maio 30, 2004

Uma ponte atrapalhada de mais

A ponte que hoje foi inaugurada em Coimbra, ligando as margens do rio Mondego, não é um projecto de engenharia. Tão pouco é um equívoco e não lhe basta o epíteto de trapalhada. Mais do que isso, é uma novela completa, com enredo complicado, a começar pelo custo.

O contrato inicial previa um custo de menos de seis milhões de contos. Acabou a custar mais de quinze, quase três vezes mais. O projecto inicial pertence a um professor catedrático do Instituto Superior Técnico mas a obra é entregue ao empreiteiro sem que o mesmo esteja completo. O dono da obra contrata o projectista como consultor e, com a concordância deste, o empreiteiro faz o mesmo. As obras estiveram suspensas, o projectista foi dispensado, de permeio houve material dispendioso que se partiu e teve de ir para o entulho.

Em substituição do projectista inicial foram contratados os projectistas preteridos no concurso, em razão da escolha do primeiro. Arrasaram o concorrente e o projecto, defendendo que a ponte acabaria por cair sozinha. Em vésperas da inauguração um relatório do Tribunal de Contas sustenta que as alterações produzidas beneficiaram o empreiteiro e transferiram os prejuízos para o Estado. Ao mesmo tempo desvaloriza um relatório anterior, da Inspecção-Geral de Obras Públicas e Transportes, afirmando que o trabalho desta se circunscreveu a questões técnicas e não inquiriu com a profundidade que devia. O relatório da Inspecção considerava, todavia, esta ponte um verdadeiro caso exemplar de como não promover, projectar e construir uma obra pública, sendo que um dos relatores fora no passado sócio do projectista, com quem se incompatibilizou.

Entretanto o projectista inicial sentiu-se prejudicado e ofendido. Nomeou advogado com quem analisa a hipótese de agir judicialmente contra os responsáveis. Por mera casualidade o advogado é o Dr Guilherme Silva, deputado do PSD e chefe do respectivo grupo parlamentar. Tanto quanto se sabe, de momento, não há envolvimento de figuras ligadas ao futebol profissional ou isso não foi revelado.

Com pompa e circunstância, mas sem vergonha de ninguém, a ponte foi hoje inaugurada. Sendo primeiro-ministro Durão Barroso, presidente da câmara Carlos Encarnação, líder do maior partido da oposição Ferro Rodrigues e presidente do Futebol Clube do Porto Jorge Nuno Pinto da Costa. José Mourinho já antes gritara: tirem-me deste filme, e vai a caminho do Reino Unido. Quanto à história, mais detalhada, pode ser vista em pormenor por estas paragens.

Publicado por LFV em maio 30, 2004 09:45 PM
Comentários

Mas que grande embrulhada.
Espera-se, que pelo menos agora que foi inaugurada, não caia.
Quanto ao resto da história, já terá perecido por aí.

Afixado por: jgonçalves em maio 30, 2004 10:34 PM

Já em tempos abordei a questão das obras públicas no nosso País que como todos sabemos começam por ser adjudicadas tendo em vista o decreto-lei que impõe como regra preferencial a proposta económicamente mais favorável apresentadas pelas firmas concorrentes ao concurso público. E as empresas habitualmente menos honestas têm isso em linha de conta e apresentam normalmente a proposta de valor mais baixo porque saibem que o mesmo decreto-lei determina que sempre que se justificar o empreiteiro poderá apresentar ao dono da obra um ou mais pedidos de revisão de preços com base em fundamentos que o justifiquem o que é sempre fácil arranjar. Daí o facto de que uma obra pública do Estado acabar por ter um custo final normalmente superior em dobro que o valor da adjudicação. Escrevi na altura que não encontrava justificação para que se mantivesse esse decreto em vigor e que ainda não tenha nenhum governo tido a coragem ou de o revogar ou introduzir-lhe alterações nomeadamente estabelecer um tecto a partir do qual não seria permitido ultrapassar determinado valor. Mas como sabemos face aos esquemas que existem nos gabinetes técnicos, que projectam e fiscalizam as obras publicas acontecem sempre o disparar dos custos das obras. É que muito embora eles ganhem bem não é com o salário que eles conseguem ostentar a vidinha que têm.

Afixado por: congeminações em maio 31, 2004 12:09 AM

Depois de todo este romance ainda está por provar se a ponte no projecto original sempre iria cair. Talvez outros interesses obscuros tenham feito "cair" uma ponte antes dela se ter erguido.

Afixado por: vmar em maio 31, 2004 01:26 AM