contrário! - realizou nos últimos tempos, desde a Expo 98, ao Porto capital europeia da cultura e aos dez estádios para o Euro 2004. Classificava todas essas obras, por palavras dele, de burrices e de investimentos ostensivos de interesse duvidoso.

Imaginei a cena, de imediato. Para dizer o que disse, tão objectivamente como se não fosse economista e se nunca tivesse ocupado nenhum lugar político, obviamente, tinha tido uma visão, houvera inspiração divina que o influenciara. Provavelmente nos engarrafamentos de trânsito, no IC 19, sentado no banco de trás do automóvel, em plena hora de ponta enquanto o motorista fardado, de boné convenientemente enfiado na cabeça, tocava continuamente a buzina para evitar dizer palavrões. Teria nessa altura, como um vidente motorizado, visto uma Senhora que flutuava à sua frente, como se viesse da Amadora, que lhe tocara a inspiração e a consciência.

Mas quando me ergui de novo, depois de ter apanhado a escova do chão, rapidamente concluí que afinal a visão do Dr Cadilhe fora apenas parcial. Ou que não fora a Senhora, ela própria, a aparecer-lhe mas tão só, muito provavelmente, um beato, ainda sem antiguidade e sem currículo. Porque é verdade que tenha havido delapidação de recursos num país que, na Europa, só vai à frente no número de casos de sida e na incompetência com que os trata. Mais: os custos previstos foram sempre de tal forma excedidos que melhor teria sido que as obras tivessem sido confiadas à responsabilidade de engenheiros em vez de ladrões. Nenhum desses desvios, como se sabe, foi alguma vez explicado, nem o vai ser. Os chamados gestores que lideraram os projectos enriqueceram. Em vez de serem responsabilizados foram promovidos. Para continuarem a enriquecer.

Mas o Dr Cadilhe não teve a sorte que a varinha de condão o tivesse tocado com um pouquinho mais de força e lhe pudesse avivar a memória até um pouco mais longe. Se assim tivesse acontecido teria certamente acrescentado mais algumas pérolas da coroa à sua lista. Por mim, que vivo no Porto como ele, apenas pelos jornais sei das diárias peregrinações dos habitantes da Curraleira ao Centro Cultural de Belém onde se prostram na praça fronteira, como muçulmanos, agradecendo a melhoria da qualidade de vida que dali lhes tem advindo. Como no Porto já acontece com os habitantes escarranchados pela encosta dos Guindais, que rezam e se mudam de armas e bagagens a abrigar-se sob o cimento armado do estádio do Dragão. E que, de certeza, só interromperão as orações quando de dentro do estádio chegar o urro eufórico e colectivo de um golo do Pauleta.

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janeiro 27, 2004

O Iraque e as armas de destruição maciça

É assim: não nos assiste, nunca, o direito de duvidar de pessoas de bem, que sacrificam as suas carreiras, o seu desafogo financeiro, as suas idas ao futebol e, até, as suas próprias famílias ao serviço público e ao interesse nacional. Nunca duvidámos de que Saddam Hussein fosse um perigo para a Terra, para a Lua e, se ainda não tivesse sido denunciado e preso, nesta altura seria já também um perigo para Marte. Pode acontecer que se conclua que não há vida no planeta vermelho - tenho um palpite de que esta designação será convenientemente suprimida! - mas, continuando Saddam em liberdade - depois do Iraque ter sido libertado, porque até aí o não estava - não haveria nenhuma remota probabilidade de que a viesse a haver. Assim fica essa possibilidade em aberto quando o planeta for colonizado e os colonos o ocuparem como já fazem na faixa de Gaza.

Também nunca duvidámos de W. Bush, que pode ser impropriamente burro, atrozmente analfabeto, supinamente cretino mas nunca mentiroso com o medo do inferno e o receio de perder, como o pai, a eleição para o segundo mandato. O mesmo acontece em relação ao seu primeiro ajudante, como se fosse um secretário de estado português, Tony Blair, caricata figura de um inferior concurso do Big Brother, meio sósia de Julio Iglesias sem ouvido para a música e com uma voz de cana rachada. E ainda, por maioria de razão, porque é português como nós, porque tarimbou no MRPP como o Dr Pacheco Pereira, empunhou cartazes com citações de Mao Tse Tung, converteu-se pela mão do Dr Santana Lopes e é amigo do George com quem às vezes toma o pequeno almoço, não duvidamos do muito nosso Dr Barroso.

Todos afirmaram ter visto provas irrebatíveis da existência das armas de destruição maciça do Sr Saddam. Que as poderia accionar em menos de quarenta e cinco minutos e fazer tudo em fanicos. Ninguém, de bom senso, terá duvidado disso. Quando o W. Bush mandou parar a guerra, assim como a tinha mandado começar, toda aquela gente se empenhou na procura dessas armas. Ainda as não encontraram. O que, claramente, prova duas coisas. Que o Sr Saddam, afinal, não era tão rápido a accionar essas armas como diziam todos os relatórios ultra-secretos que o Sr Bush guarda no bolso do casaco. Mas que, afinal também, era muito mais eficaz a escondê-las. Tão bem o fez que nem ele as encontrou. Muito menos os outros. Daqui a umas centenas de anos, quando o petróleo for coisa do passado que já não serve para nada, hão-de as gerações futuras andar a escavar as tórridas areias do deserto à procura delas. Nessa altura terão um valor arqueológico incalculável, como os fósseis dos honrados e verdadeiros dirigentes que souberam da sua existência. E a proclamaram aos quatro ventos.

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Afinal há esperança para o caso W. Bush

Um dos mais velhos mitos da ciência médica, segundo leio, é o de que o cérebro dos adultos já não tem capacidade para crescer. O mito parece ter sido agora derrubado, depois de uma investigação sobre malabarismo de circo, realizada por uma universidade alemã.

O trabalho dos investigadores parece ter provado que o volume do cérebro aumenta, quer dizer cresce, quando se aprende a controlar os movimentos para fazer malabarismos. A aprendizagem de lançar três bolas ao ar e conseguir mantê-las aí aumenta o volume da matéria cinzenta do cérebro, o que vem provar que novos estímulos lhe alteram a estrutura.

Sendo W. Bush um homem dado a muitos e variados malabarismos acredita-se que possa vir a melhorar o seu comportamento e o seu desempenho desde que aprenda a controlar os movimentos para realizar esses malabarismos. O que leva a humanidade, lentamente, a voltar a acreditar que o seu caso clínico não é uma caso totalmente perdido. Sempre poderá haver a possibilidade de recuperação parcial.

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A fama do macho português vem de longe

Como a fama do brandy Constantino e da vitela do Barroso. O Zézé Camarinha é apenas um exemplo, distribuído em folhetos de propaganda turística durante o Verão, para uso externo. Não olha a meios para atingir os fins e não se preocupa com pormenores insignificantes. Tudo isto, e muito mais, decorre de um estudo realizado pela Deco.

Antes do mais o português gosta de fazer sexo como os antigos trapezistas voavam na cúpula das tendas dos circos, isto é, sem rede. Por isso mesmo dispensa o preservativo, essencialmente porque é caro, ao contrário do totoloto. Mas quando têm disponibilidades não descuram a segurança e, para a aumentar, usam-nos aos pares porque dois sempre são mais seguros do que um.

Quase metade dos inquiridos acha que a sida se pode transmitir pela picada de insectos, embora às vezes não saiba se um pardal é um insecto ou um primata. Ou através das tampas das sanitas de casas de banho públicas onde, como se sabe, se encontram escritos todos os tipos inimagináveis de ordinarices. Algumas das quais se não transmitem por esta via, mas por outra qualquer. Talvez até mesmo por carta armadilhada, devidamente expedida por correio azul, com franquia paga e tudo.

O estudo foi realizado em Portugal, Espanha, Bélgica e Itália. Por uma vez, lideramos o grupo: somos os mais ignorantes. E não é por falta de prática e de elementos para estudo: o país é também o caso mais alarmante da União Europeia no que respeita a casos de sida. Mais de 22.000 estão recenseados e no conjunto as estimativas apontam para alguns 50.000. Não é também por falta de reformas do ensino: cada ministro tem feito a sua e alguns têm mesmo feito mais do que uma. Sem que alguma vez alguém tivesse percebido como as fizeram e para que serviram. Mas as reformas são a grande paixão de todos os ministros, especialmente quando são pagas pela Caixa Geral de Aposentações!

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O surrealismo do país real e justo

A Dra Celeste Cardona é, no momento em que redigimos este apontamento, a ministra da justiça deste país de Pachecos: o Luís, o José e os outros. Personalidade destacada na hierarquia do partido do Dr Portas e do Estado. O que fez até agora como ministra, não sabemos. O que antes tinha feito como deputada, também não sabemos. Como todos os políticos de profissão, que nunca souberam fazer nada, pela-se por ser apanhada pelas Câmaras: ajeita o cabelo, aperta o casaco, esboça trejeitos de pose. Mesmo depois de completadas estas notas, vai continuar a ser ministra. Em Portugal está sempre tudo bem e essa é uma das particularidades que faz de nós todos indefectíveis portugueses. Tivesséssemos nascido espanhois ou lituanos, devidamente portadores de passaporte e tudo, até recenseados nos serviços consulares da embaixada, já teríamos requerido a nacionalidade portuguesa. Estaríamos à espera porque este é o país em que se espera sempre e em que se espera por tudo. E, como tu cantas Chico, quem espera nunca alcança!

Espera-se tudo e tanto que já ninguém reage quando o Estado se rouba a si próprio e vai a correr apresentar a participação ao seguro, a ver se arrecada a indemnização. Como um vigarista vulgar, sem o génio empreendedor do Sr Alves dos Reis. A quem todos os governos ainda devem a singela homenagem de uma placa toponímica, à esquina do edifífio do ministério das finanças. Durante o ano passado o ministério da justiça contratou a título precário algumas centenas de trabalhadores. Fê-lo ao abrigo das leis, portarias e demais regras que orientam o ministério do Dr Bagão Félix. Se a relação foi precária foi apenas porque é assim que melhor se acautelam os legítimos direitos dos trabalhadores e se lhes prepara o radioso futuro. Deles, dos filhos e muito provavelmente dos netos.

Soube-se agora que o ministério da justiça fez a todos esses trabalhadores, como a legislação em vigor obriga, os descontos devidos à segurança social. Depois, com a naturalidade do ministro David Justino e a boca desdentada à custa da mentira, esqueceu-se de fazer a respectiva entrega, à semelhança do que exige aos privados. Pergunta-se: mas não é tudo Estado, a justiça e o trabalho? Os descontos já estavam do lado de lá, não era? Era, se nos referíssemos às contribuições devidas pelas entidades patronais. Mas estão em causa também, e principalmente, os descontos feitos aos vencimentos dos trabalhadores. O ministério da justiça, como um tesoureiro sem face e sem nome, arrecadou os descontos e depois, ao fim do dia, perdeu-se - por esquecimento, naturalmente! - no regresso a casa e foi gastando por conta. Do Cais do Sodré às docas. A ministra vai repreendê-lo e dizer-lhe que teria sido melhor pedir um adiantamento por conta do ordenado. E vai solicitar ao seu colega do trabalho que agora autorize o pagamento em suaves prestações, sem pressas e sem juros. Pretensão que muito justamente será deferida, mesmo que venha a demorar algum tempo.

Ambos vão continuar a ser ministros, para desgraça do país e para enriquecimento dos currículos. O Zé vai continuar a limitar-se ao comentário inconsequente: coisa de políticos, são todos iguais!

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Discretamente, sem mediatização excessiva

Fábio fez 13 anos na sexta-feira. Inês completaria 3 anos em Março. Filhos de uma família pobre de Adão-Lobo, Cadaval, os dois menores morreram no sábado, por intoxicação, quando tomavam banho em casa. As gentes do lugar estão de rastos. "Homens e mulheres, tudo chora".

Este é o sub-título do apontamento de Joaquim Eduardo Oliveira, publicado no jornal 24 Horas do dia 26 e intitulado: "Fuga de gás mata duas crianças em aldeia do Cadaval". Não houve directos nem câmaras à porta. Nenhum jornalista montou guarda, ao relento, durante a noite. Não me apercebi, até agora, da metralha das palavras e da iniquidade dos adjectivos. Segundo a notícia, uma professora primária percorreu no domingo todas as ruas do lugar, com um propósito de misericórdia: angariar fundos para o funeral de Fábio e de Inês.

Pessoalmente espero que esta devotada professora primária tenha atingido os seus objectivos. Não será certamente pela falta da mediatização que as crianças serão menos choradas e que o seu funeral terá menos dignidade. É preciso é saber destrinçar o trigo do joio e o essencial do acessório. O que, neste país, é quase sempre uma tarefa inatingível, muito mais complicada do que possa parecer.

Publicado por LFV em 11:32 AM | Comentários (0) | TrackBack

É época de saldos: baixem os preços!

Não conheço pessoalmente ou de vista o Sr Vasco Pulido Valente. Pelo que ouço e pelo que de vez em quando leio, imagino-o uma pessoa irascível, perfeitamente intratável, indomável, que não seria nunca capaz de se sujeitar à ditadura de voto do PSD na questão do aborto. Por exemplo. E que até é capaz de julgar que engravidar é pura e simplesmente um disparate.

No resto, não sendo também um conhecedor profundo, admiro-lhe a escrita escorreita e breve, o poder de síntese, a subtileza da ironia, a atrocidade do sarcasmo e a frase curta. Quase sempre como um directo ao queixo. E os directos ao queixo, recorde-se, não têm muitas vezes qualquer razoabilidade. Tem andado arredio das colunas, creio que por doença. Tem feito falta, espero que esteja melhor, formulo votos de rápida recuperação. Faça qualquer coisa, mexa-se, entregue-se à escrita, recupere a coluna.

Registo todavia que, contrariando as ideias do Sr José de Mello, logo que anuncia o regresso proclama que "a dura verdade é que Espanha não nos quer anexar". Fico naturalmente deprimido. Eu, que não tendo no loteamento do país os mesmos interesses do Sr Mello, já me via com possibilidades financeiras para, uma vez por outra, ir a Chamartin para ver o Real de Madrid, deglutir umas tapas e aviar uns copos.

Mas se as coisas são como diz o Sr Valente deve, mais do que nunca, fazer-se aquilo que aqui eu já sugeria uns dias atrás. A época é de saldos, cortem mais nos preços, façam gratuitamente os arranjos às baínhas, não debitem encargos financeiros. Mas não aceitem devoluções!

Publicado por LFV em 11:06 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 26, 2004

Santana Lopes é pobre e mal agradecido

A campanha por LisboaSantana Lopes apareceu sábado passado em Famalicão, para jantar, envolto em bruma e nevoeiro. Como D. Sebastião que, mais uma vez, se atrasou e não o acompanhou. Sentiu-se bem - havia, segundo os jornais, muitas mulheres a olharem-no fascinadas - e deu-se ao cuidado, ao que parece, de percorrer todas as mesas. Acabou a elogiar o Dr Barroso e o professor Cavaco e a criticar o Dr Monteiro e o Dr Ferro.

Compreendem-se os elogios e as críticas, salvo no caso do Dr Ferro por ser grosseiramente injusta. De facto o Dr Ferro pretende, em 2006, disputar o lugar do Dr Barroso, não o seu. E tanto assim é que o partido que dirige, preocupado com a indecisão volátil do Dr Santana Lopes, decidiu por bem dar-lhe uma ajuda. Como por Lisboa já havia poucos paineis em que o mesmo fizesse auto-propaganda, resolveu espalhar mais alguns.

Num deles parece que se vê uma mulher cuja mala é roubada por esticão, que grita: "Socorro! Estou a ser assaltada!! Faça alguma coisa Dr Santana Lopes". E num outro aparece a imagem de uma fila de trânsito ao lado da qual uma criança chora e diz: "Pai, mãe, quando é que me vêm buscar? Ouviu Dr Santana Lopes?".

Para dois problemas distintos o Partido Socialista entende que apenas o Dr Santana Lopes é solução. Para o divulgar gasta uma fortuna em paineis que espalha pela cidade, depois de pagas as taxas devidas - pensa-se, claro! - à Câmara de que o Dr Santana é presidente. Põe os apelos lancinantes na boca de seres frágeis, como uma mulher indefesa a ser assaltada e uma criança que se angustia na espera dos pais que não chegam. Ambos chamam a atenção dele, como única tábua de salvação, a divina providência, a fada madrinha e é por ele que clamam. Nem sequer pela Senhora de Fátima, que mora mais longe!

E que fez ele? Em vez de se portar como um distinto cavalheiro, agradecer e convidar o Dr Ferro para almoçar no Tavares Rico, a expensas do erário municipal, que é trabalho político, dispara a apanhar a auto-estrada com destino a Famalicão. Na esperança tonta de ser recebido por moçoilas minhotas à antiga, vestindo trajes regionais e carregando quilogramas de ouro ao pescoço. Bem fica ciente de que o Dr Ferro não cai noutra igual, mesmo que a isso o aconselhem os seus idiotas assessores de comunicação. Os próximos paineis, se os houver, trarão o Dr Carrilho nos braços da D Bárbara, sorrindo felizes do Alto da Graça!

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Sei o que penso, mas como não sou só eu…

Um dos meus própositos é rir-me deste indescritível país que temos. Para evitar chorar, porque acabaria a não fazer mais nada. O absurdo e a ironia são das mais violentas formas de crítica, é uma convicção minha. Desde que se consiga atingi-los - o que é extraordinariamente difícil! - e desde que se consiga que sejam entendidos. O que por vezes resulta tão difícil como chegar-lhes.

Nunca acreditei muito no homem dos sete instrumentos: acaba por não ser virtuoso em nenhum. O máximo que vi até hoje, e mal, foi um quase sem abrigo percorrer as ruas do Porto, à procura de alguns níqueis, desancando sem descanso um tambor com uns pratos em cima e soprando raivosamente as palhetas de uma harmónica de boca. Já há tempos que deixei de o ver mas nunca me chegaram rumores de que tenha sido contratado para a Praça da Alegria ou para o Coliseu.

Sobre as ideias que tenho, em especial em relação à vaidade impiedosa, à sobranceria, à omnipresença e à quase omnisciência, sinto-me mais confortado, como se afinal não estivesse assim tão a leste da verdade, quando deparo por aí com coisas destas. Alguma humildade nunca fez mal a ninguém. O que faz mal é a humidade estúpida destes dias de invernia que não cessam!

Entretanto encomendei a uma amiga de peito a tradução deste "post" para grego. Por puro narcisismo. Prometeu-me tê-la pronta dentro de dez anos. Prometi-lhe estar habilitado a lê-la dentro de vinte, para que não julgasse o trabalho inútil. Vamos ambos a tempo. Até porque já ambos, no dia a dia, nos vemos gregos com milhentas situações!

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José Veiga mudou de profissão

José Veiga, conhecido empresário de futebol que representou alguns dos nomes mais sonantes da actividade, viu o seu próspero negócio iniciar o declínio. Acontece com tudo e com todos. Já mais raro é que empresários portugueses reajam assim, de imediato e sem tibiezas, aos destinos da sorte e dos seus desígnios.

Sem hesitar, José Veiga mudou de profissão e enveredou pela medicina. Alternativa, cremos nós, por causa dos estágios e dos tempos necessários para a especialidade. E de seguida declarou: "Mário Jardel não é um caso desportivo, é um caso clínico". Segundo parece Jardel não lhe terá seguido as pisadas: nem mudou de profissão, nem foi à consulta. E até tratou o novo clínico de charlatão para cima.

Publicado por LFV em 11:59 AM | Comentários (0) | TrackBack

Que ao menos isto dê para parar e pensar

Fehér: a morte no palco, aos 24 anos.Ontem à noite, de forma trágica, um rapaz de 24 anos de idade que jogava futebol, envergando a camisola do Benfica, tombou em plena arena. Jogava como profissional e, se calhar também, como apaixonado pelo jogo da bola. A nossa convicção é a que terá morrido em curtos minutos, tendo sido infrutíferas todas as acções que tentaram reanimá-lo.

Um livro de Mário de Carvalho tem por título "Seria bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto". E seria! Perante uma situação consumada e irreversível seria bom que se parasse por cinco minutos, para readquirir a tranquilidade necessária. E depois disso se pensasse durante outros cinco. Para, clinicamente, determinar de que morreu Fehér. E depois para analisar, exaustivamente, que condições permitiram que isso tivesse acontecido em pleno palco.

Preocupa-nos que em 2002, ao serviço do Oliveira de Frades - segundo cremos! - um futebolista tivesse tombado também no decurso do jogo. E preocupa-nos ainda muito mais que hoje, passados dois anos, se continue por saber quais as causas da morte desse atleta. Não deixa também de, em relação ao caso de ontem, ser preocupante que alguma comunicação social, a começar pela estação de televisão que financeiramente todos suportamos, conservar jornalistas inultilmente às portas do hospital, a não ser por inqualificável vocação mórbida. E que se invoque uma grande pressão mediática, que obviamente não existe e que não é importante, para querer saber, ainda quase de madrugada, a hora de realização da autópsia, a composição de equipa médica, os procedimentos técnicos, as lesões eventualmente detectadas, e por aí fora. A pressão mediática a que impropriamente se alude é uma criação artificial de um hipotético jornalismo que, mais que artificial é falso.

Mesmo aqueles que vivem sem ética, sem deontologia e sem princípios porque ninguém lhos ensinou, deveriam ter, nestas alturas, alguém de elementar bom senso que lhes desse alguma sensata orientação. Que pudesse ter na vida outro objectivo que não apenas o de vender detergentes a qualquer preço. Por respeito por aquele rapaz húngaro, de 24 anos de idade, definitivamente caído numa fracção de segundo.

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janeiro 25, 2004

O Boavista elege novos corpos sociais

Dr João Loureiro derrota presidente anteriorOs jornais noticiaram que, em acto eleitoral realizado no sábado, que registou uma nunca vista afluência às urnas - nem mesmo o referendo sobre o aborto correu assim! - a lista única, encabeçada pelo Dr João Loureiro, foi eleita com cem por cento dos votos.

No seu discurso de vitória, proferido em pleno Bessa, claramente virado para o Castelo do Queijo, o presidente eleito anunciou cortar com o passado e representar o início de uma nova era no clube e na sociedade desportiva. Manifestou ainda o objectivo de resolver a difícil situação financeira, uma pesada herança da direcção cessante, e de levar por diante um conjunto de obras a que a mesma direcção nunca deu a merecida importância. Os novos dirigentes vão ainda reinvindicar junto dos poderes públicos, locais, nacionais e europeus, a correcção de injustiças relativas à construção do novo estádio. Pensam, todos eles, no final do mandato vir a ser agraciados, muito justamente, com a medalha de ouro de mérito desportivo, a ser entregue pelo presidente da república da altura, em sessão a realizar especialmente para o efeito.

Às comemorações da vitória associaram-se o Sr Manuel do Laço e o Dr Lello que efusivamente aplaudiram com palmas cada palavra, excepto quando foram feitas referências à direcção anterior, que vaiaram ruidosamente como se ocupassem as galerias de S. Bento.

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O último segredo de Fátima

O Dr Manuel Monteiro, presidente do Partido da Nova Democracia por voto dos militantes e por vontade de Deus, foi o superiormente designado para ontem, na Cova da Iria, ter revelado o derradeiro segredo de Fátima que a vidente Lúcia tem conservado desde as aparições de 1917. Fê-lo, ao que foi divulgado, à sombra da centenária azinheira adjacente à capelinha das aparições, embora não houvesse sol e o tempo estivesse morrinhento e de nevoeiro.

Foi ele o escolhido para ser cabeça de lista às eleições que em Junho próximo se realizam para o parlamento europeu, contra todas as expectativas, incluindo a dele. Muito honrado com a escolha da tropa fandanga que o segue declarou ter os pés bem assentes na terra e que, para já, tinha dúvidas sobre a inclusão de elementos da sociedade civil nas listas do seu partido. A afirmação permitiu estreitar o conceito de sociedade civil, que continua em desenvolvimento, tendo agora sido excluídos os militantes de todos os partidos políticos. Determinados sectores de outras ruidosas tropas fandangas manifestam a convicção de que os Srs. Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira virão também pronunciar-se sobre o assunto nos próximos dias, excluindo da já residual sociedade civil os associados dos seus clubes, independentemente do tempo a que o sejam e da subscrição ou não de lugares cativos nos novos estádios.

Antes que fosse tarde o Dr Monteiro aproveitou também para declarar o seu apoio à candidatura do professor Cavaco à presidência da república, ainda mesmo que este decida não se candidatar. Do mesmo modo prometeu desde já uma revisão da constituição onde o presidente da república deixe de ser um verbo de encher e passe a acumular a chefia das forças armadas e do governo. Numa segunda fase poderá ainda vir a tutelar as presidências das câmaras e das juntas de freguesia, incluindo Felgueiras, via telemóvel.

A geração dos filhos dos nossos filhos há-de considerar, certeira e justificadamente, que fomos uma geração com sorte porque desde Aljubarrota que não tinha havido um Dr Monteiro assim, que se assemelhasse tanto ao Santo Condestável.

Publicado por LFV em 11:18 PM | Comentários (0) | TrackBack

José de Mello sugere o loteamento do país

O Expresso, semanário com um elevado preço de referência, provocou ontem uma certa agitação que se prolongou pelo dia de hoje, especialmente nos adros das igrejas antes da missa das onze. Isto porque, em primeiro lugar, o Sr José António Saraiva veio declarar o país atordoado, perplexo e hesitante sobre o rumo a seguir. Concluindo que ser português é muito perigoso.

Acto simultâneo, e no mesmo semanário, o Sr José de Mello adiantou a solução para o problema, sugerindo que o país fosse dividido em três lotes, se aproveitasse a época dos saldos e se passasse a patacos enquanto é tempo e os castelhanos estão dispostos a dar alguma coisa por ele, mesmo que seja com pagamento diferido. Sem cobrar juros.

Entretanto, sendo domingo, depois da missa o país foi almoçar fora, passou a tarde a ouvir os relatos da bola, viu a prédica do professor Marcelo já noite caída e espera pelo desenvolvimento da situação amanhã, segunda-feira, dia útil, com a bolsa a funcionar e sem nenhuma greve da função pública em marcha.

Se tudo der certo a missa do próximo domingo pode já vir a ser dita em castelhano e o Sr José António Camacho poderá abandonar de vez as explicações de português em que quase não tem registado progressos. Crê-se que por falta de aplicação!

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janeiro 24, 2004

Os maus alunos com orelhas de burro

O esforço é inútil, é Santo António a pregar aos peixinhos!Gabo-lhe o gosto e reconheço-lhe o esforço, mas é inútil. Ficará o mestre escola para a história por se ter dedicado, gratuitamente e nos seus tempos livres, à tentativa vã de ensinar retardados alunos que abandonaram as carteiras antes de terminada a escolaridade obrigatória. Mas é a mesma coisa que Santo António ir para o Cais do Sodré pregar aos peixinhos, quando o Tejo tinha naquela zona mais que dejectos e preservativos usados flutuando a caminho do mar.

Depois, para mais sendo crianças problemáticas, não devem sentir-se discriminadas e por isso se mostram apreensivas. Deveriam ser também chamados para junto do quadro aqueles que ficaram nas carteiras, para que se não sintam menos que estes. E para que nós não corramos o risco imprevisível de se julgarem espertos. Se é por falta de orelhas que cheguem, trata-se do assunto já no princípio da semana. Vou a uma loja dos trezentos e compro uma dúzia delas que, com prazer e gratuitamente, enviarei pelo correio. Será o meu contributo para que o país se componha mais um pouco e comece a apresentar-se em público sem ser apenas usando uma minúscula tanga.

Publicado por LFV em 10:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

Novela Fátima Felgueiras, 384.º episódio: acabá-la !

Gestão da câmara à distância.O Tribunal Constitucional produziu um acordão em que declara ilegal a suspensão do mandato de presidente da câmara da santinha de Felgueiras, politicamente exilada há oito meses na cosmopolita praia do Leblon, depois de ter fugido do país via Madrid.

Prestimosa, a pública e falida televisão do Dr Sarmento, ainda não entregue à "sociedade civil", reservou tempo de satélite para poder ter a senhora à mesa da D. Judite Seara, por alturas do telejornal. As coisas não correram assim tão bem e praticamente não se passou da voz ao telemóvel. As poucas imagens que chegaram à Europa mostraram uma senhora descuidada, com os cabelos em desalinho, nitidamente apanhada pelo convite da televisão entre um mergulho e duas braçadas, quase a caminho da esplanada e da cerveja da tarde.

Quanto aos costumes disse tudo e mais. Que não sabe o que vai fazer porque para isso tem advogados e vai precisar de aconselhamento. Quanto aos ordenados em falta, juntamente com a sua merecida e magra pensão de reforma, que lha mendem já, e em euros porque o dólar está como se sabe. Entretanto, nada a impede de dirigir a câmara a partir do Rio de Janeiro, utilizando telefones, telemóveis e satélites sempre que isso for necessário. E socorrendo-se dos fiéis paus mandados que deixou em sua substituição. Sempre será mais agradável e cómodo do que dirigir a câmara a partir de Custoias ou de Vale de Judeus que não têm condições para que ali monte gabinete.

Sobre o caso, para que a D. Judite entendesse, repetiu-lhe ene vezes que os tribunais são para julgar maltrapilhos e pilha-galinhas. Não se compreende que se preocupem com uma pessoa trabalhadora e honrada como ela a não ser por intromissão do poder judicial no poder político. E a não ser também para acabá-la!

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O auto do Pimenta e do Magalhães com 2 jogos do Euro para entreter

Guimarães: foi ali que começaram os fenómenos!Porque hoje é sábado. Um sábado de inverno, triste, nevoento, com a humidade densa a cair pelas paredes e a acariciar os troncos rugosos dos plátanos do largo. Gostaria de esperar tranquilamente que a noite chegasse e que houvesse um concerto. Que Toquinho entrasse no palco, se sentasse no banco descaído sobre a esquerda, afagasse as cordas tensas do seu violão e gemesse, ao acaso, alguns acordes sem pauta e sem destino. Que depois entrasse ele mesmo, Vinicius, com ar desajeitado e trôpego, já de copo na mão, a voz rouca e macia dos trópicos. A ternura da poesia fazendo a sala transbordar pelo tecto, a música fingida, nunca foi o seu destino. Os aplausos ecoando pelos cantos, agitando as cortinas, fazendo o ar quente subir até aos holofotes. Não pode ser assim!

Podia ao menos permanecer em casa, resguardar-me do sábado, ao menos deste sábado assim, de inverno. E ouvir sozinho, sem a presença de nenhum deles, que a saudade leva já mais de dez anos. Enquanto me perguntaria porque razão o tempo passa tão ligeiro e a saudade nos fica tão profunda, a desgastar-nos, quando as pessoas partem assim, sem aviso prévio, sem passagem marcada e sem bilhete de regresso. Mas não vale a pena, o fatalismo é não sermos exactamente nada disto, nem o contrário.

Mas não me deixa o país que abandone o corpo ao recosto no sofá e o sentimento livre como pardal matreiro a saltitar largo adiante, a esconder-se em qualquer arbusto que ameace rebentar em folhas. Não! O país é assim, como um "teenager" que perde as noites a fio, que nunca dorme, que nunca tem sono. Que não deixa ninguém descansado como se todo ele fosse Entroncamento, só feito de nabos de três quilos e cenouras de cinquenta centímetros. Entroncamento de uma ponta à outra, de Afonso Henriques ao Dr Jorge Sampaio, sem nenhum intervalo de sessenta anos a meio para que os Filipes fossem donos da península. E tudo começou por lá, por aquele Entroncamento que é Guimarães, de onde partiu D. Afonso Henriques a fugir à frente da mãe armada de uma vassoura, a querer partir-lha nos costados nobres e robustos.

A Câmara doou, o Pimenta comprou!Como nos ensinaram livros de história que o Dr. Salazar mandou escrever assim, heroico partiu, feito mata-mouros, a conquistar castelos e cidades, foi expandindo a fé e o império, a perder de vista. Tal fenómeno acho depois ter sido sempre repetido nas naus que partiram do Largo das Oliveiras, com Gonçalves Zarco à procura do reino credor do régulo Alberto João. E por aí fora, nenhumas naus partiram de Sagres, nem o Infante nasceu no Porto, tudo ficção científica da época, como a história mal contada de Pedro Álvares Cabral partir do largo fronteiro ao castelo, com destino à Índia.

Ainda agora, o auto do Pimenta, com Magalhães como protagonista e o estádio, caro de meter medo, para ver dois jogos do Euro 2004, com bilhetes a preços de candonga. Pode o Sr Cesariny viver muitos anos e descansar quando for tempo de o mudarem para o panteão, merecido descanso depois de ter sido preciso avisar toda a gente. Tem seguidores e de rima fácil, como se fossem Aleixos que o tempo há-de reconhecer e fazer editar em cartilha. O Magalhães, presidente da Câmara, afirma que só agora percebeu, à custa da ajuda de juristas e de comprimidos para a azia, que a câmara doou o estádio ao clube. Diz o Pimenta que não, que lho comprou por uma porcaria de mil contos, menos do que o clube do Miguel Sousa Tavares paga a um júnior a quem ainda fornece casa, cama e roupa lavada. E que nisso foi a câmara beneficiada, tratante a tirar proveito do negócio, poupando em dez anos mais de 400 mil contos em despesas de manutenção.

Isto é tudo surrealista de mais, eu sei, para mim e para vocês. A câmara doou, o Pimenta comprou e quem deu enriqueceu. Depois a câmara pagou obras no que deu, o Estado deu dinheiro sem saber a quem. A câmara mandou plantar, por obrigação, painéis gigantes em propriedade alheia porque assim lho exigiram. O caso vai acabar mal com o Pimenta a pedir a indemnização. Estou com a cabeça feita em água, nem tenho comprimidos para a enxaqueca nem juristas licenciados por Coimbra para o auxílio. Acho que nisto há coisas que não batem certo, por isso de início me deu para o sentimento, era tão bom ao menos ouvir Vinicius trazer-me o sonho de bandeja, proteger-me do frio, da humidade e do novoeiro. Porque hoje é sábado.

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janeiro 23, 2004

Sra. Eva: vida passada, rosto tranquilo

Senhora Eva, S. Tomé. Fotografia de Carlos Pinto Coelho Sem comentários. Há imagens que valem mais que todas as palavras que se digam.
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Alguém quer fazer o favor de me explicar?

Este "post" não é, naturalmente, um convite aos políticos. Os políticos não se convidam: fazem-se convidados. Sem darmos por ela, com pezinhos de lã, estão sentados a banquetear-se à mesa do orçamento. A comer do que é bom e a beber do que é melhor, à conta do Zé. E como é de borla vai sempre mais uma pratada, faz-se sempre o sacrifício de mais um copo. A bem do empanzinanço vai sempre mais um cozido à portuguesa, como lembrava José Rodrigues Miguéis.

Mas pode ser um convite à blogosfera. Para que alguém, mais informado do que eu, me explique porque razão, sistematicamente, os políticos optam por cargos que eles dizem precários e mal remunerados, em detrimento de carreiras estáveis, bem remuneradas e com direito a mordomias que passam à margem do fisco e dos impostos. Nunca percebi qual a razão que leva um católico a escolher ser ministro, ter um ordenado de mil contos mensais, dispor de três automóveis de topo de gama com motorista às ordens e receber despesas de representação de outros quinhentos contos. E depois, como tutela de uma qualquer empresa pública, nomear administradores que ganham o triplo, ficam com os automóveis ao fim de três anos e têm motoristas fardados que nem sequer são forçados a conduzir em transgressão, a mais de 120 quilómetros por hora nas auto-estradas. Por muito que me esforce, não o compreendo e dou por mim, sempre, a pensar que os políticos são simplesmente masoquistas. Muito mais do que patriotas, empenhados de alma e coração na defesa do interesse público, como mentirosos professores me ensinaram na escola.

Esta situação é especialmente evidente no caso dos autarcas, nomeadamente dos presidentes de câmara. Todos dizem não estar e nunca ter estado agarrados ao poder, mas são contra a limitação de mandatos. Eternizam-se nos cargos, como o Sr Narciso Miranda que, mais do que ninguém, nunca quis o poder e não está preso a ele. Mas que sempre teve o cuidado de deixar a cadeira da câmara ocupada interinamente, para poder regressar. Como já regressou quando achou que ser secretário de estado do mar era água a mais para a sua cisterna. Persistentemente afixam cartazes a enaltecer as obras sem dimensão e sem significado. Que, mesmo assim, na maioria dos casos, nem sequer promoveram. Como o Dr Santana, o Dr Soares filho, o Dr Gomes carago ou o engenheiro Nuno Cardoso.

O Porto, creio, nesta pouca vergonha leva incomensurável vantagem a Lisboa. Há dias o presidente da Câmara anterior, Nuno Cardoso, andou a passear-se pela cidade para que o fotografassem de frente e de perfil, para a ilustração da entrevista. A cidade, dizia ele, estava parada. O que é inquestionavelmente verdade. Já assim tinha sido com ele e, antes dele, com o Dr Gomes, carago. Antes do Dr Gomes, carago, também! E, para exemplificar, foi invocando exemplos que, se fosse homem de bom senso, teria feito por esquecer.

Casa da Música, PortoMaus exemplos, todos, que nem os enumero. Sobre os outros sim, já pergunto. Um túnel a construir há mais de dez anos, parado durante mais de cinco, com uma extensão de alguns mil metros, entre a Praça Filipa de Lencastre e o Largo do Carregal. As obras da Porto 2001, embargadas pela Câmara no Largo do Infante. As praças de Carlos Alberto de de D, João I, esventradas e deixadas a céu aberto durante meses. A Casa da Música, dita a obra de referência do Porto 2001, ainda não concluída em 2004. Onde os desvios financeiros - creio que em ambos os sentidos - elevaram os custos de 75 para 99 milhões de euros. Para que se perceba melhor, de 15 para 20 milhões de contos, mais um terço. O que corresponde a cerca de 70.000 salários mínimos! A própria Casa da Música pondera agora encomendar uma auditoria que investigue o aumento dos custos, no mandato da anterior equipa de gestão, é claro!

Eu acho que estas situações justificam algumas coisas ou até, provavelmente, muitas coisas. Creio que começo a perceber a apetência pelo desempenho de cargos políticos. A bem do interesse público. E a bem do interesse privado também!

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Porque deixam esquecida Guilhermina Suggia?

Guilhermina Suggia: as ruínas da casa da Rua da AlegriaGuilhermina Suggia nasceu no Porto em 27 de Junho de 1885 onde também faleceu em 30 de Julho de 1950, pouco depois de completar 65 anos de idade. A cidade, com descuido e quase envergonhada, conserva-lhe o nome numa rua nova, a caminho das Antas, não muito longe da Rua da Alegria e da casa onde ancorou e morreu.

Considerada uma menina prodígio, começou a estudar violoncelo com cinco anos e completou os seus estudos no Conservatório de Leipzig com dezoito, beneficiando da ajuda da rainha D. Amélia. A sua primeira aparição pública verificou-se quando tinha sete anos de idade, em Matosinhos e a última em Aveiro, em 31 de Maio de 1950, dois meses antes da morte.

Conheceu o sucesso nos mais diversos palcos, trabalhando um instrumento que, até aí, pura e simplesmente se não considerava aconselhável a mulheres. Em 1924, com a intenção de ajudar os pais e de passar a dispor de residência longe de Londres, adquiriu casa no Porto. Aqui veio a casar-se, tardiamente, depois de completados 42 anos de idade. Em 1923 foi agraciada pelo governo português com a Ordem de Santiago de Espada e em 1938 distinguida com a Medalha de Ouro da cidade do Porto.

Do seu casamento tardio, com o radiologista José Casimiro Mena, não houve filhos. Mais de cinquenta anos passados sobre a data da sua morte o seu nome é respeitado como instrumentista de excepção pelos cantos da Europa, agora quase de todo liberta de fronteiras. Quanto à casa que foi a sua, aquela onde expirou, na Rua da Alegria, está no estado que, embora mal, a imagem evidencia. Porquê e por culpa de quem?

Publicado por LFV em 04:03 PM | Comentários (1) | TrackBack

Pormenores de linguagem

O peso das palavrasNa introdução aos noticiários da manhã tem a TSF, referindo-se à greve da função pública e invocando não sabemos nem quem nem o quê, persistido em divulgar a "expectativa de um grande sucesso". No corpo da notícia é possível ouvirem-se declarações do Sr Carvalho da Silva, conhecido dirigente sindical, sem que nenhuma delas se refira a nada que se pareça com qualquer alusão ao sucesso. Não nos apercebemos que de mais declarações tivessem sido difundidas, fossem de quem fossem.

As palavras, para além de escritas com ortografia correcta, com acentos graves e circunflexos nos sítios devidos, têm um sentido e um significado. Têm peso e medida. Da ortografia não é possível, regra geral, avaliar quando se ouvem os noticiários radiofónicos. Mas sobre o sentido e o peso das palavras já é possível fazer uma ideia.

Apenas por isso nos ocorreu deixar aqui pendurada a inquietação. Porque a escrita é um trabalho de rigor, como a relojoaria. Uma palavra mal escolhida deturpa o pensamento mais lógico e mais elevado. Como um parafuso demasiado comprido que atravessa de lado a lado a caixa de ouro do relógio. E perguntamos apenas se alguma greve, seja onde for e feita por quem for, pode representar algum sucesso para alguém?

Neste caso concreto, a ser um sucesso dos grevistas estes, está claro, teriam conseguido que a ministra das finanças desse o dito por não dito e concordado em aumentar os salários da função pública na ordem dos cinco por cento. Um sucesso do governo seria ter conseguido aquilo que pretende, ou seja, ter reduzido 200.000 elementos ao efectivo dos funcionários. Algum destes objectivos foi ou será conseguido?

Publicado por LFV em 09:48 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 22, 2004

A Madeira mandou cá o cobrador do fraque

O cobrador do fraque da MadeiraPensávamos que apenas a vocação colonialista, que o Dr Portas quer ver consagrada na constituição, nos prendia à Madeira e demais colónias, como as Selvagens e a ilha do Pessegueiro. Entendendo-se, naturalmente, por vocação a despudorada infâmia de lhes subtrair recursos e de os utilizar em proveito próprio. Não comprendíamos até que algumas pessoas, certamente descendentes directos de Miguel de Vasconcelos, pudessem perguntar o que fazia Portugal prolongar a sua presença na Madeira, se até as bananas que de lá nos mandam são pequenas e de qualidade discutível. Ouvi algumas vezes vozes, seguramente menos patrióticas, afiançarem que isso se devia ao medo que o Terreiro do Paço - pelos vistos em vias de mudança definitiva por causa do fantasma do Marquês! - tinha do mais velho Alberto João e do seu distinto discípulo Jaime Ramos.

Tudo porque, diziam, a potência colonizadora se não farta de enviar dinheiro para a Madeira e porque esta ainda se farta menos de o esbanjar em foguetórios de ano novo. Ao menos, antigamente, a metrópole - segundo nos disseram - ia mandando desembargadores que sempre contribuíam para manter o gentio na ordem. Também custava dinheiro, mas sempre era menos. Agora não! O país, ao fim de novecentos anos de conturbada vida, está senil de todo. À força do progresso da química e do enriquecimento da americana Pfizer, mesmo velho, já não fica à espera de qualquer jovem de peito agressivo e tornozelo ao léu, até à coxa roliça. Não! Perde-se à vista de qualquer puta velha e sabida, de cabelo ralo, verrugas no nariz e adiposas mamas a chegarem ao presumível sítio do umbigo. Encomenda champanhe, genuíno, da Bairrada, à garrafa, para mexer com uma palhinha e disfarçadamente entornar debaixo da mesa. Até ao coma alcoólico!

Pelo amor tardio, espaçado e não correspondido, acaba por dar mundos e prometer fundos. As promessas, sabemo-lo há quase trinta anos, são a arma política que mais facilmente submete os portugueses. Não que os trespasse, de lado a lado, mas chega-lhes ao sentimento e, até à lágrima ao canto do olho, são menos que três tempos. Ao menos o Dr Salazar não prometia nada a ninguém. Por isso morreu velho, solteiro e virgem. E tarde! Agora não! O país é um mãos largas, esbanjador, como se nada lhe custasse a ganhar, o que até é inteiramente verdade. E promete, promete, promete!

Poucas vezes cumpre. Por ter mudado de ideias e arranjado namorada nova? Nada disso! Apenas porque vive à sua imagem, acima das suas possibilidades, imitando os outros e fingindo que está rico à custa da herança do tio do Brasil. Algumas promessas de casamento acabam em tribunal e ali se mantêm, em segredo de justiça. Sem publicidade e sem sentença. Quando esta tarda muito, o que, para variar, é quase sempre, o credor faz ele próprio as suas diligências, com ameaças veladas e o punho cerrado, preparado para o soco. Como agora que, da Madeira, mandou o cobrador do fraque.

Reuniu com o conselho quase todo, incluindo o ministro da porrada, disfarçado por detrás de uma barbicha de três semanas, de quem nem sequer teve medo. Esmerou-se nas maneiras e as palavras denunciavam a leitura recente da D. Paula Bobone. Teve o cuidado de dizer que, desta vez, não vinha pedir nada, isso já o fizera da vez anterior. Agora vinha só pelo pagamento, porque se atrasavam. O Estado devia à Madeira e era bom que pagasse, depressa e com juros. O Estado prometeu que sim, e acredito que com medo do Sr Jaime Ramos!

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Abílio Curto… ou Comprido?

Para esperar pela cerveja da tardeAinda há dias foi formal e solenemente aberto o ano judicial. Como se se tratasse da abertura da época de caça, não fossem os altos responsáveis do sistema apresentarem-se ataviados como se cada um deles fosse o escanção de serviço ao beberete final. Todos produziram discurso e empertigaram o peito para as câmaras de televisão. O bastonário da Ordem dos Advogados disse que era preciso reformar e, por causa das dúvidas, desenvolveu conceitos breves e sintéticos. Não fosse aquela gente toda sair dali a pensar que reforma era a do Dr David Justino, não no papel de ministro mas de vereador da Câmara de Oeiras.

Reafirmou-se, solenemente e em posição de sentido, que a justiça funcionava. Coisa de que nunca ninguém duvidou e de que sempre toda a gente teve a certeza. Às vezes um pouco devagar por ficar à espera de fundos, e por isso mesmo também o bastonário reclamou mais dinheiro para ela. É que, na perspectiva dos arguidos, quanto mais dinheiro houver melhor ela funciona. Arrastando-se! Enquanto aos advogados for sobrando papel e ideias para mais um recurso, dois requerimentos e três bilhetes da Carris para juntar aos processos.

Ainda agora! Tanto tempo se passou já que Abílio Curto, ex-presidente socialista da Câmara da Guarda, passou a dar pelo nome de Abílio Comprido. Mas não cumprido, não haja equívocos! Vão completar-se seis anos que foi condenado a seis anos de prisão por crime de corrupção passiva. A que o povo, abreviada e ignorantemente, chama roubo e, ao que o pratica, simplesmente ladrão. Ele e o processo são o exemplo acabado de que a justiça funciona. Havendo dinheiro, foi havendo recursos. Passados seis anos um jornal titula em letras grandes: Abílio Curto - o bilhete de identidade mantém-se por actualizar! - na iminência de ser preso. Avisando-o, para que, via Madrid, parta ao encontro de Fátima Felgueiras, se esse for o seu desejo. Em Copacabana poderão partilhar o mesmo guarda-sol, contendo as despesas de exilados, guardando para o tira-gosto e a cerveja da tarde. Estúpidamente gelada, como aconselha Chico Buarque, que sabe da poda!

Publicado por LFV em 09:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

A nova democracia não reciclou o Dr Monteiro

A vontade incontrolável do Dr Monteiro fazer greve!O Dr Monteiro, presidente da direcção, da assembleia geral, do conselho fiscal e ainda treinador de campo do debutante partido político Nova Democracia confessou que, apesar de nunca ter feito uma greve na vida, mantinha a incontrolável vontade de aderir à paralisação dos funcionários públicos, justificando-a com o assalto à mão armada à classe média. Não sabemos se a greve se a atitude magnânina da ministra das finanças.

Duas conclusões, de imediato. Fica a saber-se, graças ao Dr Monteiro e ao partido de que é proprietário, que em Portugal pertence à classe média quem na função pública tem de ordenado mais de mil euros ou duzentos contos mensais. E ainda que essa condição é extremamente perigosa porque, desde que conhecida, pode estar na origem de assaltos à mão armada, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer local em que haja semáforos, do Intendente ao Saldanha.

A segunda é que o Dr Monteiro abandonou a incontrolável vontade que o motivava pela simples razão do seu partido não ter tido o cuidado de o inscrever atempadamente numa acção de formação em que, previamente, pudesse ter sido reciclado sobre o matéria. Numa escola profissional que funcionasse com a ajuda de fundos comunitários e onde fossem monitores os Srs Carvalho de Silva e João Proença.

Publicado por LFV em 05:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

O presidente do Benfica não levou o viagra

O presidente não foi apetrechado!A questão foi rigorosamente mantida em segredo. Tanto que ninguém sabia de nada, nem o próprio. Mas, à boa maneira portuguesa, os boatos espalharam-se pelos quatro cantos do país. De Miranda do Douro à ponta de Sagres. Toda a gente falou no interesse do Benfica pelo brasileiro Ricardinho que, para se furtar ao frio do Rio de Janeiro, viajou para Lisboa, acompanhado do seu empresário. A banhos! Em Sintra o assunto chegou mesmo aos ouvidos do Dr Seara, ocupado com a gestão da Câmara e o alargamento do IC19. Disse-lho a mulher, que ouvira o diz-se que diz-se nos corredores da televisão, num intervalo da Grande Entrevista.

Nas "roulottes" os vendedores de bifanas e de farturas agitaram-se. Chamaram as mulheres e mobilizaram os filhos para os ajudarem. Entre si comentaram que, afinal, o primeiro ministro tinha razão. A retoma económica aí estava, a dar razão ao governo, ao Dr Vitor Constâncio e, ainda mais importante, ao jornalista independente, Sr Luís Delgado. O Dr Vilarinho reclamou para si parte do mérito, fora a sua presidência a deixar os alicerces preparados. O Sr Camacho antecipou o regresso do fim de semana e pensou que, afinal, sempre lhe davam alguma coisa. Suspirou de alívio: três, em casa, do Sporting, nunca mais. Mentalmente esboçou uma prece: queira Deus o homem traga os músculos em condições. Que não venham já como bife batido, iguais aos dos outros.

Circunspecto, bigode revolto e vestindo à construtor civil, o presidente saiu do hotel onde, por mero acaso e à falta de vaga, se hospedavam o Ricardinho e o empresário. Foi assaltada pelo jornalistas, de espera montada à porta, como numa batida ao javali. Mas sem cães! Quiseram saber do negócio e a curiosidade incomodou o homem, com o Mercedes à espera, no parque privativo. Nem sabia quem era o tal de Ricardinho, muito menos o empresário. Se estavam no hotel, não sabia. Passara por lá sem programa, a beber um aperitivo para o almoço e a verter águas. Simplesmente! Que vissem bem, que mesmo ele nem lá entrara e quem saía nem sequer era ele também. Estava muito contente com o plantel que tem. E com o treinador e todos os sócios, incluindo o Dr Seara. Tudo corria pelo melhor, só taças dos campeões alinhavam-se duas, em lugar de honra, na sala de troféus. Claro que eram também mérito seu, até já era nascido e baptizado. Ainda não estava era rico e não tinha sido eleito presidente. O sorteio para a taça correra bem, nem lhes saíra o Gondomar.

Mais tarde o empresário foi também apertado pelos jornalistas, respondeu a perguntas. Parco de palavras e curto de gestos, aligeirando o sotaque. Confirmou o namoro, embora a custo. Lá acabou a confessar que não tinham passado dos preliminares. O presidente não levara o viagra no bolso. Não dera para mais!

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janeiro 21, 2004

Wanda Stuart, actriz e cantora, quem é?

A pergunta do título tem uma justificação. A pequena afirmou: peço desculpa aos políticos, mas adorava que Pedro Santana Lopes acumulasse funções como presidente da Câmara e ministro da Cultura. Gosta dos artistas e sabe das nosas necessidades. Começando pelo princípio. Como actriz nunca ouvi falar dela porque não vejo as telenovelas do marido da Manuela Moura Guedes. Como cantora também não, mesmo que já tenha sido forçado a ouvir falar da Ágata, Romana e Mónica Sintra. Pode ter estado em alguma das edições do Big Brother mas, infelizmente, nem o regulamento do concurso conheço. Não era obrigatório nos meus tempos do décimo ano e a lacuna vem-me dessa época. Terá andado por alguma das edições do Chuva de Estrelas? Também não sei e não tenho à mão a Catarina Furtado para lho perguntar. Fico a leste, perfeitamente perdido, como qualquer mediano concorrente do Quem quer ser milionário quando lhe perguntam que rio passa pelo Porto. E ele, rapidamente, responde o rio Sado.

Quanto a essa de gostar que o Pedrinho acumulasse, também ele gostava, mesmo que já acumule uma série de coisas. Mas é uma questão de vocação e a dele é de facto acumular. Biscates! Se ele gosta ou não dos artistas, não sei. Das artistas, mesmo que não sejam cantoras, não me ficam dúvidas. E não lhe fica mal o gosto. Saber das vossas necessidades, não estou tão certo. Pelo menos dos artistas em sentido lato. Sabe muito mais das necessidades dos inveterados da batota. E das ganâncias do chino Stanley Ho, por causa do casino em Lisboa. Que servirá de casa de acolhimento à maioria dos sem abrigo da capital. E vá lá que a pequena, seja ela quem for, se conteve e parou a tempo com as acumulações. Porque ele já tenta acumular mais coisas e vai levando a umas festas pessoas que o tomam a sério. Algumas delas que, tragicamente, até são sérias. Não é verdade senhora D. Agustina?

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O aumento dos transportes não tem nada a ver com a inflacção

O aumento dos transportes e a inflacçãoDou graças a Deus por sempre ter conseguido conservar o pouco bom senso que tenho e nunca me ter sindicalizado. Se o tivesse alguma vez feito, hoje teria sido o dia de rasgar o cartão e gritar os mais ordinários impropérios contra os Srs João Proença e Carvalho da Silva. Nunca admitiria ter dois gajos a tempo inteiro ao serviço dos trabalhadores e depois, nessa condição, saber-me grosseiramente enganado como se fosse um corno.

Hoje foram noticiados aumentos dos transportes de cerca de quatro por cento, o dobro da taxa de inflacção programada para o ano em curso. Meio mundo desatou aos gritos face à constatação e o ministro Carmona foi metendo os pés pelas mãos e tentando justificar aquilo que não tem justificação.

À tarde, com o discurso fluido e rico que se lhe conhece, a ministra das finanças veio explicar tudo: o aumento dos transportes não tem nada a ver com a inflacção. Ponto final. Se há pessoas de quem eu não duvido, nunca, é dos ministros. Dos secretários de estado já às vezes duvido alguma coisa. Aqui, não duvidando da senhora, descobri-me enganado. Pelos sindicatos, pelos seus dirigentes e por toda a gente de um modo geral.

Se o aumento dos transportes não tem nada a ver com a inflacção é natural também que não tenha nada a ver com os trabalhadores. Se calhar até nem tem mesmo nada a ver com o país nem com a União Europeia. É uma questão de aguardar pelo regresso da Dra Manuela da sua próxima ida a Bruxelas. As centrais sindicais ainda vão ter que se retractar e ir, de corda ao pescoço, apresentar desculpas à ministra.

Publicado por LFV em 06:34 PM | Comentários (2) | TrackBack

É preciso mudar mentalidades e promover o trabalho parcial

Dr Bagão: o alargamento da licença de partoO Dr Bagão é claramente um homem de convicções. Erradas, mas convicções. Não fossem elas erradas e, perdoem-nos os seus apóstolos, já ele teria deixado de frequentar o estádio da Luz, pagar as quotas e manter-se como sócio de pleno direito. Só alguém erradamente convicto continuará esperançado, ao fim de oito anos, que aquela equipa possa ganhar o campeonato, a taça de Portugal e a taça UEFA. Só alguém assim, elegendo presidentes à imagem do plantel, pode acreditar que o único reforço de que a equipa necessita seja, talvez, o Sr Camacho a jogar a defesa esquerdo. Para subir pelo seu corredor, até à linha de fundo e centrar para a área como muito gosta de dizer o Gabriel Alves, o José Hermano Saraiva do futebol.

Há dias manifestou o Dr Bagão, a par de uma inimaginável surpresa, uma outra convicção. Admirou-se que as mulheres pudessem continuar a ser discriminadas no trabalho por virtude do seu eventual estado de gravidez e da posterior licença de parto. Admite-se-lhe a surpresa! Quem não sabe como vai o Benfica, mesmo quando religiosamente marca presença nas assembleias gerais, pode até admirar-se pelo facto das mulheres que trabalham também engravidarem. Mas, mesmo com dificuldades e com muita falta de tempo, lá vão levando a curz ao calvário e, uma vez por outra, também engravidam. Conhecedor da situação, prometeu envidar esforços no sentido de a alterar e está no mercado. À procura de assessores, como o ministro da defesa.

Para já lançou o alargamento da licença de parto, alargando-o por mais duas semanas. Não está de acordo com isso o Sr. Van Zeller que é quem, apesar do apelido pouco português, sabe de mulheres grávidas, licenças de parto e indústria portuguesa. Reconhece que as mulheres são de facto discriminadas no trabalho onde são preteridas aos homens. Que, para já, ainda não engravidam, mesmo que já se possam casar por aí fora. Mas entende que o alargamento da licença de parto não resolve coisa nenhuma e, se não resolve, não deve ser levado por diante. Devem é mudar-se as mentalidades e promover o trabalho a tempo parcial, diz ele.

Mas as mentalidades já o Dr Bagão mudou, mesmo que tenha sido à força de decreto. Mais que o trabalho parcial, está promovido o desemprego, E, como se sabe, essa promoção vão continuar, sendo certo que o exercício dessa situação de há muito está sujeito às regras do tempo parcial e da precaridade.

Publicado por LFV em 05:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 20, 2004

A histórica normalidade do país virtuoso e do IP-3

A heroica epopeia do IP-3Uma das virtudes dos regimes democráticos, escreve muitas vezes o Sr José Manuel Fernandes, que já podia ter mandado cópias traduzidas ao governador geral das terras do tio Sam, é o pluralismo. O pluralismo assegura, à partida, que a nossa opinião pode ser emitida, será ouvida e, se nos deixarem, será a única. Como não deixam, acontece exactamente o inverso, ou quase. Podemos emitir a nossa opinião desde que ninguém a ouça ou veja ou a difunda.

Isto para dizer que, para garantir o pluralismo em termos de informação que eu próprio recolho, leio de tudo. Olho para os títulos de todos os jornais nos expositores dos quiosques e, uma vez por outra, compro um ou outro que nem sequer sei folhear. Apenas para me assegurar que o país funciona, que o segredo de justiça está garantido e que o Dr Alberto João prossegue na sua luta titânica pela independência das ilhas.

Um desses jornais tem hoje um título de primeira página perfeitamente tranquilizador: Abuso nas contas do IP3. No texto, nas páginas interiores, diz-se que foram construídos, no tempo perfeitamente recorde de vinte anos, nada menos que 158 quilómetros ao preço unitário, absolutamente de saldo, de 700 mil contos. A evolução da obra tem corrido tão bem que já só falta construir 116 quilómetros que, a manter-se o ritmo da construção dos anteriores, deverão estar prontos ainda antes do ano de 2020. A construção concluída revelou-se um sucesso em todos os aspectos e em todos os vinte anos já decorridos, gerando o consenso político tão raro na nossa sociedade. Nenhum governo até agora, e foram vários, classificou a obra como sendo uma inqualificável herança do passado e dos governos anteriores. Paralelamente todos eles, desde o professor Cavaco, tiveram a oportunidade de visitar as obras com um capacete amarela enfiado na cabeça e de inaugurar vários bocados mais do que uma vez, com o trânsito cortado e sem necessidade de batedores da polícia a enxutar os mirones.

Como se este quinhão de sucesso ainda não bastasse aquele itinerário principal - foi assim que o baptizaram - confirmou-se, sem nenhum acréscimo de custos, como o mais mortífero do país. O próprio Tribunal de Contas se interessou pelo projecto e emitiu relatório, como é de uso. Nada de especialmente anormal conseguiu apurar e, nada mais do que isso, pôde relatar. A avaliar pelos extractos que seguem:

- Foi frequente a aceitação e aprovação retroactiva de prorrogações de prazo de execução da obra já após a sua conclusão e recepção, fundamentadas em atraso na aprovação de projectos de desvios provisórios, em alterações ao projecto por acréscimo de nós, na indisponibilidade de terrenos, em intempéries e outros.

- O estudo, a proposta, a autorização, a formalização da adjudicação (quase sempre por ajuste directo) e a contratação foram produzidos com efeitos retroactivos, meses depois dos factos consumados.

- Há evidências de não apuramento de responsabilidades, execução de direitos de indemnização ou compensação, cobrança de juros de mora, de multas, negociação financeira de contratos e outros.

- Nas avaliações dos terrenos expropriados, para a planta parcelar da Variante de Castro Daire - Lanço Moura Mora-Arcas os valores de avaliação subiram 30 por cento em 1997 e mais 15 por cento em 1998.

- Apesar de terem apresentado projectos deficientes, a Junta Autónoma de Estradas voltou a adjudicar aos seus autores estudos e projectos complementares, apenas justificados pelas deficiências dos originais.

Tudo está bem, quando acaba bem. Se a providência a isso ajudar, daqui a 20 anos, estarão terminados os quilómetros que ainda faltam, sem que tenha havido lugar a reparos. Pode este governo e, pelo menos, os dois ou três que se lhe vão seguir, governar descansados. Pode o país dormir tranquilo, ver os jogos do Euro na televisão, acompanhar a campanha de qualificação para o mundial, ver a Catarina Furtado ir envelhecendo e levar os netos ao estúdio, o Marco Paulo continuar a ganhar discos de platina. E o primeiro ministro da altura ir a Luanda, ao baptizado da neta do devoto José Eduardo dos Santos, na sua caminhada irreversível para a beatificação. Como os pastorinhos da Cova da Iria!

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Pode ser um meio para sair desta apagada e vil tristeza

E, ainda, constituir mais um seguro indicador da retoma do orgulho e da grandeza nacionais. A que, atento, venerando e obrigado, o jornalista Luís Delgado dedicará uma das suas curtas mas expressivas croniquetas.

Segundo os jornais, dois portugueses, encapuzados e armados, invadiram Espanha, na zona fronteiriça de Verim, e assaltaram uma casa de alterne onde obrigaram 22 brasileiras e não sabemos quantos seguranças a deitarem-se no chão. Diz-se que fugiram com 3.500 euros, cerca de 700 contos. Nem as brasileiras, que estavam em turismo, nem os seguranças, que estavam em serviço, apresentavam sinais de sevícias ou de violação.

O acto leva à constatação de que, afinal, ainda há portugueses valentes que, se tiverem meios à sua disposição, irão à reconquista de Olivença e, mais tarde ou mais cedo, chegarão a Madrid para implantar a república e governar pelo menos durante sessenta anos, até que por lá surja um qualquer D. João IV ao contrário que promova uma revolução e mande atirar à rua um qualquer Miguel de Vasconcelos espanhol.

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A Câmara do Porto e o caso do coveiro de Agramonte

O título deste "post", seguramente, faria as delícias de Agatha Christie e acrescentar-lhe-ia ainda mais uns louros à glória e uns trocados à fortuna. Com pesar meu já ela partiu para morar num sítio que espero mais ajardinado do que Agramonte mas onde creio que serão poucas as probabilidades de conviver com situações tão inspiradoras como esta. Deixo a sugestão ao Francisco - parece que andámos na escola juntos! - que também se interessa pela matéria, penso que com menor proveito mas igual fama. E fica-lhe a ele, ainda, a vantagem de conhecer travessas, ruas, largos e ambientes mesmo que tenha assentado arraiais pelo Sul, etc e tal e coisa porque o resto da lenga-lenga já o autarca Menezes o ensinou em livro exposto nos escaparates.

Torre dos Clérigos, foto de António AmorimO caso, ao que parece, passou-se assim. É época de inverno, até no Porto, porque o frio também chega à província, apesar do progresso e da melhoria das condições de vida dos accionistas do Continente. Depois, indicador irrebatível do progresso da cidade, morre-se muito menos no Porto. A mortalidade infantil tende para níveis a que todos gostaríamos de fixar a inflacção. As pessoas não fazem filhos, ficam-se até tarde a ver a televisão do Dr Sarmento e, como se isso não bastasse, ainda usam preservativos, pílulas e aloquetes a proteger os tesouros dos eventuais assaltos do Ali Bábá e dos seus quarenta ladrões. Nos outros escalões etários o índice de mortalidade tende igualmente para zero, como os aumentos salariais que a ministra das finanças, há dois anos e com muito sacrifício, tem oferecido à função pública. De facto quase não se morre: a cidade está despovoada e ninguém quer ocupar as casas que o Dr Rio tem para alugar, por terem rendas altas.

No inverno, com frio e sem mortos para enterrar, um coveiro, por mais dedicado que seja, está subaproveitado, apercebe-se disso e da necessidade de aumentar a produtividade, deprime-se e enregela. Foi o caso deste que assim chegou ao ponto de já nem sentir os dedos dos pés, ver tolhidos os das mãos e temer pela sua capacidade para trabalhar, se por acaso chegasse algum freguês. Vai daí, foi a uma taberna que ainda sobrevive nas proximidades e comprou uma garrafita de bagaço caseiro, de vinho verde, vindo directamente de Famalicão. Mesmo pela garrafa, bebeu uns poucos goles, para aquecer. Poucos sim, alguns um bocado longos, quase perdia o fôlego é certo, mas poucos. Não estava habituado, subiu-lhe à cabeça, começou a ter vontade de entrar na auto-estrada ao contrário como daqui a pouco faz toda a gente.

Teve azar! Quando já mexia os dedos da mão e o dedo grande do pé direito se lhe animava, surgiu o vereador do pelouro, que não consegui saber se era ou não o engenheiro Gaspar. O homem sentia-se melhor mas nem se levantou, não o conseguiu. Um desrespeito, uma afronta, uma pouca vergonha. O vereador regressou ao seu gabinete, chamou um dos assessores que ainda era capaz de escrever português que se entendesse, incumbiu-o de fazer a participação. Levantou-se um processo disciplinar e fez-se com que este corresse os seus termos normais. Sempre dentro da legalidade, porque a Câmara do Porto pode extorquir os patacos aos munícipes nos parcómetros, mas respeita e venera a legalidade.

Agora o executivo da Câmara vem-se ocupando da punição do coveiro há pelo menos meia dúzia de sessões, duas das quais extraordinárias e ao fim de semana. A questão é complexa, fosse ela simples o as capacidades do vereador teriam chegado para subscrever a punição e o despacho. Mas não! E o assunto subiu a plenário, como se diz em linguagem de manga de alpaca. Pôs a cidade em sobressalto, as moradoras das ilhas trocam opiniões sobre o assunto enquanto estendem a roupa a secar. Ninguém comenta as expulsões que o Boavista sofreu no jogo da luz. Vejam bem, nem sequer o Dr Rio que confessadamente é adepto e sócio com cartão e quotas em dia. Suspensa, a cidade espera que uma decisão seja tomada hoje, para desagravo do vereador. E para castigo do infractor, a quem prometem arranjar mais trabalho e ocupar a tempo inteiro. Para aumentar a produtividade!

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O Metro e as casas de banho

Quase sou tentado a dizer que a situação me persegue como uma fatalidade. Sempre! Quando começo a acomodar-me, a sentir-me mais tranquilo, a encostar-me ao conforto de já ter visto tanto desconforto e a pensar que pouco ou nada há já que possa surpreender-me, de repente, a depressão sobrevem-me. Sinto-a como a frustração que de facto é porque, afinal, o país me surpreende de novo. Corro à farmácia, sem receita médica, a valer-me de conhecimentos antigos e da persuasão que o engenheiro Guterres punha nas palavras, - penso eu, coitado de mim! - a comprar calmantes e comprimidos de ludiomil para dormir.

O Metropolitano de Lisboa. Sem casas de banho!Ainda agora, quando tudo parecia correr tão bem! Quando o major Loureiro, pequenino porque nem os múltiplos cargos que exerce o fizeram crescer mais, esbracejando como é seu hábito, dizia com gritos de muito zangado que o futebol era o que o país tinha de mais exemplar. Quando passados dois dias o mesmo, pela interposta intervenção do filho, elogiava na sala de imprensa do novo estádio da Luz a actuação do árbitro que se limitou a expulsar-lhe dois jogadores. Quando o treinador Mourinho publicamente dizia que o resultado de um a zero ao Braga valia mais do que ser o melhor treinador da Uefa que ele e os seus amigos tinham escolhido pela internet e depois pimba, vai lá ganhar-lhes por três secos. Quando tudo isso me deixava indiferente de todo vêm as casas de banho do Metro de Lisboa. Todas encerradas por falta de segurança.

E qual seria a falta de segurança, questionei-me naturalmente. Isto porque pensava que ninguém, de bexiga cheia ou com cólicas de eminente descarga diarreica, pudesse ser perigoso fosse para o que fosse e fosse para quem fosse. Afinal a fonte - que não a das Sete Bicas, que é na Senhora da Hora! - do Metropolitano de Lisboa adiantou, em segredo e sem revelar o nome, que aquelas instalações eram sobretudo usadas para actos de vandalismo, toxicodependência e mendicidade, pondo em causa a segurança dos utentes. Quer dizer, estava um gajo lá fechado dentro, à rasca de todo, espremendo-se, e vinha de lá um vândalo a rasgar-lhe as calças por debaixo da porta e a cortar-lhe a biqueira dos sapatos. Ou punha-se-lhe um toxicodependente a fumar marijuana à porta ou um mendigo a pedir a moeda para o copo. Só podia ser e, inseguro, não creio que alguém consiga arrear o calhau com a pontaria devida, por mais apertado que esteja. O que também, naturalmente, acabaria a vandalizar as paredes e a pintura, danificando o património da empresa, que é pública.

No Porto, e nem eu pensava que iria chegar aqui e ao desempenho do major como gestor, a situação é diferente porque as estações são à superfície. O Metro do Porto, como metro que é, corre pelas entranhas da terra, tão fundo como na estação do Parque, em Lisboa, para não irmos nem mais longe, nem mais fundo. Depois volta à superfície, quando se encontra com as estações, por causa das casas de banho cuja construção, assim sendo, se não justifica e deixa a obra - de construção - com menores custos e mais curtos desvios. Quanto aos passageiros em aflições, encostam-se disfarçadamente a qualquer parede ou, furtivamente, agacham-se dois metros adentro de qualquer túnel que esteja à mão e baixam as calças. Os pormenores não foram descuidados e, de novo, as coisas surpreendem-me. O que virá a seguir, sabendo-se agora que quem for para o mar se deve aviar em terra. A menos que passe pela estação da Casa da Música, que essa até tem casa de banho. Para os violinistas!

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janeiro 19, 2004

Luís Delgado e a recuperação económica

O asilo do Luís DelgadoO jornalista Luís Delgado, em meia coluna e dois pontos, com a síntese rasteira que permite a inteligência da fotografia que lhe acompanha a prosa, enumera quem já decretou a viragem da economia em Portugal. Para além dele, obviamente. A saber: o Banco de Portugal, o Governo, o BCE, a Comissão, - que não sabemos se será a de moradores do bairro dele! - o FMI e a OCDE. Como com a globalização as coisas correm à velocidade da luz, as linhas direitas do cronista mor ficaram desactualizadas e tortas ainda ontem, enquanto ele via o Benfica na televisão, antes mesmo de verem a luz do dia. Sendo assim, deve o mesmo amanhã fazer publicar uma adenda com os nomes do ministério das finanças, agrupamento dos reformados de Alcabideche, grupo de caçadores da ilha do Corvo, adeptos do Carcavelinhos, candidato à Câmara de Amarante e orgãos sociais da claque dos rapazes de vermelho.

Pergunta ainda se o que enumera chega para os pessimistas e se, por isso, vão agora deixar de o chatear. Ninguém o chateia! E quem parece fazê-lo são os seus amigos que propositadamente fingem que levam a sério aquilo que você diz. Não o fazem por mal, são uns brincalhões, gostam de se divertir. Eles não vão contra a estratégia do governo que lhes paga, - a eles e a si! - congelando aumentos salariais, suprimindo benefícios, encerrando esquadras de polícia e mandando milhares para o desemprego, "vendo", afirmando e repetindo que a retoma está pujante, como se tivesse tomado uma embalagem completa de viagra. São ao menos coerentes com a orientação superior, por maior que seja o ímpeto da bajulice e a ganância do tacho e da mordomia.

Por nós, reconhecemos sempre o mérito aos optimistas, como o senhor Luís Delgado. É bom ver que as pessoas, sabedoras e isentas como ele, esperam sempre o melhor, por pior que seja a amostra. Faz-nos isso lembrar o menino que, no Natal, recebeu como prenda, no sapatinho, uma embalagem com excrementos de cavalo. Quando lhe perguntaram o que tinha recebido, de tão optimista que era, respondeu: um cavalo. E acrescentou a pergunta: não o viram por aí? O senhor Luís Delgado é ainda mais optimista, e mais afortunado também. Recebeu menos que excrementos e já vê mais que fortuna. Bom proveito pá! Para a recuperação económica, é bom que se entenda!

Publicado por LFV em 05:06 PM | Comentários (1) | TrackBack

Os incêndios de Verão e o número de mortos

Diz-se frequentamente que uma desgraça nunca vem só. Mas é mentira. Em Portugal a afirmação é contrariada convictamente pelo governo e pelos organismos oficiais que estão na sua dependência. Em causa, desta vez, e desde Agosto último, o eventual número de mortos causados pela invulgar vaga de calor que assolou a Europa. Os nossos parceiros comunitários divulgaram centenas de mortos, vítimas directas do calor e a OMS emitiu estimativas com a mesma ordem de grandeza.

O nosso ministro da saúde fez um balanço da situação no país, a 4 de Setembro passado: tinham morrido quatro pessoas. Portugal rejubilou, a classe médica viu crescer exponencialmente a procura dos seus serviços, a banca viu reforçados os depósitos feitos pelos médicos. O Zé Povinho, mais pragmático, retesou os músculos como o Popeye, deu dois os três pinotes, esqueceu por momentos metade dos seus problemas e limitou-se a pensar baixinho: essa estrangeirada toda junta não vale uma merda!

O Zé Povinho tem sempre razão!Tinha razão, como tem sempre, o nosso Zé Povinho. De facto aquela gente já nem sequer sucumbia a um certo ar que lhe dava. Pior do que isso, finava-se quase à mínima subida de temperatura como alfaces cultivadas em estufas com temperatura uniforme. Agora, como sempre tarde como também é hábito, vem o INE indicar números que se desviam ligeiramente do balanço do ministro, mesmo com a correcção que este teve o razoável senso de admitir em 4 de Outubro último. E adianta mais de dois mil mortos!

Pequena coisa, tanto mais que a desvios estamos nós habituados. Em tudo: no custo das obras públicas, nos prazos de execução, nos preços de supermercado e nos saldos de caixa. Mais um? Ninguém dá por ele e se der tranquiliza-se: está tudo a correr normalmente. A gente já nem estranha os desvios nos resultados eleitorais, mesmo que rapidamente nos possamos aperceber de que foram demasiado expressivos. Pelo menos para o nosso gosto!


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janeiro 18, 2004

Miguel Sousa Tavares queria dizer o que disse?

George W. Bush: que QI?Miguel Sousa Tavares parece ter provocado um pequeno terramoto um destes dias quando se disse preocupado com o facto de Bin Laden ser infinitamente mais inteligente do que W. Bush. Houve uma certa infelicidade na afirmação, até porque o Miguel nunca encomendou a nenhum gabinete de psicologia qualquer trabalho relacionado com o QI de qualquer daquelas personalidades. Além disso, como é do conhecimento público, nenhuma delas esteve, até hoje, presente no concurso "Quem quer ser milionário" para eventualmente poder esclarecer-se a situação. Depois, que se saiba, Miguel também não sabe árabe e todas as citações de Bin Laden são nessa língua. Entende-se ainda que muito dificilmente poderá ser igualada a brilhante inteligência de W. Bush, quanto mais superada, a avaliar pelas seguintes máximas, dignas de um filósofo de carreira, como aquele que é candidato a Bin Laden: Que QI?candidato à Câmara Municipal de Lisboa:
- É, claramente, um orçamento. Tem imensos números.

- Sei que os seres humanos e os peixes podem coexistir pacificamente.

- Marijuana? Cocaína? Não vou falar do que fiz quando era criança.

- Injustamente, mas com verdade, o nosso partido é acusado de ser contra tudo.

- Se foram despedidos, estão 100% desempregados. Preocupo-me com isso.


O Miguel poderia de facto ter dito as coisas de maneira diferente ou manifestar-se apreensivo com coisas mais objectivas. Por exemplo, com a incomensurável burrice do W. Bush, deixando de lado a inteligência do outro!

Publicado por LFV em 10:43 PM | Comentários (6) | TrackBack

A independência para a ilha do Pessegueiro?

Há apenas dois ou três dias publicámos aqui um post com o título "Agora o problema do país é só a revisão constitucional". Sem vacilar: tínhamos razão e estávamos mais do que certos. Convém que o digamos claramente, para a eventualidade dos nossos dois ou três leitores habituais o não terem entendido assim. Mais: o problema passou a reclamar solução urgente, já em menos de cem dias, para no próximo dia 25 de Abril o Dr Mota Amaral poder misturá-la com os cravos vermelhos na mesa da Assembleia da República.

A colónia da Ilha do PessegueiroPor uma vez, e logo sobre um assunto desta importância, estamos de acordo com a ideia do Dr Portas e sobre a sua pretensão de ver a referência ao anti-colonialismo ser suprimida da constituição. Impondo que o país claramente se assuma como potência colonizadora que tem sido, aliás, a sua vocação histórica. E essa vocação, naturalmente, não sai prejudicada pelo facto de, entretanto, algumas colónias ter ascendido à condição de países soberanos. Não foi pelo facto de se ter perdido a Índia que as tripas à moda do Porto deixaram de condimentar-se com os cominhos e o cravinho.

Agora o que não está certo é a constituição dizer-nos país anti-colonialista e depois, à vista de todos, continuarmos a ocupar os Açores, a Madeira, as Berlengas e até a ilha do Pessegueiro. Mantendo governadores gerais, reservando os melhores lugares para os colonos e seus descendentes e, até, dificultando que os naturais ascendam como deveriam às equipas principais dos clubes que disputam as competições nacionais de futebol. A revisão da constituição deve ainda incluir a referência essencial à nação una e indivisível, do Minho à ilha do Corvo.

As forças independentistas agitam-se e movem-se no terreno cada vez com maiores apoios. Receia-se mesmo que, a curto prazo, possam desencadear-se nas colónias novas guerras de libertação, com as que houve em África. As Canárias, ao que consta, celebraram já um secreto acordo de princípios com a Madeira, representada pelo rebelde Alberto João. Que claramente se confessa cada vez com menos pachorra para aturar este Estado e por isso querer uma autonomia mais avançada, para que os senhores de lá - que são os do Terreiro do Paço e do Intendente - não se incomodarem connosco e nós - os do Curral das Freiras e do Pico do Arieiro - não nos incomodarmos com eles. São duas civilizações diferentes. Uma é inca e a outra claramente mesopotâmica.

Claro que nos arriscamos a perder os ananases dos Açores, muito apreciados nos gelados de Verão, e as bananas da Madeira, muito pouco ou nada apreciadas em qualquer época do ano. As Berlengas farão cair drasticamente a nossa produção de excrementos de gaivota e a costa vicentina deixará de ter o pessêgo ao preço da uva mijona. A menos que rapidamente se altere a constituição e o Dr Portas, mandatado pelo Dr Barroso - porque o respeito é que lhe assegura o emprego! - mande a tropa fandanga de voluntários para a Madeira, depressa e em força! Como noutra época marchou para Angola.

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janeiro 17, 2004

O septuagenário Popeye

Popeye, 75 anos de idadeO Popeye faz hoje setenta e cinco anos. Foi de facto a 17 de Janeiro de 1929, ainda o ministro da marinha não gatinhava, que pela primeira vez surgiu aquele marinheiro desajeitado numa tira diária de um jornal. Irereverente de nascença, respondia à pergunta que lhe faziam a saberem se era um marinheiro perguntando se achavam que era um cowboy. Trazia já consigo a maioria dos sinais particulares que fizeram dele aquilo que é: baixo, careca, feio, com os músculos do antebraço excepcionalmente desenvolvidos. E com um sentido de justiça que muita gente tem plagiado sem pagamento de direitos: bater em todos os que discordavam dele. Democraticamente! Não foram os espinafres que, de início, lhe conferiram a sua inesgotável força sobre-humana, foi uma galinha mágica. Mas as galinhas rapidamente foram remetidas à sua nobre condição de poedeiras e se descobriu o efeito muito mais rápido dos espinafres enlatados. Parabéns pela data e, já agora, quando puderes, passa por este extremo ocidental da Europa onde te arranjamos contas a ajustar com uma série de gente que discorda de tudo e de todos. E que, por maioria de razão, vai discordar de ti também!
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Júlia Pinheiro e o seu homem do futuro

A dita cuja Júlia PinheiroA D Júlia Pinheiro, como devem saber, é aquela apresentadora de televisão que começou por ser não sei o quê antes disso e que, depois, o Dr Rangel levou consigo para a RTP a ganhar um pouco mais do que o salário mínimo. Mas a coligação liderada pelo Dr Barroso, em que manda o Dr Portas, chegou ao Terreiro do Paço trazendo na bagagem uma lista de inscrições para empregos que nem vos conto. Quase maior do que aquela com que o ministro da saúde já acabou e, de certeza, maior do que aquela outra em que ele ainda nem sequer mexeu. Tudo gente nova, habilitada e de elevado potencial, assim um género de jeeps mas não dispostos a arriscar nada de seu e muito mais predispostos a contentarem-se com um lugarzito secundário, que não dê muito nas vistas, mesmo que seja mal remunerado - entre mil e mil e duzentos contos por mês - mas que ao menos dê direito a algumas mordomias adicionais. Um carrito de serviço, para os fins de semana na Quarteira e as férias em Benalmadena, de preferência BMW, série cinco, um cartãozito de crédito para não estar a desembolsar dinheiro próprio nos jantares de amigos, um cartão Galp frota para abastecer o pópó em viagem e uns trocaditos para ajudas de custo porque tudo o que se faz é em representação dos serviços e para bem do país. Nada demais, quaisquer trezentos contos bastam.

Esta mala de inscrições e pedidos de emprego, que era maior do que o saco de recibos de restaurantes e de bilhetes de transportes públicos que o Sr Carlos Cruz mandou o Dr Sá Fernandes levar ao tribunal, provocou de imediato grandes estragos. Com a ajuda de um ministro que fala como fala mas que na porrada dava sempre o primeiro passo em frente, - sem haver nenhum abismo mesmo ali! - aquilo acabou por ser um autêntico terramoto, muito mais devastador do que aquele que fez o Marquês de Pombal ao dar cabo dos Távoras. Nem a escala de Richter tinha tamanho que lhe servisse, como acontece com os calmeirões da NBA quando querem comprar sapatilhas na feira de Espinho. Daí a saírem ela e o Dr Rangel por uma porta das traseiras que ainda comunica com o Hotel Zurique, foi um passo. Da D Júlia não sabemos o que levou, mas consta que o Dr Rangel recebeu uns bons mesitos de subsídio, até porque tinha a mulher desempregada. Esta, mesmo tendo dispensado a mulher a dias - não o homem a dias, que aconselhamos a visitar! - e encarregando-se ela própria das lides da casa, não conseguia recuperar com o seu trabalho doméstico mais do que os cinquenta contos por mês que pagava à empregada. Uma miséria!

O do passado. Do do futuro não há imagens!Mas a D. Júlia teve sorte e pronto, é desenrascada, mexeu-se. Fez muita ginástica em miúda, chegou a ser filiada na federação, uma vez até ficou em segundo lugar num concurso de turma. Era muito boa na barra fixa, acabava sempre os exercícios com um duplo mortal e três piruetas, caía a pé firme, quase não balançava. Firme sim que hirto não, isso é com o bruxo Alexandrino, ao que consta em negociações com o Benfica para tratar do presidente, do treinador e do plantel todo. Sendo assim lá conseguiu emprego na televisão de referência do país, de que não dizemos o nome, mesmo que tivesse sido para programas fora dos horários das telenovelas e das divagações eróticas do professor Marcelo. Para ajudar ao sustento da casa, que ainda tem filhos pequenos e a estudar, a coitada.

Readquiriu o seu estatuto de cromo público, assim um género de figura pública que toda a gente vê e que não quer porque já o tem colado na caderneta. Nessa qualidade deu uma entrevista à revista Lux, uma revista que nunca li, seguramente por javardice minha, que só folheio a TV mais e a Maria para aprender alguma coisa com o consultório sentimental. E disse ela mais ou menos isto: "o homem do futuro prefere fazer compras a fazer sexo, tem uma relação de proximidade com o espelho, pinta as unhas e não tem qualquer problema em frequentar um centro de estética."

A D. Júlia Pinheiro está a referir-se, é claro, ao seu futuro homem, que ninguém sabe se vai ser aquele que ela tem agora, se é que tem algum. Pelo que indica, é mesmo natural que ande já a treinar para se adaptar. O modelo é o de um homem tipo ex-deputado João Morgado que, não fosse o medo de engravidar, a poetisa Natália Correia teria posto de joelhos à conta de uns versos de pé quebrado, em plenos passos perdidos. Mas esse passou do prazo, agora nem já para fazer filhos! Que irá ao Continente comprar paninhos para a louça e sais para o banho de imersão. Não atingimos essa da relação com o espelho que até se pode quebrar e, já agora, para ver o quê? Pinta as unhas e frequenta centros de estética? Oh D. Júlia olhe que esse homem não é o do futuro, não é sequer o que o W. Bush um dia destes vai encomendar aos marcianos! Olhe que já andam por aí muitos que vão à manicura para pintar as unhas e que frequentam locais bem mais coisos do que centros de estética! A senhora anda distraída ou, com a expectativa do futuro, já não repara nos homens do presente!

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A causa é deles, mas perguntar não ofende

Quando um dia destes o Dr. Sampaio falou para aí, por causa de umas cartas anónimas e irrelevantes, muito zangado mas com ar compungido, o Dr Vital Moreira perguntou por que esperava o Dr Souto Moura. E perguntava-lhe ainda mais: se ele tinha percebido a mensagem ou se precisava que lha trocassem por miúdos.

Passados estes dias, com o devido respeito, perguntamos ao Dr Vital Moreira se o blogue lhe deixou já tempo livre suficiente para ir fazer os trocos ao Dr Souto Moura. É que, se foi, não se deu por ela. Nem os jornais o referiram, nem o blogue sequer deu pela sua falta!

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janeiro 16, 2004

A solução para o desemprego

O Dr Bagão resolve o assuntoSegundo os jornais de hoje o desemprego cresceu, no decurso do ano de 2003, à razão de 200 pessoas por dia, 1.400 por semana, 6.000 por mês e, finalmente, 73.000 durante todo o ano. O que corresponde, segundo dizem, a um aumento de cerca de 20 por cento em relação ao número de desempregados registados um ano antes. E, como se sabe, este número peca sempre significativamente por defeito. O número real tenderá sempre a ser bastante maior por força dos desempregados não recenseados.

Como se o magro subsídio de desemprego representasse um aumento qualitativo do nível de vida dos atingidos diz-se também que estes se acomodam até que o prazo do subsídio expire para procurarem trabalho. Esta, parece, é uma das razões que leva o Dr. Bagão a querer reduzir-lhe os respectivos montantes. A outra é fomentar a passagem do desemprego para o âmbito do ministro da saúde, com as inevitáveis consequências da subnutrição. Como na saúde não há esperas, a não ser às portas, o problema nasce resolvido por natureza. É preciso que o engenheiro dos hipermercados reserve duas ruelas no Norte Shopping para lhes dar os nomes das destacadas personalidades. Para as homenagear como merecem!


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A D. Cinha foi recauchutada

Cinha Jardim, marinheira de água doceJá lá vai o tempo em que as recauchutagens eram uma via para o enriquecimento. Actualmente nem o negócio de venda de pneus, ele próprio, é coisa que permita coleccionar notas, construir moradias e arranjar namoradas rapidamente. Tanto assim é que o presidente do Benfica, ainda antes de ser eleito, já tinha mudado para a construção civil onde, apesar da crise, as coisas correm melhor. Ao menos vê-se que os industriais da construção civil, como gostam de ser tratados, disfrutam de um certo desafogo. Veem-se a almoçar aos fins de semana, acompanhadas das mulheres e dos filhos, barulhentos, malcriados e cábulas, em restaurantes da beira da estrada, onde só têm lugar à mesa aqueles que se não negam e se aguentam a enfardar e a beber até às cinco da tarde. Do mesmo modo, não utilizam os transportes públicos e deslocam-se num clássico Mercedes, regra geral trazido em segunda ou terceira mão, de um qualquer país da União Europeia. Mesmo que seja no Porto onde é fino andar naquilo a que o major Loureiro convencionou chamar Metro, entre a Trindade e o Senhor de Matosinhos, bem perto de restaurantes regionais como são as marisqueiras.

Mas a indústria de recauchutagem parece querer animar-se e ganhar um novo fôlego. Para já, vão arranjando clientes, apesar dos preços de roubo que praticam. A D. Cinha, que toda a gente conhece de todo o lado, seja dos programas da bola ou do Big Brother, submeteu à operação, pelos vistos, parte do seu visual. Também era o que mais precisava porque, intelectualmente, está bem graças a Deus e não lhe falta currículo. Do convívio com um secretário de estado ficou-lhe o gosto pela frequência das exposições no casino e pela leitura semanal e imprescindível da Caras. As questões de protocolo, que lhe não eram de todo estranhas, têm sido melhoradas no convívio com um ministro. Até já emite opiniões políticas e, não tarda, é comentadora de uma televisão como o Dr Pacheco. Aprofundou os conhecimentos de inglês convivendo com um futebolista retirado que foi emigrante. O vocabulário da moda e o calão da juventude assimilou-o na tal casa. Quanto a bola, foi à televisão ensinar os Drs Pôncio e Dias Ferreira que não sabiam nada daquilo.

Um jornal independente, sério e nada popularucho, publica-lhe hoje as fotografias de antes e depois da recauchutagem, chamando-lhe simulação. Assinalou com legendas a que é antes e a que é depois. O que nem sequer era preciso. Claramente se vê que numa há pelo menos oitocentos contos a menos do que na outra!


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janeiro 15, 2004

Agora o problema do país é só a revisão constitucional

O país voa como um FerrariO país não marcha. O país corre, voa à mesma velocidade que um Ferrari vermelho vivo conduzido por Michael Schumaker. Que distraidamente alguém pintou de verde e a que chamou Portugal em acção. As soluções surgem mais rápidas que os problemas, os governantes bocejam de tédio com as engrenagens a rodarem soltas, no silêncio eficiente da lubrificação. Temem, e com razão, não terem sequer tema para a primeira campanha eleitoral que chegar e o Dr Santana receia não ter ideias, este ano, para mais do que quatro livros sobre o seu consulado à frente da cultura. Faltam-lhe depois as memórias sobre os torneios de futebol de praia na Figueira da Foz, que os brasileiros invariavelmente ganharam, e sobre um pavilhão multiusos a cuja construção deu o seu beneplácito, com custos cobertos pelo governo central à custa de fundos comunitários. Já na antecipação de que, mais tarde ou mais cedo, aí seria acolhida a cantar a filha da Elis Regina e que, agradecido, um ocasional espectador lhe enviaria uma mensagem para o telemóvel.

A saúde chegou a ser um problema. Já não é. Teve a sorte de ver escolhido um ministro tão bom que nós, se fossêmos ao Dr Barroso, corríamos a encomendar outro, antes que se esgotem. E agora, que a época é propícia, com os saldos em alta, a animar o comércio, e os preços a descer à procura de compradores. Mas o ministro chegou ao gabinete, pediu as listas de espera para as cirurgias nos hospitais públicos, deram-lhe cinquenta versões diferentes, todas más. E as que não eram más eram péssimas. Concovou as televisões para a hora a que abrem os telejornais com a libertação do Iraque e a paz obesa que gera o criminoso desperdício em Monróvia. Mandou que lhe penteassem decentemente o cabelo e lhe pusessem algum betume na face, a disfarçar os buracos como na marginal para o Estoril. À hora marcada estava pronto, sentado a uma secretária de estilo, com a bandeira nacional atrás. Solenemente declarou que ia acabar com aquilo tudo e que ninguém mais ia esperar fosse por que cirurgia fosse. Bastava transformar os hospitais em sociedades anónimas.

Teve sucesso. Pagas, e bem pagas, mandou publicar páginas de anúncios a comunicar o facto ao país, robusto e saudável como nunca esteve. Alguém, malevolamente, referiu as listas para as consultas, um caso menor e sem importância, a atribuir a um qualquer vulgar ajudante de ministro que, informou, ia procurar no mercado. Mas essas, disse, irão resolver-se por si, sozinhas, sem a intervenção do governo ou dos médicos. Uma parte dos doentes atingirá a cura com o tempo e com a ajuda das ciências ocultas. A outra, finar-se-á e a segurança social aumentará razoavelmente os subsídios de funeral, para ajudar.

Conseguido isto, triplicou os vencimentos dos gestores dos hospitais SA e a espera dos estropiados nas urgências. Caso único e raro, no Hospital de S. João - no Porto, não vá o Sr ministro ser mal informado por algum ajudante! - a espera para as cirurgias de otorrino passou a ser de dois curtos anos. Comuns! Com este que corre, que é bissexto, nem sequer chega a isso. Passaram os mesmos mais competentes gestores a poder adquirir automóveis decentes, à ganância, para ficar com eles a troco de dez réis de mel coado passados três anos. E a utilizarem o cartão de crédito até alguns trinta por cento do vencimento, sempre que seja em serviço. Mesmo que político e em Sevilha!

Agora, como sabiamente salientou o querido líder do CDS, o problema do país é a revisão da constituição. Por causa da equidade e do colonialismo. O país não cabe em si de contente, feliz e de barriga cheia. Bom proveito e longa vida, como os iogurtes!

Publicado por LFV em 10:57 PM | Comentários (3) | TrackBack

PSD impõe democraticamente sentido de voto

Apenas para registo. O PSD divulgou que nas discussões que se aproximam na Assembleia da República, relacionadas com a questão do aborto, os seus deputados estão obrigados a respeitar o sentido de voto do partido. Democraticamente! Parece que a decisão está relacionada com o pagamento atrasado de uma letra já vencida que o seu sócio na coligação SA ameaçava apresentar a protesto. O Dr Bernardino Soares, em comentários para os orgãos de comunicação social, manifestou sérias dúvidas sobre a eventualidade do PSD não ser um partido democrático. Muita gente se riu, mas contendo a gargalhada, para não prejudicar a qualidade sonora dos registos.

A título de esclarecimento acrescenta-se apenas que o aborto vem sendo ultimamente referido com "interrupção voluntária da gravidez". Ambos são, em qualquer caso, praticados por mulheres grávidas.

Publicado por LFV em 10:22 PM | Comentários (2) | TrackBack

É o fim da macacada?

É o fim da macacada?Ó tu, semanal, ilustre, preclara e sapientíssima Visão. Ó tu, repórter, correspondente de guerra encartado, director com gabinete, pena de ouro do sindicato, Carlos Cáceres Monteiro. Ó tu, que ultrapassaste todos os escolhos que no caminho para o canudo te espalharam os cinzentos lentes de Coimba, desistente da política onde com pouco esforço terias chegado a presidente da junta de Freamunde, José Carlos Vasconcelos. Ó tu também, frequentador de eventos sociais, íntimo do rei de Espanha desde a infância, tu cá, tu lá, com ele, com a rainha, com os filhos e amanhã com os netos, Francisco Balsemão. Ó ínclita geração da Quinta da Marinha, de filhos, netos e avós, disfarçadamente a espreitar pelas sebes à volta da modesta casa do Sr Manuel Damásio enquanto este assiste ao esforçado treino dos atletas do Estoril Praia. Na esperança vã de divisarem por detrás das cortinas de organdi a D. Margarida a calçar elegantes meias de vidro e sapatinhos de cristal inquebrável importados da Boémia. Ó vós todos juntos, diários e ilustres, regeneradores - para o Dr. Prado Coelho dizer que venho directo do século dezanove, que Deus tem! - e liberais, populares de peixaria e comunistas da Versailles, socialistas a banhos na praia do Vau e sociais democratas com tirocínios feitos na esquerda trotskista ou no bairro dos Olivais!

Esta página põe-me em alvoroço, atormenta-me, apavora-me, deixa-me de todo em pânico. Solto-me em gases e mijo-me pelas pernas, sem conter o fedor e sem outro par de calças para me mudar. Nunca esperei que pudesse ser assim anunciado, solenemente e a cores, numa manhã de quinta-feira, ainda por cima na página vinte e dois, o irreversível fim da macacada. Porque o fim da macacada já é isto tudo, todos os dias. Não há macaco que se conserve quieto no seu galho, pendurado pelo rabo, deliciando-se com a banana que, magnânimo, nos enviou da Madeira o governo regional. Cada macaco invade o galho alheio e parte ao assalto da banana do Dr. Alberto João, salvo seja, para lha roubar. Seja qual for o galho, o macaco é cada vez mais um primata sem ética, sem moral e sem princípios, pecaminosamente cobiçando a macaca alheia e devorando a banana que lhe não pertence.

Então agora o fim da macacada ainda vai ser maior? Os da fotografia, com as mamas protegidas da infâmia da mira libidinosa, o olhar tranquilo de quem acredita no governo e está na disposição de votar nas autárquicas, o aspecto magoado de vítimas sem direitos e a erva ecológica e verde ao canto da boca, também vão entrar na paródia? Ó da polícia, que já ninguém respeita, a não ser o Dr Jorge Coelho e o Dr Figueiredo Lopes, e mesmo assim este por obrigação! Acudam! Partam à obtenção de um mandado e apreendam a edição, enquanto é tempo. Se a notícia se divulga nem quero pensar no que poderá acontecer. Mas já sinto as pernas húmidas e acho que realmente já é do fim da macacada!

Publicado por LFV em 03:33 PM | Comentários (0) | TrackBack

A nossa causa

Alojamento de blogues em Portugal

A nossa causa nada tem a ver com a causa nossa, ou tem muito pouco. Limitamo-nos a viajar pelo mesmo espaço cósmico, utilizando todavia estações interplanetárias diferentes. Uma, a nossa, utiliza uma plataforma nacional, modesta, habilidosa e personalizada. Que vive essencialmente não da filantropia mas claramente da carolice de um devoto e dedicado Paulo Querido. E que tem por morada o endereço que todos conhecemos de cor e que utilizamos. Não é, creio eu, nenhum rancho do Texas nem nenhuma mansão a meio de uma qualquer ilha privada nos mares da Escandinávia. Mas inventam-se soluções e desenrascam-se problemas, à boa maneira portuguesa. Talvez por uma questão de provincianismo sempre gostei - e continuo a gostar! - de ser tratado pelo nome quando entro em qualquer café para me sentar à mesa e, do mesmo modo, gosto de conhecer os empregados e a maioria dos clientes e de poder chamá-los também pelos seus nomes próprios.

A causa deles é mais cosmopolita, a casa é tão grande que nela cabe sempre mais um,, mesmo que seja para almoçar. Tem um plantel de luxo - mesmo que uma ruptura do ligamento cruzado anterior tenha prematuramente posto fim à carreira do Dr. Eduardo Prado Coelho que,, supomos, teria que sentar-se no banco - e, por isso, parte em vantagem. Não contestamos as invidualidades, pelo contrário, respeitamos todas e admiramos a maioria delas. Morem elas onde morarem, não lhes invejamos nem as amplas moradias com jardins relvados e piscinas à volta, nem sequer as limusinas em que se transportam.

Mas a nossa casa é esta, é portuguesa, como a cantiga. Com telha vã e xisto à mostra, a erva dos campos à volta e as geadas de inverno ao amanhecer. Precisa de ajuda para ser mantida, para que se reponha o piso da estrada que nos leva a ela. A Brisa não se preocupa com isso, não há no nosso itinerário portagens a cobrar. Mas vamos encarregar-nos disso nós próprios, passo a passo, solidariamente. Paulo, podes acreditar nisso - passe a liberdade de tratamento - porque todos o vamos conseguir!

Publicado por LFV em 12:21 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 14, 2004

A família Costa faz pela vida

Apesar de alguns lapsos irrelevantes e de um ou outro esquecimento sem importância, como o do Dr David Justino, a família Costa vai fazendo pela vida, que não está fácil, e vai-se desenrascando. Não ganhando muito e mesmo desviando pouco, sempre vai construindo um currículo consistente e sólido. Para a recandidatura em 2006, se nenhum for incluído nas listas para Estrasburgo, já este ano.

A encenação envolve, pelos vistos, a família toda como nos livros da Agatha Christie, dificultando sempre no meio da tramoia e dos afectos a descoberta do criminoso. São casos destes que me levam a acreditar no futuro e a ter confiança nos homens que dirigem o país, com o interesse público sempre presente.

Virgílio Costa é deputado do PSD. Devia ter começado a ser julgado por abuso de confiança fiscal. Faltou. Com ele é também réu um filho seu. O caso: retenção ilícita de contribuições para a Segurança Social. Crimes: dezoito. Virgílio é Abílio Costa, o irmãoainda co-arguido com seu irmão Abílio, também deputado, pelo mesmo assunto, em benefício de empresa de que ambos são sócios. Os dois já estiveram há tempos na berlinda. A filha de Abílio foi designada para a administração do Centro Hospitalar do Vale do Sousa. Já resignou. O filho de Virgílio foi nomeado para a administração do hospital de Famalicão. Ainda lá está. Ambos são advogados em início de carreira. Com largo potencial e muito futuro. A imagem e o orgulho dos pais, quem sai aos seus não degenera!

Senhor Presidente da República! Vem aí, já a menos de seis meses de distância, o dia de Portugal e das Comunidades portuguesas. Condecore-me esta camarilha toda. Família tão unida e tão devotada ao bem comum - dos seus membros - não pode ser esquecida. Ainda que alguns dos seus elementos, por uma razão ou por outra, cometam alguns lapsos, se enganem algumas vezes e se apropriem do que não é deles. Mas garantem-no: repartem tudo entre si, não são egoístas nem semíticos!

Publicado por LFV em 11:22 PM | Comentários (1) | TrackBack

A demagogia como publicidade paga

Num jornal de hoje deparo com uma página inteira de publicidade paga, da responsabilidade do nosso muito estimado Ministério da Saúde. Encabeça-a, a meio, o logotipo estilizado do ministério, acompanhado, simetricamente, por dois logotipos do famoso "Portugal em acção". Segue-se-lhes, em subtítulo: "Hospitais SA - Resultados do 1.º Ano de Empresarialização".

Comecei por consultar o meu dicionário escolar à procura deste último e estapafúrdio termo. Não o encontrei e deduzi que o ministério o inventara. Daí para baixo alinham-se números, que ninguém lê e que menos ainda estudam ou interpretam. Notem-se as saliências ao correr do texto: "Mais saúde. Maior transparência. Maior eficiência. 5,9% Abaixo do Orçamento". Todas as actividades hospitalares registaram um acréscimo. Todos os custos sofreram uma redução. Pode ser tudo inventado, como a querida "empresarialização", que até me custa a soletrar. Nunca aprendi alemão onde a importância das palavras é medida a metro. Como antigamente se mediam os tecidos para os fundilhos das calças.

Os portugueses continuam à espera que os hospitais lhes prestem os cuidados de saúde de que necessitam. Os centros de saúde não têm médicos. Faltam milhares de médicos de família, até mesmo nos grandes centros urbanos. As farmácias e os profissionais de saúde queixam-se do ministério, mais do que nunca, chamando-o literalmente de caloteiro. O ministro está feliz, o primeiro ministro reafirma-lhe a sua inteira confiança, o grupo Mello também. Os serviços seguem a política do anúncio e desbaratam recursos financeiros pelos quais nunca foram responsáveis. O país emprega médicos de leste na construção civil e na limpeza. Hão-de exterminar todas as bactérias e todos os virus. Os mentirosos e os ministros, não. Nem com Shelltox!

Publicado por LFV em 08:50 PM | Comentários (1) | TrackBack

Efeméride

Não é um grande acontecimento. O Almocreve das Petas - que consideramos indispensável ao nosso quotidiano na blogosfera - realça sempre eventos cuja memória reclama, e justifica, mais e melhor atenção.

De qualquer modo completam-se hoje três meses sobre a data em que, neste endereço, publicámos o primeiro "post", anunciando o nascimento do Placard. Três meses, percorridos à velocidade da luz, é muito tempo. Muitos surgiram antes de nós e persistem, fortes e vigorosos. Muitos também apareceram depois de nós e, tão depressa como viram a luz do dia, se volatilizaram, sem chama, sem brilho e sem teima.

Nada desta coisa de blogues sabíamos à partida, pouco mais do que isso sabemos passado este período. Tecnicamente, somos uma desgraça. Conforta-nos a certeza de não estarmos sós, sem que, naturalmente, a ignorância alheia - no bom sentido - contribua para minimizar a nossa.

Diríamos que fizemos conhecimentos e amizades virtuais, - no sentido de intangíveis através da rede - pedimos e recebemos ajuda, manifestámos solidariedade e fomos correspondidos. A disposição e o esforço que se seguirão serão para continuar, fazendo com que as coisas melhorem. Entretanto, e desde já, devemos agradecer a simpática disponibilidade que, para nos ajudar, manifestou esta nossa amiga. Bem haja!

Publicado por LFV em 04:55 PM | Comentários (3) | TrackBack

Desaparecido sem combate

Depois de quase um mês em paradeiro desconhecido, está visto: o Pipi aburguesou-se. Lançou em livro a sua muita erudição, com direito a sessão solene e concorrida como ontem foi a do Dr Santana, ninguém sabendo se este é ou não o verdadeiro Pipi, porque pode sê-lo. E deslumbrou-se.

Depois, garganta há muito boa gente que a tem sem que cante ópera. A fama e o proveito - financeiro, diga-se - traíram-no. Não acostumado às luzes da ribalta, fechou os olhos e ficou mal na fotografia. Quando se viu cercado de admiradoras a quererem tocar-lhe, a custo conseguiu escapulir-se. Ninguém voltou a saber dele.

Paz à sua alma. Se é que o destino ainda conserva alguma coisa de alma a um incógnito tratante daqueles. Que foge ao combate!

Publicado por LFV em 12:17 PM | Comentários (0) | TrackBack

A máxima de uma celebridade mínima

Kennedy. Hoje seria o Santana Lopes português.Na secção "Diz-se" atribui-se a um senhor que dá pelo nome de Rui Verde e publicada no jornal "O Diabo" a seguinte afirmação:

Santana Lopes é o Kennedy português.

É claro que a afirmação se fica a dever ao apelido do seu autor, que precisa de amadurecer primeiro para apenas depois dizer coisas a sério a que alguém, incluindo Mr. Bean, possa dar-lhes o mínimo de crédito.

Santana Lopes. O Kennedy português!Depois, azar teve o Kennedy em ser assassinado tão cedo na vida. Estivesse ele ainda vivo, a caminho de uma provecta idade, e poderia aspirar a ser o Santana Lopes americano. Teria boas probabilidades de disputar as eleições para a presidência, contra o W. Bush, e ganhar.

Como anedota, é do melhor. Como máxima, é ofensivo. Santana Lopes é, desde ontem, uma conceituada figura da cultura portuguesa. Que ele semeou há mais de dez anos e que tanto demorou a medrar - escrevi bem, não sejam maldosos! - até ontem invadir os salões para a apresentação da obra. Os jornais e as televisões editaram as imagens nos intervalos das telenovelas. Não lhes sobrou tempo de antena para emitirem a concentração de empregadas domésticas que se comprimiam à porta, com dísticos.

Publicado por LFV em 10:46 AM | Comentários (2) | TrackBack

janeiro 13, 2004

O TGV e o aumento da riqueza nacional

Senhor primeiro ministro, V. Exa. por assim dizer,

Ainda bem que veio ao Porto para ver que a gente é malta porreira, dão-nos uma malga de caldo verde, uma caneca do verde de Barcelos e um bocado de broa de Avintes e ficamos todos sossegadinhos. Nem no estádio das Antas nos ouvem, mesmo na superior sul de boa memória. Desde que o FCP ganhe e o árbitro se comporte à maneira, senão a conversa é outra, que a gente não está aqui para encher o bandulho a ladrões!

Viu que ontem até lhe deram um par de sapatos, novinhos em folha, da sua medida, nem lhe hão-de magoar os joanetes. Novos, ninguém ainda os tinha usado, nem para um casamento que fosse, ou uma comunhão. Nunca a gente lhe ia oferecer um par de botas como V. Exa. por assim dizer ainda sugeriu. Não! A gente sabe todos que pares de botas não lhe faltam e que, tão bondoso, anda a mandar um a cada contribuinte conjuntamente com o cheque de reembolso do IRS. Só acontece que a medida não é a mesma e eu, que calço trinta e oito, vejo-me de chancas dentro de uma medida quarenta e três. O que vale é que as descalcei mais faciulmente do que o senhor, até aposto, e senão diga-me!

O TGV vai chegar ao Farol da Boa Nova!Ontem ouvi nas notícias que o tal de TGV já vai ser construído e que as obras começarão em 2006. É prudente, carago! Nessa altura jé devem estar acabadas as do Porto 2001, capital europeia da cultura porque, para já, acho que não arranjaria nem trolhas nem carpinteiros de tosco. Ainda estão todos contratados a prazo na Casa da Música, a trabalhar de dia e de noite, para acabar a tempo, que a gente faz questão. Há-de vir para a inauguração, de certeza, e logo vê. Mas ouvi que com o tal de TGV a riqueza ia crescer não sei quê por cento. Isso é que não acho bem, porque é sempre para o mesmo lado. É por isso que lhe escrevo, pelo futuro dos seus filhos, pela longa vida do Pintinho da Costa e pela carreira do FCP na liga dos campeões. Veja lá se arranja maneira de ser a minha pobreza a descer qualquer coisa, não sei quê por cento. É que a vida está cada vez mais difícil na escarpa dos Guindais, uma vergonha. E a gente nunca sabe quando adormece lá em cima e acorda cá em baixo, se não cair ao rio com o balanço.

Publicado por LFV em 07:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Bartoon do Luís Afonso

Somos um povo pacífico, de brandos costumes. Já nem por nos insultarem a mãe andamos para aí à cachaporrada, como no tempo do Afonso Henriques. O Euro 2004 não vai ser um campeonato de porrada em que os vencidos de cada combate, com pernas partidas, braços torcidos, cabeças abertas e olhos vazados vão precisar de urgente assistência hospitalar ou de corredores de bus para os aeroportos. Além disso, disse-o e está farto de o repetir o Sr ministro da saúde, as listas de espera foram extintas. Metade por morte, metade por decreto. Sendo assim, é de muito mau gosto essa dos hospitais e das outras infra-estruturas. A menos que sejamos vencedores, o que pode complicar as coisas. Com a alegria, com a euforia e com um copito a mais, somos indomáveis. Partimos tudo à volta e muitas vezes nos magoamos. Como aconteceu com os miúdos, em França. Mas isso são contas de outro rosário e a Maya já descobriu na bola dela - a de cristal! - que não ganhamos! Por questões de segurança, está bom de ver.

Publicado por LFV em 06:36 PM | Comentários (0) | TrackBack

E depois a comunicação social não quer açaime

Não gosto, prezo-me de ser uma pessoa educada, evito dizer ou escrever palavrões até ao físico limite das minhas forças. Mas porra! Que quer realmente a nossa comunicação social com títulos destes, fora o que vem a seguir?

O Sr Ministro nunca se esquece de nada. Teve um lapso!O articulista é o Sr. José António Cerejo, pronto, não conheço, não sei quem é, não me interessa. Agora o David Justino? Assim mesmo! Nem o Dr., nem o Sr., nem o ministro da educação? Parece que desempenham funções idênticas, perfeitamente intermutáveis, hoje eu sou jornalista enquanto tu és ministro. Amanhã trocamos. Não pode ser, haja respeito. Um ministro, mesmo que seja da educação, é uma pessoa que sacrificou os seus tempos livres ao bem comum que nos premeia a todos. Prescindiu da sua pacata vida pessoal para se deslocar em automóveis de topo de gama, com meia dúzia de batedores da brigada de trânsito com as sirenes aos berros à frente, a abrir caminho. Tende para a perfeição, como as medidas da Cindy Crawford. À imagem do chefe, nunca se engana e raramente tem dúvidas. Mais do que isso: NUNCA SE ESQUECE!

Vem agora o Sr Cerejo, fora de tempo - cerejas só em Maio e ao borralho - dizer que o Sr ministro se esqueceu de incluir na sua declaração de rendimentos os magros proventos auferidos como vereador da Câmara de Oeiras em dois meses e meio. Repete-se: o senhor ministro, nomeadamente o Dr David Justino, não se esquece de nada. Não se esqueceu de suspender o mandato de deputado, não se esqueceu de receber os miseráveis dez mil euros da câmara, não se esqueceu de os depositar, - na conta que interessava, notem bem! - não se esqueceu de requerer a sua aposentação antecipada. Teve apenas um lapso que é uma coisa que toda a gente pode ter. Pronto, passou-lhe. Com as altas funções que desempenha não pode Sua Excelência estar a preocupar-se com ninharias. Já agora, era só o que faltava!

Publicado por LFV em 05:02 PM | Comentários (2) | TrackBack

O pernicioso diário da D. Raquel

Raquel Cruz: a intervençao negativaMais vale tarde do que nunca, diz o adágio popular. A verdade é que a D. Raquel descobriu uma nova vocação, apesar da inexperiência e das muitas pressões a que, supomos, o seu quotidiano está sujeito. Melhor seria, em todo o caso, que alguém lhe dissesse que a vulgaridade, ainda por cima num sentido perfeitamente pre-definido, não servem, regra geral, de ajuda seja a quem for.

Hoje vem, na condição de assistente, pronunciar-se sobre conferências com especialistas de psiquiatria, pediatria e direito, a que "teve o prazer de assitir" e que achou "muito interessantes". Durante sete horas, segundo diz, ouviu coisas interessantes e importantes para perceber o porquê da mentira em relação ao marido. As palavras são suas!

Para dizer, pela boca de especialistas, coisas desgarradas, divorciadas do contexto, como premissas que não carecem de demonstração, deste género: "é possível induzir nas crianças memórias, percepções completamente falsas facilmente. As pessoas sugestionam as outras sem se darem conta e são sugestionadas sem saber. Queremos corresponder às expectativas dos outros. A repetição de falsas informações, permanentemente, induz falsas e convictas memórias. A memória auto-biográfica passa pelas palavras e para aumentar a auto-estima a percepção varia e pode não ter nada a ver com a realidade histórica. A sua auto-estima melhora se for violada por uma pessoa famosa".

Nós, que nunca conhecemos o Sr Carlos Cruz mais magro ou mais gordo, habituámo-nos, ao longo dos anos, como supomos que a grande maioria do país, a admirá-lo e a reconhecer-lhe os méritos que lhe eram devidos - e são - como profissional. Por isso, cremos ainda, a sua inesperada detenção caiu como uma bomba. Com tempo e com frieza há que separar o trigo do joio e não misturar as coisas, como insistentemente se vem tentando fazer. O alarido e a gritaria à volta das questões nunca promoveram o benefício do raciocínio e não acreditamos que possam contribuir positivamente para a justiça.

Certamente também será possível induzir em adultos percepções idênticas às que, sem jeito, se limita a enumerar, mal e sinteticamente. Mas o processo não é um processo de saúde e de listas de espera para intervenções cirúrgicas. É um processo de justiça, para correr nos tribunais. Tantos tiros no pé não a ajudam, nem a si, nem ao seu marido. Ainda acabarão por lhe atingir, perigosamente, algum dedo grande. Haja maneiras, haja contenção, haja bom senso! É que, por esta via, vem sendo progressivamente hipotecado todo o imenso capital de simpatia que estava disponível à partida. Pelas colunas de jornal, como esta, que são reféns da vulgaridade sem conteúdo, pelos advogados que devem transmitir a imagem de um empenhamento seguro e, até, pelo Sr Carlos Cruz que, imperativamente remetido ao silêncio, se conclui que isso tem sido o que menos o prejudica. Quanto à comunicação social e aos jovens repórteres que montaram acampamento à porta do EPL, são o que são. Fazem o que estão lá para fazer: ouvir os disparates e divulgá-los!

Publicado por LFV em 02:56 PM | Comentários (0) | TrackBack

A continuidade da espécie em perigo

Teresa Guilherme, a mãe e a preservação da espécieNeste país à beira mar plantado, povoado por gente séria e pessimista, segundo rezam algumas daquelas inúteis estatísticas que se fazem para nada, um dos acontecimentos que, nos últimos dias, mais tem animado o baixo astral e inchado a auto-estima - conceitos vazios, sem sentido mas modernos hein! - tem sido a importância nacional do casamento da D Teresa Guilherme. Contra um tal Henrique Dias e disputado em território estrangeiro, mais precisamente em Las Vegas, para poder ser visto por emigrantes saudosos da pátria e por turistas em trânsito para os casinos e o jogo.

O sempre atento, e por isso mesmo venerado, 24 Horas não deixa que os grandes acontecimentos lhe passem ao lado. Tanto assim é que, para que não fiquem dúvidas, ainda na edição de hoje salienta a decisão heroica da Câmara do Porto mandar os taxistas da cidade para a escola, a aprenderem línguas, mais precisamente a inglesa, com vista ao Euro 2004. Os profissionais do volante aderiram à ideia de alma e coração e alguns apenas lamentam que, em sua opinião, a decisão peque por tardia. Com gente de fora, nunca se sabe, correrão na mesma o risco de eventualmente serem agredidos no fim de uma corrida. Mas, reconheça-se, coisa diferente é poderem também perceber toda a série de impropérios que lhes serão dirigidos.

Quanto à coboiada americana da D. Teresa Guilherme, com ela ausente, sem dar notícias, ficam a velar-lhe pela imagem o Sr. Goucha, a quem resta pouco tempo por ter as manhãs ocupadas, e a mãe da dita. Que confessa achar Darwin tanto trabalhou para evitar a extinçãoo noivo - se calhar até já genro! - simpático, educado, elegante, alegre e inteligente. Quer dizer, um homem com futuro. Passe ele a frenquentar algumas das elegantérrimas festas que acontecem no percurso até à Malveira, terá a oportunidade de conviver com gente com os mesmos predicados e certamente acabará a mandar fazer conservadores e elegantes cartões de visita, impressos em baixo relevo, onde como profissão indicará: "Merchant de arte".

Uma coisa desgosta a mãe da D. Teresa que já perdeu a esperança e que, veemente, afirma que nunca será avó. A revelação é trágica, por uma de duas razões ou, quem sabe, até mesmo pelas duas. Ou algum predicado falta ao senhor seu genro ou o futuro da espécie está comprometido. É preciso que um grupo de trabalho, qualificado e independente, seja criado para estudar a situação e se pronunciar sobre ela. A bem da espécie, para não deitar ao caixote do lixo toda a investigação que o Sr Darwin fez em vida!

Publicado por LFV em 11:06 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 12, 2004

Santana Lopes: o lançamento do primeiro livro

Machado de Assis, 1839 - 1908Há tempos atrás alguns orgãos da comunicação social referiram-se, vergonhosamente, ao facto falso e naturalmente inventado do presidente da Câmara de Lisboa ter escrito directamente ao Sr Machado de Assis, agradecendo-lhe a cortesia que teve, instruindo o seu editor português para que lhe remetesse, a título de oferta, uma das suas obras.

É falso que o Dr Santana Lopes nunca tenha ouvido falar do Sr Machado de Assis, embora se deva confessar que não andaram nem na mesma escola, nem ao mesmo tempo. Mas a intenção foi de facto agradecer, formalmente e por escrito, em papel timbrado da Câmara, procedimento que aliás utiliza mesmo quando escreve ao Dr Balsemão a reclamar a mais do que justa actualização dos honorários pagos pela sua análise política sobre a actuação da vereação.

Apenas aconteceu que se desconhecia com exactidão a morada do destinatário e, conhecendo-se-lhe o feitio irascível e o equilíbrio instável, se não poderiam adivinhar os dias em que o mesmo se apresentaria como morto-vivo ou simplesmente como morto. Assim sendo foi a missiva endereçada para o Alto de S. João de onde acabou devolvida pelos correios em virtude do destinatário ser desconhecido, segundo inscrição do carteiro do giro no correspondente sobrescrito.

Mas o gesto agradou e ficou registado. Tanto assim que, com a antecedência que se justifica, o Dr Santana Lopes mandou já expedir os convites para a sessão de apresentação do seu primeiro livro deste ano, a realizar algures no Chiado. Da lista de convites constam nomes grandes da cultura portuguesa, como as colegas de profissão Margarida Rebelo Pinto e Paula Bobone, já conhecidas de algumas mariscadas nos restaurantes do Guincho. Não foi incluída a Dra Edite Estrela por exigência do editor que insiste em apenas receber convidados sem averbamentos no registo criminal. O Sr José Castelo Branco estará também presente desde que a sua preenchidíssima agenda pessoal o permita. A gentileza do Sr Machado de Assis foi gostosa e gratificantemente retribuída. Para evitar extravios ou abusivas interpretações por parte da comunicação social, tratando-o alarvemente por ignorante, o presidente da Câmara solicitou os bons ofícios da embaixada do Brasil para fazer chegar o convite ao destino, evitando novos extravios.

Publicado por LFV em 10:34 PM | Comentários (0) | TrackBack

Amilcar Teias diz que no seu ministério só há casos bicudos

O homem, definitivamente, tem tendências para o exótico e hoje, - aliás como sempre - no jornal, vemos-lhe o apelido escrito pretenciosamente com h: Theias. Exactamente com o porco preto de Barrancos, relativamente ao qual, mesmo depois de morto, esquartejado e pendurado no fumeiro, se insiste em escrever chispe também com h. Como se simplificar as coisas, utilizando apenas um xis, fosse sinal irrebatível de iliteracia. Mas adiante!

Diz ele, na entrevista, que no seu ministério só há casos bicudos. Não contando com os casos dos outros que tutelam a vida dos ex-militares regressados das guerras coloniais, traumatizados e com as mochilas carregadas de granadas que, passados trinta anos, ainda acendem perigosos incêndios no Verão.

Ficamos mais ricos em relação a um aspecto que desconhecíamos. Que a Casa dos Bicos estava abrangida pelo braço paternalmente protector do Ministério das Cidades, do Ordenamento do Território e do Ambiente. Apesar da curta extensão do nome!

Publicado por LFV em 09:52 PM | Comentários (2) | TrackBack

A urbanização Dr Durão Barroso

Sempre pensámos que, no norte, quem se atrevia a discordar do Dr Barroso era o Dr Menezes. Afinal não! Este recebeu o chefe envergando o seu melhor fato e estreando gravata nova. O Dr Barroso, que estava preparado para a matraquilhada, meteu a cábula no bolso e improvisou quando ouviu tantas coisas doces e bonitas.

Quem, discretamente, mais discorda é afinal o major-presidente. Ostensivamente convidou o Dr Barroso a inaugurar uma urbanização e pregou à esquina de um dos edifícios uma tabuleta a dizer: "Urbanização Dr Durão Barroso". Embora tivesse gostado do gesto, como na Maia gostava o Dr Vieira de Carvalho que morreu deixando apenas por mudar o nome do concelho, é claro que se fez de muito humilde, recriminou o major, embora com um brilhozinho nos olhos.

Mas aquilo foi uma sacanice do major, que a sabe toda. Com ele nem os árbitros levam a melhor. Vocês já imaginaram a resposta dos residentes quando lhes perguntarem onde moram? As suas reacções quando lhes surgirem a humidade nas paredes e as irregularidades no soalho? Ou até quando uma geração vindoura - se a urbanização não ruir até lá - quiser saber quem foi aquele gajo?

Publicado por LFV em 06:29 PM | Comentários (1) | TrackBack

O Marco de Canavezes já está de luto

Amarante. Quando o azar penetra!...Avelino Ferreira Torres, que se julgava ser o vitalício presidente da Câmara Municipal do Marco de Canavezes, onde tem encenado as mais surrealistas palhaçadas, seja ou não época de circo, agiu por uma vez contra a velha prática portuguesa de deixar tudo para a última hora, como a declaração do IRS. Vai daí, com uma antecedência de dois anos, anunciou a sua candidatura à vizinha Câmara de Amarante e parece que abriu mesmo já sede em rua com nome e número de pólicia.

Diz-se que, entre amigos, terá confidenciado que o fazia apenas por dois motivos, ambos vantagens de difícil quantificação. Por um lado será a forma de ver pelas costas um incómodo presidente de junta de freguesia que tem passado a vida a subscrever acusações contra si, um homem de bem. Depois porque a autarquia de Amarante dispõe de mais recursos que lhe valham no amanho das jeiras que possui, na construção da moradia em que há-de habitar e na manutenção da piscina em que, de Verão, há-de refrescar-se da canícula.

O Marco, diz-se, envergou luto de imediato. As mulheres cobriram as cabeças com opacos lenços pretos e os homens exibem fitas negras, de fumo, nas mangas dos casacos. Amarante, parece, promete apenas tocar a rebate os sinos da paróquia e pôr a bandeira a meia haste quando forem conhecidos os resultados das eleições. Se houver motivos para isso, é claro!

Publicado por LFV em 02:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

A obsessão do Dr Carrilho

A fatalidade que persegue LisboaManuel Maria Carrilho, está visto, vive permanentemente obcecado com a figura de Pedro Santana Lopes. E tanto assim é que se propõe substitui-lo pela vida fora, nos mais diversos cargos. Assim aconteceu na cultura, que conseguiu fosse promovida de secretaria a ministério, fosse dotada de uma casa de banho decente, onde premoninavam as lacas douradas e as louças de escolha extra, especial para ministro. Que diabo, não pode dar-se a casas velhas, manhosas e mal frequentadas o privilégio de, mesmo ocasionalmente e por momentos de aflição, poderem ter uma qualquer sanita vulgar, de louça de Valadares, terceira escolha, com defeitos de fabrico, a gabarem-se de ali se ter sentado o mais alto dignitário da cultura do país. O que até distribui subsídios aos filmes do Sr Manoel de Oliveira e às encenações do teatro Seiva Trupe.

Não foi de todo muito bem sucedido nesta primeira substituição, mesmo que em termos de currículo tivesse melhor nota a filosofia do que o Dr Santana cuja filosofia, como largamente se sabe, é outra. E depois este conseguiu o degredo definitivo do perigoso comunista que era na altura o Sr José Saramago, para uma inóspita e isolada ilha administrada por Espanha. Ao mesmo tempo que impedia, in extremis, que uma obra sua pudesse ser candidata a um qualquer prémio literário, nem que fosse nos jogos florais promovidos por uma junta de freguesia do interior por alturas dos santos populares.

Agora a câmara de Lisboa, senhora libertina, de meia idade, bem conservada, de formas robustas, sem próteses de silicone nas mamas, por muito que as mesmas lhe venham a ser apalpadas, abusivamente e a despropósito, por frequentadores nocturnos das vielas estreitas do Bairro Alto e dos bares à beira rio. Cujo aspecto, reconheça-se, o Dr Santana tudo tem feito para subverter-lhe, lambuzando-lhe as faces, removendo-lhe o rimel e, até, encurtando-lhe a fragrância do perfume. Espalhando cartazes, cada um com vinte metros quadrados, por tudo o que é sítio, como se fosse o Fântomas, a dizer: passei por aqui e, como o criminoso, hei-de voltar ao local do crime. E o que fez em cada um desses sítios? Não o digo naquele português que toda a gente entende, mesmo quando de seguida fica nervosamente enrubescida. Mas, quando muito, abriu um buraco, pôs uma grelha numa sarjeta, descerrou lápides no novo estádio da Luz.

Vem de lá, com dois anos de antecedência, o Dr Carrilho a perfilar-se na formatura para lhe disputar o lugar. Tenha calma, preocupe-se um pouco mais com a família e, nos intervalos, vá pensando num projecto para a cidade. Como todos exigem e como, para variar, todos prometem. E depois, para que nada varie, nenhuns cumprem! Ou só pretende afiambrar-se como os outros e atirar-se às mamas da D. Lisboa para lhas apalpar?

Publicado por LFV em 12:04 PM | Comentários (1) | TrackBack

Adquirir um cancro, afinal , não fica assim tão caro

O TABACO MATA! Mas é o mais barato da Europa.Os portugueses que, oficialmente são esmagadoramente católicos, são dos que têm fama de mais protestar a nível da Europa, comunitária ou não. Têm também a fama - e o proveito - de andarem na cauda dessa mesma Europa, cidadã aristocrata e pretenciosa, de brasão e sangue azul, sem aneis nos dedos, na idade que há anos deixou para trás a fertilidade e a menopausa.

Os nossos salários são baixos, as nossas rendas são elevadas, o nosso custo de vida é insuportável, os combustíveis têm preços para ricos, os automóveis só são usados por empresários, futebolistas e autarcas. Tudo assim! As batatas e as cebolas ficam mais baratas se nos vierem de Espanha, e os trapos também. O mesmo acontece com o leite, o vinho e quase tudo. Com o tempo, e cremos que já pouco falta, acabaremos ainda a beneficiar do estatuto de protectorado de Castela.

Mas numa coisa, e é perfeitamente essencial, estamos bem servidos. Tabaco mais barato do que nós só é posto à disposição dos turcos. Que, como sabem, só há dias aboliram a pena de morte - são uns selvagens - e nem se sabe se são europeus ou asiáticos. Porque na Suécia custa cerca do dobro e na Noruega quase quatro vezes mais.

Talvez por isso em Portugal se morre tanto de cancro: o preço para o contrair é perfeitamente acessível. Mesmo avisando que fumar prejudica a saúde, está a Tabaqueira de parabéns. Realiza lucros substanciais à custa de produtos que ela própria adverte poderem causar o cancro, e fá-lo a preço de saldo. Realmente, muitas vezes protestamos por prazer, como se discutíssemos com o árbitro.

Publicado por LFV em 12:02 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 11, 2004

Boa noite às coisas aqui em baixo

O dia: invernoso, de chuva e novoeiro cerradoCom a vénia devida ao António Lobo Antunes, um factor de orgulho para os portugueses que somos, nos dias em que muito pouco há de que possamos realmente orgulhar-nos.

Depois uma piedosa mentira, para registar como a maior do dia, da semana ou mesmo do mês. A menos que a mesma seja vista numa perspectiva política passando, nesse caso, a ser uma indesmentível verdade:

Hoje apenas aparecemos a esta hora, para marcar presença, porque o dia invernoso, de chuva e nevoeiro cerrado, pura e simplesmente nos impediu, até há momentos, que víssemos o teclado. Vamos a ver se, mesmo mal, continua a deixar e se haverá tempo, disposição e bom senso para mantermos o riso.

Publicado por LFV em 11:34 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 10, 2004

Os responsos do professor Marcelo

O professor Marcelo penitencia-se
Bem prega frei Tomás. Faz o que ele diz, não faças o que ele faz!
Publicado por LFV em 11:41 PM | Comentários (1) | TrackBack

A ementa da retoma económica

Imagine uma sala com a imponência e o frio de uma nave de igreja. Cinquenta mesas quadradas com arranjos de vidro e metal, para acentuar a imponência e o frio. As cadeiras, pesadas, forradas com linho de cor escura, para lhes transmitir algum calor e lhes dar maior dignidade. E a ementa:

Consomé
Salada de lagosta
Lombinhos de vitela com ervas e molho de limão, batatinhas e espinafres "à la crème".

O casamento que leva à retoma!Convidados: cerca de quinhentos, tudo gente fina. O cronista social, Carlos Castro, sem convite, mantido à distância, do outro lado da rua. Vinhos, à escolha. Champanhes franceses. Toilletes dos mais caros costureiros. Evento: casamento de João Rodrigues Júnior e de Joana Loureiro Júnior.

O Dr Barroso a ver, a Dra Manuela a fazer contas, o total um balúrdio. O Dr Barroso a solicitar os serviços dos seus assessores para pensarem e concluirem. Custo estimado, em escudos que os euros ainda confundem toda a gente, cerca de dezesseis mil contos. Conclusão: não há crise, veem-se claramente os sinais da retoma.

De facto se dois modestos deputados da nação, com dependentes ainda a cargo e mulheres conservadoramente domésticas, fazem aos filhos um casamento destes é porque não há crise e porque a branca de neve existe.

Publicado por LFV em 11:25 PM | Comentários (2) | TrackBack

A elegância do discurso ou o desaforo da sugestão

Domingo passado, é público e parece que até os jornais desportivos se referiram a isso, disputou-se no novo estádio da Luz o primeiro Benfica-Sporting que fica para a história daquele recinto. Como aliás também já tinha ficado o encontro com o Beira Mar e hão-de naturalmente ficar muitos outros.

Como sempre, domingo, à hora do terço, a tribuna encheu-se de políticos em trabalho que, por essa razão, tiveram que deixar para mais tarde o sinal da cruz e o padre nosso. Até mesmo o padre Melícias que, segundo me disseram, se benze sempre que o Silva cabeceia a bola por cima da barra ou que o João Pinto faz um cruzamento com a alça demasiado levantada, teve que cumprir as suas obrigações mais cedo.

Estádio da Luz I - 40.ª lápide descerrada!O recém descoberto talento literário, Pedro Santana Lopes, que a simpática Margarida Rebelo Pinto já disse temer no que respeita à concorrência, - literária, obviamente! - esteve também presente. Ainda na condição de presidente da Câmara, cremos nós, por causa de toda a burocracia que emperra o país, mesmo com as lojas do cidadão a funcionar, que não permitiu a actualização atempada do respectivo bilhete de identidade. Melhor do que ninguém ele sabe o que isso é e os transtornos que representa, com estado civil para aqui, estado civil para ali e, felizmente, aproveita-lhe o facto dos namoros e dos filhos não serem averbados no documento!

Antes da subida à tribuna e do início do encontro, protocolarmente acompanhado pelo presidente do Benfica, Santana Lopes foi convidado a descerrar trinta e cinco - depois perdemos-lhe a conta! - lápides assinalando o acontecimento. Com os dizeres habituais! Em tantos de tal e coisa, foi esta lápide descerrada por Sua Excelência - sempre assim, por extenso, sem erros de ortografia! - sendo presidente da direcção, e presidente da assembleia geral, e presidente do conselho fiscal, e pároco da freguesia, e natural de Benfica o Dr - assim, abreviadamente! - António Lobo Antunes, e roupeiro diz aí o nome do homem, para assinalar o primeiro "derby" - assim mesmo, para os adeptos sentirem que é importante! - entre as equipas do Benfica e do Sporting. O resultado é omitido - o que se lamenta - por só ser conhecido depois do jogo e, prognósticos, só no fim como dizia o defesa direito do Porto.

Tarefa insana para um presidente que está de saída - deixamos ao vosso gosto pessoal a opção pelo que preferirem! - para se dedicar à literatura ou à construção civil, especialmente depois de um daqueles almoços de que só o José Rodrigues Miguéis era capaz de falar. Mas o Dr Santana lá foi fazendo o sacrifício, a custo contendo um arroto aqui, mal disfarçando um bocejo ali. E não é que o presidente do Benfica, sempre que uma lápide era desnudada, se virava para o presidente da câmara e lhe dizia: vai mais uma!

Vai mais uma quê? Ora o desaforo! Então o homem tinha acabado de almoçar, precisava era de beber uma garrafa de água com gás para ajudar a digestão, a custo continha os bocejos e segurava as pálpebras, tanto que nem viu o penalti que o árbitro marcou logo - embora o tivesse aplaudido com três pinchos e quatro assobios - e a sugerirem-se-lhe coisas destas! Além do mais exerce ainda um cargo de responsabilidade, a libertinagem que se sugere em relação à generalidade dos escritores, como ele, ainda aguarda, mesmo que, de fio a pavio, já tenha decorado A Cartilha do Marialva. E, assim sendo, é, como dizia Chico Buarque na Ópera do Malandro, um homem de respeito, pi!

Publicado por LFV em 06:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

O vereador, o mata-mouros e o agradecimento devido

Ainda há pouco tempo atrás o blogue mata neles teve a amabilidade de se ter referido a este insignificante lugar, cabo e raso. Salientamos a gentileza, caloiros na faina, sem invocar valores e princípios pelos quais persistimos em nortear a nossa atitude. E agradecemo-la, naturalmente, como gente de boa educação, mesmo que ali - e com todo o direito, saliente-se e reafirme-se! - tenhamos sido qualificados pelo menos de injustos.

Público Local, 10.01.2004Passado este tempo não invocamos nenhum hipotético direito de resposta nem aqui vimos para rebater seja o que for. Registámos o gesto, dele conservámos a memória suficiente e hoje, sem crime ou castigo, sem boa acção ou prémio, acrescentamos, com muito gosto, o endereço à nossa lista de sugestões. Porque aquela paragem passou a fazer parte da linha dos transportes públicos que mais utilizamos e onde, muitas vezes, nos apeamos para olhar a montra, espreitar os preços e, eventualmente, meter no saco uma coisa ou outra. Saindo depois, sem passar pelo balcão de controlo!

É certo que somos pacíficos e que não andamos para aí numa cruzada bizantina a matar seja quem for, mesmo que sulista, elitista e liberal. Mas, aqui para nós, isto é gente igualmente pacífica com quem se pode lidar. Essa vantagem, pelo menos e entre outras, a blogosfera possui: não descortinamos que alguém se chateie, nem por causa do futebol. A convivência é bonita, o futuro é risonho, a crise é econónima. O Francisco José Viegas é do Futebol Clube do Porto, o Rui Rio do Boavista Futebol Clube!

Quanto ao vereador Paulo Morais, da Câmara do Porto, descobrimos nele, neste meio tempo, a habilidade para o humor. O que se cumprimenta, porque é rara. Nos dias que correm nem o Herman José, bem melhor pago do que qualquer vereador, a avaliar pelo aspecto anafado e pelo cabelo novinho em folha, chega a dar uma para a caixa. Por isso publicamos a pequena nota do jornal Público, de hoje. Onde apenas se diz que o vereador, numa situação mais recente, se limitou a querer começar a construção da casa pelo telhado. À semelhança do que é nosso, do que é português. Era uma casa portuguesa, concerteza!

Publicado por LFV em 05:33 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 09, 2004

Coincidências de saúde e solidariedade

Ou a teoria da conspiração em duas observações e uma conclusão, segundo o Aqui d'el rei.

1. O ministro Bagão Félix trabalhou no grupo BCP antes de embarcar oara a aventura governamental. O BCP tem grandes interesses nos seguros. Bagão Félix quer transferir as pensões para as seguradoras.

2. Luís Filipe Pereira trabalhou no grupo CUF, antes de embarcar na aventura governamental. A CUF gere hospitais privados. Luís Filipe Pereira quer que sejam os hospitais privados a tratar os doentes que estão em lista de espera e os públicos a tratar de doentes que tenham seguros de saúde.

Tudo isto são, com certeza, meras coincidências ou anda tudo ligado e eu é que não percebo nada ou, ainda, o Aqui d'el rei está maluco de todo.

Acontece apenas que não há coincidência nenhuma a não ser na mente mórbida e mal intencionada das Quentes & Boas, do jornal 24 Horas de hoje. Apenas se verifica uma convergência de dois ministros diferentes, provenientes de grupos económicos diferentes que velam, com sucesso, pelos interesses dos eleitores que os elegeram. Eu não sabia, embora de facto suspeitasse disso, que o engenheiro Jardim Gonçalves tinha eleito um e o Sr José de Mello o outro!

Publicado por LFV em 11:20 PM | Comentários (2) | TrackBack

O pagamento especial por conta

Tem hoje sido notícia o facto político da Dra Manuela Ferreira Leite ter dado o dito por não dito em relação ao pagamento especial por conta do IRC dos taxistas que, em tempos, ameaçaram invadir Lisboa e o Terreiro do Paço. Tudo bem, é uma questão de coerência e, mesmo que tenha opinião, não me pronuncio.

Mas vou ter de estar mais atento do que me é costume. Porque de certeza que na blogosfera, se o não estiver, hei-de confundir os comentários que sobre o assunto irão fazer o Abrupto e o Gato Fedorento!

Publicado por LFV em 05:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

O problema de culinária

Aquilo que sempre me confundiu - mais do que a quotidiana confusão com que vive a minha condição de português! - foi o facto de, inesperadamente, grandes amizades serem terminadas sem razão aparente e sem explicações. Os amigos - é erro meu pensar assim, de certeza! - são para a vida. Mesmo que se diga que na política não há amizades mas apenas interesses, quando todos nós, eleitores e respectivos descendentes ainda sem direito a voto, sabemos desde a escola que há patriotismo e dedicação à causa pública e ao interesse comum.

O diferendo culinário entre os Drs Portas e Dr MonteiroMas os desenlaces acontecem, como nos casamentos. Nestes o problema está em vias de resolução e, avisadamente, os portugueses vão casando cada vez menos. Vão persistindo no namoro, experimentando todas as facetas da vida em comum e, se tudo correr bem, quando chegarem à idade da reforma, - mais tarde por causa da teima da Dra Manuela Leite! - casam-se pela igreja na presença vaidosa dos filhos e dos netos. Estão prontos para a extrema unção!

Grandes amizades públicas foram enterradas de repente. Quem já se esqueceu dos compadres, Drs Soares pai e Zenha, que deixaram de se falar, evitavam cruzar-se na rua e referiam-se um ao outro como se nunca tivessem estado próximos. Ou, mais recentemente, dos amigos de Peniche - com o devido respeito, ó terra do forte! - em que se transformaram os Drs. Monteiro e Portas. Tão amigos que eles eram, onde ia um já estava o outro, quando um falava já o outro ouvia.

De repente a coisa é publicamente esclarecida. Primeiro, num jornal, a mãe do Dr Portas elogia-lhe o jeito para a culinária e a mão para os temperos e diz que nunca viu quem fizesse um arroz como ele, branco, soltinho, seco, uma maravilha. Fiquei tranquilo por saber que, em caso de crise no alto mar, a bordo de qualquer corveta, a tripulação está a salvo: tem um ministro que percebe de cozinha. Mais, se tiver necessidades por lhe faltarem o emprego e os assessores, já o imagino a cantar em dueto, na queima das fitas, com o Sr. Quim Barreiros e a preparar pratos de bacalhau.

Nem de propósito uns dias depois, num outro jornal, vem o Dr Monteiro dizer que é um nabo e que não sabe fazer nada. Sim, sim, na culinária também! O máximo que consegue é abrir latas de sardinhas em conserva, importadas de Marrocos e abrir pacotes de batatas fritas compradas no Continente.

Fez-se luz! Como poderia ter prevalecido uma tal amizade, letalmente ferida por desigualdades de tão grande dimensão? Nunca o Dr Monteiro, com tão relevante lacuna no currículo, poderia aspirar a ser eleito de novo presidente do partido. Lixou-se e teve de fundar outro onde as exigências, que ele próprio definiu, são menores. Mas está a tempo de aumentar os seus conhecimentos, nunca é tarde para estudar e voltar a concurso. Se assim o entender, gratuitamente, indico-lhe a morada da Escola de Hotelaria do Porto e acompanho-o até à recepção. Para que se inscreva!

Publicado por LFV em 04:27 PM | Comentários (1) | TrackBack

Nunca quis ser deputado…

Trabalho: Palácio de S. Bento!Uma das coisas que eu nunca quis ser na vida foi deputado. E, pelo vistos, deve haver muita gente que, solidariamente, rejeita comigo essa pretensão. Só assim se compreende que eles sejam tão poucos, não passando de 230. Até mais do que isso! Alguns, quando conseguem libertar-se, pura e simplesmente emigram. A maior parte das vezes para Estrasburgo onde, como sabem, voluntariamente se sacrificam por um futuro melhor e pelo país. Os que ficam, os resistentes, são figuras cuja heroicidade, honestamente, a comunidade não reconhece. Por isso têm, todos eles, o ar triste e macilento de quem está preso e incomunicável, longe do recreio e da luz do sol. Se duvidam atentem no Dr Almeida Santos, - com o estigma de quem cumpre prisão perpétua - no Dr Dias Loureiro, mesmo a tempo parcial, no Dr Narana, no Dr Carvalhas ou no Dr Louçã, que não sei onde vai desencantar energias para falar tanto.

A principal razão porque nunca quis ser deputado foi pelo excesso de trabalho e pelo facto de, por deliberação do respectivo presidente, as horas extraordinárias não serem remuneradas. O cargo é mal pago, pouco mais de dez vezes o salário mínimo, e isto anda o Dr Almeida Santos a repetir, inutilmente como se pregasse aos peixinhos, há quase trinta anos. Sai-se tarde, às vezes entra-se pelas madrugadas e têm de suportar-se as invasões das galerias enquanto o presidente não manda que a polícia as evacue.

Depois é preciso legislar sobre tudo para que o país ande organizado e direito e seja o orgulho de cada um de nós. Como é! Para que seja o espelho da Europa, a que já é e a que há-se der. Fazer leis para tudo. Para permitir que os deputados vão em trabalho político para as Caraíbas ou para as Maldivas. Para que possam desdobrar viagens em classe executiva e levem as famílias. Para que sejam, por isso, acusados de falcatrua e para que o tempo faça prescrever tudo. Para serem condecorados no 10 de Junho e para irem ao S. João do Porto. Para legalizar e ilegalizar partidos políticos. Para lhes atribuir subsídios e para os obrigar à posse de contabilidades transparentes. Para os obrigar ao cumprimento das leis. E, especialmente, para permitir que as não cumpram. Sobre o que, ao menos, dá gosto ter conhecimento de que há unanimidade e de que todos se entendem!

Mas, para mim, era trabalho a mais. Até mesmo ao domingo teria que ir ao futebol, eu que nem sequer gosto de bola. Safa!

Publicado por LFV em 01:59 PM | Comentários (1) | TrackBack

O Anão: um português de sucesso em parte incerta

O português José Gomes Pires Coelho, é conhecido por Anão assim como D. Afonso Henriques ficou conhecido pelo Conquistador, vivia à grande, usando grandes carros e dispondo de casas em Marbella e em Madrid, recheadas do melhor.

Tal & Qual, 09.01.2004Assim, num de repente, foi preso pela polícia espanhola carregando trezentos quilos de heroína. Que, como sabem, é peso de mais para um profissional da NBA com dois metros e vinte de altura e cento e trinta quilos de peso. Quanto mais para ele, um corpo curto, frágil e franzino.

Quando estava prestes a expirar o prazo de prisão preventiva as autoridades espanholas não estavam em condições de o julgar. Quer dizer, estavam atrasadas! Como ele era também arguido num processo de tráfico no Algarve, entregaram-no às autoridades portuguesas. Em princípio para ser julgado, condenado, cumprir pena e ser extraditado para Espanha. A dar tempo aos juízes espanhois para se prepararem.

Em Julho passado, com a mesma probabilidade com que nos sai o totoloto, foi absolvido em tribunal. De seguida, ele que não procura protagonismos e detesta as câmaras das televisões, simplesmente pirou-se. Figura nos primeiros lugares da lista dos criminosos mais procurados pelas polícias europeias. Ninguém sabe dele. É um português de posses, com sucesso na vida, mas modesto e em parte incerta. Declina os convites das revistas cor de rosa e não dá entrevistas. Nem frequenta os jantares de benemerência que se realizam no casino!

Publicado por LFV em 11:46 AM | Comentários (1) | TrackBack

Ao menos por uma vez…

A pretexto do arguido Carlos Cruz ir ser ouvido esta manhã pelo juiz Rui Teixeira os agentes da comunicação social voltaram a perseguir, sem contemplações, como se fugissem dos perigos da guerra ou corressem atrás da salvação das respectivas almas, a mulher daquele e acompanhantes, incluindo uma filha bébé. Aqui, nada de novo. A morbidez continua, não tem períodos de descanso, algumas cabeças não têm dentro nem o ar rarefeito dos 40.000 pés de altitude!

O destaque apenas para a reacção cruelmente serena e ponderada da D. Raquel Cruz. Que disse não ser o inquérito nenhum pretenso combate de boxe em que se fossem defrontar o marido e o juiz, como se partissem à conquista do título mundial de pesos pesados. E que a responsabilidade por esse ambiente se ficava a dever, em exclusivo, aos procedimentos dos orgãos da comunicação social.

Por uma vez foi além das inutilidades habituais. As coisas devem ter a importância que têm.

Publicado por LFV em 10:05 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 08, 2004

O Porto gemina-se com Abrantes: tudo como dantes!

A atávica incompetência na CâmaraO Porto, como fatalidade e para mal dos seus pecados, tem sido governado, a nível de município, por passantes que apenas vieram para ver a bola, provar as tão apregoadas tripas e atravessar o Douro para irem a uma das caves de Gaia comprar umas garrafas de vinho do Porto para levarem como recordação quando regressarem ao anonimato do lar. Têm chegado muitas vezes sem eles mesmos saberem como e depois partem da mesma maneira.

Depois de Abril de 1974, tanto quanto me recordo, creio que apenas o Dr Gomes, transferido de Vila do Conde, foi eleito para mais que um mandato porque, de facto, conseguiu cumprir um primeiro de forma discreta, sem se sentir tão à vontade que saltasse ele sozinho para o palco e, de forma arrogante, se marimbasse para a crítica e se assumisse como o dono do espectáculo. Além disso as pessoas ainda não sabiam da história do capachinho! Depois, para ser reeleito fez juras de amor à cidade e aos munícipes, prometeu mundos e fundos, disse que estaria presente até ao fim do mandato. Como se sabe, traiu! Procurou acumular cargos: de manhã no Porto, de tarde em Estrasburgo. E já agora proventos: para a época, um quinto em escudos, quatro quintos em francos franceses.

Não satisfeito, ou já habituado, traiu de novo e partiu para o Terreiro do Paço fardado de ministro. Por curto período mas, mesmo assim, tiveram os bombeiros que seguir-lhe os passos, a extinguirem os fogos. Não vingou pelo sul elitista e liberal e recolheu-se de novo a norte. Incompatibilizou-se com o seu delfim, tão amigos que eles eram. Voltou a ser candidato, depois de um negócio de arruaça para impedir que o seu ex-delfim pudesse ser candidato. Perdeu e apagou-se. Já ninguém o queria!

Hoje o Dr Rio faz um balanço dos seus primeiros dois anos de mandato. É um emigrante, regressado à terra para construir a melhor moradia da rua. Tem uma sensibilidade especial para criar conflitos e incompatibilidades e pensou que o problema da cidade eram os arrumadores que enchiam as ruas à procura da moeda. Lança um programa e um slogan: "não dê que nós damos por si". Mas dão o quê? A Câmara está falida, o crescimento das suas receitas é idêntico ao do orçamento de estado: negativo. Aborda a reabilitação da baixa, quando as ruas da cidade estão cheias de edifícios abandonados e em ruínas. Começa ao menos como se tenta começar tudo no país, senão pelo fim, ao menos pelo meio. Criando sociedades e nomeando-lhes administradores. Os projectos virão depois e a via encontrada não é novidade. Estamos habituados a ela, a todos os níveis, do governo à junta de freguesia. A baixa do Porto não se repovoa por decreto. Tão pouco é por postura municipal que se trava o envelhecimento da população e das estruturas existentes. Não há exilados de guerra, em Matosinhos, que aguardem pelos acordos de paz entre o Dr Rio e o Sr Pinto da Costa para regressaram a Miragaia.

O Dr Gomes, naturalmente, critica. Foi o Dr Rio o responsável pela sua humilhação na noite das eleições. Não salienta o que de positivo ele próprio legou à cidade, a não ser a classificação do centro histórico como património mundial. Ponto final, porque quanto a consequências e resultados estamos conversados. Neste mandato e nos precedentes. Salienta que este alimentou a animosidade com instituições citadinas, sem ter a coragem de lhes referir o nome. Andou sempre à babugem e continua. Depreende-se que queira referir-se ao F. C. do Porto e à Casa da Música. Sendo que esta, pasme-se, é a obra emblemática do Porto 2001, capital europeia da cultura. Que, se Deus quiser, há-de ficar pronta em 2004. E resolver definitivamente o problema da habitação que, diz o vereador Rui Sá, é o principal problema da cidade!

Publicado por LFV em 11:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

O Carlos Cruz será judeu?

A anedota da senhora, da sobrinha e do judeu

Um destes últimos dias correu célere a notícia - importantíssima para o interesse público! - de que o Sr Carlos Cruz seria circuncidado. Pela minha parte, pelo menos, andei todo o dia muito mais tranquilo, com muito maior esperança no futuro, quase acreditando nos sinais que o Dr Barroso tem visto ultimamente e que se relacionam com a retoma económica. Mesmo que ela passe pelo aumento do desemprego, como condescende a ministra das finanças.

Hoje, a D. Raquel Cruz que mantém um diário no jornal 24 Horas, vem alargar a minha cultura geral, com vista às possibilidades de uma futura participação no "Quem quer ser milionário". Dizendo, em maiúsculas, que em Portugal cinquenta por cento dos homens são circuncidados. E que gostaria que os seus leitores soubessem que entre os judeus a circuncisão é uma prática comum.

O facto avivou-me a memória a que me trouxe recordações e coisas antigas, amontoadas na desorganização do sotão. Entre elas uma piada contada pelo humorista Juca Chaves da primeira vez que visitou Portugal para dois espectáculos e acabou expulso pelo Dr Salazar logo depois do primeiro.

A cena passa-se há mais de trinta anos. Uma senhora distinta, de meia idade, segue rua fora levando pela mão uma sobrinha sua, ainda quase criança. Depara de repente com um vadio qualquer que urina atrás de uma palmeira num jardim público. Insurge-se! Seu vagabundo, seu desavergonhado, a fazer uma coisa dessas no espaço público, onde circulam senhoras e crianças, à vista de toda a gente. E a sobrinha da senhora, tranquilamente, terá replicado: ainda por cima é judeu!

Será que a D. Raquel vai nos próximos registos do seu diário revelar que o seu marido é judeu?

Publicado por LFV em 05:47 PM | Comentários (3) | TrackBack

O sítio que é Portugal precisa é de bom senso!

Bom senso e bom gosto!Como escrevia Manuel da Fonseca, antigamente o largo era o centro do mundo. Segundo a terminologia dos dias que correm, dir-se-ia que o centro foi entretanto "deslocalizado", que é termo que não consta do dicionário barato e provavelmente desactualizado de que me socorro. Hoje, o centro do mundo é o universo constituído por uma carta anónima que, por ironia do destino e desorganização dos serviços, como na Torre do Tombo, foi aterrar no meio dos muitos milhares de páginas que já integram o chamado processo da Casa Pia, e onde são mencionados os nomes do presidente da república e do comissário europeu António Vitorino.

Divulgado o facto, a país tomou posição e as diversas companhias da tropa fandanga alinharam-se na parada, em formatura regular, esgrimindo argumentos. Pedia-se a cabeça do procurador do ministério público e o coração, extraído pelas costas, à maneira da época de Inês de Castro, do procurador geral. A direcção do Benfica quase chegou ao colapso e a equipa principal, de imediato, meteu no saco três do Sporting. O presidente e um vice-presidente persistem ainda, sentados à mesa, ao velho exercício do braço de ferro, a ver quem verga.

Como nas bancadas do antigo estádio das Antas, cada soldadinho sabe da estratégia que chega sempre à vitória e de todas as leis do jogo que o árbitro aprendeu sempre de modo superficial numa acção de formação de fim de semana, durante o defeso. Para logo de seguida, predilecto do senhor major Valentim, ser nomeadamente sorteado para um jogo em que dava jeito. E em que obrigatoriamente se comportou à maneira.

Tomou-se partido. Apaixonadamente, que não somos gente sem coração e sem sentimentos. Sobre a relevância dos nomes e a irrelevância da carta. Anónima, ainda por cima. E não trazendo no sobrescrito a marca de dia dos correios e o nome da localidade de onde provinha.
Defendeu-se que deveria ter sido arquivada à parte, ignorada, deitada ao lixo, destruída, enviada para os arquivos nacionais onde, ao que se crê, nunca ninguém mais voltaria e encontrá-la. Mesmo que quisesse! Que não, humilhado e ofendido o presidente da república deveria pronunciar-se. Sem perder tempo, fazendo uma pausa, deixando a situação amadurecer um pouco a ver se o frio de inverno arrefecia cabeças tontas e quentes demais.

Pronto. O presidente falou, como toda a gente antecipadamente sabia que iria falar. Com a emoção a perturbar-lhe a voz e a intenção consensual. Não se defendeu de nada porque não era acusado de nada. Manifestou-se ofendido, apelou ao senso comum que o país persiste em não saber o que é e solicitou o empenhamento dos intervenientes numa moderada contenção.
Nem surrealisticamente o Dr Louça, ou o Dr Alberto João - que são muito próximos no que respeita a ideias! - esperaram que pudesse ter agido de diferente maneira. Nem mesmo, creio, os senhores Mário Cesariny ou Cruzeiro Seixas, que são de todo resistentes surrealistas.

Foi naturalmente criticado, como se podia esperar. Foi brando, foi ambíguo, nada se percebeu daquilo que disse. Foi também naturalmente elogiado, como se podia prever. Foi sóbrio, demonstrou bom sendo, emocionou-se, apelou tranquilamente à contenção. No meio de tudo parece que o professor Freitas disse que se tinha pessoalmente empenhado, no passado, para ajudar à construção de um sistema e de um conjunto de valores que via agora rapidamente esvaírem-se.

Com redobradas razões se pôs de novo em causa o segredo de justiça. De leste a oeste e de norte a sul, sem que a alusão aos pontos cardeais pretenda sugerir nenhum disparatado posicionamento político. Aquilo é coisa que está escrita e que ninguém respeita. Ou melhor, que todos violam no momento e pela forma que lhes possa trazer maiores proveitos. Como em qualquer hipermercado do engenheiro Belmiro!

A chamada comunicação social - que não informa e que pouco comunica - limitou-se a ser veículo de divulgação. Como os valentes, atirou a pedra e, rapidamente, escondeu o braço na botoeira do casaco. Apenas reclamou para si, como sempre, o direito a informar, embora cada vez saiba menos o que isso é. A liberdade de imprensa é interpretada extensivamente e tomada por completa irresponsabilidade. É quase como ser-se deputado e recusar a presença perante a justiça, a pretexto da imunidade parlamentar.

A sociedade a que farisaicamente chamamos civilizada enterrou valores como a ética, a deontologia e as regras elementares de convivência a que chamaríamos consciência colectiva ou senso comum. Já vale tudo, desde que se vendam os detergentes, como diz o Dr Rangel. Não vamos longe e tememos que o professor Freitas tenha razão. Ele e muitos outros que se empenharam tanto como ele. Ou mais do que ele.

Como nas bancadas do antigo estádio das Antas, cada soldadinho sabe da estratégia que chega sempre à vitória e de todas as leis do jogo que o árbitro aprendeu sempre de modo superficial numa acção de formação de fim de semana, durante o defeso. Para logo de seguida, predilecto do senhor major Valentim, ser nomeadamente sorteado para um jogo em que dava jeito. E em que obrigatoriamente se comportou à maneira.

Tomou-se partido. Apaixonadamente, que não somos gente sem coração e sem sentimentos. Sobre a relevância dos nomes e a irrelevância da carta. Anónima, ainda por cima. E não trazendo no sobrescrito a marca de dia dos correios e o nome da localidade de onde provinha.
Defendeu-se que deveria ter sido arquivada à parte, ignorada, deitada ao lixo, destruída, enviada para os arquivos nacionais onde, ao que se crê, nunca ninguém mais voltaria e encontrá-la. Mesmo que quisesse! Que não, humilhado e ofendido o presidente da república deveria pronunciar-se. Sem perder tempo, fazendo uma pausa, deixando a situação amadurecer um pouco a ver se o frio de inverno arrefecia cabeças tontas e quentes demais.

Pronto. O presidente falou, como toda a gente antecipadamente sabia que iria falar. Com a emoção a perturbar-lhe a voz e a intenção consensual. Não se defendeu de nada porque não era acusado de nada. Manifestou-se ofendido, apelou ao senso comum que o país persiste em não saber o que é e solicitou o empenhamento dos intervenientes numa moderada contenção.
Nem surrealisticamente o Dr Louça, ou o Dr Alberto João - que são muito próximos no que respeita a ideias! - esperaram que pudesse ter agido de diferente maneira. Nem mesmo, creio, os senhores Mário Cesariny ou Cruzeiro Seixas, que são de todo resistentes surrealistas.

Foi naturalmente criticado, como se podia esperar, Foi brando, foi ambíguo, nada se percebeu daquilo que disse. Foi também naturalmente elogiado, como se podia prever. Foi sóbrio, demonstrou bom sendo, emocionou-se, apelou tranquilamente à contenção. No meio de tudo parece que o professor Freitas disse que se tinha pessoalmente empenhado, no passado, para ajudar à construção de um sistema e de um conjunto de valores que via agora rapidamente esvaírem-se.

Com redobradas razões se pôs de novo em causa o segredo de justiça. De leste a oeste e de norte a sul, sem que a alusão aos pontos cardeais pretenda sugerir nenhum disparatado posicionamento político. Aquilo é coisa que está escrita e que ninguém respeita. Ou melhor, que todos violam no momento e pela forma que lhes possa trazer maiores proveitos. Como em qualquer hipermercado do engenheiro Belmiro!

A chamada comunicação social - que não informa e que pouco comunica - limitou-se a ser veículo de divulgação. Como os valentes, atirou a pedra e, rapidamente, escondeu o braço na botoeira do casaco. Apenas reclamou para si, como sempre, o direito a informar, embora cada vez saiba menos o que isso é. A liberdade de expressão é interpretada extensivamente e tomada por completa irresponsabilidade. É quase como ser-se deputado e recusar a presença perante a justiça, a pretexto da imunidade parlamentar.

A sociedade a que farisaicamente chamamos civilizada enterrou valores como a ética, a deontologia e as regras elementares de convivência a que chamaríamos consciência colectiva ou senso comum. Já vale tudo, desde que se vendam os detergentes, como diz o Dr Rangel. Não vamos longe e tememos que o professor Freitas tenha razão. Ele e muitos outros que se empenharam tanto como ele. Ou mais do que ele.

Como nas bancadas do antigo estádio das Antas, cada soldadinho sabe da estratégia que chega sempre à vitória e de todas as leis do jogo que o árbitro aprendeu sempre de modo superficial numa acção de formação de fim de semana, durante o defeso. Para logo de seguida, predilecto do senhor major Valentim, ser nomeadamente sorteado para um jogo em que dava jeito. E em que obrigatoriamente se comportou à maneira.

Tomou-se partido. Apaixonadamente, que não somos gente sem coração e sem sentimentos. Sobre a relevância dos nomes e a irrelevância da carta. Anónima, ainda por cima. E não trazendo no sobrescrito a marca de dia dos correios e o nome da localidade de onde provinha.
Defendeu-se que deveria ter sido arquivada à parte, ignorada, deitada ao lixo, destruída, enviada para os arquivos nacionais onde, ao que se crê, nunca ninguém mais voltaria e encontrá-la. Mesmo que quisesse! Que não, humilhado e ofendido o presidente da república deveria pronunciar-se. Sem perder tempo, fazendo uma pausa, deixando a situação amadurecer um pouco a ver se o frio de inverno arrefecia cabeças tontas e quentes demais.

Pronto. O presidente falou, como toda a gente antecipadamente sabia que iria falar. Com a emoção a perturbar-lhe a voz e a intenção consensual. Não se defendeu de nada porque não era acusado de nada. Manifestou-se ofendido, apelou ao senso comum que o país persiste em não saber o que é e solicitou o empenhamento dos intervenientes numa moderada contenção.
Nem surrealisticamente o Dr Louça, ou o Dr Alberto João - que são muito próximos no que respeita a ideias! - esperaram que pudesse ter agido de diferente maneira. Nem mesmo, creio, os senhores Mário Cesariny ou Cruzeiro Seixas, que são de todo resistentes surrealistas.

Foi naturalmente criticado, como se podia esperar, Foi brando, foi ambíguo, nada se percebeu daquilo que disse. Foi também naturalmente elogiado, como se podia prever. Foi sóbrio, demonstrou bom sendo, emocionou-se, apelou tranquilamente à contenção. No meio de tudo parece que o professor Freitas disse que se tinha pessoalmente empenhado, no passado, para ajudar à construção de um sistema e de um conjunto de valores que via agora rapidamente esvaírem-se.

Com redobradas razões se pôs de novo em causa o segredo de justiça. De leste a oeste e de norte a sul, sem que a alusão aos pontos cardeais pretenda sugerir nenhum disparatado posicionamento político. Aquilo é coisa que está escrita e que ninguém respeita. Ou melhor, que todos violam no momento e pela forma que lhes possa trazer maiores proveitos. Como em qualquer hipermercado do engenheiro Belmiro!

A chamada comunicação social - que não informa e que pouco comunica - limitou-se a ser veículo de divulgação. Como os valentes, atirou a pedra e, rapidamente, escondeu o braço na botoeira do casaco. Apenas reclamou para si, como sempre, o direito a informar, embora cada vez saiba menos o que isso é. A liberdade de expressão é interpretada extensivamente e tomada por completa irresponsabilidade. É quase como ser-se deputado e recusar a presença perante a justiça, a pretexto da imunidade parlamentar.

A sociedade a que farisaicamente chamamos civilizada enterrou valores como a ética, a deontologia e as regras elementares de convivência a que chamaríamos consciência colectiva ou senso comum. Já vale tudo, desde que se vendam os detergentes, como diz o Dr Rangel. Não vamos longe e tememos que o professor Freitas tenha razão. Ele e muitos outros que se empenharam tanto como ele. Ou mais do que ele.

Publicado por LFV em 04:26 PM | Comentários (1) | TrackBack

Afinal é para dar emprego!...

Ouvi a própria Dra Manuela, das finanças, dizer mais ou menos o seguinte, referindo-se ao contrato individual de trabalho para a função pública:

O contrato é para lhes dar trabalho e não para os despedir!

E eu, que na minha santa - e enorme! - ignorância pensava que esse contrato era um instrumento de regulação das relações de trabalho entre duas partes: o empregador e o empregado. Ou, se quiserem, entre o estado e o funcionário. Sendo certo que toda a gente sabe, desde sempre, qual é a parte mais forte e, por isso mesmo, existe o ramo de direito do trabalho!

Começo a recear é que os ministros, os secretários de estado, os directores gerais e por aí fora até aos chefes de secção, acabem por se deslumbrar com o contrato, comecem a dar emprego a torto e a direito, a "boys" e a "girls", a acabem de vez com a virtual contenção orçamental da Dra Manuela! E que ele não tenha nem mais dívidas nem mais edifícios em escombros para vender na feira da Ladra. Ou na feira de Vândoma, porque no norte também há património, carago!

Publicado por LFV em 09:36 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 07, 2004

A Dra Edite Estrela melhora o currículo

Num julgamento cuja sentença foi profundamente injusta, segundo a própria, a Dra Edite Estrela melhorou ontem o seu currículo pessoal: 200 dias de multa a 30 euros por dia, totalizando 6.000 euros ou, em reformados escudos, cerca de 1.200.000. Em alternativa, 133 dias de prisão efectiva.

Não admira que tenha praticado irregularidades abrangidas pelo âmbito do código penal. Admira, isso sim, é que tenha sido acusada, submetida a julgamento, considerada culpada e condenada. Louve-se-lhe, apesar de tudo, o facto de ter solicitado o levantamento da imunidade parlamentar - um aborto! - para ser julgada, acto que foi tomado em consideração como circunstância atenuante. Paralelamente seja considerado agravante o comportamento de outros seus colegas do hemiciclo!

À saída do tribunal declarou que se mantém determinada em manter o emprego de deputada por se sentir com imensa força. Acrescentando ainda que, se tivessem assistido ao julgamento, teriam verificado que a senhora tinha saído de lá reforçada.

Sendo a Dra Edite uma pessoa que sempre teve muito cuidado com os seus longos cabelos e que sempre adoptou uma posição arrogante, como se não fosse de Carrazeda de Ansiães, não admira que se defenda da forma surrealista como o fez. Em primeiro lugar e relativamente a uma carta dirigida aos munícipes, quando era presidente da Câmara de Sintra, disse que de facto assinou a carta mas que não era responsável pelo respectivo conteúdo. Seguindo-lhe o exemplo e a teoria, a partir de amanhã vou pedir ao meu vizinho do lado que me preencha todos os cheques sem tecto que eu quiser e que me limitarei a assinar. Confirmarei sempre que a assinatura me pertence, mesmo em tribunal, mas declinarei obviamente todas as responsabilidades no que se refere ao conteúdo dos mesmos. E invocarei a Dra Edite!

Quanto à sua actividade política o caso não espanta. Nem sequer que sinta ter saído reforçada do julgamento. Pelo contrário, certamente se sentiria muito mais reforçada se tivesse sido condenada aos cinco anos de prisão previstos no código penal para os crimes de que foi acusada. Em vez dos míseros 133 dias, caso não disponha de economias ou não obtenha um crédito ao consumo para pagar a respectiva multa.

O caso seria mais complicado se fosse com um qualquer ajudante de trolha. Nunca recolheria fundos suficientes para pagar a multa e daria com os costados lá dentro. E quando saísse, tendo averbamentos no seu registo criminal, dificilmente conseguiria descobrir quem lhe desse emprego. Mas a profissão de ajudante de trolha é, como toda a gente sabe, particularmente exigente no que respeita à conduta dos seus membros. Já a de deputado é mais flexível e permissiva: basta ser maior para se ser candidato. Quanto aos actos que se praticam, por regra, ficam impunes. E, se não ficarem, as penalizações são rapidamente esquecidas. Os construtores civis é que persistem na mania de pedir aos candidatos a ajudante de trolha os respectivos certificados de registo criminal.

Ainda quanto a isto, por simples similaridade, parece que o Dr Santana - por mera questão de economia pessoal - recentemente convocou uma conferência de imprensa para instalações municipais e utilizando papel timbrado da autarquia. Como se ele fosse o dono da câmara ou como se esta se confundisse com ele. Que de facto, desde sempre, teve uma tendência quase fatídica para a confusão! Ninguém soube? Ninguém viu? Ninguém lá esteve?

Publicado por LFV em 06:05 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 06, 2004

Não se fazem perguntas quando se sabe a resposta

Maria Barroso: as perguntas desnecessárias!Na secção "Diz-se", da edição de hoje, aparece uma pergunta feita pela Dra Maria Barroso no Diário Económico. Assim:

Como é possível que neste terceiro milénio nos possamos encontrar inseridos numa sociedade tão desigual, tão injusta, tão desumana e tão violenta?

Para depois afirmar:

Tanta proclamação, tantas declarações de direitos, tanta teoria pregada e afirmada e tantos seres humanos vivendo abaixo do nível exigível pelo elementar direito a viver com dignidade.

"Paroles, paroles, paroles". Nada mais do que palavras, realmente. Então D. Maria a senhora e o senhor seu marido lutaram contra um regime que oprimia o país com mão de ferro há décadas, embora tivessem sido os militares e acabar-lhe com o reinado. Ocuparam politicamente todos os lugares de destaque que poderiam ter ocupado, contactaram com dirigentes políticos de todo o mundo, tiveram e têm amigos influentes. E vem agora, no fim da carreira, colocar questões essenciais que, em determinadas funções, nunca lhe ocorreram? Saberá a senhora que a sociedade que temos - que é uma sociedade de merda! - foi construída por nós todos? Mas que nessa construção os que ocuparam lugares de condução política têm uma responsabilidade muito maior? Saberá a senhora quem fez proclamações, declarou direitos e pregou teorias, mesmo sendo ateu? As culpas não são todas, como quer o Dr Barroso - não é nenhum familiar seu! - do governo que o antecedeu. Mas as culpas não são também todas, como quer a D. Maria, dos que lhes sucederam!

Depois a dignidade não é uma coisa que se obtenha por obra e graça do Espírito Santo. Ou que os engenheiros Jardim Gonçalves e Belmiro de Azevedo andem a distribuir pelas freguesias!

Publicado por LFV em 10:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

Assim até o Francisco fica a saber!

Dr Prado Coelho e a sociedade civilQuem, no Porto, quiser saber onde mora o Francisco, basta-lhe que comece a subir a Rua de Camões e se detenha em frente à antiga estação da Trindade. Onde actualmente alguns operários, certamente vindos de leste, pregam dísticos na vedação a dizer "frente de obra", "utilize o outro passeio" ou "metro do Porto". Enquanto outros, no interior, prosseguem com escavações arquelógicas, sem método e sem ritmo, ou procuram raposas nas tocas abertas no coração da terra por máquinas malucas.

Ele, o Francisco, mora ali há anos, sob as arcadas do velho edifício onde funcionou a estalagem Corcel, encravado entre uma parede do prédio que ainda não ruiu e uma fila de automóveis que, em espinha, aproveita o passeio para o estacionamento. Tem sempre à volta da enxerga em que se deita uma enormidade de porcarias e inutilidades que são todo o seu património. Por mais que instado a fazê-lo, não se muda. Por vezes, não sei quem, vem com uma carinha e leva-o, carrega-lhe o património para a lixeira e lava o passeio à mangueirada. Dois dias depois o Francisco está de volta. Espoliado do seu património, recomeça vida de novo.

Está habitualmente sóbrio o Francisco, desde que esteja a dormir. As mesmas garantias já não podem dar-se desde que esteja levantado e as garrafas de cerveja, vazias, se acumulem como parte do património. Não é agressivo e chega, muitas vezes, a ser prestável e a oferecer-se para levar a casa as compras dos moradores adjacentes. Raramente implica seja com quem for. Sobe a rua, a passo, falando sozinho, desce-a da mesma maneira, mas calado. Nunca andou a arrumar carros porque essa atitude, segundo afirma, é o seu contributo para o Porto Feliz do Dr Rio. Além disso corria sempre o risco de alguém do Jornal de Notícias, que fica em frente, lhe tirar o retrato e pespegar com ele nas páginas do jornal. Um desprestígio!

O Francisco não tem e não vê televisão, da mesma forma que não tem e não ouve rádio. Mas lê durante grande parte do tempo em que tem que esperar pela próxima cerveja. E escreve muitos algarismos. Em folhas soltas de papel quadriculado que os vizinhos, compadecidos, lhe vão oferecendo. Desenha-os cuidadosamente, com firmeza na mão e sem emendas. Uniformes e regulares, de fazerem inveja a quem frequenta escolas. Do ensino público ou privado, tanto faz.

Cumprimenta quem passa com a educação esmerada de quem nunca fez parte da junta de freguesia. Embora se apresente barbudo e sujo, com aspecto andrajoso, mas não utilizando roupas rotas. Um destes dias perguntou-me o que era isso de sociedade civil e se isso era bom para ele, lhe trazia mais benefícios, significava o aumento da pensão social ou, pelo menos, meia dúzia de cervejas a mais. Por mais que me custe dizê-lo, hão-de V. Exas. desculpar-me a grosseria, fodeu-me! Tirou-me o pio e, sem pedalada, não soube responder-lhe.

Saiu-me a sorte grande hoje, depois de ontem terem arrancado as emissões do canal de televisão Dois. Com os mesmos emissores, as mesmas instalações, as mesmas frequências, as mesmas caras e até o mesmo canal na TV Cabo. O mesmo presidente do conselho de administração e o mesmo impagável ministro da presidência também. O Dr. Eduardo veio hoje, por caprichos do destino, em meu socorro. Ensinando-me que o conceito de sociedade civil traz a sua marca de formulação hegeliana, nos Princípios da Filosofia do Direito, que tem precisamente na segunda secção da terceira parte um desenvolvimento que lhe é consagrado.

Logo à noite já esclareço o Francisco, que anda afligido com o assunto. E entrego-lhe o recorte do jornal para ele ler ao serão, entre o frio de inverno e mais uma Super Bock!

Publicado por LFV em 04:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

Este gajo sim, convence-me!

O cronista independente, Luís DelgadoConfesso não ser muito dado às questões de astrologia e das ciências ocultas. Por um lado, e mesmo que toda a gente tenha direito ao seu prato de caldo verde e ao seu programa de fome zero, isso garante-me não ter contribuído para a lagosta da D. Maya, do Sr. Paulo Cardoso ou do professor Cadry. Por outro, faço mal, porque não leio nem o Diário de Notícias nem as crónicas do Sr. Luís Delgado.

Como é sempre possível emendarmo-nos, tentei esta manhã corrigir parcialmente o erro e consultar, em linha, o arquivo das crónicas daquele ilustre - e creio que independente, a avaliar pela cor das lentes dos óculos que carrega! - articulista. Debalde! A estapafúrdia página do Diário de Notícias só abre com a cróniva da edição de hoje sobre o euro forte. Sendo de uma erudição que quase suplanta a do Sr. José Castelo Branco, ficando todavia aquém da das letras das cantigas do Sr. Quim Barreiros, não é esse, hoje, o tema que me interessa.

Queria aquela onde o mesmo faz as suas previsões científicas para o ano de 2004, que já corre. Tive assim de me socorrer de uma curta transcrição, inserta no 24 Horas de hoje, que igualmente transcrevo:

2004 será (…) um grande ano para Pedro Santana Lopes. Ou muito me engano, ou o presidente da CML vai ocupar, por direito próprio, o espaço presidencial em tempo recorde, com um apoio generalizado, transversal, centrista e moderado. É um Presidente para o século XXI.

Não se engana nada, Sr. Luís Delgado. Quem escreve assim, escorreito e sem erros de ortografia, de certeza que também não é gago. Tão grande vai ser o ano que, - isto que fique entre nós porque ainda o não disse a mais ninguém! - já em Fevereiro, terá mais um dia. Completo, de 24 horas. Para a desbunda! Vai ocupar por direito próprio, está claro. Não vai usurpar os direitos do Dr Francisco Louçã ou da Dra Odete Santos. O espaço presidendial é que, depois do Dr Soares pai tem vindo a reduzir-se. O Dr Sampaio é mais franzino, ocupa menos centímetros cúbicos e o Dr Santana é ainda mais delgado, - não se ofenda que não é consigo! - apesar das noites mal dormidas e dos anos passados na 24 de Julho.

Claro! Em tempo recorde! Delgado - desculpe, mas não consegui evitar. Limitações de vocabulário! - e ágil, quando começar a música há-de mover-se por entre as cadeiras dispostas para a dança e arrebatar uma onde sente o cu para não ser excluído.

Também estou de acordo consigo quanto ao apoio generalizado, transversal, centrista e moderado. É tão eloquente a frase, tão claras as palavras, tão insinuante o sentido que, desculpe-me a condenável, irreprimível e arrogante presunção, a minha própria e humilde erudição passa alguns trinta mil pés acima, como se fosse um Boeing. E isto porque o Concorde foi descontinuado!

Um pequeno reparo que, peço, me não leve a mal. Mas o senhor, a avaliar pela fotografia, tem um ar tão sereno, tão calmo, tão de boa pessoa que seguramente o não fará. É quanto à última frase e à afirmação: É um presidente para o século XXI. As gralhas são mesmo assim, aparecem sempre onde menos se deseja e quando menos se deseja. Fazendo estragos irremediáveis no sentido que quisémos dar às coisas. Ali, a seguir a presidente, caíram as palavras "da câmara" que desde já agradeço que reponha. Desculpe o reparo. E, se fosse eu, era capaz de, à cautela, acrescentar uma última palavra ao texto: Talvez!

Publicado por LFV em 10:28 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 05, 2004

A comunicação do presidente da república

O telejornal abriu com a comunicação, de pouco mais de cinco minutos, do presidente da república. É a segunda vez que vem fazê-lo por causa daquilo a que entendeu chamar-se o processo da Casa Pia. Apelou ao bom senso e à contenção, quando é certo que o apelo se dirige exactamente a quem tem a obrigação profissional e cívica de agir com bom senso e de saber ser contido.

Estes meses deram para entender aquilo que desde sempre se pensou: que a justiça não é igual para todos porque nem todos têm acesso a advogados que, agora, fazem um contra relógio contra um processo que, dizem, já vai em mais de treze mil páginas. E que esse contra relógio não é, naturalmente, gratuito.

Deram ainda para perceber que a comunicação social, de um modo geral, mais que uma vergonha é um aborto. Um pântano onde vale tudo sem sequer ser preciso saber falar ou escrever a língua pátria. É preciso é pressionar toda a gente como se toda a gente fosse concorrente ao Big Brother, com o único intuito de vender detergentes para a roupa e pensos higiénicos para o período.

E permitiram mais! Que se pudesse pensar serenamente sobre o assunto e concluir que no meio disto há grandes interesses que não olham a meios para atingirem os fins. Um destes dias eu mesmo me indignava - que diabo, também posso! - quando publicava um "post" com o título: este país já não é um sítio. Eu queria não me indignar. Eu queria estar de todo enganado. Mas, infelizmente, este sítio vai persistindo em dar-me razão. Será capaz, terá a sensatez de ouvir o apelo do presidente da república?

Publicado por LFV em 11:16 PM | Comentários (1) | TrackBack

A comunicação do primeiro ministro

Com o ar de quem vai à madrinha levar o raminho, no domingo de ramos, tivemos antes do telejornal, estrategicamente, o Dr Barroso a falar-nos depois do "reveillon" e do champanhe verdadeiro. Não nos deu nenhuma prenda no Natal mas, como já o sentimos, reservou-as todas para o início do ano. Por intermédio de terceiros, do padeiro à EDP e da Brisa ao senhorio.

Choca-me que se sinta constrangido com o desemprego que assola o país porque desejo que continue a dormir como a mãe diz que ele dorme. Santamente! E, para mostrar serviço e ver se ganha outras eleições - com o Dr Portas servindo de muleta - não precisa de se esforçar a encerrar empresas e a extinguir postos de trabalho para depois ver se consegue que algumas novas se criem e se possa vangloriar de ter com isso criado emprego.

Agradeço, por mim, os votos de bom ano. Mas especialmente os de óptima saúde porque já sei que se esta me faltar estou pi... da vida. Até porque a saúde chegou a tal ponto que já nem filas há. Quem nelas desesperava e encanecia os últimos cabelos está visto que, entretanto, morreu. Da cura!

Publicado por LFV em 10:50 PM | Comentários (0) | TrackBack

O problema da economia portuguesa não é produtividade. É criatividade!

A perspectiva do empresárioOs empresários e as suas associações passam a vida a reclamar que os lucros estão abaixo das suas necessidades familiares e que a culpa, segura e invariavelmente, é consequência da baixa produtividade do país. O governo, cada vez mais a seu mando, porque a política dos empresários é o dinheiro, corre a repeti-lo nas televisões e nos jornais. E até o Dr Portas, em comícios de feira, já bradou, tratando os presentes sinistramente por "meus amigos" como se fossem o professor Marcelo, que o que cria riqueza é o trabalho e não são as greves. Nunca esclareceu é como ele próprio ganhara para Jaguares nem com que trabalho os seus assessores garantiam tão elevados ordenados. Mas não têm razão, nem os empresários, nem o governo!

Se o problema fosse realmente de produtividade, estávamos feitos há muito. O empresário português continua a ser provinciano e a usar mangas de alpaca, mesmo quando adquire fatos de melhor corte nos saldos do Rosa e Teixeira ou usa cuecas com a marca Armani bordada a ouro entre dois botões da braguilha. Com baixa produtividade, pensa pequeno, curto e devagar. Quer invariavelmente investir nada para lucrar muito e reclama constantemente fundos comunitários e benefícios fiscais. O seu estado permanente é o de crise, com o ministro da tutela respeitosamente a difundir-lhe a mensagem para que se torne oficial.

Com os financiamentos que obtém a fundo perdido ou a taxas de juro mais favoráveis - porque é para interesse do país - deixa as fábricas e as máquinas velhas que possui aguentarem-se à bronca, como teares com cem anos, seguros com cordeis e presos com arames, instalados no vale do Ave onde o governo, para bem dos peixinhos e do ambiente, investe fortunas na despoluição. Vai entretanto construindo moradias novas, tipo "maison", com cave, três pisos e águas furtadas, além de garagem para quatro carros e piscina coberta que o inverno é frio como o caraças, ainda a água gelava toda como se fosse na Sibéria. Para fazer ver ao vizinho do lado que no ano anterior fez uma barraca apalaçada que nem espaço para um candeeiro de jardim tem à volta. Depois tem que arranjar carros para ocupar a garagem, seria um desperdício deixar aquele espaço sem utilização como as lojas e os escritórios que, para alugar ou vender, se espalham pela baixa do Porto. Então sim, devidamente equipado corre a uma casa de perdição - como diria o Sr. Diácono dos Remédios! - e já vai depressa a tratar de arranjar uma namorada nova, grande e longa, com as pernas altas e um peito pouco atrevido pelo freio que lhe põe a apertada medida do corpete. De profissão, invariavelmente, diz-se industrial, empresário ou, mais eruditamente, gestor de empresas.

Mas o problema da economia nacional não é a produtividade. Tão pouco a contínua subida do euro face ao dólar que, a continuar a cair da mesma maneira, ainda acabará a garantir ao Sr. W. Bush o prémio Nobel da química num dos próximos anos. Por, com vossa licença, ter conseguido transformar o dólar em merda! O problema da economia nacional, definitivamente, é a criatividade. Numa altura em que esta está na moda, quando a ministra das finanças, ela própria, a adoptou no equilíbrio das contas públicas, com malabarismos dignos de artistas do circo Cardinalli, o país revela dificuldades em assimilar os respectivos princípios, como se fossem exercícios de matemática ou de português. Mesmo que, de fio a pavio, de cor e a correr, seja capaz de repetir sem paragens ou hesitações o regulamento completo do Big Brother.

Comprar na Lua é que está a dar!Senão vejamos! Um americano médio, com a cultura e a inteligência suficientes para ser presidente, - o W. Bush é, naturalmente, uma excepção pelo elevado QI que revela! - de meia idade, sem filhos para criar e sem mulher que lhe dobrasse as camisas e arrumasse as peúgas na gaveta, viu-se assim, de repente, no desemprego. Não tendo o Dr Bagão como ministro, a sobrevivência tornou-se-lhe tarefa complicada. Deitou mão das últimas economias e foi ver os filmes do Harry Potter, tendo prescindido das pipocas e da coca-cola porque o dinheiro não deu para tanto. À saída, mentalmente, tinha o esquema gravado na memória, tão fácil como foi aos japoneses fazerem Pearl Harbour em fanicos. No dia seguinte tinha anúncios nos jornais regionais, publicidade na internet e, muito provavelmente, um blogue como o Dr. Pacheco Pereira, embora com menos visitantes e sem "sitemeter" instalado.

Começou a vender propriedades na Lua, em Vénus, Marte e até Plutão. Neste último com o metro quadrado a preço mais acessível, porque é mais longe e os transportes são de pior qualidade que os comboios da Beira Alta. Teve sucesso, vende que se farta, mesmo a prestações segundo o esquema "se quiser ocupe já e pague depois". Apenas se acumulam as formalidades burocráticas de registo e de controlo por atraso na abertura de Lojas do Cidadão, que resolvam tudo. De forma que aqui fica, gratuita e sem reclamação de quaisquer benefícios, a sugestão para a Dra Celeste, da justiça: instale depressa e em força - como se fosse para as campanhas de África - notários e conservatórias que, a prazo, poderão ser privatizados para benefício das contas públicas. Por mim apenas aguardo que sejam construídas auto-estradas, por concurso ou por ajuste directo, a pretexto deste expediente ser menos burocrático, mais rápido e garantir mais e melhores comissões. Não será de certeza o Sr. José Manuel de Mello a construí-las, ele que, com o devido respeito, é burro velho e tem a ronha toda. Poderá, isso sim, pressionar o estado a que as construa para que ele depois as explore e as adquira em mais uma operação de privatização que possa ser criativamente contabilizada pelo guarda-livros das contas públicas.

Nessa altura avanço, determinado e decidido, com o meu infalível projecto das áreas de serviço, antecipando-me à Galp e ao Luís Figo. Como sou um teso, sem sete palmos de terra onde cair morto, alicio desde já os capitalistas da blogosfera para que adiram à ideia. Os seus capitais, garanto-lhes, serão remunerados a taxas mais elevadas do que as que praticou a D. Branca, que repouse em paz. Fico à espera dos abruptos, dos avizes, dos barnabés e dos fedorentos. E até mesmo dos homens a dias, se tiverem conseguido aforrar algum!

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O futuro está na educação dos filhos

Como sempre, tarde e a más horas, - parece que era domingo e já passava das nove e meia da noite! - alguns portugueses começam a perceber que a melhor forma de preparar o futuro dos filhos é investirem na sua instrução. E, exactamente por isso, começaram na noite de ontem a acumular-se em filas, ao frio e ao relento, como se fossem novos sem abrigo, ilegais e vindos de leste, às portas do Colégio de Nossa Senhora do Rosário. Inexperientes e desprevenidos, nem uma garrafa de bagaço levaram consigo e as organizações particulares que, a meio da noite, distribuem uma sopa quente, limitaram-se a ignorá-los por acharem que estavam bem vestidos demais.

A corrida à escola, para preenchimento de um formulário de pre-inscrição, tem razão de ser. Em primeiro lugar, como se sabe, as escolas são poucas e os analfabetos muitos, mesmo que a maioria destes saiba soletrar, devagarinho, muitas das palavras com que se confronta diariamente e, com dificuldades, rabiscar o nome em caracteres que, quase sempre, parecem hieroglifos. Mesmo que utilizem automóveis de topo de gama com o pequeno tijolo da via verde visivelmente colado no vidro da frente.

Depois porque o ministro das escolas não tem, definitivamente, nenhuma queda para o lugar. À semelhança do que acontece, aliás, com a maioria dos seus colegas de governo que nem cunhas sabem meter. Mas assim é porque quando as pessoas acorrem às portas das escolas a querer inscrever os filhos já ele, muitas vezes, por lá passou antes a encerrá-las por falta de alunos, argumentando com os fracos índices de natalidade. Quer dizer, os portugueses têm às vezes assomos de consciência, perdem tempos preciosos em manifestações a favor da paz, gastam um dinheirão em tintas e depois ainda arriscam a integridade física a trepar pelas paredes acima para escreverem "make love not war", de que muitas vezes não sabem o sentido mas que acham giro. Depois, está visto, quando dispersam das manifestações ou fogem apressadamente à frente do polícia de giro - quando o há e, naturalmente, este giro é outro! - passam por uma taberna qualquer onde já é tão difícil encontrar o bolinho de bacalhau e o reconfortante copo de três e recolhem a casa para se sentarem à frente da televisão a ver quando a D. Teresa Guilherme casa ou a mulher, doméstica, os chama para o jantar.

Mas não fazem aquilo que recomendam nas frases que escrevem nas paredes apenas, creio eu, porque as não percebem. Mas não fazem filhos e, por si, contribuem mais para a redução dos índices de natalidade do que os elevados índices de mortalidade infantil que o INE divulga e o correspondente ministro, como o treinador que perde o jogo, solenemente declara, em conferência de imprensa à hora a que os telejornais se iniciam, que estão errados. Ponto final.

A ginástica da economia familiarInstruir os filhos, é claro, custa dinheiro e este, frequentemente, bastos sacrifícios. Ainda me recordo de, poucos anos atrás, imaginar as grandes dificuldades porque passaria o Sr. Manuel Damásio, na altura a exercer o cargo não remunerado de presidente do Benfica, para pagar o colégio dos filhos, ter carro e manter em dia - suponho eu também! - as contas da electricidade, da água e do telefone. Tudo à custa do salário mínimo que auferia e que, se fosse hoje, certamente acabaria a cair no cesto dos atrasados. É claro que não podia andar nem em Ferraris ou em Rolls-Royce e limitava-se a andar de Mercedes, modestamente. A mulher via-se muitas vezes coagida a recusar convites para festas simultâneas e, algumas outras, a ter de usar a mesma estola e a calçar os mesmos sapatos mais que uma vez. Mas valeu a pena o sacrifício. Leio hoje que a própria Sra. Damásio revela que a sua filha mais velha, além de benfiquista, já é filósofa. Que o segundo, sendo também já benfiquista, está a finalizar economia para ajudar na gestão do magro salário do pai. E finalmente que o terceiro, também já benfiquista - o que deve ter sido uma maldição que atingiu a família, na Quinta da Marinha! - é o benjamim. E naturalmente se prepara para não fazer nada e continuar a viver a expensas do pai.

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O país fora de prazo

Portugal, país a funcionar fora de prazoO país habituou-se e habituou-nos a funcionar assim: fora de prazo. É uma questão congénita, atávica, nada pode acontecer dentro dos limites. Perde o sabor, reduz-nos a adrenalina, equipara-nos a louros nórdicos que funcionam a horas, como relógios suiços. Temos que começar assim o dia para que este corra bem, levantarmo-nos mais tarde, ficarmos encravados nas filas de trânsito ou apanharmos os transportes públicos com atrazo para também chegarmos atrazados aos empregos, aos encontros profissionais ou de amigos, até mesmo a outros encontros, mais ocasionais e mais fortuitos.

Não é uma questão pessoal, é definitivamente a única consciência colectiva que adquirimos em novecentos anos de história. Essa é uma das características que mais nos identifica como país, é um dos nossos sinais particulares que nenhuma micro-cirurgia consegue remover. Funcionamos sempre a correr, mesmo para irmos em último lugar. Apresentamo-nos anualmente nos serviços de finanças a entregar as declarações fiscais no limite ou mesmo fora de prazo e dizemos que isso é ser português. Mas, já antes disso, e todos os anos, é também português o desaforo das próprias finanças alterarem todos os impressos que temos que preencher e porem-nos à venda - porque nada é gratuito - quando já deveriam estar entregues.

É espantoso - e perfeitamente anormal - que o professor Manuel Antunes, em Coimbra, consiga que os seus serviços façam uns milhares de cirurgias e não tenha listas de espera, sendo um serviço público. A cura de todos os males, ensinam-nos os nossos mais diversos responsáveis, é a opção pelo que é privado. Tudo o que é público é mau e ineficaz, à custa do contribuinte. A solução: privatizar! E assim tem sido ou assim foi que se privatizou a Portugal Telecom, a EDP, a Brisa e por aí fora. Para que os lucros revertessem por inteiro a favor de privados, para que passassem a funcionar pior para maximizarem resultados e para que nós, contribuintes, continuássemos a pagar o que de facto dava e dá vultuosos prejuízos. Exemplos? A CP, a Carris, a STCP, a TAP e chega.

Se a rotina não é cumprida o país preocupa-se e o cidadão amedronta-se. Pensa que, de todo, a Espanha já tomou conta de tudo e já nada nos salva de comermos as suas batatas e as suas cebolas, de vestirmos os seus trapos e de calçarmos os seus xanatos. Pensamos que o país já é Olivença de Monção a Vila Real de Santo António, sob administração castelhana. Ainda agora! No processo da Casa Pia com que acabou o ano velho e se iniciou o ano novo. Com alguma antecedência em relação ao termo do prazo legal o Ministério Público deduziu a acusação contra uma conhecida série de arguidos. Mesmo assim, depois de ter pessoas detidas preventivamente há mais de dez meses, sem culpa formada. Segundo transcrição do Público de hoje, já Mário Ramires, no Expresso de ontem, proclamava que o Ministério Público tinha sido célere. A celeridade aumenta-nos perigosamente a frequência cardíaca, faz-nos suar em bica, põe em risco a prudência com que estamos habituados a pedir licença a um pé para mexermos o outro. Podemos fazer mal e tê-lo feito devagar. Mas nunca corremos o risco de o fazermos bem e de o termos feito depressa. Por causa do "stress" que, por lentidão, ainda não conseguimos traduzir para português!

Publicado por LFV em 12:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 04, 2004

A solidariedade devida ao Dr António Barreto

Por razões pessoais faço mensalmente umas boas centenas de quilómetros em auto-estrada. Para progresso do país e proveito da Brisa, seguramente mais necessitado o primeiro do que a segunda.

António Barreto e a paixão pela GalpNão digo que tenha pela Galp o mesmo sentimento que o Dr Barreto: cada um é como é e nos dias de hoje é muito difícil que me apaixone. Mas fico embevecido com a voz meiga das bombas de gasolina sem chumbo de 95 octanas e com a voz de muitas horas de trabalho da operadora de caixa que me anuncia que o cartão multibanco não passa e que o cartão dos pontos tem tantos que já me esquece quantos. Só em fraldas descartáveis poderei reclamar certamente mais de uma dúzia de embalagens, sem saber para quê, porque não preciso delas para nada. Mas é gratificante sentir que a Galp me vende a gasolina ao preço de bebidas espirituosas mas, no fim, me trata como se eu fosse um cavaleiro de sua alteza, o senhor D. Duarte Pio!

Por isso é que este retrato da semana é de leitura obrigatória. Perfeitamente imperdível!


Publicado por LFV em 06:47 PM | Comentários (0) | TrackBack

A quem dar crédito? Ao cangalheiro?

Victor Sá, militante comunista de longa data, morreu por estes dias e acabou sepultado no cemitério do Prado do Repouso, no Porto. Tendo sido figura pública, aparentemente pouco, é natural que sobre a sua morte alguém dissesse alguma coisa.

Aqui disse-o o Dr Pacheco Pereira, em nota curta e perfeitamente dispensável. Nunca foi necessário mandar cartões de condolências à família dos mortos lembrando-lhe que nunca os mesmos nos tinham despertado particular simpatia, que os achávamos até uns bons trastes e que, mesmo sem contrato de mútuo, nos tinham ficado a dever umas importâncias, expressas em moeda antiga, que muito dificilmente poderemos reclamar pela via dos tribunais. Nas secções de necrologia dos jornais diários de maior circulação vêm todos os dias fotografias de finados que eu acho horrorosamente feios e despenteados - quando ainda tinham cabelo! - e nunca me passou pela cabeça lembrá-lo às famílias que até, se calhar, estão convencidas do contrário.


Já aqui
o Dr Pacheco Pereira é mais comedido, consegue maior objectividade, limita-se quase à publicação de notas biográficas do falecido sem cair na tentação da cruzada contra os infiéis. O que chega perfeitamente, caso se queira ir além da simples notícia de três linhas a dar conta do ocorrido.


Por outro lado
, aqui, o Dr Vital Moreira, em curtas palavras, não agride nem o morto nem tão pouco a família e limita-se a muito ligeiras considerações. Por mim tenho em algum apreço o Dr Vital Moreira, pelo pouco que sei do seu percurso público. Mas fico sem saber se o Dr Pacheco Pereira lhe reconhecerá estatuto superior ao de, muito provavelmente, frustrado militante comunista para ter opinião credível!

E ainda se diz por aí que, uma vez mortos, todos são perdas irreparáveis, eminentes personalidades, ilustres pedadogos, persistentes e convictos lutadores pela liberdade!...

Publicado por LFV em 05:13 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 03, 2004

O Dr Barroso bem avisou que já via sinais

No dia de Natal, ainda vestido com o fato de ir à missa e usando a cadeira onde se senta para os retratos, o Dr Barroso dirigiu ao país a mensagem tranquila de quem, como ele, tinha na noite anterior consoado em família, comido do melhor bacalhau e bebido da melhor pinga. Tudo à pato, mesmo que não ganhando tanto como o Sr. José Manuel Fernandes, que não é primeiro-ministro, o pudesse pagar do seu bolso. Diz um ditado antigo que é fácil falar de barriga cheia...

Prometia a glória ao país que, quer queira, quer não, há-de acabar por ser um dos mais desenvolvidos da Europa. Sem que se saiba nem quando, nem tão pouco de que Europa, porque ele o não diz. E a Europa do Dr Barroso, que já não é a do Sr Chirac, pode também não ser a nossa. Tanto mais que o Portugal dele, onde ele vê sinais - eu apenas ouço os do Sr Fernando Alves, na TSF, e mesmo assim não é sempre! - também parece cada vez mais não ser o dos portugueses em geral.

E o ano entrou de roupante, com o terramoto do Irão a chegar a este canto a ocidente de tudo. Liberalizou-se, diz-se, o preço dos combustíveis. Termo que não sei se deverá utilizar-se quando uma só empresa controla oitenta por cento do mercado. E, para começar, os preços subiram. Depois, com as finanças do grupo do Sr José de Mello estão em crise, subiram as portagens das auto-estradas. Todas! Acontecendo que oitenta por cento daquilo que pagamos chegam a ser resultados, quer dizer, lucros. E, pior do que isso, todas as portagens são pagas por inteiro, mas ninguém faz uma viagem do Porto a Lisboa, nem o inverso, sem ter que atravessar zonas de obras onde os automobilistas se concentram em fila, silenciosamente, rezando! O pão! Os aumentos do pão são considerados pelo governo tão irrelevantes com a carta anónima que o Dr João Guerra incluiu no processo da Casa Pia. Tanto assim é que, sendo sempre na ordem de dez vezes a taxa de inflacção que o governo utopicamente prevê, o seu valor é indicado como situando-se entre vinte e trinta e cinco por cento. Felizmente que o Dr Bagão - como benfiquista e bom chefe de família, que foi slogan que já deu! - antes disso aumentou três moletes diários ao salário mínimo nacional.

O pão continua a ser importante para muita gente neste país, incluindo os sem-abrigo que, às vezes, têm uma refeição no Coração da Cidade. Que beneficia do apoio do Sr Pinto da Costa, do desapoio do Dr Rui Rio e da ilegalização do Dr Paulo Morais. Deste, por entender que naquela associação se pratica bruxaria que poderá fazer tremer o seu mandato e o do seu presidente e pôr em causa a tranquilidade e a educação das criancinhas cujos pais, tão galhardamente, o Sr Nuno Santos comanda. Será que o governo, com esta contemplação pelos aumentos do pão, se estará a empenhar na luta contra a bruxaria e as ciências ocultas? Se assim for os jornais vão perder importantes receitas em publicidade. Muitos "cientistas africanos" que resolvem todos os problemas à lista, como nos restaurantes, vão ser repatriados!

Publicado por LFV em 11:33 PM | Comentários (1) | TrackBack

Tardiamente: mas bem vindos a 2004!

Voltei! Bem vindos, todos, ao Placard 2004. Uma referência particular a estes dois amigos que tiveram a amabilidade de me deixar comentários a desejar, seguramente com muita ironia, um bom ano novo. Não foi por malcriadice que lhes não agradeci, foi apenas pela ausência.

Mas a verdade é que resolvi parar e refletir um pouco. Sobre o que nos deixou o ano que partiu e sobre o que podemos esperar daquele que chegou. Refletir, confesso-o, é uma das coisas que me cansa a mim tanto como ao país. Quase sempre, antes de começar, já estou completamente de rastos. Dizia-me a minha mãe, quando ainda se preocupava demasiado com aquilo que eu não fazia, que tinha nascido cansado. Era uma observação que me desgostava, e sinto-me quase meio realizado pelo facto de, com a idade, ter alterado a prioridade das suas preocupações. Não que eu sentisse a observação com uma crítica negativa, nada disso. Chocava-me sim era que fosse tão vulgar, como se nascer cansado fosse coisa rara.

Depois, deixa-me confessá-lo, fui também eu festejar não sei o quê, como a hiena da anedota do Juca Chaves. À meia noite em ponto estava encostado a um canto da sala, de costas voltadas, com medo de que se rissem de mim, a engolir doze passas e a desejar não sei quantas coisas boas que, afinal, me têm sido prometidas a mim e ao país desde já não sei bem quando. O melhor, digo-vos, acabou por ser a taça de espumante barato que a gente, em momentos solenes, promove invariavelmente a champanhe do Reims. Porque o álcool pode subir-nos à cabeça, distorcer-nos o raciocínio, embotar-nos os sentidos e fazer-nos câmara lenta dos reflexos. Mas eleva-nos a auto-estima, como eufemisticamente se diz nos dias que correm.

E fui a Fátima, pelo meio de um desgraçado dia de chuva miúda e de nevoeiro, que cheguei a pensar que nos ia devolver, logo no início do ano, o nosso saudoso D. Sebastião. Pelo caminho fui repetindo os impropérios habituais contra as selvajarias dos condutores de auto-estrada cujos acidentes, segundo as autoridades, se devem a excesso de velocidade e a excessivo álcool no sangue. Mas o que essencialmente eu vejo é que não sabem pura e simplesmente conduzir um automóvel. Há os que, a quarenta quilómetros por hora, circulam indistintamente em qualquer das faixas de rodagem, como se a auto-estrada fosse deles e não do Sr. José Manuel de Mello. E os que encostam tranquilamente à berma e sustentam as suas criancinhas numa posíção rídicula para que façam o seu chichi, aproveitando depois eles próprios para se arrimarem a um arbusto e contribuirem para a ferrugem das redes de vedação. Fui ainda repetindo um curto e delicioso poema do brasileiro Manuel Bandeira que não resisto a transcrever.

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
- Respire.
..................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Sou um optimista, mesmo que o não pareça e que não queira que isso se saiba, não vá o Dr. Barroso continuar a agravar o IRS daqueles que trabalham, como aliás ele e os outros todos têm feito. E isto para dizer que, apesar de tudo, apesar do país ter uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado, ainda não é de todo necessário por a tocar o La cumparsita. Ainda podemos rezar! Fui-me às velas e comprei quatro, das maiores, que fui acender. Três pelo país e uma por mim, não vá um curar-se de todo e eu acabar vítima dessa cura. Posso não suportar emoções tão fortes!

Hoje, sábado, dia 3 de Janeiro, estou de regresso. Assisto ao telejornal e verifico que nem o fim de ano tirou a energia e a falta de senso à D. Judite de Sousa que convida pessoas que depois não deixa falar. Não soubesse eu que ela já era assim antes do casamento com o benfiquista - não é grande casamento, pois não? - Dr Seara e facilmente concluiria pela excessivo machismo deste. Mas, mais importante do que isso, constato que o país segue, tranquilo, inverno dentro, até que a primavera chegue e a hora mude. O problema do país é uma carta anónima que ninguém sabe quem escreveu e que, parece, se referia ao Dr Sampaio e ao Dr Vitorino, emigrante em Bruxelas. Para além disso era, e parece que ainda é, irrelevante. Mas está a por em causa a república, os orgãos de soberania, os governantes, os magistrados e os arguidos do processo da Casa Pia. O problema do país neste momento, depois de terminado o Big Brother e da D. Teresa Guilherme finalmente poder ir entregar-se nos braços do noivo, é saber se o procurador, Dr. João Guerra, devia por a carta no processo ou não. Porque se entende - coisa de muita ciência! - que num outro processo qualquer ela ainda seria muito mais irrelevante. Eu, por mim, reciclava-a. Mas não vos digo é como, que ainda se zangam ou me acham malcriado!

Publicado por LFV em 09:30 PM | Comentários (2) | TrackBack