Espera, que eu já te digo. Não tarda nada e chega-se à conclusão de que o censo da população custou uma fortuna e não serviu para nada: não morava cá ninguém. Os contratados a recibo verde para recolherem os impressos andaram a entrevistar fantasmas e a terem miragens, com o deserto imenso que a ganza lhes abriu. Não houve nenhum D. Diniz, nem nenhuma rainha santa, nem nenhum pinhal. E, assim sendo, este nem sequer foi consumido pelos fogos de Verão, que também não houve. Vai dizer à D. Maria Pia que se equivocou, quando já estava morta, e não fundou coisa nenhuma.
Este é o canto do faz de conta, que ninguém faz e de que ninguém conta. Com que ninguém conta, também! Não há, não houve, nem haverá crianças, nem adolescentes, nem adultos. Soterrou-os a todos a violência de um sismo antes do Dr Monteiro o poder impedir por decreto, e com a inaudita violência de cinquenta Irões. Sem nenhum marquês à vista, mesmo sem neblina ou nevoeiro, que pudesse acorrer-lhes.
Se houvesse tudo isso ainda havíamos de querer ser um país e instituir uma sociedade civilizada, como ouvimos contar dos outros. Com um sistema de justiça e tudo, e é bem melhor que nem sequer ouçamos falar disso. Ainda acabamos a ter crianças que se aliam em tramoias para tomarem o poder, à base de mentiras diferentes das que proclamam aqueles que o exercem. Então é melhor não!
Lugar na assembleia não o conseguiu, estava a dotação completa e nem inscrições estavam abertas. Concurso só se esperava que pudesse ser aberto dois anos depois. Solicitou audiências, desdobrou-se em entrevistas, comprou papel de carta e começou a escrever sobre os assuntos que mais afligem a pátria. Ainda agora, sobre os terramotos, se antecipou a toda a gente, incluindo o Marquês de Pombal. E reclama que a assembleia realize com a maior urgência uma audição parlamentar sobre a prevenção de sismos. Sem demagogia, sem alarmismo, mas com tranquilidade e com sentido de prevenção do País, pensamos que é necessário começar a discutir como é que se evitam os danos das catástrofes naturais. E acrescenta existir forte probabilidade de ocorrência de um sismo na zona de Lisboa em virtude dos dois sismos do século XX não terem chegado para libertar a energia acumulada.
É assim mesmo, Dr. Monteiro! Vê-se que tem aproveitado o tempo do defeso. Certamente visitou o Instituto de Meteorologia e ter-se-á alistado numa corporação de bombeiros voluntários da linha. Agora é preciso de facto libertar toda a energia que se tem acumulado. E olhe que no parlamento se tem acumulado toda!
Hoje tranquilizo-me e olho confiante para a saída da barra como se as naus de novo partissem, velas tensas, prenhes de vento soprando de feição, ao encontro de tudo o que é bom e que, inevitavelmente, chegará em 2004 como o Dr Barroso teve o cuidado de ir anunciar à televisão depois da benção do Papa. Para tanto bastou o Bartoon de Luís Afonso na edição de hoje do Público.
Honra lhes seja feita ó eminências pardas da nossa imbecilidade política. As autarquias vos ergam estátuas nos largos fronteiros às sedes das câmaras e das juntas de freguesia. Os nossos poetas, passados, presentes e futuros vos cantem os nobres feitos em heroicos versos alexandrinos. Os deuses da fortuna derramem sobre vós as benesses merecidas em senhas de refeição, ajudas de custo e viagens de avião para o quinto dos infernos. A memória futura desta geração e das seguintes se não esqueça de quem foram realmente os responsáveis, com nomes em placas de bronze às esquinas das ruas. Porque de facto tem sido a Constituição a impedir o nosso progresso colectivo, apenas porque não é democrática. Tão pouco que até comunistas históricos a votaram, e para a aprovarem. E pasmem, bastardos descendentes do luso Viriato, até o Sr. Acácio Barreiros a votou, levantando o cu da cadeira e erguendo o braço com a mão fechada.
Vai, felizmente, ficar tudo resolvido agora. Substituir a "igualdade de direitos" pela "equidade" vai ser o definitivo salto em frente. Ninguém mais vai parar este Portugal em acção. A Europa que não pense em mais acordos sem que tenhamos a mesma representatividade dos maiores. Já adivinho a redimensionada eloquência dos Drs. Pacheco Pereira e Graça Moura nas tribunas de Estrasburgo. E adivinho a renovada atenção daquelas centenas de europeus convictos, sentados, a abanar aprovadoramente as cabeças. Só não diviso o Dr Soares pai, cujo mandato chegou ao fim e não está presente. E que estivesse, está velho e meio surdo, já não ouve bem!
Um dos casais exemplares é, sem sombra de dúvida, o constituído pelo benfiquista Fernando Seara e pela jornalista Judite de Sousa. Que se casaram, segundo constou, numa festa de arromba que apenas se não pode comparar ao casamento da Tchizé dos Santos porque ele é presidente de câmara e o tal Dos Santos presidente de Angola. Se isso já não fosse suficiente, não consta que em Sintra haja jazigos de petróleo porque o pouco que até hoje foi descoberto, foi-o no Beato, por Raúl Solnado, e a exploração veio a revelar-se excessivamente dispendiosa e mais deficitária do que o orçamento do Estado. Antes de todas as operações de sofisticada cosmética a que foi submetido.
Mas o casal equilibrou, por exemplo, a densidade e o comprimento dos cabelos. O dele, embora basto, era demasiado curto. Ao invés ela, não o tendo tão farto tinha-o excessivamente longo porque algum assessor brasileiro de marketing a tinha convencido de que assim é que as câmaras a beneficiavam mais. Ela ensinou-o a olhar para as câmaras enquanto dizia mal dos árbitros, parecendo que falava a sério, e disse-lhe como instruir as maquilhadoras para que o besuntassem menos, antes de entrar em estúdio. Grato, sendo ela já jornalista, - com tendências ditatoriais que a levam, muitas vezes, a não deixar que os seus convidados falem - ele ensinou-lhe o que era ser benfiquista, como cantava o Luís Piçarra. Com ele aprendeu que o futebol era um jogo, disputado por duas equipas, num rectângulo usualmente coberto por erva, controlado por um juiz a que se chama árbitro. E que este era invariavelmente bom quando a nossa equipa ganha e muito mais do que ladrão sempre que ela perde.
Vai daí, a D. Judite sentiu-se segura de si e confiante. A acrescer à carteira profissional tinha adquirido conhecimentos futebolísticos. Dois passos à frente e estava a escrever para jornais desportivos. Sempre que a bola entra na baliza é golo, sempre que passa ao lado, não é. E não tardou que se pronunciasse com seriedade e com conhecimento de causa sobre o futebol: "O futebol está como a economia. Ou seja, está mal. Está em recessão".
Ficam duas possibilidades de interpretação: ou a tomamos a sério e damos crédito ao que afirma, ou a achamos uma ignorante que em casa se devia entreter a arrumar as meias do Fernando porque não sabe do que fala. Pela primeira via. Foi preciso esta mulher sacrificar parte do seu muito ocupado tempo, prescindir de merecidos momentos de descanso em companhia do marido, programar a vida a dois, o nascimento e a educação dos filhos, ouvir provavelmente raspanetes do ser director na TV de serviço público - soa bem, não soa? - para que o país soubesse que o futebol está como está. Porque isso nunca passou pela cabeça de ninguém. Os clubes continuam a apresentar vultuosos lucros - não são como a generalidade dos empresários - a fazer contratações milionárias, a pagar salários muito acima do salário mínimo, mesmo depois deste revisto, a construir estádios novos às dezenas e a manter permanentemente regularizadas as suas contas com o fisco. Para mútua e recíproca satisfação da ministra das finanças e do presidente da Câmara de Gondomar.
Pela segunda via. Então este estafermo de cabelos compridos, louros por causa das brancas irreverentes e precoces, trabalha na televisão e não presta atenção ao que ela passa? Quem vai acreditar no que ela diz? Ninguém faz a mínima ideia da experiência futebolística que terá e muito menos onde a terá adquirido, e não pense ela que basta um namoro com um adepto, mesmo ferrenho, para poder puxar dos galões. Qual recessão? Se no passado dia de Natal tivesse estado mais atenta, deixando de lado as rabanadas e o bolo-rei, teria reparado na pose familiar e tranquila - o sacana do meu irmão brasileiro outra vez! - do Dr Barroso. Descansado como se estivesse a dormir, seguramente com a mãe por detrás da câmara a babar-se e a repetir mentalmente: olha para ele, parece um anjo. A assegurar que já havia sinais, não sei é se eram os do Fernando Alves na TSF. E que estávamos a passar ao lado da recessão, que se via luz ao fundo do túnel, só não disse é se este tinha fundo. Mas pode muito bem ter porque o que não o tem é o do Terreiro do Paço, cheio de água até ao cais do Barreiro. E vem falar-nos em recessão no futebol! Qual recessão? Qual futebol?
Pinheiro de Azevedo foi, desde sempre, o homem que associei à temeridade que, noutros tempos, foram atribuídos a Humberto Delgado, a que atribuíram o apodo de general sem medo. Por um lado porque quando se viu sequestrado na Assembleia da República por uma horda de manifestantes se limitou a arregaçar as mangas, nem sequer perguntou quantos eram como usa fazer o major Valentim e proclamou em português que toda a gente percebe: bardamerda para a manifestação.
Depois nós temos fama de sermos um povo de brandos costumes e, como manda a etiqueta, de boas maneiras. Lemos os manuais da Paula Bobonne, batemos sempre à porta dos amigos, pedimos-lhes licença para entrar, recusamos sempre o copo que nos oferecem de primeira ou o lugar à mesa para que nos convidam quando os encontramos a jantar. Salientamos já termos feito o mesmo mas, se insistem connosco, como dizia José Rodrigues Miguéis, aceitamos e sobre o lastro que já trazíamos de casa, emborcamos mais um litro de vinho com a ajuda de uma sopa de feijão vermelho, um cozido à portuguesa e duas grossas fatias de pudim Abade de Priscos. Para, à saída, arrotarmos como uns alarves.
O almirante era diferente, nem era de meias palavras nem de meias medidas. Quanto ao empanzinanço, não sei! Publicamente declarou que não compreendia o diferendo que, penso eu, ainda mantemos com Espanha a propósito de Olivença. Pedia um fim de semana e um pelotão do exército para se por a caminho, atravessar a raia, içar a bandeira das quinas e proclamar de novo a soberania portuguesa sobre a localidade. Morreu sem que lhe dessem o pelotão e as armas necessárias, alguém o disse, por esses tempos, estavam em boas mãos. Mas não era nas dele! Talvez o nosso nacionalista ministro da defesa agora se decida, heroicamente, pelo ataque. Pela fresquinha, como manda a táctica militar tradicional, superiormente expendida em tratado pelo herói nacional Raúl Solnado, regressado vivo dos campos da Flandres.
Agora temos uma força da GNR no Iraque. Decidida a participação, a partida foi anunciada ene vezes e cancelada ene menos uma. Depois lá partiram, acompanhados de todos os jornalistas que não tinham montado a tenda à porta do estabelecimento prisional de Lisboa e que, por isso, estavam livres. Esperava-se que a viagem demorasse dez horas, acabou a demorar vinte e quatro, o equipamento foi o que se arranjou, os amigos italianos foram-lhes dispensando umas pastas para comer. Em vésperas do Natal tiveram a visita do ministro, anunciada como se o mesmo já preparasse o regresso quando ele dormia a sono solto, tranquilo com a segurança que a polícia lhe assegura à residência.
Depois de lá estarem há mais de um mês, de lhes ter faltado o bacalhau e as batatas para a consoada por erro do avião que se perdeu pelo caminho, foram recebidos, em Portugal, os primeiros três blindados de um total de vinte e um que hão-de equipar o contingente. A marca é, desde logo, elucidativa: Proteto! Entraram de imediato em testes e, segundo fonte da GNR, devem seguir para Nassíria nos próximos dias, acompanhados pelas novas espingardas HK G-36.
A mesma fonte, de acordo com o Correio da Manhã do dia 27, adianta com toda a objectividade: "As 21 viaturas vão seguir para o Iraque à medida que forem chegando. Primeiro serão estas três. Em Janeiro, devem chegar mais algumas e as restantes vão sendo fornecidas". E sobre as espingardas: "O cumprimento da missão não está de forma nenhuma em causa, mas o trabalho é facilitado com mais material disponível". Como sempre, como disse num "post" de ontem, em discordância com o editorial de um jornal diário, o país está sempre preparado para tudo. Para isto, está visto que também estava! De forma que o que fica, e não é pouco, é registar a eloquência intocável - quase me apetecia dizer eloquente! - da fonte da GNR.
Primeiro, quanto às fundações, que tempos houve em que proliferaram como cogumelos pelos pinhais, acompanhando as primeiras chuvas de Outono. Criadas por todo o bicho careta, sempre no propósito altruísta de perseguirem fins não lucrativos e muitas vezes mesmo de benemerência. Mas, quando falo de bichos caretas, não me refiro propriamente a associações de moradores, a associações de pais, a clubes de desempregados ou a adeptos do Salgueiros. Sempre gente graúda, de governantes a empresários, de futebolistas a professores catedráticos. As estatísticas dizem-me depois que os pobres são cada vez mais e mais pobres e que os ricos são cada vez menos e mais ricos. Linearmente concluo, sem pretensões de erudição, que as fundações não cumprem os seus objectivos. Até que aquele ex-ministro que é do Benfica e que esteve mesmo com um pé na administração da SAD - olha!, esqueci-me destas! - deitou tudo a perder com uma tal fundação para a segurança rodoviária e com os serviços atribuídos a amigos, sem concurso. De forma criativa, que é um eufemismo vago quanto chegue para classificar a vigarice.
Depois o mecenato e ainda não encontrei um sem abrigo - mesmo daqueles que segundo Nuno Santos, 36 anos, assessor de marketing, pai de um menino de três anos que frequenta o infantário Pom Pom, vizinho da instituição Coração da Cidade - que tenha sido mecenas fosse onde fosse, mesmo frequentando luxuosas festas com fados e guitarradas que perturbam o sossego da rua e partam em luxuosos automóveis de grande cilindrada, invetivando o Sr Nuno Santos e fazendo-lhe manguitos. O mecenato é sempre praticado por outros e com outros destinos. Qual seria o gozo de atribuir benefícios ao Coração da Cidade ou à Associação Espírita Migalha de Amor, cujos nomes não dizem nada, são perfeitamente indiferentes e irrelevantes e que, seguramente, os iriam estroinar a comprar nabos e grelos no mercado do Bolhão? Não promovem exposições em Serralves nem patrocinam concertos de Ano Novo na Praça de D. João I. Quanto à sopa, felizmente, todos a têm em casa, longe dos sovacos sem banho e sem desodorizante dos esfarrapados.
Por último o Sr Miguel Sousa Cintra. Tem sido esta manhã a notícia e que diabo, pelos esforços desenvolvidos nesse sentido já a merecia. Ao que dizem os jornais e as rádios foi ontem interceptado ao volante de um veículo todo o terreno, vulgo Jeep, de valor superior a 20.000 contos, equipado com sirene, quando a accionou para rapidamente ultrapassar algum daqueles condutores de domingo, com latas de merda e que não saiem da frente. Que, em boa verdade, até deveriam estar proíbidos de circular em vias rápidas. Acontece é que o jeep estava registado em nome dos bombeiros de Sacavém aos quais, de forma magnânina, o mesmo o tinha oferecido depois de utilizar algumas vantagens no acto de compra e de, por descuido, ainda o estar a usar ele próprio. Mas pagando o combustível, o seguro, a manutenção e as portagens, logo veio, solícito, esclarecer o respectivo comandante. Que até já tinha experimentado o veículo, excusando-se a revelar se o mesmo lhe agradara ou se pensava recusar a oferta do Sr Cintra.
Este Sr Cintra - não vá confundir-se com o outro! - não faz nada disto por questões de dinheiro, que é coisa que lhe sobra por tudo quanto é lado e disso, prodigamente, se vai gabando. Há ainda pouco tempo se recordarão de ter amealhado em bolsa uns saborosos tostões apenas por ter tido o fado de conhecer informação sobre uma empresa de que era administrador e de a ter utilizado, que ele não é burro. Foi considerado crime, foi julgado e condenado e nunca mais se soube nada. Nem da pena nem tão pouco dos tostões. Depois, de família, já lhe vinha a herança. Dono e senhor de todo e de tudo no Algarve, de barlavento a sotavento, incluindo minúsculos caracois apanhados a trepar ervas daninhas, como se fossem o professor Cavaco empoleirado num coqueiro de S. Tomé e Princípe. Como castigo pela invasão de propriedade, eram apanhados e enviados para Lisboa. Para a panela!
Que o nosso ministro do trabalho, com código e tudo, se convença disto desde já e que tenha a avisada prudência de, em conselho de ministros, dar disso conhecimento ao Dr Barroso. Que este tenha o bom senso e a visão política de avisar a Dra Manuela, de modo a que esta possa rever as suas previsões e avisar o sistema estatístico da União Europeia. Em 2004, por falta de tempo, vou produzir menos e os "posts" que aqui irei regularmente pendurando serão menos e mais curtos. O que, para os meus dois habituais visitantes diários, serão inestimáveis vantagens e poderão aproveitar o tempo que assim lhes sobre para produzirem mais enquanto tomam a bica.
Faço-o por manifesta falta de tempo quando sinto, dramaticamente, que estou a ficar desactualizado. Não basta a ninguém, muito menos a mim, limitar-se a ouvir as prédicas semanais do professor Marcelo, ao domingo à noite, e na segunda-feira de manhã sair para a rua como se soubesse de cor todos os resultados do futebol de fim de semana, incluindo os da segunda divisão B e do Braga. É preciso ir atrás da informação, ouvir e ler o muito que, a trinta mil pés de altitude, o Dr Pacheco Pereira entende que o país pensa sobre aquilo que ele prodigamente nos vai dizendo em diversas línguas. Como não tenho tido tempo para isso, tenho de descobri-lo. E, não sendo presidente de junta, vereador ou mesmo eurodeputado, tenho algumas dificuldades nisso.
Depois, mesmo que isso já seja um esforço que, se não fosse narcisista eu diria meritório, o Dr Pacheco Pereira não é tudo. Há que acrescentar-lhe o F, o Gato, o Homem. Ler jornais e revistas, incluindo o Correio da Manhã, a Nova Gente e a Maria. Ouvir programas radiofónicos, sem ser só o forum da Margarida Pinto Correia, que até me não é destinado. Visitar livrarias, manter-me a par dos últimos lançamentos e adquiri-los que os editores não mos vão mandar como fazem ao professor Marcelo.
Ler a Margarida Rebelo Pinto de que um dos últimos sucessos tem um título que não entendo: deve ser francês e deve ser uma maravilha. Nunca li nenhum livro dela - digo-o em surdina para que me não critiquem! - e, sendo assim, de que valeu que me tivessem obrigado a ler os Lusíadas, decorar sinónimos, dividir orações. A Paula Bobonne - acho que é assim, com duplo ene! - também nunca li, só a vi uma vez na televisão, distinta como ser ser uma senhora da linha, muito mais do que a maluca da Ana Bola.
Depois 2004 vai ser uma inundação, o Dr Barroso dirigiu-se a todos os pobrezinhos no dia de Natal e disse-lhes que já havia sinais e que ele tinha muita esperança que. Vai haver o Euro que o Sr Scolari já ganhou para nós, não vamos é ser indelicados e deixar as selecções que nos visitam, depois do trabalho que tiveram para se qualificar, a jogar sozinhas. Seria, no mínimo, indelicado e isso eu entendo mesmo sem a ajuda da Paula Bobonne - deve ser assim, com duplo ene!
Mas, mais do que isso, o Dr Santana anuncia a publicação de quatro livros para o decurso do mesmo ano. Aquilo é que é homem de trabalho, atira-se às tarefas e os resultados veem-se, não é como o D. Sebastião que nunca mais ganha a guerra e nunca mais regressa. Senão, vejam! Como continua afincadamente no percurso do seu destino - destino é um bocado fatalista, mas foi o que me ocorreu! - de fazer um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Apenas com uma limitação: sempre uma coisa de cada vez. Primeiro o filho. Destino mais que cumprido, por excesso, toda a gente sabe. Depois o livro: quatro - livros, seus maldosos! - assim de enfiada. Sobre a cultura, a Figueira, - fico na dúvida, não sei se será sobre a cultura da figueira! - o Sporting e o camartelo no Parque Mayer. Fica a faltar a árvore! Aspecto em que foi traído pelos ucranianos e moldavos que furam o túnel do Marquês que desataram a abatê-las por ali abaixo, tudo a eito. Que até eram ilegais, nem se lhes conhece a identidade!
Depois, como em tudo na vida, muitas delas agem e reagem à sua maneira, como na Bancada Central da TSF, linchando os árbitros, excomungando os adversários, beatificando os seus apaniguados. E assim é também no que respeita à política, à religião, à cidade, à vila ou à aldeia. Lamentavelmente! Porque o que seria admirável seria que se trocassem ideias de que o país está cada vez mais carente, em relação a tudo. Não se ouvem ideias novas seja onde for, seja sobre o que for. O país é um país distante, de tão vazio. E cada vez se distancia mais!
Por mim, para que não fiquem dúvidas, quero deixar bem claro que me não envolvo em discussões apaixonadas e desde logo estéreis e me não motivam propósitos políticos, religiosos, clubísticos, regionais, raciais ou de qualquer outra natureza. Gostaria, isso sim, de escalpelizar pelo riso, pelo sarcasmo e pela ironia a triste realidade com que nos confrontamos quotidianamente nos mais variados sectores. Falta-me naturalmente talento para tanto, mas nunca ninguém é aquilo que quer, mesmo depois de ser alguma coisa, que não é o meu caso.
Permito-me transcrever Eça e aquilo que escreveu em Maio de 1871 e que está disponível em Uma Campanha Alegre:
Assim vamos. E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa. Apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal! As nossas bandarilhas não têm cor, nem o branco da auriflama, nem o azul da blusa. Nunca poderão tão ligeiras Farpas ferir a grande artéria social: ficarão à epiderme. Dentro continuará a correr serenamente a matéria vital - sangue azul ou sangue vermelho, dissolução de guano ou extracto de salsaparrilha.
Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.
O prof. Marcelo não é para levar a sério. Ele uma vez também disse que só seria candidato à liderança do PSD se Cristo descesse à Terra. A verdade é que Cristo não desceu e ele avançou.
Pedro Adão e Silva, segundo o "site" do PS de Benfica, nasceu e Lisboa em 12 de Maio de 1974. Tem 29 anos de idade e é licenciado em sociologia. Do currículo disponível naquele "site" não constam quaisquer especiais estudos bíblicos. Tendo, segundo os crentes, Cristo descido à terra uns anos antes do seu nascimento, não admira que o mesmo se não recorde da data: ainda não tinha nascido!
Como contributo para a melhoria do nível médio da cultura geral da geração política em ascensão fica, por este meio, o professor Marcelo intimado a ler nos seus comentários dominicais os versículos bíblicos que esclareçam a situação e ilustrem o garboso sociólogo com currículo em construção.
Por uma vez, tinha que ser! Hoje, finalmente, o editorialista acaba por produzir uma peça que transborda de sarcasmo e de ironia. E isso, francamente, diverte-me, sendo certo que pretenciosamente acabo a pensar que o que me diverte a mim também diverte os outros. No seu dia a dia manifesta sempre uma intenção muito séria que termina, muitas vezes, por se não transformar numa muito séria intenção, depois da leitura. Simples questão da ordem da sementeira das palavras que não germinam ao gosto de quem paga mas de quem manda.
Mas a questão de hoje, levantando a hipótese - teórica, remota e impossível - de Portugal, este Portugalzinho colocado no extremo ocidental da Europa, com o cabo da Roca a pôr-se em pontas de pés reclamando os louros do triunfo, sofrer um sismo com a intensidade do que esbandalhou o Irão e sobre as possíveis consequências - teóricas, remotas e impossíveis - catastróficas, é para soltar à gargalhada. Então quem somos, de onde vimos, para onde vamos? Chegamos a esta altura do campeonato e temos dúvidas, é? As pessoas não atentam no humilde bom senso do Sr José Mourinho que repete insistentemente que o campeonato não está ganho, que há outros adversários na corrida, etc e tal e coisa. E só muda se por acaso um desses pretendentes disser que vai ele ganhar o campeonato para lhe retorquir: não ganhas, não ganhas, não ganhas!
Não faz naturalmente sentido perguntar seja a quem for se o país estaria preparado fosse para o que fosse, fosse quando fosse. O país, graças a Deus e aos orgãos de soberania, está sempre preparado para tudo. O português é conhecido nos quatro cantos do mundo como o campeão do desenrasca. Não se atrapalha por dá cá aquela palha e engendra sempre uma solução que é, muitas vezes, um primor de imaginação. Temos que ser fiéis ao nosso passado recente e recordarmo-nos dos bons exemplos que estão espalhados aí por todo o lado.
Centro Cultural de Belém: foi construído para nosso orgulho no cumprimento rigoroso dos padrões orçamentais impostos pelo professor de finanças públicas da Dra Manuela. Não houve desvios, não custou nem mais um cêntimo, - à altura eram centavos, embora caídos em desuso! - a comunidade internacional ainda hoje nos felicita pelo sucesso. Elogia-se-nos a preparação e o saber de experiência feito.
Expo 98: alguns anos depois o verdadeiro "know how" a vir de novo ao de cima, o mesmo sucesso, as mesmas felicitações, o mesmo enriquecimento para alguns mesmos bolsos. Desvios orçamentais, se os houve, sempre coisa ligeira, sem expressão, umas centenas de milhões, o que é isso comparado com o salário mínimo nacional, mesmo depois da última actualização? Ah!, essa dos barcos alugados para os turistas dormirem, os desvios irrisórios do tal guarda-livros da cooperativa. Ora, despeito e inveja, foi o que foi. O país encheu o peito de ar, respirou cagança, ainda hoje se congratula pela preparação e pelo saber de experiência feito.
O mundial de futebol da Coreia / Japão: mais um sucesso, a malta meteu nas malas de viagem os melhores fatos, as camisas mais garridas, centenas de camisolas com o nome do Luís Figo nas costas e o emblema das quinas colado à frente, bem sobre o sítio do coração, palpitante e eufórico. O presidente da república recebeu a comitiva - modesta, pouco mais de vinte jogadores e de oitenta burocratas, com o Dr Madail no comando - que lhe foi apresentar cumprimentos, o primeiro ministro foi lacónico mas imperativo: tragam a taça. Depois os Estados Unidos fizeram-nos meter no saco a guitarra portuguesa que leváramos e, de monco caído, os coreanos repatriaram-nos. Mas o país estava preparado para o caso de termos ganho e ainda hoje se nos enaltece o saber de experiência feito. Apenas se não sabe do Sr António Oliveira nem do cheque que, por desconhecer-lhe a nova morada, o Dr Madail teve de enviar-lhe para a posta restante.
Euro 2004: estamos já tão preparados que os dias se contam um a um. Faltam xis dias para a abertura, no estádio do Dragão. Até o Sr Pinto da Costa antecipou as coisas para estar completamente disponível na altura e, por isso, festeja hoje o seu 66.º aniversário. Parabéns! Vamos por diante, com sorte no sorteio, contra a Grécia. São favas contadas, a Grécia só já vai à nossa frente nessas histórias da União Europeia. No futebol? Isso é que era bom, estamos preparados, damos dois de partido, recrutámos um seleccionador que se propunha ganhar mundiais, quanto mais europeus, torneios regionais como se fosse em Arcos de Valdevez!
Agora essa do terramoto não lembra ao diabo. Ainda há poucos meses tivemos a experiência dos incêndios de Verão, temos presentes os procedimentos para as diversas emergências, o nosso ministro da confusão interna tem currículo, está habituado à crise, chamam-no a responder por ela, na assembleia dos deputados, quase todas as semanas, nunca se engasga e raramente gagueja. Um terramoto? Ora, isso é como dizia o Sebastião José em 1755: tratar dos vivos e enterrar os mortos. Para uns, assegura-o o ministro, já não há listas de espera nos hospitais. Para os outros, não faltam cangalheiros à porta das casas mortuárias. E pergunta-se se estaríamos preparados!...
É de facto impossível ver todas as televisões, mesmo que repetidamente passem as mesmas merdas. Ouvir todas as emissoras de rádio que passam o Marco Paulo e a Romana ao mesmo tempo. Ler todos os jornais e revistas que nos vão trazendo o número de mortos na selvajaria das estradas portuguesas e as afirmações dos famosos do Big Brother e dos Ídolos. Eu próprio - e peço a compreensão da comunidade para esse facto, até porque insisto em corrigir a lacuna! - nunca li um livro da Margarida Rebelo Pinto nem dediquei grande atenção aos "poemas" das canções da Mónica Sintra.
E mesmo agora deparo com algumas afirmações de uma Ana Cláudia, feitas a uma Nova Gente e fico embaraçado, porque a vergonha é Maria vai com as outras, perdi-a há muito e pronto. Mas a senhora diz coisas com profundidade, com conteúdo, já deve ter sido assessora do ministro da cultura ou deve estar mesmo para sê-lo.
Diz ela, por exemplo, " Quando saio com as minhas amigas, divirto-me a experimentar o meu poder de sedução. E não falha. Depois demarco-me e fartamo-nos de rir". Ah, queira Deus que o Dr Prado Coelho, tão culto e actualizado ele é, seja leitor da Nova Gente. E tu filha, divertes-te com pouco. Olha que eu conheço um beco meio escuro e completamente mal afamado onde raparigas de mais de cinquenta anos, que não dão entrevistas à Nova Gente, seduzem quase quem querem, quando querem e ainda lhes levam vinte euros. E parece que se fartam de rir sozinhas!
Depois, diz ainda, "Às vezes penso que tenho tesão escrito na testa". Credo, vai ao espelho que logo vês, mas em imagem invertida - imagem, só imagem! - mas de certeza que consegues ler. E olha, como chegaste à conclusão? Têm aparecido muitos mânfios a querer pi o juízo? Acautela a testa, se não ainda perdes a sabedoria toda.
Finalmente, "fora do trabalho (de modelo) sou uma pessoa normal. Tenho os meus amigos, faço porcarias". E a tua família sabe? A agência que te emprega só dá trabalho a anormais e tens que fingir durante o dia todo? Ai coitadinha, que há-de curstar-te tanto, que sofrimento. E as porcarias, faze-las sozinha ou à frente dos amigos? Usas ao menos um babete para te não sujares? Garante ao teu corpo o mesmo asseio que manifestas nas ideias!
Já me tinham recomendado a Maria. Agora acho que devo acrescentar a Nova Gente à lista. Cultivem-se, não façam como eu, para que o Dr Pedro Roseta possa orgulhar-se de vós!
Uma imagem vale mais do que mil palavras, costuma dizer o povo, especialmente o analfabeto que não sabe ler as legendas dos filmes do governador da Califórnia ou do Astérix. Isso não quer dizer que, para lá das imagens, não fiquem histórias dignas de ser contadas. Porque as há sempre.
O Dr A. João surge nesta imagem, obtida em plena zona de operações, como um imperador já coroado - não aquele que o Dr Gama em tempos sugeriu, quanto mais não fosse porque o Dr João, não sendo racista, orgulha-se de ser branco! - em pose de estado, qual Obélix a meio da digestão do último javali e do penúltimo garrafão de cinco litros.
O Dr João é um dos derradeiros resistentes do combate pela libertação da sua terra do jugo colonial. Já perdeu a conta aos anos que passaram, às espadeiradas que distribuiu, aos copos de poncha que patrioticamente teve de emborcar, aos carnavais em que desfilou atacando o bombo e aos discursos inflamados que teve de pronunciar no Chão da Lagoa. Homem de consensos consigo próprio, tem-se entendido às mil maravilhas com os tabus que vai construindo sobre o seu futuro e dos quais, antecipadamente, não dá conhecimento a ninguém. Nem ao seu amigo Jaime Ramos, tão pouco ao Dr Guilherme Silva, emigrado em Lisboa e submetido às mordomias de um cargo na assembleia dos deputados.
Democrata por excelência, tem permitido a presença em solo pátrio de um representante da potência colonizadora, a troco de viagens gratuitas a Lisboa e de uns dinheiritos que sempre vão dando jeito para distribuir uns bancos de madeira para idosos nos jardins da região. Tem suportado a infâmia de permitir que se passeiem em liberdade, pelas ruas íngremes do Funchal, jornalistas que disseram mal de si por não saberem o que dizem.
Ainda há semanas registou nova vitória no confronto com a Dra Manuela dos impostos quando se chegou a ela, bateu o pé, deu dois murros na mesa, ameaçou desatar a dizer asneiras, partir de regresso para o arquipélago e proclamar unilateralmente a República Democrática das Bananas se lhe não fosse autorizado mais um empréstimo.
Sem eleições, que não são precisas para nada, acabará por ser o heroi da independência e o seu presidente vitalício. A espaços irá tolerar as visitas do primeiro ministro de Portugal e do respectivo ministro da Defesa. Mas se o chatearem, sequestra-os! Há quem pense, maldosamente, que isso poderia ser já!
Ontem, dia de Natal, 25 de Dezembro de 2003, acabei conscientemente a fazer aquilo a que eu próprio chamaria um dia sabático. Pensei eu - estúpido! - que o dia, pela carga de tradição que carrega, iria naturalmente determinar que as coisas fossem genericamente assim. E senti crescer a esperança quando, pela manhã, verifiquei que alguns dos jornais não tinham saído para a rua, pura e simplesmente. Sabendo-se que a melhor maneira de não dizer asneiras é estar calado pensei, e penso, que não dando voz a uma série de personalidades que nos perseguem os dias, as mesmas nos não brindariam com imbecilidades.
Esperança vã, logo se viu. Na mesma linha de pensamento aguardei que as rádios não fossem ouvir ninguém, respeitassem a privacidade dos lares e se abstivessem de nos encher os ouvidos com "spots" publicitários a proclamar disparates. E que as televisões fizessem a mesma coisa, não pondo na rua, ao frio do inverno, jovens repórteres impantes de vaidade e convencimento, invariavelmente chumbados à disciplina de português no ensino secundário e depois, muitas vezes, licenciados por uma daquelas escolas que têm o percurso pejado de escândalos ou se transformaram em fundações por Decreto-Lei, a bem da utilidade pública, da fuga aos impostos e do desmesurado e translúcido enriquecimento dos seus dirigentes.
Tudo em vão. À noite, na televisão do nosso serviço público, um vereador da Câmara do Porto que dá pelo nome de Paulo Morais e responde pela alcunha de vice-presidente, abria a boca e, à falta de moscas, cuspia disparates e perdigotos à mistura. A propósito de uma organização que na cidade do Porto se tem preocupado alguma coisa com os chamados sem-abrigo e com uma refeição ou outra, enquanto o tal de Morais anda embrenhado na construção de barracas de doze andares na frente marítima do parque da cidade ou noutro sítio qualquer. A organização dá pelo nome de Coração da Cidade e tem tido, como uma das principais figuras dos seus apoiantes o Sr. Pinto da Costa.
A ajuda da Câmara à dita organização tem sido exemplar, desde a recusa de apoios financeiros até ao indeferimento sistemático e sucessivo de quantas pretensões lhe têm sido formuladas. Na noite da consoada, quando era previsível que estivessem a recato, em suas casas, jantando em família e aguardando pela missa do galo - como até o beato do Dr Portas lhes teria aconselhado - alguns manfestantes invetivaram o Sr Pinto da Costa e quem o rodeava a propósito de uma ceia de Natal que aquela organização preparara para os sem-abrigo, a pretexto dos perigos de morte e contágio que adviriam para os seus filhos, frequentadores de um infantário situado, ao que parece, em instalações ao lado.
Não bastando isso, quando estava tão elucidativamente calado, quando era por uma vez convincente na vida, o tal de Paulo Morais abre a boca e diz que os tempos em que a visibilidade pública dos amigos era invocada e chegava para resolver os problemas tinha passado à história e que, agora, sob a gestão do Dr Rio, as coisas tinham mudado e já assim não era. O que, linearmente, queria dizer que os sem-abrigo devem pura e simplesmente ser despejados do local e devolvidos à rua com o mesmo frio e a mesma barriga vazia do calor efémero e enganador de uma sopa de couve galega.
Estou à vontade! Não sou amigo, não conheço e não gosto do Sr Pinto da Costa. Embora, muitas vezes, aprecie a inteligência irónica que põe no tratamento de assuntos que o obrigam a dirimir publicamente. Mas preocupa-me muito mais um só sem abrigo do que toda a geração do senhor vereador, que se entretem a persegui-los e a tentar que alguns bem intencionados voluntários não consigam fornecer-lhes ao menos uma sopa quente. Mesmo que seja noite de consoada!
Tive, de início, uma questão que mais que por
uma vez repeti: a de saber para que serviria um blogue. As opiniões, como em tudo na vida, foram e são desencontradas. Mas ao fim de pouco mais de dois meses adquiri uma convicção: um blogue serve para sermos solidários e para sentirmos, regra geral, a solidariedade alheia. Coisa rara nos conturbados tempos que atravessamos e, por isso mesmo, muito mais gratificante.
Atravessamos uma quadra em que a solidariedade é apregoada, uma vez por ano, quando ela deveria ser de todos os dias, para com todos, muito mais à semelhança daquilo que sinto ser a blogosfera. Que caminhemos nesse sentido e que esta extensa comunidade, em crescimento explosivo, persiga esse mesmo objectivo sem desvios.
Para a comunidade, sem excepções, os melhores votos de Feliz Natal e de um Ano Novo que concretize sonhos e esperanças. Que tudo seja melhor para todos. A emissão, naturalmente, prosseguirá depois de interrupção que se prevê breve. Bem haja!
Sexta-feira, seis e meia da tarde nos corredores alcatifados do Ministério da Defesa. As secretárias arrumam as bugigangas pessoais nas carteiras, sacodem as roupas, ajeitam o cabelo, retocam a pintura dos lábios. Já foram às casas de banho e dentro de minutos estarão na rua para o fim de semana. Os assessores, muitos, cada vez mais, enfatiados e enfatuados, seguram entre os dedos as chaves dos BMW de serviço, certificam-se de que têm na carteira o cartão Galp Frota e de que os cartões de crédito estão dentro do prazo. O ministro! Sempre em mangas de camisa, o casaco pendurado no bengaleiro, a bandeira nacional atrás de si, sentado à secretária a olhar para ontem, tamborilando o tampo com as pontas dos dedos. Tem uma ideia assim, de repente, sem justificação, como se fosse de inspiração divina. Chama a ordenança que se mantem no corredor, frente à porta, aguardando.
Diz-lhe: vai chamar o senhor assessor especial para as questões de logística nas deslocações do ministro ao interior do país no mês de Dezembro. O soldado - ou civil, isto é uma peluda do caraças! - retorquiu tremendo quase como o mostrengo de Fernando Pessoa: V. Exa. desculpe mas não percebi quem devo chamar. O ministro abreviou, foi mais directo: vai chamar o Dr. Joaquim, porra! Apercebeu-se do excesso, ele, educado num colégio de padres, com a comunhão solene feita, parecia impossível. Pôs-se de pé e balbuciou: Nossa Senhora de Fátima me valha e Nosso Senhor Jesus Cristo me perdoe. Benzeu-se e rezou um Padre Nosso, voltando a sentar-se.
O assessor chegou à porta e bateu, parou de bufar, ajeitou a gravata, passou um dedo com saliva por uma pequena mancha no sapato do pé direito, pediu licença para entrar. Sim, entra! Antes de mais, quem teve a ideia de te atribuir um cargo com um nome que, se fosse em verso, era pelo menos uma estrofe dos Lusíadas? Mas foi V. Exa. com a sua imaginação e o seu rigor. Está bem, já me lembro. Para te pagar o que te pago não te podia chamar servente pois não? E riu-se! Olha, tive uma ideia, nós não podemos nunca descurar a vigilância em relação ao combate político. Aquele anormal do Monteiro quase parece pastor, a arremessar pedras para tudo o que é lado, agora que é novamente presidente nem ele sabe bem de quê. Ainda há-de partir as telhas da sua própria casa, pena é que isso tarde tanto, Deus me perdoe.
Devem ser aproveitadas as épocas de maior impacto para aparecer no palco. Nunca me viste ir ao mercado aos domingos, quando eles estão fechados e as peixeiras na missa a rezar pelas necessidades que têm. E vê lá se não foi no dia de acção de graças que o George foi a Bagdade, aparecendo a transportar a travessa com o perú de plástico. E agora o nosso emplastro da administração interna, até ele foi ao Iraque, carregando cagaço, bacalhau e bolo rei. Portanto eu já decidi e vou à missa do galo, mas quero ir à província.
O assessor curvou-se mais, abriu um sorriso concordante e submisso de orelha a orelha, parecia o Sr José Rodrigues dos Santos, e disse certo e entendido: ah! V. Exa. quer ir à missa do galo ao Porto. Está bem, podemos ir de avião, levamos um Falcon, assistimos à missa - que não deve ser muito longa porque também o padre terá os seus compromissos - e regressamos à capital. Consoamos um pouco mais tarde mas até o bacalhau e as couves marcham com mais vontade. Com um vinhito do Roquete...
O ministro retorquiu. Vê-se logo porque é que eu é que sou ministro. O interior é o interior, estúpido. O Porto é província, claro. Povoado por gajos com a mania que são urbanos, que sabem falar, que têm importância. Mas nunca lhes digas a eles que são saloios, que são provincianos. Mas neste caso quero ir ao interior, a uma freguesia qualquer, onde o nosso partido tenha ganho as eleições por causa da contestaçãp. Se bem que não deva aparecer ninguém que tenha trocado o empanzinanço pelo frio da noite. Mas a estupidez chega às vezes onde menos se espera e quase sempre quando menos se conta. Trata do apoio logístico para a deslocação, uma coisa mais aligeirada do que é costume. Chega meia dúzia de batedores, uma dúzia de seguranças, outra meia dúzia de assessores, três secretárias, o chefe de gabinete e o pessoal que ele determinar, quatro contínuos. Quanto ao destino, é segredo, é o meu Iraque e só o revelo no momento da partida. A Sra. D. Cinha viajará comigo, estou até a pensar em nomeá-la assessora uma vez que nem sequer é já necessária aquela formalidade irracional do concurso público. Não sei é de quê, tantas e tão variadas são as suas capacidades.
Arranja-me um automóvel de jeito, Jaguar não ficava mal, mas não quero de cor verde. Livra-te de me pores à disposição uma lata como aquela que comprou o tio do sobrinho da Suiça, em segunda mão, a cair de podre e a precisar logo de reparações de milhares de contos.
Exmo. Senhor,
Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social
Lisboa
Excelência
Soube que o nosso muito respeitado e patriótico Conselho de Ministros onde V. Exa. tem assento - espero que em poltrona digna e confortável! - com grande sacrifício dos oitenta mil contos de rendimentos anuais que vinha declarando em sede de IRS decidiu hoje, em acto muito nobre e magnânimo, aumentar em dez euros mensais o salário mínimo nacional. Não consigo compreender que o rigor orçamental de S. Exa. a Ministra das Finanças - perseguido para nosso bem e com o qual estamos incondicionalmente de acordo - tenha, em atitude de indescritível benemerência, acedido a tão desmedido dispêndio e só o posso compreender em função da solidariedade da quadra natalícia que atravessamos. A mim não me vai aproveitar grandemente porque estou desempregado, embora não consiga recensear-me nos centros de emprego onde sistematicamente me recusam a inscrição alegando que o livro usado para isso já está cheio. Mas congratulo-me com os felizardos que o vão receber, que passam a poder comprar mais três papo-secos por dia, embora receie pelos lucros e pela sobrevivência das empresas bem como pelos ordenados e pelos automóveis de serviço de que muito justamente beneficiam os seus dedicados e competentes gestores.
Tomei ainda conhecimento de que o patriótico Conselho de Ministros, - a que espero tenha estado também presente o senhor Ministro da Defesa e dos Submarinos - segundo a expressão feliz e sapiente de V. Exa., se não terá decidido por maior aumento para não agravar o desemprego existente, situação que a mim, pessoalmente, me seria de grande prejuízo por globalizar a concorrência com que já muito me debato e com que muito padeço.
Face ao anteriormente exposto venho requerer a V. Exa. se digne reduzir o salário mínimo agora fixado bem como todas as remunerações mínimas constantes dos diversos instrumentos de contratação colectiva do trabalho - enquanto estes não forem revogados e os sindicalistas não forem enviados para cursos de reciclagem na Sibéria - até ao ponto em que os centros de emprego do ministério que V. Exa. tão iluminadamente dirige deixem de ser necessários, reduzindo as despesas do orçamento, para bem do país e satisfação de S. Exa. a ministra das Finanças.
Não sendo esta a melhor forma de o fazer, não posso todavia deixar passar a situação em claro como benfiquista e bom pai de família que sou - como V. Exa. e mais quase seis milhões, fora os emigrantes - desejando as maiores vitórias ao glorioso, tanto mais que foram assegurados os serviços do famoso João Pereira que, finalmente, acordou em prorrogar o seu contrato depois de conhecido o aumento do salário mínimo hoje decidido. Se tiver oportunidade, se acaso se cruzar com ele na tribuna, apresente os meus respeitos ao Sr. ex-presidente do Alverca e garanta-lhe que nada irá por em causa a prosperidade das suas empresas de encher pneus e de assentar tijolo burro.
Mitra, 23 de Dezembro de 2003.
Pede deferimento.
P.S. - Bom Natal para todos e tenham atenção à anedota do Sr. Carlos Cruz sobre o menino Jesus. Vale mais prevenir do que remediar.
De modo que o Partido da Nova Democracia que o Dr Monteiro, reunido em congresso fundador, anunciou ao país fez-me de novo acreditar nele, no país, em tudo e mais alguma coisa. Até na dobragem do Cabo da Boa Esperança, na descoberta do caminho marítimo para a Índia e no Sporting a fazer o mesmo pleno que o F. C. Porto fez a época passada, arrecadando campeonato, taça, taça UEFA e supertaça, sempre sob a erudita e diligente orientação do engenheiro Fernando Santos.
Depois aquilo era pouca gente mas era suficientemente jovem para que eu acreditasse. O Dr Monteiro não apresenta cabelos brancos, tem o currículo invejável de ninguém saber o que de relevante ele fez até hoje e resolveu em boa hora - certamente seguindo a orientação de um qualquer técnico de marketing brasileiro - mudar aqueles óculos de aspecto pesado e estúpido que faziam dele um lavrador com o dobro da idade.
De forma algo inesperada, porque nada tinha sido preparado para isso, o Dr Monteiro ganhou o congresso, apareceu por momentos nas televisões, desdobrou-se em entrevistas às revistas para onde escreve a Margarida Rebelo Pinto e até foi convidado a dar ele resposta a uma pergunta feita ao consultório sentimental da revista Maria por um leitor mais atrevido, sobre sexo seguro. Não foi levado em ombros porque, embora magro, é maciço e o número de congressistas, de tão poucos, não puderam com ele. Para além disso não tinha acabado nenhuma faena a nenhum touro em pontas, finalizada com a estocada final e fatal como em Barrancos. Mesmo que o tivesse tentado, que naquele fim de semana o Dr Portas, seu velho amigo de peito e de coração nem pregou olho, atento à informação que lhe ia chegando dos militantes que mandou ilfiltrar no local. Isto porque, segundo uma máxima de Sócrates - o engenheiro da televisão não! O outro, o verdadeiro! - quem tem cu, tem medo.
Depois o Dr Monteiro, de novo feliz por ser presidente de qualquer coisa, viu acrescentada mais uma linha inútil, em caracteres "bond", ao seu longo currículo pessoal e atirou-se ao trabalho, a ver se melhorava a saúde. Passeou-se pelas ruas, visitou mercados, foi às lotas onde arrematou cabazes de jaquinzinhos, perfilou-se respeitosamente nas primeiras filas de muitas missas, benzeu-se e solicitou audiências a toda a gente que lhas poderia conceder.
Tem sido bem sucedido, apesar do nome novo e da lenga-lenga velha e relha. Já só aguarda por disponibilidades de agenda dos respectivos responsáveis para ser recebido pelo presidente da junta dos Olivais, pelo presidente da câmara de Oeiras, pelo primeiro ministro e pelo ex-presidente do Alverca. O ministro da defesa nem deu sinais de vida, parece que sempre que lhe falam no Dr Monteiro entra autenticamente em transe, benze-se três vezes, acende duas velas de meio metro e, por precaução, recusa-se a sair à noite durante três dias em que fica em casa a rezar o terço.
Mas o sucesso ultrapassou fronteiras e de Angola, em papel timbrado onde a palavra "popular" foi adequadamente riscada a esferográfica azul, emitida por cartório notarial com porta para a rua e número de polícia, chegou-lhe uma procuração. A dar-lhe plenos poderes para se pronunciar em nome do povo angolano. Daí o título de uma pequena notícia de hoje: Monteiro diz que Durão participou num casamento insultuoso para angolanos. Espera-se que quando ocorrer o próximo "insulto" o Dr Monteiro também seja convidado!

Em primeiro lugar o Iraque e a captura, afinal por denúncia, do ditador Saddam Hussein numa toca de toupeiras. O nosso parlamento congratulou-se com o facto, produziram-se discursos raros, dignos dos grandes tribunos que temos e aprovaram-se moções. Não satisfeitos com a unanimidade, alguns deputados ainda vieram para os jornais, de forma sapiente e isenta - especialmente isenta! - considerar o acontecimento um facto histórico. Isso fez-me recordar as manifestações de rua, os comícios, as bandeiras e as sessões especiais com que foi saudada a queda de Pinochet ou de Suharto. E o ar profundamente aliviado, sorridente, a mostrar o corta palha todo, com que foram seguidas as solenes exéquias de Franco ou de Salazar. Só não houve escolas de samba porque o samba não é a nossa dança nacional, - a nossa é outra! - porque foi fora de época e porque, que diabo, eram enterros em que os gatos pingados eram de alta condição social, mas eram gatos pingados. E são!
Depois porque o segundo assunto foi o casamento de Luanda, onde se juntou a nata das sociedades da Mutamba e da Linha para embarcarem para o Mussulo, à procura de recatados banhos e fresquíssima lagosta. O país parou de inveja! Fossemos nós detentores de tão grandes riquezas e haveria o mundo de ver o casamento que faríamos à filha do Dr Sampaio, mesmo que ela não quisesse e ainda que já estivesse casada. Mas não, nós somos pobres - e quando digo pobres refiro-me a mim e à cambada que passa horas de volta desta merda destes monitores, a ver se consegue distrair-se! - como muito bem nos diz a Dra Manuela e nos lembra Bruxelas para que não nos julguemos com os mesmos direitos dos outros.
Vejam que só o costureiro Augustus - deve ser romano o raio do homem! - vendeu cinquenta vestidos de luxo em poucos dias, com preços entre os 74 e os 360 contos, fora os que levou na bagagem para a malta de lá, que pagou a pronto e em euros porque o dólar está de rastos. E naquelas brincadeiras que se fazem, as ligas da noiva foram leiloadas por seis mil contos - não divulgaram o valor de arrematação das cuecas - e o laço do noivo chagou aos 2.200. Segundo consta não foi o Dr Barroso a arrematar nenhuma das peças, sinal de que continua a ganhar mal, nem a D. Cinha que usou roupa emprestada pela autarquia onde reside, a título de propaganda.
Recordem-se que foi o socialismo que conduziu a esta situação e a sociedade angolana é a primeira sociedade da abundância. É recorrente a pobre ideia do presidente Lula a reclamar a fome zero para o seu povo, com direito a matabicho, almoço e jantar. O presidente Dos Santos já lá tinha chegado antes. Os miseráveis que povoam as ruas de Luanda, que continuam a remexer nas lixeiras à procura de alimento, que assaltam por tudo e por nada são apenas disfarces por causa da inveja dos outros, dos vizinhos do lado. E vocês sabem como os pobres têm uma inveja horrorosa e mórbida dos ricos, é preciso despistá-los, fazê-los acreditar que de facto a abundância não é a que é mas apenas a que parece!
Sim, está bem filho! Mas olha que foi assim que os nossos amigos americanos deixaram mais de 50.000 na Indochina. E quando o velhote Henry Kissinger se sentou à mesa das negociações para fazer política, em Paris, estava farto de levar porrada do Ho Chi Min.
Olha, talvez por isso o W. Bush tenha mudado de táctica agora, no Iraque, onde declarou o fim da guerra assim, de repentemente. O que não era preciso porque parece que também a não tinha declarado enviando ao Saddam um ofício registado e com aviso de recepção.
Mais, tens licença de uso e porte de arma para andares com essa moca? E essas luvas são por causa do frio ou são daquelas do murro? E os calções ou estão fora de moda ou são desenho da Fátima Lopes. Mas não se lhe vêem os diamantes. Também, se vissem, ainda se calhar se viam outras misérias ou te confundiam com a filha do presidente Dos Santos.
Se tiver sido apenas para a fotografia, para a pose em estúdio, estás desculpado. Mas repara que não ficas bem assim, descalço. E depois, já não te lembras das determinações daquele "maçon", do Nandim de Carvalho? Lembras-te? Descalços ele não queria nem os turistas. Anda, vai à feira de Carcavelos que te fica perto e compra ao menos umas sapatilhas. Regateia no preço que acabam por te fazer barato. Depois conta a cena, e mostra as sapatilhas já agora, à Dra Manuela. Vais ver como te vai felicitar, talvez até te dê um beijinho, por seres tão poupadinho e seguires com afinco as directrizes dela.
Feliz Natal, meu! E deixa de lado a moca durante uma semana, vai à missa do galo e deixa pelo menos um euro na caixa das esmolas. Recebeste o subsídio não foi? Não queiras também aforrá-lo todo que as taxas de juro, digo-to eu, estão uma boa merda. E, como sabes, o Dr Constâncio não tem voto nenhum nessa matéria. Além disso não foste ao casamento de Luanda - não te convidaram, sacanas! - e do mal o menos, não tiveste de gastar dinheiro na prenda!
Isso não impede que me questione cada vez com maior frequência sobre as motivações que levam políticos profissionais e desdobrarem-se por comentários nas televisões, intervenções nas emissoras de rádio e artigos nos jornais e revistas. Tanto mais que, como é público, nem o cargo de presidente de uma junta de freguesia é remunerado com o salário mínimo e, que me conste, em caso de doença não irá arrecadar os míseros cêntimos que o Dr Bagão reserva para os pobres.
Mas realmente o que acrescentam, em termos de mais valia, ao quotidiano da vida dos cidadãos - que somos nós todos! - os aparecimentos televisivos, pedantes e vaidosos, do Dr Pacheco, do Dr Santana, do Dr Carrilho ou do Eng Sócrates? E os chamados debates radiofónicos? E os artigos de jornal assinados, ridiculamente, pelo Dr Arnault, ministro? Não vão os leitores que o lerem, se os houver, equivocar-se e pensar que será um sósia da escrita ou um "clone" da figura.
Acabo, forçosamente, por concluir sempre da mesma maneira. Apesar dos ditos se auto-denominarem "opinion makers" que é, creio eu, uma expressão do dialeto barranquenho que deverá significar maqueiros de opinião. Em concorrência parcial com os bombeiros e o INEM. E é quase tão óbvio como as minhas convicções de início: é claro que os senhores políticos se masturbam, pelo prazer que isso lhes dá. Então não seria melhor dedicarem-se à internet, como o Dr Magalhães, e irem comprar o livro?

Ainda ontem, num outro "post", falava das condições de trabalho, satisfatórias, que o país assegura, muito justamente, aos que o servem dedicada e desinteressadamente. Os autarcas são dos que mais se esforçam por conquistar as boas graças dos seus munícipes. No norte fez história a benemerência do major Valentim que chegou, no decurso das campanhas eleitorais, a distribuir galinhas poedeiras ou para canja e televisões a cores, com ecran de 51 centímetros, para que os eleitores pudessem ver o Boavista no conforto dos seus sofás. Alguns deles tiveram depois o gesto grato de o convidar para a patuscada, oferecendo eles o vinho e a broa.
Recentemente os jornais noticiavam que alguns autarcas do área metropolitana do Porto vinham, ilegalmente, a receber os ordenados por inteiro dos cargos de presidentes de câmara e de administradores daquilo a que, por megalomania, teimam em chamar Metro do Porto. O Sr major não, que não precisava, tinha dito para fazerem as coisas direitas porque os seus biscates lhe dão sempre para os pequenos almoços. O Dr Rio, questionado sobre o assunto, foi claro e objectivo dizendo que cumpria rigorosamente a lei. E quando o inoportuno jornalista se não conformou em saber que o Dr Rio não estacionava o automóvel em transgressão, não agredia os funcionários, não insultava as empregadas da limpeza, não matava e não assaltava bancos, insistiu com a questão. E o ordenado, tem recebido por inteiro? É de boas maneiras o Dr Rio, como se sabe, como se tem visto e tomado conhecimento pelas intervenções do Sr. Pinto da Costa. Por isso se conteve, passou a mão pelo cabelo e voltou a declarar, com mais forte convicção ainda, que cumpria muito rigorosamente a lei.
Vai daí que dias atrás a Junta Metropolitana do Porto se reuniu para designar os presidentes de câmara que terão assento no Conselho de Administração do Metro do Porto. A reunião decorreu normalmente, não tendo sido pacífica nem lhe tendo faltado polémica que chegasse. E, no meio dessa normalidade a que vamos estando habituados, aprovou a recondução dos mesmos administradores: o major Valentim, o Dr Rio, o Sr Narciso e o engenheiro de Vila do Conde. O Dr Menezes, de Gaia, já em tempos tinha dito que precisava de ganhar tanto como os outros porque ainda tem filhos a estudar e hospeda em casa uns sobrinhos lá de cima, que também comem. Agora exigem tratamento idêntico o Dr Bragança, da Maia e o Sr Macedo, da Póvoa. Porquê? Ora, porque está previsto que o metro venha a passar ou a chegar aos seus concelhos, que é quanto basta para lhes dar uma trabalheira do caraças.
A questão é perfeitamente pacífica em relação a um aspecto. A determinação unânime em servirem mais e melhor as populações dos seus municípios, que poderão viajar de metro não se sabe ainda quando, a preços do arco da velha. Quanto a saneamento básico, habitação social, saúde, educação e outras ninharias, a culpa da situação até lhes não pertence. Em alguns casos vem do mandato anterior, dos que agora são oposição. Quando isso não acontece, ainda é herança do facismo!

Mas toda esta quase unanimidade não deixa de ser equívoca, de sugerir um conjunto de questões e de nos fazer recordar acontecimentos bem recentes. Quer queiramos quer não o processo da Casa Pia não condicionou apenas os passos políticos do Dr Ferro. Trouxe, e vai continuar a trazer à superfície uma série de situações. Em primeiro lugar tem sido uma montra permanente daquilo que de facto é o país.
O Sr Carlos Cruz é detido e os responsáveis pelos vários sectores da justiça apressam-se a reclamar que a justiça funciona. Ainda antes de ser detido, e temendo pela eminência da detenção, o mesmo senhor pede ao Procurador Geral da República que o receba, e este recebe-o. Naturalmente para que a justiça funcione. São detidas novas personalidades e volta a afirmar-se que a justiça continua a funcionar. Os advogados contratados para defender os arguidos aparecem nas televisões, falam nas rádios, são entrevistados para os jornais. Os seus clientes, naturalmente, são inocentes e nem sequer sabem de que são suspeitos. Apresentam recursos atrás de recursos. Se o Tribunal da Relação os recusa é porque a justiça funciona e, se os acolhe, é ainda porque a justiça funciona.
Agora, de repente, de acordo com as conclusões de um congresso, a justiça está em crise. E está! O ano que passou apenas confirmou que, como se ouvia dizer, ela não funciona de maneira nenhuma e muito menos é igual para todos. Quando muito é mais igual para uns do que para outros, como quase tudo na vida. Os suspeitos sem visibilidade pública não tiveram tempo de antena, os seus advogados não foram perseguidos como o juiz Rui Teixeira para falarem à comunicação social, os seus processos apenas foram hibernando sem que ninguém se preocupasse muito com eles.
É caso para nos perguntarmos em que ficamos, mesmo que já soubéssemos que, como no resto, tudo isto é triste, tudo isto é fado!
Enquanto isto, vejam a pouca vergonha! A malta da aldeia dorme a sono solto. São quase oito e meia e o último "post" foi publicado pelo Velharias às 07:38. Antes tinha sido Judite e Holofernes às 05:49, Pixeldust às 05:19, Blogue de esquerda às 05:08 e Crónicas de uma boa malandr@ - malandra é, vê-se pelo blogue. Essa de boa é outra conversa! - às 04:28. Então isto é produção que se apresente? É assim que vocês querem contribuir para o desenvolvimento do país e ajudar o Dr Barroso a ser reeleito? Acham que é assim que vamos ganhar o Euro 2004, qualificar-nos para o Mundial 2006 e ganhá-lo? É assim que ajudaremos o Vitória de Setúbal a ganhar a Taça de Portugal e o major Valentim a ser reeleito presidente da câmara sem ter que andar a oferecer galinhas poedeiras aos eleitores? Calaceiros! A menos que tenham aproveitado a noite como deve ser e continuem a aproveitar as primeiras horas da manhã. Continuem a dormir que eu saio sem fazer barulho!

Que se saiba o acordo não foi denunciado pelo Estado que, pelos vistos, também nada fez para cobrar valores que lhe são devidos e que os devedores reconheceram publicamente. Em vez disso a classe política continuou a ocupar os camarotes dos estádios, sem pagar bilhete, a ir a finais internacionais e, por vezes, a entrar em polémicas com a gente da bola. Mais do que isso! O Estado contribuiu significativamente para a construção de dez estádios para o Euro 2004, directamente, por via de institutos públicos - uma invenção para facilitar a irregularidade - ou por intermádio das autarquias que, como se sabe, são entidades privadas.
Que eu tenha conhecimento ninguém contestou o valor das dívidas ou a veracidade da revelação do Público. E o presidente da Câmara de Gondomar e da Liga de Clubes, com um pé em cada uma das tábuas, a ver se não cai à água, veio pronunciar-se sobre o assunto para assacar responsabilidades ao Governo e à Santa Casa da Misericórdia que, em sua opinião, também falharam. Não evitou o disparate, ou então julga-se um homem com muita graça, acabando por acrescentar que os clubes agiram de boa fé e que devem ser vistos como bons pagadores que de facto são. De resto todos os clubes estão inscritos nas provas oficiais depois de terem apresentado certificados confirmando terem regularizadas as respectivas situações fiscais. Certificados?