junho 17, 2004

Detidos sem nome e com progenitores incógnitos

HaxixeHá dias atrás os órgãos de comunicação social noticiaram a detenção de algumas dezenas de pessoas e a apreensão de algumas dezenas de quilos de haxixe, em consequência de uma operação policial de invulgar envergadura. Até aqui, tudo bem. Entre outras, é também para estas coisas que as forças policiais existem. Muito mais do que para irem aquartelar no Iraque, abandonar as ruas e as noites ao voluntarismo vândalo e marginal de passageiros da madrugada ou ocuparem garbosamente as selas de bestas de pêlo luzidio, na perspectiva de, por distracção, aprisionarem o Bin Laden em carne e osso.

Mas a notícia salientava um pormenor, aparentemente determinante: um dos detidos era filho da actual deputada e vice-presidente da Assembleia da República, Leonor Beleza. Ele próprio era ainda mais insignificante do que o tio Zé Manel que, para além de irmão da ex-ministra, ainda ao menos se chamava Zé Manel. Este, o filho, nem nome tem, coitado. Da mesma forma e à semelhança invulgar do que acontece com todos os outros, mais de trinta. Não têm nomes e não se lhes conhecem os progenitores, como se fossem a um tempo e contra o que dispõe o Código Civil, filhos de pai e mãe incógnitos.

Este pormenor, obviamente, não é informação. Com todas as letras, é apenas uma grosseira e inqualificável filha da putice. E é, ao mesmo tempo e muito, o espelho daquilo a que no país se vai chamando comunicação social. Os jornais, as rádios e as televisões vendem com base em publicidade que ultrapassa todas as fronteiras do mau gosto, da imbecilidade e da má fé. Atente-se, por exemplo, na grosseria dos anúncios do Banco Espírito Santo sobre um jogo de futebol contra a Grécia, de triste memória. Dizendo, mais ou menos, vamos deixá-los em ruínas. O "criativo", como é de uso dizer-se, responsável pela brilhante ideia terá noção de as tais ruínas terão universalmente muito mais importância do que este diminuto rectângulo que se estende para oriente a partir do Cabo da Roca? Depois, se isso era ainda possível, fomos nós a resultar em escombros, feitos ruínas patetas da nossa confrangedora arrogância. Falta a tudo isto o que sobrava da poesia de O'Neil e de Ary dos Santos, por exemplo.

Mas se aquilo é informação, fica aqui expressa a petição pública. Preciso de ser urgentemente reciclado, da ponta dos cabelos às unhas dos pés e da epiderme ao mais profundo das entranhas. Excluindo a vesícula que um credenciado cirurgião, há mais de dez anos, teve o trabalho de extrair-me. Este não é um país em que se possa viver. E não é por força da sistemática fragilidade dos ministros do ambiente, venham ou não poluídos com anedotas parvas ou com contas bancárias em francos suíços.

Publicado por LFV em junho 17, 2004 10:50 PM
Comentários

Isto é a prova cabal da falta de isenção por parte da comunicação social quando escolhe as vítimas sobretudo quando estas têm alguma conotação partidária e é preciso fazer com que a notícia produza o impacto desejado. Neste caso opta-se por ocultar nomes e proveniências porque
objectivamente não convém divulgá-los.

Afixado por: congeminações em junho 17, 2004 09:58 PM

O importante, é vender papel.

Afixado por: jgonçalves em junho 17, 2004 10:18 PM