Mas o que é interessante é o grotesto da situação, o absurdo convicto do humor do ministro e do governo. O país anda às avessas, toda a gente sabe menos, naturalmente, o país. Antigamente celebrava-se quando se abria qualquer coisa, era notícia o número de creches, de lares de idosos ou de ATL abertos. Qualquer marçano de 14 anos descia de Trás-os-Montes à cidade do Porto, trabalhava de sol a sol como um mouro, levava porrada, não tinha férias nem folgas, ia aprendendo o ofício. Amealhava meia dúzia de tostões. Arranjava um pardieiro qualquer, com porta para a rua, e abria a sua tasca. Redobrava o esforço, esmerava-se no arranjo da loja, cumpria com as obrigações, realizava-se, mandava os filhos à escola e construía uma casita algures. Triunfava, numa palavra. O jornal da terra noticiava as visitas que fazia, os donativos que deixava. Tratava-o por próspero comerciante da praça do Porto. Encontrava os amigos com quem conversava e aos quais dizia, com orgulho, que estava estabelecido no Porto.
As coisas mudaram e, pelas sucessivas visões do governo, é isso que pelos vistos dá corpo à retoma, repetitivamente anunciada mas nunca vista. A crise, para já, é os bancos terem registado no primeiro trimestre do ano lucros que, quando comparados com o ano anterior, apenas subiram míseros 15 por cento. É o grupo PT, em que cada empresa consegue prestar serviços sempre piores do que a parceira, ter ganho nos primeiros três meses do ano apenas cerca de 160 milhões de euros. Qualquer coisa como 32 milhões de contos, para os mais saudosistas. Ao invés, o sucesso é conseguir extinguir 200 postos de trabalho por dia e ter o onjectivo de atingir os 400 até ao final do ano. O sucesso é fechar lojas e escritórios pelo país abaixo, promover falências e subsidiar as associações de patrões. Estes começam a acrescentar ao currículo que são empresários e gestores de empresas que faliram, cujos trabalhadores ficaram sem sustento mas a quem, todavia, a vida corre de feição. Habitam moradia nova, com piscina no relvado do quintal, e deslocam-se em automóvel novo de topo de gama.
Sucesso á encerrar creches, não é abri-las. Sucesso é diminuir o número de lares para idosos, não é aumentá-lo, mesmo que isso seja cada vez mais uma necessidade dramática. Retoma é acabar com os ATL a pretexto do aumento da produtividade que tanto preocupa o engenheiro Ludgero Marques. O Dr Bagão Félix há-de falar de si e do seu currículo quando deixar de ser ministro. Há-de dizer que é do Benfica, como toda a gente sabe, - o que é defeito que se lhe perdoa -, e que em vinte anos não ganhou campeonatos, nem taças, nem supertaças, nem troféus de golfe porque o atleta principal virou político e seguiu para eurodeputado. Há-de acrescentar que foi ministro quatro anos, por exemplo, e que fechou 1235 creches, 1743 lares de idosos e acabou com a raça a umas coisas esquisitas que davam pelo nome de ATL. Promoveu o desemprego, fomentou a doença, contribuiu decisivamente para o crescimento da pobreza absoluta, foi um reformador. E salientar que foi decisivo na superação da crise e no lançamento da retoma. Ora toma!
Com um SNS no estado em que está, não há ninguém que trate destes doentes.
Será que vão ter de ficar em lista de espera mais dois anos?
Eu não afirmo que sejam mesmo esses os objectivos deste governo. Não afirmo porque não gosto de afirmar aquilo de que não tenho certezas, mas parece ser isso mesmo. Destruir o pequeno para alimentar os grandes. A insegurança na saude, no trabalho, a exploração desenfreada dos serviços (telefones etc) a concentração da eonomia nas seguradoras. Não será exactamente o objectivo deste governo?
Afixado por: João Norte em abril 30, 2004 04:46 PM