novembro 30, 2003

Temos a memória curta e convencimento longo

Hoje regressei a casa, ao segundo dia de um fim de semana prolongado, de três dias. Era isso que estava previsto. O que não estava propriamente previsto, no meu boletim meteorológico, era o tempo desgraçado que tem feito. Embora, muito provavelmente, o estivesse no boletim oficial, emitido pelos únicos serviços com credibilidade para o fazerem: os de meteorologia.

Mas adiante, correu tudo bem, até a ida à Praia de Vieira de Leiria para almoçar. Devendo salientar-se, em todo o caso, que mesmo apesar da muita chuva foi possível e fácil ver grandes áreas de pinheiros pertencentes às repetidamente assinaladas “Matas nacionais”, ardidos durante o último Verão e que, independentemente da idade, continuam de pé, embora mortos. Portanto o Estado que temos dá-nos, como sempre, o exemplo. Mau, como sempre também, para que nos continuemos a questionar sobre a sua capacidade para servir de exemplo a seguir seja no que for. E que, cada vez com maior frequência, nos perguntemos para que é que, de facto, serve o Estado. Às vezes dou por mim a dar razão ao governo – em sentido abstrato – quando afirma que temos Estado a mais. E, indiscutivelmente, temos. Em tudo e sistematicamente. Porque sempre que intervem o faz mal e porque sempre que deveria intervir pura e simplesmente se abstem e se demite das responsabilidades que deveria assumir. Do poder, não, desse não se demite. Cada ministro, cada secretário de estado, cada vereador, cada presidente de junta tem o cuzinho colado à cadeira com Araldite, aquela que servia para colar cientistas ao tecto, de cabeça para baixo. Lembram-se dessa cola?

Mas, outra vez, adiante. Com pompa e circunstância – e com chuva, bem o espero! – realizou-se hoje em Lisboa o dito sorteio da fase final do Euro 2004 do nosso descontentamento. De sorteio aquilo teve muito pouco e toda a gente o sabia, é quase igual ao sorteio dos árbitros para os jogos da nossa pretenciosa superliga. Entram todos no pote – o termo é fixe, com o tempo há-de haver uma certa honestidade e acabar mesmo em tacho – e depois excluem-se os que são do Porto, do Benfica, do Sporting e do Boavista. Os do Guimarães deixam-se ficar mesmo que o Dr Pimenta Machado reclame. Os do Algarve também podem ficar: o Algarve não tem futebol e para lhe inaugurar o estádio teve de se lhe enviar um futebolista amador que até é profissional do governo. Se o Sr. Major não gostar de barbudos, por causa da concorrência, excluem-se também. E os carecas, os coxos, os divorciados, os canhotos, os adventistas do sétimo dia, os seguidores do auto-proclamado bispo Edir Macedo também se excluem. Ficam dois, faz-se o sorteio, rigoroso, isento, honesto. Depois de terem sido todos incuídos no pote.

O sorteio de hoje começou por chamar cabeças de série a quatro selecções. Depois forte mais a outras quatro, apenas forte a mais quatro e forte menos às restantes. Em teoria uns são mais fracos do que outros que são exactamente iguais aos que são considerados mais fortes do que eles. Mas pronto, já se sabia que era assim. Connosco pernoitam a Espanha, a Grécia e a Rússia. E os nossos jornalistas, que são mais adeptos do que profissionais de informação, exultam. Fazem demonstrações do português inovador e criativo que fizeram com o Sr. Gabriel Alves. Inventam, disparatam, asneiram, fazem pela promoção à categoria profissional que se segue nas suas carreiras. Meu caro amigo Ribeiro Cristóvão deixa lá a assembleia, não vais aprender lá nada, regressa à tua Renascença, estás perdoado.

O nosso grupo, adiantam os nossos jornalistas e garantem-no os nossos comentadores, é acessível. O único senão é a Espanha mas como com eles é o último jogo, nem tem importância. O que aconteceu em Guimarães, se é assunto da actualidade é melhor perguntarem ao Dr Pimenta Machado que ele é que é de lá. Se for histórico, isso sim, sabemo-lo todos, foi dali que partiu D. Afonso Henriques, à conquista. A Grécia, ora a Grécia. A Grécia é mais velha do que a sé de Braga, tem umas ruínas que são quase tão bonitas como as de Évora, só um bocado mais velhas. Até há bem pouco tempo até na União Europeia iam atrás de nós, o que é coisa bem difícil. De resto? De resto o quê? Mandaram o Eng. Fernando Santos embora porque se viu grego para os entender. Mas ele também se vê grego com pouca coisa: já se tinha visto antes grego no Porto e agora lá se vai vendo grego no Sporting. Por pouco tempo, espera-se! Mas depois há-de ver-se grego noutro lado qualquer!

Ainda o ano passado, quando do mundial da Coreia-Japão, o nosso primeiro pediu aos rapazes, quando se foram despedir dele, que lhe trouxessem a taça. Eram favas contadas. O grupo nem era fraco. O grupo em que calhámos, com vossa licença, era uma grande merda. O Oliveirinha – lembram-se dele, o da desinteressada Olivedesportos, o seleccionador? - mandava os adjuntos para o banco, ele ia curtir a ressaca da noite anterior, estava no papo. Deu-se ao luxo de prescindir do guarda-redes titular que não era preciso sacrificar e mandou o Baía, com uma carreira brilhante feita em Barcelona e nas demolidas piscinas das Antas a curar lesões. Então quem, nas apostas, arriscava um tostão – bom tempo, o dos tostões! – furado nos Estados Unidos, na Coreia e mesmo na Polónia? Naturalmente, ninguém. Foi o que se viu, todos eles nossos amigos, mandam-nos de regresso a casa mais cedo para que a federação do Dr Madail pudesse poupar nas despesas obedecendo à política pragmática – termo bonito este, gosto muito! – da Dra Manuela Leite. Para o ano, vamos a ver. Nos estádios, não poupámos. No convencimento – viu-se logo hoje, no dia do sorteio – também não. Vamos a ver no resto! Mal ou bem, gostando ou não dele, por uma vez ouço o Sr. Scolari. O nosso objectivo não é ganhar à Grécia, nem à Rússia, nem sequer à Espanha. O nosso objectivo é passar à fase seguinte!

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novembro 29, 2003

Post it

Não um "post" normal. Apenas um curto post it para deixar pendente um sinal a informar da ausência, apesar do mau tempo no canal, a quem por acaso venha bater-me à porta. Nada perdem com a minha falta, nada de jeito certamente teria para pendurar no Placard. Até breve!

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novembro 28, 2003

Não tenho nada contra os engenheiros, mas...

Bastas vezes pela vida fora, nos mais diferentes lugares, nas mais diversas circunstâncias e nos mais singulares acasos, me têm achado com cabeça, tronco ou membros de engenheiro. E vai daí, o tratamento inevitável. Que corrijo invariavelmente. Primeiro, não sou engenheiro. Segundo, título – seja qual for – não é apelido. Terceiro, não tenho nada contra os engenheiros mas acabo a contar sempre a seguinte piada, pelo menos mais velha do que a blogosfera.

Dizendo que há na vida três formas de gastar dinheiro, porque ganhá-lo é um bocado mais complicado. Para alguns, é claro, para alguns! Com o jogo, com as mulheres e com os engenheiros.

Gastar dinheiro com o jogo é a forma mais fácil. Com as mulheres é a mais agradável e com os engenheiros é a mais rápida. Actua como vacina contra o vírus mais renitente e, naquele sítio, nunca mais ousam tratar-me por engenheiro!

Quanto a não ter nada contra os engenheiros, tenho andado a pensar nisso todo o dia de hoje. Depois daqueles três secos com que os turcos não sei de onde aviaram ontem o Sporting quase começo a achar que a estória está certa!

Publicado por LFV em 10:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

TSF – O forum mulheres sobre o Euro 2004

A TSF, para que a não viessem a apelidar de machista, resolveu promover no período da tarde um outro forum, dedicado às mulheres e moderado por Margarida Pinto Correia. Daqui a pouco aquela estação preenche o seu tempo de emissão com foruns e, nos intervalos, vai emitindo noticiários. E, mesmo assim, só saberemos da ida de Bush ao Iraque no dia seguinte quando, a sono solto, já o mesmo dorme na Casa Branca.

O forum desta tarde teve por tema o Euro 2004 e permitiu-me chegar à conclusão que, para além das particularidades específicas da condição de mulher, elas se comportam exactamente como os homens. Umas gostam de futebol e outras não, umas são do Futebol Clube do Porto, outras do Benfica e outras ainda do Sporting, apesar do terramoto que veio da Turquia cujo nome se escreve usando hieroglifos. Umas acham que foi muito bom construir estádios para utilizar o dinheiro que veio da União Europeia, outras não. Umas acham que os novos estádios vão dar excelentes condições de trabalho aos jogadores de futebol, outras não. Umas acham que o Luís Figo é um mercenário que só vai à selecção por dinheiro, outras não. Umas acham que está mal ser a mulher do mesmo Luís Figo a fazer a promoção do Euro 2004, até porque é sueca, outras não. Umas acham que ele poderia ter arranjado um modelo nacional, nascido na Malveira, outras não. Umas acham que ele criou uma fundação com o seu nome para ir buscar subsídios ao Estado porque dinheiro dele não vai para lá, outras não. Umas acham que nem todos os árbitros são ladrões, outras não.

Mas não acredito que vão para os estádios vociferar e gritar nomes que ofendam as mães dos árbitros. E será até muito problemático, na maioria dos casos, arranjarem maneira de lhes insultarem os pais!

Publicado por LFV em 07:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

Porque é que o Bush foi ontem ao Iraque?

Em primeiro lugar para aproveitar o facto de ter sido feriado nos States e de, por isso, não estar obrigado a ir trabalhar para a Casa Branca, marcar o ponto, aturar milhentos assessores a tentarem meter-lhe na cabeça coisas que não percebe e ainda a receber dirigentes feios e horrorosos de países que nem sabe que existem e muito menos onde ficam. E sempre a dizer-lhes, com o mesmo sorriso com que libertou o Iraque: o seu país é um paraíso!

Em segundo lugar porque teve a possibilidade de dispor de uma boleia num avião que não enguiçou passados dez minutos de voo, como repetidamente aconteceu há dias com um português que era suposto transportar turistas para o Brasil. Consta mesmo que o avião posteriormente alugado se limitou a levá-los para Cabo Verde porque já não tinham tempo para ir para mais longe e decidiram ficar-se pelo primeiro destino que surgisse na rota

Porque razão viajou Bush em segredo? Primeiro por razões internas. Os americanos são uns tontos que, velhos ou novos, viajam por todos os mais inimagináveis cantos do mundo, a comer hambuguers, a beber coca-cola e a comprar porcarias a título de recordações. Se soubessem da sua viagem cada um que o conhecesse iria pedir que lhe trouxesse um barrilinho de petróleo. Desculpou-se: é melhor assim, a minha permanência será tão curta que nunca terei tempo para ir encher esses barris todos. E mesmo que tivesse, alguém teria depois de os carregar no avião: de certeza que seria carga a mais.

Em segundo lugar fê-lo por modéstia e humildade. Se os iraquianos soubessem da sua ida iriam concentrar-se às centenas de milhar para o vitoriarem, estenderem-lhe as mãos, darem-lhe presentes como prova de gratidão pelo facto de os ter ido libertar a todos, mesmo sem eles quererem. E ele acha que não têm nada a agradecer-lhe, fê-lo desinteressadamente, por dever cívico, para que o pai se pudesse orgulhar dele também, uns tempos mais tarde.

Assim limitou-se a levar um perú e a deixá-lo na messe americana do aeroporto de Bagdad, no centro da mesa. Depois regressou porque o dia seguinte era dia de trabalho e, como em Portugal, parece que também corre por lá um abaixo-assinado a apelar à pontualidade. E ele não quer que os assessores tenham mais um pretexto para lhe dar cabo da moleirinha!

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A Constituição de 1976 era democrática?

Alguns jornalistas, imprudentes, precipitados e broncos – e não os qualifico de outras coisas porque teria que ir consultar as postas (de pescada?) enciclopédicas do Pipi para encontrar adjectivos! – reagiram e noticiaram as declarações que o Dr Barroso fez ontem, afirmando que a Constituição de 1976 não foi democrática, como se se tratasse de uma autêntica heresia. Pior do que isso – e também por isso merecem ser no mínimo qualificados da mesma forma – os directores de alguns jornais deram guarida e essas notícias e permitiram até que fossem feitas chamadas à primeira página dos orgãos que dirigem.

É naturalmente condenável que um jornalista, provavelmente estagiário e acabado de admitir com recibo verde, como aquelas meninas que aparecem nos directos das televisões que não sabem o que fazer ao microfone e muito menos o que lhe dizer, não peça orientações e não promova nenhum tipo de investigação. Os jornalistas capazes, está visto, estão todos mobilizados ao serviço do processo da Casa Pia e da verificação pormenorizada dos orgãos sexuais de alguns dos respectivos arguidos.

Então não se chega lá com facilidade? O Dr Barroso votou a Constituição de 1976? Não votou! E se ainda persistirem dúvidas vão Dr Garcia Pereira. Mas acho que ainda não tinha idade para ter direito a voto e, sendo assim, creio que o assunto o não interessava muito.

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novembro 27, 2003

Era o que faltava! Então não se pode fazer um jeito a um amigo?

Toda a gente sabe que o regime em Portugal é uma democracia parlamentar! Então isso não está chapado na Constituição? Desde 1976 quando o país caminhava para o socialismo, mesmo antes do Dr. Soares se chatear e, sem explicações, o ter metido na gaveta? O professor Jorge Miranda, sabedor e diligente, tem-se esfalfado a explicá-lo aos muitos alunos que lhe foram passando pelas mãos. E, ainda, à parte do país que lhe dedica alguma atenção e se dispõe a ouvir e a aprender alguma coisa com o que ele diz. O professor Marcelo, a par com os sucessos literários da Margarida Rebelo Pinto e com o guia dos vinhos da região do oeste, não se cansa de o salientar nos seus sermões de domingo à noite. Os párocos – cada vez menos porque, dizem, há falta de vocações – proclamam-no do púlpito abaixo, enquanto os fiéis que ajudam à missa, porque caiu em desuso a figura do sacristão, abanam a cabeça numa atitude de plena concordância. Até no futebol, até no futebol, o regime democrático está instaurado e chegou como o o Sr. Salvador Caetano diz que chegou a Toyota: para ficar.

Vem agora a público o favor que o Sr. director regional adjunto da Educação do Centro terá feito a pessoa amiga na colocação de uma professora de Viseu. E sabe-se de outras suspeitas, também na colocação de professores, em Santarém, Castelo Branco e Coimbra. Como se isto fosse o fim do mundo, os jornalistas que não obtiveram autorização para estarem presentes no exame dos orgãos genitais do Sr Carlos Cruz, desenham a tragédia e fazem cair o carmo e a trindade. Então não é de todo evidente que a este director regional adjunto assistem os mesmos direitos que assistiram ao Dr. Martins da Cruz? E a senhora que solicitou o seu empenho não será porventura uma eleitora de pleno direito, com cartão e tudo, até porque o recenseamento é obrigatório? Não descortino que possa haver problemas com favorecimentos noutros distritos. A cunha é de há muito uma instituição nacional e connosco pode certamente a Europa toda aprender o que não sabe. Não interessa que o caloiro A, com notas muito elevadas e sem cunhas de ninguém, tenha entrado para o curso de medicina da Universidade Nova de Lisboa, por exemplo. Não interessa que se mate a estudar, dia e noite, fins de semana incluídos, e saiba de fio a pavio todos os ossinhos do corpo humano, até mesmo o estribo. Não interessa que tenha vintes às frequências e aos exames a que entenderem submetê-lo e que acabe brilhantemente licenciado com vinte também.

Quando for para o mercado do trabalho é melhor que conheça alguém que tenha um ministro por amigo. Ou um secretário de estado, até mesmo um deputado ou um presidente de câmara. Pode não iniciar funções na profissão para que andou uns anos a queimar as pestanas, mas sempre se arranja um qualquer lugar de assessor. Sim, com carro para uso pessoal, gasolina, despesas de representação e cartão de crédito. Para compensar o ordenado que não é lá grande coisa, apenas dois mil euros. E agora aparecem as gordas nos jornais, como se estivéssemos perante coisa nova e de que ninguém soubesse? Há de facto gente com muita lata. Que só reage por despeito e por inveja. Não seria melhor que vissem os amigos que arranjam e avaliassem se os mesmos lhes podem servir para alguma coisa, fazendo-os subir na vida?

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Pedroso despiu-se dos pés à cabeça

Este é o título principal de um jornal diário desta manhã. Que diz ainda que lhe contaram os dentes e viram-lhe os órgãos sexuais com uma lanterna. O título, naturalmente, é sensacionalista e está incorrecto. Porque se começou pelos pés, é evidente que se descalçou dos pés à cabeça. Depois essa de lhe contarem os dentes. Então na escola não aprenderam qual é número de dentes que, num regime democrático, cada um de nós tem na boca? Ou o Dr Pedroso foi sujeitar-se a qualquer rastreio da cárie, acautelando a sua saúde e o seu bem estar futuros? Ou ainda, pior do que isso, a condição de deputado dá-lhe direito a uma dentição de leite mais resistente e duradoura e a uma dentição definitiva em que há mais incisivos do que têm os simplesmente eleitores?

Depois, pasme-se: viram-lhe os orgãos sexuais com uma lanterna? Por pouco viam-nos à lupa, dissecavam-nos e viam-nos ao microscópio. Então as escolas de medicina não têm modelos nem figuras que sirvam para o efeito? Isto, desculpem, parece de um “voyeurismo” – ai que não sei se é assim que se escreve esta merda! – perfeitamente mórbido. É como ficar-se a olhar para o espelho, deslumbrado, a exclamar: Deus meu que me fizeste tão bonito e tão viril. Se tivesse tempo que desse para isso e ainda não fizesse o sacana do frio que já faz ia direito a Bragança e acabava notícia da Time como as meninas brasileiras, não acostumadas ao clima. Mais prático, mais perto e mais barato não teria sido mesmo dar um salto às Caldas e, em função da miopia de cada um, escolher o tamanho mais adequado e fazer a análise detalhada? Com tudo nas mãos?

Não fosse o segredo de justiça e a comunicação social não se ficaria pelas cuecas do Dr. Pedroso. Seguramente lhas puxaria para baixo ou até mesmo o despojaria delas. E viria trazer ao magote curioso e impaciente informações indispensáveis sobre a sua cor, a sua marca – as do Sr. Castelo Branco eram Gucci, lembram-se? – o seu estado de uso e, quem sabe, sobre os cuidados de higiene que apresentavam. Tudo acompanhado de sinais particulares, como o cotão no umbigo, o comprimento dos pêlos pélvicos, o tamanho da coisa em repouso e a assimetria dos apêndices. Nesse dia, à custa das audiências, até acabavam as cenas de cultura na casa mais famosa do país e a D. Teresa Guilherme era despedida. Se calhar até era obrigada a adiar o casamento, coitada!

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Começa a cheirar a Natal

A pretexto do negócio os restaurantes começaram a afixar cartazes nas vitrinas anunciando aceitarem marcações para festas de Natal. Informam sobre o número de salas disponíveis, a capacidade de lugares de cada uma delas, as condições de comodidade e de conforto, as facilidades de transporte ou de estacionamento. E, obviamente, as iguarias à disposição dos convivas, sempre frescas, sempre das melhores proveniências, sempre objecto da mais profissional e competente confecção. Quanto a preços é o que se sabe, a vida pela hora da morte, está tudo muito caro, o pessoal escasseia mesmo que o desemprego aumente, além disso ganham salários mínimos incomportáveis. De forma que não podemos fazer milagres, menos do que isso por cabeça não pode ser, sem bebidas, e não chega para pagarmos a electricidade. Não fossem V. Exas. clientes de longa data, que muito consideramos, e nestas condições até recusaríamos o serviço.

A pretexto da confraternização e da solidariedade com toda a gente, porque o Natal é apenas uma vez por ano, as empresas começam a organizar-se em mais pequenos grupos que escolhem datas, seleccionam locais, negoceiam preços e ementas e marcam horas para que o repasto tenha início. Os administradores descem ao nível dos contínuos, vêm sentar-se à mesma mesa, engolindo apressadamente o caldo verde onde a couve ainda parece fugir para a horta. Condescendem a ir no bacalhau com natas, salgado e com espinhas pelo meio, sem o mesmo apuro a que o Escondidinho os habituou. Sujeitam-se a beber uma mixórdia a que chamam vinho, de que ninguém vê nem as garrafas nem a proveniência. Alguns, mais ousados, ainda recusam: só bebo água, tenho uma úlcera duodenal de origem nervosa, pensando para consigo: então o estúpido do Lázaro, que é contínuo, vai lá perceber esta merda?

Depois das rabanadas, encharcadas em vinho do Porto, açúcar e canela, e do café de má qualidade, mal tirado e frio, espera-se que os senhores administradores digam meia dúzia de palavras. A maioria deles tem o mesmo à vontade que a maioria dos deputados que preenchem as bancadas da Assembleia da República: não sabe dizer nada. E sendo assim, como faz muitas vezes o Dr. Ferro, trazem uma cábula no bolso onde previamente escreveram o que vão dizer, mesmo que frequentemente atropelem a leitura. Mas está bem, nem todos lêm como se fosse o Sr. Vítor de Sousa a dizer poemas do Sr. Eugénio de Andrade.

As palavras são normalmente como as confraternizações: cínicas, falsas e hipócritas. Porque durante um ano se andaram todos a tentar enganar uns aos outros, muitas vezes até conseguindo-o. Os senhores administradores pensando: então a Dra Manuela Leite não aumentou a ponta de um corno aos calaceiros dos seus funcionários e íamos nós agora aumentar estes inúteis e mandriões? Quando a crise está à vista de todos e os nossos lucros só cresceram quinze por cento em relação ao ano passado! Por seu lado os empregados, diligentes na resistência passiva e na sorna vão pensando: sacanas! Mudaram-se para casas novas, com piscinas no quintal e garagens para quatro carros, aquecimento central e paineis solares nos telhados para terem subsídios do Estado, deram carros novos aos filhos, vão para Lisboa e quem os quiser encontrar é na Cova da Onça. E querem que a gente trabalhe, merdosos! Vou ao médico da caixa, sinto-me doente de revolta, vou ficar de baixa para aí um mês ou mais.

É esta, muitas vezes, a solidariedade da quadra natalícia, quando não é pior. Porque frequentemente os convivas vão-se mutuamente apunhalando até à beira da mesa. Para acabarem a matar-se à hora do café e do digestivo.

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novembro 26, 2003

Há dias assim...

Há dias como o de hoje, que desconcertadamente nasce cinzento e chuvoso e que não tem emenda até que seja noite. É deprimente, a incomodidade da chuva e o cansaço da bruma. Sempre tal estado de tempo mexeu comigo mais do que deveria, mas são coisas que nos transcendem.

Quando já de si a vida nos é complicada em cada dia que passa, faltava ainda a meteorologia das horas dar-nos ainda conta da sofrível disposição que carregamos.

Às vezes não há disposição nem para tentar ridicularizar as verdades que nos rodeiam, muito convencidas da sua solenidade. E quando isso acontece faz-se como se diz que se deve fazer quando nos chega uma incontrolável vontade de trabalhar. Sentamo-nos e aguardamos que ela passe!

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Não se preocupem, continua tudo bem!

Hoje o país não foi contemplado com a organização da America’s Cup, com que já contava, um pouco à maneira do ovo no cu da galinha. Mas o mesmo aconteceu com as cidades de Marselha e de Nápoles que talvez tenham feito menos alarido sobre o assunto. Valência foi a contemplada e será para ela que serão encaminhados turistas, dólares, acontecimentos, empresas e postos de trabalho.

Por cá, começaram as acusações recíprocas dos nossos inefáveis políticos. Quando o ministro Arnault decidiu acabar com a Docapesca e dar mais um contributo pessoal para o número de desempregados, alegou que aquela zona da cidade precisava de ser requalificada e, de cátedra, proclamou que isso era bem mais importante do que meia dúzia de obsoletos barcos de pesca e três dezenas de pescadores iletrados e descalços que poderiam facilmente ser realojados em qualquer acampamento cigano.

Com lágrimas de crocodilo a oposição vociferou que a decisão castigava os mais pobres, – nunca vi nada que tivesse sido de maneira diferente, mas está bem! – que criava desemprego e que privava os pescadores de um porto de abrigo. Convocou jornais e emissoras de rádio, marcou conferências de imprensa para a hora em que a D. Manuela Moura Guedes, de boca aberta, nos gritava pela casa dentro as últimas tragédias do mundo. Ninguém os ouviu ou os informou de que o tempo de antena acabara. Os operadores de câmara limitaram-se a desmontar o equipamento, a carregá-lo na parte de trás do veículo todo o terreno e a irem-se embora.

Hoje, depois de divulgada a escolha, a partir de Genebra, o governo comoveu-se tanto que o ministro Arnault chegou às lágrimas. Puxou de um lenço imaculadamente branco que trazia no bolso do casaco, limpou as lágrimas e secou o pingo que ameaçava cair-lhe do nariz. Depois disparou dizendo que o governo fizera tudo o que estava ao seu alcance para trazer a prova para o país, que tínhamos as melhores condições e a melhor vista para a baía. Mas que o mal vinha de trás, dos governos anteriores, que tinham cedido à despesa sem controlo e que nada tinham feito no sentido de que Lisboa fosse, por mais longo período, local de residência permanente do Sr. Patrick Monteiro de Barros. E nisto Lisboa e Cascais são uma e a mesma coisa, é tudo tão perto, vencida sem acidente a curva do restaurante Mónaco, o resto é um tirinho.

A oposição não perdeu tempo a salientar que o acontecimento nos iria tirar do rabo da Europa, o salário mínimo iria equiparar-se ao que vigora em Espanha, o Dr. Bagão teria que recuar na sua intenção de reduzir os montantes dos subsídios de desemprego – para acabar com os desempregados! – e de doença – para acabar com os doentes! – e seríamos um país feliz e contente, de gente inteiramente ocupada e saudável. Sem digestões mal feitas e sem cálculos na vesícula! Mas que isso não iria acontecer porque o governo se não empenhou, não fez pressões quando e onde devia e o deputado Lello falou mesmo na debilidade dos “lobbies” que não sei o que é.

Mas calma! Quando as regatas estiverem a decorrer creio que sempre se arranjará algum trabalho político que possa ser feito em Valência. Mesmo que ainda me recorde de ouvir a minha avó dizer que “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento!”.

Publicado por LFV em 03:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ensaiámos o sapateado antes de tempo

Desde há tempos que espalhamos o facto eminente de Lisboa poder ser seleccionada como cidade anfitriã da próxima edição da America’s Cup. Encomendámos os foguetes e começámos logo a deitá-los, sem nos preocuparmos em apanhar as canas.

A decisão era anunciada hoje, em Genebra. E, por isso, logo os noticiários sucessivamente foram abrindo com essa notícia. Já antes se tinha começado por fechar a Docapesca e enviar para o desemprego mais algumas pessoas para que alguma coisa pudesse crescer neste país triste e marginal: o número de desempregados.

À hora indicada a selecção foi divulgada recaindo na cidade espanhola de Valência. Os comentários recolhidos de seguida manifestam a tristeza de quem os emite, tínhamos melhor vista para o mar, os ventos mais favoráveis, a proposta era ganhadora. Mas não foi!

Uma certeza fica: não será necessário construir não sei quantas marinas, obviamente subsidiadas pelo Estado. Mas que o projecto para os terrenos da Docapesca vai prosseguir, não haja dúvidas. E alguém vai realizar chorudos lucros à sombra da America’s Cup que vai para a cidade de Valência. Quanto aos desempregados, o ministro Arnault já se pronunciou e já disse que isso não era importante. E como ele é ministro...

Publicado por LFV em 11:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

A normalidade continua

Pego no primeiro jornal da manhã e concluo: o país continua dentro da normalidade. Logo na primeira página a parangona:

BRIGADA FISCAL TRAVA FRAUDE DE 70 MILHÕES DE EUROS
Autoridades detiveram 23 pessoas por contrabando de álcool em grande quantidade para países da Europa do Norte.

Posso dedicar-me às tarefas diárias habituais. Nada se alterou, a vida e o país continuam.

Publicado por LFV em 09:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 25, 2003

O Porto está mais seguro

Quase lado a lado, na secção regional dedicada ao Porto, um dos jornais que hoje folheei trazia duas notícias. Na primeira o presidente da Câmara, Dr Rui Rio, assegurava que a cidade estava mais segura, referindo-se certamente não sei a que bairro social classificado de problemático. Na segunda garantia que ia continuar a insistir para que a cidade fosse dotada com mais numeroso contingente de polícia.

Não há contradição. Os bairros onde a insegurança era relevante estão mais seguros porque aquela se transferiu para o centro da cidade e habita nas barbas do Dr. Rio. Ainda recentemente, a cem metros das trazeiras do edifício dos paços do concelho, três emigrantes de leste foram, durante a noite, barbaramente assassinados a sangue frio. Que eu saiba nada, até agora, foi divulgado sobre as investigações que, certamente, estarão em curso. Deve ser por causa do segredo de justiça que, como se sabe, só não se aplica ao processo da Casa Pia e aos respectivos arguidos.

Quanto a insistir no reforço policial da cidade, apesar desta estar mais segura, é lógico! Estando a cidade mais segura podem para cá vir todos os polícias do mundo que não correrão nenhum risco. Eu começaria até por recomendar ao ministro Figueiredo Lopes que mandasse para cá o contingente que foi para o Iraque. Sempre arriscavam menos a pele, se calhar ganhavam era um bocado menos. A menos que o Dr Rio tenha verba!

Publicado por LFV em 10:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

Para que serve um blogue – 2?

O meu “post” anterior, com o mesmo título deste, mereceu a subida honra do comentário que se segue, afixado pela Sra. D. Inês Alva que não conheço. Posso todavia adiantar desde já que não há equívocos e que a respeitável senhora pura e simplesmente não percebeu nem o alcance nem tão pouco a intenção daquilo que escrevi. São coisas que acontecem, especialmente quando cedemos facilmente em termos emocionais e quando nos deixamos envolver à primeira no chamado nervoso miudinho que nos retira discernimento e senso comum.

Caro Senhor,

Com o devido respeito, inteire-se primeiro da verdade! Já ouviu falar de calúnias? Pois bem, é o caso que lhe têm exposto. É muito fácil apedrejar quem não conhece. Leia, analise, reflita. É-me indiferente se respeita ou não "aquela" pessoa, mas ela tem, de certeza, uma coisa a seu favor: um grupo! Eu, que sou Mulher de maiúscula, valho por mim só. Sou só eu e a minha dignidade, deste lado. Pergunto-me quem é o senhor para vir falar-me de dignidade. Gostava de lhe ver a cara, acredite. A minha não mente. Cresça, não seja tão influenciável, não atire pedras. Analise os textos, a linguagem, a pessoa que essa senhora é, no nível ou falta dele...

Deus os ajude a todos.

Não sei a que verdade se refere nem sequer a mesma me importa e, consultado o dicionário da Porto Editora que possuo à mão, fiquei a saber o que significa a palavra calúnia. Para além disso ninguém me tem exposto seja o que for nem estou interessado em que, seja quem for, o faça. Não sendo islâmico não me pesa a consciência de ter apedrejado fosse quem fosse, fosse quando fosse, fosse onde fosse. Habitualmente leio, tento entender, analiso o que precisa de ser analisado e reflito sobre aquilo que eventualmente mereça reflexão. Respeito, por princípio e por educação, todas as pessoas apenas por essa condição. Não me preocupo com os grupos que apoiam pessoas ou instituições a que não pertenço. Sou perfeitamente indiferente aos Ultra Dragões, aos Red Boys e à Torcida Verde, mesmo que o coração me penda, desde sempre, para os lados de Alvalade. E, para mim, já deu para perceber que todas as pessoas são “de maiúscula” e igualmente dignas sem necessidade de se chamarem todas Brites de Almeida. Não me recordo de ter falado nem em dignidade, nem em coisa nenhuma, apenas porque a não conheço, porque nunca lhe falei e porque jamais lhe escrevi. Quanto à minha cara, é vulgar, passa despercebida, como eu, na multidão que povoa a Rua de Santa Catarina todos os fins de tarde e não mente porque não são as caras que mentem. De resto, nunca me pus em bicos de pés em lado nenhum.

Não sei se formula um desejo ou se emite uma ordem quando me diz que cresça. De qualquer maneira isso é de todo irrelevante, mesmo face à minha mediana estatura física de apenas um metro e setenta. Para além disso, mesmo que fosse um desejo, é tarde, já não estou em idade de crescimento. Já ninguém me poderá ver na NBA a conseguir “afundanços” do alto dos meus dois metros e vinte. Finalmente, não sei a quem pertence o blogue 100nada e nem me interessa saber. Não sei como se chama a senhora que o assina e, já agora, também a não conheço. Nem vou conhecer em consequência disto ou de qualquer outra coisa.

Por fim, algumas considerações pessoais inevitáveis. Esta manhã afixava eu um “post” a falar no dia internacional de erradicação da violência contra as mulheres que hoje se assinala. Agora, ao fim do dia, e de forma que acho parcialmente machista, devo anotar o modo difícil – e ignoro ou desprezo qualificativos mais adequados e expressivos! – como as mulheres, muitas vezes, se relacionam entre si. Toda a gente sabe do relacionamento que haveria entre o Sr George W. Bush e o Sr Osama Bin Laden se acaso se encontrassem frente a frente: à boa maneira do antigo oeste americano. Quem sacasse primeiro ganhava. Era violento mas era linear e honesto. Embora estúpido!

Mais. Nunca recusei ou enjeitei polémicas, desde que servissem para alguma coisa e acabassem dando frutos de que alguém pudesse aproveitar fosse o que fosse, mesmo pouco. Não seria o caso neste assunto em que qualquer polémica seria um nado-morto. Mais do que moribundo, morto. Portanto, não vale a pena. E, não valendo a pena, ponto final!

Publicado por LFV em 08:40 PM | Comentários (1) | TrackBack

Os actos transparentes dos nossos autarcas

O caso voltou hoje aos jornais. A Imoloc, empresa de construção civil que se preparava para construir – sem que fosse naturalmente habitação social – na chamada frente urbana do Parque da Cidade – do Porto, diga-se, para quem não conhece a situação e a cidade! – avançou com uma acção contra a Câmara do Porto e o seu actual presidente, no valor de 50 milhões de euros, o equivalente a dez milhões de contos. Porquê? Porque a actual Câmara – e bem, em minha opinião – se opõe a deixar que aquela empresa leve por diante os projectos de construção que tem para aquela zona.

Ouço há pouco, na TSF, que a autorização de construção terá sido dada pelo anterior presidente, Eng. Nuno Cardoso, dois dias antes de abandonar o cargo. Quer dizer, depois de ter perdido as eleições – a que aliás não foi candidato porque o negócio entre o arquitecto Gaspar e o indescritível Dr. Fernando Gomes o puseram à margem do plebiscito! – o Eng. Nuno Cardoso que deveria limitar-se a actos de gestão corrente quis ser ele a consumar a negociata, sabe Deus com que intenções e com que resultados. Isto, creio, não é uma questão de direito. Muito mais importante do que isso, é uma mera questão de senso comum. Que o Eng. Nuno Cardoso não foi capaz de ter, porque não quis, porque não percebeu ou porque se julgou no papel de um pequeno ditador. Sem nenhuma referência à sua altura, já se vê!

De imediato, convocou uma conferência de imprensa para explicar aquilo que não tem explicação e, mais uma vez, tentar resolver a quadratura do círculo. De preferência à hora a que as emissoras de rádio libertem os noticiários e – se elas estiverem dispostas a ir lá! – a que as televisões possam invadir-nos as residências com directos inúteis, cheirando à celulose de Cacia. Já sabemos: como o Sr. José Mourinho vai queixar-se do árbitro e da comissão de disciplina da Liga!

Publicado por LFV em 02:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

Para que serve um blogue?

Há tempo atrás – pouco, porque me iniciei nestas lides apenas a 14 de Outubro! – deixei a pergunta pendente num “post” quando, novato nestas andanças, era todo dúvidas e questões. Neste período, mesmo curto, aprendi alguma coisa e isso levou-me a ter outras dúvidas e a interrogar-me sobre outras questões.

Hoje deparo com este O ódio dos desconhecidos e não fico estupefacto porque já aprendi o suficiente para saber que a situação é vulgar e que não vale a pena estar a radicalizar pensamentos no que respeita a alguns comportamentos menos ortodoxos. Ou mais ignorantes, ou mais mal intencionados que levam pessoas a visitar blogues alheios para deixarem comentários tão rasteiros que deveriam envergonhar quem os deixa.

Mas, entre outras coisas, a sociedade que temos evoluiu para a falta de ética, ou para a ética do Big Brother e da noiva Teresa Guilherme. O respeito, já era. Os princípios perderam-se, a cultura – porque isto também se relaciona com a cultura – foi reduzida à expressão mais simples.

Uma das minhas dúvidas é saber o que falta à blogosfera como perguntava há dias o Paulo Querido. Mas não tenho nenhuma dúvida de que os comportamentos que aqui se denunciam estão irreversivelmente a mais. E que, por isso, deveriam ser banidos de vez e para sempre!

Publicado por LFV em 02:13 PM | Comentários (1) | TrackBack

Dia internacional para a eliminação da violência contra as mulheres

A designação é demasiado extensa, como que a pretender camuflar uma realidade indesmentível, pefeitamente inadmíssivel em sociedades que se dizem civilizadas e de todo inaceitável e incompreensível no relacionamento que deve prevalecer entre seres humanos.

Não deixa de ser violência contra as mulheres a necessidade que a legislação de alguns países, nomeadamente do nosso, tem em estabelecer quotas para acesso das mulheres a determinados cargos.

Condenamos a segregação pela diferença da raça, da religião, da simpatia clubística, da nacionalidade. Depois concedemos, com aparato magnânimo, que as mulheres possam afinal ocupar um quarto dos cargos políticos. Como estamos no país em que estamos, sabe-se desde logo que essa legislação também não é para ser cumprida.

Finalmente, depois de sermos contra todas as formas de segregação, de as criticarmos em privado e em público, de participarmos em colóquios sobre o assunto, de empunharmos dísticos alusivos em manifestações de rua, depois de tanto e tão convicto empenhamento, que fazemos?

Valentes e ousados, do alto de uma estatura mais elevada e mais musculosa, espancamo-las e permitimos que no nosso meio outros continuem a fazê-lo. Repetida e continuadamente, sem que elas tenham cometido nenhum crime, sem que estejam em falta sobre nenhuma coisa. Muito apenas porque, fisicamente, são mais frágeis!

Como homem, mais do que incomodado e desconfortável por saber que isso acontece, devo simplesmente referir que isso me envergonha. Pela indignidade!

Publicado por LFV em 10:22 AM | Comentários (0) | TrackBack

Eça de Queirós, 25.11.1845

Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim em 25 de Novembro de 1845, faz hoje 158 anos. Aqui se assinala a efeméride e se publica um trecho de uma carta sua, dirigida a Camilo Castelo Branco, que deixa transparecer a sua incontida ironia de sempre.

Publicado por LFV em 09:31 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 24, 2003

O primeiro ministro vai ao professor Karamba – III

Passados já mais de oito dias, numa tarde, no curto intervalo entre duas audiências, o assessor chegou-se-lhe rapidamente ao ouvido e perguntou baixinho: então, já há novidades? Agora não posso, tenho o gabinete cheio, a agenda mais que preenchida, mas não deixe que eu me esqueça de ligar ao professor, antes de sairmos.

Pouco depois das 20 o ritmo no gabinete abrandou, o pessoal foi saindo, já nenhum presidente de junta telefonava. O assessor lembrou-lhe a necessidade da chamada telefónica. Ligou e do outro lado atendeu a mesma voz melosa de sempre: para saber o seu horóscopo carregue um, para marcar consulta carregue dois, ..., para ser atendido pela operadora carregue nove. Pimba, com convicção caregou nove. Em fundo surgiu-lhe a música das meninas da Ribeira do Sado que foi trauteando para se relaxar um pouco.

Cinco minutos à espera, pareciam os centros de atendimento da PT. Mas lá veio uma voz feminina, rouca, de cantora de blues escandinava, nascida algures na Serra Leoa. Perguntou-lhe educadamente: em que posso ajudar? Ligue-me ao professor, replicou. Depois de alguns entraves, de dificuldades várias, lá conseguiu que a mulher aceitasse transferir a chamada.

Uma voz masculina, igualmente rouca, sem nada de escandinavo, atendeu e saudou-o. Então, como está? Quase não me apanhavas que estou mesmo para ir-me embora para casa na outra margem, tenho uma festa, a minha sogra faz anos, o seu assunto está estudado, como é que quer. Pode ser relatório escrito, feito em computador, uma folha tamanho A4, envio pelo correio, à cobrança. Ou então relatório verbal, dez minutos de conversa no máximo, envio de cheque amanhã de manhã.

Optou pelo relatório telefónico, o professor confiava que na manhã seguinte lhe enviaria o cheque, não sabia que se não deve confiar nunca no Estado. Tinha poderes mágicos mas não chegavam para tanto, pareciam até mesmo inferiores ao do Luís de Matos a fazer aparecer futebolistas onde antes apenas havia desajeitados apanha bolas.

Bem, vamos começar com isto. Antes de mais você nunca mais chega aqui a esconder a cara a pensar que me engana. Depois para mim é vulgar atender personalidades importantes, desde jogadores de futebol, a dirigentes desportivos, a políticos, a empresários. Ser primeiro ministro não faz diferença, nem tem desconto nem se autorizam prestações. Cada um é como cada qual, todos diferentes todos iguais, uns mais iguais do que os outros. O Mantorras já cá veio por causa do joelho, o Nuno Gomes por causa do casamento, o Zé Maria por causa do namoro, etc.

Você o que interessa é na política. Você tem mais baralhos de cartas do que eu, tem lenga-lenga que chega e sobra, mas não cuida das coisas como deve ser. Tem que se acautelar com os seus ministros, alguns são perigosos. Como alguns também são meus clientes não vou dizer os nomes deles. Você depois adivinha-lhes. Um que mora num forte, cuidado que se te apanha a atravessares a rua passa-te a ferro. E foge num carro grande. E cuidado com os infiltrados que ele á capaz de contratar uma gaja já usada, um bocado em mau estado, para ir ganhar a tua confiança no gabinete. Levar-te ao casino para jogar nas máquinas, acompanhar-te para o estádio do Benfica, ir jantar contigo aos restaurantes do Guincho. Ou ir para mais longe, mesmo até Sesimbra. Ganhar a tua confiança. Depois perdes a confiança da Margarida estás a ver. E com o casamento não tens problemas, ela gosta de peixe, confunde-te com um cherne, evita que te cortem às postas para grelhar.

Para prevenir vais mandar cá os teus ministros, um de cada vez, pagamento na primeira consulta, à boca do cofre, sem recibo. Sim, mesmo a Manuela vai ter que ser assim. Para ti, comissão de vinte por cento, em dinheiro, sem documento. Toma lá, dá cá! E ainda a garantia de te dar protecção, anular os teus adversários políticos, mantê-los à distância. O Ferro entretido com o neto e com o Gaspar. O Carvalhas nas termas, em S. Pedro do Sul. O Louçã, ora, a recolher alimentos para os subnutridos do corno de África no dia mundial contra a fome. O Paulo, esse é teu aliado mas é mais perigoso do que qualquer outro. Vou pôr o Monteiro, aquele alto e magro, de óculos, a tomar conta dele. Vai lhe encurtar a trela, não te preocupes. Deixa que desse nem a Cinha depois se aproveita!

Publicado por LFV em 10:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

O estádio do Algarve foi inaugurado sem bola

Somos, como povo, acusados de tudo e mais alguma coisa. De termos chegado à India de olhos vendados, sem sabermos para onde íamos. De termos descoberto o Brasil quando Cabral pensava seguir na rota da Índia. De não termos negociado com os movimentos independentistas a independência das colónias. De termos abandonado as colónias sem negociações com os movimentos libertadores. De termos cedido à sedução fatal do olhar do Dr Cunhal e quase alinhado com os países comunistas. De termos traído a revolução dos cravos e virado politicamente à direita pela mão do general Eanes. De termos desbaratado os fundos recebidos da Europa para continuarmos atrás de toda a gente. De deixarmos, sempre, tudo para a última hora, sem apelo nem agravo. De não sabermos programar coisa nenhuma porque cada obra que estimamos em 50 milhões regista inevitavelmente um ligeiro desvio e acaba a custar o triplo. Somos apelidados de incapazes, incompetentes, improdutivos e inúteis. Confundem-nos com turcos e genericamente chamam-nos espanhóis.

Mas alto, depois de ontem a nossa auto-estima – que é uma das maiores preocupações que o ministro Bagão tem connosco! – está em alta. Finalmente uma coisa é programada como deve ser, a tempo e horas, muito melhor do que se fôssemos britânicos. Ontem à tarde foi inaugurado o Estádio do Algarve para um primeiro jogo que se vai realizar apenas a 18 de Fevereiro. Portanto, quase três meses antes. Nem o Dr. Filipe Pereira fez melhor as previsões sobre as listas de espera das cirurgias.

Foi uma cerimónia sem pompa, como dizem os jornais, embora com alguma circunstância. Na fotografia que ilustra o acto na edição de hoje, do jornal Público, podem ver-se algumas pessoas no centro do relvado, com a aridez das bancadas vazias em fundo, mas todas certamente importantes porque envergam fato e gravata. São reconhecíveis, para mim, que conheço pouca gente, o ministro Arnault e o autarca Vitorino, ambos com um pé em cima da bola, ao melhor estilo do Luís Figo. Diz o jornal que também esteve o autarca Emídio, que é de Loulé, de onde só conheço a Tia Anica.

Não consigo imaginar como aquela gente, envergando os fatos de casamento, teve a lata de se divertir com fogo de artifício sem ter ensaiado uma jogatana como se fazia quando frequentavam a escola primária, a bola era de trapos e o campo era o recreio com as árvores pelo meio. Sabendo-se, ainda por cima, que tudo daria certo, que não haveria desacatos, que ninguém deitaria a cobertura abaixo na euforia da vitória, quanto mais não fosse por respeito ao Sr. D. Manuel, Bispo do Algarve, que estaria certamente disposto a arbitrar o desafio.

Quanto ao custo total referem-se 35 milhões de euros, o equivalente e sete milhões de contos que as pessoas ainda entendem melhor. Diz-se que o Estado comparticipou com apenas 1,2 milhões, o semítico. E parece que a propriedade é das Câmaras de Faro e Loulé que, penso eu, terão coberto o remanescente do custo. Mas as Câmaras municipais, como as Juntas de freguesia, como os Institutos públicos não são, como toda a gente está farta de saber, Estado nenhum. A Câmara de Loulé é do Sr. Emídio, a Câmara de Faro é do Sr. Vitorino, eles é que pagaram o estádio, o estádio é deles. Só não têm agora é equipas que lá possam jogar e que integrem os escalões superiores. Mas aos fins de semana podem-se fazer uns jogos entre casados a solteiros, se juntarem o dinheiro suficiente para pagarem o aluguer aos Srs. Emídio e Vitorino. Porque o Euro 2004 também vai pagar pelos três jogos que aí vai fazer em Junho do próximo ano!

Publicado por LFV em 06:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Dr Prado Coelho regressou do Brasil

Mais depressa do que tinha acontecido com Pedro Álvares Cabral, o Dr. Prado Coelho regressou do Brasil. Onde, afinal, esteve acompanhado do Dr Augusto Santos Silva que, como sabem, não é o do banco. E retomou a sua coluna habitual no jornal Público depois de ter participado num colóquio sobre o tema “os intelectuais são ainda necessários?”. À sua maneira faz a descrição muito analítica de tudo. De onde foi, de quem foram os apoios e a orientação e quem assessorou.

Acaba a afirmar que o intelectual tem que saber que a sua função é hoje sobretudo a de um tradutor de códigos culturais e que essa função implica uma análise cuidadosa e uma utilização sagaz do sistema dos “media”. É uma frase densa, fechada, hermética, como são muitas vezes expendidos os conceitos e os pensamentos do Dr. Coelho. Humildemente não sei o que quer ele dizer quando alude a um tradutor de códigos culturais e pergunto-me que tradução? E que códigos? Ainda por cima quando a função implica, como escreve, uma análise cuidadosa e uma utilização sagaz do sistema dos “media”. Análise cuidadosa em que sentido, com que critérios, de que vectores do tal dito sistema? E a utilização sagaz? As utilizações devem todas elas ser sagazes, sejam do que for, ou não? Mas quanto à utilização, qual utilização, com que princípios e com que finalidade?

Parece querer estar a reduzir-se o intelectual assim a um género de detergente que lava tudo, sem marca de fábrica, sem dignidade e sem verdades absolutas. Que nunca houve e que ninguém nunca teve. O problema dos intelectuais é, a meu ver, olharem demasiado para o umbigo, é arrolarem filosofias e correntes e, fora de tempo, criticarem e discordarem. E reincidirem no isolamento das suas cátedras e das suas redomas, à margem das sociedades do dia a dia. E pretende agora o Dr Coelho que eles sejam tradutores de códigos dessas sociedades, consultados os “media” – termo de que não gosto e que, presumo, não exista! – e utilizados sagazmente. É mais do mesmo, muita intelectualidade fica à porta do Teatro Nacional de D. Maria ou dos museus da Fundação Calouste Gulbenkian. Sem que haja capitais europeias da cultura que lhe valham!

Publicado por LFV em 12:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

O que falta à blogosfera

Francisco José Viegas mantém um dos blogues seguramente mais populares da comunidade com "posts" que são, na maioria dos casos, muito interessantes. E será presumivelmente este um dos pormenores que lhe asseguram o sucesso. Com data de ontem inseriu o que aqui se indica, no seguimento de outro antes publicado pelo Paulo Querido. A não perder, mesmo que possa merecer reflexão e divergência em relação a alguns detalhes. Mas vão lá ler sem hesitações!

Publicado por LFV em 10:19 AM | Comentários (0) | TrackBack

Ramalho Ortigão nasceu há 167 anos

Faz hoje 167 anos que, em 1836, nasceu no Porto o escritor Ramalho Ortigão. A rua que na cidade carrega o seu nome em placas fixas nos topos não tem mais de 100 metros de comprimento. Mas dá para a Avenida dos Aliados, logo em frente ao edifício da Câmara Municipal.

Publicado por LFV em 09:55 AM | Comentários (0) | TrackBack

O Deco apanhou 4 jogos

Então vocês acham isto justo? Antes de mais o processo foi demasiado rápido, sem analisar devidamente todos os detalhes, sem auscultar testemunhas, sem pedir parecer ao professor Freitas do Amaral. Foi um julgamento à porta fechada, se calhar nem houve juiz, quem foi fez o que quis e lá vai disto. Então se a justiça pudesse ser assim rápida vocês acham que o processo Casa Pia ainda não tinha acabado? Não, de maneira nenhuma. Acham que o Dr Vale e Azevedo ainda não tinha voltado a presidente do Benfica? E já depois de ter sido julgado, ter cumprido pena, ter readquirido os seus direitos civis e políticos e votado para a junta de freguesia lá da zona dele

Se tivesse sido um gajo qualquer do Benfica lá estava o presidente dos pneus a dizer que estavam a levar o FCP ao colo não sei para onde. A gente, que até somos pesados para levar ao colo e que não gostamos! Colo foi o da mãe, não é de um marmanjo qualquer das secretarias ou da comissão de arbitragem. E agora nós! Então podemos dizer que estão a levar o Estrela da Amadora ao colo? Só se for para a segunda divisão! Se fosse antes podíamos dizer que quem era levado ao colo era o Alverca, onde começou o negócio das recauchutagens, mas na Taça. Mas quem os levou ao colo, ontem, foi o Vitória de Setúbal.

Publicado por LFV em 09:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 23, 2003

Os incendiários da estrada

Quando os incêndios dispararam, no Verão passado, toda a gente estava de férias. A começar pelo governo, pela oposição e pela Assembleia da República. Todos tiveram dificuldades em perceber a situação e tarde se voltaram para ela. Não revestia, naturalmente, a importância da inauguração de um qualquer estádio de futebol. Mesmo que fosse apenas para que, para já, se treinasse o ministro Arnault, como hoje aconteceu no de Faro e Loulé. Alguém disse mesmo que as consequências dos incêndios tinham sido irrelevantes, apenas um reduzido número de pessoas tinha perdido a vida. A grande maioria continuava felizmente viva.

Agora, sem a divulgação dos resultados dos milhentos inquéritos em que somos pródigos, pela calada e à má fila, o governo proclama que os culpados são os incendiários da estrada, vulgarmente conhecidos por automobilistas e perseguidos pela brigada de trânsito por excesso de velocidade.

As circunstâncias em que os condena são transparentes e normais, à semelhança de tudo o que usualmente faz. Só que, desta vez, estranhamente, dou por mim a aceitar a situação e a manifestar-me solidário com ela. De facto somos os culpados, e incluo-me porque também ando, às vezes, nas estradas. Outras, como a maioria, limito-me a engrossar as filas de espera e a fazer gincana no meio das obras permanentes que a Brisa vai tentando realizar para nosso conforto e comodidade. Enquanto pagamos as portagens por inteiro.

Portanto a responsabilidade está bem atribuída. Porque de facto as estradas andam muitas vezes pelo meio da floresta, esmagam insectos, assustam animais, derrubam árvores, pintam de negro a serra d’Aire e Candeeiros. Criam condições para que ocorram acidentes, haja mortos e feridos, se percam viaturas com prejuízo para os proprietários e para as companhias de seguros. Com que benefícios? Apenas o do ministro das obras públicas cortar uma fita e percorrer o troço inaugurado sem radar a controlar-lhe a velocidade.

Depois uns cêntimos de aumento no preço dos combustíveis nem aquecem, nem arrefecem. Assim por assim, já estamos habituados a que isso aconteça com tudo. E, pelo menos, no preço dos combustíveis não somos de certeza os últimos da Europa. Era o que faltava, pelintras!

Publicado por LFV em 10:38 PM | Comentários (1) | TrackBack

Adeus amiga

Há dois dias atrás, quando a tarde se desenrolava ainda da bruma sombria da manhã, ei-la que veio. Como quase sempre vem, especialmente quando sabe que a esperam. Sorrateira, pé ante pé, traiçoeira e esquiva. Como na manhã em que, finalmente, irá regressar o nosso senhor, el-rei D. Sebastião, chegou e partiu envolta no manto de nevoeiro, sem que ninguém desse por ela. Visíveis, apenas os resultados dolorosos, trágicos, irreversíveis.

E hoje, na tua adquirida tranquilidade, marejaste de lágrimas os olhos amigos de quem te acompanhou. Desceste à terra repousada, sem dor e sem sofrimento. Aqueles que te sobraram pela vida fora. Nada será como dantes, mas a tua memória fará com que tudo continue a ser como dantes. Mais do que ninguém, tu o mereces. Adeus amiga, até sempre!

Publicado por LFV em 10:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 22, 2003

O sarilho do Carrilho

Haja respeito! O sarilho é o sarilho vulgar, comum, conhecido de todos. Substantivo masculino que, em sentido figurado, pode querer dizer roda-viva, giro, complicação, situação difícil, barulho, briga, confusão, desordem, rixa, trapalhada, dificuldade. Isto a fazer fé no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, 6.ª edição.

Mas Carrilho não! Carrilho é nome próprio. Se não fosse, era também substantivo comum e poderia querer dizer sabugo da espiga de milho, o mesmo que carolo, bochecha, face, ainda a fazer fé no mesmo dicionário. Mas pertence a pessoa, com bilhete de identidade, passaporte, habitando residência urbana, com número de polícia e porta para a rua.

Nem mais. É apelido do professor doutor Manuel Maria, comentador de televisão ainda com pouca experiência mas cujo futuro promete, deputado, cronista, redactor de cartas abertas, figura da sociedade que frequenta os jantares do casino e ex-ministro da cultura que reduziu o Dr Santos Silva a presidente de banco depois de ter acumulado durante algum tempo com a tristemente célebre Porto 2001, capital europeia da cultura.

E qual é o sarilho? O professor doutor é um homem moderno, toda a gente o sabe, dedicou-se às novas tecnologias, adquiriu um computador lá para casa, para se entreter nas horas livres – que são poucas, a vida social intensa toma-lhe o tempo todo, às vezes anda numa roda-viva, chega a parecer o Zé Castelo Branco sem a história daquelas jóias todas que lhe apreenderam no aeroporto – e navegar, como se diz, pela internet que é uma coisa que se não admite passar-nos ao lado. Tanto mais que mesmo o Sr Bill Gates, que já não precisa muito, vai aumentando a fortuna à custa dela e até os miúdos se perdem no seu interior, por vezes em sítios e com coisas que não deviam.

Construiu um “site” – quer dizer, o aspecto não é bem de trabalho feito por professor de filosofia, mas pode até ser uma vocação tardia e acredita-se, pronto. O aspecto gráfico é cuidado, as fotografias podiam ter mais luz, serem a cores, as rugas até lhe dariam um ar mais distinto, nem a Bábá havia de se importar com isso. A página de acolhimento acho que não é feliz com a alusão ao catastrofismo, o professor Marcelo não havia de gostar se soubesse, mas parece que ele perde o tempo é com mensagens nos telemóveis, de internet nem peva!

Quanto ao conteúdo o professor é, ao contrário do que parece, muito menos meticuloso que o Sr José Mourinho ou o Eng Fernando Santos que até nos treinos anotam tudo. Gastam cadernos atrás de cadernos e esferográficas atrás de esferográficas. Tem de cuidar mais desse aspecto, mesmo que depois não ligue nada ao que aponta. As pessoas gostam de ver que anota todos os compromissos, as datas dos aniversários dos familiares e amigos, as festas de benemerência no casino, a próxima vacina do caniche no veterinário, a ida ao cabeleireiro para ajeitar o cabelo e disfarçar as brancas.

As crónicas estão bem escritas e aquela sobre as pontes recomendo-lhe que a envie ao Instituto das Estradas onde poderá dar jeito. Ou eles evitam que caiam mais ou caiem todas de uma vez, então agora que nem o seu partido é governo nem o Dr Coelho é ministro para ter que se demitir. Ter, vírgula, que se da outra vez se demitiu foi porque quis, ninguém o obrigou. E os Drs Isaltino e Cruz já lá não estão porque não quiseram, o primeiro viajou a visitar o sobrinho da Suiça e o segundo a acompanhar a filha que foi estudar medicina para o estrangeiro. Mas a produção é reduzida, a dar razão à Dra Manuela e ao Eng Ludgero. É preciso aumentá-la para ver se apanhamos a Grécia, antes que a Eslováquia nos passe. Vá vendo o que produz o Dr Pacheco, aquela cabeça não para, de um lado para o outro, sempre a emitir opinião, sempre a escrever coisas. E já viu o que ele sabe, só do Dr Cunhal?

As intervenções afinal é uma intervenção com seis meses. É pouco professor, é pouco! O Dr Alberto João, num governo de aldeia, faz muito mais, mesmo com a poncha. E por cá o Dr Guilherme também se não cala, farta-se de falar, está sempre na primeira fila. É preciso insistir, sacrificar-se um pouco mais, reduzir as saídas à noite, declinar convites para algumas passagens de modelos. Custa não agradar a todos os que têm a gentileza de o convidar, mas tem que ser.

Quanto ao currículo, é curto para quem quer chegar longe e depressa. Está muito sintético! Então já imaginou a comparação com a da Sra ministra do ensino superior? Não sei quantas páginas, parece que vai ser publicado pelo Círculo de Leitores em três volumes, já viu a tiragem? Vai ser “best seller” de certeza. Reveja-o, aumente-o, mais uns colóquios, uns seminários internacionais mesmo subsidiados – desde que a Bayer não esteja metida nisso! – umas condecorações, mais medalhas, outras mordomias. Das ex-repúblicas soviéticas, arranjam-se com facilidade na origem e já encontrei algumas até na feira da Vandoma. Venha ao Porto à procura delas, tem é que vir cedo para não encontrar tudo muito escolhido.

Os livros publicados, está bem, não se lhe pode exigir que produza o mesmo do camarada Saramago ou do Dr Lobo Antunes. Com esses tem a caneta que correr atrás das idéias e às vezes fica para trás. Mas está bem, como homem tinha que escrever um e já lá está mais de uma dúzia. Já plantou a árvore? E já fez o filho como aquele Morgado, deputado do CDS?

As entrevistas, ai as entrevistas! É uma entrevista, também com seis meses de idade, o que é pouco. Ponha-se em bicos de pés, apareça nas televisões, diga coisas. Contacte as redacções dos jornais e os produtores de rádio. Nem que vá ao sábado à tarde para a TSF ser entrevistado pelo Sr Tavares Teles, desde que lhe diga sempre que quem vai ganhar é o FC Porto. Faça declarações ao Record, antes e depois dos plenários da assembleia. Diga que os franceses empolaram aquilo que ainda agora, na euforia da vitória, os nossos rapazes fizeram depois da eliminatória com eles. E seja pessoal, satisfaça a curiosidade feminina. Diga a cor dos olhos, a altura e a medida dos sapatos. Revele as marcas de roupa interior que usa, com o Sr José Castelo Branco, tudo Gucci. Ocupe as colunas do Sr Carlos Castro, vista Rosa e Teixeira, mesmo de saldo, não importa. Ponha gel no cabelo sem lhe dar esse aspecto muito penteadinho, a revelar alguma irreverência.

E ponha um contador no seu “site” para ver os resultados. Vai ver como as coisas melhoram. Ande para a frente, aqueles gajos do largo do Rato são uns tótós, vai passar-lhes à frente com uma perna às costas. Eles ainda estão na época dos livros da agência portuguesa de revistas, são poucos os que já se aventuram na erudição da D. Margarida Rebelo Pinto!

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Razão tinha eu, Dr Santana

Razão tinha eu, Dr Santana. Razão tinha eu quando aqui, há menos de um mês, puxava pela pinha a avisar quem quisesse ser avisado, dizendo que os comentadores de televisão eram mal pagos. E que, por isso, tinham de socorrer-se de actividades subsidiárias, a tempo parcial, sem garantia de descontos para a segurança social, para comporem o orçamento e, de vez em quando, comprar um fatito novo no Rosa e Teixeira, mesmo que seja nos saldos. E aí está, no seu caso pessoal, frontalmente a confirmação: viu-se impedido de participar nas reuniões da Câmara Municipal – de que é presidente por biscate – por força das obrigações que lhe impõe o contrato assinado com a SIC do Dr Balsemão.

A atitude do Dr Balsemão revela também a sua desumanidade e o seu espírito déspota e mesmo esclavagista. Fico até sem compreender como um tio Patinhas daqueles foi capaz de, mesmo nos tempos das vacas gordas, ter oferecido aquele Honda vermelho à Catarina que, entretanto, se passou para o João Gil e para o serviço público. E depois a coragem que teve de fazer o que fez com o Dr Rangel e com a senhora, mandando ambos para o desemprego com um impresso assinado para se habilitarem ao respectivo subsídio. Vá lá que o Dr Rangel teve a sorte de rapidamente arranjar novo emprego, ainda que mal pago, na estação do serviço público e com ele lá foi aguentando sozinho as despesas da casa. Mas por pouco tempo também que o Dr Sarmento, tendo menos idade e menos dinheiro que o Dr Balsemão, tem pelo menos o mesmo mau feitio. É ouvi-lo quando fala, com a fúria até se atrapalha a alinhar as palavras.

Então agora o Dr Balsemão não podia dispensá-lo para ir às reuniões da Câmara? Então isso não é má vontade, fazia-lhe alguma diferença? Só lhe falta, daqui a pouco, julgar-se no direito de o proibir de ir às docas beber um copo e piscar o olho às aves de arribação que a noite por vezes guia até lá. Se fosse a si, Dr Santana, mandava já colocar um grande painel a denunciar a situação, na marginal, logo quando se sai de Lisboa, à semelhança daqueles que o Dr mandou espetar na Rua da Madalena, por causa dos buracos. Parece que é o sítio que lhe fica mais próximo da Quinta da Marinha, não é?

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novembro 21, 2003

O primeiro ministro vai ao professor Karamba – II

Entrou na sala pequena e obscura, cheirando a bafio, com uma secretária ao fundo, sem idade e sem estilo, à qual se sentava o professor. Por detrás deste a parede, coberta por um reposteiro de tecido velho e debotado, ameaçando despegar-se e cair. Em cima da secretária uma inevitável bola de cristal – vidro vulgar de uma fábrica da Marinha Grande – como nos livros de bruxarias e nos espectáculos do Sr Luís de Matos. Depois baralhos de cartas – nos quais não viu nenhuma manilha, por isso nem davam para a sueca – de vários feitios e desenhos, conchas, búzios, cabeças de alho – deixadas como oferta pelo Sr António Oliveira antes de seguir para a Coreia com a selecção nacional de futebol – e outros adereços cujo nome desconhecia e cuja função ignorava.

Cumprimentou, que era bem educado, tinha recebido lições do grande educador, o camarada Arnaldo Matos. O professor sussurrou qualquer coisa que não percebeu mas que certamente teria sido a resposta. Depois disse-lhe que já estava fora do seu horário mas que a sua função era resolver os problemas das pessoas e que então lhe dissesse ao que vinha. Assim, de gola subida, todo embuçado, como se se preparasse para, pela madrugada, descer aos paços do concelho e proclamar a república.

Mas, para vires assim – o professor tratava toda a gente por tu, nada de igualdades como tinham querido os bolcheviques que, mesmo desaparecidos, o Dr Pacheco Pereira continua a combater feito D. Quixote – deves estar metido em boa. Bem, mas para ele não havia impossíveis, tanto assim que numa das paredes laterais do consultório tinha um quadro pendurado onde se dizia: “os problemas difíceis resolvem-se na mesma hora, os impossíveis na hora a seguir”. Referiu a sua muita e prolongada experiência, de África à América, tinha sido consultado pelo Sr Bush por causa das armas de destruição maciça no Iraque, o homem não dispensara o seu conselho. E, como vês, a guerra ele já disse que acabou, os outros é que ainda não sabem!

Tens problemas de amor, as garinas não vão na tua, os negócios não marcham, é a família, os filhos na passa? Não te sai o totoloto, é alguma coisa de inveja, – se for até que podes pagar bem, pensou e não disse – mau olhado. Anda, senta-te, fica à vontade, conta os teus problemas para os analisar com toda a precisão. Os primeiros resultados são garantidos logo após a primeira semana e feita a boa cobrança do cheque – os caloteiros são do caraças! – mas se pagares em dinheiro pode-se abreviar tudo um pouco.

A custo falou, primeiro lentamente, depois mais confiante soltou-se-lhe o verbo. Estou lixado, andam a seguir-me, metem-me folhetos do Continente na caixa do correio junto com cartas anónimas. Ando apavorado, tenho pesadelos durante a noite, mesmo quando digo que durmo como um anjo. Vejo pontes a cair, ajudantes a fazerem favores uns aos outros, outros com falta de confiança a recomendarem aos sobrinhos que depositem as economias na Suiça. Apavoro-me de todo com receio de perder o emprego, tenho filhos a estudar sem cunha metida ao ministro, ainda lhes cancelam a matrícula, agora que as propinas aumentaram.

O professor ouviu, a mão pousada sobre a bola de cristal, a vestimenta africana no corpo, o barrete enfiado na cabeça, tapando-lhe as orelhas do frio de Novembro. E disse, o assunto é bué de complicado, não está fácil, vou ter de estudar esta noite, vamos a ver se o tempo chega. Mas não te preocupes, vai para casa, toma uns valiuns à maneira – eu já te passo a receita! – vais de facto dormir como um anjo. Deixa ali o cheque na bandeja, ao portador e com tecto, não há recibo que não sou o canalizador daquela Dra Manuela Leite, já ouviste falar? Leva um cartão, está aí em cima da mesa, tem o número do telefone e o horário das consultas, liga daqui a uma semana, já te digo o resultado.

Saiu como entrou, encafuado no disfarce, descendo as escadas colado à parede. Saiu para a rua depois de ter olhado para os lados a ver que ninguém passava. Estugou a passada até ao carro do assessor onde entrou como se tivesse feito a preparação dos GNR que foram ajudar à liberdade do Iraque. Suava em bica apesar dos onze graus que a meteorologia, funcionando mal, noticiava. Por entre dentes disse apenas e rapidamente: vamo-nos embora!

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O Porto aqui tão perto...

O Porto aqui tão perto, como na canção de Sérgio Godinho. Numa tarde infernal de sexta-feira, chuvosa, com o trânsito mais caótico do que em dias secos e escorridos, mesmo de Outono. O regresso a casa, para o fim de semana, vai ser difícil para quase toda a gente, porque nem os transportes colectivos se movem no meio da trapalhada.

Devem estar os autarcas, sejam de que partido forem, a lembrarem-se das suas falsas promessas eleitorais de há dois anos. Que, ao menos, estas situações contribuam para que não sejam de novo eleitos para nenhum cargo.

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A discussão do orçamento de estado

Ouço, sem lhes prestar atenção, que felizmente não tenho pachorra para isso, as intervenções dos deputados na apregoada discussão do orçamento de estado para 2004. Que, como se sabe, é um monólogo em vários actos, mediocremente representado por actores amadores sem vocação. Mas cujos “cachets” são desgraçadamente pesados para o bolso de quem desconta. Que não têm porte decente, tropeçam nos adereços e estatelam-se nos espectadores que se sentam nas cadeiras da frente, amarrotando-lhes os fatos e sujando-lhes a graxa dos sapatos.

A Dra. Manuela Leite, diz-se perplexa quando pronuncia o seu discurso desinteressante, monocórdico, afirmando que os outros fizeram tudo mal, não estava ela para os ensinar, agora podemos todos confiar, vai-nos melhorar o nível de vida, não garante é quando. Um lado da bancada aplaude, grita eufórica, atira as esferográficas ao ar e salta nos lugares por causa da cantiga do “quem não salta...” que se ouve por aí. A outra parte da bancada ri desvairadamente, bate com os pés no soalho, parecem equinos a dar com as ferraduras no chão da estrebaria, impacientes por causa das moscas que lhes vão esvoaçando em torno das orelhas. Que abanam para as enxutar para a longe.

A Dra. Manuela Leite continua, atribuindo as culpas de tudo à mãe do Dr Salazar, sacana da pacóvia, porque haveria o filho de ter ido para Coimbra estudar e chegar a dono do país. Poderia ter feito a exame do segundo grau, com distinção e tudo, poderia ter dado um bom marçano numa merceria do Porto, onde o patrão lhe daria comida, dormida, roupa lavada, trabalho e porrada se fosse preciso. Até poderia ter casado, feito filhos, – ao menos um como aquele Morgado do CDS que a Natália Correia disse ter sido capado depois do acto – até mais tarde estabelecer-se por conta própria.

Quanto a ideias, estamos conversados: nem a mais vazia, nem a mais inútil, nem a mais absurda. Nada! Nem de um lado nem do outro. Apenas sabem atacar-se uns aos outros e retribuir-se. Quando o deputado A, por outras palavras já se vê, diz que o orçamento é uma merda, responde-lhe o deputado B não para refutar a afirmação mas para lhe dizer que não apontou alternativas. O deputado C, sobre o orçamento, diz que ninguém sabe se o “leader” da oposição daqui a três anos será o mesmo e se terá a oportunidade de se apresentar a eleições nessa condição. O que é, como se compreende, definitivamente importante para a redução dos impostos, para o aumento das pensões e para a redução da inflacção.

Quando o orçamento é aprovado uma parte da bancada cala-se e baixa as orelhas: é a oposição. A outra aplaude freneticamente, como se se risse às gargalhadas das graçolas que acabou de contar: é a maioria. Continuamos fritos!

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Vamos lá à sexta-feira!

Bem, vamos lá à arrancada difícil, quase a frio, desta sexta-feira a caminho de um fim de semana. A noite, lenta e disfarçadamente, foi cedendo o lugar a um dia cinzento, aparentemente coberto por neblina, envergonhado e comprometido. Algures, em Lisboa, a Catherine Deneuve de que se fala, recolheu a penates, ao volante de um dos seus carros de alta cilindrada, sem ter tido sucesso nos seus propósitos nocturnos. Os homens, definitivamente, estão cada vez mais difíceis. Dizendo-se que há sete mulheres para cada um deles, poucos dão conta das que lhes pertencem e ainda menos se queixam de que não encontraram as sete a que têm direito.

As temperaturas desceram nos termómetros, digitais ou de mercúrio, e a chuva sorrateiramente foi encharcando pisos de ruas e passeios até formar pequenos rios que correm pelas sarjetas. O fim de semana não promete grandes passeios, com idas à praia e banhos de sol. Ou almoçaradas de suculentos pratos regionais, em quantidade excessiva, com vinhos tintos de estalo a acompanhar, para o empanzinanço.

Folheio os jornais, não todos, e afinal está tudo bem, tudo decorre normalmente. Lá por fora como cá por dentro. Lá por fora os atentados que fazem cada vez mais mortos e mais feridos tendem a comparar-se à teimosia do senhor Bush, confluindo. Este prossegue aquilo a que eufemisticamente chamam “visita oficial” a Inglaterra, transportando-se numa fortaleza com motor e quatro rodas, mais pesado e mais difícil de destruir do que os blindados que, para libertar o povo iraquiano, ele enviou para o Iraque. Não sai à rua, diz-se que se dá mal com aquele nevoento ambiente londrino onde o tempo apenas melhora no conforto do Selfridge Parece que padece de asma e de outras doenças que os médicos não diagnosticam. No entanto, debalde e ingloriamente, cem mil pessoas concentraram-se ontem em Trafalgar Square e desfilaram por diversas ruas da cidade. Para o vitoriarem, para o aplaudirem, para lhe acenarem com pequenas bandeiras de papel. Alguns até para o aliciarem a preencher uma proposta para sócio do Arsenal e a ceder, definitivamente, aos encantos do futebol.

Por cá, como sempre, o país vai morno, modorrento, com as pessoas a queixarem-se de frio sem saberem que temperaturas se vão já sentindo por Moscovo. No parlamento discute-se o orçamento de estado. Tudo em letra e em tamanho pequenos: o parlamento, o orçamento e o estado. A discussão é para cumprir calendário, o resultado já é conhecido e nem se espera que a maioria, no final, venha a provocar quaisquer estragos nos balneários atirando com o primeiro ministro ao ar, na alegre celebração da vitória. Nem a Dra. Manuela Leite se anima e desata aos gritos, vociferando com uma energia que não é própria de quem já passou a menopausa. Como se tivesse ingerido suporíferos continua, com sonolência, a insistir em que dois e dois são seis. Com a mesma discreta convicção, para se não dar por ela, com que o Eng. Cravinho persiste na ideia, recorrente, de que dois e dois são cinco.

O Sr. José Manuel Fernandes continua em funções, como cronista oficial da república de Pacheco, pago por entidade privada, escrevendo aquilo que lhe mandam. Submisso no porte, correcto na gramática, que a Dra. Edite Estrela está à espreita. Em Lisboa o presidente da câmara vai escrevendo crónicas para jornais desportivos, pagas à linha, que ele vai discretamente publicitando em cartazes que espalha pela cidade a que só falta a sua esfíngie. No Porto o presidente da câmara continua a opor-se ao presidente do fcp e torce para que o boavista, este fim de semana, acerte as contas. Nos intervalos aparece em fotografias sentado à frente de um computador, aprendendo como se constrói um blogue. E dizem que faz progressos.

Pelo país, de alto a baixo, nevoenta, a paisagem continua. A Brisa aproveita para aumentar as portagens nas auto-estradas e a cobrá-las inteiras, para além das vigarices das obras permanentes e das filas onde os automobilistas perdem horas a fio e enterram a paciência tocando desesperadamente as buzinas. É bom que assim seja, não desejo, por mim, que o Sr. Melo possa meter ao bolso menos de oitocentos em cada mil escudos que pago à passagem por Grijó. Eu e os outros, independentemente da opção política, religião, raça ou nacionalidade.

Isto está tudo tão bom, promete tanto, que vou emigrar.Vou-me embora para Pasárgada como Manuel Bandeira, que já foi há muito tempo. Lá sou amigo do rei, lá tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei.

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novembro 20, 2003

O treinador José Romão estava lá

Há dois dias, como se sabe, a selecção portuguesa de futebol de sub 21 deixou bem assinalada, em França, a alegria eufórica com que festejou o apuramento para o europeu do próximo ano. Desmancha prazeres, pessoa contida e ponderada, o treinador José Romão insiste em dizer que a festa não foi nada de muito ruidoso. E, para o ilustrar, vai “desarrincando” mimos desta envergadura:

Em Portugal os balneários são melhores. Vocês sabem como festejam os campeões portugueses. Lá não havia mais de 10 metros quadrados de espaço para os jogadores extravasarem a alegria.

O que, traduzido do francês do cómico Zé Romão, quer dizer mais ou menos isto:

Em França, que é um país atrasado dirigido pelo déspota do Sr. Chirac, os balneários são uma merda. Apesar disso vocês sabem como nós, comedidos e responsáveis, comemoramos as coisas quando ganhamos, o que é frequente. Agora lá nem havia espaço para os jogadores tirarem as chuteiras e as cuecas.

O Bruno Vale quase tocava com a cabeça no tecto. Ao pegar num dirigente ao colo este bateu com os joelhos e os pés no contraplacado.

O Bruno Vale, que cresceu pelo caminho, chegava com a cabeça ao tecto. O espaço era tão apertado que ele teve de pegar num dirigente ao colo e elevá-lo acima da cabeça. E este, coitado, não se equilibrou e ficou de cabeça para baixo. Foi quando bateu, sem querer, com os joelhos e as patas no tecto.

Só caíram quatro ou cinco placas...

Só caíram quatro ou cinco placas... só que eram grandes...

Os armários, as sanitas e as torneiras ficaram intactas.

Os armários ficaram no sítio, perfeitamente intactos. Quando muito tirou-se-lhes o que tinham dentro e deixou-se esquecida alguma seringa já usada e sem préstimo. Nem sequer foram afastados das paredes onde estavam encostados. Nas sanitas que foram utilizadas os jogadores tiveram o cuidado de descarregar os autoclismos e usarem as piassabas. Em Portugal também já aprendemos a usar estas coisas. Ninguém desmontou nenhuma torneira, quando muito pode ter ficado uma ou outra aberta, mas se as fecharem elas deixam de correr. Os franceses não sabem disso?

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George W. Bush vai a Londres dar conselhos à Europa

Este é mais ou menos o título que o jornal Público insere na primeira página da sua edição de hoje, relativa à visita de George W. Bush a Inglaterra. E logo ele, que tem andado tanto e tão mal aconselhado lá pelas terras do tio Sam. Parece que as únicas coisas certas que lhe disseram foi a profundidade média a que se encontra o petróleo no Iraque e o custo médio de exploração por barril.

Publicado por LFV em 06:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

Afinal a America’s Cup foi apenas um pretexto!

Acabo de ouvir, no noticiário da TSF, declarações em que o inimitável ministro Arnault mais ou menos teria dito de forma liminar: a cidade de Lisboa precisa de uma intervencão urgente e de grande envergadura na sua zona ocidental. E que nesse sentido era preciso a apropriação dos terrenos da Docapesca, que foi encerrada. A possível selecção da cidade para servir de base às provas da America’s Cup, como tem sido publicitado, foi apenas um pretexto.

A TSF não costuma dedicar grandes espaços a intervenções humorísticas e surpreendo-me que o faça, numa das raras vezes em que isso acontece, logo pela manhã. Melhor seria que fizesse a divulgação prévia de forma a sintonizarmos aquela emissora e a rirmo-nos todos. Tão tristes, deprimidos e carecidos de riso andamos.

Quanto ao ministro Arnault a questão é diferente porque já se lhe conhecem as aptidões para as peças cómicas. E quando o mesmo decidir tomar-se a sério em relação a essas aptidões, como a Dra. Odete, bem podem acautelar-se os portadores de carteira profissional, como o Sr. Camilo de Oliveira.

Se os cómicos credenciados do país dispusessem já de uma ordem que os defendesse eu era mesmo capaz de sugerir que o respectivo bastonário saísse a terreiro. E proclamasse que os cómicos que há são mais do que suficientes para as necessidades do país e do governo. E que, mesmo nas galerias, toda a gente se pode rir com aquilo que há.

A única nota trágica das declarações do ministro Arnault foi o facto de referir que isso da America’s Cup foi apenas um pretexto. Confessando indirectamente que tinha havido recurso a uma patranha e que mentira. Mas no fim isso já é tão vulgar que ninguém já dá por ela. E, como ele disse da cátedra da sua sapiência, os terrenos da Docapesca são mais importantes que sete barcos de pescadores.

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novembro 19, 2003

A dolorosa despedida da vida

Hoje, numa peregrinação dolorosa e moralmente inalienável, tive de me deslocar, pela primeira vez na vida a um sector do IPO onde doentes do foro oncológico, em fase terminal, já sem hipóteses de que alguma coisa possa ser feita para diferir o galope da doença, aguardam pacientemente que o coração lhes falte.

Por um lado, num país em que a saúde é medíocre, saudam-se os cuidados postos no funcionamento de uma tal unidade. A preocupação com a tranquilidade, com o bem estar, com a dignidade humana. Tantas vezes esquecida ou atropelada quando se lida com seres saudáveis que fazem parte do nosso quotidiano.

Por outro lado a experiência dolorosa de olhar nos olhos quem se vai despegando da vida aos bocadinhos, embora muito rapidamente. E a convicção que nos fica que a despedida final está apenas presa por um fio frágil que tão só uma brisa leve chega para quebrar. Na próxima hora, no próximo dia, na próxima semana!

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Coisas do futebol que não podem ser

De forma brilhante a selecção portuguesa de futebol sub 21 eliminou ontem a França na conquista de um lugar na fase final do europeu do próximo ano. O facto assume ainda maior relevância sabendo-se que Portugal iniciou a segunda mão da eliminatória em desvantagem, depois de dias antes ter perdido em casa o jogo da primeira mão. Foi bafejado pela fortuna? Naturalmente, como sempre acontece com os vencedores, que os não há sem sorte. E esta terá, ocasionalmente, começado por uma asneira do melhor jogador francês que acabou expulso – e bem expulso! – por ter agredido a pontapé um adversário.

Depois foi o suplício do prolongamento e a roleta das grandes penalidades onde a felicidade joga sempre cartada decisiva. Não temos de que nos queixar. Fomos felizes mas é também certo que a equipa trabalhou para que a sorte a bafejasse.

Depois, rapidamente, sem ainda ter sequer abandonado o estádio, o grupo virou de sub 21 a super vândalo. Destruindo, ao que foi noticiado, parte do balneário que utilizava. É lamentável a ocorrência? Claro que sim!

Mas, pior do que isso, inqualificável e inadmíssivel, foi a posição assumida pelo treinador que disse comprender a situação. E que os rapazes o tinham feito com a alegria da celebração da vitória, até porque o espaço do balneário era exíguo. Então compreenderá o treinador que a rapaziada o esfaqueia a ele e aos ajudantes, na euforia da vitória? Compreenderá ainda que os mesmos jogadores dispam o dirigente que acompanha a comitiva e lhe queimem a roupa e os sapatos e o vergastem? Compreenderá que, à chegada, agridam a pontapé todos os jornalistas que os aguardem? Que partam as tíbias das namoradas à canelada e lhes trinquem as línguas quando as beijam? Que cheguem à freguesia e apedrejem o presidente da junta que lhes preparou a recepção e o beberete?

Palavra de honra, Sr. José Romão! O senhor que até fala com certa desenvoltura quando se trata de falar do árbitro. Como é que, sendo assim, não consegue raciocinar nada de jeito? Não dá para compreender pois não?

Publicado por LFV em 10:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

Mais 300 novas vagas em cursos de medicina

Este país é o país do faz-de-conta onde viram a luz os senhores António Maria Lisboa, Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas. Que, parecendo que não, lhe incutiram o gosto surrealista pelo qual pautua a sua vida colectiva. As pessoas são presas por terem cão e por não terem. Presas por se presumir que são criminosas e soltas por se presumir exactamente a mesma coisa. A afirmação e o seu contrário são igualmente válidos, não há verdade nem mentira.

O país não tem um sistema de saúde que não seja aquele de que o ministério faz propaganda. Com anúncios pagos nos jornais, a preço elevado. De resto, não funcionou e não funciona. O senhor ministro e os seus serviços não o sabem porque não conhecem o país ou porque, concientemente, são mentirosos.

Por todo o lado, como se sabe, faltam médicos. Entretanto vão-se empregando a lavar vidros de janelas ou na construção civil médicos que nos chegaram de longe. Dificulta-se a entrada no sistema de médicos espanhóis que, indiscutivelmente, nos fazem falta. Mesmo nas grandes cidades, como Lisboa e Porto, milhares de utentes do sistema não têm atribuído médico de família, nem podem aspirar a tê-lo num prazo razoável. Na província, como ainda se persiste em dizer, a situação é ainda muito pior. As populações estão envelhecidas, carecem de mais e melhores cuidados e chegam a não ter nenhuns. Nem cuidados, nem médicos!

Mas quando esta manhã a ministra do ensino superior anunciou a criação de 300 novas vagas para cursos de medicina, o Sr. Bastonário da Ordem dos Médicos sobiu para a cadeira e gritou que é um exagero, que não é preciso nada disso.

Porquê? Acaso sente o Sr. Bastonário que os membros do organismo que dirige vão, com mais médicos no mercado, perder prerrogativas, mordomias, privilégios e honorários? Especialmente honorários? O Sr. Bastonário, fica à vista de todos, também não faz a mínima ideia do que seja o país. E o pior é que nem quer fazer!

Publicado por LFV em 12:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

Albert Camus, 19.11.1957

19 de Novembro de 1957

Caro Monsieur Germain:

Deixei extinguir-se um pouco o ruído que me rodeou todos estes dias antes de lhe vir falar com todo o coração. Acabam de me conceder uma honra excessiva, que não procurei nem solicitei. Mas quando me inteirei da notícia, o meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para o senhor. Sem si, sem a mão afectuosa que estendeu ao garoto pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada de tudo isso teria acontecido. Não imagino um mundo com essa espécie de honra. No entanto, constitui uma oportunidade para lhe dizer o que foi, e ainda é para mim, e assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que sempre empregava ainda se encontram vivos num dos seus pequenos alunos que, apesar da idade, não deixou de ser o seu grato estudante. Abraço-o com todas as minhas forças.

Albert Camus

Camus nasceu em 1913 e morreu em 1960 num acidente de automóvel, com apenas 47 anos de idade. Em 1957, tinha 44 anos, foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. A carta que se transcreve acima escreveu-a ele, ao seu antigo mestre-escola, faz hoje exactamente 46 anos, depois de ter sido informado de que tinha sido galardoado com o Prémio Nobel.

Curta e singela esta carta é uma lição e um exemplo. Não precisava, de facto, de ser mais longa para dizer tanto como diz. E para revelar a humildade grandiosa de um quase jovem a quem, como diz, haviam concedido honras excessivas.

Que longe vão, hoje, dias e carácteres desta envergadura. Quando a mediocridade anda a par com a vaidade, a arrogância, a inutilidade e o vazio integral de um Big Brother gigantesco.

Publicado por LFV em 10:35 AM | Comentários (0) | TrackBack

Pequei: cometi uma enormidade

Pequei de facto, cometendo uma enormidade sem medida e sem perdão. Quase cheguei a pensar que ia ser excomungado. Escrevi uma mensagem que depois enviei a um conjunto de “bloggers”, após ter passado pelos seus próprios “blogs”, convidando-os a visitar o Placard. Mas fi-lo com correcção, sem insultar ninguém e sem me esconder no anonimato.

A maioria a quem dirigi o e-mail não me respondeu nem tinha que o fazer. Outros tiveram a gentileza de me responder e a amabilidade de aceitarem o convite que lhes fiz desinteressadamente. Até este momento um outro, cuja identificação propositadamente deixo na obscuridade, respondeu-me nos seguintes termos:

começa sinceramente a irritar, esta história dos convites para "percorrer"
blogues. Não chateiem pá! A blogosfera não serve para auto-promoções da
treta, não há paciência, não mandem mais estes convites, limitem-se a
escrever o que puderem, do que souberem, e o melhor que conseguirem, mas
façam-no em privado. Merda para os novos bloggers

De início, confesso, fiquei incrédulo. Depois ri-me e diverti-me imenso com a mensagem. Facilmente concluí que não frequentámos as mesmas escolas, não tivemos os mesmos professores, não recebemos a mesma educação e não tivemos as mesmas experiências pela vida fora. Ah!, e não temos o mesmo sentido de humor e de “fair play”. De forma que se não justifica a perda de mais tempo. Ponto final.

No correio que me chegou veio a resposta que um outro “blogger” deu a este irritadiço ser, de sua iniciativa e sem que, obviamente, lhe tivesse pedido socorro. Mas que naturalmente agradeço. Porquê? Porque afirma no essencial aquilo que eu, novato nestas andanças, sempre pensei. Que a blogosfera é um espaço comunitário, onde toda a gente pode circular livremente, em condições de igualdade, mantendo presente o civismo essencial que nos obriga a respeitarmo-nos a nós próprios para que saibamos respeitar todos os outros.

Publicado por LFV em 09:29 AM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 18, 2003

O primeiro ministro vai ao professor Karamba - I

O conselho veio-lhe directamente do assessor de imagem numa terça-feira, logo de manhã, ainda nem eram 11 horas, mal se tinha iniciado o forum da TSF sobre as pontes que iam caindo ao longo do IC19, logo depois de vistoriadas pelo Instituto das Estradas. Quase saltou na cadeira, de tão surpreendido, e inquiriu em voz alta: oh! homem onde raio foi você buscar essa ideia peregrina? Essa nem vinda do Dr. Garcia Pereira!

O assessor, em sussuro, recomendou-lhe que fosse discreto. Discreto porquê? Estamos sozinhos, ninguém está ao telefone, não há escutas. E daí, que houvesse, reagiria como os outros, já nem precisavam de fazer as transcrições. Sim, insistiu o assessor, mas V. Exa. sabe como são as coisas. Lembre-se do Sr. Procurador, Dr. Cunha Rodrigues. Por debaixo da alcatifa coçada e das tábuas de pinho já carunchoso do soalho havia microfones escondidos, à mistura com traças, pó de madeira, baratas e pontas de cigarros. E nunca ninguém soube quem os lá tinha posto. É como o segredo de justiça em relação ao processo da Casa Pia: ninguém o quebra e toda a gente sabe de tudo.

Pronto, está bem, concordo. Mas diga-me de onde lhe veio a ideia. O assessor aproximou-se-lhe perigosamente da orelha direita, podia sentir-lhe a respiração morna e o bafo cavernoso do tabaco, à mistura com um distante odor a colgate branqueador. Chegou a sentir receio de que se aproximasse demasiado e lhe fizesse cócegas.

E o assessor, muito baixinho, foi-lhe contando. Foi esta manhã a minha mulher enquanto eu, ainda de cuecas, – V. Exa. desculpe mas é assim, a gente, em casa, põe-se à vontade, temos as janelas fechadas, ninguém nos cusca – dava um jeito à barba, antes do duche. Foi lá no serviço dela, na escola que o Dr. Justino quer fechar para o ano, depois tenho de lhe pedir um favorzito sobre o assunto, mas adiante. Uma colega contou-lhe que a presidente do conselho directivo lhe dissera que a encarregada das empregadas de limpeza, nessa manhã, tinha encontrado nas camionetas do Barraqueiro uma amiga que é praticante – contratada a recibo verde – no ministério do Dr. de que, para já, não digo o nome. E que esta, em conversa com um terceiro oficial, fora informada que um motorista do chefe de gabinete do secretário de estado de que, para já, também não digo o nome, que este dissera que o Dr. X – vou passar a chamar-lhe assim, sabe como é, as paredes têm ouvidos! – lá tinha ido e que estava muito satisfeito com os resultados.

Oh! homem, realmente. Se eu não ouvisse nem acreditava. Mas está bem, traga-me um recorte do anúncio, bem dobradinho para ninguém sequer sonhar o que é, telefone a marcar, para tarde, quando já fôr escuro e tempo de lua nova, não quero ser identificado, nem sequer visto. Depois diga-me, vamos dispensar o motorista e não utilizamos o carro oficial que dá muito nas vistas, os batedores põem-se-lhe à frente com as sirenes aos gritos, quase a cem à hora. Claro, a segurança é menor, o risco aumenta, o desconforto do seu carro aguenta-se. É perto, é pouco tempo.

Às oito da noite o assessor bateu-lhe à porta do gabinete, esperou que o mandassem entrar, abriu a porta e chegou-se ao pé da secretária. Disse: podemos ir, já cá não está ninguém, a menina Andreia saiu agora mesmo a correr, tinha o namorado à porta com o carro em cima do passeio. A limpeza não é feita agora, só de manhã cedo, podemos sair à confiança.

Está bem, você estaciona o carro na rua, sob as árvores, a alguns 200 metros de distância e mantém-se ao volante, disfarçadamente. Faço esse percurso colado à parede, com a gola do sobretudo subida, a cabeça inclinada para o chão, seria um azar do caraças, ninguém vai aparecer e reconhecer-me. Vou parecer um conspirador dos tempos glororiosos da clandestinidade do Dr. Cunhal, nem eu sequer ainda conhecia o grande educador da classe operária, mas não há-de ser nada.

Chegado à porta esgueirou-se para dentro do prédio, antigo e degradado, com baldes de lixo no vão das escadas e estas empinadas, de madeira, sem iluminação, uma só lâmpada incandescente a cair por uma parede. Subiu ao primeiro andar, soturno e semi mergulhado nas trevas, com as tábuas do soalho a rangerem sob o peso do seu corpo e do seu cargo. Tocou à campaínha e mal esperou por resposta. Entrou. A recepcionista, de aspecto muito escandinavo recebeu-o e convidou-o a sentar-se. Disse-lhe: vou avisar o professor que o senhor já cá está, não vai demorar. E virou costas, sumindo-se pela porta em frente que teve o cuidado de fechar de novo.

Pensou: não é desajeitada de todo o raio da cachopa e não parece ter nascido na Nigéria. Puxou do recorte que o assessor lhe entregara, dobrado em quatro. Só leu as primeiras linhas que rezavam:

Gabinete de Astrologia
Prof. Karamba
“ O Fenómeno”
Astrólogo Médium Africano, 42 anos de experiência
FACILIDADES DE PAGAMENTO – PAGAMENTO APÓS O RESULTADO

A recepcionista voltou e disse-lhe: faça o favor de entrar. O professor espera-o. Guardou apressadamente o papel no bolso e lá foi. Bem espero que isto resulte, a gente tem de suportar cada uma!

Publicado por LFV em 11:05 PM | Comentários (0) | TrackBack

Parabéns ao Rato Mickey

O Rato Mickey, apesar dos anos passados e das arrelias que a Minnie, nesse período, lhe tem dado, completa 75 anos. E ganha direito a primeira página no jornal Público onde se apresenta em óptimo estado de conservação, exuberante, de riso aberto e a cores. Nem as biqueiras dos sapatos denunciam toda as topadas que, por estes anos fora, terá dado pelas pedras da vida. É obra, até porque nem o despreocupado Gastão, – não é esse, deixem o cão em paz! – com sorte sempre e em tudo, estará seguramente tão bem conservado.

Mas o Mickey está assim porque sempre foi assim: um optimista que ri com todas as coisas que a vida lhe traz. Sem preocupações de maior, que essas as deixa ao tio, sem tempo que lhe chegue sequer para acabar de contar as moedas em que vai tomando banho. A fantasia é a sua realidade e foi a de mais que uma geração. Sem necessidade de se ter armado em pistoleiro atravessando o Arkansas e sacando do revólver mais rápido do que a sua sombra. Sem necessidade de desencadear guerras de libertação nos países de África e sem ter que se alistar em corpos de mercenários ou da legião estrangeira. Sem se ter transformado em nenhum Papillon deportado e evadido da Guiana. Sem se importar muito com as fontes de energia e com o petróleo, fosse este da Nigéria, da Venezuela ou da Arábia Saudita. Deixando passar-lhe ao lado o Afeganistão e todo o partir pedra que por lá foi, e ainda vai. Preocupando-se com o que o rodeia, atemorizando-se com o que ocorre à sua volta – porque os bonecos também se assustam! – mas não sobrevalorizando a questão do Iraque, achando que não vale a pena ir para lá apregoar que vai pôr ordem naquilo tudo. Para depois não pôr ordem em coisa nenhuma.

Quanto ao resto do seu currículo, muito resumido, por causa de quem não tem muito tempo disponível para o ler, está aqui. Acompanhado pelos sinais essenciais de identificação. Mesmo que não haja risco de ser confundido seja com quem for, porque é único. Congratulations!

Publicado por LFV em 03:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

A lufada de ar fresco

Da secção Diz-se, da edição de hoje do jornal Público:

Rui Rio é uma lufada de ar fresco nas relações entre a classe política e os dirigentes desportivos.
Rui Costa Pinto, Visão on-line

Na guerra entre Rui Rio e Pinto da Costa, a grande obre da cidade tem assinatura do presidente do FC Porto. Até ver, o Estádio do Dragão é a “Expo” da cidade do Porto.
Judite de Sousa, Record

De onde se conclui, sem alternativa, que a guerra da D. Judite se Sousa é a lufada de ar fresco do Sr. Costa Pinto. Ou, por outras palavras, quanto maior for a frequência da estalada entre ambos maior será a lufada de ar fresco que percorre a cidade. Ou ainda que quanto mais tempo durar a estalada mais estádios do Dragão serão erguidos até se chegar a uma altura em que o seu número já será uma nova “Expo”. E que, sendo assim, se terá cumprido o desiderato nacional de garantir o deslize financeiro e o défice que, preocupantemente, poderiam ter estado em causa. O plano de convergência, pronto, fica para a Dra Manuela Leite. Mais tarde!

Publicado por LFV em 11:44 AM | Comentários (0) | TrackBack

Os excessos da publicidade

Nós, portugueses, somos excessivos em muitas coisas. Talvez por estarmos habituados a ser sempre pequenos em quase tudo. Na União Europeia não estamos sequer muito mal posicionados, em 15.º lugar. Pena é, todavia, que para já aquele organismo só tenha quinze membros. Como se isso não bastasse, desde que sintamos alguma motivação, julgamo-nos logo capazes das maiores façanhas. Assim, de imediato, sem trabalho, por obra e graça do Espírito Santo.

Não poderiam as coisas ser diferentes quando se trata de futebol, uma coisa que, ainda por cima, apaixona e aliena multidões. Isso se viu ainda no ano passado, quando se realizou o campeonato mundial Coreia-Japão para que nos conseguimos qualificar. Ainda não tínhamos partido e já levávamos tudo à frente. No momento da partida o próprio primeiro ministro pediu que a comitiva – como sempre numerosa, à boa maneira, porque alguém paga – trouxesse a taça. Foi o que se viu. Tínhamos sido sorteados num grupo fácil, era canja, mais difícil era limpar o cu a meninos, ninguém se preocupasse. À frente da comitiva o Dr Madail parecia o Alexandre Magno, sem espada mas de peito atirado para diante. Começámos humilhados para acabar humilhados e vencidos. E regressámos a casa.

Corre-se visivelmente o mesmo risco com o europeu do ano que vem, cuja organização nos foi atribuída em resultado do trabalho empenhado do Sr. Carlos Cruz. Imperial, o Dr. Madail não foi capaz de resolver o contrato que havia com o seleccionador, o Sr. Oliveira. Este, que tem filhos menores e família para sustentar, meteu-se em copas e ficou a aguardar. E continua. Até que um dia destes, pela calada da noite, da mesma maneira que viajavam os deputados fantasmas, o imperial Dr. Madail se decida por assinar o cheque e pagar-lhe o que ele reclama.

Mas, mais do disso, interessa-me agora o europeu de sub-21, para que não conseguimos o apuramento directo, no grupo a que pertencíamos. Fomos repescados e temos que disputar uma eliminatória – a que, na Cantareira, já o Chico Fininho chamava “play off” – a duas mãos, com a França. A França, já Eça de Queiroz o escrevia, é um país. Pois, e daí?

A primeira mão disputou-se em Portugal, não correu bem nem mal, perdemos. E perdendo ficou em muito maior risco o nosso apuramento porque os jovens franceses não estão habituados a jogar com bola de trapos, o que nos dava jeito. Hoje, em França, disputa-se a segunda mão. É evidente, há que acreditar até ao fim, e prognósticos são para fazer, como dizia o outro, apenas quando o jogo tiver terminado. Mas a comunicação social, com relevo especial para a RTP do serviço público, tem exagerado. E vai-se fazendo crer, demagogicamente como se fossem políticos, que não corremos risco nenhum e que voltaremos apurados. Mesmo tendo feito mal o trabalho que tínhamos que fazer em casa.

Houvesse mais uns dias e, mesmo antes de jogarmos a eliminatória contra a França, já seríamos campeões. Porque somos os melhores? Não, porque somos os mais convencidos e porque nos esquecemos facilmente do que significam as palavras humildade e trabalho. Para além de algum demagogo, na RTP, pensar que informa ou legitimamente publicita alguma coisa nos termos rídiculos em que o faz.

Publicado por LFV em 09:52 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 17, 2003

As medicinas alternativas são a solução para o país

O Dr. Barroso não resolve os problemas do país porque não quer. O que tanto mais de criticar quanto é certo que a solução está à sua disposição pelo preço do Jornal de Notícias.

As especialidades são variadas: professores, astrólogos, astrólogos parapsicólogos, mestres professores, cartomantes videntes, astrólogos.

O tema, aliciante e complexo, merece outro estudo e outro "post" que se reserva para os próximos dias. Mas quando se arranja e mantem emprego e o número de desempregados continua a crescer é porque o Dr Bagão não quer ir à consulta. Ou será que ele está a ir à consulta errada?

Publicado por LFV em 11:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

Dia do não fumador

Comemora-se hoje o dia do não fumador. Um assunto em relação ao qual, se me deixarem, manifesto sem cerimónia, o orgulho da minha vitória. Porquê? Porque hoje, 17 de Novembro de 2003, se completam 10 anos, 8 meses e 15 dias sobre o dia em que, a 2 de Março de 1993, deixei de fumar. Ou melhor, logo às primeiras horas da manhã fumei, até hoje, os dois últimos cigarros que me tinham sobrado de um maço consumido no dia anterior.

Nos dias anteriores, e desde há algum tempo, vinha sistematicamente fumando cerca de 3 maços, quase 60 cigarros por dia. Com o pequeno senão, positivo apesar de tudo, de nunca ter fumado na cama ou em jejum. Deixei os cigarros apenas e só, felizmente, por vontade e decisão próprias. Não houve nenhuma situação particular que me tivesse assustado antes e também ninguém me coagiu a fazê-lo.

Não tomei nada nem tive a preocupação de substituir a nicotina fosse por que meio fosse ou fosse pelo que fosse. Foi complicado? É evidente que foi complicado, que as duas a três primeiras semanas foram completamente insuportáveis, sem que conseguisse ser uma pessoa estavelmente tratável em termos de comportamento. Mas consegui sempre sobrepor a vontade e a concentração às reclamações do organismo solicitando o que lhe havia retirado. Contei as horas, os dias, as semanas, até sentir claramente que chegara a uma fase em que tudo passara já para o meu controlo. Daí para a frente a questão passou a ser apenas comigo. Como o é hoje! Que esta experiência motive os poucos que aqui tomarem conhecimento dela. No sentido de que possam consciencializar-se de que é possível e de que também são capazes de o fazer, desde que o queiram.

Mas noutra perspectiva, diria globalizante, a sociedade é supinamente hipócrita quando arranja um dia por ano para assinalar seja o que for: o não fumador, a criança, o ambiente, o dia sem carros. Porque não serve isso para mais do que para chamar a atenção. Quando os fumadores, ou as crianças, ou o ambiente merecem e precisam de muito mais do que isso.

Publicado por LFV em 06:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

O desemprego, segundo o INE

Com pouco destaque, os noticiários desta manhã têm, apesar de tudo, referido que o número de desempregados cresceu em Portugal, nos últimos doze meses, qualquer coisa como 58.000 pessoas. Os números são abstratos, não têm por si sós, nenhuma espécie de significado. É atentar nos resultados de todos os actos eleitorais que não fazem sentido antes de serem interpretados pelos dirigentes partidários. Para que, depois disso, façam ainda menor sentido. Ou nos resultados do futebol, antes de se pronunciarem os respectivos treinadores. Sem aguardarmos pelas opiniões, abalizadas, dos dirigentes e da Cinha Jardim.

Mas, mesmo assim, mais 58.000 desempregados em doze meses quer dizer mais ou menos isto:

Mais:

4.830 desempregados por cada mês decorrido;
1.115 desempregados por semana;
159 desempregados por dia;
7 desempregados por hora
1 desempregado por cada dez minutos.

E ainda, se considerarmos que o país tem dois milhões de pessoas que trabalham, que isto significa que três em cada cem pessoas ficou sem emprego e sem rendimentos. Por isso se compreende a solidariedade do ministério do Dr. Bagão: a seguir à perda do emprego é essencial a redução do subsídio. É evidente que os novos desempregados irão progressivamente adoecer, por falta de recursos. É melhor prevenir desde já, que homem prevenido vale por dois. O melhor é mesmo reduzir também os subsídios de doença. Já!

Não faltará muito para que o ministro da saúde, atento, venerando e obrigado, venha anunciar que os medicamentos deixam de ser comparticipados. Porque os médicos, para as consultas, já pouco existem e quase se não dá por eles. E ainda para que, constrangidos e chorosos, os presidentes das câmaras venham também anunciar como inevitável a subida brutal dos espaços nos cemitérios. Ao serviço, sempre, das populações que servem.

Os cangalheiros, os de profissão, esses exultarão com a morte. Mas também sempre foi assim, é por ela que eles vivem. É à custa dela que eles medram. Sempre lamentando muito, de fraque preto e factura no bolso!

Publicado por LFV em 03:17 PM | Comentários (0) | TrackBack

Pronto, já está tudo contente

A inauguração do estádio do Dragão foi ontem e pronto, passou à história. Houve almoço, missa, beberete, visitas, magias, futebol e fogo de artíficio. Agora dizem que é preciso dar tempo para que a relva cresça, seja aparada e se consolide.

Muita gente disse de sua justiça, porque esta gente importante morre por dizer duas palavras. Para uma televisão, uma rádio, um jornal ou uma revista. Como o que é importante é aparecerem a dizer qualquer coisa, muitas vezes não pensam nas palavras e frequentamente não sabem de todo o que dizem.

Não se pretende nem transcrever nem analisar as súmulas das declarações feitas. Mas algumas merecem registo.

Ministro Arnault
Disse que o governo se congratulava com o dia. Mas não falou nem em nome dele, nem em seu próprio. Preferiu falar em nome dos contribuintes que, de norte a sul, orgulham-se de ter participado neste projecto, que é uma referência da arquitectura portuguesa. Creio que se referia apenas aos contribuintes do continente. O que deixa injustamente de fora os governos regionais que não são abrangidos pela linha norte-sul. O Dr Jardim, especialmente, há-de sentir-se discriminado porque também deu para o peditório. Por mim, não me recordo de ter passado procuração ao ministro. Congratulo-me com muita coisa, em muitas condições e, por maioria de razão, com o estádio inaugurado. Na condição de contribuinte? Essa não!

Dr Gomes, ex-presidente da Câmara
Achou a festa ao nível de um estádio de grande qualidade e do desempenho do F. C. do Porto. Não referiu, seguramente por esquecimento ou por nervosismo, que o Dr. Rui não tinha entendido nem compreendido isso como qualquer pessoa com Q.I. normal.

Ricardo Carvalho, jogador
Acha que foi pena o relvado estar em más condições e que, se continuar assim, é melhor continuar a jogar no estádio passado à reforma. Então oh Pintinho, um estádio novo, tão bonito, e o relvado já está estragado?

Martins dos Santos, árbitro
Orgulhoso por ter participado na festa e por levar a bola do jogo, autografada por todos os jogadores, gratuitamente, sem pagar nada. Não mostrou cartões a advertir ou a expulsar fosse quem fosse. E diz que não é virgem. Essa situação, de não mostrar cartões, entenda-se.

Ramalho Eanes, ex-presidente da República
Achou a festa bonita e diz que ela foi do F. C. do Porto e do seu amigo Pintinho. Esqueceu o orgulho dos contribuintes e do Zézé Camarinha.

Hermínio Loureiro, ajudante de ministro
Assim que recebeu o convite ficou em pulgas, a ver que nunca mais chegava a hora. Diz que os portugueses todos devem estar satisfeito pelo Estado ter participado com apenas 25 por cento.

Luís de Matos, mágico
Adivinhou o resultado do jogo com uma semana de antecedência. Promete para breve a adivinhação sobre o vencedor do campeonato. Acha que a sua carteira de encomendas vai aumentar, com muita gente a requerer os seus serviços. Os árbitros impacientam-se com a concorrência.

Reinaldo Teles, dirigente do FC Porto
Disse não haver palavras. E calou-se.

Sardoeira Pinto, dirigente do FC Porto
Disse que o estádio era o prolongamento do céu metido na terra. E é mais perto. A quem interessar, é apanhar a VCI e comprar bilhete.

Manuel Moreira, governador civil
No meio dos 52 mil participantes deu pela falta do Dr. Rio, mesmo que o tivesse informado e insistido com ele, com antecedência, para que estivesse presente. Este atrasou-se e não conseguiu bilhete, pensa ele. Fica para a próxima.

Publicado por LFV em 11:40 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 16, 2003

Dr. Fernando Gomes, cronista

O Dr. Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara de Vila do Conde, ex-presidente da Câmara do Porto, ex-ministro da Administração Interna e Deputado desde sempre, assina em cada domingo que passa uma crónica no Jornal de Notícias. Assinalada por uma pequena fotografia com alguns doze anos de idade e salientando, em letras pequeninas, o cargo à sombra do qual se crê que actualmente subsiste. Compreende-se que a sua condição de deputado não mereça maior destaque do que aquele que o corpo oito oferece. Realmente ser deputado não é, nos dias que correm, cartão de visita que se apresente a ninguém. Sendo apenas 230, os milhões de eleitores que lhes garantiram lugar no hemiciclo ignoram-nos, vaiam-nos, desprezam-nos e insultam-nos. Poderia pensar-se que esse tipo de tratamento seria injusto ou, pelo menos, equívoco e que, por isso, despertasse reacções contrárias. Mas não, cada nova personagem os carrega de mais e mais expressivos qualificativos e lhes dedica ainda maior indiferença.

O Dr. Fernando Gomes, como cronista, é aquilo que segundo se diz tem sido em todas as outras funções: faz-se pagar porque é com o maganão que se compram os melões e se frequentam as marisqueiras. De resto, não tem uma ideia que seja, mesmo pequena, mesmo inofensiva. Ao contrário, exibe a sua atávica arrogância endémica e descarrila facilmente para o disparate. Desde que pressinta as luzes de um qualquer projector faz pose de Rock Hudson a que faltam quarenta centímetros de altura e ajeita o capachinho que lhe transforma o luzídio cruto da cabeça em atraente cabeleira, presa por arames e segura à força de lacas e fixadores. Para além disso destila ódio com a mesma cadência, de relojoaria, com que um alambique do Douro antigamente produzia aguardente.

Este domingo sai, venenosamente, em defesa do secretário geral do seu partido que, certamente, melhor aplaudiria o seu silêncio sobre o assunto. E quando toda a gente diz que é preciso que o alarido cesse à volta do processo da Casa Pia lembra-se ele de o desenterrar. Mas é isso apenas um pretexto porque o jornal lhe não paga certamente por páginas vazias. No fim era inevitável o P.S. sobre a inauguração do estádio do Dragão, uma peça de retórica que se transcreve e que inclui o beliscão:

Hoje inaugura-se o magnífico Estádio do Dragão. Já aqui antes escrevi sobre a importância da renovação urbana que esta infra-estrutura desportiva suscitou. Mais do que um estádio de futebol temos, por via dele, o começo de uma profunda alteração numa zona desqualificada da cidade. As duas avenidas e a praça envolvente são, como é público, apenas uma pequena amostra. O Porto está de parabéns. Só é pena que quem representa a cidade não o tenha, a tempo, percebido.

O Dr. Fernando Gomes habituou-nos, infelizmente, a vender a alma ao diabo. A prazo e a prestações, correndo mesmo o risco do crédito mal parado. Desde que daí recolha alguns benefícios de ordem pessoal. Ainda nas últimas eleições autárquicas ficou para a história o seu negócio com o rival da concelhia do Porto, arquitecto Gaspar. Deixou a este a liberdade de escolher para a vereação os familiares, os amigos e os parceiros do jogo da sueca desde que lhe fosse reservado o primeiro lugar da lista. Depois passou os meses e o período de campanha a apregoar que era apenas candidato a presidente da câmara. Um cargo para cujo preenchimento nunca houve, somo se sabe, eleições específicas. Acabou derrotado, de forma inglória, ao primeiro assalto, indo ao tapete e ali ficando, até que o juiz desse por terminada a contagem de protecção. Levantou-se a custo, com a cara feita num bolo e o corpo dorido para o resto da vida.

Nunca, até hoje, se conformou com a derrota. Aproveita cada momento para diminuir o adversário que lhe acertou, sem apelo, um soco directo nos queixos e o pôs de borco. Ainda na edição de hoje, com a mesma sem vergonha de sempre, vem dizer que o presidente da Câmara de Gaia seria um óptimo candidato a presidente da Câmara do Porto. Já não aspira a ganhar nada, coitado. A sua vitória já só é a derrota de quem ele não suporta, desde que se verifique. Toda a gente se ri quando invoca como obra sua o Porto 2001, capital europeia da cultura. Que deixou os mais importantes largos transformados em buracos cheios de águas pútridas e o “ex-libris”, a Casa da Música, apenas pronta para inaugurar, se não houver atrasos, em 2004. Depois de ter custado algumas vezes mais do que inicialmente se previra.

O que me move contra o Dr. Fernando Gomes? Ora!, rigorosamente nada. Antes pelo contrário: sempre gostei de circo e me diverti imenso com os palhaços. De modo genérico apenas me revoltam a arrogância, a mediocridade, o convencimento, a presunção, a falta de princípios. Não tem aquele deputado, quanto a estes atributos, a importância que possa parecer nem a que eventualmente possa deduzir-se do texto. Ele é apenas um cromo de uma caderneta de colecção. Que está cheia. Dele só não gosto mesmo é do capachinho!

Publicado por LFV em 10:35 PM | Comentários (0) | TrackBack

Lili Caneças para assessora do Ministério da Cultura

Passamos a vida, injustamente, a criticar as tias da linha e a realçar-lhes a ignorância e a falta de cultura. Quando é certo que não é bem assim porque elas vão lendo em média mais do que o português comum. Pelo menos no que se refere a revistas ditas do coração.

Salvo a presença nas festas para que são convidadas, e a que comparecem apenas por obrigação, para não fazer feio, são pessoas regra geral recatadas e discretas. Mas quando abrem a boca, são geralmente notícia. E não é pela mosca, é pelo disparate.

Não está neste caso a afirmação profunda de Lili Caneças ao jornal 24 Horas ao qual declarou que “o mundo era uma bolinha para ela brincar”. Coitadinha, só uma bolinha para brincar!

O professor Carrilho, se ainda fosse ministro, não a deixava escapar. Quanto ao ministro Roseta vamos a ver. Talvez seja sensível aos atributos das vizinhas e a chame a ser uma das suas assessoras. O país ficar-lhe-á emocionadamente reconhecido.

Publicado por LFV em 06:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

O canalizador da Dra. Manuela Ferreira Leite

Tinha que ser, logo hoje. Como as febres dos filhos pequenos que lhes chegam sempre aos fins de semana. Quando o pediatra assistente não responde de nenhuma das moradas que se lhe conhecem nem atende nenhum dos telefones que não está classificado como confidencial. Logo de manhã, a pinga na torneira do bidé. Contínua, grossa, frequente, a encharcar o chão da casa de banho, a ir por aí fora como um pequeno rio, invadindo o corredor. E agora? Domingo, toda a gente na cama até mais tarde, dia de descanso, erguer apenas a tempo de tomar o banho da ordem, ir à missa das onze e seguir directamente para o restaurante do costume. Mas há coisas providenciais, graças a Deus! Então a Dra Manuela Ferreira Leite não me ajuda? Ela, o seu anúncio na rádio e o canalizador que a apoia – sim, também politicamente!

Telefonei. Era um número qualquer daqueles que começa por oito e qualquer coisa, é apenas o custo de uma chamada local, ao domingo ainda é mais barato, nem se vai notar na conta do telefone. Atendeu-me uma gaja melosa, com uma voz que parecia estar a falar-me de Cabo Verde, a dizer que a minha chamada estava em lista de espera, que aguardasse até ser atendido. Disse-lhe que o meu problema não era ser internado em nenhum dos hospitais do ministro da saúde, que não precisava de ser operado e que, sendo assim, não precisava da lista de espera para nada. E que precisasse! Disse-lhe ainda você deve estar enganada, não anda a par do que se passa, já não há listas de espera nem para ser operado. O ministro ainda a semana passada gastou uma porrada de massa a dizê-lo em anúncios nos jornais que, segundo me consta, foram muito apreciados por todos os analfabetos do país. Nenhum escreveu a dizer que não percebia como podia estar há cinco anos à espera de ser operado a uma apendicite e nada.

A fulana calou-se, deixou-me falar, não esperou que eu lhe pendurasse no telefone todos os argumentos que queria, interrompeu-me antes de ter acabado, com a mesma lenga-lenga do início. Devia pensar que eu era surdo! Mas, ao menos, foi razoavelmente educada, deu-me tempo a que dissesse alguma coisa. Muito mais do que os deputados nos programas de televisão ou nas sessões da assembleia, onde falam todos ao mesmo tempo para não dizer nada. Ainda me lembro do Dr. Sousa Tavares – não, o do Porto não, o pai, o pai! – ter mandado calar um deles que o interrompia. De uma maneira que até o cardeal Cerejeira e o bispo do Porto – sim, mesmo mortos! – coraram. E até o Dr. Mota Amaral, que ainda aí está e promete continuar, quando se lembra benze-se disfarçadamente e reza um padre nosso por entre dentes, muito a correr, como se estivesse a gravar um anúncio a dizer os preços dos automóveis.

Depois a conversa mudou. Rapidamente, era domingo e só tinham passado vinte minutos. Se quiser ser atendido hoje carregue um, se quiser ser atendido na segunda-feira carregue dois, ..., se não quiser ser atendido carregue zero. Desatento, fui lento de mais a perceber e a agir. A conversa recomeçou e, prevenido, carreguei no um. Rápido e com força. Por dez vezes ouvi de novo o sinal de chamada, até que uma outra voz me atendesse.

Bom dia. Canalizadores associados, fala Sónia Andreia, em que posso ajudar? Contei-lhe a minha história, a torneira avariada, o corredor transformado em rio, desnivelado, a água a sair por debaixo da porta. Perguntou-me a morada e quando acabei de lha dizer perguntou-me, agreste, onde fica isso. Expliquei-lhe e perguntou-me se era em Santiago do Cacém. No Porto, menina, no Porto, então de onde me atende? Atendo-o de Fornos de Algodres, onde funciona o nosso “call center”, como quer que eu adivinhe onde está? Vou contactar o nosso técnico e ele irá resolver o problema. Mais alguma coisa? Respondi que não e desliguei quando ela ensaiava nova salvé raínha como se fosse o Simão Sabrosa a declamar a Ode Marítima. Capaz de ressuscitar o Fernando Pessoa com fígado e tudo, apesar do bagaço.

Quando me tocaram à porta da rua, atendi. O homem subiu, fato-macaco de ganga azul cheirando a lavado, boné do Benfica na cabeça, - não fosse a raça e a lesão no joelho e até parecia o Pedro Mantorras - um saco de viagem a tiracolo. Quando me chegou à porta do apartamento perguntei-lhe o nome, há quantos anos trabalhava nisto, que tal era a Dra. Manuela como patroa, se lhe pagava as horas extraordinárias ou se era como os bancos. As respostas, naturalmente, já vocês as sabem todas, e deixei-o entrar.

Fez o trabalho com o requinte de quem saboreia um petisco de nome esquisito, como os que servem nas festas que a Cinha Jardim organiza para o Paulo Portas, lá no forte de S. Julião. Demorou! Depois, sim senhor, passou-me a factura: seis contos pela deslocação, outros seis pela mão de obra e mais três por uma bucha de plástico que meteu na torneira: ao todo quinze contos. Que desculpasse não ser em euros, mas não tinha trazido a tabela de conversão e a patroa também não levava a mal: queria era a massa e certa, que se não enganasse nos trocos. Ah! quase lhe passava, mais dezanove por cento de Iva, é claro.

É que pagando todos, todos ganham porque pagam menos. E sacou-me mais quase outros três contos deixando-me na mão um papel que não serve para nada, nem para isso. Agora vou passar o resto do domingo a limpar a água do chão e as pegadas que o homem deixou espalhadas por todos os cantos. A pensar como é que tendo pedido a factura e tendo pago mais eu vou lucrar logo de seguida e pagar menos.

Como não acredito que encontre resposta depois amanhã, que é segunda-feira, telefono à ministra para me explicar, que é para isso que ela serve. Se estiver ocupada que passem a questão a um assessor qualquer, se este ainda não tiver sido nomeado director de jornal nenhum. Ah!, e se me souber responder não é?

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novembro 15, 2003

A esta hora, com os jornais ainda por ler

Fui hoje para o meu dia no campo esperando um dia de sol. Tranquilo, como são os dias de outono, com as folhas das árvores a cairem, vencidas pelo vento que às vezes nos sopra de leste. Comprei os jornais do costume antes da partida mas, até agora, ainda nem sequer os cheguei a folhear.

Apenas ao almoço, enquanto esperava por umas febras grelhadas com arroz e salada, dei meia vista de olhos ao jornal que a casa tinha disponível. Um jornal que não uso, cheio de letras muito grandes na primeira página e anúncios com letras muito pequeninas em algumas das páginas interiores.

E, no meio, lá vinham como lenitivo para o meu tão abalado orgulho de ser português. As fotografias do “jet set” nacional em festa de arromba nas terras de sua magestade a raínha Isabel II. Primeiro o Zé Castelo Branco, sempre ele, a confraternizar com um rapaz alto e forte, com aspecto de mineiro, que terá tido por uma das suas últimas actividades ser amante da malograda princesa Diana. Ali os dois, lado a lado, tu cá tu lá, trocando cartões de visita e princesas assim mesmo, à ganância. Sempre o mesmo finório, o Zé, que nem percebo como fala ele inglês. Que na escola, lembro-me como se fosse ontem, soletrava as palavras, engolia em seco metade das sílabas e lançava-nos perdigotos quando pronunciava as sílabas tónicas. Para escrever o nome utilizava a sua Bic cristal, de ponta romba e cristal lascado, que lhe borrava as letras e enfarruscava os dedos para o resto da semana. Agora – o que lhe não valeu a Betty! – fala inglês melhor que o Dr Mário Soares, anda de braço dado com o sacana do mineiro que se deitava com a princesa e, se calhar, ainda vai cometendo as suas infidelidades.

Quanto a escritas, estou mesmo a vê-lo, a usar uma Dupont banhada a ouro, qual banhada a ouro, em ouro de lei, de dezoito quilates, com contraste e tudo, suave como uma pena. A adivinhar-lhe as intenções e a desenhar-lhe as letras uma a uma, antes dele as pensar. A passar cheques, em dólares que é uma moeda esquisita assim como o euro, que dizem que vale muito mas que se gasta muito depressa, sem render nada.

Noutra fotografia o tia Paula Bobonne de braço dado com “sir” Roger Moore, 007 aposentado, com período de validade expirado, parecendo-se assim com um achado arquelógico das escavações de Conimbriga. Um género de Lili Caneças, no masculino, mas sem as quarenta e oito intervenções cirúrgicas que esta fez nos últimos dezoito meses, para parecer apenas cinco anos mais velha do que a Sé de Coimbra. Ela, a Paula, também não terá já os seus dezoito aninhos, mas não deixa de ser um borracho ao lado da antiguidade. E, quanto a etiqueta e às respectivas regras, certamente que muito o “sir” vai ainda aprender com a tia. Que ela é um autêntico livro aberto!

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Regresso a casa

Regresso a casa de dentro de duas horas de estrada, polvilhadas por uma chuva miúda, acompanhada de alguns despistes ao encontro das barreiras metálicas de protecção. Aparentemente sem consequências de maior, para além dos sustos e das chapas retorcidas que reclamam reboque e oficina.

Durante o percurso algumas vezes me pergunto como é possível que, em tanto tempo, Portugal só tenha tido dois homens sentados ao volante de um carro de fórmula um. Mário Araújo Cabral, primeiro, que se desfez quase em bocados num acidente de que nem ele sabe como conseguiu sair vivo. Pedro Lami – que alfabeto português não tem “y”! – depois, que quase acabou feito em bocados como o primeiro, ao volante de um daqueles carro que vão para as voltas de qualificação e que, por vezes, conseguem um dos últimos lugares da grelha.

Mas não obtenho resposta e a pergunta tem toda a razão de ser. Na estrada o automobilista português é de longe superior ao Barrichello ou ao Schumaker. Ultrapassa pela direita ou pela esquerda e, às vezes, tenta mesmo ultrapassar por baixo. É sempre o último a travar e às vezes até nem sequer trava. Não precisa de mudar pneus a meio dos trajectos e é-lhe rigorosamente indiferente que os tenha com rasto ou mesmo carecas. Não precisa de nenhuma sinalização de perigo nem de nenhum aviso de precaução, porque os ignora. Muitas vezes não se apercebe sequer de que já foi baixada a bandeira de xadrez e que pode encostar às “boxes”. Não aceita penalizações nem castigos e acha que “fair play” é uma expressão estrangeira que lhe não diz coisa nenhuma.

Por fim, depois, admira-se como perdeu o controlo do carro, este foi contra o que vinha do outro lado da barreira e houve pessoas mortas e feridos graves que não tinham nada a ver com o conta rotações da sua máquina. Muito menos com as suas aptidões para conduzir carros de fórmula um em Monza ou Silverstone. Mesmo que fosse só nas voltas de qualificação!

Publicado por LFV em 10:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

Um dia no campo!

Bom dia para toda a aldeia, a que acordou cedo e a que dorme a sono solto. Que as temperaturas ajudem o tempo, com a humidade já a escorrer por todas as paredes, alivie um pouco.

Vocês conhecem Ourém? Hoje vou estar ausente da aldeia para lá ir. É uma cidade de província - lugar comum! -, ainda quase inteiramente rural, pequena e agradável. Situada a meio caminho na estrada que de Leiria persegue o interior, ao encontro de Tomar. É um sítio carregado de história, quase desde a fundação.

Um dia destes, com calma, deixarei aqui algumas notas que digam dela um pouco mais.

Publicado por LFV em 07:34 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 14, 2003

A eterna tendência para o improviso e para a insensatez

Miguel Sousa Tavares diz hoje que Durão Barroso é, definitivamente, um homem de sorte na política. Bastaria que o contingente da GNR, cuja partida para o Iraque foi tantas vezes adiada, tivesse acabado por partir um dia mais cedo, e hoje ele estaria com uma série de cadáveres nos braços. Lá, onde morreram os italianos, era exactamente onde os portugueses deveriam estar, acabados de chegar. Nem na roleta se consegue um golpe destes.

Mas, para bem deles – e nosso – a partida foi quando foi, depois da tragédia que não tem de inesperado tanto quanto se possa querer fazer acreditar. O curso dos acontecimentos e a consumação da partida era, no momento, de todo inevitável. Mas já era evitável – ou mesmo desaconselhado – que os diversos orgãos da comunicação social quisessem acompanhar aquele contingente passo a passo, minuto a minuto, como se lhes controlassem morbidamente todos os movimentos.

A intenção acabou atropelada no Kuwait onde os jornalistas foram impedidos de acompanhar o contingente da GNR Iraque dentro, até ao seu destino imediato. De forma insensata a decisão não foi ponderada, muito menos acatada. E, ainda no mesmo dia, os jornalistas puseram-se a caminho e atravessararam a fronteira por sua conta e risco. Não tardou que se verificassem problemas que o destino se terá encarregado de resolver, felizmente, sem danos. Mas a noite avançara e decidiu-se pelo regresso ao ponto de partida. Das trevas tinha afinal saído o primeiro e único sinal de ponderação.

Assim como a luz de um outro dia trouxe de novo ao palco a insensatez da arrogância e do improviso. E os profissionais da comunicação, em carros novos e brilhantes, por sua conta e risco, fazem-se outra vez à estrada. À procura de que notícias, em busca de que glória? Os resultados estão desgraçadamente à vista. E são eles, os jornalistas, a notícia trágica que nos chega. Sem que possamos saber como e quando o atrevimento terá desfecho. Que, naturalmente, desejamos feliz!

Publicado por LFV em 11:40 PM | Comentários (0) | TrackBack

Gasta um gajo uma porrada de massa para nada

Pronto! Pensem o que pensarem, digam o que disserem, teimem comigo até de manhã, mas não está certo. Venha até a Dra. Manuela Leite e mais o canalizador – canalizador é picheleiro, oh! cambada. Não se está mesmo a ver? – que ela agora contratou. A recibo verde, está bom de ver. Mas uma coisa destas não se faz a ninguém. Nem a mim, benza-me Deus, a quem tudo acontece, a quem o azar persiste em perseguir, a quem nada corre bem. Por isso saio eu da cama alvoraçado todas as manhãs, à espera que também me apareça o cobrador do fraque e me deixe de tanga.

Então anda um gajo – neste caso, eu! – por aí, descansado, a navegar, a descobrir recantos e encantos, seguindo atalhos e mais atalhos, levando nas trombas com janelas sobre janelas – “pop ups”, parece que á assim que lhes chamam – até lhe acontecer, naturalmente, descobrir o anúncio. Primeiro li, devagar para perceber bem. Voltei a ler, que a letra era muito miúda para a minha miopia e acho que entendi. Depois, com alguma dificuldade, torci o tronco, empinei a cabeça e pus-me – salvo seja, hein! – na fotografia. De um lado, do outro lado, de baixo para cima, a remirar, para não perder pitada. E agradou-me, pronto. Acho que era mesmo o que andava à procura, sem nunca mais encontrar. E decidi-me logo ali: vou acrescentar esta morada aos meus favoritos e vou responder ao anúncio quanto antes. E respondi!

Depois de me ter esmerado na caligrafia, tratado cuidadosamente da ortografia, revisto a gramática com a Dra. Edite Estrela na cabeça e caprichado na escolha do papel – linho bond 120 gramas, uma raridade! – fiquei certo de que iria ser chamado para a entrevista. E pensei: tens de deixar boa impressão logo à primeira. Não te vais apresentar assim, de cabelo surrado, com a gordura e o gel a confundirem-se, a barba crescida e um bigode que não tem nada a ver com a bigodaça nobre do Artur Jorge. Nem com essa t-shirt com o logotipo do Minipreço estampado quase na barriga ou com as calças de ganga azul, meio rotas nos joelhos e já muito coçadas no cu, com vossa licença. E as sapatilhas, compradas na feira da Senhora da Hora, a um sábado de manhã, cambadas, o rasto quase careca como pneus que já não dão para a estrada. O corpo, esse corpo denunciando copos de cerveja a mais, o desvario das tripas todos os sábados ao almoço, bem regadas com boas pomadas durienses. Os bagaços no fim, sempre acompanhados por café, para cortar o efeito. Tens de tratar dele, enquanto esperas.

Corri a meter-me numa das lojas da Zara – o lucro vai para Espanha, mas paciência, vamo-nos habituando! – que não fecha à hora de almoço. Certifiquei-me de que tinha saldo disponível no cartão Visa e pronto. Foi um fartote! Peúgas, cuecas – “boxers, boxers”, é assim que se lhes chama agora – camisa, gravata, um fato com colete, tudo a combinar. Não fosse eu achá-lo muito mariconso até creio que podia parecer o Zé Castelo Branco a chegar de Nova Iorque, sem jóias, está bom de ver. Ah! E uns sapatos novos comprados na Charles, que os da Zara era tudo “made in Spain”, a roerem-me os calcanhares e a apertarem-me os calos. Pretos, de verniz, a brilharem até no escuro.

Consultei as páginas amarelas, telefonei a um amigo, ao fim do dia segui para um ginásio que me ficava mais à mão, a inscrever-me. Perguntei o preço, porra que é caro, não podia ser menos, mas tinham tudo: piscina, jacuzzi, banho turco, sauna, musculação, aeróbica, karaté e o mais que não consegui fixar. Saquei do Visa, quase que lhe rebentei com o saldo, vou andar seis meses a pagar juros aos judeus do banco, mas não é por isso que se abandona um projecto. Comecei a minha preparação. Custou-me de início, só ferrugem, mas perdi logo três quilos na primeira semana. Sempre a mesma rotina, sem falhas, como num motor da Ferrari preparado para o grande prémio de Silverstone. Bicicleta, tapete rolante, remo, abdominais, braços, pernas, piscina, banho turco. Depois um duche. Saída, de gatas. Mas os resultados viram-se, estão à vista.

Há dois dias fiquei de perfil, a olhar-me ao espelho e quase ficava com inveja da imagem reflectida. Que diferença, achei que estava pronto, podia ser convocado, na entrevista não seria eliminado. Mas agora, vejam vocês, vem esta fulana com esta conversa. Sem aviso prévio, a defraudar expectativas. Como no funcionalismo, os concursos já não servem para nada, agora é tudo por escolha directa e por nomeação. Cor de rosa de uma vez, laranja de outra, azul de quando em quando. Como eles dizem, “boys” e “girls”, as moscas é que mudam, o resto não.

Estou desalentado, quase me deprimo como a economia do país e as finanças da Dra. Manuela Leite. Vou aos pequenos anúncios do Jornal de Notícias, há sempre mulheres de meia idade, elegantes, cultas, educadas e com posses a quererem casar. Com um bocado de sorte ainda me sai uma que tenha que chegue para os dois. Podia viver honestamente e deixar o uso compulsivo do Visa. Assim Deus me ajude mais do que desta vez, que eu mereço. Porque desta gastei uma porrada de massa para nada!

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Novos estádios - o forum do disparate

A emissora de rádio TSF que actualmente, para que não haja dúvidas, pertence ao universo empresarial da PT, promove diariamente um forum em que são discutidos assuntos da actualidade, com a participação de convidados – quando estes se dignam aceitar os convites, sendo certo que frequentemente os membros da classe política, nomeadamente do governo, nem resposta dão! – e dos ouvintes que conseguem ligação telefónica e, depois, resistem à duração da espera. Os temas revestem quase sempre alguma actualidade, a menos que o decurso desta seja tão pobre que obrigue à selecção de assuntos recorrentes. A moderação, habitualmente a cargo do jornalista Manuel Acácio é, passe o pleonasmo, moderada, discreta e profissional. O moderador exime-se a emitir opinião e a modificá-la, é um homem que sabe ouvir, seja qual for o tom ou a direcção do interlocutor. O que é uma raridade e bom seria que, por exemplo, a D. Judite de Sousa ou a D. Fátima Ferreira por lá fizessem um estágio no sentido de ver se, sobre isso, aprendiam alguma coisa mais.

O tema de hoje, mais do que recorrente em termos de tratamento público, foi o dos – dez estádios dez – de futebol para servirem de palco à fase final do campeonato da Europa de futebol de 2004. Sobre a prioridade que representam, os benefícios que trazem, aquilo que custam, a necessidade que deles havia.

Não vou pronunciar-me sobre nada disso, pelo menos com um mínimo de profundidade. Mas não posso deixar de recordar, para que conste, que o último europeu foi organizado em conjunto pela Bélgica e pela Holanda. Países que podem ser parecidos com o nosso quando se fala da sua dimensão geográfica ou da sua expressão demográfica. Mas, quando se confrontam as realidades económicas, é melhor metermos a viola no saco, virarmos costas e nem sequer olharmos para trás. Mesmo assim aqueles trastes não se limitaram a organizar o evento – como se diz agora, e é fino! – em conjunto porque, quanto a estádios, parece terem-se ficado por meia dúzia.

O forum de hoje foi, no que respeita a algumas participações, o forum do perfeito disparate e da asneira grosseira. Com a agravante destas terem sido tanto mais obtusas, irracionais e intelectualmente desonestas quanto mais próximos ou integrados no meio estavam os respectivas convidados. Deixo apenas referência a dois deles, ambos insuspeitos porque são parte mais do que interessada no assunto. A do presidente da Liga de Clubes – entre outras presidências! - e a do relator desportivo da própria TSF, Jorge Perestrelo. Seria difícil conseguir dizer tanto disparate, com o microfone aberto, em tão pouco tempo. Porque se for verdade que cada um deles pensa de facto aquilo que disse, então calma. Dentro de pouco tempo deixaremos de caminhar atrás da Grécia para marcharmos atrás dos países bálticos ou pior. E não pararemos por aí, ao contrário daquilo que o Dr. Barroso prometeu!

Publicado por LFV em 12:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

Um mês!

Bom dia, boa tarde ou boa noite. Conforme a hora. Completa-se hoje um mês de presença do Placard neste aldeamento. Pessoalmente é quase um triunfo de longevidade. Porque muitas vezes era preciso muito mais tempo do que aquele de que disponho. Para tudo! Para passear mais por aí, à descoberta, encontrando recantos interessantes a que depois se volta sempre. Como dizem que faz o Fântomas em relação ao local do crime. Para pendurar mais “posts”, prontos a serem atirados ao chão ou a merecerem um olhar célere de quem passa e não tem muito tempo, mas quer ficar com uma ideia.

Mas a experiência tem sido gratificante e, como se diz, tem-me sabido a pouco pelas razões indicadas. Quanto a matéria prima, ela abunda e povoa-nos os dias, nas televisões, nas emissoras de rádio, nos jornais. O país é um país caricato, rídiculo, de faz de conta, a avaliar pelo que vemos, pelo que ouvimos e pelo que lemos. Há motivos de sobra para nos irmos rindo, muitas vezes às gargalhadas.

Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.

Um muito obrigado à venerada memória de Eça de Queiroz pelas palavras sábias que antecedem e que ele escreveu em Junho de 1871. Quanto à filosofia, o riso popularizou-se um pouco, ultrapassou as fronteiras do Dr. Carrilho. O que, apesar de tudo, não tira actualidade à afirmação. Quanto à opinião, talvez seja um pouco diferente. A política, constitucional, que temos deixou de considerar as opiniões. E o riso acaba por ser uma manifestação. De desinteresse!

No resto, depois de um primeiro mês, vou continuar. Mais por aquilo que me vai divertindo a mim do que por aquilo que possa divertir os meus poucos visitantes!

Publicado por LFV em 09:46 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 13, 2003

Ainda o Sr deputado Guerra, de Vila Real

Há cerca de duas semanas o Presidente da República visitou os concelhos de Alijó e de Santa Marta de Penaguião. Sem grande destaque os jornais noticiaram a ausência, nessas visitas, dos deputados do PSD eleitos pelo círculo de Vila Real. E mencionavam as desculpas surrealistas ou mesmo cabotinas que deram a esse respeito.

O Sr Guerra é um desses deputados. Que referiu não ter estado presente devido ao seu trabalho na preparação de um novo quadro regulamentar na área das telecomunicações. O país não tomou conhecimento da notícia, por falta de destaque. E foi pena! Se tivesse sabido das razões do Sr Guerra teria olhado para o parlamento e para os deputados com menor desdém e com maior compreensão. Lamentaria que, por levarem trabalho para casa, não pudessem acompanhar o Sr Presidente da República e, quase seguramente, tivessem que faltar à missa de domingo.

Mas o Sr Guerra, sabendo que a memória é curta, acaba agora por confirmar que esteve a trabalhar mas que, mesmo assim, teria arranjado duas horitas para ir a Vila Pouca de Aguiar participar na abertura da feira do cabrito e da castanha. E diz que isso ocorreu apenas por uma questão de gestão de tempo. Porque, sentencia, como deputado tem, em cada momento, que considerar o que é importante e urgente. Esclarecedor e objectivo. Naquele momento importante e urgente foram o cabrito e a castanha. No prato.

Mas tudo se sabe, sempre. Afinal o Sr deputado não gostou foi da ementa que lhe tinham preparado para o almoço. E que incluía sopa de feijão e cozido à portuguesa. Fontes próximas de S. Exa. dizem que ambas são coisas que lhe causam uma indescritível flatulência. E que, nessas alturas, o Sr deputado se “larga”, ruidosamente, de forma descontrolada, com forte libertação de gases. De tal forma que se chega a pensar que a celulose de Cacia é uma próspera indústria de perfumes.

Realmente, sendo assim, foi muito mais indicado que S. Exa. tivesse preferido o cabrito e as castanhas! Para seu bem. E dos outros!

Publicado por LFV em 10:14 PM | Comentários (0) | TrackBack

A ministra Celeste e as salas de chuto

O Provedor de Justiça, com desassombro, invocou números sobre detidos portadores do virus da sida e sugeriu que se avançasse com a solução das chamadas salas de chuto.

Célere, a ministra Celeste veio anunciar que nem pensar, pelo menos com ela. Era só o que faltava. Então já não basta andar tudo a chutar, por todos os cantos e pinhais que ladeiam as estradas nacionais? Até na Via Norte!

Publicado por LFV em 06:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

A soberania sobre águas territoriais

Ontem – muitas vezes sou assim, um bocado devagarinho a reconhecer às coisas a importância que elas de facto têm – o jornal onde o Sr. José Manuel Fernandes é director, trazia na primeira página uma fotografia e noticiava um facto que são um contributo decisivo para a restauração e a racauchutagem do meu orgulho de português – o que tende a acontecer ainda muito mais devagarinho do que ver as coisas de um dia para o outro.

A fotografia era de um navio enorme, ainda que as suas dimensões fossem beneficiadas pela perspectiva, mas era enorme. Que, segundo se dizia, é sucata, condição que naturalmente o não reduz ao porte da formiga. E então este e outro, dois navios, tinham ousado, sem autorização prévia, entrar em águas territorias nacionais no arquipélago dos Açores, na sua rota para o país do Sr Blair a fim de serem desmantelados.

A situação foi detectada e, como num país onde as coisas funcionam, as autoridades foram advertidas. Desde o comandante do porto de Ponta Delgada ao responsável autónomo pelo sector. Do presidente do governo regional à assembleia regional. Do oficial de dia ao chefe do estado maior da marinha. Deste para o ministro e deste até para o primeiro ministro. De permeio, minutos e horas que decorreram, centenas de telefonemas que se fizeram, decisões que se esperaram, mensagens cifradas até, que circularam.

Eram doze horas e vinte minutos, notem bem. Uma corveta nacional, a bandeira desfraldada à brisa húmida da maresia, aproximou-se rapidamente dos mastodontes. Correndo, à cautela, não fosse escorregar na água das ondas que se espalhava pelo convés, uma ordenança levou ao comandante um megafone pintado de fresco e com pilhas novas. Da ponte, digno e altivo, com atitude imperial e irreversível, este deu ordem de expulsão aos invasores. Depois, em surdina, murmurou: nas nossas águas não!

Publicado por LFV em 09:24 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 12, 2003

Um endereço por dia

Não é grande contributo, mas não deixa de ser uma ligeira ajuda, ou tentativa disso. A troco de um simples clique, podem passar por aqui.

Agrada-me uma coisa: a intenção, anunciada na descrição do "blog", de apenas se fazer uso da língua portuguesa. O que é meritório. E sê-lo-á ainda mais caso se defenda e se persiga o uso correcto da língua portuguesa.

Publicado por LFV em 07:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

A inauguração do estádio

Beep, prontos! Era aquilo que eu receaba, carago! O presidente da junta também bai para a Bolíbia. Fazer o quê, carago? Então não estaba cá bem? No domingo lebantaba-se mais tarde, tomaba o seu banhito, bestia-se como debe ser, até podia ir morfar fora com a famelga. Bebia um binhito, mas com moderação, porque se conduzir não beba, eheheh! Depois à tarde ia à inauguração. Ali, balente, ao lado do Pintinho, em pé a aplaudir e a gritar para a mãe do árbitro. Mas não, esta gente não tem consciência das suas responsabilidades. Assim nunca mais chega a deputado. Nem a presidente da câmara, nem que seja da de Matosinhos. Pra Bolíbia, bejam lá boceses! Beep!

Também não percebo! O Pintinho a dizer ali, na telebisão, que se ia respeitar o nosso primeiro, tudo caladinho, nada de baiar. Cantar, só o hino nacional e assim, outros ditos, só Portugal em acção, que é o que ele gosta. Então ele não oubiu porra? Beep! Mas agora sou eu que bos digo, prontos. Da primeira bez que ele bier ao Dragão, e há-de bir então não há-de, bai ter nobenta minutos de baias. Dibididos em duas partes de quarenta e cinco cada uma. Eheheh! Ou eu não me chame... cala-te, não digas o nome que ainda te beep!

E o nosso primeiro, nem acredito, bai mandar dois ajudantes. Que um que até é ministro, tem assim um nome que não dá para dizer, parece uma língua estrangeira. O outro é aquele que anda sempre à pendura, atrás dos estádios do Euro, nem sei o nome. Isso, gordo! Se a gente não soubesse que ele era do Boabista e que ele faz na Liga a merda que faz, a gente ia ainda era buscar o major a Gondomar. Ah! Grande Gondomar, ali, na Luz, para a Taça, pimba, na tarraqueta! Ah, pois, o major. Ao menos ele é presidente uma data de bezes, na câmara, na Liga, no metro, na área quê? do Porto?, nos conselhos de administração das firmas dele, eu sei lá. É do Boabista, prontos, está fora de causa. Ainda por cima na Liga, beep! A nomear os árbitros que ele quer ou a fazer o sorteio, tanto faz, para sair o que ele quer também. Porra! Nunca o ponham a presidente da Santa Casa. O totoloto só lhe sai a ele e os outros que se beep!

O adbersário também não bai ajudar nada. O Barcelona, bejam lá, então aquilo é clube que se conbide? Há dois anos ali, a lutar para não descer, que aquilo em Espanha não é para brincadeiras. É quase como conbidar os Passarinhos da Ribeira, que sempre são dos nossos. Mas prontos, também se estraga menos a relba que ainda está a crescer. E depois a rapaziada poupa-se um bocado, não biram como foi com o Moreirense? Nem ganza lhes deram, bia-se!

O quê? Ah, o prognóstico – beep, custa a escreber, nem sei como consegui! – que o mágico escrebeu no papel? O Deco não, aquele tísico de Coimbra, bestido de preto, que faz desaparecer as pontes. O prognóstico olha é como o João Pinto – qual o da piscina, beep! – o outro, o nosso, o capitão, o que já arrumou as chuteiras. O prognóstico só no fim do jogo. Eheheh!

Publicado por LFV em 03:08 PM | Comentários (0) | TrackBack

A GNR, a Nasiriyah e o Iraque

Enquanto ultimava a preparação do “post” anterior novas notícias difundem a ocorrência de um atentato em Nasiriyah, cidade para onde se deslocam os militares portugueses que hojem partem.

É evidente que a situação não é anormal nem sequer inesperada. Desde que o Sr W. Bush anunciou formalmente o fim da guerra, no início de Maio passado, que os atentados são diários e as baixas também. Por todo o Iraque.

Mas há momentos em que já é impossível inverter a marcha dos acontecimentos. Nesta altura, certamente, não seria viável cancelar, pura e simplesmente, a ida daqueles militares para a zona de operações. E desde sempre se soube que a missão não seria pacífica, tipo excursão turística, para comprar recordações inúteis. Desde sempre se soube que envolvia riscos que as seguradoras não aceitam cobrir, porque podem não lhes trazer lucros.

Mas quando o automóvel se despista e vai em queda livre, abismo abaixo, devido a excesso de velocidade, é naturalmente tarde para tirar o pé do acelerador e pisar o pedal do travão!

Publicado por LFV em 10:24 AM | Comentários (1) | TrackBack

A GNR e a ida para o Iraque

Ouço nos noticiários desta manhã que o primeiro ministro foi ontem, pessoalmente, despedir-se dos 128 elementos da GNR que hoje partem para o Iraque. Mais, ouço-o dizer, de viva voz, que pede a solidariedade de todos e que a exige mesmo, porque se julga nesse direito.

A afirmação desperta-me, desde logo, dilemas pessoais que nunca consegui resolver. E que têm a ver com o conceito e a extensão da democracia. Aceitando de forma elementar que democracia é o sistema político que faz residir a fonte da soberania no conjunto da população, no povo, sem qualquer discriminação, como consta de um vulgar dicionário da Porto Editora, a intervenção da população nunca vai além de ser fonte. Ponto final.

Mas fica-me sempre a dúvida sobre o poder que o voto legitima e a extensão com que esse voto pode ser utilizado. Porque nas mais elementares regras que perseguem a regulação da vida das empresas, por exemplo, estão contemplados orgãos de soberania que têm funções definidas e poderes objectivamente limitados. Mesmo em Portugal! E mesmo sabendo que no nosso país a maioria das empresas, independentemente da sua dimensão, são sistematicamente de natureza familiar. Quem manda, põe e dispõe, no grupo Espírito Santo, é o Dr Ricardo Salgado e a família. E o mesmo acontece com o Eng Belmiro de Azevedo, Sr Salvador Caetano, Sr Américo Amorim ou Sr José de Melo e outros.

Mesmo assim há decisões que, por lei, obrigam à aprovação em assembleia geral. Às vezes exigindo mesmo uma maioria qualificada. Nada disto se passa com o sistema político no qual, desde que conseguida uma maioria na Assembleia da República, o poder pode literalmente ser exercido como uma ditadura. Apenas com uma duração temporal limitada, porque não há maneira de a prolongar.

Penso eu que há decisões que são tomadas por um ministro ou por um governo que deveriam estar fora do limite das suas competências. Deveriam exigir a consulta ou a participação popular, como quiserem. Já sei que os que se apoiam naquilo que se faz e que se fez, que consta dos manuais teóricos, não estarão em desacordo comigo. Mais do que isso irão limitar-se a rotular-me de grosseiramente ignorante. Mas, mesmo sobre isso, quero salientar que sempre considerei igualmente ilegítima a decisão de Salazar de, em nome do país, ter proclamado a ida para Angola, imediatamente e em força. Nos idos de 1961, é claro!

Publicado por LFV em 10:07 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 11, 2003

A Maria da Graça, o Paulo e o Abreu

A Maria da Graça quase que estava esquecida. Depois de, no Porto, ter dado cabo de fortunas, vigarizado meio mundo, pregado calotes ao outro meio, corrompido trinta freguesias e subornado as restantes. E ainda presa, condenada e, graças a todos os santos, aministiada. Com este curriculo pirou-se para Espanha. Sabe-se agora que levou a vigarice até à república do Sr Chirac e que, de novo, está presa em Madrid. Entre outras coisas por se ter apropriado, penhorado e vendido algum meio milhão de euros que um burro, utilizando um jumento como intermediário, lhe confiou para venda.

O Paulo é o jumento, quer dizer, o intermediário. Foi-lhe levar as jóias e hoje é amigo dela. Entregou-lhas para que as vendesse e se cobrasse de uma comissão relativa ao seu trabalho. Para que ele pudesse cobrar-se da dívida, pelos vistos de jogo, que para com ele tinha o burro. Digo, o dono das ditas jóias.

O Abreu é o burro. Repito: burro mais que dono das jóias. Diz que são todas de sua propriedade e que ela, a Gracia, vendeu algumas que lhe pagou com cheques sem tecto e com transferências bancárias que não fez. Ficou com outras que lhe iam a matar com algumas toilletes que tinha. As restantes foi-as penhorando à medida das suas necessidades. O Abreu grita que tem facturas da compra de tudo e apregoa que é empresário. Mas que deve uma fortuna ao Paulo, que lhe emprestou dinheiro.

E que esquisito empresário é este? Não é caso de polícia saber onde comprou as jóias e onde foi buscar o dinheiro? E como se endividou e porquê? Porque no meio de tudo fica a certeza de que a história está mal contada. E que, no fundo, se trata de três vigaristas dos quais apenas um, a Maria da Gracia, está presa.

Premissas que desde logo permitem uma ilacção. Este é um país de contrastes em que os vigaristas vivem à solta. Para serem presos têm de se deslocar para Espanha. Vale?

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Real Madrid precisa de reforços

Depois da humilhante derrota de domingo último, em Sevilha, por 4-1, o treinador Carlos Queirós apresentou já um conjunto de reinvidicações com vista ao reforço do plantel.

Assim, quando o Sr José Veiga abrir o mercado, lá para o fim do ano, ele quer:

1 guarda-redes cujo perfil lhe não permita nunca sofrer 4 golos;
2 defesas centrais que atirem os pontas de lança adversários por cima da barra;
2 defesas laterais que segurem os extremos adversários atrás da sua linha de fundo;
2 médios que joguem dentro da pequena área do adversário;
1 árbitro que, de forma isenta, seja nomeado pela comissão de arbitragem do Sr major Valentim.

E, com isso, promete a liga aos merengues. Ah valente!

Publicado por LFV em 08:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

Eça de Queiroz, Maio de 1871

A opinião tem pela Câmara dos Deputados um sentimento unânime, e unânimemente declarado: o tédio. Diz-se mal da Câmara por toda a parte. Os jornais mais sérios falam constantemente da sua improdutividade. Aparecem contra ela panfletos satíricos. Ela é geralmente considerada como um sórdido covil de intrigas. Se se pergunta:
- Que houve hoje na Câmara?
- Uma farsa – respondem uns.
- Uma feira – respondem outros.

Os jornais políticos vêm cheios destas fórmulas: “A Câmara ontem deu um espectáculo triste para quem preza os verdadeiros princípios...”. “A Câmara está oferecendo a prova da sua falta de independência...”. “A Câmara salta por cima dos princípios mais rudimentares da administração.”
- O parlamento é uma vergonha – diz-se nos cafés.
- Vamos aos touros! – exclama-se nas galerias (textual).
- Amanhã há escândalo! – murmura-se na véspera das sessões.

Fazem-se-lhe epigramas, põem-se-lhe alcunhas. Os folhetins escarnecem-na; os jornais de notícias contam com uma singeleza dramática: “Ontem a sessão passou-se em injúrias pessoais.”

in "Uma campanha alegre"

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Um endereço por dia

A partir de hoje passarei a indicar, diariamente, um "blog" a visitar. Sem nenhum critério em especial. É uma pequena e curta ajuda para a sua divulgação. Desde que, em minha opinião, essa visita se justifique.

Isto não tem, naturalmente, nada a ver com o "blog" do dia, com direito a referência na página de acolhimento do "Weblog". Esse é geral, toda a comunidade passa por ali, o crescimento do número de visitas está garantido.

Publicado por LFV em 03:50 PM | Comentários (1) | TrackBack

As tias da Linha são umas pelintras

As tias da Linha vão a festas, saraus, casamentos, baptizados e comunhões mas é tudo só para empanzinar à conta. Porque são umas pelintras, andam tesíssimas da costa e não têm onde cair mortas. Tanto mais que na autarquia de Cascais o Dr Capucho pôs os terrenos do cemitério a preços do Dr Santana no Parque Mayer. Como se aquilo fosse o Parque das Nações!

Depois, agora, até a reputação foi posta em causa, com aquela história do Zé Castelo Branco e da Betty. Só lhes faltava ainda que as considerassem fúteis, palhaças, arrebentas e, mais do que isso, traficantes. A Lili nem tem dormido, nem com a ajuda do xanax, e vai tomando uns valiuns para se acalmar um pouco mais. E com o trabalho que ela tem, credo. Que nem pode ir a todas as festas para que a convidam, onde está presente gente tão gira, comparecem jornalistas tão sérios e tão altamente. Até o Carlos Castro, com tão boas maneiras, o querido. Só não pode faltar é ao baile anual do príncipe do Mónaco, chiquérrimo, que a convida pessoalmente, pelo telemóvel. Aquilo é que são quatro dias. Não, com o príncipe não, mesmo que ele a ache o máximo. Gostosa! Mas tem sempre muitos compromissos, tem muita ocupação.

A Cinha, coitada, tão querida. Primeiro o Pedro, chapa-ganha, chapa-gasta. Tudo, venha de onde vier. Sim, da Bola também e da televisão. Nem sequer mesada lhe dava, levava-a a algumas festas, pensava ele. Porque ela é que tem genealogia. Qual pedigree? Pedigree é de cão. Ela é que tem amigos, tão giros, tão queridos, que estão sempre a convidá-la. Hoje, para se arranjar decentemente, tem de se vestir à custa de algumas boutiques. Não, não anda nua, credo, as meninas lembram-se de cada uma. Que más que são, magas patalógicas!

A tia Paula, a escritora, nunca mais consegue vender tantos livros como a Margarida Pinto. E não percebe porquê, porque esta até é muito difícil de ler, muito filosófica. E tem de se manter no emprego, assessora do Ministério da Cultura, pois claro, onde haveria de ser. Ela, uma pessoa que já leu o Paulo Coelho quase todo, que se excita quando se fala de cultura. Às festas vai, de vez em quando, com roupas usadas e montes de penduricalhos enfiados no pescoço. São eles, os penduricalhos, que a safam de enrascadas e lhe acrescentam o charme.

Mas o Pedro Leitão, tão sorrisos, tão de cabelo penteado com risca ao meio, esse sim, esse gasta muito com as marcas e até vai a Paris para comprar um cinto. Sim, para segurar as calças, ai que curiosa querida! Foi lá que ele diz ter comprado umas cuecas que são o máximo, da Versace e que custaram 50 contos. Isso bem as tias queriam, mas ele nem as tira, nem com o uso, tão pouco com o surro. Sempre se tentava ver mais qualquer coisa. Se a houvesse, escondida, não era suas tolas? Tão malucas!

Publicado por LFV em 03:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

Baias à inauguraçom do estádio?

A gente, cá no norte, não é só trocar os bês pelos vês. Porque binho é binho e baidade é baidade, prontos, a gente já sabe. Não é tudo murcons, há muita gente fina, como o binho do Porto, carago (já biram binho fino de Lisboa, anh cambada?). Não é tudo doutores, está-se a ber, também há trolhas e picheleiros. Mas mesmos estes ganham dinheiro como o beep! A fazer arranjos e a desentupir canos. Está claro, os trolhas e os picheleiros não fazem o trabalho dos doutores, estes não fazem nada, eheheh! Mas muitos doutores estabam melhor a fazer o trabalho de picheleiros, carago!

No domingo bamos à inauguração da vasílica do Dragon, ali na BCI. No sábado já lá andei à bolta, demorei três horas, estaba a chober, beep! Mas aquilo é que é obra, caraças. O nosso Pintinho é o maior, é do beep. Então aquilo tem alguma coisa a ber lá com a dita catedral do ... Cala-te, não me digas o beep do nome que me ficam logo os cavelos em pé. Beep!

O nosso presidente até já disse ao nosso primeiro para não ir à Bolíbia, para ir mais tarde que aquilo não bai desaparecer do mapa. Para bir à inauguraçom do maior, ninguém o bai tratar mal, aquilo não é a superior sul. Ninguém bai baiar o homem, beep. Beep! E aquilo é que bai ser um jogo! É a feijões, prontos, dão para as tripas, ora a merda. Aquele mágico que ia à telebison, não é nada de Lisboa beep, é de Coimbra. Até já escrebeu o resultado num papel, depois de falar com o Mourinho e com o Pintinho. Combinaram, estás a ber? Já me alembrou subir à grua e avrir a caixa com o papel, beep!

O árvitro? Parece que é aquele que ia à RTP e cascaba neles de alto a vaixo. Aquilo é que era porrada, carago. Cada polinheira! Beep, beep. Um deles até cabou para a Câmara de Sintra. Protegido pela Judite de Sousa, eheheh! O outro? Foi para a Câmara de ... Cala-te com o nome! Ah, esse? Olha. Desapareceu do mapa, ebaporou-se, beep!

Baias à inauguraçom, não baias? E já arranjaste o vilhete? Não te atrazes que te beep. Depois, à última da hora, é do beep!

Publicado por LFV em 11:49 AM | Comentários (4) | TrackBack

A greve dos revisores da CP

Ao que parece, têm ocorrido desde há muito tempo, e desde há pouco também, situações de violência nos comboios da linha de Sintra. Isto a avaliar por aquilo que alguns jornais têm dito e algumas testemunhas oculares têm também afirmado.

Como protesto contra a situação os revisores da CP, que é a companhia dona dos comboios, decidiram fazer hoje uma greve parcial, até porque um significativo número das vítimas faz parte do conjunto dos seus membros. A greve é um meio de luta particularmente indicado nestas circunstâncias, por diversos motivos. Desde logo porque aderindo à greve e não indo trabalhar, os revisores-grevistas não poderão ser agredidos no exercício da sua actividade, por estarem ausentes. Depois, se não houver comboios a circular, ainda por cima sem revisores, que raio de composições ferroviárias vão os trogloditas assaltar? Têm de ir cantar para outra freguesia porque este peditório não rende. E ainda! Não havendo comboios que meio de transporte vão os assaltantes utilizar? Vão a pé? Isso é que era bom, que aquilo é malta comodista, mesmo não pagando bilhete.

Por estranho que pareça, toda a gente está de acordo sobre os fundamentos essenciais da greve. Os revisores da CP, uma dita comissão de utilizadores da linha e até a própria companhia que, com a mão escondida atrás das costas, encara esta greve de forma complacente, embora discordando de algumas posições do respectivo sindicato. Para ao menos proteger as aparências e continuar a garantir o subsídio do Estado.

A CP não emite comunicados escritos, que caíram em desuso com as dificuldades que há para os redigir. Mesmo que entre as rigorosas exigências para se ser admitido nos seus quadros, entre outras, seja indispensável a aprovação na cadeira de português e a leitura, completa, do regulamento do Big Brother e do currículo da senhora ministra do ensino superior.

Mas manda um porta-voz, que se esquiva a montes de tripés e tropeça em inúmeros cabos ensarilhados antes de trepar a um pequeno estrado, de equilíbrio instável, para o seu momento de glória. E perfilar-se à frente de uma dúzia de microfones, decorados com o logotipo da emissora da sua preferência, e de meia dúzia de câmaras para prestar os esclarecimentos que forem necessários. Cometendo, em termos de linguagem, a habitual série de atropelos e proferindo um interminável conjunto de asneiras, como fazem aquelas meninas e meninos que as televisões mandam para os locais das tragédias para fazerem reportagem. E que ainda hoje penso terão contribuído activamente para encurtarem a vida do saudoso Fernando Pessa!

Publicado por LFV em 09:42 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 10, 2003

Igreja PND – Por um novo Deus

Realizou-se este fim de semana, em Vila Nova de Famalicão, com a estátua do Sr Cupertino de Miranda ao fundo, o congresso de fundação da nova igreja do Dr Monteiro que, sem oposição, acabou sendo eleito bispo com a unanimidade dos fieis presentes, como se previa. E que eram mais do que muitos como já nos deu conta o incontornável Barnabé.

O novo bispo disse depois que a nova igreja é pela democracia liberal, em oposição à igreja do bispo P.P., que afirma defender uma liberal democracia. Sua eminência afirmou ainda que não há liberdade económica sem liberdade política pelo que o poder político deve igualmente deter o poder económico para poder eficazmente assegurar a liberdade do comércio, tão necessária à liberdade económica.

Num momento mais empolgado o novo bispo Monteiro insurgiu-se contra o herege bispo Barroso pela cobertura que tem assegurado ao cónego Justino que, contra todos os cânones, tem permitido nos seus cultos religiosos as leituras dos ateus do Big Brother. E que, com isso, há-de acabar nas profundas dos infernos.

Quanto aos objectivos, propõe que a sua seja uma igreja fora da igreja, contra aquilo que vem acontecendo com todas as outras que são igrejas dentro da igreja. E recordou o falhado congresso de fundação realizado em Braga em 1998 em que se verificou a infiltração, inesperada, de luteranos e calvinistas que impediram o sucesso do conclave.

Salientou, com orgulho, ser de origem popular e ter uma avó com a idade de 90 anos, analfabeta, que nasceu quando ainda não havia escolas para raparigas. E que continua viva quando, na terra, já não há escolas para ninguém. Também por culpa do cónego Justino que suspendeu os pagamentos de energia à EDP até que os fornecimentos fossem suspensos. E que o seu pai começou a trabalhar muito novo – vítima do trabalho infantil – como marçano, uma das actividades praticamente extintas, já incluída na extensa lista do “blog” do Dr Pacheco.

O adiantado da hora não deixou tempo disponível para que fossem exorcizados alguns fieis que, manifestamente, estão possessos. Mas o demónio não perderá pela demora!

Publicado por LFV em 03:59 PM | Comentários (0) | TrackBack

Pinto da Costa não é o homem que julga ser

Na sua habitual secção “Diz-se” o jornal Público, de hoje, cita do jornal desportivo “Record”, edição de 9 do corrente, o Sr António Varela:

Pinto da Costa não é o homem que julga ser. A ideia que ele tem de Portugal é a de um feudo onde os servos não têm outro remédio que não o de se dobrarem à vontade do senhor.

O problema, apesar de tudo, não é que o Sr Pinto da Costa julgue ser o que não é ou pense do país aquilo que, pelos vistos, o Sr Varela afirmou. Porque há muita gente que é o que não julga ser. E, muito pior do que isso, é existirem também no país muito mais senhores do que se pensa. O feudo está repartido, não é monopólio do Sr Pinto da Costa. Se fosse, então a gente não lhe dava cabo do canastro enquanto o diabo esfrega um olho? E podíamos contar com a ajuda do sarrafo do Sr Varela, então não podíamos?

Publicado por LFV em 02:48 PM | Comentários (0) | TrackBack

Os cães ladram e a caravana passa

O adágio é antigo mas mantém-se actual. Às vezes mesmo muito actual. E tem sido invocado nas mais diversas circunstâncias, pelos mais variados motivos e com os mais díspares objectivos. Pode ser mesmo título de “blog”, como é este o caso. É o meu pequeno contributo para a sua divulgação, sabendo-se que não chegarei muito longe. Mas é o que tenho para oferecer!

Qualquer dia, desde que consiga definir-lhe um conteúdo apropriado, ainda hei-de criar também um outro “blog” a que chamarei “vozes de burro não chegam ao céu”. Mas tenho que saber primeiro que vozes lá vou pôr!

Publicado por LFV em 12:14 PM | Comentários (0) | TrackBack

Está tudo nos conformes!

Mais uma segunda-feira, mais um início de semana. Com o tempo mais macio, mais brando, mesmo que as previsões registem ainda a possibilidade de alguma borrasca. Lentamente, mas implacável, o outono corre ao encontro do inverno. Iremos, como todos os anos, encontrar-nos com ambos às portas do Natal.

Tudo normal e nos conformes, sem perturbações. Como decorre do principal título da primeira página do jornal Público: Fiscalização detecta milhares de irregularidades na construção civil. Não há, naturalmente, motivo para preocupações. A normalidade continua assegurada, a empresa portuguesa pode não ter dimensão galáctica mas sobra-lhe imaginação e capacidade para se desenrascar. O Dr Sampaio pode interrogar-se sobre as razões porque se não ganham concursos em Espanha. O que é verdade mas que, apesar de tudo, não é essencial nem para a sobrevivência nem para a rentabilidade do sector.

Já houve melhores dias, mas os que correm podiam ser piores. O empresário português, nomeadamente o da construção civil, consegue milagres. Mesmo tendo ordenados sofríveis e deslocando-se em vulgares Mercedes. Consegue receitas sem suportar nenhumas despesas, sem que a ministra das finanças, sensatamente, lhe peça conselho. E opte, em contrapartida, por andar por aí a vender trastes que não valem coisa nenhuma, para equilibrar o orçamento. O empresário português tem mais preocupações sociais do que o Estado e paga à segurança social as contribuições de empregados que não tem. Desinteressadamente, apenas por causa do alvará. Que ainda por cima, depois, não utiliza: ou o aluga, ou o vende.

Mesmo pequeno e de poucas posses o empresário português é solidário logo desde início. E por isso joga no totoloto e nas lotarias da Páscoa e do Natal, para ajudar a Santa Casa. Quando os negócios lhe correm de feição, não é nem egoísta, nem ganancioso, nem semítico. Não quer tudo para si. Alarga o seu leque de solidariedade e passa a jogar também nos casinos, às vezes compulsivamente, para ajudar o Sr Stanley Ho e o Sr Manuel Violas. E a frequentar os jantares e as festas de beneficência que se organizam nesses locais, onde cada participação se paga a cinquenta contos e, no fim, se fazem doacções de vinte, para acudir à fome dos pretinhos sub-alimentados do corno de África.

E com que dividendos? Garantidamente, sem nenhuns. Quando muito cruzar-se com o Sr Manuel Damásio e obter um sorriso distante e superior da D. Lili Caneças, que se calhar nem sequer lhe é dirigido.

Publicado por LFV em 12:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

Parabéns, Dr Cunhal

Parabéns pelo seu 90.º aniversário, Dr Cunhal. Sinceros. Mesmo não sendo militante do seu partido ou de qualquer outro. Mesmo não sendo comunista e me não identificando com a ideologia dos actuais partidos oficiais que, como se sabe, a não têm. Mesmo não tendo sequer alguma vez comprado o Avante, nem mesmo a semana passada para ler as suas reflexões. Ou até ido alguma vez, pelos princípios de Setembro, às festas da Quinta da Atalaia, para ouvir alguma música, comer umas bifanas, virar uns copos e ouvir palavras sem imaginação e sem novidade.

Mas, em minha opinião, o século passado fica a dever-lhe alguma coisa e, por isso, o senhor é digno de respeito – como toda a gente! – e de admiração. Porque o senhor foi e é um homem de convicções, e isso é digno de registo mesmo quando elas não são as nossas. Porque o senhor persistiu e lutou, de todas as formas e por todos os recantos, enquanto outros se acomodaram, como no ciclismo, ao derradeiro apoio do carro-vassoura, abrigando-se da intempérie e renunciando à violência do esforço.

Queira-se ou não, goste-se disso ou não, a política portuguesa do século vinte foi marcada pela luta entre duas figuras. O senhor foi, de facto, o adversário digno e temido do Dr Salazar. Mesmo que este tenha acabado por cair de maduro, como o regime que instituiu!

Publicado por LFV em 09:43 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 09, 2003

Exame a Portugal

A revista Visão, na sua última edição faz o exame a Portugal. E fá-lo em seis páginas e alguns quadros, generosamente acompanhados de fotografias. Suporta-se nos resultados de uma sondagem de 32 perguntas, feita por 21 entrevistadores a uma amostra de 600 indivíduos.

Tiveram esses indivíduos a disponibilidade para dizerem em que partido votariam, que grau de confiança tinham numa série de personalidades, como avaliavam a actuação do Dr Barroso e do Dr Ferro, se achavam que a prisão preventiva era utilizada correctamente e por aí fora.

Não tenho nada contra as sondagens e acredito que são realizadas no estrito respeito pelos mais rigorosos preceitos técnicos. Já quanto à interpretação que depois se pretende fazer dos respectivos resultados... vou ali e já venho. Os mesmos são lidos como certezas definitivas e irreversíveis, abusivamente.

Mais estranho – provavelmente para mim, que sou leigo – fala-se em classe social elevada (A/B), em classe social de pessoas sem instrução (D/E), em homens das classes C1 e C2 – estes confiam no ministro Portas – e fico confuso, mas adiante.

Quanto à expressão da sondagem e, por exemplo, sobre a governação do Dr Barroso. Se convertermos as percentagens apresentadas em invivíduos inquiridos: 12 acham que tem estado “muito bem”, 182 que tem andado “bem”, 96 que não tem ido “nem bem nem mal”, 158 que tem governado “mal”, 90 que o tem feito “muito mal” e 42 não estiveram para se chatear e disseram “que não sabiam ou não respondiam”.

E com esta expressão numérica faz-se o exame a Portugal? Realmente! Não admira que em Portugal outros exames tenham os resultados que têm!

Publicado por LFV em 10:56 PM | Comentários (1) | TrackBack

A inauguração do estádio do Dragão

Há ainda poucos dias os jornais, sem destaque, referiam que os serviços do gabinete do Dr Mota Amaral, presidente da Assembleia da República, tinham contactado a direcção do Futebol Clube do Porto para obterem informações relativas à cerimónia de inauguração do novo estádio do Dragão – Antas era muito mais feliz, mas está bem! – no sentido de prepararem a respectiva agenda que, muito provavelmente, nessa semana não permitiria que o Dr Amaral fosse matar saudades das ilhas. Da forma que lhe é peculiar, e que às vezes se não sabe se é irónica se é apenas grosseira, o Sr. Pinto da Costa parece ter respondido que não havia razões para que se preocupassem com isso. Porquê? Apenas porque ele não tinha intenções de convidar o Dr. Amaral.

Vem entretanto a saber-se que o Dr. Sampaio e o Dr. Barroso não estarão presentes porque, na data aprazada, estarão em missão na Bolívia. E confirma-se que o Dr. Amaral realmente não tinha sido convidado.E porque razão? Segundo corre, a título de retaliação pelo facto do Dr Amaral ter considerado não justificadas as faltas dos deputados que, a convite do Sr. Pinto da Costa, se deslocaram ainda não há muito tempo a Sevilha para assistirem à final da Taça Uefa e que não terão alegado que a viagem se fizera a título de honrado trabalho político, de cachecol ao pescoço e bandeirinha na mão.

Portanto, segundo parecia, e satisfazendo as pretensões do Dr. Rio, o Sr. Pinto da Costa punha termo à mais que badalada promiscuidade entre o futebol e a política, pelo menos em relação ao novo estádio. E, em relação a este, proclamava, imperial e ufano: casa nova, vida nova!

Mas logo de seguida o ministro Arnault diz que vai estar presente na cerimónia, acompanhado por mais alguns ajudantes de ministro, como muito bem lhes chamava o Dr. Cavaco. Porque foi convidado para isso. E, naturalmente, o Sr Pinto da Costa tem ainda o conjunto de amigos com quem às vezes janta, joga à sueca ou à moedinha. Que, por mero e simples acaso, são deputados e que antes já foram a Sevilha. Esses, claro, virão como amigos que se encontram regularmente, não nos Passos Perdidos mas no mais informal restaurante Casa Branca, à volta de uma mesa redonda e tendo pela frente um saboroso bacalhau à Gomes de Sá.

Falta apenas saber quem deve descerrar a lápide, usando o fato do casamento ou da comunhão, se ainda for solteiro e este lhe servir. Mas, quanto a isso, parece que vão adiantadas as negociações com o presidente da Junta de Freguesia de Campanhã. Que na data não estará ausente na Bolívia. E que parece não ter a sua agenda de todo preenchida. Mas o Sr. Pinto da Costa que se apresse, não vá ele programar uma qualquer ida à pesca!

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O Gastão não morde!

Consta-se, sem que os sempre atentos orgãos de comunicação social o tenham noticiado, que ontem, depois de terminada a reunião magna no Largo do Rato, os membros do governo e dos grupos parlamentares da maioria, foram jantar a Sesimbra e, no regresso, terão ido confraternizar para as docas até altas horas.

Sob o efeito dos vapores do álcool ingerido - pelos restantes frequentadores, naturalmente! - os slogans mais ouvidos terão sido, segundo testemunhas da maior credibilidade: "o gastão não morde, o manel só ladra, o tosta é dócil".

E, sendo assim, pouco importa que o Edu não tenha medo!

Publicado por LFV em 02:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 08, 2003

Quem pode acreditar nestes jornais?

O semanário Tal&Qual, de ontem, insere um artigo intitulado “Bronca no PSD de Lisboa”, a que se segue o sub-título “O partido ofereceu férias a potenciais votantes. A Oposição criticou e HOUVE ESTALADA. O dono dos apartamentos diz que vai a tribunal”.

O caso, segundo se relata, ter-se-á passado à saída da Assembleia de Freguesia de Benfica onde, a 30 de Setembro passado, quatro militantes do PSD terão agredido uma militante do Bloco de Esquerda. Porquê? Porque esta terá denunciado o facto do PSD ter oferecido estadias de sete dias, em Albufeira, a seis potenciais eleitores. E, de forma reles, terá considerado esse procedimento “um atentado à democracia”.

Mas uma militante do PSD, por sinal membro da mesma Assembleia de Freguesia, queixa-se igualmente de ter sido agredida também, na mesma altura e pelos mesmos elementos. Seus correligionários, portanto.

A tentar explicar a situação toda a gente acaba a meter as mãos pelos pés e a confundir toucinho com velocidade. Pelos vistos o que houve foi apenas um acordo entre alguém do PSD da freguesia de Benfica, um clube que aparentemente será de bairro e uma instituição que é proprietária dos apartamentos.

Foi distribuído um folheto simples e ingénuo, dizendo apenas: “vote PSD e ganhe uma semana de férias no Algarve, acompanhado da família. Se ganharmos prometemos, para a próxima, duas semanas de férias, com tudo incluído”. Então o que é que isto tem de mal? Então os senhores deputados – e não só do PSD, não é? – não vão até passar férias muito mais longe, gastando muito mais dinheiro, trazendo consigo um bronzeado que até faz inveja à Naima, também tudo à borla? E pacificamente, sem ninguém andar à porrada!

Era o que faltava vir depois a oposição, do Bloco de Esquerda ainda por cima, demagógica como o Dr. Louçã ou o Sr. Fazenda, vir levantar falsos testemunhos e contar mentiras! Quanto à militante do PSD acontece apenas que foi também contemplada como uma dessas semanas de férias. Para provar que não houve intenção de corromper, sugestionar ou fazer pressão fosse sobre quem fosse. Se levou algum estalo foi apenas por distração, não foi intencional. E apenas porque não queria ganhar as férias! Onde é que já se viu alguém deitar assim a sorte pela porta fora!

Quanto a serem os contemplados potenciais eleitores. E daí, o que é que isso tem? Potencial eleitor até o Dr. Cunhal é há muitos anos. E mesmo que também ele tivesse ido de férias pagas para Albufeira não ia votar PSD, pois não? Então calem-se, como manda a ministra Ferreira Leite!

Publicado por LFV em 04:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

Como se divulga um “blog”?

Já algures deixei a questão pendente. A de saber como é que se consegue, ou pelo menos o que se pode fazer, para divulgar um “blog”. Porque de facto é sempre positivo, na minha perspectiva, deixar “posts” sobre os mais diversos assuntos e, depois, ter o retorno de quem passou pela página e os leu. E se é importante termos – e preservarmos – ideias próprias, não será menos importante compartilhá-las com terceiros, melhorá-las e, até, corrigi-las.

Alguém está disponível para dar uma ajuda? Será bem vinda e antecipadamente agradecida.

Publicado por LFV em 03:07 PM | Comentários (0) | TrackBack

Fernando Seara, comentador isento

Com dois dias de atraso, sabendo que os resultados do futebol são verdades efémeras, acho que o “post” ainda tem actualidade.

Por esta vez, em uníssono, os simpatizantes, os sócios e os dirigentes do Benfica – presidente noventa por cento incluído! – acharam perfeitamente isento, objectivo e pedagógico o trabalho do comentador que acompanhou a transmissão do Benfica – Molde na passada quinta-feira, na antena da SIC.

Com isto a Câmara Municipal de Sintra arrisca-se a perder um presidente a a D. Judite de Sousa um marido. Já quanto à isenção do Dr Seara, especialmente quando se trata do Benfica, nunca eu duvidei. E alguém se atreveu a duvidar?

Publicado por LFV em 10:41 AM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 07, 2003

Temos que crescer menos que a Espanha?

Creio que foi o primeiro ministro, Dr Barroso, quem arremessou a pergunta num dos últimos dias. Quando morna, entorpecida e flatulenta, decorria a discussão do Orçamento de Estado para 2004. Alguns deputados deixaram de bocejar, outros chegaram mesmo a abrir os olhos e dois ou três até bateram palmas. Irado, quase aos gritos, projectando as palavras, perguntou: porque razão havemos de crescer menos que a Espanha? Ou menos que a Irlanda?

Então o Sr. Primeiro Ministro não sabe uma coisa destas. Então tem o desplante de lançar tais questões a tão distinta assembleia, convictamente concentrada na sua modorra e na sua falta de ideias. Então não vê que os países ibéricos divergiram a partir do momento em que deixaram de ser governados por homens que usavam botas. Como o Dr. Salazar e o generalíssimo. Não entende ele que Espanha obteve o seu estatuto democrático sem ter necessidade de fazer revoluções. Mesmo que estas fossem com cravos vermelhos espetados nos canos ferrugentos das espingardas velhas e obsoletas. Chefiada por oficiais de baixa patente que depois a emergente classe política foi devorando, faminta de cargos e mordomias, em menos do se diz que o diabo esfrega um olho.

Não sabe ele que o rei, D. Juan Carlos, foi a charneira de uma mudança que chegou ao mais alto dos Pirinéus. Calma e tranquilamente, sem sobressaltos e sem o esbanjamento dos stocks das caves Pedro Domecq Não se lembra daquele tal tenente Molina que invadiu as Cortes a gritou: tudo deitado, de mãos atrás das costas! E da manifestação de unidade que se seguiu, com o rei à frente, feito plebeu, em defesa do regime. Dos governos sucessivos do D Felipe que levaram a Espanha à chamada Comunidade Económica Europeia, recolheram os fundos a que tiveram direito e, mais do que isso, os investiram e construiram estradas que chegaram até Tui. Com toda a corrupção e todos os escândalos que o cansaram a ele e aos espanhóis. Até estes terem preferido o D. Jose Maria que continuou a obra com um mínimo de sensatez, de profissionalismo e de honestidade. Mesmo para além da sua arrogância congénita mas contentando-se, apesar de tudo, com o copo plástico de cola-cola e a palhinha que, para a sorver, lhe serviram em Washington. E que agora, antes de chegar ao fim da validade, proclamou que se ia embora, pronto.

E por cá, a oriente do Cabo da Roca, o que é que foi acontecendo? Primeiro, ninguém teve sequer a coragem de informar o Dr António das botas, doente e tonto, que já não mandava, que já não era dono de nada. Tal era o medo de que ele ainda tivesse a lembrança de comunicar aos jornais as suas exonerações. O professor Caetano lá foi tentando levar a sua cruz ao calvário, com as dificuldades que não contou e as caneladas raivosas do Sr. Casal Ribeiro. Até que alguns capitães decidissem agrupar-se em sindicato, pusessem as espingardas ao ombro, penduradas pela bandoleira, e viessem de Chaimite para a rua, que eram o transporte de que dispunham. Rapidamente se chegou à conclusão de que Portugal era sem futuro. Tão depressa que, antes, apenas figuras importantes que tinham dinheiro para o bilhete tinham embarcado para o Brasil, como a família real. Os de mais modestas posses ficaram-se pela península, em segurança, a norte do rio Minho.

Em pouco tempo o major Otelo equivocou-se, confundiu a arena do Campo Pequeno com a parada de um quartel e quis enchê-la de adolescentes imberbes mas democratas, a marcharem e a cantarem o hino da mocidade portuguesa. Foram-se fazendo eleições para eleger deputados que fizeram os governos cair para que se fizessem novas eleições de que pudessem sair novos parlamentos e novos ministros. O Dr Cunhal foi ministro e o almirante Pinheiro de Azevedo foi primeiro ministro, mandando à bardamerda os manifestantes que o sequestravam em S. Bento. A rebaldaria medrou e o coronel Eanes chateou-se, pensou e disse: porra para isto! Ele, que até é um homem educado e de princípios.

Decidido, fartou-se e fardou-se, saindo à rua. Chefiou, ao que dizem, uma coisa a que chamaram golpe, acto heroico ou coisa irrelevante, conforme os dividendos que daí colheram. Gratos, os portugueses confiaram-lhe a presidência da república. Fez, como fariam os seus sucessores, os dois mandatos que a constituição permite. No percurso abriu a porta da gaiola ao Dr Soares e deixou-o ir em liberdade, voando como um passarinho, sem resgate e sem grilhetas.

O Dr Soares regressou, voltou a sair, voltou a regressar e levou heroicamente, sem perguntar nada a ninguém, o país para a Comunidade Europeia. O povo, venerador e obrigado, pô-lo em Belém para os dez anos da praxe. O professor Cavaco foi entretanto fazer a rodagem ao seu carro novo, ganhou um serviço de cristais na quermese de uma festa de província em que não pensara participar. Foi feito primeiro ministro na Figueira da Foz. Foi andando, persistente e cauteloso, determinado e confiante, fazendo e dizendo que fazia. Até que se viu envolvido na roda acelerada de um corridinho algarvio, com músicos que não conhecia e o chão escorregadio da cera fresca. Caiu, por descuido ou cuidado da sua própria orquestra.

Fizeram-se novas eleições, o engenheiro Guterres deixou embevecidos os progenitores e ganhou. Prometeu mudanças, mundos e fundos, a turba aplaudiu e acreditou: agora é que é. Não foi e quanto menos era mais o engenheiro prometia e quanto mais ele prometia menos era e, à boa maneira dos hábitos políticos do Sr Luís Pacheco, ia crescendo a rebaldaria a que toda a gente já se ia habituando. Enquanto aprendia inglês e ficava a saber o que era isso de “boys” e de “girls”. Na oposição o Dr Barroso discursava, barafustava, esgrimia e ninguém acreditava, ninguém abandonava a hibernação que era um estado de espírito. O Dr Santana mantinha-se a banhos na Figueira e só ia a Lisboa para o namoro ou para um passeio nocturno pelas docas.

Até que, numa noite de inverno, o engenheiro gritou e disse: não estou para isto, não foi para isto que eu queimei as pestanas a estudar. Vou-me embora. E bateu com a porta que se fechou com estrondo. De seguida, claro, o seu partido perdeu as eleições. Como sempre, depois do escrutínio, todos foram para a rua, carregados de bandeiras, com cachecois ao pescoço e a gritar ganhámos. O Dr Barroso subiu a primeiro ministro, com a ajuda do Dr Portas, a quem retribuiu como merecia, dando-lhe emprego, casa, cama e roupa lavada.

Hoje quem manda no país é o professor Marcelo. Fá-lo ao domingo e chega-lhe meia hora na antena da televisão do Big Brother, logo depois da missa e da maquilhagem. A classe política teme-lhe o discurso arrasador e, com o devido respeito, mija-se de medo. Os alunos receiam-lhe o rigor nas avaliações e a eminência dos chumbos nos exames de frequência. As adolescentes, com acne na cara, ouvem-no embevecidas, ruborizando-se quando sentem que o coração lhes bate mais depressa. E até as criancinhas, muitas vezes renitentes em deglutir a sopa, esbugalham os olhos, quase parecem tomadas de hipnose e rapam o prato.

É por isso que a Espanha cresce mais do que nós. E é quase dona da rua de Santa Catarina, da Batalha até ao Marquês. Ou Largo da Aguardente, como aprendi com as crónicas dominicais do Sr. Germano Silva no Jornal de Notícias!

Publicado por LFV em 07:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Humorismo do Sr. Vereador

Com a devida vénia, transcrevo o P.S. 2 do artigo de Miguel Sousa Tavares na edição de hoje, do jornal Público:

A Câmara Municipal do Porto abriu a discussão pública para revisão do PDM da cidade. Um jornalista perguntou ao vereador Ricardo Figueiredo se o plano que for aprovado será mesmo para cumprir sem excepções, o mesmo é dizer se vale a pena a discussão e, no limite, se vale a pena fazer planos. Resposta do senhor: “Bom, isso ninguém pode garantir. Um plano é uma lei e, como todas as leis, está sempre sujeito a alterações.” É assim que se fazem as cidades, entre nós.

Deixem-me acrescentar. No Porto, a única “lei” por cujo cumprimento a Câmara Municipal se esforça arduamente é a do limite do tempo de estacionamento nos locais controlados por parcómetros. E, sendo provavelmente uma má “lei”, não se prevê que venha a ser alterada tão cedo. No resto, se não houvesse leis, posturas e regulamentos, como conseguiriam os portuenses infringi-las? Será que o Sr. Vereador quererá ou saberá responder?

Publicado por LFV em 04:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

O adeus de Manuela Moura Guedes

Manuela Moura Guedes disse a uma revista deste país: “se não acreditar que se faz justiça, faço as malas e vou-me embora.

Será que ela vai demorar muito a desacreditar? O destino não interessa. Desde que seja para longe!...

Publicado por LFV em 03:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

As peripécias do Sr Castelo Branco

Chegado ao aeroporto da Portela, de proveniência exótica ou cosmopolita – que ambas lhe vão bem! – desembarcou e aguardou pelas bagagens. Carregou-as à medida que o tapete rolante lhas foi trazendo num daqueles carrinhos que, em andamento, se inclinam sempre na direcção errada. Tranquilo, apontou ao corredor destinado à via verde. Distraído, nem se lembrou que lhe faltava o identificador da Brisa colado na frente. Inevitável, à sua passagem, com a querida cara-metade a segui-lo de perto, o alarme electrónico soou. Um som discreto, em surdina, para se não confundir com as sirenes dos bombeiros em dia de incêndio: beep.

Profissional, como aquele arquitecto que vai ganhar muito dinheiro com o Parque Mayer e de que o Dr Santana gosta muito, o funcionário apressou-se a chegar-se a ele. Presto, - sem ser detergente, que isto não é novela! – pôs-lhe a mão no braço esquerdo e falou-lhe. Baixo, para não chamar a atenção de terceiros e não assustar viajantes menos prevenidos. E disse-lhes: façam o favor de me acompanhar. Sorrateiramente, como convém, levou-os para uma pequena sala interior, de vidros fumados e mobiliário insuficiente e vulgar, mal iluminado.

Educamente, voltou a falar: vamos ter de verificar a sua bagagem. Distante, perguntou: a sua identificação se faz favor. A pergunta, simples e directa, bateu como uma afronta. José Castelo Branco, em português que não sabe, “passou-se”! Puxou da carteira em pele de cobra – nada amigo dos animais, o rapaz! – que tinha no bolso de dentro do casaco aos quadrados, com uma etiqueta de dimensões exageradas à vista de toda a gente onde se lia “Versace”. Tirou um cartão de visita pessoal em que o seu nome figurava escrito em três línguas:

J. Castelo Branco
J. Chateau Blanc
J. White Castle

Seguido por mais duas linhas em que, em letra pequenina, como a que indica as taxas de juro nos anúncios dos bancos, figuravam moradas e números de telefone. Irritado, com a comichão a chegar-lhe aos cotovelos, sussurrou entre dentes: imbecil, nem me conhece. E estendeu-o ao funcionário. Com nostalgia e sem saudades recordou-se que na terra persistiam em conhecê-lo por José e em chamar-lhe “finório dum... beep”.

As malas foram revistadas, sem pressas, demoradamente, uma a uma, a noite era uma criança. Pelas mãos do funcionário, usando luvas, daquelas que se usam uma vez e se deitam fora, como os preservativos. E que, como estes, também muitas vezes não evitam coisa nenhuma. Pela frente do funcionário discreto, profissional e quase venerador, foram passando as mais diversas peças de vestuário, sempre ostentanto etiquetas visíveis do outro lado do pavilhão. Com feitios esquisitos e de padrões invulgares, coisas de gente da alta, está-se a ver. Desde cuecas a parecerem camisolas do Boavista a “soutiens” sem espaço para armazenar mamas nenhumas e cores que nem os computadores fabricam.

Pelo meio, de vez em quando, lá ia caindo um relógio Rolex – e estes passageiros não vinham da China como o Sr. Berlusconi e comitiva! – umas gargantilhas, umas pulseiras, uns adornos menos vistos pelas bandas de cá. O finório ia corando, gaguejando enquanto tentava explicar a legal proveviência de tudo, mesmo que não trouxesse recibos.

Terminada a tarefa, quase cedendo ao sono e ao turno que corria para o fim, o funcionário manteve a compostura. Inflexível, aguentou-se no profissionalismo que era divisa dos serviços. Firme, decretou: desculpe-me Sr. Castle ou Chateau ou lá o que é. Mas o senhor vai ter que ser detido para prestar declarações. Tenho muita pena, mas tem que ser.

O finório alegou jantares, festas e saraus inadiáveis, casamentos, baptizados e despedidas de solteiro a que se comprometera a estar presente. Mas rapidamente percebeu que de nada serviria a conversa. Acabrunhado, conformou-se. Mesmo assim, por entre dentes, exclamou desalentado: beep!

Publicado por LFV em 02:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 06, 2003

Um tutor para o Dr Louçã

Post scriptum do editorial do Sr. José Manuel Fernandes, intitulado A manifestação egoísta, na edição de hoje do jornal Público:

Francisco Louçã fez ontem, junto aos manifestantes e para as televisões verem, uma palhaçada oportunista e um discurso populista. Devia ter vergonha.

Sugere-se ao Dr Mota Amaral, aos chefes dos diversos grupos parlamentares, aos deputados em geral e até mesmo ao Bloco de Esquerda que, depois de obtida a sua concordância, se trate da legalização jurídica do Sr. José Manuel Fernandes como tutor do Dr. Louçã.

A não resultarem as diligências efectuadas, levar a efeito os procedimentos necessários à declaração de inimputabilidade do Sr. José Manuel Fernandes. Para tentar acabar com as palhaçadas!

Publicado por LFV em 07:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

João Loureiro e Pinto da Costa

O almoço de João Loureiro e de Pinto da Costa foi hoje do domínio público. Ainda público o facto de terem almoçado juntos, sem ter sido divulgado nem onde, nem o nome do restaurante. Igualmente se não sabe a composição da ementa, mas os vinhos devem ter sido de boas adegas. Acompanhou-os à mesa, creio, o governador civil do Porto. E ainda o patriarca Valentim que, para ambos, é ainda e também o presidente da Liga.

Amigos, amigos, negócios à parte. O Sr Pinto da Costa comprometeu-se a fazer todos os esforços para que nenhum super-dragão colabore em nova pintura da pantera, meio anoréctica, do Bessa. Em contrapartida o Sr Loureiro (filho) vai empenhar-se para que, mesmo de passagem pela VCI, nenhuma pantera negra ouse apontar as garras felinas ao dragão. Senão este fica livre de cuspir o fogo que quiser, de consequências imprevísiveis.

E ficam em paz!

Publicado por LFV em 03:25 PM | Comentários (1) | TrackBack

Maria Elisa renuncia ao mandato de deputada

Depois de protelamentos, hesitações, doenças, tratamentos e programas de televisão – que não chegaram a ser! – a política-jornalista Maria Elisa renuncia, finalmente, ao seu mandato de deputada para que foi eleita nas listas do PSD pelo círculo de Castelo Branco.

Tal decisão, saída de cesariana complexa e demorada, foi anunciada pelo brilhante “leader” do seu grupo parlamentar. Por entre encómios e elogios que são sempre suspeitos, mesmo quando dirigidos a mulheres, o Dr Guilherme Silva – do arquipélago da Madeira – salientou a lisura da renunciante.

Fico desconsolado com a renúncia. Mais do que fiquei com o seu desempenho como deputada. Porque deles, dos deputados, já não espero mais do que a balbúrdia com que se vão reciprocamente pateando. Agora não faço a mínima ideia do desempenho dos seus antecessores na embaixada de Portugal em Londres, no exercício de idênticas funções às que ela vai assumir. Nem imagino o número de vezes que, por semana, terão ido marcar o ponto ao Harrod’s!

Na AR vai substituí-la um meu velho amigo, António Ribeiro Cristóvão, que troca o desporto na Renascença por outro tipo de discurso. Sem outros considerandos, deixo-lhe apenas o mesmo abraço amigo de sempre. Mas não serás tu, António, que vais mudar coisa nenhuma!

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Eça de Queiroz, Junho de 1871

O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

Em Uma Campanha Alegre. Com ligeiras alterações ou mesmo sem alterações nenhumas, poderia ter sido escrito hoje, tão actual se mantem o seu conteúdo. É um certificado de quanto evoluímos em mais de 130 anos. É obra!

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novembro 05, 2003

Porto - 1

Para amostra e para ensaio. Desculpe-se a dimensão e a qualidade.

Publicado por LFV em 10:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Senado do Dr Santana

Nova ideia peregrina do Dr Santana é a criação de um Senado no sistema político português e as razões que o justificam. Diz ele que não representa aumento de custos e que, além disso, S. Bento já dispõe, ao cantinho de um corredor, de uma sala muito bonita onde o mesmo pode vir a funcionar.

Isto suscita algumas reflexões quanto às razões invocadas. Para que os custos não aumentem o número de deputados à Assembleia da República poderá, por exemplo, ser reduzido a metade. E, em consequência, tudo será reduzido a metade, incluindo o número de dirigentes e as respectivas remunerações. Não serão necessárias mais instalações, mais pessoal administrativo, maiores verbas para ajudas de custo ou mais e maiores incómodas viagens ao estrangeiro, incluindo Cancun. Assim sendo não serão dispendidas importâncias adicionais na aquisição de livros de ponto, de garrafas de água de mesa, de materiais de limpeza ou mesmo de papel higiénico. Nada será multiplicado, seja por que factor for. Nem sequer as vantagens e a produtividade. E, quanto a instalações, estamos conversados. Far-se-à uso de uma sala muito bonita de que S. Bento já dispõe para o efeito, ao fundo de um corredor, do lado direito. Os senhores senadores, que o país real impacientemente aguarda, acamparão aí. E actuarão utilizando a estratégia que há anos era prescrita pelo senhor Pedroto: “tudo a monte e fé em Deus”.

Mas quem serão os senhores senadores e que se dirá que irão fazer? O PSD já anunciou a sua proposta nesse sentido. Haverá senadores de pleno direito e senadores eleitos. De pleno direito: antigos Presidentes da República, da Assembleia da República, Primeiro-ministros que tenham exercido mandatos completos e ainda antigos presidentes dos governos regionais que tenham exercido duas legislaturas completas. Será a hoste dos reformados, forçados a trabalhar, mesmo com a idade provecta do Dr Soares!

Os membros eleitos se-lo-ão por método indirecto por uma assembleia composta pelos membros das assembleias municipais, não vá o diabo tecê-las!

E para que servirá e que competências terá? Objectivamente, quase nenhumas e as que terá serão de todo irrelevantes: as leis que tenham tido parecer desfavorável do senado serão objecto de segunda discussão. Quer dizer, se um assalto for julgado mal executado terá de ser executado de novo, de forma a resultar mais convincente e mais eficaz!

Ah! Mas o senado será um novo orgão de soberania e não poderá ser dissolvido. Nem em acetona ou líxivia! E os senhores senadores? Poderão ser conservados em formol?

Publicado por LFV em 06:45 PM | Comentários (0) | TrackBack

Às vezes me assarapanto!

Não conheço o Sr. JMF, a não ser de aparições frequentes em programas da RTP. Que ele, creio, condena como empresa pública altamente deficitária à custa do bolso dos contribuintes. E enaltece como entidade que vai pondo à sua disposição, regularmente, mais uns patacos que lhe facilitem mais uns repastos nos restaurantes do Guincho. Mas, assarapantando-me, acabo estupefacto. Porque sempre me insurgi e revoltei contra todo o tipo de injustiças, que me causam náuseas, me dão comichões e me doem nos joanetes. E este comentário é alta e definitivamente injusto para com a Sr. JMF.

E quero explicar porquê. O editorial do Sr. JMF é uma peça simplesmente notável. De bom senso, de imaginação, de inteligência e, sobretudo, de um hilariante sentido de humor que eu era incapaz de imaginar por detrás da figura que põe à frente das objectivas da RTP para cuja aquisição, modestamente, também pago. É questão de persistir na sua leitura, mais uma, mais duas, mais n vezes.

Segundo JMF o “Washington Post” faz revelações que, de facto, não têm a mínima relevância. Antes delas já os Srs. Bush e Blair tinham assegurado coisas muito mais importantes. Agora, não se sabe em que condições, o Sr. Aziz vem, hipoteticamente, plagiar a D. Lili Caneças e dizer que “vivo é o contrário de estar morto”. Tanto que incrimina até o Sr. Saddam por não ter reagido, se ter escondido num canto e, com vossa licença, se ter mijado pelas pernas abaixo.

Aquele jornal americano salvaguarda ainda a hipótese do Sr. Aziz se estar a comportar como uma vulgar prostituta, fazendo por agradar ao chulo que lhe leva o rendimento diário do seu suor. Mas as suas revelações são confirmadas por um insuspeito general iraquiano segundo o qual a guerra nunca ocorreria graças ao veto da França e da Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O Sr. Primakov, sabe-se agora, teria ido duas vezes a Bagdad visitar Saddam, um seu velho amigo e cliente. E, entre amigos, nunca lhe teria aconselhado a que salvasse o coirão. Bem pelo contrário o teria incitado a invadir o estado do Massachussetts, a tomar Liverpool e a aprisionar a D. Margareth Tatcher e o Sr. Elton John.

Não se sabe o que terão feito ou não os franceses, nem sequer se terão também visitado Saddam, levando-lhe algumas garrafas de Moet et Chandon. Sabendo-se que, para além de discretos e secretos, são falsos como judas e capazes de tudo. Até de nos invadirem por três vezes como nos ensinam os manuais de história e os programas do Dr. Hermano Saraiva. Mas levaram para tabaco, mesmo com as ajudas que se conhecem, pelos motivos que se sabem.

Sabe-se ainda que nas vésperas da guerra, se a comunidade internacional se tivesse mantido unida e a não tivesse desejado, à guerra, ela não teria sido desencadeada. Mas isso não aconteceu e os Srs. Bush e Blair, acompanhados dos pagens Aznar e Barroso, decidiram deitar cartas por sua conta e risco e marchar sobre as reservas de petróleo, deixando as Nações Unidas a pensar sobre o número de vezes que o Sr. Bush faria sexo em cada semana. Afinal, mais do que isso, mais do que armas nucleares ou químicas, alguém foi a Bagdad levar uma canjinha de galinha ao Sr. Saddam, para o reconfortar.

Já o PS – que não tem nada a ver com o Dr Ferro! – do editorial não manifesta espírito humorístico e é objectivo. Diz JMF que a França decidiu não enviar forças militares e não apoiar a reconstrução do Iraque. E que nem sequer tenciona perdoar a dívida iraquiana. Porra, é sempre a mesma coisa, em todo o lado. Como cá, neste sítio à beira mar plantado, os deputados viajam e eu é que tenho que pagar. Como se isso não bastasse ainda tenho que perdoar as dívidas que algum tenha para comigo?

Publicado por LFV em 05:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

O acaso da Orquestra Metropolitana de Lisboa

Finalmente! Depois de uma assembleia geral, treze votos a favor, um contra e onze abstenções, a Orquestra Metropolitana de Lisboa abriu as portas e varreu o chão. Espera-se agora que consiga prosseguir os objectivos para que foi criada, se estes justificarem a sua existência, e que promova o pagamento dos salários em atraso a pessoas cuja subsistência neles tem, creio eu, o suporte fundamental.

A assembleia geral realizada evidenciou também, como o mesmo se não cansou de repetir durante meses, o desapego ao poder do maestro Miguel Graça Moura, agora atirado para o desemprego. Cujo subsídio, como se sabe, não chega para cobrir as suas despesas essenciais, ligeiramente superiores às de um vulgar beneficiário do Rendimento Social de Inserção.

Publicado por LFV em 12:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

Viagens-fantasma dos deputados para o tecto!

O processo relativo a viagens realizadas por deputados, de forma fraudulenta, foi mandado arquivar por prescrição dos prazos para acusação. Esse facto, diz a notícia, custará à Assembleia da República 230 mil euros, o equivalente a cerca de 46.000 contos. É evidente que não custará nada àquele organismo mas sim a todo o país contribuinte, como custam a TAP e a RTP.

Dos 25 ex-deputados em falta diz-se que um já faleceu, outros alegaram a prescrição do processo e a maioria insistiu no facto de ter utilizado o dinheiro de forma correcta.

Mais uma vez, o crime compensa. E a gaita é que, de acordo com a estória, o Fantomas volta sempre ao local do crime. Portanto, que irá acontecer-nos a seguir?

Publicado por LFV em 12:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

Os comentadores de televisão são mal pagos

Esta manhã descia eu a rua, a pé, a caminho do “blog”, quando inesperadamente dei por mim absorto em pensamentos lógicos. Preocupei-me um pouco, porque não é muito hábito meu, zás, desatar a pensar assim, rua abaixo, quando faço por ir caminhando enquanto me vou afastando dos muitos buracos nos passeios e tento furtar-me às autênticas enxurradas que caiem dos telhados, quando chove. Mas às vezes acontece e isso é coisa, advirto, que pode suceder a qualquer um. Mesmo aos que saiem de casa muito mais tarde do que eu, se deslocam de carro para não estragar o brilho dos sapatos, às vezes com motorista para evitar os piropos que, se conduzissem, teriam de dirigir à população de trogloditas que, encaixotada, enche todas as faixas de rodagem, de segunda a sexta-feira.

E que coisa me haveria de vir à cabeça, logo assim, de manhã, antes da marcação do ponto e do definitivo café das dez? Achar, sem nenhuma dúvida – que, ao contrário de alguns priveligiados, tenho muitas vezes – que os comentadores de televisão são mal pagos. Sem mais, claramente, os comentadores de televisão que passam regularmente por nossas casas, como o Professor Marcelo e os Drs. Santana, Carrilho e Pacheco são definitivamente mal pagos. E recordo-me de uma ladaínha que ouvi em tempos idos, nem sei bem onde nem porquê, que recomendava que as pessoas fossem remuneradas em função das suas necessidades. Está mais do que visto que nada evoluiu no período de tempo entretanto decorrido, e foi muito. O Francisco continua a viver na Rua de Camões, sob uma arcada que é o seu abrigo. Deita-se sobre uma qualquer enxerga que recolheu dos trastes que alguém deitou fora e protege-se do frio com algumas mantas surradas e puídas com que se cobre e que moradores próximos, mais beneméritos, lhe trouxeram com uma sopa quente. O rendimento social de inserção – é bonito o nome, mesmo que nem ele, nem eu, saibamos o que significa – que recebe, se é que o recebe, não lhe dá para as cervejas que consome durante o mês. E que o obriga, a partir de cada dia quinze, a ir pedindo aos vizinhos que já conhece há anos. Não se arrisca a ir arrumar carros a troco de moedas de euro, por causa do Dr Rio que o ameaça com a recuperação. E, com ela, com um banho semanal, uma cama e um tecto sob o qual, mesmo sendo património público, se calhar não chove.

Mas desvio-me da questão inicial e não quero. Voltemos aos comentadores de televisão que são mal pagos. E que, apesar disso, são figuras públicas como os concorrentes do “Big brother” ou da Operação Triunfo. Para além disso o trabalho que desenvolvem é tão digno como o que fazem as senhoras Teresa Gulherme, Júlia Pinheiro, Catarina Furtado ou os membros do júri de um qualquer concurso alarve cujo nome agora me escapa. Sendo corrente, como se sabe, que estes, todos, até são bem pagas. E não é necessário invocar agora águas passadas, falando nas condições satisfatórias que o Dr Rangel tinha na SIC quando o Dr Balsemão embirrou com ele. Ou com as que, mais modestas, negociou com a RTP porque esta, diz-se, não nada em dinheiro, ainda mesmo que se comporte como se isso acontecesse.

E porque é que afirmo assim, sem dúvidas ou hesitações, que os nossos comentadores de televisão são mal pagos? Acham que a pergunta é necessária? Quando a questão é tão evidente e está, às vezes, à vista de toda a gente. Todos eles, para comporem o seu orçamento pessoal – quase como o Francisco da Rua de Camões! – têm de se socorrer de outras, às vezes múltiplas ocupações. O professor Marcelo teve de ir dar aulas para uma faculdade de direito e vê-se na contingência, mesmo assim, de ir dando alguns pareceres jurídicos que lhe solicitam e que, naturalmente, lhe pagam. O Dr Santana, que ainda não é candidato a presidente da república, ocupa-se com a presidência da Câmara e vai mandando colar cartazes com a sua fotografia a anunciar a reparação de alguns passeios. Nas horas vagas vai a uma ou outra festa de amigos e escreve sobre futebol, de que sabe quase tanto como o Sr. Scolari, vulgo Filipão. O Dr. Carrilho viu-se forçado a aceitar ocupação pior remunerada: tão só a de deputado. Mas do mesmo se queixava já, e continua a queixar graças a Deus, o vitalício Dr Almeida Santos. A quem, enquanto foi presidente, nunca chegaram sequer a disponibilizar uns anexos, mesmo acanhados, onde pudesse receber os amigos e os convidados. Nas horas vagas, poucas desde que deixou de ser ministro, o Dr Carrilho vai-se ocupando da sua muito activa vida social e tratando da promoção da imagem pública do Eng. Guterres e do Dr. Ferro. Por último, o Dr. Pacheco, o menos afortunado dos que referimos, porque se viu forçado a emigrar para país estrangeiro e lá vai dando parte do seu esforço na cidade de Estrasburgo. Não se ganha mal, mas é difícil, mesmo que se venha algumas vezes a Portugal, sempre a correr, feito caixeiro-viajante dos antigos, carregado de malas a mostrar colecções novas às lojas de tecidos. Depois do jantar, – a que invariavelmente faltam o bacalhau com batatas – em terra estranha, vai-se entretanto com os “blogs” que não são remunerados e, por isso, lhe saiem corridos, abruptos, torrenciais, com figuras que possam dar-lhes um ar mais leve e coloquial.

O “post” vai longo. Peço-vos desculpa por isso, especialmente se resistiram até aqui. Mas os assuntos importantes, que denunciam injustiças graves, muitas vezes reclamam mais espaço do que outras matérias, perfeitamente vulgares.

Publicado por LFV em 11:30 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 04, 2003

Champions League

Bem, posso dizer que não sou natural nem da cidade do Porto, nem do seu distrito. Ainda que não sou adepto do FCP. Embora seja residente na cidade desde longa data.

Divirto-me às vezes com a ironia cáustica com que o Sr Pinto da Costa brinda alguns amigos, adversários, árbitros e presidentes da Liga. Achei graça à forma como pediu ao Benfica para o não convidar para a inauguração do novo estádio da Luz. E vai-me fazer rir o convite que irá endereçar ao novo presidente do mesmo clube para a inauguração do estádio do Dragão.

Já não me fez rir a inauguração, domingo passado, da alameda de acesso ao estádio, encabeçada pelo Dr Rio sob impropérios e insultos de adeptos intolerantes. E quase me faz rir o texto do convite, manuscrito, que o mesmo Sr Pinto da Costa irá endereçar ao Dr Rio para a inauguração do estádio. E mais ainda a resposta deste, em ofício formal da Câmara Municipal, a recusar o convite devido a afazeres pessoais inadiáveis.

Mas, no meio de tudo isto, tenho que congratular-me com a vitória que o FCP averbou esta noite, no velho estádio das Antas, com o Marselha. Bem faço votos para que consigam qualificar-se para a fase seguinte. E está quase, carago!

Publicado por LFV em 10:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

Os blogs valem a pena - 2

Num dos seus "posts" teve o Gin Tónico a amabilidade de se referir ao nosso "post" de hoje a que demos o título "Os blogs valem a pena?".

Sempre pensámos que sim, que valem a pena. Porque de facto todos aprendemos com eles, mesmo quando são efémeros, mesmo quando são fúteis, mesmo quando não persistem, mesmo quando prematuramente desaparecem. Porque os que persistem, aqueles que resistem, os que manifestam maior actividade, são por demais compensadores.

Dá-me a mim também um gozo especial percorrê-los, ver ideias, estilos, imagens, palavras e propósitos distintos. E sentir, como sinto, depois de decorridas apenas três semanas sobre a data da criação do Placard, que no essencial se verifica uma solidariedade entre os seus membros. Dispostos a esclarecer, a informar e a ajudar quem está um pouco mais a leste das coisas.

Por isso é nossa intenção prosseguir. Com regularidade. Tentando usar uma linguagem acessível, um português razoavelmente correcto, alguma actualidade nos temas e algum humor nas frases. Apenas esperamos, naturalmente, que a comunidade nos compreenda e nos aceite. Porque não estamos contra ela, bem pelo contrário!

Publicado por LFV em 05:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Orçamento do Estado para 2004

Ouço, por preguiça de me levantar e ir desligar o rádio, a discussão sobre o Orçamento do Estado para 2004 que vai decorrendo na nossa muito produtiva Assembleia da República.

O primeiro ministro, Dr Barroso, afirma quase aos gritos que Portugal se fartou de andar para a frente e que ainda se vai fartar mais. Ninguém aguarda mais de seis meses para ser sujeito a uma qualquer intervenção cirúrgica num qualquer hospital. Mas o pior são os cuidados primários, os centros de saúde espalhados pelo país, os médicos de família que não há, e até mesmo os médicos que não há de todo para ninguém em muitos locais.

O Dr Ferro lamenta não ser capaz, sozinho, de conseguir uma vaia tão estrondosa como aquela com que, na sua inauguração, o novo estádio da Luz presenteou o Dr Barroso. E diz que Portugal está realmente farto de andar. Mas para trás e que é assim que continuará a andar nos próximos tempos. Quanto ao resto da sua primeira intervenção diz o primeiro ministro que é, apenas, “mais do mesmo”.

Nenhum deles refere que, dos actuais quinze membros da União Europeia, somos únicos e ninguém nos confunde. Somos os últimos em tudo, mas teme-se que por pouco tempo. Apenas porque em Maio próximo haverá dez novos membros e receia-se que nem todos possam, de imediato, passar-nos à frente. Alguns precisarão de algum tempo para o conseguir o que, depois, nos motivará muito mais a persegui-los na intenção de os ultrapassar. Quer dizer, Portugal, como numa prova de atletismo, está tão seguro de si, das suas capacidades e da sua caminhada heroica para a meta, que lhes dá duas voltas de avanço. Para que tenham a ilusão que vão ganhar!

Publicado por LFV em 04:07 PM | Comentários (0) | TrackBack

É sempre possível melhorar!

Hoje, pela primeira vez, o Placard pendura na parede uma primeira imagem. Este facto não terá nenhuma relevância para os poucos visitantes que por aqui vão passando. Mas para mim, pessoalmente, a questão é diferente. Porque não imaginam o que eu passei para aqui chegar. Mas o que interessa é que cheguei. Não tomando isto como uma vitória, porque o não é, acho que é, apesar de tudo, um incentivo para que prossiga e para que vá tentando melhorar as coisas. A ver se, com o tempo, consigo ir além dos três meses que são o período de vida média dos “blogs”.

Já agora, sobre a imagem! De acordo com a legenda que a acompanha, no endereço onde a localizei, trata-se de Marken, uma das mais bonitas aldeias da Holanda. Que eu não conheço, acrescente-se!

Publicado por LFV em 03:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

Os “blogs” valem a pena?

Bem, vamos lá, antes de tudo. Antes mesmo de folhear o jornal que compro todas as manhãs para olhar para as “gordas” e ver os “bonecos”. Pouco vou além dos títulos, das ilustrações e das sínteses. E só passo à leitura de peças que, na minha perspectiva, assumem uma relevância acima do normal.

Para tentar dissertar um pouco sobre os “blogs”, explicação para a explosão que registam e, mais do que isso, para as razões que animam os seus autores. São, antes de mais, uma realidade que não pode ignorar-se, basta ver o ritmo a que surgem nos mais diversos endereços que lhes dão alojamento. Muitos não passam da fase de criação porque nem chegou a haver uma intenção definida à partida. Outros vão lançando “posts” irregulares, às vezes de mau gosto e frequentamente de interesse duvidoso. Ontem mesmo me recordo eu de ter lido num deles, pela mão de um dos mais empenhados nesta dinâmica, que a vida média de um “blog” é, creio que no caso dos portugueses, de três meses. Tem definida, desde já, uma existência efémera.

Depois, que razões motivam os “bloggers”? Diria que, frequentemente nenhuma, em especial. Por vezes será apenas a intenção de poderem dispôr de uma página pessoal cuja construção é acessível a não especialistas para dizerem qualquer coisa. Até se cansarem, se calhar muitas vezes antes de decorridos os três meses da esperança matemática de vida.

Outros sobrevivem, são um projecto de desabafo, pronunciam-se sobre os mais variados temas da actualidade, desde a política ao futebol, da religião à fotografia, do humor à tragédia. Os “posts” vão sendo afixados sem nenhuma garantia de serem lidos porque a divulgação é uma coisa complicada que nem sequer se sabe como se consegue. A menos que tenham autores que façam parte do nosso quotidiano, em jornais, em emissoras de rádio, em estações de televisão. Estarão neste caso – e peço desculpa a alguns de que involuntariamente me esqueço e a outros cuja existência desconheço – os Srs. Pacheco Pereira, Francisco José Viegas ou Miguel Esteves Cardoso.

Mas encontram-se nos “blogs” coisas muito boas quando está em causa a criatividade, quer relativamente a conteúdos, quer no que respeita à concepção gráfica. Encontram-se coisas também muito bem escritas, num português escorreito, limpo, correcto. E, naturalmente, é este último aspecto com que mais me congratulo: utilizar bem a nossa língua é, sem dúvida, um meio de preservarmos a nossa identidade cultural. Sem subsídios do ministro Roseta!

Ah! Mas é claro que os “blogs” valem a pena! Mesmo que muito do sucesso que registam se fique a dever a verdadeiros carolas como os Srs. Paulo Querido e Luís Ene.

Publicado por LFV em 10:06 AM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 03, 2003

União dos Blogues Livres?

Fico espantado com o "post" intitulado Patriotas, levantai-vos contra o perigo vermelho! e, especialmente com a criação de uma União dos Blogues Livres. Mas então os blogues existentes, cujo número cresce diariamente a um ritmo alucinante, não são desde logo livres? Então estão eufeudados a que interesses? Submetidos a que disciplina política, clubística ou religiosa? Então quer dizer que este Placard em que exprimo as ideias que entendo, sem as submeter à censura de ninguém, não é livre se não fizer parte da dita União? Ou que, fazendo parte dela, conseguirá ser mais livre? Ou que não é livre enquanto não dominar o servidor que o aloja? Gratuitamente!

Fica por saber que propósitos irá perseguir a recém nascida União. A conversão dos infieis? A extracção dos tumores? A alfabetização das populações rurais? As jantaradas à primeira sexta-feira de cada mês?

A União deveria publicitar a sua carta de intenções, divulgar os seus estatutos, afixar as suas metas. Para que todos pudessem ser livres, sob a sua indiscutível e sábia orientação!

Publicado por LFV em 11:23 PM | Comentários (2) | TrackBack

Constituição europeia

Decorre na RTP1 um programa em que seis senhores, três de cada lado, tentam explicar à D. Fátima Ferreira alguma coisa sobre a apregoada constituição europeia. Aproveitam ainda para a tentarem explicar uns aos outros. Todos na ilusão de que afinal a explicam ao país nos versos do Dr Graça Moura - muito melhor poeta do que político.

Antes, os resultados de uma sondagem encomendada à Universidade Católica, defunta que está a Amostra de que foi gerente o Dr Portas. E na qual os portugueses inquiridos - não os portugueses em geral, não haja confusões! - respondem maioritariamente que deve existir essa constituição.

Não sabem é como nem para quê, porque ninguém lho explicou. E descansem que também não é assim que vão explicar seja o que for! Mas também não é esse o objectivo e muito menos a preocupação.

Publicado por LFV em 10:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

Harry Potter e o Panteão Nacional

Na sua coluna diária, no jornal Público, o Dr Prado Coelho muitas vezes tem, mesmo sem o pretender, alguma piada que alegremente se regista. Hoje refere dois factos que, em sua opinião, terão contribuído para que o país tivesse descoberto um espírito de seriedade. Preocupante, a ser ver. Podendo concluir-se que aquilo que não preocupa o colunista é o facto do país não ser sério!

O primeiro facto. A revelação, pelo Presidente da República, que disse rir-se das escutas telefónicas, no caso de estar a ser alvo delas, e de poder mesmo proferir uma série de palavrões daqueles que o Pipi usa nos seus exercícios.

O segundo facto. A esquesitice com que muita gente acolheu o lançamento de um livro do Harry Potter no Panteão nacional alugado para o efeito, ao que se diz, por cinco mil euros. O que provocou ao Dr Coelho uma imensa gargalhada. Não será assim de excluir que o Sr Quim Barreiros ou a D Mónica Sintra venham, dentro de pouco tempo, solicitar a cedência do mesmo espaço para lançamento das suas novidades discográficas. A menos que, por menor preço, o colunista do Público possa arranjar-lhes qualquer mausoléu de família.

Publicado por LFV em 06:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ainda a visita do Presidente da República a Vila Real

Quando se é bronco e, mais do que isso, mentiroso, o elementar senso comum recomenda que se fique calado. Apenas porque ficar calado é a opção mais segura para evitar dizer disparates. Mas, apesar desta verdade do Sr de La Palisse, não foi isso que entenderam fazer o Governador Civil de Vila Real e os três deputados do PSD eleitos por aquele círculo.

Dois dias atrás os jornais diziam que nenhum deles tinha acompanhado o Presidente da República na sua visita a alguns concelhos do distrito. As justificações, esfarrapadas, surgem agora.

O governador civil acompanhou, desta vez, a visita de Jorge Sampaio a Santa Marta. E, quanto à sua falta no dia da visita a Alijó, alegou razões incontornáveis de ordem familiar. Confrontado com a situação, admitiu ter participado, de manhã, num programa de uma rádio local. Mas apenas porque essa participação lhe permitiu cumprir, às 13 horas, o tal compromisso inalienável.

Quanto aos deputados! Um, de forma inteligente e brilhante, alega ter faltado voluntariamente por ter suspeitado de que não estaria assegurada a dignidade da visita presidencial e que, sendo assim, a sua presença não teria particular significado. É óbvio que a presença do Sr Nazaré Pereira não teria nunca nenhum significado, tão ingnificante vem ele afirmar-se pelas suas próprias palavras. Ponto final.

Outro deles, de nome Bessa Guerra, não esteve presente por falta de tempo. Mesmo que tivesse passado o fim de semana em Murça, a poucos quilómetros de Alijó. E diz que está a trabalhar na preparação do novo quadro regulamentar na área das comunicações electrónicas. Foi, disse sapientemente, uma questão de prioridades. E há que agradecer-lhe quando, mesmo ao fim de semana, se empenha no trabalho de que, seguramente, está pendente a sobrevivência do círculo que o elegeu e do país que lhe paga.

O terceiro, que foi o cabeça de lista, é a D. Assunção Esteves. Que, como o apelido indica, não está, mas esteve. Ninguém a conseguiu contactar e parece que, depois de eleita, perdeu o mapa de estradas que a levava a Vila Real e, nem pela época das vindimas, houve alguém que a convidasse para uma patuscada. Para que pudesse aparecer por lá!

Publicado por LFV em 05:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

Narciso Miranda humorista

A propósito da seu recente almoço, em Matosinhos, com o camarada Francisco Assis, veio Narciso Miranda divulgar publicamente que não tinha estado presente na condição de Presidente da Câmara. Quanto a isso creio que não ficam dúvidas a quem teve oportunidade de passar pela marisqueira onde ambos trataram da maldita porque havia, à frente de cada um deles, um letreiro e o de Narciso dizia:

Narciso Miranda: não presidente da Câmara de Matosinhos.

Depois vem trazer a público outros esclarecimentos essenciais, mas desnecessários. Dizendo:

Lamento o folhetim que alguns alimentam porque só assim conseguem sobreviver. No PS, a política não se faz só em torno de votos, mas com debate e aprofundamento de questões, respeitando a solidariedade e a abertura para que cada um possa manifestar a sua opinião.

Fica dito! E toda a gente sabe que nenhum partido, e em especial o PS, faz a sua política à volta dos votos dos eleitores. Bem pelo contrário! Fá-lo por altruismo, por solidariedade, por civismo. Que lindo que é ver Narciso Miranda solidário com o seu concelho, persistente e continuamente, há mais de vinte anos. E disposto a continuar, nem que para isso tenha de eliminar todos os adversários. Ah exterminator!

Publicado por LFV em 12:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 02, 2003

A Fátima de Felgueiras e a videoconferência

Transcrição do JN de hoje:

Fátima Felgueiras, apesar de se estar no Brasil fugida à Justiça portuguesa, continuará a tentar influenciar a vida política no concelho que a elegeu para presidente da Câmara.
O JN soube que a ex-autarca mantém um "núcleo duro" de apoiantes e seguidores, através do qual conseguirá nortear algumas das directrizes da Concelhia do PS e dos órgãos autárquicos. Para isso, um seu familiar montou, no seu escritório, um sistema de videoconferência, usado, quase diariamente, pela autarca.
Será dessa forma que Fátima Felgueiras tenta influenciar o seu grupo de apoiantes. Andará a pressionar para que se proceda à ampliação do edifício dos Paços do Concelho, cujo projecto tem causado polémica. E terá apelado para que a Concelhia socialista não siga as determinações de Francisco Assis.

Não lhe deve bastar para todos estes requintes de malvadez a pensão de aposentação de que beneficia, como professora do ensino secundário. Ou será que, de facto, conseguiu "amealhar algum" enquanto desempenhou o cargo político para que foi eleita? E que se não terá endividado muito com a montagem e execução do seu plano de fuga para o Brasil? Que a mulher não desiste, está à vista. Se não se acautelam, mesmo por videoconferência, ainda manda pegar fogo ao Largo do Rato!

Publicado por LFV em 10:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

O psiquiatra do Bibi

O psiquiatra do Bibi, que dá pelo nome insuspeito de Rui Frade, foi-lhe arranjado pelo seu advogado, Dr José Martins, de quem é vizinho e que, como altruista que é, se ofereceu para ajudar no caso, sem honorários e sem recibo.

Uma olhadela clínica ao Bibi, breve mas competente, desde logo lhe permitiu o diagnóstico seguro e irreversível. O Bibi era um vegetal, comparável à mais isolada e inestética couve galega, pronto a ser desfolhado e cortado miúdo (cuidado com as interpretações!) para ser transformado em vulgar caldo verde. Com ou sem tora, conforme o uso ou o gosto pessoal.

E estava tudo a correr tão bem, com as câmaras de televisão atrás do Frade, quando vem o bastonário da Ordem dos Médicos para estragar tudo. E dizer que ele não é psiquiatra, que não está inscrito naquele organismo, que lhe mandou instaurar um processo disciplinar. À boa maneira portuguesa, como se usa em todos os ministérios quando caiem pontes, ardem florestas ou abatem monumentos. Teve o Dr Frade que se defender, então já não há respeito, porra! Para dizer que não tinha nenhum problema com a Ordem, nem sequer o das quotas em atraso. Havia apenas uma questão burocrática, mera história de papéis que os amanuenses da dita Ordem não tinham entendido: estavam escritos em francês. Língua que, somo se sabe, só o Sr Chirac fala nos dias que correm.

Mas isto causou transtornos ao condómino Dr Martins. E este teve de dispensar a sua valiosa ajuda, mesmo que gratuita, comunicando-a aos jornais para que constasse. O Bibi, coitado e vegetal, regressara à cela. Porque o seu advogado entendera que o juiz não merecia a confiança insuspeita que se exige a quem deve presidir ao colectivo com o encargo de julgar uma couve.

Agora hoje, domingo, dia santo e ainda por cima de finados, fica o Dr Frade na cama até um pouco mais tarde. E quando se senta à mesa para o pequeno almoço, esperando pelo café e pelas torradas, olhem o que ele vê na edição de um dos jornais diários. Quanta ingratidão!

Sedutor incorrígivel, psiquiatra com curso por correspondência, acusado de fraude fiscal, condenado por caloteirice, comprador de obras de arte que, para variar, não pagou! Um vegetal, este Dr Frade. Mas nenhuma couve com o Bibi. Um imbondeiro senhores, um imbondeiro dos grandes!

Publicado por LFV em 04:36 PM | Comentários (0) | TrackBack

Sãobentogate... lembram-se?

O JN de hoje escreve "Maria da Graça, a mulher que há dezassete anos...". Mas, dezassete anos atrás, Maria da Graça era pessoa fina, gente de bem, viúva ex-amante de consul falecido, tratada por V. Exa. em casas de chá, restaurantes e casas de luxo. Mandava que lhe levassem o almoço a casa e os biscoitos para o chá das suas muitas visitas. E assim foi ficando a dever a todas essas requintadas casas que os sem abrigo não usam frequentar. Mas, perseguindo a igualdade de todos perante a sorte da vida, foi igualmente ficando a dever ao sapateiro, à florista, ao talhante e à peixeira do mercado do Bolhão.

Não lhe reconheceram as qualidades e os méritos, nem a cidade, nem o país. Corja de ingratos, mentalidades obtusas, espíritos tacanhos, velhos do restelo. E assim teve ela que exilar-se na vizinha Espanha. Como, mais recentemente, aconteceu com a D. Fátima, de Felgueiras, tão malevolamente perseguida por aqueles a quem tanto amou. E que se viu forçada ao exílio político no Brasil, onde já antes tinham estado refugiados o Dr Caetano e o almirante Thomás. Suportando temperaturas da ordem dos 30.º centígrados em plena véspera do Inverno, indo à praia com refrescar os pés. Onde, se calhar, se tem encontrado com outro benemérito: o inesquecível padre Frederico!

Mas o fulcro é a, agora, Maria da Graça, que volta a dar sinais de vida e a ser notícia, porque ainda mexe. O JN publica-lhe a fotografia, carregada de jóias, ar superiormente sorridente, óculos de marca que a idade não perdoa, o ar distinto de sempre. Foi presa em Espanha e aguarda julgamento por causa de uma queixa rídicula de um empresário de Vila das Aves. Diz este ter-lhe confiado meia dúzia de jóias, no valor de meio milhão de euros - cem mil contos, se contássemos em defuntos escudos portugueses! - para que as vendesse. E que a senhora se terá apropriado delas, terá passado umas a patacos e ficado com outras cujo uso até a não envergonhava muito. Ingrato!

Publicado por LFV em 03:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

A educação e os princípios

Uma pequena e deliciosa transcrição que evidencia a educação, a moral, a ética, a instrução, os princípios, os fins, as alarvidades de alguns políticos nacionais de pacotilha. Não me ocorrem mais e melhores objectivos porque não fui consultar a coluna do Dr Prado Coelho.

PSD de Vila Real Ignora Visita de Sampaio ao Distrito
O Governador Civil de Vila Real, Os Três Deputados do PSD Eleitos por Este Círculo e as Principais Figuras Sociais-democratas do Distrito Estiveram Ausentes no Primeiro Dia da Visita do Presidente da República a Concelhos Desta Região. Indignado, o PS Acusa Os Sociais-democratas de "Falta de Respeito e Solidariedade Institucional".

O texto completo está aqui!

Publicado por LFV em 12:15 PM | Comentários (1) | TrackBack

Alternativas...

Da edição de hoje do jornal O Público:

Durão Barroso põe fim a polémica nas florestas.

Sem ser da edição daquele jornal, acrescente-se:

Depois do ministro Figueiredo Lopes não ter conseguido que fossem extintas com os incêndios do último Verão!...

Publicado por LFV em 11:51 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 01, 2003

Marcar presença

Sem nenhuma relevância, feito tarde e a más horas, o objectivo deste "post" é apenas marcar presença. Mas, apesar de tudo, ainda a tempo de ouvir um noticiário radiofónico abrir com uma notícia importante: o Sporting cedeu, esta noite, os primeiros pontos no seu novo estádio, ao quinto jogo aí realizado. Ingénuo, supunha eu que talvez fosse mais importante o total de pontos que, para a superliga, aquela equipa já desperdiçou ao fim de dez jornadas!

Mas eu não sou jornalista, muito menos de uma qualquer emissora de rádio. Se fosse talvez tivesse mesmo achado que mais importante do que os pontos perdidos seria o número de vezes que a relva já teve de ser mudada.

Publicado por LFV em 11:46 PM | Comentários (0) | TrackBack