dezembro 31, 2003

Este país já não é um sítio

A custo contenho o grito que me apetece soltar: ó Joana, este sítio que é Portugal, perde estatuto a cada momento que passa. Já desceu ao nível de um canto perdido na obscuridade, onde os cães vadios olham para o lado e alçam a perna. Corre o risco breve de não ter lugar no mapa, mesmo como recôndita aldeia onde nem o Astérix se conformaria em viver. À conta de múltiplos álibis servidos à lista, como as pizzas nos sofríveis restaurantes da especialidade, vai-se rapidamente despovoando.

Espera, que eu já te digo. Não tarda nada e chega-se à conclusão de que o censo da população custou uma fortuna e não serviu para nada: não morava cá ninguém. Os contratados a recibo verde para recolherem os impressos andaram a entrevistar fantasmas e a terem miragens, com o deserto imenso que a ganza lhes abriu. Não houve nenhum D. Diniz, nem nenhuma rainha santa, nem nenhum pinhal. E, assim sendo, este nem sequer foi consumido pelos fogos de Verão, que também não houve. Vai dizer à D. Maria Pia que se equivocou, quando já estava morta, e não fundou coisa nenhuma.

Este é o canto do faz de conta, que ninguém faz e de que ninguém conta. Com que ninguém conta, também! Não há, não houve, nem haverá crianças, nem adolescentes, nem adultos. Soterrou-os a todos a violência de um sismo antes do Dr Monteiro o poder impedir por decreto, e com a inaudita violência de cinquenta Irões. Sem nenhum marquês à vista, mesmo sem neblina ou nevoeiro, que pudesse acorrer-lhes.

Se houvesse tudo isso ainda havíamos de querer ser um país e instituir uma sociedade civilizada, como ouvimos contar dos outros. Com um sistema de justiça e tudo, e é bem melhor que nem sequer ouçamos falar disso. Ainda acabamos a ter crianças que se aliam em tramoias para tomarem o poder, à base de mentiras diferentes das que proclamam aqueles que o exercem. Então é melhor não!

Publicado por LFV em 02:29 PM | Comentários (2) | TrackBack

O Dr. Monteiro exige legislação para proibir os sismos

Vai bem o novo partido do Dr. Monteiro, recentemente fundado num congresso organizado pelo próprio e que, contra as suas próprias expectativas, e muito contra sua vontade, o elegeu como promissor presidente, sem necessidade de tarimbar no grupo da canalha. O que o Dr. Monteiro já fez num outro partido em que depois passou a sénior e rapidamente garantiu lugar de efectivo na primeira equipa, chegando a envergar a braçadeira de capitão. Foi dirimindo os conflitos com os árbitros, sempre numa atitude correcta, de tronco erecto e mãos acauteladamente atrás das costas, não fossem os mesmos mencionar nos relatórios que fora insultuoso e, pior, que durante as conversas ensaiara uns directos à João Pinto. Foi menos eficaz na sua tarefa de sossegar os colegas de equipa e um deles, que anda por aí, apanhou-o menos vigilante, dirigiu-se ao árbitro e denunciou-o como tendo-lhe insultado a mãe, mesmo que por entre dentes. Vai daí, foi expulso e perdeu a braçadeira de capitão, ficando livre no mercado, sem empresário e sem ser época de transferências. Pensou e nasceu o seu novo partido, para ser diferente de todos os outros porque, segundo diz, coexiste e entende-se com todos os outros, acreditem em Deus ou no diabo.

Lugar na assembleia não o conseguiu, estava a dotação completa e nem inscrições estavam abertas. Concurso só se esperava que pudesse ser aberto dois anos depois. Solicitou audiências, desdobrou-se em entrevistas, comprou papel de carta e começou a escrever sobre os assuntos que mais afligem a pátria. Ainda agora, sobre os terramotos, se antecipou a toda a gente, incluindo o Marquês de Pombal. E reclama que a assembleia realize com a maior urgência uma audição parlamentar sobre a prevenção de sismos. Sem demagogia, sem alarmismo, mas com tranquilidade e com sentido de prevenção do País, pensamos que é necessário começar a discutir como é que se evitam os danos das catástrofes naturais. E acrescenta existir forte probabilidade de ocorrência de um sismo na zona de Lisboa em virtude dos dois sismos do século XX não terem chegado para libertar a energia acumulada.

É assim mesmo, Dr. Monteiro! Vê-se que tem aproveitado o tempo do defeso. Certamente visitou o Instituto de Meteorologia e ter-se-á alistado numa corporação de bombeiros voluntários da linha. Agora é preciso de facto libertar toda a energia que se tem acumulado. E olhe que no parlamento se tem acumulado toda!

Publicado por LFV em 11:49 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 30, 2003

Finalmente! Chego ao fim do ano com grandes esperanças

Não creio ser propriamente um visionário. Mas confesso ser bastas vezes mais um português sem grandes esperanças. Não um velho do Restelo, mas simplesmente um saudosista que vive das glórias do passado. Assim uma espécie de sportinguista a lembrar o célebre cantinho directo do Morais ou de benfiquista a recordar a Taça dos Campeões conquistada ao Real de Madrid transbordando de ídolos como Puskas ou Di Stefano.

Hoje tranquilizo-me e olho confiante para a saída da barra como se as naus de novo partissem, velas tensas, prenhes de vento soprando de feição, ao encontro de tudo o que é bom e que, inevitavelmente, chegará em 2004 como o Dr Barroso teve o cuidado de ir anunciar à televisão depois da benção do Papa. Para tanto bastou o Bartoon de Luís Afonso na edição de hoje do Público.

Contra a igualdade. Pela equidade. Ao ataque!Honra lhes seja feita ó eminências pardas da nossa imbecilidade política. As autarquias vos ergam estátuas nos largos fronteiros às sedes das câmaras e das juntas de freguesia. Os nossos poetas, passados, presentes e futuros vos cantem os nobres feitos em heroicos versos alexandrinos. Os deuses da fortuna derramem sobre vós as benesses merecidas em senhas de refeição, ajudas de custo e viagens de avião para o quinto dos infernos. A memória futura desta geração e das seguintes se não esqueça de quem foram realmente os responsáveis, com nomes em placas de bronze às esquinas das ruas. Porque de facto tem sido a Constituição a impedir o nosso progresso colectivo, apenas porque não é democrática. Tão pouco que até comunistas históricos a votaram, e para a aprovarem. E pasmem, bastardos descendentes do luso Viriato, até o Sr. Acácio Barreiros a votou, levantando o cu da cadeira e erguendo o braço com a mão fechada.

Vai, felizmente, ficar tudo resolvido agora. Substituir a "igualdade de direitos" pela "equidade" vai ser o definitivo salto em frente. Ninguém mais vai parar este Portugal em acção. A Europa que não pense em mais acordos sem que tenhamos a mesma representatividade dos maiores. Já adivinho a redimensionada eloquência dos Drs. Pacheco Pereira e Graça Moura nas tribunas de Estrasburgo. E adivinho a renovada atenção daquelas centenas de europeus convictos, sentados, a abanar aprovadoramente as cabeças. Só não diviso o Dr Soares pai, cujo mandato chegou ao fim e não está presente. E que estivesse, está velho e meio surdo, já não ouve bem!

Publicado por LFV em 07:20 PM | Comentários (1) | TrackBack

Há uniões que produzem benefícios recíprocos

Antes de mais, a vida pessoal de cada um pertence-lhe e não há o direito de a invadir. Mas quem tem aquilo a que hoje se chama visibilidade pública tem que acautelar-se e, mesmo assim, ter arcaboiço para suportar aquilo que a sério ou a brincar se pode ir dizendo pela rua fora. Não saindo de casa, sendo solteiro, exercendo um cargo alto de mais para as necessidades dos cidadãos, ninguém foi mais glosado do que o Dr Salazar. Como nada impediu que o Paulinho das feiras chegasse a ministro - como tanto queria - e pudesse apresentar-se como tal perante uma assembleia de deputados que, entre si, se tratam formalmente por V. Exa. como deseja o seu presidente, o também ilustre celibatário João Bosco.

Judite de Sousa, comentadora de futebolUm dos casais exemplares é, sem sombra de dúvida, o constituído pelo benfiquista Fernando Seara e pela jornalista Judite de Sousa. Que se casaram, segundo constou, numa festa de arromba que apenas se não pode comparar ao casamento da Tchizé dos Santos porque ele é presidente de câmara e o tal Dos Santos presidente de Angola. Se isso já não fosse suficiente, não consta que em Sintra haja jazigos de petróleo porque o pouco que até hoje foi descoberto, foi-o no Beato, por Raúl Solnado, e a exploração veio a revelar-se excessivamente dispendiosa e mais deficitária do que o orçamento do Estado. Antes de todas as operações de sofisticada cosmética a que foi submetido.

Mas o casal equilibrou, por exemplo, a densidade e o comprimento dos cabelos. O dele, embora basto, era demasiado curto. Ao invés ela, não o tendo tão farto tinha-o excessivamente longo porque algum assessor brasileiro de marketing a tinha convencido de que assim é que as câmaras a beneficiavam mais. Ela ensinou-o a olhar para as câmaras enquanto dizia mal dos árbitros, parecendo que falava a sério, e disse-lhe como instruir as maquilhadoras para que o besuntassem menos, antes de entrar em estúdio. Grato, sendo ela já jornalista, - com tendências ditatoriais que a levam, muitas vezes, a não deixar que os seus convidados falem - ele ensinou-lhe o que era ser benfiquista, como cantava o Luís Piçarra. Com ele aprendeu que o futebol era um jogo, disputado por duas equipas, num rectângulo usualmente coberto por erva, controlado por um juiz a que se chama árbitro. E que este era invariavelmente bom quando a nossa equipa ganha e muito mais do que ladrão sempre que ela perde.

Vai daí, a D. Judite sentiu-se segura de si e confiante. A acrescer à carteira profissional tinha adquirido conhecimentos futebolísticos. Dois passos à frente e estava a escrever para jornais desportivos. Sempre que a bola entra na baliza é golo, sempre que passa ao lado, não é. E não tardou que se pronunciasse com seriedade e com conhecimento de causa sobre o futebol: "O futebol está como a economia. Ou seja, está mal. Está em recessão".

Um estádio, entre dez!Ficam duas possibilidades de interpretação: ou a tomamos a sério e damos crédito ao que afirma, ou a achamos uma ignorante que em casa se devia entreter a arrumar as meias do Fernando porque não sabe do que fala. Pela primeira via. Foi preciso esta mulher sacrificar parte do seu muito ocupado tempo, prescindir de merecidos momentos de descanso em companhia do marido, programar a vida a dois, o nascimento e a educação dos filhos, ouvir provavelmente raspanetes do ser director na TV de serviço público - soa bem, não soa? - para que o país soubesse que o futebol está como está. Porque isso nunca passou pela cabeça de ninguém. Os clubes continuam a apresentar vultuosos lucros - não são como a generalidade dos empresários - a fazer contratações milionárias, a pagar salários muito acima do salário mínimo, mesmo depois deste revisto, a construir estádios novos às dezenas e a manter permanentemente regularizadas as suas contas com o fisco. Para mútua e recíproca satisfação da ministra das finanças e do presidente da Câmara de Gondomar.

Pela segunda via. Então este estafermo de cabelos compridos, louros por causa das brancas irreverentes e precoces, trabalha na televisão e não presta atenção ao que ela passa? Quem vai acreditar no que ela diz? Ninguém faz a mínima ideia da experiência futebolística que terá e muito menos onde a terá adquirido, e não pense ela que basta um namoro com um adepto, mesmo ferrenho, para poder puxar dos galões. Qual recessão? Se no passado dia de Natal tivesse estado mais atenta, deixando de lado as rabanadas e o bolo-rei, teria reparado na pose familiar e tranquila - o sacana do meu irmão brasileiro outra vez! - do Dr Barroso. Descansado como se estivesse a dormir, seguramente com a mãe por detrás da câmara a babar-se e a repetir mentalmente: olha para ele, parece um anjo. A assegurar que já havia sinais, não sei é se eram os do Fernando Alves na TSF. E que estávamos a passar ao lado da recessão, que se via luz ao fundo do túnel, só não disse é se este tinha fundo. Mas pode muito bem ter porque o que não o tem é o do Terreiro do Paço, cheio de água até ao cais do Barreiro. E vem falar-nos em recessão no futebol! Qual recessão? Qual futebol?

Publicado por LFV em 05:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

Se o rídiculo pagasse imposto...

Seria caso para dizer que a Dra Manuela teria resolvido o atávico problema do seu défice orçamental, sem ter que socorrer-se de artifícios criativos, açambarcando o fundo de pensões dos CTT e vendendo património público ao desbarato. Muito provavelmente o imposto teria que ter uma taxa elevada porque, como vem acontecendo com os outros, acabaria por não ser cobrado. E lá teria de ser oportunamente cedido a um árabe qualquer, de preferência sem barba para não parecer o Bin Laden, por alguns quinze por cento do seu valor. Para, de novo, ajudar a colmatar os buracos orçamentais desta ministra ou de quem um dia destes vier a suceder-lhe.
Publicado por LFV em 10:36 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 29, 2003

O que o almirante Pinheiro de Azevedo se iria orgulhar

Almirante Pinheiro de AzevedoPinheiro de Azevedo foi, desde sempre, o homem que associei à temeridade que, noutros tempos, foram atribuídos a Humberto Delgado, a que atribuíram o apodo de general sem medo. Por um lado porque quando se viu sequestrado na Assembleia da República por uma horda de manifestantes se limitou a arregaçar as mangas, nem sequer perguntou quantos eram como usa fazer o major Valentim e proclamou em português que toda a gente percebe: bardamerda para a manifestação.

Depois nós temos fama de sermos um povo de brandos costumes e, como manda a etiqueta, de boas maneiras. Lemos os manuais da Paula Bobonne, batemos sempre à porta dos amigos, pedimos-lhes licença para entrar, recusamos sempre o copo que nos oferecem de primeira ou o lugar à mesa para que nos convidam quando os encontramos a jantar. Salientamos já termos feito o mesmo mas, se insistem connosco, como dizia José Rodrigues Miguéis, aceitamos e sobre o lastro que já trazíamos de casa, emborcamos mais um litro de vinho com a ajuda de uma sopa de feijão vermelho, um cozido à portuguesa e duas grossas fatias de pudim Abade de Priscos. Para, à saída, arrotarmos como uns alarves.

Olivença ou Olivenza?O almirante era diferente, nem era de meias palavras nem de meias medidas. Quanto ao empanzinanço, não sei! Publicamente declarou que não compreendia o diferendo que, penso eu, ainda mantemos com Espanha a propósito de Olivença. Pedia um fim de semana e um pelotão do exército para se por a caminho, atravessar a raia, içar a bandeira das quinas e proclamar de novo a soberania portuguesa sobre a localidade. Morreu sem que lhe dessem o pelotão e as armas necessárias, alguém o disse, por esses tempos, estavam em boas mãos. Mas não era nas dele! Talvez o nosso nacionalista ministro da defesa agora se decida, heroicamente, pelo ataque. Pela fresquinha, como manda a táctica militar tradicional, superiormente expendida em tratado pelo herói nacional Raúl Solnado, regressado vivo dos campos da Flandres.

Agora temos uma força da GNR no Iraque. Decidida a participação, a partida foi anunciada ene vezes e cancelada ene menos uma. Depois lá partiram, acompanhados de todos os jornalistas que não tinham montado a tenda à porta do estabelecimento prisional de Lisboa e que, por isso, estavam livres. Esperava-se que a viagem demorasse dez horas, acabou a demorar vinte e quatro, o equipamento foi o que se arranjou, os amigos italianos foram-lhes dispensando umas pastas para comer. Em vésperas do Natal tiveram a visita do ministro, anunciada como se o mesmo já preparasse o regresso quando ele dormia a sono solto, tranquilo com a segurança que a polícia lhe assegura à residência.

Depois de lá estarem há mais de um mês, de lhes ter faltado o bacalhau e as batatas para a consoada por erro do avião que se perdeu pelo caminho, foram recebidos, em Portugal, os primeiros três blindados de um total de vinte e um que hão-de equipar o contingente. A marca é, desde logo, elucidativa: Proteto! Entraram de imediato em testes e, segundo fonte da GNR, devem seguir para Nassíria nos próximos dias, acompanhados pelas novas espingardas HK G-36.

A mesma fonte, de acordo com o Correio da Manhã do dia 27, adianta com toda a objectividade: "As 21 viaturas vão seguir para o Iraque à medida que forem chegando. Primeiro serão estas três. Em Janeiro, devem chegar mais algumas e as restantes vão sendo fornecidas". E sobre as espingardas: "O cumprimento da missão não está de forma nenhuma em causa, mas o trabalho é facilitado com mais material disponível". Como sempre, como disse num "post" de ontem, em discordância com o editorial de um jornal diário, o país está sempre preparado para tudo. Para isto, está visto que também estava! De forma que o que fica, e não é pouco, é registar a eloquência intocável - quase me apetecia dizer eloquente! - da fonte da GNR.

Publicado por LFV em 07:05 PM | Comentários (1) | TrackBack

As fundações, o mecenato e o Sr Miguel Sousa Cintra

Às vezes chego a pensar que é um congénito defeito meu, duvidar assim de algumas coisas e sentir que se me franze o nariz como se cheirasse os resíduos da celulose de Cacia a invadirem os comboios da linha do norte na sua marcha a caminho de Campanhã. Mas depois paro e penso um pouco e as incertezas sobrevêm-me. É nessas alturas que, passados todos estes anos, continuo a invejar o professor Cavaco que nunca tinha dúvidas e que raramente se enganava.

Primeiro, quanto às fundações, que tempos houve em que proliferaram como cogumelos pelos pinhais, acompanhando as primeiras chuvas de Outono. Criadas por todo o bicho careta, sempre no propósito altruísta de perseguirem fins não lucrativos e muitas vezes mesmo de benemerência. Mas, quando falo de bichos caretas, não me refiro propriamente a associações de moradores, a associações de pais, a clubes de desempregados ou a adeptos do Salgueiros. Sempre gente graúda, de governantes a empresários, de futebolistas a professores catedráticos. As estatísticas dizem-me depois que os pobres são cada vez mais e mais pobres e que os ricos são cada vez menos e mais ricos. Linearmente concluo, sem pretensões de erudição, que as fundações não cumprem os seus objectivos. Até que aquele ex-ministro que é do Benfica e que esteve mesmo com um pé na administração da SAD - olha!, esqueci-me destas! - deitou tudo a perder com uma tal fundação para a segurança rodoviária e com os serviços atribuídos a amigos, sem concurso. De forma criativa, que é um eufemismo vago quanto chegue para classificar a vigarice.

São Jeeps topo de gama, com sireneDepois o mecenato e ainda não encontrei um sem abrigo - mesmo daqueles que segundo Nuno Santos, 36 anos, assessor de marketing, pai de um menino de três anos que frequenta o infantário Pom Pom, vizinho da instituição Coração da Cidade - que tenha sido mecenas fosse onde fosse, mesmo frequentando luxuosas festas com fados e guitarradas que perturbam o sossego da rua e partam em luxuosos automóveis de grande cilindrada, invetivando o Sr Nuno Santos e fazendo-lhe manguitos. O mecenato é sempre praticado por outros e com outros destinos. Qual seria o gozo de atribuir benefícios ao Coração da Cidade ou à Associação Espírita Migalha de Amor, cujos nomes não dizem nada, são perfeitamente indiferentes e irrelevantes e que, seguramente, os iriam estroinar a comprar nabos e grelos no mercado do Bolhão? Não promovem exposições em Serralves nem patrocinam concertos de Ano Novo na Praça de D. João I. Quanto à sopa, felizmente, todos a têm em casa, longe dos sovacos sem banho e sem desodorizante dos esfarrapados.

Por último o Sr Miguel Sousa Cintra. Tem sido esta manhã a notícia e que diabo, pelos esforços desenvolvidos nesse sentido já a merecia. Ao que dizem os jornais e as rádios foi ontem interceptado ao volante de um veículo todo o terreno, vulgo Jeep, de valor superior a 20.000 contos, equipado com sirene, quando a accionou para rapidamente ultrapassar algum daqueles condutores de domingo, com latas de merda e que não saiem da frente. Que, em boa verdade, até deveriam estar proíbidos de circular em vias rápidas. Acontece é que o jeep estava registado em nome dos bombeiros de Sacavém aos quais, de forma magnânina, o mesmo o tinha oferecido depois de utilizar algumas vantagens no acto de compra e de, por descuido, ainda o estar a usar ele próprio. Mas pagando o combustível, o seguro, a manutenção e as portagens, logo veio, solícito, esclarecer o respectivo comandante. Que até já tinha experimentado o veículo, excusando-se a revelar se o mesmo lhe agradara ou se pensava recusar a oferta do Sr Cintra.

Este Sr Cintra - não vá confundir-se com o outro! - não faz nada disto por questões de dinheiro, que é coisa que lhe sobra por tudo quanto é lado e disso, prodigamente, se vai gabando. Há ainda pouco tempo se recordarão de ter amealhado em bolsa uns saborosos tostões apenas por ter tido o fado de conhecer informação sobre uma empresa de que era administrador e de a ter utilizado, que ele não é burro. Foi considerado crime, foi julgado e condenado e nunca mais se soube nada. Nem da pena nem tão pouco dos tostões. Depois, de família, já lhe vinha a herança. Dono e senhor de todo e de tudo no Algarve, de barlavento a sotavento, incluindo minúsculos caracois apanhados a trepar ervas daninhas, como se fossem o professor Cavaco empoleirado num coqueiro de S. Tomé e Princípe. Como castigo pela invasão de propriedade, eram apanhados e enviados para Lisboa. Para a panela!

Publicado por LFV em 01:47 PM | Comentários (2) | TrackBack

Aviso já: em 2004 vou produzir menos

Vou produzir menos!Que o nosso ministro do trabalho, com código e tudo, se convença disto desde já e que tenha a avisada prudência de, em conselho de ministros, dar disso conhecimento ao Dr Barroso. Que este tenha o bom senso e a visão política de avisar a Dra Manuela, de modo a que esta possa rever as suas previsões e avisar o sistema estatístico da União Europeia. Em 2004, por falta de tempo, vou produzir menos e os "posts" que aqui irei regularmente pendurando serão menos e mais curtos. O que, para os meus dois habituais visitantes diários, serão inestimáveis vantagens e poderão aproveitar o tempo que assim lhes sobre para produzirem mais enquanto tomam a bica.

Faço-o por manifesta falta de tempo quando sinto, dramaticamente, que estou a ficar desactualizado. Não basta a ninguém, muito menos a mim, limitar-se a ouvir as prédicas semanais do professor Marcelo, ao domingo à noite, e na segunda-feira de manhã sair para a rua como se soubesse de cor todos os resultados do futebol de fim de semana, incluindo os da segunda divisão B e do Braga. É preciso ir atrás da informação, ouvir e ler o muito que, a trinta mil pés de altitude, o Dr Pacheco Pereira entende que o país pensa sobre aquilo que ele prodigamente nos vai dizendo em diversas línguas. Como não tenho tido tempo para isso, tenho de descobri-lo. E, não sendo presidente de junta, vereador ou mesmo eurodeputado, tenho algumas dificuldades nisso.

Depois, mesmo que isso já seja um esforço que, se não fosse narcisista eu diria meritório, o Dr Pacheco Pereira não é tudo. Há que acrescentar-lhe o F, o Gato, o Homem. Ler jornais e revistas, incluindo o Correio da Manhã, a Nova Gente e a Maria. Ouvir programas radiofónicos, sem ser só o forum da Margarida Pinto Correia, que até me não é destinado. Visitar livrarias, manter-me a par dos últimos lançamentos e adquiri-los que os editores não mos vão mandar como fazem ao professor Marcelo.

Ler a Margarida Rebelo Pinto de que um dos últimos sucessos tem um título que não entendo: deve ser francês e deve ser uma maravilha. Nunca li nenhum livro dela - digo-o em surdina para que me não critiquem! - e, sendo assim, de que valeu que me tivessem obrigado a ler os Lusíadas, decorar sinónimos, dividir orações. A Paula Bobonne - acho que é assim, com duplo ene! - também nunca li, só a vi uma vez na televisão, distinta como ser ser uma senhora da linha, muito mais do que a maluca da Ana Bola.

Depois 2004 vai ser uma inundação, o Dr Barroso dirigiu-se a todos os pobrezinhos no dia de Natal e disse-lhes que já havia sinais e que ele tinha muita esperança que. Vai haver o Euro que o Sr Scolari já ganhou para nós, não vamos é ser indelicados e deixar as selecções que nos visitam, depois do trabalho que tiveram para se qualificar, a jogar sozinhas. Seria, no mínimo, indelicado e isso eu entendo mesmo sem a ajuda da Paula Bobonne - deve ser assim, com duplo ene!

Quatro livros de enfiada, quatro!Mas, mais do que isso, o Dr Santana anuncia a publicação de quatro livros para o decurso do mesmo ano. Aquilo é que é homem de trabalho, atira-se às tarefas e os resultados veem-se, não é como o D. Sebastião que nunca mais ganha a guerra e nunca mais regressa. Senão, vejam! Como continua afincadamente no percurso do seu destino - destino é um bocado fatalista, mas foi o que me ocorreu! - de fazer um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Apenas com uma limitação: sempre uma coisa de cada vez. Primeiro o filho. Destino mais que cumprido, por excesso, toda a gente sabe. Depois o livro: quatro - livros, seus maldosos! - assim de enfiada. Sobre a cultura, a Figueira, - fico na dúvida, não sei se será sobre a cultura da figueira! - o Sporting e o camartelo no Parque Mayer. Fica a faltar a árvore! Aspecto em que foi traído pelos ucranianos e moldavos que furam o túnel do Marquês que desataram a abatê-las por ali abaixo, tudo a eito. Que até eram ilegais, nem se lhes conhece a identidade!

Publicado por LFV em 10:23 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 28, 2003

A título de esclarecimento, por causa das dúvidas

Tenho-me questionado publicamente, em alguns "posts" aqui inseridos, sobre as utilidades de um blogue. Desde meados de Outubro tenho publicado regularmente e percorrido um trajecto de principiante - que continuo a ser - no qual, tendo aprendido pouco, aprendi já muito. Sobre o acesso, em primeiro lugar, que aqui têm os sem voz, os silenciados, os que as câmaras das televisões não esperam à saída dos estabelecimentos prisionais ou dos tribunais onde figuras gradas são também notícia. Sobre a solidariedade, em segundo lugar, sem condições e sem discussão. As pessoas não se conhecem, não se sabem a cor dos cabelos nem dos olhos, a idade que têm, as profissões que exercem, os rendimentos que declaram. E estão disponíveis para se ajudar.

Depois, como em tudo na vida, muitas delas agem e reagem à sua maneira, como na Bancada Central da TSF, linchando os árbitros, excomungando os adversários, beatificando os seus apaniguados. E assim é também no que respeita à política, à religião, à cidade, à vila ou à aldeia. Lamentavelmente! Porque o que seria admirável seria que se trocassem ideias de que o país está cada vez mais carente, em relação a tudo. Não se ouvem ideias novas seja onde for, seja sobre o que for. O país é um país distante, de tão vazio. E cada vez se distancia mais!

Por mim, para que não fiquem dúvidas, quero deixar bem claro que me não envolvo em discussões apaixonadas e desde logo estéreis e me não motivam propósitos políticos, religiosos, clubísticos, regionais, raciais ou de qualquer outra natureza. Gostaria, isso sim, de escalpelizar pelo riso, pelo sarcasmo e pela ironia a triste realidade com que nos confrontamos quotidianamente nos mais variados sectores. Falta-me naturalmente talento para tanto, mas nunca ninguém é aquilo que quer, mesmo depois de ser alguma coisa, que não é o meu caso.

Permito-me transcrever Eça e aquilo que escreveu em Maio de 1871 e que está disponível em Uma Campanha Alegre:

Assim vamos. E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa. Apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal! As nossas bandarilhas não têm cor, nem o branco da auriflama, nem o azul da blusa. Nunca poderão tão ligeiras Farpas ferir a grande artéria social: ficarão à epiderme. Dentro continuará a correr serenamente a matéria vital - sangue azul ou sangue vermelho, dissolução de guano ou extracto de salsaparrilha.

Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.

Publicado por LFV em 11:41 PM | Comentários (2) | TrackBack

Não admira que se não lembre: ainda não tinha nascido!

Pedro Adão e Silva disse ao 24 Horas, no dia 27 do corrente mês de Dezembro, segundo transcrição hoje feita pelo jornal Público:

O prof. Marcelo não é para levar a sério. Ele uma vez também disse que só seria candidato à liderança do PSD se Cristo descesse à Terra. A verdade é que Cristo não desceu e ele avançou.

Pedro Adão e Silva, segundo o "site" do PS de Benfica, nasceu e Lisboa em 12 de Maio de 1974. Tem 29 anos de idade e é licenciado em sociologia. Do currículo disponível naquele "site" não constam quaisquer especiais estudos bíblicos. Tendo, segundo os crentes, Cristo descido à terra uns anos antes do seu nascimento, não admira que o mesmo se não recorde da data: ainda não tinha nascido!

Como contributo para a melhoria do nível médio da cultura geral da geração política em ascensão fica, por este meio, o professor Marcelo intimado a ler nos seus comentários dominicais os versículos bíblicos que esclareçam a situação e ilustrem o garboso sociólogo com currículo em construção.

Publicado por LFV em 11:01 PM | Comentários (1) | TrackBack

Para que se saiba: o país está preparado para tudo

Por uma vez, tinha que ser! Hoje, finalmente, o editorialista acaba por produzir uma peça que transborda de sarcasmo e de ironia. E isso, francamente, diverte-me, sendo certo que pretenciosamente acabo a pensar que o que me diverte a mim também diverte os outros. No seu dia a dia manifesta sempre uma intenção muito séria que termina, muitas vezes, por se não transformar numa muito séria intenção, depois da leitura. Simples questão da ordem da sementeira das palavras que não germinam ao gosto de quem paga mas de quem manda.

Mas a questão de hoje, levantando a hipótese - teórica, remota e impossível - de Portugal, este Portugalzinho colocado no extremo ocidental da Europa, com o cabo da Roca a pôr-se em pontas de pés reclamando os louros do triunfo, sofrer um sismo com a intensidade do que esbandalhou o Irão e sobre as possíveis consequências - teóricas, remotas e impossíveis - catastróficas, é para soltar à gargalhada. Então quem somos, de onde vimos, para onde vamos? Chegamos a esta altura do campeonato e temos dúvidas, é? As pessoas não atentam no humilde bom senso do Sr José Mourinho que repete insistentemente que o campeonato não está ganho, que há outros adversários na corrida, etc e tal e coisa. E só muda se por acaso um desses pretendentes disser que vai ele ganhar o campeonato para lhe retorquir: não ganhas, não ganhas, não ganhas!

Não faz naturalmente sentido perguntar seja a quem for se o país estaria preparado fosse para o que fosse, fosse quando fosse. O país, graças a Deus e aos orgãos de soberania, está sempre preparado para tudo. O português é conhecido nos quatro cantos do mundo como o campeão do desenrasca. Não se atrapalha por dá cá aquela palha e engendra sempre uma solução que é, muitas vezes, um primor de imaginação. Temos que ser fiéis ao nosso passado recente e recordarmo-nos dos bons exemplos que estão espalhados aí por todo o lado.

Centro Cultural de Belém: foi construído para nosso orgulho no cumprimento rigoroso dos padrões orçamentais impostos pelo professor de finanças públicas da Dra Manuela. Não houve desvios, não custou nem mais um cêntimo, - à altura eram centavos, embora caídos em desuso! - a comunidade internacional ainda hoje nos felicita pelo sucesso. Elogia-se-nos a preparação e o saber de experiência feito.

Torre Vasco da Gama, Expo 98Expo 98: alguns anos depois o verdadeiro "know how" a vir de novo ao de cima, o mesmo sucesso, as mesmas felicitações, o mesmo enriquecimento para alguns mesmos bolsos. Desvios orçamentais, se os houve, sempre coisa ligeira, sem expressão, umas centenas de milhões, o que é isso comparado com o salário mínimo nacional, mesmo depois da última actualização? Ah!, essa dos barcos alugados para os turistas dormirem, os desvios irrisórios do tal guarda-livros da cooperativa. Ora, despeito e inveja, foi o que foi. O país encheu o peito de ar, respirou cagança, ainda hoje se congratula pela preparação e pelo saber de experiência feito.

O mundial de futebol da Coreia / Japão: mais um sucesso, a malta meteu nas malas de viagem os melhores fatos, as camisas mais garridas, centenas de camisolas com o nome do Luís Figo nas costas e o emblema das quinas colado à frente, bem sobre o sítio do coração, palpitante e eufórico. O presidente da república recebeu a comitiva - modesta, pouco mais de vinte jogadores e de oitenta burocratas, com o Dr Madail no comando - que lhe foi apresentar cumprimentos, o primeiro ministro foi lacónico mas imperativo: tragam a taça. Depois os Estados Unidos fizeram-nos meter no saco a guitarra portuguesa que leváramos e, de monco caído, os coreanos repatriaram-nos. Mas o país estava preparado para o caso de termos ganho e ainda hoje se nos enaltece o saber de experiência feito. Apenas se não sabe do Sr António Oliveira nem do cheque que, por desconhecer-lhe a nova morada, o Dr Madail teve de enviar-lhe para a posta restante.

Marquês de PombalEuro 2004: estamos já tão preparados que os dias se contam um a um. Faltam xis dias para a abertura, no estádio do Dragão. Até o Sr Pinto da Costa antecipou as coisas para estar completamente disponível na altura e, por isso, festeja hoje o seu 66.º aniversário. Parabéns! Vamos por diante, com sorte no sorteio, contra a Grécia. São favas contadas, a Grécia só já vai à nossa frente nessas histórias da União Europeia. No futebol? Isso é que era bom, estamos preparados, damos dois de partido, recrutámos um seleccionador que se propunha ganhar mundiais, quanto mais europeus, torneios regionais como se fosse em Arcos de Valdevez!

Agora essa do terramoto não lembra ao diabo. Ainda há poucos meses tivemos a experiência dos incêndios de Verão, temos presentes os procedimentos para as diversas emergências, o nosso ministro da confusão interna tem currículo, está habituado à crise, chamam-no a responder por ela, na assembleia dos deputados, quase todas as semanas, nunca se engasga e raramente gagueja. Um terramoto? Ora, isso é como dizia o Sebastião José em 1755: tratar dos vivos e enterrar os mortos. Para uns, assegura-o o ministro, já não há listas de espera nos hospitais. Para os outros, não faltam cangalheiros à porta das casas mortuárias. E pergunta-se se estaríamos preparados!...

Publicado por LFV em 05:39 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 27, 2003

Alguém sabe quem é a Ana Cláudia?

Nos dias que correm é tanta a informação posta à disposição do incauto cidadão que este, por muito que pretenda evitá-lo, acaba desactualizado e, quase sempre, enganado e a comer gato por lebre. Não sabendo sequer se os gatos, com tanta comida enlatada, à venda em supermercados, serão também eles potenciais portadores de nitrofuranos como os frangos publicitados como tendo sido criados no campo, a comer milho e farelo misturado com couves.

É de facto impossível ver todas as televisões, mesmo que repetidamente passem as mesmas merdas. Ouvir todas as emissoras de rádio que passam o Marco Paulo e a Romana ao mesmo tempo. Ler todos os jornais e revistas que nos vão trazendo o número de mortos na selvajaria das estradas portuguesas e as afirmações dos famosos do Big Brother e dos Ídolos. Eu próprio - e peço a compreensão da comunidade para esse facto, até porque insisto em corrigir a lacuna! - nunca li um livro da Margarida Rebelo Pinto nem dediquei grande atenção aos "poemas" das canções da Mónica Sintra.

E mesmo agora deparo com algumas afirmações de uma Ana Cláudia, feitas a uma Nova Gente e fico embaraçado, porque a vergonha é Maria vai com as outras, perdi-a há muito e pronto. Mas a senhora diz coisas com profundidade, com conteúdo, já deve ter sido assessora do ministro da cultura ou deve estar mesmo para sê-lo.

Diz ela, por exemplo, " Quando saio com as minhas amigas, divirto-me a experimentar o meu poder de sedução. E não falha. Depois demarco-me e fartamo-nos de rir". Ah, queira Deus que o Dr Prado Coelho, tão culto e actualizado ele é, seja leitor da Nova Gente. E tu filha, divertes-te com pouco. Olha que eu conheço um beco meio escuro e completamente mal afamado onde raparigas de mais de cinquenta anos, que não dão entrevistas à Nova Gente, seduzem quase quem querem, quando querem e ainda lhes levam vinte euros. E parece que se fartam de rir sozinhas!

Depois, diz ainda, "Às vezes penso que tenho tesão escrito na testa". Credo, vai ao espelho que logo vês, mas em imagem invertida - imagem, só imagem! - mas de certeza que consegues ler. E olha, como chegaste à conclusão? Têm aparecido muitos mânfios a querer pi o juízo? Acautela a testa, se não ainda perdes a sabedoria toda.

Finalmente, "fora do trabalho (de modelo) sou uma pessoa normal. Tenho os meus amigos, faço porcarias". E a tua família sabe? A agência que te emprega só dá trabalho a anormais e tens que fingir durante o dia todo? Ai coitadinha, que há-de curstar-te tanto, que sofrimento. E as porcarias, faze-las sozinha ou à frente dos amigos? Usas ao menos um babete para te não sujares? Garante ao teu corpo o mesmo asseio que manifestas nas ideias!

Já me tinham recomendado a Maria. Agora acho que devo acrescentar a Nova Gente à lista. Cultivem-se, não façam como eu, para que o Dr Pedro Roseta possa orgulhar-se de vós!

Publicado por LFV em 07:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

Galeria: o futuro presidente da república das bananas

Presidente da República das BananasUma imagem vale mais do que mil palavras, costuma dizer o povo, especialmente o analfabeto que não sabe ler as legendas dos filmes do governador da Califórnia ou do Astérix. Isso não quer dizer que, para lá das imagens, não fiquem histórias dignas de ser contadas. Porque as há sempre.

O Dr A. João surge nesta imagem, obtida em plena zona de operações, como um imperador já coroado - não aquele que o Dr Gama em tempos sugeriu, quanto mais não fosse porque o Dr João, não sendo racista, orgulha-se de ser branco! - em pose de estado, qual Obélix a meio da digestão do último javali e do penúltimo garrafão de cinco litros.

O Dr João é um dos derradeiros resistentes do combate pela libertação da sua terra do jugo colonial. Já perdeu a conta aos anos que passaram, às espadeiradas que distribuiu, aos copos de poncha que patrioticamente teve de emborcar, aos carnavais em que desfilou atacando o bombo e aos discursos inflamados que teve de pronunciar no Chão da Lagoa. Homem de consensos consigo próprio, tem-se entendido às mil maravilhas com os tabus que vai construindo sobre o seu futuro e dos quais, antecipadamente, não dá conhecimento a ninguém. Nem ao seu amigo Jaime Ramos, tão pouco ao Dr Guilherme Silva, emigrado em Lisboa e submetido às mordomias de um cargo na assembleia dos deputados.

Democrata por excelência, tem permitido a presença em solo pátrio de um representante da potência colonizadora, a troco de viagens gratuitas a Lisboa e de uns dinheiritos que sempre vão dando jeito para distribuir uns bancos de madeira para idosos nos jardins da região. Tem suportado a infâmia de permitir que se passeiem em liberdade, pelas ruas íngremes do Funchal, jornalistas que disseram mal de si por não saberem o que dizem.

Ainda há semanas registou nova vitória no confronto com a Dra Manuela dos impostos quando se chegou a ela, bateu o pé, deu dois murros na mesa, ameaçou desatar a dizer asneiras, partir de regresso para o arquipélago e proclamar unilateralmente a República Democrática das Bananas se lhe não fosse autorizado mais um empréstimo.

Sem eleições, que não são precisas para nada, acabará por ser o heroi da independência e o seu presidente vitalício. A espaços irá tolerar as visitas do primeiro ministro de Portugal e do respectivo ministro da Defesa. Mas se o chatearem, sequestra-os! Há quem pense, maldosamente, que isso poderia ser já!

Publicado por LFV em 06:01 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 26, 2003

O disparate não tem descanso

Morada, transitória, do vereador Paulo MoraisOntem, dia de Natal, 25 de Dezembro de 2003, acabei conscientemente a fazer aquilo a que eu próprio chamaria um dia sabático. Pensei eu - estúpido! - que o dia, pela carga de tradição que carrega, iria naturalmente determinar que as coisas fossem genericamente assim. E senti crescer a esperança quando, pela manhã, verifiquei que alguns dos jornais não tinham saído para a rua, pura e simplesmente. Sabendo-se que a melhor maneira de não dizer asneiras é estar calado pensei, e penso, que não dando voz a uma série de personalidades que nos perseguem os dias, as mesmas nos não brindariam com imbecilidades.

Esperança vã, logo se viu. Na mesma linha de pensamento aguardei que as rádios não fossem ouvir ninguém, respeitassem a privacidade dos lares e se abstivessem de nos encher os ouvidos com "spots" publicitários a proclamar disparates. E que as televisões fizessem a mesma coisa, não pondo na rua, ao frio do inverno, jovens repórteres impantes de vaidade e convencimento, invariavelmente chumbados à disciplina de português no ensino secundário e depois, muitas vezes, licenciados por uma daquelas escolas que têm o percurso pejado de escândalos ou se transformaram em fundações por Decreto-Lei, a bem da utilidade pública, da fuga aos impostos e do desmesurado e translúcido enriquecimento dos seus dirigentes.

Tudo em vão. À noite, na televisão do nosso serviço público, um vereador da Câmara do Porto que dá pelo nome de Paulo Morais e responde pela alcunha de vice-presidente, abria a boca e, à falta de moscas, cuspia disparates e perdigotos à mistura. A propósito de uma organização que na cidade do Porto se tem preocupado alguma coisa com os chamados sem-abrigo e com uma refeição ou outra, enquanto o tal de Morais anda embrenhado na construção de barracas de doze andares na frente marítima do parque da cidade ou noutro sítio qualquer. A organização dá pelo nome de Coração da Cidade e tem tido, como uma das principais figuras dos seus apoiantes o Sr. Pinto da Costa.

A ajuda da Câmara à dita organização tem sido exemplar, desde a recusa de apoios financeiros até ao indeferimento sistemático e sucessivo de quantas pretensões lhe têm sido formuladas. Na noite da consoada, quando era previsível que estivessem a recato, em suas casas, jantando em família e aguardando pela missa do galo - como até o beato do Dr Portas lhes teria aconselhado - alguns manfestantes invetivaram o Sr Pinto da Costa e quem o rodeava a propósito de uma ceia de Natal que aquela organização preparara para os sem-abrigo, a pretexto dos perigos de morte e contágio que adviriam para os seus filhos, frequentadores de um infantário situado, ao que parece, em instalações ao lado.

Não bastando isso, quando estava tão elucidativamente calado, quando era por uma vez convincente na vida, o tal de Paulo Morais abre a boca e diz que os tempos em que a visibilidade pública dos amigos era invocada e chegava para resolver os problemas tinha passado à história e que, agora, sob a gestão do Dr Rio, as coisas tinham mudado e já assim não era. O que, linearmente, queria dizer que os sem-abrigo devem pura e simplesmente ser despejados do local e devolvidos à rua com o mesmo frio e a mesma barriga vazia do calor efémero e enganador de uma sopa de couve galega.

Estou à vontade! Não sou amigo, não conheço e não gosto do Sr Pinto da Costa. Embora, muitas vezes, aprecie a inteligência irónica que põe no tratamento de assuntos que o obrigam a dirimir publicamente. Mas preocupa-me muito mais um só sem abrigo do que toda a geração do senhor vereador, que se entretem a persegui-los e a tentar que alguns bem intencionados voluntários não consigam fornecer-lhes ao menos uma sopa quente. Mesmo que seja noite de consoada!

Publicado por LFV em 12:15 PM | Comentários (4) | TrackBack

dezembro 24, 2003

Feliz Natal para esta comunidade

Bem, vão sendo horas de arrumar as coisas nas gavetas, esconder o expediente que aguarda seguimento há dois meses, deitar para o cesto alguns jornais velhos que serviram de entretenimento e de fonte para alguns disparates depois lançados por aí, ao encontro do desconhecido.

Tive, de início, uma questão que mais que por Para toda a blogosfera: Feliz Natal. Bom Ano novo.uma vez repeti: a de saber para que serviria um blogue. As opiniões, como em tudo na vida, foram e são desencontradas. Mas ao fim de pouco mais de dois meses adquiri uma convicção: um blogue serve para sermos solidários e para sentirmos, regra geral, a solidariedade alheia. Coisa rara nos conturbados tempos que atravessamos e, por isso mesmo, muito mais gratificante.

Atravessamos uma quadra em que a solidariedade é apregoada, uma vez por ano, quando ela deveria ser de todos os dias, para com todos, muito mais à semelhança daquilo que sinto ser a blogosfera. Que caminhemos nesse sentido e que esta extensa comunidade, em crescimento explosivo, persiga esse mesmo objectivo sem desvios.

Para a comunidade, sem excepções, os melhores votos de Feliz Natal e de um Ano Novo que concretize sonhos e esperanças. Que tudo seja melhor para todos. A emissão, naturalmente, prosseguirá depois de interrupção que se prevê breve. Bem haja!

Publicado por LFV em 05:01 PM | Comentários (2) | TrackBack

O ministro Portas vai à missa do galo

Paulo Portas, vestido para a missa do galoSexta-feira, seis e meia da tarde nos corredores alcatifados do Ministério da Defesa. As secretárias arrumam as bugigangas pessoais nas carteiras, sacodem as roupas, ajeitam o cabelo, retocam a pintura dos lábios. Já foram às casas de banho e dentro de minutos estarão na rua para o fim de semana. Os assessores, muitos, cada vez mais, enfatiados e enfatuados, seguram entre os dedos as chaves dos BMW de serviço, certificam-se de que têm na carteira o cartão Galp Frota e de que os cartões de crédito estão dentro do prazo. O ministro! Sempre em mangas de camisa, o casaco pendurado no bengaleiro, a bandeira nacional atrás de si, sentado à secretária a olhar para ontem, tamborilando o tampo com as pontas dos dedos. Tem uma ideia assim, de repente, sem justificação, como se fosse de inspiração divina. Chama a ordenança que se mantem no corredor, frente à porta, aguardando.

Diz-lhe: vai chamar o senhor assessor especial para as questões de logística nas deslocações do ministro ao interior do país no mês de Dezembro. O soldado - ou civil, isto é uma peluda do caraças! - retorquiu tremendo quase como o mostrengo de Fernando Pessoa: V. Exa. desculpe mas não percebi quem devo chamar. O ministro abreviou, foi mais directo: vai chamar o Dr. Joaquim, porra! Apercebeu-se do excesso, ele, educado num colégio de padres, com a comunhão solene feita, parecia impossível. Pôs-se de pé e balbuciou: Nossa Senhora de Fátima me valha e Nosso Senhor Jesus Cristo me perdoe. Benzeu-se e rezou um Padre Nosso, voltando a sentar-se.

O assessor chegou à porta e bateu, parou de bufar, ajeitou a gravata, passou um dedo com saliva por uma pequena mancha no sapato do pé direito, pediu licença para entrar. Sim, entra! Antes de mais, quem teve a ideia de te atribuir um cargo com um nome que, se fosse em verso, era pelo menos uma estrofe dos Lusíadas? Mas foi V. Exa. com a sua imaginação e o seu rigor. Está bem, já me lembro. Para te pagar o que te pago não te podia chamar servente pois não? E riu-se! Olha, tive uma ideia, nós não podemos nunca descurar a vigilância em relação ao combate político. Aquele anormal do Monteiro quase parece pastor, a arremessar pedras para tudo o que é lado, agora que é novamente presidente nem ele sabe bem de quê. Ainda há-de partir as telhas da sua própria casa, pena é que isso tarde tanto, Deus me perdoe.

Devem ser aproveitadas as épocas de maior impacto para aparecer no palco. Nunca me viste ir ao mercado aos domingos, quando eles estão fechados e as peixeiras na missa a rezar pelas necessidades que têm. E vê lá se não foi no dia de acção de graças que o George foi a Bagdade, aparecendo a transportar a travessa com o perú de plástico. E agora o nosso emplastro da administração interna, até ele foi ao Iraque, carregando cagaço, bacalhau e bolo rei. Portanto eu já decidi e vou à missa do galo, mas quero ir à província.

O assessor curvou-se mais, abriu um sorriso concordante e submisso de orelha a orelha, parecia o Sr José Rodrigues dos Santos, e disse certo e entendido: ah! V. Exa. quer ir à missa do galo ao Porto. Está bem, podemos ir de avião, levamos um Falcon, assistimos à missa - que não deve ser muito longa porque também o padre terá os seus compromissos - e regressamos à capital. Consoamos um pouco mais tarde mas até o bacalhau e as couves marcham com mais vontade. Com um vinhito do Roquete...

O ministro retorquiu. Vê-se logo porque é que eu é que sou ministro. O interior é o interior, estúpido. O Porto é província, claro. Povoado por gajos com a mania que são urbanos, que sabem falar, que têm importância. Mas nunca lhes digas a eles que são saloios, que são provincianos. Mas neste caso quero ir ao interior, a uma freguesia qualquer, onde o nosso partido tenha ganho as eleições por causa da contestaçãp. Se bem que não deva aparecer ninguém que tenha trocado o empanzinanço pelo frio da noite. Mas a estupidez chega às vezes onde menos se espera e quase sempre quando menos se conta. Trata do apoio logístico para a deslocação, uma coisa mais aligeirada do que é costume. Chega meia dúzia de batedores, uma dúzia de seguranças, outra meia dúzia de assessores, três secretárias, o chefe de gabinete e o pessoal que ele determinar, quatro contínuos. Quanto ao destino, é segredo, é o meu Iraque e só o revelo no momento da partida. A Sra. D. Cinha viajará comigo, estou até a pensar em nomeá-la assessora uma vez que nem sequer é já necessária aquela formalidade irracional do concurso público. Não sei é de quê, tantas e tão variadas são as suas capacidades.

Arranja-me um automóvel de jeito, Jaguar não ficava mal, mas não quero de cor verde. Livra-te de me pores à disposição uma lata como aquela que comprou o tio do sobrinho da Suiça, em segunda mão, a cair de podre e a precisar logo de reparações de milhares de contos.

Publicado por LFV em 04:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 23, 2003

Requerimento ao ministro Bagão Félix

Exmo. Senhor,
Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social
Lisboa

Excelência

ZÉ POVINHO LIXADO DE TODO, de 55 anos de idade, divorciado, residente no bairro social da câmara, bloco sem letra, último andar, traseiras, nascido algures em Portugal, do Minho a Timor e acabando a ser cidadão português do Minho ao Algarve, ao abrigo da autonomia concedida pela democracia da União Europeia, solicita respeitosamente autorização a V. Exa. para expor o seguinte.

Soube que o nosso muito respeitado e patriótico Conselho de Ministros onde V. Exa. tem assento - espero que em poltrona digna e confortável! - com grande sacrifício dos oitenta mil contos de rendimentos anuais que vinha declarando em sede de IRS decidiu hoje, em acto muito nobre e magnânimo, aumentar em dez euros mensais o salário mínimo nacional. Não consigo compreender que o rigor orçamental de S. Exa. a Ministra das Finanças - perseguido para nosso bem e com o qual estamos incondicionalmente de acordo - tenha, em atitude de indescritível benemerência, acedido a tão desmedido dispêndio e só o posso compreender em função da solidariedade da quadra natalícia que atravessamos. A mim não me vai aproveitar grandemente porque estou desempregado, embora não consiga recensear-me nos centros de emprego onde sistematicamente me recusam a inscrição alegando que o livro usado para isso já está cheio. Mas congratulo-me com os felizardos que o vão receber, que passam a poder comprar mais três papo-secos por dia, embora receie pelos lucros e pela sobrevivência das empresas bem como pelos ordenados e pelos automóveis de serviço de que muito justamente beneficiam os seus dedicados e competentes gestores.

Tomei ainda conhecimento de que o patriótico Conselho de Ministros, - a que espero tenha estado também presente o senhor Ministro da Defesa e dos Submarinos - segundo a expressão feliz e sapiente de V. Exa., se não terá decidido por maior aumento para não agravar o desemprego existente, situação que a mim, pessoalmente, me seria de grande prejuízo por globalizar a concorrência com que já muito me debato e com que muito padeço.

Face ao anteriormente exposto venho requerer a V. Exa. se digne reduzir o salário mínimo agora fixado bem como todas as remunerações mínimas constantes dos diversos instrumentos de contratação colectiva do trabalho - enquanto estes não forem revogados e os sindicalistas não forem enviados para cursos de reciclagem na Sibéria - até ao ponto em que os centros de emprego do ministério que V. Exa. tão iluminadamente dirige deixem de ser necessários, reduzindo as despesas do orçamento, para bem do país e satisfação de S. Exa. a ministra das Finanças.

Não sendo esta a melhor forma de o fazer, não posso todavia deixar passar a situação em claro como benfiquista e bom pai de família que sou - como V. Exa. e mais quase seis milhões, fora os emigrantes - desejando as maiores vitórias ao glorioso, tanto mais que foram assegurados os serviços do famoso João Pereira que, finalmente, acordou em prorrogar o seu contrato depois de conhecido o aumento do salário mínimo hoje decidido. Se tiver oportunidade, se acaso se cruzar com ele na tribuna, apresente os meus respeitos ao Sr. ex-presidente do Alverca e garanta-lhe que nada irá por em causa a prosperidade das suas empresas de encher pneus e de assentar tijolo burro.

Mitra, 23 de Dezembro de 2003.

Pede deferimento.

P.S. - Bom Natal para todos e tenham atenção à anedota do Sr. Carlos Cruz sobre o menino Jesus. Vale mais prevenir do que remediar.

Publicado por LFV em 05:43 PM | Comentários (3) | TrackBack

O partido do Dr Monteiro não para de crescer

Este país, tão habituado já eu estou a que ele seja como é, sem glória, sem ética e sem princípios, muito difilmente me consegue surpreender. De forma que quando isso acontece eu só não deito uma dúzia de foguetes porque não tenho dinheiro para os comprar - a pólvora está pela hora da morte depois daquela ideia peregrina do W. Bush pensar que se libertava o Iraque a tiro de canhangulo! - e porque, além disso, a indústria de pirotecnia é perigosa e não para de fazer vítimas. Mas que fico eufórico, sem influência da passa ou do álcool, isso garanto-vos.

De modo que o Partido da Nova Democracia que o Dr Monteiro, reunido em congresso fundador, anunciou ao país fez-me de novo acreditar nele, no país, em tudo e mais alguma coisa. Até na dobragem do Cabo da Boa Esperança, na descoberta do caminho marítimo para a Índia e no Sporting a fazer o mesmo pleno que o F. C. Porto fez a época passada, arrecadando campeonato, taça, taça UEFA e supertaça, sempre sob a erudita e diligente orientação do engenheiro Fernando Santos.

Depois aquilo era pouca gente mas era suficientemente jovem para que eu acreditasse. O Dr Monteiro não apresenta cabelos brancos, tem o currículo invejável de ninguém saber o que de relevante ele fez até hoje e resolveu em boa hora - certamente seguindo a orientação de um qualquer técnico de marketing brasileiro - mudar aqueles óculos de aspecto pesado e estúpido que faziam dele um lavrador com o dobro da idade.

Dr Manuel Monteiro, procurador dos angolanos!De forma algo inesperada, porque nada tinha sido preparado para isso, o Dr Monteiro ganhou o congresso, apareceu por momentos nas televisões, desdobrou-se em entrevistas às revistas para onde escreve a Margarida Rebelo Pinto e até foi convidado a dar ele resposta a uma pergunta feita ao consultório sentimental da revista Maria por um leitor mais atrevido, sobre sexo seguro. Não foi levado em ombros porque, embora magro, é maciço e o número de congressistas, de tão poucos, não puderam com ele. Para além disso não tinha acabado nenhuma faena a nenhum touro em pontas, finalizada com a estocada final e fatal como em Barrancos. Mesmo que o tivesse tentado, que naquele fim de semana o Dr Portas, seu velho amigo de peito e de coração nem pregou olho, atento à informação que lhe ia chegando dos militantes que mandou ilfiltrar no local. Isto porque, segundo uma máxima de Sócrates - o engenheiro da televisão não! O outro, o verdadeiro! - quem tem cu, tem medo.

Depois o Dr Monteiro, de novo feliz por ser presidente de qualquer coisa, viu acrescentada mais uma linha inútil, em caracteres "bond", ao seu longo currículo pessoal e atirou-se ao trabalho, a ver se melhorava a saúde. Passeou-se pelas ruas, visitou mercados, foi às lotas onde arrematou cabazes de jaquinzinhos, perfilou-se respeitosamente nas primeiras filas de muitas missas, benzeu-se e solicitou audiências a toda a gente que lhas poderia conceder.

Tem sido bem sucedido, apesar do nome novo e da lenga-lenga velha e relha. Já só aguarda por disponibilidades de agenda dos respectivos responsáveis para ser recebido pelo presidente da junta dos Olivais, pelo presidente da câmara de Oeiras, pelo primeiro ministro e pelo ex-presidente do Alverca. O ministro da defesa nem deu sinais de vida, parece que sempre que lhe falam no Dr Monteiro entra autenticamente em transe, benze-se três vezes, acende duas velas de meio metro e, por precaução, recusa-se a sair à noite durante três dias em que fica em casa a rezar o terço.

Mas o sucesso ultrapassou fronteiras e de Angola, em papel timbrado onde a palavra "popular" foi adequadamente riscada a esferográfica azul, emitida por cartório notarial com porta para a rua e número de polícia, chegou-lhe uma procuração. A dar-lhe plenos poderes para se pronunciar em nome do povo angolano. Daí o título de uma pequena notícia de hoje: Monteiro diz que Durão participou num casamento insultuoso para angolanos. Espera-se que quando ocorrer o próximo "insulto" o Dr Monteiro também seja convidado!

Publicado por LFV em 02:05 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 22, 2003

Dos Santos: o socialismo é mais para uns que para outros

O laço do noivo

Por mim, estes últimos dias, tenho-me sentido um homem tranquilo, feliz e de bem como o meu país. Tanto que chego mesmo a pensar se não serei eu um desmancha prazeres que pensa mal de tudo, faz por ridicularizar o que é sério, procura a ironia nas sorumbáticas trombas do mais despercebido dos deputados da nação, exactamente o 230.º. Apenas porque acabo por perceber - e eu só percebo mesmo aquilo que entra pelos olhos de toda a gente! - que o país não tem problemas de importância e não há, como há poucos anos se qualificavam, os fazedores de factos políticos. E, assim sendo, assobia-se ou sopra-se na gaita, olha-se para o lado e preocupamo-nos com os assuntos dos outros, os infelizes.

Em primeiro lugar o Iraque e a captura, afinal por denúncia, do ditador Saddam Hussein numa toca de toupeiras. O nosso parlamento congratulou-se com o facto, produziram-se discursos raros, dignos dos grandes tribunos que temos e aprovaram-se moções. Não satisfeitos com a unanimidade, alguns deputados ainda vieram para os jornais, de forma sapiente e isenta - especialmente isenta! - considerar o acontecimento um facto histórico. Isso fez-me recordar as manifestações de rua, os comícios, as bandeiras e as sessões especiais com que foi saudada a queda de Pinochet ou de Suharto. E o ar profundamente aliviado, sorridente, a mostrar o corta palha todo, com que foram seguidas as solenes exéquias de Franco ou de Salazar. Só não houve escolas de samba porque o samba não é a nossa dança nacional, - a nossa é outra! - porque foi fora de época e porque, que diabo, eram enterros em que os gatos pingados eram de alta condição social, mas eram gatos pingados. E são!

Depois porque o segundo assunto foi o casamento de Luanda, onde se juntou a nata das sociedades da Mutamba e da Linha para embarcarem para o Mussulo, à procura de recatados banhos e fresquíssima lagosta. O país parou de inveja! Fossemos nós detentores de tão grandes riquezas e haveria o mundo de ver o casamento que faríamos à filha do Dr Sampaio, mesmo que ela não quisesse e ainda que já estivesse casada. Mas não, nós somos pobres - e quando digo pobres refiro-me a mim e à cambada que passa horas de volta desta merda destes monitores, a ver se consegue distrair-se! - como muito bem nos diz a Dra Manuela e nos lembra Bruxelas para que não nos julguemos com os mesmos direitos dos outros.

Vejam que só o costureiro Augustus - deve ser romano o raio do homem! - vendeu cinquenta vestidos de luxo em poucos dias, com preços entre os 74 e os 360 contos, fora os que levou na bagagem para a malta de lá, que pagou a pronto e em euros porque o dólar está de rastos. E naquelas brincadeiras que se fazem, as ligas da noiva foram leiloadas por seis mil contos - não divulgaram o valor de arrematação das cuecas - e o laço do noivo chagou aos 2.200. Segundo consta não foi o Dr Barroso a arrematar nenhuma das peças, sinal de que continua a ganhar mal, nem a D. Cinha que usou roupa emprestada pela autarquia onde reside, a título de propaganda.

Recordem-se que foi o socialismo que conduziu a esta situação e a sociedade angolana é a primeira sociedade da abundância. É recorrente a pobre ideia do presidente Lula a reclamar a fome zero para o seu povo, com direito a matabicho, almoço e jantar. O presidente Dos Santos já lá tinha chegado antes. Os miseráveis que povoam as ruas de Luanda, que continuam a remexer nas lixeiras à procura de alimento, que assaltam por tudo e por nada são apenas disfarces por causa da inveja dos outros, dos vizinhos do lado. E vocês sabem como os pobres têm uma inveja horrorosa e mórbida dos ricos, é preciso despistá-los, fazê-los acreditar que de facto a abundância não é a que é mas apenas a que parece!

Publicado por LFV em 12:01 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 21, 2003

Galeria: o nosso ministro da presidência

Morais Sarmento, in Grande Reportagem SemanalSim, está bem filho! Mas olha que foi assim que os nossos amigos americanos deixaram mais de 50.000 na Indochina. E quando o velhote Henry Kissinger se sentou à mesa das negociações para fazer política, em Paris, estava farto de levar porrada do Ho Chi Min.

Olha, talvez por isso o W. Bush tenha mudado de táctica agora, no Iraque, onde declarou o fim da guerra assim, de repentemente. O que não era preciso porque parece que também a não tinha declarado enviando ao Saddam um ofício registado e com aviso de recepção.

Mais, tens licença de uso e porte de arma para andares com essa moca? E essas luvas são por causa do frio ou são daquelas do murro? E os calções ou estão fora de moda ou são desenho da Fátima Lopes. Mas não se lhe vêem os diamantes. Também, se vissem, ainda se calhar se viam outras misérias ou te confundiam com a filha do presidente Dos Santos.

Se tiver sido apenas para a fotografia, para a pose em estúdio, estás desculpado. Mas repara que não ficas bem assim, descalço. E depois, já não te lembras das determinações daquele "maçon", do Nandim de Carvalho? Lembras-te? Descalços ele não queria nem os turistas. Anda, vai à feira de Carcavelos que te fica perto e compra ao menos umas sapatilhas. Regateia no preço que acabam por te fazer barato. Depois conta a cena, e mostra as sapatilhas já agora, à Dra Manuela. Vais ver como te vai felicitar, talvez até te dê um beijinho, por seres tão poupadinho e seguires com afinco as directrizes dela.

Feliz Natal, meu! E deixa de lado a moca durante uma semana, vai à missa do galo e deixa pelo menos um euro na caixa das esmolas. Recebeste o subsídio não foi? Não queiras também aforrá-lo todo que as taxas de juro, digo-to eu, estão uma boa merda. E, como sabes, o Dr Constâncio não tem voto nenhum nessa matéria. Além disso não foste ao casamento de Luanda - não te convidaram, sacanas! - e do mal o menos, não tiveste de gastar dinheiro na prenda!


Publicado por LFV em 12:17 PM | Comentários (3) | TrackBack

Qual é o prazer que lhes dá?

Para mim é mais do que óbvio que os cargos políticos deveriam ser exercidos em regime de exclusividade e temporalmente limitados no que respeita ao número de mandatos. Duas enormidades desde logo, seguramente, no entendimento daqueles que estão dentro do redil. Como, ainda por cima, são eles que fazem as leis que acautelam os seus cada vez mais vastos e escandalosos interesses, estamos conversados.

Isso não impede que me questione cada vez com maior frequência sobre as motivações que levam políticos profissionais e desdobrarem-se por comentários nas televisões, intervenções nas emissoras de rádio e artigos nos jornais e revistas. Tanto mais que, como é público, nem o cargo de presidente de uma junta de freguesia é remunerado com o salário mínimo e, que me conste, em caso de doença não irá arrecadar os míseros cêntimos que o Dr Bagão reserva para os pobres.

Mas realmente o que acrescentam, em termos de mais valia, ao quotidiano da vida dos cidadãos - que somos nós todos! - os aparecimentos televisivos, pedantes e vaidosos, do Dr Pacheco, do Dr Santana, do Dr Carrilho ou do Eng Sócrates? E os chamados debates radiofónicos? E os artigos de jornal assinados, ridiculamente, pelo Dr Arnault, ministro? Não vão os leitores que o lerem, se os houver, equivocar-se e pensar que será um sósia da escrita ou um "clone" da figura.

Acabo, forçosamente, por concluir sempre da mesma maneira. Apesar dos ditos se auto-denominarem "opinion makers" que é, creio eu, uma expressão do dialeto barranquenho que deverá significar maqueiros de opinião. Em concorrência parcial com os bombeiros e o INEM. E é quase tão óbvio como as minhas convicções de início: é claro que os senhores políticos se masturbam, pelo prazer que isso lhes dá. Então não seria melhor dedicarem-se à internet, como o Dr Magalhães, e irem comprar o livro?

Publicado por LFV em 10:25 AM | Comentários (3) | TrackBack

Em gente honesta até dá gosto ir votar

Cada vez me sinto mais rídiculo na minha condição de português. A única coisa que me vai mantendo a auto-estima - como agora é fino dizer-se! - à superfície é o facto do Dr Barroso me ter prometido que íamos ser o primeiro país da Europa, mesmo que não saiba se ele já se terá esquecido ou não. E, verdade seja dita, também não sei com que intenção o dizia, mesmo falando sério, sem o mínimo sorriso a aflorar-lhe aos lábios. Isto porque mesmo os mais sérios, como ele, gozam connosco que se fartam sem a gente dar por ela. E, sendo assim, poderia querer referir-se ao atraso nos horários, na saúde, na indústria, na economia, no comércio. Ou à liderança no número de casos de tuberculose, de sida, de consumo de álcool. O que desde logo nos faria destacar do pelotão e caminhar isolados para a meta e para a vitória.

Ainda ontem, num outro "post", falava das condições de trabalho, satisfatórias, que o país assegura, muito justamente, aos que o servem dedicada e desinteressadamente. Os autarcas são dos que mais se esforçam por conquistar as boas graças dos seus munícipes. No norte fez história a benemerência do major Valentim que chegou, no decurso das campanhas eleitorais, a distribuir galinhas poedeiras ou para canja e televisões a cores, com ecran de 51 centímetros, para que os eleitores pudessem ver o Boavista no conforto dos seus sofás. Alguns deles tiveram depois o gesto grato de o convidar para a patuscada, oferecendo eles o vinho e a broa.

Recentemente os jornais noticiavam que alguns autarcas do área metropolitana do Porto vinham, ilegalmente, a receber os ordenados por inteiro dos cargos de presidentes de câmara e de administradores daquilo a que, por megalomania, teimam em chamar Metro do Porto. O Sr major não, que não precisava, tinha dito para fazerem as coisas direitas porque os seus biscates lhe dão sempre para os pequenos almoços. O Dr Rio, questionado sobre o assunto, foi claro e objectivo dizendo que cumpria rigorosamente a lei. E quando o inoportuno jornalista se não conformou em saber que o Dr Rio não estacionava o automóvel em transgressão, não agredia os funcionários, não insultava as empregadas da limpeza, não matava e não assaltava bancos, insistiu com a questão. E o ordenado, tem recebido por inteiro? É de boas maneiras o Dr Rio, como se sabe, como se tem visto e tomado conhecimento pelas intervenções do Sr. Pinto da Costa. Por isso se conteve, passou a mão pelo cabelo e voltou a declarar, com mais forte convicção ainda, que cumpria muito rigorosamente a lei.

Vai daí que dias atrás a Junta Metropolitana do Porto se reuniu para designar os presidentes de câmara que terão assento no Conselho de Administração do Metro do Porto. A reunião decorreu normalmente, não tendo sido pacífica nem lhe tendo faltado polémica que chegasse. E, no meio dessa normalidade a que vamos estando habituados, aprovou a recondução dos mesmos administradores: o major Valentim, o Dr Rio, o Sr Narciso e o engenheiro de Vila do Conde. O Dr Menezes, de Gaia, já em tempos tinha dito que precisava de ganhar tanto como os outros porque ainda tem filhos a estudar e hospeda em casa uns sobrinhos lá de cima, que também comem. Agora exigem tratamento idêntico o Dr Bragança, da Maia e o Sr Macedo, da Póvoa. Porquê? Ora, porque está previsto que o metro venha a passar ou a chegar aos seus concelhos, que é quanto basta para lhes dar uma trabalheira do caraças.

A questão é perfeitamente pacífica em relação a um aspecto. A determinação unânime em servirem mais e melhor as populações dos seus municípios, que poderão viajar de metro não se sabe ainda quando, a preços do arco da velha. Quanto a saneamento básico, habitação social, saúde, educação e outras ninharias, a culpa da situação até lhes não pertence. Em alguns casos vem do mandato anterior, dos que agora são oposição. Quando isso não acontece, ainda é herança do facismo!

Publicado por LFV em 12:10 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 20, 2003

A justiça funciona ou não?

Terminou hoje, com um discurso muito formal do Dr Barroso, um congresso sobre a justiça. De uma forma geral toda a gente conclui que também a justiça está em crise e o governo, pela boca do seu líder, anuncia para o próximo ano um conjunto de iniciativas legislativas com o objectivo de contribuir para a melhoria do estado de coisas actual.

Mas toda esta quase unanimidade não deixa de ser equívoca, de sugerir um conjunto de questões e de nos fazer recordar acontecimentos bem recentes. Quer queiramos quer não o processo da Casa Pia não condicionou apenas os passos políticos do Dr Ferro. Trouxe, e vai continuar a trazer à superfície uma série de situações. Em primeiro lugar tem sido uma montra permanente daquilo que de facto é o país.

O Sr Carlos Cruz é detido e os responsáveis pelos vários sectores da justiça apressam-se a reclamar que a justiça funciona. Ainda antes de ser detido, e temendo pela eminência da detenção, o mesmo senhor pede ao Procurador Geral da República que o receba, e este recebe-o. Naturalmente para que a justiça funcione. São detidas novas personalidades e volta a afirmar-se que a justiça continua a funcionar. Os advogados contratados para defender os arguidos aparecem nas televisões, falam nas rádios, são entrevistados para os jornais. Os seus clientes, naturalmente, são inocentes e nem sequer sabem de que são suspeitos. Apresentam recursos atrás de recursos. Se o Tribunal da Relação os recusa é porque a justiça funciona e, se os acolhe, é ainda porque a justiça funciona.

Agora, de repente, de acordo com as conclusões de um congresso, a justiça está em crise. E está! O ano que passou apenas confirmou que, como se ouvia dizer, ela não funciona de maneira nenhuma e muito menos é igual para todos. Quando muito é mais igual para uns do que para outros, como quase tudo na vida. Os suspeitos sem visibilidade pública não tiveram tempo de antena, os seus advogados não foram perseguidos como o juiz Rui Teixeira para falarem à comunicação social, os seus processos apenas foram hibernando sem que ninguém se preocupasse muito com eles.

É caso para nos perguntarmos em que ficamos, mesmo que já soubéssemos que, como no resto, tudo isto é triste, tudo isto é fado!

Publicado por LFV em 10:45 PM | Comentários (1) | TrackBack

O ministro a madrugar e a malta a dormir

A malta da aldeia realmente não tem respeito nenhum pelo esforçado trabalho dos outros. O Dr Figueiredo Lopes, digno ministro da Administração Interna, vulgo trapalhadas e companhia, levantou-se de madrugada. Às sete da manhã - digo bem, sete! - depois de ter passado por uma das lojas das áreas de serviço que estão a oferecer bolo rei a quem faça compras de valor superior a dois contos, já estava a bordo de um avião - não disseram mas acredito que seja um dos Falcons que nós, cidadãos, generosamente abastecemos! - com o cinto de segurança apertado, pronto a levantar voo a caminho do Iraque para visitar os militares da GNR que ele mesmo para lá mandou. Acredita-se que não deixará de aproveitar a visita para rever a estratégia e deixar as coisas orientadas no sentido de acabar com os atentados que ainda ocorrem. Haverá uns momentos para trincar uma fatia de bolo e beber dois goles de espumante antes de, pela tarde, regressar a Lisboa. Onde falará à comunicação social para dizer qual é a situação real no terreno, vista com os seus próprios olhos, num espaço de curtas horas. Depois seguirá para o seu merecido fim de semana, a repousar.

Enquanto isto, vejam a pouca vergonha! A malta da aldeia dorme a sono solto. São quase oito e meia e o último "post" foi publicado pelo Velharias às 07:38. Antes tinha sido Judite e Holofernes às 05:49, Pixeldust às 05:19, Blogue de esquerda às 05:08 e Crónicas de uma boa malandr@ - malandra é, vê-se pelo blogue. Essa de boa é outra conversa! - às 04:28. Então isto é produção que se apresente? É assim que vocês querem contribuir para o desenvolvimento do país e ajudar o Dr Barroso a ser reeleito? Acham que é assim que vamos ganhar o Euro 2004, qualificar-nos para o Mundial 2006 e ganhá-lo? É assim que ajudaremos o Vitória de Setúbal a ganhar a Taça de Portugal e o major Valentim a ser reeleito presidente da câmara sem ter que andar a oferecer galinhas poedeiras aos eleitores? Calaceiros! A menos que tenham aproveitado a noite como deve ser e continuem a aproveitar as primeiras horas da manhã. Continuem a dormir que eu saio sem fazer barulho!

Publicado por LFV em 08:42 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 19, 2003

Política e futebol: a mesma promiscuidade de sempre

Em Fevereiro de 1999 foi celebrado o muito contestado, injusto e perfeitamente escandaloso acordo entre o Estado e os clubes de futebol para que estes regularizassem dívidas computadas em 58 milhões de euros, o equivalente a pouco menos de doze milhões de contos. Hoje, passados quase cinco anos, o jornal Público vem revelar que apenas oito milhões, o equivalente a cerca de um milhão e meio de contos, foram entretanto pagos.

Que se saiba o acordo não foi denunciado pelo Estado que, pelos vistos, também nada fez para cobrar valores que lhe são devidos e que os devedores reconheceram publicamente. Em vez disso a classe política continuou a ocupar os camarotes dos estádios, sem pagar bilhete, a ir a finais internacionais e, por vezes, a entrar em polémicas com a gente da bola. Mais do que isso! O Estado contribuiu significativamente para a construção de dez estádios para o Euro 2004, directamente, por via de institutos públicos - uma invenção para facilitar a irregularidade - ou por intermádio das autarquias que, como se sabe, são entidades privadas.

Que eu tenha conhecimento ninguém contestou o valor das dívidas ou a veracidade da revelação do Público. E o presidente da Câmara de Gondomar e da Liga de Clubes, com um pé em cada uma das tábuas, a ver se não cai à água, veio pronunciar-se sobre o assunto para assacar responsabilidades ao Governo e à Santa Casa da Misericórdia que, em sua opinião, também falharam. Não evitou o disparate, ou então julga-se um homem com muita graça, acabando por acrescentar que os clubes agiram de boa fé e que devem ser vistos como bons pagadores que de facto são. De resto todos os clubes estão inscritos nas provas oficiais depois de terem apresentado certificados confirmando terem regularizadas as respectivas situações fiscais. Certificados? Emitidos por quem e quando? Com tão bons pagadores como estes é questão de darmos tempo ao tempo: acabaremos atrás de toda a gente. Não é só atrás da Grécia!

De facto às vezes é muito melhor o comportamento do Dr Madail: sempre que se tenta contactá-lo nunca se encontra!

Publicado por LFV em 06:25 PM | Comentários (3) | TrackBack

Pacientemente à espera de Godot

Por questões relacionadas com erros cometidos pela incompetência da Telepac, já reclamados uma, duas, dez vezes e ainda não corrigidos, ligo um número telefónico que indicam nas facturas. Fico quinze minutos à espera que me atendam, ouvindo uma música incaracterística de que não gosto e algumas outras alarvidades já fora de prazo.

Finalmente uma voz feminina que me atende e que nem chega a ouvir o que tenho para lhe dizer e para reclamar. Dirige-de-me com o mesmo carinho com que o Paulinho Santos se atirava, de carrinho, às pernas do João Pinto. Para cúmulo a chamada cai e fico pendurado pelo pescoço como o pai Natal de plástico insuflável da loja aqui em frente. Como um enforcado. Ao menos isso poupou-me os hematomas nas canelas!

Solução: começar tudo do princípio. Mais quinze minutos de espera a ouvir música e disparates até ser atendido por uma voz masculina. Surpreendentemente mais correcta e simpática do que a da sua colega anterior, mesmo para mim, que continuo a preferir as mulheres. Sempre com medo de que a chamada voltasse a cair e eu tivesse de reiniciar o percurso, fui contando a minha história. Pela primeira vez fui bem atendido por alguém da Telepac, com correcção e que se interessou - deu pelo menos essa impressão - por resolver as questões que lhe foram colocadas.

Fico a saber que aquilo é um "call center", expressão creio que directamente importada do dialecto mirandês, e que para melhoria dos serviços funciona assim. Quer dizer, não funciona. E fico a contas com os meus botões, a repetir em múrmurio: é o progresso, estúpido!

Publicado por LFV em 03:28 PM | Comentários (1) | TrackBack

Finalmente políticos e gestores são tratados como gente. E rima!

Uma das características que sempre me agradou mais no professor Cavaco - para além da agilidade em subir aos coqueiros sem levar com os cocos na tola! - foi a sua permanente boa disposição, o seu ar jovial e sorridente, a sua ironia e o seu inatingível sentido de humor. Humor fino, de salão, política e socialmente correcto, culto. Nada de ordinário como o pouco que o Sr Herman José tenta fazer nos seus programas em que a melhor anedota é o "cachet" que lhe pagam, sendo certo que quem se diverte é ele.

Recordo-me de quase me ter escangalhado a rir, como o professor Marcelo no domingo passado, quando ouvi o professor Cavaco, anos atrás, dizer que como primeiro ministro de Portugal ganhava o equivalente a um dos motoristas do chanceler Helmut Kohl. Perguntei-me na altura porque raio não teria ele emigrado em vez de ter ido fazer a rodagem do carro novo para a Figueira da Foz. E mantive-me na dúvida, sem resposta, até hoje.

Hoje fico a saber que afinal o professor Cavaco era um homem de ideias largas, que olhava para o futuro, não se ficava pelo imediato. Tinha esperança que as coisas pudessem melhorar com o tempo e com a União Europeia. Por isso se ficou por cá, sem emigrar, e tinha razão. Deve estar roído de inveja e frustrado porque a ideia foi dele. Reste-lhe a antiga satisfação de saber que nunca tem dúvidas e que raramente se engana. Mesmo que essa seja hoje apenas para contar aos netos.

Nos dias que correm, apesar da crise de que persistentemente fala a Dra. Manuela e da retoma em que insiste o Dr. Barroso, o que está a dar é ser político ou gestor que, afinal, são uma e a mesma coisa. Os gestores saltam para o governo e os governantes para a gestão das empresas tipo pescadinha de rabo - sem ofensa! - na boca com a mesma facilidade com que o Dr Santana diz que nunca pensou em ser candidato a presidente da república. As coisas mudaram e, ao que parece, até o Dr Almeida Santos deixou de ser cliente certo e habitual das casas de prego da baixa coimbrã, por insuficiência do ordenado para as despesas da farmácia.

Um comandante geral da GNR, que amanhã bem pode ser ministro da cultura ou gestor da CP, pode escolher dois a três carros topo de gama, sem limite de preço, marca, modelo ou mesmo cor, três motoristas, gasolina, gratificações sigilosas no fim da comissão de serviço, ajudas de custo, despesas de representação, contas de telefone fixo e móvel, secretária particular, - não se indica para que serviço! - um chefe de gabinete e pelo menos dois assessores. Pena mesmo é que o ordenado seja sofrível: apenas na ordem dos mil contos mensais, que aforram. Se fosse um bocadinho maior sempre podiam aforrar mais, às taxas de juro que a banca paga não se consegue ganhar nenhum.

Os deputados e os membros do governo não têm também nenhuma razão de queixa e, exactamente por isso, anda o Dr. Almeida Santos mais sossegado. Os deputados gozam de um estatuto especial que eles próprios redigiram e aprovaram, em que se atribuiram uma série de benesses, são intocáveis - como aquele deputado de Águeda que entrou no parlamento mudo para sair calado e nem à justiça se apresenta, a prestar declarações - têm um ordenado na casa dos setecentos contos mensais, despesas de representação e ajudas de custo. Têm é sempre muito trabalho político a desenvolver, em Sevilha, no México e até mesmo no Japão e na Nova Zelândia, o que os força a muitas e cansativas viagens. Em classe executiva, é claro! O trabalho é tão desgastante que nem os futebolistas imaginam o que é trabalhar e ter uma carreira curta. Por isso, muito justamente, têm ao fim de dez anos de exercício de funções o direito à reforma vitalícia e por inteiro.

Percebe-se, por isto, porque é que a elaboração de todas as listas de candidatos é sempre tarefa tão difícil e complicada, com todos os muitos patriotas disponíveis a porem-se em bicos de pés. Percebe-se mesmo que, embora desgastados pelos sucessivos e longos mandatos, os que lá estão se mantenham disponíveis no seu patriotismo e dispostos a continuar, a bem do progresso nacional. Percebe-se mesmo porque é que tão pouca gente é detida e porque é que quase a mesma gente acaba por ser solta. E, pensando bem, percebe-se também porque razão os tribunais mandam os ladrões em liberdade e passam vigorosas reprimendas aos equivocados agentes da autoridade que os prenderam. Às vezes os pequenos também têm direito à vida, não é?

Publicado por LFV em 02:42 PM | Comentários (2) | TrackBack

... e ele faz alguma ideia?

Ouço, nas notícias desta manhã, que o ministro da desorganização interna vai hoje à Assembleia da República para explicar as recentes trapalhadas ocorridas com a Brigada de Trânsito da GNR. Que, aliás, continuam!


… e ele fará alguma ideia disso?

Publicado por LFV em 09:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 18, 2003

Viva a herança socialista do camarada Dos Santos

Algures, nos idos de 1976, recordo-me de uma parangona do Jornal de Angola, impressa a vermelho vivo, a toda a largura da primeira página: viva a ditadura democrática popular. Agostinho Neto era ainda presidente do MPLA e da República Popular de Angola, José Eduardo dos Santos era ministro das Relações Exteriores. As figuras históricas do movimento, regressadas do exílio ou directamente das matas, ocupavam rapidamente os lugares de topo da administração pública. O café faltava para uma só bica no país que, dois anos antes, era o quarto produtor mundial. O imperialismo americano era hostilizado nas ruas e nos comícios. Os americanos alojavam-se no Hotel Trópico e continuavam, calmamente, a explorar o petróleo de Cabinda. À venda não havia nada. As lojas, os restaurantes e os cafés estavam encerrados por falta de produtos para trabalharem. Ao porto de Luanda continuava a chegar a prestimosa ajuda soviética em orgãos de Estaline, blindados e mísseis. Contingentes de cubanos, carregando armas e dólares, desembarcavam uns atrás dos outros e seguiam para as frentes de batalha. Alguns civis, também cubanos, ocupavam lugares de direcção em orgsnismos do Estado. Os mercenários eram julgados em tribunal popular especial com a acusação a cargo do escritor Manuel Rui Alves Monteiro. Cantinflas para os amigos de infância. O sonho, a utopia e a revolução ainda coexistiam. No governo havia brancos, mestiços e negros. Os ofícios emitidos pelos organismos públicos tinham abandonado o nosso velho conhecido "a bem da Nação" e passado a ostentar com garbo "saudações revolucionárias, a luta continua, a vitória é certa".

Nito Alves, negro, era ministro da Administração Interna. Revolucionariamente passeava-se pelas ruas de Luanda ao volante de um Mercedes descapotável com uma beldade loura e soviética a seu lado. À noite recolhia a um dos bairros suburbanos onde residia. Os camaradas da plebe diziam que ele não era como os outros que moravam no asfalto, residia com eles no bairro do golfe. Em teoria o mesmo adiantava que a revolução não estava completa: ainda havia brancos e mestiços no governo. Os históricos ainda se mantinham no topo, tudo passara a ser propriedade do Estado, de terras, a prédios esventrados pelos obuses e pelos morteiros, até aos mais pequenos estabelecimentos. O ministro da saúde exigia, em nome do Estado, uma compensação financeira a um jovem médico português que queria abandonar a país por ali ter tirado o curso. Encomendavam-se automóveis Alfa Romeo que chegavam a Luanda transportados em avião e punham-se a circular de imediato, mesmo sem matrículas. Começariam a aparecer estampados contra os candeeiros de iluminação pública da ilha logo na manhã seguinte. O povo viajava pendurado em maximbombos jugoslavos a que tinham sido arrancados todos os vidros.

A revolução prometia. A luta continuava. A vitória era certa. Em Portugal o Dr Soares pai já vivia equivocado mais haveria de equivocar-se muito mais. O país tardara a reconhecer o regime angolano, invocava os acordos do Alvor como se legitimasse D. Sebastião no trono. O socialismo haveria de ser metido no fundo de uma gaveta e o Dr Savimbi considerado um democrata exemplar, à semelhança do sargento Mobutu, o grande leopardo. Entretanto Agostinho Neto haveria de viajar para a URSS com o fígado desfeito e a vida por um fio. Regressaria morto. Alguém haveria de suceder-lhe, de forma dinástica, alterando a origem dos afectos que ele mantinha com o Dr Macedo, as alheiras de Mirandela e o vinho do Dão. Foi José Eduardo dos Santos, engenheiro, licenciado na URSS, novo, negro, bem parecido, inesperadamente.

As voltas que o mundo deu! O Dr Soares pai persistiu no equívoco, o Dr Soares filho viajou para Angola a visitar o democrata do galo negro, o avião acabaria a despenhar-se e a família ficaria para sempre refém de um conceito de democracia que hoje até ao Dr Portas ficaria mal. A URSS caíria feita em cacos enquanto o diabo esfrega um olho e, com ela, toda a Europa que circulava à sua volta. Em África tudo foi mais lento, mas os cubanos acabaram por se ir embora, o apoio de leste por esmorecer, a guerra por intensificar-se. Em Portugal os políticos não sabiam nada de África e continuam a não saber e mesmo o Dr Almeida Santos parece não ter por lá aprendido nada ou esquecido tudo rapidamente. Antes de um problema de raça África confronta-se com muitos problemas tribais. Para a exploração dos recursos isso é indiferente e esta é que de facto é importante.

Fazem-se eleições que os observadores dizem ter sido satisfatoriamente justas. Como acontece por cá, ninguém se conforma com os resultados, todos gritam vitória, a democracia não se impõe a ninguém. É a mesma coisa que ir libertar o Iraque à força, contra a vontade de todos. O mesmo dos Santos adere à democracia, mantem-se no Futungo de Belas, vai fazendo uma caterva de filhos. Sendo tudo propriedade colectiva enriquece tanto que nem ele sabe quanto. Dá lugares políticos a cidadãos estrangeiros que a justiça persegue como traficantes de armas. Finalmente hoje casou uma filha e juntou na capital angolana uma série de celebridades durante dias, como se fosse um casamento cigano. E junta Cinha Jardim a Durão Barroso, o costureito Augustus ao marciano Nascimento, o pintor Quaresma à filha de Saydi Mingas. O Dr Carrilho e a sua Bábá não são citados no jornal, ou por esquecimento ou porque não couberam na lista de convidados.

Entretanto a população de Luanda, em menos de trinta anos, cresceu quase dez vezes. A fome e a miséria terão crescido cem. As crianças vivem na rua e alimentam-se no esterco, conservam-se analfabetas, estropiadas e sem futuro. O presidente governa, o casamento é muito elogiado, toda a gente gostou, os noivos seguem para Portugal em lua de mel. O Dr Barroso fez questão em se deslocar a expensas próprias e regressará feliz, apesar do dinheiro gasto na prenda. Haverá muito quem aplauda. Eu não, e nem a ironia me ocorre!


Publicado por LFV em 11:13 PM | Comentários (1) | TrackBack

O Dr. Santana aperta o cinto

Não havendo nenhuma razão de força maior para não acatar as recomendações da Dra. Manuela, porque haveria de ser diferente o comportamento do Dr. Santana na Câmara Municipal de Lisboa? Por nenhuma, naturalmente. E o mesmo tem sido inflexível desde que esmagou o seu adversário político por cerca de mil votos nas últimas eleições para as autarquias. Chegado à Praça do Munícipio, assinado o termo de posse, ocupado o gabinete e sentado à secretária, começou desde logo a decidir no intuito de reduzir despesas aos munícipes que começava a servir.

Assim, terá congelado as admissões de pessoal, deixado de prorrogar os contratos a prazo, eliminado as horas extraordinárias, permitido que os bobis se servissem dos recantos do Parque Eduardo VII e limitado os aumentos salariais a zero. Com algumas simples excepções de recrutar alguns assessores necessários ao seu aconselhamento, atribuir-lhes telefones domésticos, telemóveis, carros de serviço e garrafa de Martin's 20 anos na Cova da Onça a par com ordenados que lhes permitissem sobreviver sem terem vergonha dos vizinhos.

Não satisfeito com os resultados, foi mais longe. Congelou as compras de material de expediente, as esferográficas Bic cristal novas passaram a ser distribuídas aos funcionários contra a apresentação das já gastas, nenhum poderia exceder o consumo trimestral de uma caixa de clips e de outra de agrafes. Acabou com o mau hábito do café a meio da manhã, a expensas do município, e mandou que se conservassem apagadas as luzes do edifício e das redondezas passando o papel velho a ser utilizado para rascunhos, suprimindo a compra dos blocos anteriormente usados. Com a excepção de poderem adquirir aquilo que quisessem ele e os senhores assessores, aos quais os utensílios e o café eram perfeitamente indispensáveis para que funcionassem.

Apenas sendo conhecido na linha e nas docas, e mesmo assim apenas a horas tardias, achou por bem pendurar o retrato junto a cada buraco que tapava, a cada árvore que mandava podar, a cada cão que aprisionava no canil depois de ter sido apanhado em flagrante no Parque. Homem modesto e poupado com o seu dinheiro, foi gastando do que pertencia aos cidadãos, sempre na melhor das intenções. E hoje, de novo à custa deles, diz vir prestar-lhes contas e publica milhares de contos de publicidade em cinco jornais diários. Para dizer que tem gasto menos do que o seu antecessor e apontando-lhe o dedo acusador. Como se um qualquer ladrão pudesse ser ilibado do crime desde que denunciasse um ladrão ainda maior. É claro que o Dr. Santana não é um ladrão, as verbas envolvidas assumem tal dimensão que se lhe dará certamente outro nome. Roubo, como sabem, é de servente que se apropria de cinco contos. Quando se chega aos milhões já nem sequer se trata de desvio, tão pouco é condenável e, inversamente, contribui decisivamente para a construção do currículo.

Amanhã, e como isso é à custa do munícipe, o Dr. Santana deveria mandar inserir publicidade idêntica a prestar igualmente contas daquilo que a Câmara tem gasto em habitação social, em saneamento básico das zonas mais degradadas, em recuperação de edifícios situados nas mesmas zonas, no combate ao tráfico e consumo de drogas, no tratamento dos toxico-dependentes e na melhoria das condições de vida do lisboeta em geral, incluindo o ensino. Deveria fazê-lo para que os mal intencionados - como eu, que nem sequer, graças a Deus, sou seu munícipe! - não venham a interpretá-lo erradamente. E digo isto porque de fonte segura sei que se tem preocupado muito com as questões enunciadas. Especialmente à mesa do Gambrinus e nos bares das docas, sempre com companhia e com um copo de Martin's de 20 anos na mão. Amén!

Publicado por LFV em 06:39 PM | Comentários (1) | TrackBack

A segunda armada invencível e o coliseu da cidade

Algumas dezenas de pequenas embarcações artesanais de pesca, vindas de Setúbal onde se encontravam inactivas por força de benefícios comunitários que indemnizaram os proprietários e mandaram para o desemprego os pescadores que nelas trabalhavam, aportaram ontem ao Cais das Colunas e, à força dos remos, subiram até ao topo do Campo Grande, onde se detiveram.

A orgia estava preparada e, sabendo o que os esperava, os maltrapilhos, ainda mal acabados de chegar, aos gritos e carregando remos, varapaus, trancas, pedras e o mais que tiveram à mão, em desordenada correria, invadiram o coliseu da cidade, réplica rigorosa do Coliseu de Roma. A pequena multidão que se acumulava nas galerias pôs-se de pé, invetivando os intrusos e chamando-lhes nomes às mães. Não se deixaram estes intimidar e um pescador mais corpulento, vindo de Matosinhos, pôs-se à cabeça do grupo como um Ben-Hur a ganhar mais de cinco mil euros por mês.

Depois foi o que se viu. A arena estava mal tratada com erva que ali parecia ter medrado nos últimos três meses. Fossem os leões herbívoros, o que neste caso teria dado jeito, e já a teriam pastado toda. Para próximos eventos que, como este, venha a ser organizado pela D. Cinha Jardim, sugere-se que oito dias antes do espectáculo se mandem vir coelhos da Madeira, peça de caça que o Dr. Alberto João não aprecia. Ficará a arena mais própria para a degola dos inocentes, podendo ver-se de forma muito mais excitante o sangue que lhes escorrerá das entranhas. O desenlace foi o oposto do que se desejava e, à custa de pauladas, arremesso de pedras e mesmo de força braçal, os meliantes exterminaram em hora e meia os reis da selva de cuja ferocidade vinha tratando o engenheiro Santos, que conseguiu escapulir-se no fim.


A sociedade portuguesa dos animais emitiu ainda ontem um comunicado repudiando os acontecimentos e reclamando que os leões sejam deixados em paz, bem como todos os outros bichos, mesmo voadores ou cuspidores de chamas. Exige também o mesmo comunicado que os maltrapilhos plebeus se confinem às margens do Sado onde se poderão dedicar a ouvir as poesias ordinárias do Sr. Bocage e, se assim o desejarem, a queimar em piras de lenha de pinheiro os infiéis que tenham faltado à missa de domingo ou atentado ao pudor, mijando atrás de alguma palmeira da avenida Luísa Todi.

Publicado por LFV em 10:11 AM | Comentários (1) | TrackBack

Nos mares fomos nós sempre os primeiros

E vamos continuar a ser, custe o que custar. Depois, é claro, do Francis Drake a que esses bastardos ingleses continuam a tratar por "Sir", como se ele fosse o Elton John. Foi assim que iniciámos a longa e gloriosa cruzada, ao encontro do desconhecido, para tantas descobertas, tantas glórias, tantos carregamentos de pimenta e de cravinho para governo de el-rei, nosso senhor! Partindo da "ocidental praia lusitana" para a incomensurável epopeia que o nosso Camões acabou cantando em versos alexandrinos.

Começámos por chegar à Madeira, conjunto de ilhéus escarpados e agrestes, vazios de tudo como hoje são as desertas. Não havia nada, nem vinho porque os ingleses chegaram para o fazer já depois de nós, nem bananas porque ainda se não conheciam as bananeiras, nem sequer Alberto João nenhum, porque nenhumas escavações arqueológicas tinham sido feitas. E colonizámos o arquipélago que, naturalmente, explorámos. Naus e naus carregadas de nada aportaram a Lisboa, para deslumbramento da nobreza e trabalhos de descarga da plebe faminta, rota e descalça. Exactamente como hoje, de onde, com fartura desmedida, nos continuam a chegar pedidos de dinheiro e de voos mais baratos para os indígenas virem ao continente ver a bola. Que a Dra Manuela, digna herdeira do Conde de Oeiras, se apresta a satisfazer para glória da república e satisfação do gentio.

Passámos pelos Açores onde não havia vivalma que soubesse o que era o mau tempo no canal, que pudesse experimentar-lhe a insana violência ou descrevê-lo como Nemésio. E seguimos expedição a expedição, costa de África abaixo, plantando padrões pelas praias, dobrando o Cabo da Boa Esperança e chegando à Índia e ao Japão. Onde, de espanto, os naturais presentearam os nossos antanhos e ficaram de olhos em bico, até hoje. Deixámos marcas que o tempo não apagou, até mesmo pelo Brasil, onde Cabral acabou por aportar à força dos ventos que não eram de feição.

Agora, dois dias atrás, quando um navio de casco único, é localizado transportando carga perigosa a curta distância da nossa área exclusiva, fazemos justiça ao nosso passado e à nossa história. O Dr Portas assume-se como ministro da marinha e esquece-se, para esta campanha, da guerra do Iraque onde não são as suas forças que pelejam. Enverga, lesto e orgulhoso, o seu traje de marinheiro. Toca a reunir e agrupa, à falta de submarinos que ainda não comprou, toda a frota pesqueira que um sacana de um comissário europeu qualquer já tinha lançado em doca seca. Assume o comando da invencível armada, de peito exposto ao vento e às marés, sente que os olhos se lhe marejam de lágrimas patrióticas e segue a vigiar o perigo que ameaça poluir a zona. E, como Diogo Cão nos deixou mapas que lhe ensinam o caminho, segue a escoltá-lo até à Cidade do Cabo!


Publicado por LFV em 12:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 16, 2003

Já não quero ser milionário!

Às vezes, sem convicção e sem esperança, acabo por me sentar um pouco frente à televisão, mesmo que seja muito difícil confrontar-me com algum programa que me prenda por muito tempo. Hoje estive um bocado a ver o programa "quem quer ser milionário?". E, se isso ainda fosse possível, fiquei banzado de todo.

Há um jovem - e eu não tenho nada contra ninguém, muito menos contra os jovens! - que se apresenta como licenciado em qualquer coisa. Quanto à sua ocupação adianta ser "account" numa empresa de "merchandising" não tendo sido depois capaz de descrever minimamente as funções de tal profissão. Antes de mais o uso, desnecessário, de palavras inglesas e a sua incorrecta aplicação. Desculpa-se, naturalmente. Não somos ingleses, nem sequer espanhois. E muito raramente somos capazes de falar ou escrever correctamente a nossa língua materna.

Depois as perguntas. A primeira colocava quatro alternativas em relação ao que seria o arroz: uma semente, uma vagem, um cereal ou um legume. O nosso engenheiro inclinou-se claramente para a possibilidade do arroz ser uma vagem. Depois, a custo, socorreu-se de auxílio externo para responder correctamente. E uma ou duas perguntas adiante a cena repetiu-se, agora em relação aos barcos típicos do rio Douro. Confrontado com quatro possibilidades o jovem pediu que novo auxílio exterior lhe eliminasse duas delas e ficou depois a debater-se com as dúvidas entre o barco rabelo e as canoas do Douro. Inclinou-se de novo, até quase ser atirado borda fora, para as canoas do Douro. Mesmo que o apresentador lhe tivesse repetidamente referido um fado de Carlos do Carmo. Foi precisa nova ajuda externa, desta vez da mãe do concorrente, para lhe dizer que a resposta correcta era barco rabelo.

É doloroso assitir a isto porque as questões são perfeitamente elementares e fazem parte da nossa afirmação cultural, mesmo que o Dr Pedro Roseta pense que essa afirmação se esgota nos subsídios ao cinema nacional - que nunca existiu! - ou na linha de Cascais. E isto não é uma questão de ministro, o Dr Carrilho, mesmo muito crítico, defende que cultura é comprar no Rosa e Teixeira e frequentar passagens de modelos e não mais do que isso. Como dizia um dia destes o professor Freitas do Amaral há de facto um vazio impressionante no que respeita à chamada cultura geral. Que, em minha opinião, se não transmite pela inclusão de mais uma disciplina no ensino secundário, por exemplo. A questão é mais profunda, vem, ou deve vir de mais longe, como a fama daquele brandy.

Tantas reformas do ensino para rigorosamente nada. Quando se trata apenas da cultura, estúpido!

Publicado por LFV em 11:04 PM | Comentários (2) | TrackBack

Afinal Saddam e Rumsfeld andaram na mesma escola

Shaking Hands: Iraqi President Saddam Hussein greets Donald Rumsfeld, then special envoy of President Ronald Reagan, in Baghdad on December 20, 1983.Apenas se não sabe qual deles era pior aluno mas a carreira de ambos foi-nos ensinando que nenhum deles aprendeu alguma coisa que pudesse ter interesse colectivo. Ambos levaram porrada dos professores - segundo os métodos pedagógicos da época - e regressaram por vezes a casa com um olho à Belenenses em consequência de brigas com colegas. Quase sempre mudaram de ano por favorecimento, como se fossem candidatos e cursos de medicina, e não por mérito próprio que envolvesse o trabalho e a inteligência.

Colocaram-se bem na vida, à custa de cunhas, ameaças, subornos e porrada. Contemplaram amigos e desamigos com as prendas que os professores lhes deram em crianças e que até hoje foram poucas. Continuaram a encontrar-se nas confraternizações dos alunos da escola secundária onde, como sempre, se entenderam. O negócio e a amizade foram sempre repartidos: cinquenta, cinquenta. Até um querer mais do que o outro e mandar às malvas cumplicidades antigas. Aí o barril de petróleo falou mais alto e a interpretação histórica dos acontecimentos ficou a cargo do Sr. José Vilhena.

Publicado por LFV em 03:32 PM | Comentários (1) | TrackBack

O Dr Pacheco Pereira, o Abrupto e os 39.000 pés

Hoje, à semelhança daquilo que muitas vezes faz o muito ocupado Dr Pacheco Pereira, resolvemos também fazer um "post" à custa do seu Abrupto. Transcrevendo, com a devida vénia, dois dos "posts" ali publicados.

O primeiro, sobre a prisão de Saddam Hussein:

se se confirmar, é um acontecimento importante. A chamada "resistência", nome viciado e programático, é , como com maior rigor a imprensa de referência internacional a descreve, um movimento para-militar ligado às estruturas do partido de Saddam , o Baath. Sendo assim, a queda de estruturas de comando político-militar, que estão por trás dos ataques, é relevante para o seu desmantelamento. Podem continuar os atentados, podem até aumentar de intensidade, mas o problema continua a ser essencialmente militar e deve ser tratado como tal.

O segundo, sobre a sua condição de judeu errante:

Estou de novo de judeu errante. Voo de uma terra para outra, de outra para outra, porque devo, nalgum passado distante, ter recusado água, abrigo, palavras a alguém. A única geologia que conheço é a das nuvens, estrato a estrato, paz e turbulência, uma a seguir à outra. Do alto, nenhuma caneta toca a terra, nem sequer a frágil e imortal sequência de bits, de sins e nãos electrónicos - "eléctricos", diria McLuhan, com razão - desce os 39000 pés para tocar o chão. Silêncio, pois, na terra, branco absoluto nas páginas brilhantes do ecrã. Até breve, pássaros.

A conclusão, que extraímos nós:

Só podia! Cavaleiro andante de para lá dos 39.000 pés - onde já nem cirros moram que até o ar é vazio! - o Dr Pacheco anda literalmente nas nuvens. Por isso seria importante que pusesse pé em terra.

Publicado por LFV em 11:54 AM | Comentários (1) | TrackBack

A má relação dos portugueses com os números

De um modo geral os portugueses têm uma muito má relação com os números. Desde sempre, em todos os sentidos e a todos os níveis. Muitas vezes assemelha-se muito à relação que os treinadores de futebol mantêm com os resultados e com os árbitros. Ou que os políticos alimentam com os resultados eleitorais e com as sondagens e os indicadores de desempenho anunciados pelos membros do governo.

Na tentativa de ultrapassar a dificuldade socorremo-nos do embuste e da habilidade. Não ensinamos a tabuada às nossas crianças: compramos-lhes máquinas de calcular em lojas de chineses que às vezes, mesmo com pilhas, não funcionam ou nos exibem com arrogância caracteres orientais. Depois admiramo-nos que não saibam calcular a idade que têm ou somar dois mais dois. Basta perguntar a um aluno mediano do ensino básico - é assim que se chama agora? - quantas patas tem um casal de patos. É mais que provável que, sem hesitação, responda que tem cinco. Quer dizer, uma das aves desloca-se utilizando um sistema de tripé!

Na política recordo-me de ter ouvido um candidato, na campanha para as últimas legislativas, gritar para as centenas de pessoas que ali estavam por obrigação: queremos fazer de Portugal o melhor país da Europa. Todos bateram palmas, também por obrigação. O resultado está conseguido, logo no final da primeira parte. É para o atestar que a Grécia ainda se mantém na Europa e se não mudou para a América latina.

Esta manhã ouvi eu o Dr Barroso gritar para quem, por obrigação, ontem jantou com ele, não sei nem onde, nem a que propósito. Que o défice tem vindo a ser reduzido de forma drástica desde há dois anos, alinhando números em sequência decrescente como se fossem uma progressão geométrica. Acrescentando, ainda e sempre aos gritos, que se isso não é contenção orçamental então ele não sabe o que é contenção orçamental.

Acertou, não sabe. Parece o Dr Soares pai que, quando tinha insónias, pegava num processo que envolvesse números, para o estudar. Passados cinco minutos estava a dormir profundamente, bastas vezes ressonando ruidosamente, estivesse onde estivesse. Como se lhe tivessem dado uma dose dupla de Ludionil 75 para adormecer. Fatalmente dizia asneiras em relação a todos os assuntos, mas muito maiores quando se referia a números e ninguém lhe ligava. Tem hoje no Dr Portas um indefectível discípulo e seguidor, que se lhe refere por despeito e desencanto e, sem vergonha, lhe persegue a mulher que quase poderia ser sua avó. Só por inveja.

Para não variar, sou como os outros, tenho bilhete de identidade e passaporte, não sei nada de números. Nem sequer me atrevo a revelar as notas que fui tendo quando, por pouco tempo, andei na escola. Mas, sem gritos e sem assistência, alinho números relativos à descida negativa do número de desempregados nos últimos dois anos. Invoco os aumentos sucessivos e graduais do poder de compra, que manifestam a mesma tendência, Enumero as mais e maiores vantagens que o Estado, ladrão, nos vem atribuindo pela mão dos nossos patrióticos ministros. Sempre sob o olhar atento da Dra Celeste Cardona, para que haja justiça.

Realmente! De númaros só sabe mesmo o presidente do Benfica. E mesmo assim vê que o negócio do Mantorras lhe tem corrido mal, embora a construção do estádio compense tudo. Mas ainda não sabe quando ganha o campeonato. Para se redimir!


Publicado por LFV em 11:23 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 15, 2003

Ontem foi o 25 de Novembro?

Este país não tem emenda nem distracções que cheguem. E sendo assim espanta-me que os índices de natalidade sejam tão baixos e que a população se torne mais velha em cada dia que passa. Porque realmente um assunto qualquer é transformado em fulcro da actualidade e anda-se à sua volta como o cão que se prepara para se aninhar e dormir. Não se sai do sítio e é-se morbidamente excessivo e recorrente. Sempre mais e mais e ainda mais do mesmo. Desde ontem e pelos próximos dias teremos Saddam Hussein ao pequeno almoço, almoço e jantar. Com danças e cantares, festejos natalícios e foguetes de que ninguém vai apanhar as canas.

Lembro-me sem detalhes da entrada dos militares americanos em Bagdade, há uns meses atrás, sem resistência, contra o que toda a gente esperava. E recordo-me de alguém ter comparado as manifestações de algumas centenas de pessoas que as televisões nos mostraram ao vinte e cinco de Abril de 1974 que ocorreu neste cantinho à beira mar plantado. Com excessivo excesso, naturalmente.

É caso para perguntar hoje, quando televisões, rádios e jornais quase não têm espaço para mais nada, se o dia de ontem não poderia ter sido igualmente comparado ao nosso 25 de Novembro?

Publicado por LFV em 10:30 PM | Comentários (1) | TrackBack

O primeiro beijo da "famosa" Mónica Sintra

Eu vou definitivamente desistir de comprar jornais. Estou farto das tragédias que estes inserem da primeira à última página, incluindo as páginas dos pequenos anúncios e das palavras cruzadas. Se ao menos os mesmos me trouxessem boas notícias, como o acerto na chave do totoloto para poder mandar um bacalhauzito à Dra Manuela agora pelo Natal ou a canonização do Sr Pinto da Costa para que ele não voltasse a ser candidato a papa das Antas e o Benfica pudesse ganhar o campeonato. Se viessem alteradas as regras de disputa do Euro 2004 e a selecção portuguesa pudesse ser logo proclamada vencedora antes do jogo inaugural no estádio do Dragão, sem necessidade sequer de ter seleccionador, fosse ele quem fosse. Se depois disso pudesse apresentar-se logo na Alemanha para disputar a fase final do Mundial de 2006, sem precisar de jogos de qualificação e podendo escolher os adversários. Se a Dra Manuela deixasse de ser a voz de cana rachada que é, como um disco de setenta e oito rotações, a dizer sempre a mesma coisa, sem apresentar riscos ou cair ao chão e partir-se. Se as vindimas no Douro pudessem ser feitas duas vezes por ano para aumentar a produção do vinho fino e as empresas de vinho do Porto tivessem que queixar-se menos. Se o ministério da saúde pudesse anunciar de novo que tinha voltado a haver listas de espera nos hospitais porque ainda havia quem tivesse resistido vivo à sua política mercantilista.

Mas não é nada assim, são tudo desgraças. As pessoas continuam a matar-se na estrada com a polícia, infatigavelmente, a alegar excesso de velocidade na maioria dos casos. O que, de certo modo, pode ser uma justificação imediata mas não, definitivamente, mediata. Certo que é sempre a mais fácil, a que dá mais jeito e menos trabalho. Mas, como diz Miguel Sousa Tavares, a verdade é que os condutores portugueses são, de modo geral, uns autênticos selvagens que pura e simplesmente não sabem o que fazem. Porquê? No essencial porque ninguém os ensinou. Em relação ao excesso de velocidade a maioria fica-se por saber que isso constitui infracção mas não imagina minimamente quais os riscos que acarreta.

Ao menos hoje um jornal traz-me a revelação, importante e tranquilizadora, da paixão adolescente da Mónica Sintra que, como o nome indica, é vizinha do engenheiro Seara. Se fosse Mónica Porto era vizinha do Dr Rio e Mónica Matosinhos seria vizinha do impagável Sr Narciso Miranda. E então revela a moçoila, no meio daquele seu sorriso aberto em carinha laroca, com uma argola na orelha direita que quase parece um arco daqueles com que a minha geração brincou, que o seu primeiro amor foi na adolescência, andava ela na escola secundária. Altura em que conheceu um rapaz - ao menos isso! - a quem deu o seu primeiro beijo e com quem começou a namorar. Então o país não passa a viver mais feliz sabendo isto? Claro que passa!

Publicado por LFV em 06:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Sr Scolari vai hoje à Suiça

Hoje, em Basileia, realiza-se um encontro de futebol contra a fome, promovido pelas Nações Unidas, para que foram convidadas personalidades do mundo da bola. É naturalmente de aplaudir a adesão que à iniciativa deram jogadores que recebem fortunas sem que eu saiba em retribuição de quê: poderiam distanciar-se de iniciativas deste género, à semelhança do que fazem muitos outros cujo enriquecimento foi de todo nebuloso.

Felipe Scolari, brasileiro, seleccionador da selecção canarinha que no último mundial levou consigo a taça e actual seleccionador português e Vítor Baía, português, guarda-redes do Futebol Clube do Porto, com passagem sem sucesso pelo Futebol Clube de Barcelona, são duas das pessoas que foram convidadas.

O Sr Scolari teve, até aos últimos dias, grandes reservas em responder afirmativamente ao convite. Primeiro porque, para além do prestígio, não lhe advirá disso qualquer proveito e, segundo se queixa, a federação do Dr. Madail não lhe paga tão bem como dizem orgãos da comunição menos bem informados ou pessoas mais mal intencionadas. Depois porque receava encontrar-se com o Sr. Vítor Baía, pouco mais de trinta anos de idade, mais de um metro e oitenta de altura, com agilidade ainda suficiente para apanhar em pleno voo uma banana que tenha sido arremessada para o relvado. Felizmente este último veio a público clarificar a situação e dizer que nada o move contra o brasileiro. Que é uma pessoa educada - não indicou os colégios que frequentou nem tinha que o fazer - e de boas maneiras que vai apertar a mão ao seleccionador. O Sr. Scolari, mais descansado, resolveu tranquilamente e sem medo, aceitar o convite e viajar para Basileia. Se for alvo de algum atentado só poderá ser da Al-Qaeda do Sr. Bin Laden.

Publicado por LFV em 03:49 PM | Comentários (0) | TrackBack

Afinal Saddam ainda é mais burro do que W. Bush

O W. Bush, como se sabe, é um espanto. Quando se diz que Deus andou a distribuir a inteligência pelo mundo ele estava a dormir e a sua cidade completamente às escuras. De forma que todos os cursos que fez não lhe permitem mais do que tiradas profundamente filosóficas que, apesar de tudo, não têm o alcance das do Dr Carrilho ou da D Lili Caneças. Tomou de ponta os muitos pedregulhos do Afeganistão e fez uma guerra à procura do seu amigo Bin Laden que poderia estar escondido debaixo de algum deles. Não o encontrou e resolveu, à bomba, o problema de todos os nacionais que morreram, aos outros deixou-os pior: vivendo do fabrico e comércio de armas com os preços em alta por causa do aumento da procura.

Depois disso os seus serviços secretos, e os do seu fiel amigo Blair, descobriram inúmeros e eminentes perigos no Iraque, em vez do petróleo que já tinha sido descoberto antes. Fez outra guerra à procura de armas cuja potência destrutiva nunca sequer ocorrera ao diabo. Tanto assim eram que, pelo perigo, recolheu o apoio inestimável do tal Blair, de um espanhol aqui do lado e do nosso sorridente Barroso. Mobilizou muitos milhares de homens, milhões e milhões de dólares, mandou porta-aviões e submarinos para Bagdade, fez outra guerra. Enquanto o diabo esfrega um olho convocou as televisões todas, pôs uma bandeira americana por detrás de si, ajeitou o nó da gravata e declarou com solenidade: "a guerra acabou". No dia seguinte, com a paz instituída, as suas forças começaram a contar mais baixas do que antes. À sua maneira inteligente pensou para consigo que afinal a paz é mais perigosa do que a guerra porque ainda mata mais.

No dia nacional, em segredo, sem o dizer sequer à sua mulher que dorme no quarto ao lado, pela madrugada e sem o contar a ninguém, viajou para Bagdade. Foi directo à messe no aeroporto depois de, em pleno voo, o piloto do avião que o transportava ter despistado um outro qualquer piloto, respondendo que não tripulava um avião mas um ovni. Inesperadamente, sem que ninguém o soubesse, apareceu na sala carregando uma enorme bandeja com um perú assado. Os militares exultaram: tanto desprendimento, quanta benemerência. Afinal o perú era de plástico e quem quis meter-lhe os dentes, partiu-os. Ficaram-se pela comida regional americana, a que por lá chamam "fast food". Ele, de regresso, foi comer a bordo como se viajasse em primeira classe.

Ontem, domingo, depois da missa, finalmente inebriou-se com a dimensão da vitória: tinham apanhado um ainda mais estúpido do que ele. Com aspecto de mendigo, filmado numa única posição, num buraco de pouco mais de dois metros, tinham caçado, ao que dizem, o seu inimigo de estimação, Saddam Hussein. Segundo rezaram as notícias, com duas armas e uma mala de dólares ao lado, depois de meses a ser encoberto, deixou-se apanhar como um coelho velho recolhido na lura por um reduzido contingente militar de pouco mais de seiscentos homens. Então ele não poderia, se fosse um bocadito menos burro, ter ido sem segredo para qualquer lado, mesmo levando também uma travessa enorme com um perú de plástico em cima? Alá parece também não o ter beneficiado muito!

Publicado por LFV em 03:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 14, 2003

Quem não sabe é como quem não vê!

O ditado é velho, às vezes pensa-se que o seu sentido se encontra esgotado, toda a gente sabe de tudo, lê jornais, ouve rádio, vê televisão. Para além disso tem acesso à internet, pesquisa e descobre tudo e mais alguma coisa que a rede, quase à simples distância de um clique, põe à nossa frente. Mas de facto as coisas nem sempre são assim!

E desta vez, como aliás de todas em relação a isto, quem não sabe e quem não vê rigorosamente nada sou eu. Apenas eu! Gostando de dar ao Placard um aspecto mais atraente, mais moderno, mais vistoso, vejam o que arranjei. Bonito, não acham? Em primeiro lugar consegui que a coluna da esquerda desaparecesse e tivesse ficado localizada a seguir a todo o conjunto de "posts" visíveis. Como aliás se mantém! Na esperança - estúpida, está visto! - de resolver a situação consegui, sem nenhuma ajuda, chegar ao resultado que está à vossa frente. Se acaso se deram ao cuidado de visitar o "site" e de ver in loco aquilo que consegui. E de que quase me sinto orgulhoso, sou franco. Apenas por uma razão, porque acho que nem o "blogger" mais ignorante, pensando até fundir a cuca, trabalhando intensamente, fazendo "copy" e "paste" daquilo que pensava certo, daquilo que não sabia e daquilo que imaginava, conseguiria chegar a este brilhante resultado.

Por mim, desisto! Melhor teria sido não ser sapateiro e ter querido subir acima da chinela, para estragar tudo. Se algum benemérito - o género, obviamente, não é redutor! - conseguir perceber alguma coisa disto e estiver na disposição de me ajudar, ficar-lhe-ei muito grato. Porque daqui não faço a mínima ideia de como sair! E, naturalmente, de nada vale que o burro, depois de feita a asneira, apareça na fotografia com o ar pesaroso e arrependido. Não é isso que resolve as coisas!

Publicado por LFV em 07:07 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 13, 2003

A preocupação que o Dr Rio tem pelos pobres

O Dr Rui Rio sempre foi opositor dos regimes que antigamente eram classificados de esquerda e extrema esquerda em que se incluíam os partidos do Dr Carvalhas e do major Tomé. Agora o predestinado Dr Portas ministro vem lançar a confusão quando afirma que ele é direita e que o Dr Soares pai é extrema esquerda. Tal facto veio trazer a segunda grande dúvida ao Dr Bernardino Soares. Ele que não sabia se a Coreia do Norte não era uma democracia é agora confrontado com uma dúvida muito mais profunda trazida pelo fiel depositário do forte de S. Julião. Não sabe qual é a verdadeira posição do seu partido no leque político e nem o Dr Cunhal o pode ajudar.

Mas é do Dr Rio que se trata. Apesar da sua aversão a esquerdas ele é homem de preocupações sociais. Consigo e com os outros. E a semana passada terá dito textualmente: se não tomarmos conta dos pobres, eles tomam conta de nós. Quer dizer, o Dr Rio debate-se neste momento com um problema de prioridades. Não sabe o que deve fazer primeiro, se tomar conta dos pobres se deixar que os pobres tomem conta dele.

A afirmação causou ainda maior preocupação nos meios da sociedade portuense. Os ricos não querem tomar conta dos pobres e receiam que o Dr Rio os obrigue a isso, por postura municipal, assim à maneira do Dr Santana que vai cobrar a toda a gente para que possa andar de carro naquilo que é dela. Os pobres receiam ter de tomar conta dos ricos e, ainda, de lhes darem sustento, quando o negócio da arrumação de carros deu no que deu e até o governo se queixa da crise. Os pobres de espírito ficaram perfeitamente em pânico, sabendo das tendências filosóficas do Dr Rio, menos eruditas e muito menos pedantes e vaidosas do que as do Dr Carrilho. E sabendo-o temem que ele se possa ter querido referir a eles. Vamos aguardar!

Publicado por LFV em 11:59 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 12, 2003

As vacas loucas e o governo

Ainda há poucos minutos, no telejornal da RTP-1, ouvia que estatísticas agora divulgadas indicavam que o número de casos da doença das vacas loucas detectado este ano é superior ao do ano anterior. O que, naturalmente, significa um crescimento e um agravamento da situação. Se a aritmética geral ainda é a que me ensinaram, se este ano se contaram, por exemplo, 200 casos e no ano anterior apenas 100, isto quer dizer que este ano houve mais casos do que no ano passado. A menos que mais uma reforma do ensino, com as portas das universidades fechadas a cadeado e obstruídas por camiões de grandes dimensões, tenha alterado a lógica das coisas e 200 tenha passado a ser menor do que 100. Como não acompanho muito estas coisas e já não ando na escola não sei a resposta a esta minha dúvida. Eu gostaria muito que fosse o senhor engravatado, presente em estúdio, e que julgo ser governante a avaliar pelo brilhantismo do raciocínio, a esclarecer-me. Mas nem fixei o nome dele, nem lhe sei a morada ou o cargo, nem provavelmente ele me daria resposta. À semelhança do comportamento que usualmente assume a maioria dos serviços públicos que nos asfixiam e que nós adoramos. Tanto tempo passamos nas suas instalações, muitas das vezes para coisa nenhuma.

Mas então justificava-se o dito senhor. Dizendo que não tinha nada aumentado o número de casos, pelo contrário, a redução continua a verificar-se, lenta mas segura, desde 1999. O que aconteceu é que houve mais fiscalização, fizeram-se mais visitas, deslocaram-se a mais locais e contaram mais casos. Mas a contagem não vale porque é resultado de terem ido a muito mais explorações, visto muito mais vacas aos tombos e, naturalmente, feito apontamento disso. Isto quer dizer, nem mais nem menos, com a mesma transparência invocada para a constituição da Fundação Minerva, ou para a Universidade Lusíada, ou para o presidente da dita fundação, ou para o reitor da citada universidade, que se não tivesse havido fiscalização nenhuma não teriam sido recenseados casos nenhuns. E sem nenhum caso a doença estaria pura e simplesmente erradicada, como transparentemente se compreende. A Dra Manuela pouparia mais uns cêntimos com o pessoal, dispensando fiscais desnecessários e inúteis. E nós todos, alegremente e sem receio, poderíamos voltar ao velho hábito tão português do bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Se os aumentos que a Dra Manuela autoriza permitissem que ainda fossemos ao talho!

Publicado por LFV em 09:23 PM | Comentários (3) | TrackBack

A Fundação do Gil e o Natal

Não deixam de ser enternecedoras e meritórias as acções desenvolvidas pela Fundação do Gil que culminou, dois dias atrás, com a distribuição de brinquedos e mais de 50.000 crianças mais desafortunadas da sociedade portuguesa.

Não podemos é, na minha perspectiva, sermos solidários com essas franjas cada vez mais largas da sociedade quando chegam as épocas natalícias e deixarmos as coisas correrem naturalmente durante o resto do ano. Assinale-se o pragmatismo de Jorge Palma que, sem hesitações, referiu congratular-se com realizações daquele tipo mas que, se as há, é porque alguma coisa está mal.

Publicado por LFV em 05:28 PM | Comentários (2) | TrackBack

Euro 2004 - 2




Euro 2004


Publicado por LFV em 04:18 PM | Comentários (0) | TrackBack

Liga dos campeões - oitavos de final

O sorteio acabou por confirmar que, por exclusão de partes, Deus é brasileiro. Porque a mim, pessoalmente, não me parece que, ao menos no sorteio de hoje, tenha sido português ou sequer portuense. O Sr. José Mourinho exulta com a sorte mas o Sr. Pinto da Costa exultará provavelmente com a receita que poderá arrecadar e manter-se-à um pouco mais reservado quanto ao desfecho da eliminatória. Agora resta aguardar pelos jogos.
F.C. Porto - Manchester United
Publicado por LFV em 11:43 AM | Comentários (2) | TrackBack

Bruxelas: fim de semana para 15+10

A pretexto da chamada Constituição Europeia, de que toda a gente fala e que ninguém conhece, estão reunidas em Bruxelas as representações dos seus actuais quinze membros acompanhadas pelas dos mais dez que o serão a partir de Maio do próximo ano.

Em Portugal, como sempre, os políticos continuam a discutir já não sobre o sexo dos anjos mas mais sobre o seu tamanho. Para não serem envergonhados pela sua falta de visão continuam a ir para a barra do Tejo aguardar pelo regresso de D. Sebastião nas manhãs de nevoeiro. Outros, segundo consta, preferem o alto do Parque Eduardo VII para, à noite, exibirem os seus dotes de campeões automobilistas falhados. E ainda outros passam a noite a discutir sobre a transformação de cooperativas em fundações, rodopiando à volta de si próprios e não saindo do nebuloso ponto sobre a transparência.

Mas esta manhã, ainda antes da reunião do grupo de 25 convivas, três deles tomaram o pequeno almoço juntos. Por mero acidente pode perguntar-se quem foram. Também por mero acidente aconteceu que foram os senhores Schoroder, Blair e Chirac. Por acaso os três maiores países da União Europeia. Sobre que falaram, para além da excelência dos ovos mexidos com presunto e da frescura do pão e do leite? Muito naturalmente da defesa e das garantias de tratamento igualitário a reservar aos pequenos países como o Luxemburgo, Malta ou Chipre.

Graças a Deus que não somos pequenos e que alguém respeita o nosso passado histórico e glorioso. Alguém, lá fora, ouve a lenga-lenga do Dr Portas e nos dá a importância que realmente temos. Ignorando-nos!

Publicado por LFV em 10:47 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 11, 2003

O Sr Castelo Branco? Só pode ser mentira!

Soube hoje que o Sr José Castelo Branco, distinta e ilustre figura da sociedade novaiorquina, habitual porta-estandarte nas manifestações de apoio à libertação do Iraque e à política do Sr W. Bush e, ainda, acidental frequentador da rebaldaria das festas que as tias vão promovendo nos casarões da linha, se viu envolvido numa cena de pancaria em que até o muito digno governador do Estado da Califórnia se sentiria um incipiente principiante.

Eu não acredito nisso, mesmo que me tragam fotografias e me exibam filmes. Mas, apesar de tudo, parece que foi assim. O Sr Castelo Branco tinha estado no cabeleireiro a maquilhar Betty, a sua amantíssima esposa e a tarefa deixou-lhe as mãos sujas de "rouge", sombra, pó de arroz e outras porcarias com que ela tapa os buracos do tamanho dos da estrada da Malveira que persistem em aparecer-lhe pela face. Nada mais natural que, para as lavar, se tivesse dirigido a uma das casas de banho, segundo versão do próprio.

E aí é que foi a desgraça. Então não é que um gajo qualquer, desconhecido e mal encarado, despenteado e com a barba por fazer, o seguiu até aos urinois e lhe começou a fazer convites em termos que nem as meninas do Intendente gostam de ouvir? Nessa altura, diz o insuspeito e macho - muito macho! - Castelo Branco que perdeu a cabeça - coitado, o que deve ter sido muito difícil, porque nem eu sabia que ele a tinha! - e se agarrou com unhas e dentes aos cabelos sujos e revoltos do energúmeno. Desatando a gritar por socorro, aqui d'el rei, prendam este homem, algemem-no que é um ordinário.

O homem parece que desistiu e se foi embora, a caminho do Intendente ou do Casal Ventoso que o Dr Soares filho riscou do mapa da cidade. De regresso ao regaço da sua Betty, contou-lhe a cena, omitindo alguns detalhes por mera precaução. E segredou-lhe: sempre ouvi dizer que, em Lisboa, nas casas de banho públicas cada um mijava com o que tinha!

Publicado por LFV em 09:59 PM | Comentários (1) | TrackBack

O nariz cresceu ao ministro Sarmento

Por ter precipitadamente metido os pés pelas mãos ainda ontem. Por, não satisfeito com isso, ter novamente insistido no disparate hoje. Por ter conseguido dizer mais mentiras por cada dez minutos do que se possa imaginar. Por ter invocado em vão organismos e pessoas que, ao menos, no caso da transformação da Lusíada em fundação não têm as responsabilidades que se lhes imputam. Por ter vindo de novo a correr dar o dito por não dito e dizer que não disse o que tinha dito. Por tudo isto e ainda por solidariedade para com outros membros do governo a que pertence, o nariz começou a crescer-lhe rápida e desmesuradamente. Por essa razão teve o mesmo de ser rapidamente internado e abandonar a prática de desportos violentos. O nariz transformou-se-lhe num alvo fácil e demasiado vulnerável. O boxe passou à história!
Publicado por LFV em 05:33 PM | Comentários (3) | TrackBack

Porto, vista geral

Publicado por LFV em 03:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

A universidade Lusíada fundou-se

Definitivamente vergo-me à evidêndia: em Portugal não há casos. Que país, por maior que fosse, mesmo como se sabe que é o nosso, poderia resistir a uma tão grande caterva de casos todos os dias? Nenhum!

Portanto não se justifica que até já o Dr Louçã publicamente reclame a realização de mais um inquérito parlamentar. Para lamentar o quê? O Dr Louça precisa é que a mãe lhe compre a cartilha do Sr João de Deus - Nosso Senhor o tenha no seu eterno descanso! - e lha ensine de fio a pavio. E vá passear o cão! Ou quer que o Dr Pacheco Pereira continue a reclamar ter sido ele o único inteligente que militou em partidos mais pequenos. Antes de assinar um contrato com um dos grandes, mas tão definitivamente falido como o Benfica?

Qual é o problema que uma universidade onde o Dr Barroso foi chefe de um departamento, seja dirigida por um reitor que tem uma neta que pediu um empenho a um ministro do Dr Barroso e que o pai da rapariga, sendo também ministro do Dr Barroso, não tivesse sabido porque o seu secretário de estado lhe não disse nada, se transforme em fundação? Mesmo que o secretário de estado tivesse depois dito que disse que não tinha dito mas que poderia naturalmente dizer que tinha dito! E que, por enquanto, mais não disse.

Então a questão não é perfeitamente transparente? É preciso vir o ministro da porrada dizê-lo a toda a gente? Pensam que o homem não tem mais que fazer, ele que já nem a barba faz? Como todos supunhamos: o país é grande mas é de compreensão lenta!

Publicado por LFV em 02:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

Figueiredo Lopes e secretário de Estado em rota de colisão

Segundo o jornal o Público, de hoje, o ministro e o seu secretário de Estado Pais de Sousa estão em rota de colisão. Ou o piloto automático a corrige ou, se depender deles, voltam a estampar-se como já nos habituaram e a nossa frequência cardíaca nem reagirá a isso!
Publicado por LFV em 12:26 PM | Comentários (1) | TrackBack

Qualidade alimentar adiada para as calendas

A manchete da primeira página do Diário de Notícias de hoje: Controlo da qualidade alimentar adiada por um ano.

Será então que poderemos concluir que estamos em vias de ser servidos em qualquer tasca de terceira categoria, sem referência no guia Michelin, por rapazes e raparigas de fato e lacinho ao pescoço, calçando sapatos de verniz, devidamente habilitados com estudos especifíficos feitos nas escolas superiores de hotelaria. E que, como é tradição, poderão continuar a pôr-nos à frente uma qualquer merda que ninguém sabe de onde veio e muito menos como foi confeccionada?

Agora percebo porque razão os nossos governantes só se sentam à mesa nos banquetes oficiais. Afinal não é só pelo preço!

Publicado por LFV em 10:05 AM | Comentários (0) | TrackBack

Euro 2004 - 1



Euro 2004

Publicado por LFV em 09:25 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 10, 2003

A RTP-2 e a chamada sociedade civil

Vi agora à noite, no telejornal da RTP-1, que hoje se reuniram no Parque das Nações - sítio fino para gente fina! - o Dr Sarmento, ministro da presidência, a quem o cargo que desempenha já fez nascer a barba - parabéns! - o Sr presidente da RTP - pau mandado cujo nome, peço desculpa, me não ocorre! - e ainda trinta e oito trogloditas a que a peça teve a gentileza de chamar parceiros. Para anunciarem que o canal dois muda de projecto no princípio de Janeiro, a cargo da sociedade civil, e que apresentará uma programação infantil de qualidade e temas de interesse com documentários cuidados.

Trocando por miúdos, mais do mesmo! Isto porque programação de qualidade quer dizer bonecos animados, Big Brother, Ídolos, tudo. Porque tudo tem qualidade, até os livros da D Margarida Rebelo Pinto ou as cantigas do Sr Emanuel. O que não têm é a qualidade dos livros do Sr Saramago ou das cantigas do Sr Fausto - parabéns Carlinhos pelo disco recente! - que naturalmente também não pretendem ter. Penso eu! Há anos um tal Gama até se julgava importante e o nome de Zeca Afonso não lhe dizia nada. E até se ria, o alarve!

Mas mais do que isso há uma coisa que me confunde desde sempre: o termo - infeliz, digo eu! - sociedade civil. Não sei quem o inventou, o que não acho relevante até porque creio que não dará direito a nome de rua ou de travessa. Mas alguém me explica o que é isso de sociedade civil? Às vezes quero crer que é toda a gente - incluindo mulheres, crianças e eu - mas excluindo militares do exército, força aérea, marinha, polícia, guarda e outros corpos de que me não lembre agora. Ah! a Brigada de Trânsito também, mesmo sem comandante. Mas sobrevem-me depois a dúvida se devem ou não ser incluídos os militares reformados, na reserva ou passados à disponibilidade. E raios me partam, nunca sei onde se encaixa o Dr Portas, ministro, que não está nem no activo nem na peluda! E os políticos vitalícios como o Dr Almeida Santos, os sindicalistas como o Sr Carvalho da Silva, os bastonários das ordens como o Dr Júdice, os patrões dos patrões como o Eng Ludgero, os empresários como o Sr Salvador Caetano, onde é que os devo pendurar. Ainda por cima, quando falo de empresários, e então o coronel Luís Silva, devo parti-lo ao meio?

Se alguém me explicar, eu agradeço. Mas de forma que eu perceba, não é preciso mandarem-me a Dra Edite Estrela que ainda lá anda atarefada com os problemas de Sintra e com o penteado. E depois é erudição a mais, se calhar ainda fico pior do que antes!

Publicado por LFV em 11:17 PM | Comentários (1) | TrackBack

O azar de uns é a sorte de outros

O nosso Dr Barroso é um homem de sorte, em todos os sentidos. Quando pedia pareceres ao professor Marcelo, consultava videntes e cientistas africanos, ia aos domingos à missa das onze para se encontrar com os influentes da paróquia e tinha, religiosamente, a bíblia à cabeceira, as intenções de votos dos portugueses não faziam dele um ganhador e continuavam a preferir as falinhas mansas do Eng Guterres. Isto a avaliar pelas sondagens que, naturalmente, dão sempre o resultado que mais convem a quem as encomenda que também é quem paga. Na assembleia zurzia-se o Dr Barroso como líder da oposição pela frouxidão com que actuava, pela falta de convicção das suas intervenções, pela fraqueza dos seus argumentos. No seu próprio partido se comentava que, assim, nunca mais lá iriam. E alguns, mais afoitos, perguntavam-se mesmo como poderia um homem daqueles ter feito a sua formação no grande partido do Dr Garcia Pereira, vendo-se que era tão fraquinho quando por aquela escola só passavam os melhores.

Depois houve um terramoto numa inesperada noite de tempestade. Quando o Eng Guterres deu por ela tinha o governo, as autarquias que controlava e o partido feitos em cacos. Nem pensou duas vezes que farto daquilo andava ele, há mais de dois anos a tentar sozinho, sem saber como, a quadratura do círculo. E vai daí, demitiu-se e anunciou a sua retirada para a freguesia de Donas, no Fundão, para uma cura de sono e um período de repouso. O partido e os muitos "boys" que patriótica e generosamente tinham aderido, a troco de pequenas benesses, ficaram em estado de choque e temeram o pior. Com razão, que os ordenados, os carros de serviço e os cartões de crédito perfilavam-se para mudar de donos.

Sem grande surpresa o Dr Barroso ganhou as eleições, por falta de comparência da equipa adversária mas sem a ajuda do árbitro nem da comissão de disciplina da liga de clubes. Encheu o peito e rapidamente fez outro governo. Mudou os "boys", os ordenados, os carros de serviço e os cartões de crédito. E passou a dizer que estava tudo mal, que não era culpa dele, ele nem sequer era de cá, tinha estado muito tempo nas terras do tio Sam. E que agora seriam precisos grandes sacrifícios para que tudo ficasse ainda pior, como graças a Deus tem vindo a ficar. Nem o tacto ou o sentido de estado dos Drs Arnault e Sarmento têm conseguido inverter a situação. No parlamento os esforços do deputado Dr Gonçalo Capitão, figura saída das estórias do Walt Disney como o pato Gastão, têm sido em vão.

Para sorte sua tem tido a mesma aguerrida oposição que no passado ele próprio garantiu ao Eng Guterres. Quer dizer, nenhuma! O Dr Ferro bem se esforço, mudou de penteado e de óculos, arranjou um cão e passou a ser visto a passeá-lo pela rua abaixo, com ligeiras paragens para que o canino pudesse alçar a perna numa qualquer árvore do passeio que o Dr Santana ainda não tenha mandado abater, sabendo de antemão o arquitecto Ribeiro Teles ocupado a brincar com os netos. Mas a sorte foi-lhe madrasta. Um juiz contestado por meia dúzia de VIP's foi buscar-lhe o porta-voz e manteve-o preso por uns tempos. O Dr Ferro falou em tudo, até em cabala, que é um termo que não vai muito com o semi-analfalbetismo da malta, e fez do processo o fulcro da sua luta política. Pelo meio, e enquanto se clamava contra tudo e contra todos, até o cão desapareceu e foram precisos anúncios nos jornais para o trazer de volta.

Agora, quando se mantinha calado em relação ao processo e em relação ao resto, quando já ninguém afirmava que só dizia disparates, quando quase estava esquecido a não ser na tribuna do Alvalade XXI - onde para esquecer continuam a ser os resultados! - sai-lhe um "cromo" do governo regional dos Açores a andar de boca em boca. Não perdeu tempo e demitiu-se para desatar aos berros a falar em manipulação política e a queixar-se da cabala. O Dr Ferro disse que não era nada consigo, distribuiu cartões de visita com a morada do Sr Carlos César e aproveitou para dar um salto à Serra da Estrela.

Com azar, porra! Então não é que nevou e o carro que o transportava ficou atascado na neve. Não se queixou para não ter que falar de novo nem em cabala, nem em manipulação política. Mas tenciona interpelar o governo sobre as condições e as épocas em que se permite que neve na serra e que os viajantes se atasquem. O Dr Figueiredo Lopes esfrega as mãos de contente. E pensa, ao menos com isto não me chateiam com a Brigada de Trânsito para cujo comando ainda tenho que convidar algum sargento-ajudante!


Publicado por LFV em 05:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 09, 2003

O 24 Horas, a Manuela Moura Guedes e a Raquel Cruz

Há já uns anos atrás uma senhora - minha colega de trabalho na altura, por sinal filha de um dos políticos importantes do regime do Dr Salazar - foi lendo livros que me pertenciam. E não resistiu depois, em conversa, a referir-me que habitualmente as pessoas se podem conhecer por aquilo que lêem mas que, no meu caso pessoal, eu a despistava porque ficava sem formular uma ideia a meu respeito por essa via. Ri-me e perguntei-lhe porque o dizia. Retorquiu-me que, entre os meus livros, encontrara biografias de Mao Tse Tung, de Francisco Franco e de Adolf Hitler, ficção de Joaquim Paço d'Arcos, de Jorge Amado e de Soeiro Pereira Gomes, poesia de José Gomes Ferreira, de António Maria Lisboa e de Pablo Neruda. Por exemplo. Voltei e rir-me e disse-lhe que tinha razão, que a mim nunca me iria conhecer por esse caminho.

Não vem isto a propósito de nada ou, se calhar, até vem. O que quero dizer é que, ainda hoje, leio tudo e se não compro mais jornais e revistas é porque o não posso fazer. Por não ter dinheiro para gastar dessa forma - o que inclusivamente iria contra as disposições da Dra Manuela - e porque não passo nem posso passar a ler todo o santo dia. E, além do mais, porque muitas coisas há por aí, nos quiosques, que não merecem uma olhadela, nem de longe e de soslaio. E porque sigo esta conduta? Porque acho que ninguém pode com propriedade falar das forças armadas se não tiver sido militar. Assim como ninguém pode liminarmente apoiar a ida de forças americanas para o Iraque apenas por ter lido os editoriais do Sr José Manuel Fernandes.

De vez em quando compro, para folhear, o 24 Horas que é o jornal que muitos de nós sabemos que é mas ao qual vão dando colaboração - obviamente paga! - algumas figuras conhecidas como o Sr Joaquim Letria, por exemplo. E, até há poucos dias o mesmo acontecia com os Srs Pedro Pinto e Júlio Magalhães e a D Júlia Pinheiro, todos da TVI. A D Raquel, mulher do apresentador de televisão Carlos Cruz, que continua preventivamente detido, mantém também no mesmo jornal uma coluna diária com o título O diário de Raquel. Onde não diz mais do que inutilidades, quase sempre sob a forma de resposta a questões de índole sentimental. A não ser quando se julga conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, para agravar a situação e ampliar o vazio.

Esta senhora, como se sabe, sugeriu - ou mais do que isso - que a D Manuela Moura Guedes, mulher do Dr Eduardo Moniz, teria tido em tempos idos qualquer atracção platónica pelo seu detido marido. Ou mesmo algum namoro de cuja existência, se calhar, nem sequer ambos tivessem tido conhecimento. Caiu o Carmo e a Trindade e, segundo mensagem recebida do Sr Berlusconi, a própria Torre de Piza teria inclinado mais dez centímetros e, em Veneza, a água subido nos canais outros dez. De repente os atrás mencionados colaboradores da TVI abandonaram a sua colaboração no jornal 24 Horas, segundo logo correu em obediência a imposição do casal Moniz. E hoje a edição daquele jornal publica na sua última página um esclarecimento assinado pelos três, negando ter havido qualquer tipo de pressão no sentido de cessarem as suas colaborações naquele jornal.

Quanto à parte séria do jornal, ela continua. Na primeira página a revelação de que Alexandra Lencastre foi operada às cordas vocais para deixar a rouquidão com que falava, parecendo-se com o Bonga a cantar ou com algum alcoólico anónimo depois do trigésimo bagaço bem aviado. E ainda cinco - famosas - cinco, que estão sem namorado e que divulgam a lista de atributos que procuram num homem, a começar pelo livro de cheques, pela fragrância do perfume e pela marca das boxers.

Alguém quer, desde que satisfaça os requisitos, que lhes sejam enviadas por mail as respectivas listas para se poderem candidatar? Famosas, já viram bem? Como a Lili Caneças e a Cinha Jardim!


Publicado por LFV em 11:30 PM | Comentários (1) | TrackBack

Para que serve um blogue - 5

De vez em quando, como uma obsessão ou uma fatalidade, regresso ao tema. Mas sempre porque alguma coisa, em qualquer lado, me despertou a atenção e me espevitou a escrever sobre o assunto mais meia dúzia de linhas. Sempre com a intenção de auxiliar a melhor compreender alguma coisa, mesmo se involuntariamente assumo algumas posições críticas. Devendo esclarecer que mesmo essas eventuais posições são assumidas com espírito positivo, no sentido de ajudar a construir e nunca para destruir seja o que for.

Muito recentemente, de pleno direito e com a total liberdade que a blogosfera deve garantir a todos os seus membros, o Cidadão do mundo salientava o facto de se encontrarem por aí imensos blogues com imperdoáveis erros de ortografia e de sintaxe. E terminava o seu "post" a incitar os "bloggers" nessas circunstâncias, cuja intenção não entendia, a lerem muito. Começando pelos manuais escolares que, provavelmente, em muitas circunstâncias nunca chegaram a ser abertos. Para regressarem à blogosfera apenas quando já estivessem em condições de escrever correctamente.

A meu ver há verdades na constatação do Cidadão do mundo e conclusões insensatas nas suas recomendações. Na minha perspectiva a blogosfera é livre e todos lhe devem ter acesso com as mesmas facilidades ou as mesmas dificuldades. Não é ou não deve ser elitista, de nenhuma maneira. E no meio dela acabamos a encontrar blogues de figuras públicas que acabam a ser líderes de visitas exactamente por isso, sendo certo que muitas vezes estamos em desacordo com as suas opiniões, como já estávamos quando as emitiam nos jornais, nas emissoras de rádio ou nas televisões. Acontecendo que aí não tínhamos nem temos direito a opinião ou a discordar fosse do que fosse. Deparamos também com muitas outras coisas boas, produzidas por desconhecidos do público, mesmo quando os conhecemos pessoalmente ou ao menos de nome. E, naturalmente, confrontamo-nos com o menos bom e às vezes com o mau que na blogosfera, como na vida, fazem parte do nosso dia a dia. Também esses podem aprender alguma coisa no seio da comunidade, como aprendemos todos. Invariavelmente sempre com quem sabe fazer as coisas melhor do que nós.

Na mesma oportunidade, e tomando como ponto de partida o "post" do Cidadão do mundo, também o Congeminações se pronunciou sobre o mesmo assunto para defender mais ou menos aquilo que eu mesmo disse mais atrás. Salientando que frequentemente os erros de ortografia e de sintaxe são mesmo encontrados ao longo das páginas dos mais diversos manuais escolares e de todos os jornais e revistas que utilizamos. Sem que se pense que os respectivos autores sejam iletrados de todo.

A posição do Congeminações põe a questão por outro prisma e confere-lhe uma muito maior gravidade. De facto quase tudo acaba por ser resultado de uma deficiente preparação escolar onde, como se sabe, a língua portuguesa é maltratada em cada ano escolar, do primeiro ao último. A atestá-lo muito melhor do que todos os "posts" que possamos publicar estão as médias obtidas na cadeira de Português nos mais diversos níveis de ensino. Sendo certo que, por isso, também nós todos - televisões, rádios, jornais, individuais - somos responsáveis. Pelos erros que cometemos, algumas vezes por descuido, outras por pressa, muitas por falta de profissionalismo - coisa em que o país é líder, seja qual for a matéria! - tratando a língua portuguesa abaixo de cão. Especialmente quando nos socorremos de todas e quaisquer palavras ou expressões anglo-saxónicas. Desnecessariamente e por simples pedantismo alarve e bacoco.


Publicado por LFV em 03:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Dr Paulo Portas substitui o Dr Arnaldo Matos

Confesso! Ontem foi com um deslumbrado deleite que vi o Dr Paulo Portas, ministro, dizer numa das televisões, em directo, que o Dr Soares pai era um político do passado, muito do passado, que se julga ainda hoje dono da democracia. E que - coisa que eu estava longe de imaginar, mas que faz todo o sentido! - segue despeitado dia após dia por três razões essenciais. A primeira porque o seu dilecto filho, Dr Soares filho, perdeu as eleições para a Câmara de Lisboa. O que, naturalmente, o deixou sem emprego e, sem economias feitas - a época foi a do despesismo desbragado do engenheiro Guterres - tem vivido em dificuldades. Como se isso lhe não bastasse, meteu-se ainda em maiores despesas, contrariando as directrizes da Dra. Manuela, metendo-se num processo de separação e divórcio e num novo casamento, já com um novo filho. Este, ainda por cima, nascido no estrangeiro e parece que ai residente, não pode beneficiar do significativo subsídio de aleitação que o ministério do Dr. Bagão vem atribuindo aos jovens casais portugueses. E a avó, D Maria, não pode ficar a tomar conta dele enquanto a nova nora vai para o trabalho, que a vida custa a todos.

Depois, em segundo lugar, o Dr Soares pai julgou que a sua D Maria tinha um emprego estável, garantido para a vida, com direito a reforma por inteiro quando atingisse a idade de sessenta anos e completasse trinta e seis de serviço. Pensava ele, nessa altura, inscrever-se nuns programas de turismo para a terceira idade e ir passar uma semana a Albufeira, outra à Serra da Estrela e, com sorte e a poupança resultante do corte em algumas despesas menos essenciais, até mesmo dez dias à Madeira, numa altura em que o Dr Alberto João tivesse viajado para a América, a beber poncha com a comunidade madeirense. Mas não foi assim e a estabilidade já não é o que era. Foi ele, Dr Portas, quem, em defesa do interesse nacional e da projecção do nome do país na raia galega, pôs termo a tão obtusa situação. A D Maria, consta, chegava sistematicamente atrasada, recusava-se a usar a farda de serviço em sarja azul - da cor o Dr Portas até gostava! - e havia quem, contra todas as boas normas de transparência, lhe marcasse o cartão de ponto à entrada e à saída. E, mesmo no banco de trás, tinha o mau hábito de andar sempre de boleia em carros de serviço, conduzidos por motoristas profissionais e fardados. De boné e tudo!

Como se isso lhe não bastasse o Dr Soares pai, quase que à maneira do Dr Salazar, acabou por saber que já não era presidente da república e que - traição das traições - tinha sido substituído no cargo pelo Dr Sampaio. Um ilustre desconhecido com quem nem sequer andou na escola, não frequentaram a catequese juntos nem sequer foram a acampamentos de escoteiros para os lados da Ericeira na mesma altura. Conviveram apenas, muitas vezes até em lados distintos da sala de congressos, no mesmo partido e mais nada. Nem compadres são e as marias de ambos não frequentam os lanches da Versailles onde poderiam encontrar-se para tomarem um chá açoreano e petiscar meia dúzia de biscoitos de sortido húngaro. Mais do que isso! O Dr Soares pai viveu em França, conviveu com o seu amigo Miterrand, aprendeu a língua, continua a exercitá-la em Estrasburgo, está quase capaz de ler as fábulas do Sr La Fontaine no original. Ao invés o Dr Sampaio prefere aquela língua esquisita que fala o Sr Blair e que o Sr Bush apenas consegue imitar, e mal. Ninguém os entende, nem os iraquianos que ainda não perceberam que os querem libertar e que a guerra acabou em Maio. Até o Sr Solnado era mais organizado nos horários, mesmo os das guerras!

De forma que o Dr Portas afirma-se como muito mais do que como um duplo ministro. Esclarece-me em relação a assuntos de que eu nunca sequer sonhara vir a saber alguma coisa de jeito. E educa - isso é que é importante num político de futuro como ele! - a classe operária. No sentido de que esta se discipline para trabalhar de sol a sol, sete dias por semana, com um ligeiro intervalo ao domingo para a missa e para a comunhão. Sem férias e com um salário mínimo mais do agrado das federações patronais, em perseguição da competitividade e à semelhança do que ele próprio já ensaiou com os jovens entrevistadores da sua defunta Amostra.

É por isso que o Dr Arnaldo Matos pode finalmente dormir descansado e dedicar-se à sua actividade profissional de consciência tranquila. O Dr Portas sucede-lhe, como o grande educador da classe operária. No percurso, deseja ele, para o cargo de querido e amado líder. Da Correia do Norte não, do colégio onde frequentou o ensino secundário!


Publicado por LFV em 10:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 08, 2003

O Sr Narciso dá à costa passadas três semanas

Como todos os dias os jornais presenteiam-nos hoje, apesar de ser dia santo, com o habitual conjunto de tragédias sem o qual, honestamente, nem sentimos a auto-estima em cima nem quase nos orgulhamos de descendermos de el-rei D. Afonso Henriques, nosso senhor. Que, para nosso bem, varreu à espadeirada aquilo que lhe foi possível, enquanto lhe não faltaram as forças e se finou. Mas hoje há ainda mais uma tragédia, embora com o requinte da linguagem de comentador da SIC e de dimensão regional. E como a regionalização, em termos políticos, é como o aborto - porque ambos foram sacrificados no referendo, lembram-se? - o poder central acha que o problema não existe. Mas existe.

Em Leça da Palmeira, concelho de Matosinhos, há uma piscina que é obra do arquitecto Siza Vieira e que desde sempre foi conhecida exactamente por piscina de Leça, Mas o nome oficial, mais fino, é piscina das marés. Há três semanas, pelos vistos, a piscina foi assaltada e dela foram retiradas peças de cobre de reduzida dimensão, algumas com apenas três metros de altura. Naturalmente que ninguém deu por ela, coisas tão pequenas dificilmente poderiam ser vistas a olho nu. Mais adiante, quando se caminha para norte, junto ao farol da Boa Nova, alguém pode muito bem levar a estátua do Sr António Nobre que por ali passou algumas das suas horas contemplando o oceano e ensaiando as suas rimas e o resultado seria o mesmo.

Ontem, apenas três semanas depois, o Sr Narciso visitou o local e, como se fosse o Dr Santana ou o Dr Carrilho a responder ao Sr Rodrigo de Carvalho, disse sentir-se profundamente chocado e indignado. E adiantou mesmo que alguma coisa estava muito mal em matéria de segurança porque se não admite que seja quem for venha pela calada da noite, se aproveite do escuro, utilize qualquer máquina de movimentação de terras estacionada no local, derrube as placas de três metros de altura, as meta ao bolso e, calmamente, vire costas e se ponha na alheta sem que ao menos o faroleiro tenha visto alguma coisa. A insegurança, nem é preciso dizê-lo, teve que vir de municípios vizinhos porque o do Sr Narciso é exemplar e os ladrões que ainda existem - a espécie, diz ele, está em vias de extinção como o lince da serra da Malcata - são completamente amadores, como os futebolistas do Angeiras. Ora adianta ele ainda que aquilo foi obra de profissionais e que a incursão se não fez nem num dia, nem numa hora. Portanto, mesmo profissionais, não tinham o gabarito dos que mudam os pneus ao Ferrari do Sr Barrichello nas corridas de fórmula um, que são muito mais lestos.

E, à sua maneira, agiu como nos velhos tempos e nos clássicos filmes de "cowboys" agia o Sr Gary Cooper quando, sozinho, se via rodeado por dez mil índios à sua frente, dez mil índios à sua direita, dez mil índios atrás de si e ainda outros dez mil índios à sua esquerda. E o Sr Gary Cooper sozinho! Disparou em todos os sentidos porque, com tanto melro, não haveria de falhar nenhum tiro. Acusou o empreiteiro de uma obra qualquer que lá anda em curso, tipo obra de Santa Engrácia. E acusou ainda o encarregado, os motoristas, os trolhas e os serventes. Por precaução deixou de fora do rol a D Fátima Felgueiras que nunca seria capaz de uma coisas dessas, sendo pessoa das suas relações e da sua confiança.

Esqueceu-se é que se o roubo, para ser consumado, necessitou de mais que um dia, toda a gente que deveria estar acordada, pelos vistos, estava a dormir. Incluindo ele, Narciso Miranda, há mais de vinte anos dormindo tranquilamente na cadeira da presidência da Câmara de Matosinhos. Onde, mesmo agora, só acordou para se indignar passadas três semanas. Quanto ao roubo de peças volumosas, de grandes dimensões e de algum peso, não é para admirar que desapareçam no seu concelho. Nem que isso se verifique em plena luz do dia. Então não é que anos atrás, ao que dizem, mesmo escoltados por quem de direito, chegaram a desaparecer do porto de Leixões camiões carregados com contentores. E nunca se soube quem os meteu ao bolso!


Publicado por LFV em 07:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 07, 2003

O colonialista Dr Portas

Ana Sá Lopes perde hoje desnecessariamente tempo com um nado-morto e, lamentavelmente, equivoca-se. Não fosse ela colunista de jornal e se limitasse a escrever para a família e os amigos mais próximos e tudo estaria bem.

O Dr. Portas está habituado a ser mal interpretado e, fatidicamente, a não ser compreendido. É necessário que se pense um bocadinho nisso e na relação directa que o facto tem dos portugueses serem os mais desconfiados da União Europeia.

De facto o Dr Portas foi amigo de peito do Dr Monteiro, a quem traiu. Como jornalista, director do semanário O Independente, ainda se recorda um episódio rocambolesco de que se queixa o professor Marcelo que foi enganado e o professor Cavaco ainda hoje mantem uma fotografia sua em cima da secretária de trabalho, lado a lado com a dos netos. Como deputado conseguiu fazer aprovar uma Lei atribuindo direitos aos ex-militares que gritou ser justa e merecida e vir atrasada. Como ministro da Defesa traiu a Lei primeiro e todos os militares depois e, entretanto, prossegue com recenseamentos que hão-de estar concluídos quanto todos os interessados estiverem mortos, entretendo-se a demitir chefes de estados maiores. Como candidato a deputado visitou lares de idosos, jogou à bisca com reformados no Jardim da Estrela, prometeu-lhes pensões que lhes garantissem uma subsistência digna. Como ministro transformou amigos em assessores do seu gabinete, para lhe prestarem ninguém sabe que raio de serviços, e fixou-lhes chorudos vencimentos, dando-lhes carros de serviço e indispensáveis cartões de crédito. Ainda como candidato cirandou por feiras e mercados, frequentou lotas, arrematou cabazes de jaquinzinhos e seguiu viagem fedendo a peixe e carregando escamas como se fossem caspa. Como governante traiu o amor pela dignidade das peixeiras e aprovou a compra de submarinos que hão-de competir com a frota espanhola na pesca de alto mar.

Agora, lamentavelmente, não pode – acha ele que “ainda” – pura e simplesmente revogar a Constituição que uma série de iluminados, que correu a informar o professor Jorge Miranda, descobriu não ser democrática. Mas está certo na sua intenção de retirar as referências que ali são feitas ao anticolonialismo, para já. Enquanto a República persistir em manter sob o jugo colonial os Srs. Carlos César e Alberto João. Porque, para manter as referências, a ilha do Corvo – com o devido respeito, porque não tem culpa nenhuma de que haja Paulos Portas pelo mundo! – deve ser tão independente como o Canadá e as Selvagens tão independentes como as Berlengas. E os novos países serão felizes, poderão endividar-se à vontade, frequentar todas as romarias de verão e exportar bananas e ananazes. Nessa altura o Dr Portas terá mudado de opinião mais uma vez, com todos nós a importarmo-nos com isso ainda menos do que hoje. Importante é fazê-lo emigrar!

Publicado por LFV em 11:29 PM | Comentários (3) | TrackBack

O Dr. Ferro, piloto de rebocador na doca de Leixões

A classe política portuguesa é cada vez mais uma espécie de pescadinha de rabo na boca. Que se comporta autenticamente como os cachorros quando se querem deitar. Dão dez voltas sobre si próprios assim a termos de preparação. E quando pensamos agora é que é, lá vai, iniciam outras dez voltas, começando tudo de novo. Depois já se não deitam, pura e simplesmente caem vítimas do movimento circular e das tonturas.

A semana passado decorreu sob o signo do PEC que é uma coisa de que toda a gente fala nos transportes públicos, nos restaurantes, nos empregos e de que sabe muito menos ainda do que de futebol. Mas foi PEC para aqui, PEC para ali, PEC para cima, PEC para baixo, de tal modo que algumas respeitáveis senhoras idosas, avós exemplares e tementes a Deus, chegaram a dizer entre si que os dias de hoje estavam desgraçados e que eram pecados a mais. E, se formos a ver bem, os portugueses estão, no que se refere a siglas, como estão no resto: na cauda da Europa. Quando muito vão sabendo o que quer dizer FCP, SLB ou SCP e mesmo assim não exageremos.

Toda a gente fala de IVA e o paga, quase sempre sem consciência disso, porque isso não interessa ao poder político, e não sabe o que significam as letras. E o mesmo acontece com o IRS, o IRC, o IMI, os CTT, a EDP, a PT e por aí adiante.

Mas ainda sobre o PEC: pacto de estabilidade e crescimento. Para infelicidade nossa muita gente não sabe o que quer dizer pacto ou o que significa estabilidade e, para essa situação, mais e melhor do que ninguém têm contribuído os sucessivos governos. Que não cumpriram connosco nenhum pacto e nos não deram nenhuma estabilidade. Quanto a crescimento pensa-se sempre que é o dos filhos ou o dos netos, dependendo da idade.

Os políticos, benza-os Deus, também pouco mais sabem do que nós sobre o assunto, mas depois de uma cena ainda por explicar que a Dra Manuela fez algures, em relação a franceses e alemães, falaram na necessidade de reformular o PEC, de matar o PEC, de extirpar – não foi o Dr Soares pai – a estupidez do PEC. Para o governo, sempre coerente e sem nenhuma ideia, como o Dr Portas ainda a recuperar da depressão da Moderna, a culpa já vem de longe como a fama do brandy Constantino. E é toda do anterior governo do despesista Guterres que fez e desfez, colocou “boys” onde deveria ter apenas colocado bois e que depois fugiu quando o Dr. Fernando Gomes perdeu a Câmara do Porto. Para a oposição, que aguarda ainda as explicações da Dra Manuela quanto à tal cena, a posição é clara, transparente e mais do que coerente. Mas sem a mínima ideia, ainda mais do que combalida com a cena da prisão do Dr Pedroso e do seu regresso em ombros ao parlamento como se tivesse acabado de matar dois touros em Barrancos. Diz que o governo afunda o país, corroi a economia familiar, vende o património ao desbarato, combate os árabes no Iraque e cede-lhes as dívidas ao Estado por um quarto do valor. E quanto ao PEC, afirma, o governo vai a reboque do PS!

E assim, de repente, se vê o Dr Ferro, chefe da oposição e pai de família, transformado em piloto dos rebocadores que auxiliam os navios a atracar na doca de Leixões, nos dias tempestuosos de invernia. Agora a nós, o que nos preocupa mesmo, é essa do reboque. Então se nós temos um governo de merda – com vossa licença – e uma oposição de merda – também com vossa licença – o que acabará por resultar do reboque do primeiro pelo segundo? Desculpem mais uma vez, mas achamos – ainda com vossa licença - que é merda a mais!

Publicado por LFV em 12:04 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 06, 2003

O Dr. Santana vai acabar a tomar Prozac

O Dr Santana anda numa perfeita obsessão com a mera possibilidade de vir a ser candidato a Belém, daqui a dois anos. O que ele mais gosta na vida é de ser candidato a qualquer coisa, nem que seja a convidado às festas da D. Lili Caneças ou do toino do Zé Castelo Branco. Já foi candidato a dirigente partidário, a autarca, a governante, a dirigente desportivo, a presidente dos bombeiros, a advogado, a catequista, eu sei lá. Creio mesmo que se algum jornalista mais competente lhe perguntasse o que sentia quando era nomeado candidato ele haveria de responder como o Sr. Fernando Gomes que foi camisola nove do Futebol Clube do Porto quando marcava um golo na baliza do adversário: sinto-me como se tivesse um orgasmo, no tempo certo, sem sinais de nenhuma precocidade.

Mas com a obsessão o homem nem dorme. Nem à força de se deitar tarde, depois da passagem pelas docas para se distrair a ver se Morfeu se lembra dele, nem sequer dos comprimidos para dormir, de que não digo o nome por causa da publicidade, não vá o Paulo Querido chatear-se comigo. E o pouco que dorme é um sono inquieto e sobressaltado, cheio de pesadelos, como se no dia anterior tivesse lixado todos os orgãos de soberania, incluindo o juiz Rui Teixeira. Acorda encharcado em suores frios, – pudera, estamos a chegar ao inverno! – os pés de tamanho quarenta e três destapados, aos gritos e com um medo pavoroso do escuro. Invariavelmente ergue-se da cama com lentidão, calça uns chinelos de cetim que são ainda lembrança de outros carnavais e esfregando a ramela dos olhos vai à casa de banho para verter águas. Dá um peido, curto e abafado, quase mudo, por causa da dignidade dos seus cargos e das suas ambições e regressa a vale de lençóis.

Já chegou a acordar julgando-se moço de forcados, em plena praça do Campo Pequeno, citando o touro indeciso e renitente, com as bandarilhas cravadas no lombo e o coiro a escorrer sangue. A imaginar-se a dar a volta de honra, acompanhando lado a lado o Sr. João Moura e a entregar-lhe os ramos de orquídeas que as solteironas de meia idade vão arremessando para a arena. E este, magnânimo, a dar-lhe a ele, de quando em vez, um ramito mais raquítico, mais velho e mais barato, para que sinta a honra com sendo também sua. Depois do touro o ter ensanguentado todo, o ter derrotado por três vezes, forçado a saltar a trincheira por duas e rasgado as calças todas no cu, sem prejuízo deste graças a Deus. Depois lembra-se que afinal é presidente da câmara a tempo parcial, que a praça até está encerrada por causa do major Otelo e que o terreno dava para fazer um edifício maior do que o da Caixa Geral de Depósitos. A vender a mais de quatrocentos contos o metro quadrado era uma fortuna, para o bolso dos mestres de obras e para a retoma económica da Dra Manuela Leite. Com o projecto contratado sem concurso com aquele sabido daquele arquitecto americano que vai transformar o Parque Mayer nos jardins suspensos da Babilónia.

Repete a cada instante que o futuro a Deus pertence e que Belém, à beira-rio, ainda vem longe. Nada de precipitações, tenho um compromisso com a cidade de Lisboa, outro com a SIC, outro com A Bola, além do resto que são ninharias. Quem lá está pode falar inglês muito bem, mas eu também me entendi com o arquitecto americano à primeira e sem intérprete e fizemos o negócio. Candidatos, a seu tempo se verá e eu não digo que não seja um deles. Quem já disse que não era foi o professor Marcelo, convém não o esquecer, não vá ele dar o dito por não dito. Quanto ao professor Cavaco, ainda não disse nada, é homem de ir fazer a rodagem ao carro novo sem destino e sem propósito. E depois pode ser o que já se viu, fica-se por ali, muda de carro três a quatro vezes e os outros que lhes façam as rodagens!

Publicado por LFV em 07:30 PM | Comentários (2) | TrackBack

Olhem pela vida do Sr. Secretário de Estado!

O Sr. José Cesário é Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, parece. Parece ainda que também já o era na altura daquele ministro que se demitiu ao sétimo dia, como se se julgasse Deus ou, pelo menos, entendesse dever descansar e de cujo nome me não recordo. Mas sei que tinha uma filha de dezoito aninhos, candidata a um lugar numa das faculdades de medicina do país que, ingenuamente e sem querer, dirigiu um requerimento a outro ministro qualquer a solicitar que o mesmo fizesse apenas justiça sobre um qualquer assunto sem importância. Deste último ministro recordo apenas que foi mais lesto a demitir-se, a tempo ainda de comprar um cachecol nas imediações do Alvalade XXI, de o por ao pescoço e de correr para o aeroporto da Portela a apanhar o avião que levaria o Sporting para a Suécia. Apenas o fez para esquecer, como quem bebe!

No meio de todo o imbróglio de que o caso se revestiu – injustificada e injustamente, nem era preciso estar aqui a dizê-lo! – o Sr. Secretário de Estado comportou-se com a maior dignidade e foi fiel ao seu dono. Em intervenções públicas afirmou e repetiu que o senhor seu ministro nada tivera a ver com o caso e que de nada sabia. Que, se o viesse a saber, como acontece com outras circunstâncias na vida, seria sempre o último. A iniciativa fora sua, assumia-a, era uma pessoa de bem que tinha a verdade em muito alto pedestal, não valia a pena estarem agora a tentar descobrir o caminho marítimo para a Índia. O país, pouco acostumado a tais comportamentos, pasmou. Pasmou, não parou! Porque parado está ele nem se sabe já desde quando, faltava agora ainda saber como voltar a pô-lo a andar.

Agora uma qualquer comissão parlamentar – sim, e para lamentar também! – convocou o Sr. Secretário de Estado para que se explicasse, como se disso dependesse o futuro dos nossos filhos, a fortuna do Sr. Champallimaud ou a qualificação para o mundial de 2006. O dono do Sr. José Cesário mudou entretanto, como se depreende um pouco atrás, por força das circunstâncias e do despacho de exoneração. E ele, arguto e de decisão rápida como o Sr. José Mourinho, – embora barbeado e com o nó da gravata feito como deve ser – mudou imediatamente de estratégia. Não senhor, não era homem de fazer nada ao arrepio de quem hierarquicamente lhe estava acima. O senhor ministro sempre soubera de tudo, dera-lhe até as instruções todas, muito sintéticas, escritas num guardanapo de papel enquanto tomavam uma bica apressada num gabinete das Necessidades. Do palácio, do palácio, nada de más e segundas intenções!

É óbvio que o país tem de olhar pela vida de um cidadão deste calibre, desinteressadamente ao serviço do bem comum. Porque ele tem família e até filhos em idade escolar e, com os tempos que correm, é preciso tirar um curso. Até o engenheiro Fernando Santos teve de o fazer e, mesmo assim, nem sequer ainda fixou o nome dos turcos que chegaram a Lisboa e lhe enfiaram três secos. Ainda por cima em cinco minutos! Mas, quanto ao curso, nada lhe pode garantir que aos dezoito anos os seus filhos tenham o discernimento que, com a mesma idade, teve a filha do ministro, mesmo sem querer, para fazerem requerimentos aos ministros que, na altura, estiverem dentro do prazo de validade. Então melhor será tratar dele agora e, por provas dadas, promovê-lo a ministro. Tem currículo e tem perfil, mesmo quando se mira ao espelho de frente. É um homem completo, capaz de mentir em campanha eleitoral ou fora dela. Na condição de autarca, de deputado ou de governante. De inverno ou de verão, sem esquecer as estações intermédias em que é igualmente eficaz. Nos comícios do partido ou nas manifestações do 10 de Junho. Nos concertos dos Madredeus ou na final do Euro 2004. Dentro ou fora de casa, quer chova ou faça sol. Mas não digam nada ao Dr. Alberto João para que este não tenha ciúmes e se não meta na poncha. Também para esquecer!

Publicado por LFV em 04:31 PM | Comentários (0) | TrackBack

É melhor o Dr Barroso ir visitar o pároco

Um “spot” publicitário que ultimamente passa com frequência nesta emissora apresenta-nos o Dr. Durão Barroso, do alto do seu convencimento e das profundezas do seu sono, a afirmar: “como diz a minha mãe, durmo como um anjinho”. Que o mesmo é dizer sem preocupações e sem necessidade de se levantar a meio da noite por qualquer incontinência da bexiga.

O Dr. Barroso fez o seu tirocínio para político na escola de formação profissional que, creio que com a ajuda de fundos comunitários, era mantida em funcionamento pela grande educador da classe operária, camarada Arnaldo Matos. Não vem mal ao mundo que tenha frequentado aquela escola que, como se sabe, apenas era acessível aos filhos das famílias de operários com posses. Como ele por lá passaram outras figuras muito ilustres da sociedade dos dias de hoje que bem aproveitaram os ensinamentos dos mestres. Lembremo-nos, por exemplo, do Dr. Pacheco Pereira que sabe de todos os assuntos e que, só do Dr. Álvaro Cunhal, sabe o equivalente a três livros de quinhentas páginas cada um. Consta que sabe mais do que alguma vez soube o próprio Dr. Cunhal, que se tem na conta de sempre ter sido um homem estudioso.

Mas não seria mau de todo que o Dr. Barroso um dia destes, talvez pelo fim da tarde quando há mais tempo livre e o pároco da sua freguesia estará certamente menos ocupado com as confissões dos fiéis, lá desse um salto e lhe fizesse uma visita. Porque realmente para lhe dizer que Deus nem sequer dorme – quanto mais como um anjinho! – não é preciso ir pedir ao Sr. D. José Policarpo que o receba.

Publicado por LFV em 12:32 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 05, 2003

Uma adivinha difícil

A proposta que faço é simples e linear. Limito-me a transcrever uma muito curta meia dúzia de palavras que alguém pronunciou. De seguida apenas convido a que, como se faz regra geral por estes lados, arrisquem adivinhar quem foi a personalidade que as proferiu:

A - Dr Paulo Portas
B - Dr Vale e Azevedo
C - Dr Marques Mendes
D - Sr Luís Filipe Vieira
E - Dr António Costa
F - Sr Pinto da Costa
G - Dra Odete Santos
H - D Januário Torgal Ferreira
I - Dr Francisco Louçã
J - Dr Gilberto Madail
L - D José Policarpo
M - Dr Santana Lopes
N - Dr Rui Rio
O - Sr Ernesto "Che" Guevara
P - Sr George W. Bush
Q - Sr Jacques Chirac
R - Sr Tony Blair
S - Dr Durão Barroso
T - Sr Luís Figo
U - Sr José Maria Aznar
V - Sr Zinedine Zidane
X - Sr Narciso Miranda
Z - D Armindo Lopes Coelho

Agora, a transcrição:

O fosso entre ricos e pobres aumentou, a classe média está de rastos. Há um desassossego no campo educativo, na Saúde, uma situação geral de miséria, desemprego e tristeza.

Bem, a escolha é difícil porque intencionalmente utilizei todas as letras do nosso alfabeto que - sem que eu o perceba! - continua legalmente a excluir o K, o Y e o W. Quem eventualmente deparar com dificuldades inesperadas, pode consultar a edição de hoje deste jornal, na sua página oito.

Publicado por LFV em 05:50 PM | Comentários (0) | TrackBack

Albert Camus

Desde os tempos em que era jovem – que ainda sou, embora menos! – que mantenho uma estranha e indefectível relação com tudo o que diga respeito a Camus, como se este fosse um mito. Falar disso é, naturalmente, falar de mim e invadir a minha privacidade, revelar algo do que mais me emociona. Não vou esquadrinhar aqui as pequenas e grandes razões porque isso acontece. Tanto mais que não seria capaz de as enumerar todas e, por isso, não valeria a pena fazê-lo.

Mas é-me particularmente grato chegar aqui hoje e deparar com este apontamento. Só isso justificaria que fosse diariamente regressando ao “blog”, como vai justificar. Ainda há dias atrás – a 19 de Novembro, precisamente – transcrevi neste modesto “blog” uma curta carta que no mesmo dia, em 1957, Albert Camus, acabado de ser galardoado com o Prémio Nobel, escreveu ao seu antigo professor primário. Uma preciosidade! Não precisava nem eu nem tão pouco o meu país que as personalidades com a projecção mediática mais sustentada que a dos concorrentes do Big Brother tivessem, por sistema e por conduta, tal e tamanha dose de humildade. Mas que tivessem ao menos alguma que pudesse dar-lhes os sinais particulares de pessoas normais.

Algum tempo antes, em mensagem dirigida ao Dr Pacheco Pereira – que pessoalmente não conheço e que, pela sua parte, estou certo disso, apenas me não conhece por falta de agenda! - no seguimento de alguma referência sua a Camus, dei o meu apoio – simples e naturalmente irrelevante! – para que fossem reeditados os Cadernos. Nem que fosse de novo pela editora Livros do Brasil, já responsável pela única edição que conheço, numa colecção de bolso do seu catálogo. De muitas, boas e saudosas memórias!

Publicado por LFV em 02:54 PM | Comentários (1) | TrackBack

Que raio fazem eles aos passageiros?

Ouço às primeiras horas desta manhã, com uma luzinha ténue ainda mal despontando a oriente e quando estremunhado pelo som polifónico e irritante do despertador me esforço por de facto acordar, que os cacilheiros perdem, diariamente, seis mil passageiros. Primeiro fico na dúvida se terei percebido bem ou se, pouco mais acordado do que eu, o leitor da notícia terá realmente lido o que estava escrito.

Depois, como se sabe, o sono distorce a realidade e fomenta a imaginação subconsciente. Acabo por mais absurdo que possa parecer a concluir que esses seis mil passageiros são perdidos no percurso entre as duas margens. Tanta gente, como pode isso acontecer? Em cada dia um pavilhão do Atlântico cheio, como em dia de concerto dos Rolling Stones, e sem ninguém dar por isso a não ser a empresa concessionária. Tanta gente caída à água, mesmo sem coletes de salvação, haveria de deixar a boiar objectos desinteressantes de uso pessoal. Alguns haveriam ainda de dar um último grito, esbracejar, estender as mãos para o Cristo Rei numa súplica derradeira. Esquisito ainda que as famílias se não queixem e que os corpos, mesmo rapidamente levados pela voragem da corrente do rio, não venham depois a dar à costa para os lados da Ericeira. Nada!

Um pouco mais desperto, que não de todo, dou por mim a pensar que o desemprego é como o sofrimento dos pobres: não para de crescer. E quero acreditar que os desempregados não precisam de transporte que os leve ao local de trabalho, para mal já estão onde estão. Ficam em casa. A concessionária é que não demorará a queixar-se da crise, da diminuição das receitas, da inevitabilidade de despedir pessoal e da necessidade de apoios e de subsídios. Nessa altura, vigilantemente atentos, lá estarão nos seus postos o Dr Bagão Félix e a Dra Manuela Leite. Para sancionarem as disposições que permitam os despedimentos e as que facilitem a concessão dos subsídios reclamados. Tudo a bem do interesse nacional, de que tanto falam os nossos governantes.

Publicado por LFV em 10:02 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 04, 2003

Os autarcas do norte não brincam em serviço

O JN de hoje noticia que a Procuradoria Geral da República, consultada sobre o assunto, se pronunciou contra o facto de diversos autarcas da Área Metropolitana do Porto virem a acumular os vencimentos como presidentes de câmara e como administradores do Metro do Porto. Uma das coisas que mais admiro na nossa condição de portugueses é a permanente capacidade de encaixe e a improbabilidade de nos espantarmos seja com o que for. E quando isso acontece, quando alguém depois de esgotada a resistência à pantomina acaba por se irritar tem de fazer como o Dr Soares pai e invocar o seu direito à indignação.

A situação hoje noticiada, mais do que grave, é absolutamente trágica para os autarcas envolvidos e para as suas famílias que veem o seu chefe privado de parte dos seus honestos rendimentos, absolutamente essenciais para garantia da subsistência, para a criação dos netos e para o aumento dos índices de natalidade. Temo que todos, ou a maioria deles, se vejam forçados a encolher-se nas despesas com as comezainas da quadra de Natal e, por via disso, a conformarem-se com bacalhau do tipo económico, couves e batatas oferecidas por algum munícipe mais consciente dos problemas sociais, um vinhito de garrafão já encetado há mais de duas semanas e umas rabanadas feitas com pão duro, regadas ligeiramente com umas gotas de vinho do Porto, já com depósito criado no fundo da garrafa.

Por mais que a dignidade das funções exercidas o aconselhasse, alguns deles dificilmente conseguiram suster a lagrimita furtiva e não impediram que a voz se lhes embargasse como se, em plena fase de campanha eleitoral, visitassem o mercado do Bolhão ou a lota de Matosinhos. Muito teria aprendido com eles o Dr Paulo Portas quando, frequentando mercados, peixarias e quermesses, fez o seu tirocínio para o alto cargo a que entretanto chegou. Mas, honra lhes seja feita, todos se explicaram, sem evasivas, sem reticências, sem subterfúgios. Com o mesmo pragmatismo que nos leva a andarmos, mais de vinte anos passados, a nomear comissões parlamentares de inquérito para investigarem o desastre de Camarate e a concluir que as mesmas não são isentas. Ou a postarmo-nos ao lado da Torre de Belém, mirando atentamente a bruma nevoenta que entra pelo rio acima, esperando que ela nos devolva o nosso adorado el-rei D. Sebastião.

Todos, sem excepção, se puseram à disposição dos jornalistas, propondo-se responder a todas as questões, mesmo às mais embaraçosas. E sabe-se como se embaraçam sozinhos e frequentemente alguns jornalistas a quem atribuem estas tarefas, que nem sabem o que perguntam. Quanto mais o interlocutor saber o que responder-lhes, a não ser que o metro é a décima milionésima parte do comprimento de um quarto do meridiano terrestre. O Sr major Loureiro descartou-se com facilidade, como sempre. Não sabe quanto ganha na Câmara, no Metro sabe que é mal pago porque ganha menos que o Dr. Oliveira Marques, no Boavista limita-se a ser, paternalmente, consultor do respectivo presidente e quanto à Liga de futebol é como sabem, aplicou três jogos de castigo ao Deco por dar a cheirar uma chuteira ao árbitro. Quanto ganha? Ora essa! Isso é assunto particular, não tem nada a ver!

O engenheiro de Vila do Conde foi rápido e sintético. Disse o que ganhava num lado, o que recebia do outro e que estava tudo na declaração do IRS. Havia ainda uma lojeca que nem sabe se dá lucro, é um entretenimento da mulher, portanto desconhece. Baralhou toda a gente que ficou a interrogar-se de esferográfica apontada: terá este tão despachadamente dito tudo?

O Dr Rio manteve a postura, assegurou que os acessos ao estádio do Dragão estarão prontos a tempo do Euro 2004 e minimizou o facto de não ter sido convidado pelo Sr Pinto da Costa para o espectáculo do Sr Luís de Matos. Mas que não se importava, já tinha estado em Nova Iorque e já tinha visto o David Copperfield e, ao pé deste. O Sr Matos é um aprendiz. Ah!, sim, quanto à acumulação de vencimentos, aos costumes disse nada e repetiu continuadamente em resposta a todas as perguntas que lhe formularam: cumpro rigorosamente a lei.

O Sr Narciso Miranda é um homem muito ocupado, com muitas questões, há muitos anos. O seu paradeiro é sempre incerto e consta mesmo que não pernoita duas noites seguidas no mesmo sítio, seguindo os conselhos que em oito dias de férias em Varadero lhe deu o experiente Fidel Castro. Não foi por isso possível contactá-lo e o facto foi agravado pela necessidade que teve de acompanhar ao hospital um familiar em dificuldades. Não se sabia, infelizmente, é de que hospital se tratava. Constrangidos os jornalistas limitaram-se a deixar os seus melhores votos de rápidas melhoras.

Por mim, começo finalmente a perceber porque razão os pilha-galinhas e os ladrões de carteiras são presos e de seguida soltos. São já conhecidos dos tribunais e quando são submetidos a interrogatório são tratados familiarmente, como da casa. Dão-lhe bons conselhos, – à custa dos quais eles não conseguem sobreviver! – fornecem-lhes agasalhos para o frio da noite, uma sopa quente para conforto do estômago. Se calhar, até um café e um cigarrito para a viagem de regresso e mandam-nos em paz com a recomendação de que tenham juízo. Só não percebo é que esses miseráveis, essa escória, esses marginais se abespinhem todos e se ofendam quando a gente lhas chama ladrões!

Publicado por LFV em 03:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

O bailinho do Dr Alberto João pode continuar

No Funchal, nas Caraíbas ou nas colónias madeirenses espalhadas pela América do Norte, pode o impagável Dr Alberto João deixar de tomar calmantes e passar a dormir descansado, como um anjinho sapudo e sem asas. Pode dar ordem imediata para que continuem os arranjos e as iluminações para a época de Natal e de fim de ano. Pode recomendar que prossiga a preparação dos corsos de entrudo, preparando fantasias e carros alegóricos. Pode antecipar a campanha para as eleições que vai ganhar no próximo ano, como vem acontecendo desde há um século e preparar os festejos de comemoração. Pode mesmo, com antecedência, recomendar que ampliem o espaço e aumentem o número de barracas para a festa anual do Chão de Lagoa. E não se esqueçam, já agora, da quantidade de poncha que vai estar à disposição dos romeiros e peregrinos.

Por mim fico também bem mais tranquilo com a satisfação dos desejos do Dr alberto João, porque é certo que se acalmará. E toda a gente sabe que aquilo é homem do tipo “vocês agarrem-me senão eu faço-os já todos em merda!” que, naturalmente, se não quer irritado de maneira nenhuma. Porque, por mais que uma vez ameaçou já começar pelo Ministro da República – óbvio resquício da presença colonial e imperialista que persiste na exploração do pobre gentio – para depois viajar para a potência colonizadora, utilizando um voo que, para variar e agravar os resultados de exploração da TAP, seja subsidiado ou mesmo gratuito. E sempre receei que chegado ao aeroporto da Portela ela possa apanhar facilmente um táxi – se conseguir entender-se com o motorista naquela língua esquisita que se fala no continente – e pôr-se no Terreiro do Paço em menos de quinze minutos.

Custo e pagamento da corrida de táxi à parte, seria uma desgraça como a que ocorreu com o terramoto de 1755. Se bem que nessa altura tivéssemos vivo o D. Sebastião José que, rapidamente, decidiu tratar dos feridos, enterrar os mortos e reconstruir a cidade a partir dos escombros. E agora, nos tempos que correm, quem o faria? Ele, o próprio Dr Alberto João, feito trolha, emigrando para a odiada potência colonizadora, abdicando da sua condição de régulo e de todas as mordomias com que o cargo é distinguido, incluindo as provas recorrentes de poncha e de banana? Ora, deixem-se de utopias, já parecem os seis milhões de benfiquistas a pensar na vitória na superliga deste ano. Os gajos de cá? Limitar-se-iam a perder os concursos públicos – se algum chegasse a ser realizado, já se vê! – para os espanhóis, como já vem sendo habitual. Mesmo depois do empenho que o Dr Jorge Sampaio teve o cuidado de demonstrar a D. Juan Carlos. Quanto ao engenheiro Duarte Pacheco, como sabem, hoje não passa de um viaduto em obras, com um cartaz do Dr Santana espetado por cima. Porque o engenheiro morreu há muito!

Publicado por LFV em 11:54 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 03, 2003

Para que serve um blog – 4

O tema é recorrente e volto a ele creio que aí pela quarta vez. Pelo menos duas delas foram para pendurar no placard utilidades ou usos que eu, dificilmente, teria descoberto ou sequer imaginado sozinho. É diferente desta vez.

Ontem, passeando-me por aí, ao encontro e à cusquice de outros blogs – o que muito chatearia alguém da nossa doméstica blogosfera – mas que eu entendo ser perfeitamente normal, fui ter a terras de Santa Cruz onde, no ano de 1500 DC foi aportar Cabral, julgando estar a caminho da Índia.

Deparei com coisas mais do que interessantes, para além da linguagem colorida e rítmica a que entretanto nos fomos habituando com as telenovelas importadas da Globo e com a MPB de Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, Elis Regina, Gilberto Gil – uma vénia, “seu” ministro! – Ney Matogrosso, Adriana Calcanhoto, Marisa Monte, etc e tal, por aí. Fui dar com páginas com um grafismo atraente, esteticamente agradáveis, tecnicamente bem idealizadas e melhor construídas. E, com correcção, fui deixando comentários aqui e ali, felicitando os autores que, supunha, gostariam sempre de saber que alguém do outro lado do mar os visitara e gostara do que vira e do que lera.

A atitude valeu-me a correspondência, tendo havido quem tivesse agradecido os meus comentários, visitado este desenxabido Placard e deixado, pelo seu lado, comentários exageradamente simpáticos para o merecimento.

Não resisto a transcrever um desses comentários, deixado por Eugénia, autora de diversos blogs, entre eles o Blog dos países, cuja visita vivamente recomendo pelo que tem, em minha opinião, de espectacular.

Oi Placard... E viva a internet que liga povos tão distantes! É verdade, somos irmãos mesmo e acredito que não só em PORTUGAL como no resto do mundo tem corno!! Acredito que em todos os países as coisas são parecidas, o que muda mesmo é a língua!!

Que bom receber sua visita e que bom que gostou do meu blog... Vim aqui ler o seu... notícias de outra terra... Interessante o posto da tal Inês te criticando... por aqui acontece muito isso e pior: há xingamentos, ofensas o que acho triste!! Na realidade escrevemos para nos distrair não é? e as pessoas acabam levando tudo a sério!

Notei algo interessante nos blogs portugueses... vcs não se identificam... porquê? Já observou que os brasileiros dizem idade, endereço e tudo mais? E também gostamos de usar figuras...

Ainda bem que não coloquei piadas de português no meu blog..vcs também fazem piadas de brasileiros?

TENHO VIZINHOS PORTUGUESES no meu prédio..abraços e felicidades.visite meu blog de países, é interessante...

A transcrição foi feita essencialmente pelo que referem os três últimos parágrafos. Em primeiro lugar o facto de, salvo poucas excepções, o “blogger” português deixar a sua identidade por detrás da cortina que dá para os bastidores e, quando muito, revelar o nome que se for figura pública faz com que o contador de visitas rode à velocidade das máquinas de moedas dos casinos. O resto, creio ser menos frequente. Depois o facto de gostarem de usar figuras, como diz Eugénia. Também nós gostamos ou, pelo menos, também eu gosto. Mas, para além dos conhecimentos rudimentares que me dificultam que o faça há ainda o equilíbrio estético, agradável à vista, que é preciso conseguir entre texto e imagens. Temos blogs muito bons em imagens mas que quase prescindem de texto e inversamente.

Quanto às piadas de português, claro que pode por à vontade. Pode ser que renovemos o nosso reportório. Nós, quando a imaginação dá para isso, também as pomos sobre brasileiros e hoje, deste lado do mar, são muitos. Não são já só jogadores de futebol de praia!

Publicado por LFV em 03:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

Camões: um soneto

Apenas porque, mesmo lendo hoje muito pouco, - com grande mágoa minha, acrescente-se! - a poesia continua a preencher-me um cantinho muito junto do coração. Depois porque Camões não é para discutir, em minha opinião. Foi, é e continuará por muito tempo a ser o maior de todos os grandes poetas que tivémos e que continuamos a ter. Finalmente porque, desde longa data este soneto é um dos que, pessoalmente, mais me sensibilizaram.

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mi[m] bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!

Seguindo um reparo, creio que do Sr Nelson de Matos, com que aliás estou inteiramente de acordo, no sentido de acautelar a forma e, neste caso, a própria grafia do poema, saliento ter este sido transcrito de Luís de Camões, Obra completa em um volume, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1988.

Publicado por LFV em 11:38 AM | Comentários (0) | TrackBack

O Dr José Lamego parte para o Iraque

Esta manhã, enquanto andava às voltas por casa, preparando-me para sair, ouvi que o Dr José Lamego, depois de hesitações, atrasos e adiamentos – a que, por vulgaridade, neste país chamamos burocracia – vai finalmente partir hoje para o Iraque. Para desempenhar não sei que funções e ao serviço não sei de que patrão porque, sinceramente, me não dei ao cuidado de o fixar.

Mais! Vi-o na RTP, com o ar distinto de quem não parte para ser nenhum homem-bomba, usando uma gravata de um vermelho berrante e aberrante ao pescoço. O que quase me deixava na dúvida se o seu benfiquismo não seria mesmo maior do que o do Dr Vale e Azevedo que foi, até hoje e que eu saiba, quem mais gostou do Benfica. Tanto que até da sua própria liberdade prescindiu para o servir. E parece não estar arrependido!

Mas quanto ao Dr. José Lamego ouvi-o, convicto, dizer que era socialista com muito orgulho e português por naturalidade, como consta do seu bilhete de identidade e do seu passaporte diplomático. E que, mesmo sendo o governo que temos tão ideologicamente socialista como o Dr. Paulo Portas, a hipótese lhe fora adiantada por um seu camarada. O que, de resto, não tem mesmo relevância nenhuma porque vai em funções do Estado.

Baqueei perante a miragem de ver o Dr. José Lamego partir do Cais das Colunas, como um tardio e modesto Marco Polo português, ao encontro do oriente misterioso e exótico de onde era também o Ali Bábá que fez as delícias da infância da minha geração. Mesmo que nunca tivesse sabido, de fonte segura como os jornalistas, se os quarenta ladrões também eram aborígenes ou se, ao invés, já eram mercenários.

Debalde. O Dr José Lamego vai partir da sala VIP do aeroporto internacional da Portela – o da Ota ainda não está pronto – para embarcar em classe executiva, com direito a manta para cobrir as pernas, mesa para ler as últimas do Big Brother – está fora da onda o Dr. José Lamego. Ainda não sabe que só a D. Teresa Guilherme é que continua a ver o Big Brother, enquanto não casa e o marido lhe não dá outros trabalhos domésticos – e bebidas gratuitas, incluindo Martin’s de 20 anos. Depois, à chegada, terá à sua disposição uma limusina com oito metros de comprimento, à prova de bala, com ar condicionado e chocolates Ferrero Rocher nas prateleiras das portas, conduzido por um motorista fardado à ocidental.

Publicado por LFV em 09:56 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 02, 2003

Dia mundial da luta contra a sida

A sida não é, infelizmente, uma doença que possa combater-se num dia. Ou, tão pouco, uma doença que baste recordar-se num dia por ano. Ou ainda, sequer, uma doença de que, intensa mas vagamente, se fale um dia por ano. É uma tragédia de que os poderes instituídos, como lhes convem, fazem por abstrair-se e passar ao lado. Não disponibilizando meios para a luta contra ela nem tão pouco para a sua divulgação e prevenção.

Hoje, depois de um dia mundial da luta contra a sida, mais um, surgem apontamentos que merecem reflexão, mais do que nunca.

Em Portugal o comissário nacional da luta contra a sida, Meliço Silvestre, confessa-se chocado pelo facto de um em cada sete portugueses acreditar que a sida se pode transmitir com um simples aperto de mão e considera o facto inadmissível. Mas o que de facto é inadmissível não é o choque do Sr comissário. O que é perfeitamente inadmissível são os resultados atingidos pelos serviços do Sr Comissário. Que dispuseram de meios financeiros – avultados ou não, é irrelevante – e não conseguiram ir mais longe do que assegurar a ignorância grotesca que agora nos chega ao conhecimento. E que nos não surpreende.

Enquanto vou redigindo este “post” vou ouvindo um “forum” mulheres na TSF com intervenção das ouvintes. Algumas dessas intervenções poderiam perfeitamente ter sido feitas por mulheres do século dezoito. Porque de facto podem emparceirar, sem nenhum prejuízo, com as que sobre o mesmo assunto teriam feito as contemporâneas do Sr Marquês de Pombal ou as beatas que acompanharam à missa o Dr Salazar que, como se sabe, viveu no século anterior ao do Marquês.

Publicado por LFV em 05:00 PM | Comentários (1) | TrackBack

Não suba o sapateiro além da chinela

Isto é um provérbio popular antigo que, como muitas coisas, tem vindo a cair progressivamente no esquecimento ou simplesmente a ser menosprezado. Na sociedade dos nossos dias toda a gente tem toda a informação ao seu dispôr, frequentemente já manipulada e outras vezes a granel, carecendo de tratamento adequado.

Nada é, regra geral, ingénuo e acidental. As televisões abrem os seus blocos noticiosos com aquilo que mais e melhor pode ajudar a vender os seus produtos. Na versão do Dr Rangel, detergentes ou presidentes da república, conforme a solicitação do cliente. Os jornais dramatizam os títulos garrafais que chamam à primeira página. Como, por exemplo: o Dr Portas quer o anticolonialismo fora da constituição. As emissoras de rádio fazem o mesmo e é um pequeno oásis de inteligência ouvir, por exemplo, os sinais do Sr Fernando Alves, na TSF. Não fosse, logo de seguida, poder aparecer-nos pela frente uma intervenção do Sr Jorge Perestrelo a dizer disparates sobre o Euro 2004, os estádios e o futebol em geral.

Verdade sim é que cada um sabe do que sabe e ninguém sabe de tudo. Neste momento, quando as expressões anglo-saxónicas nos entram pela vista e pelos ouvidos a cada instante, bem eu gostaria de saber como se manipula a estrutura do “template” deste “blog” para lhe dar um aspecto mais composto, inscrever-lhe alguns laços afectivos que entretanto fui criando por aqui, torná-lo um pouco mais atractivo para o meu próprio gosto.

Mas a intenção é uma coisa e a acção é outra. E começo por ter dificuldades em localizar as zonas em que devo introduzir as alterações e, quando ouso fazê-las, às vezes sai-me o tiro pela culatra e até me desaparece aquilo que já tinha. Como se fosse por milagre, sabendo eu que nem a Dra Manuela Leite é capaz deles, nos tempos que correm.

Por isso acabo a lembrar-me que deveria ter ficado quieto, que estava tão bem. Mas não se admirem com o que for aparecendo e desaparecendo. Apenas porque o inconformismo é mais forte do que eu e me empurra para diante. Uma, duas, dez vezes até conseguir chegar mais ou menos onde quero.

Publicado por LFV em 03:01 PM | Comentários (6) | TrackBack

dezembro 01, 2003

O Paulo Portas há-de mandar um ultimato ao Tony Blair e colonizar o mapa cor de rosa

Os jornais diários, que se presume serem noticiosos, às vezes trazem-nos notícias que até já esquecemos. O jornal do Sr. JMF – salvo seja, que creio que foi por causa disso que o Sr Vicente Silva se foi embora! – chama hoje à primeira página a posição assumida pelo Dr Portas sobre a constituição, não a dele que é de lingrinhas, mas a da república. E diz não ter vergonha - o que é facto por demais conhecido de todos, a começar pelo professor Marcelo – nem da história, nem do império e que, por isso, não quer que lhe imponham uma constituição anticolonialista.

Durante meses andámos todos descansados com os discursos do Dr Portas, a quem o caso Amostra tirava o sono e as palavras. E os grandes discursos do Dr Portas são feitos com ele calado, a pensar em automóveis da marca Jaguar, em tarefeiros pagos sem recibo e em despesas contabilizadas sem documentos. Durante esse período até as lotas ficaram descansadas e as estimadas peixeiras do mercado do Bolhão passaram a dizer menos de metade dos palavrões.

Mas o caso Moderna foi encerrado, – quer dizer, foi julgado porque está a anos-luz de se encerrar – a sentença foi lida, houve penas de prisão, uma das quais um bocado pesada para o currículo do rapaz - e o Dr Portas achou que tinha de novo campo aberto para divagar. Vai daí, apresentou-se no congresso da JP – que parece querer significar Juventude Popular – e desatou a falar furiosamente daquilo que não sabe, como político cuja carreira tem sido construída de esferográfica bic cristal no bolso a fazer contas, a desfazer acordos e a enterrar princípios.

E proclamou que tem orgulho na história de Portugal e que, sendo assim, porque lhe hão-de impor que o Estado seja anticolonislista? Eu não sabia, até hoje, que aquela referência era feita especificamente para arrastar pela sarjeta o orgulho do Dr Portas. E imagino como é que ele se deve ter sentido todos estes anos, com o orgulho igual à autoestima do Sr António Oliveira depois de ter perdido com a Coreia no mundial do ano passado. Haverá outros, mas grande parte da responsabilidade há-de pertencer ao professor Jorge Miranda que se não apercebeu da calamidade e não alertou ninguém para que pudesse ser corrigida. E o orgulho ferido do Dr Portas tem impedido o progresso do país mais do que as referências ao socialismo que o Dr Soares pai arquivou no baú de família, algures em Cortes, Leiria.

Enciclopédica é a sua afirmação “os angolanos, os moçambicanos e os timorenses nunca sentiram o racismo que houve noutros impérios”. É injusto o Dr Portas – o que, de resto, também não é novidade nenhuma – porque admite que os brasileiros, os caboverdianos, os guineenses, os sãotomenses e os indianos puderam sentir esse racismo. Mas sabemos que fala a experiência, o seu conhecimento de causa, o propósito dos seus antepassados de dilatarem a fé e o império, com a espada no mão direita e a cruz na esquerda.

Mas o que de facto apoquenta o Dr Portas não é o seu orgulho ferido pela referência ao anticolonialismo. Pelo contrário é a inibição que essa referência lhe acarreta de não poder colonizar o Iraque, como cabo de guerra do Dr Barroso. Mas acalme-se que isto de guerras é como as zangas das comadres: as verdades acabam sempre por vir ao de cima. E quando tal acontecer, aproveite. Mande um ultimato ao Sr Tony Blair sobre os territórios do mapa cor de rosa e avance. Comande uma esquadra que entre pelo Tamisa, instale tendas de campanha em Trafalgar Square, tome de assalto a residência real e explore o marfim da Namíbia e os diamantes de Kimberley. Nessa altura vai ver que sem necessidade de um só suspiro o Sr Aznar, borrado de medo, lhe terá já pedido que aceite Olivença de volta!

Publicado por LFV em 09:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

Está um lindo dia para atirar o Miguel de Vasconcelos pela janela

Foi assim, quase de repente. A chuva parou e um azul instantâneo, sem mácula, espalhou-se por cima das últimas folhas secas que ainda se prendem ao cruto dos plátanos. Muito amarelas, quase castanhas, resistem ao vento, à chuva, ao outono e às obras daquilo a que chamam metro e que, lentamente, vai minando a cidade por dentro. Abrupto um sol fresco caiu das entranhas desse azul, alto e inacessível, para se espelhar no piso molhado dos passeios e das ruas. Enquanto alguma água se mantinha empoçada nas sarjetas à espera que o fenómeno da evaporação a levasse de regresso.

É feriado nacional e pergunto porquê já que o jornal, na primeira página, o ignora. Dizem-me que é por ser um de Dezembro e, sem querer, fico desde logo a saber também qual a razão porque amanhã não é feriado. Mas de longe vem-me ligeira e ténue a memória de que isto tem a ver com o ano de 1640 e com o D. João IV de Bragança a quem proclamaram rei para que corresse com os espanhois. Devo provavelmente tê-lo ouvido ao professor Saraiva, num dos seus programas de televisão, e retive a história do Miguel de Vasconcelos escondido no armário, as portas fechadas e a respiração suspensa, na esperança de passar despercebido. Mas não passou. E olhando para as ruas sem carros – dia decretado pelo Dr Rio, sem propaganda, penso eu! – penso que está um lindo dia para atirar o Miguel de Vasconcelos pela janela.

Com sol e o céu limpo devemos todos correr a encher o largo do município, gritando palavras de ordem contra tantos Migueis de Vasconcelos que vamos ter que atirar à rua no dia de hoje. Mas impõe-nos o respeito por quem é da casa que aguardemos pelo Dr Santana que hoje, dia feriado, se levantará mais tarde. Certamente tomará o seu banho de imersão, com sais perfumados e hidratantes, ajeitará a barba e desfrizará um pouco o que lhe resta da sua carapinha europeia. Porá gravata e vestirá fato que a sua condição lhe não permite ir para a rua de gibão como se fosse um cigano das colónias do Sr Narciso Miranda.

Quando chegar ele mesmo tomará a iniciativa cedendo emocionalmente à multidão que se comprime e acotovela no largo todo, por debaixo da varanda. Gritará que a culpa é toda de quem esteve antes dele, que não pensou no túnel do marquês nem na reconversão do parque mayer. E regressará ao interior do edifício, abrindo todos os armários de todas as muitas salas, à procura do Dr Soares filho. Debalde, porque o não encontrará. Nem ele, pelo volume, caberia nos armários nem estes, pela carcomida idade, lhe suportariam o peso. Quando já for noite, se calhar, vão encontrá-lo bastante mais longe, escondendo-se a um canto de um pavilhão multiusos do Colégio Moderno. A essa hora já ninguém lhe fará mal!

Publicado por LFV em 02:26 PM | Comentários (1) | TrackBack