Apesar disso, procurei o meu velho e encarquilhado cartão de eleitor. Descobri o amarrotado bilhete de identidade em que apenas a fotografia me agrada mais do que o espelho. Passei pela junta de freguesia a saber onde funcionaria a mesa de voto e lá fui eu votar. Heróico e destemido, com bandeiras nacionais, murchas, penduradas das janelas, sem força para flutuarem a um vento mais fresco que viesse de norte. Hesitei, de esferográfica na mão e com o boletim de voto, imóvel, esperando por mim. Vou por Saramago ou não? Acabei por não ir e por decidir por mim. Não votei branco. Nem nulo.
Pensei na altura que tinha contribuído para eleger um patriota eurodeputado nacional. Ou para evitar a eleição de outro. Mantive a ideia, mesmo depois de encerradas as urnas e completado o escrutínio. Mas, mais uma vez, tinha sido enganado e comecei a compreendê-lo ainda durante a noite.
A reunião da comissão política do PSD, para analisar os resultados, tirou-me as últimas ilusões. O imprevisível e erudito Dr Santana Lopes veio dizer que os portugueses - entre eles eu, que me não abstive! - tinham manifestado o seu descontentamento face à situação social do país. E eu convencido que, apesar da miserável percentagem de participação do eleitorado, o que tinha havido eram eleições para o parlamento europeu. Só me ocorre reagir como a Catarina!