Ainda o estudo não foi adjudicado, já o país se esqueceu e o ministro viajou para Bruxelas a reclamar o subsídio. Porque o ministério é muito mais dependente do subsídio do que da fome ou até mesmo da miséria. Depois há sempre o recurso à comparação, inevitavelmente favorável, de se poder assegurar que a situação é muito mais negra no Biafra ou até mesmo em Angola, apesar do petróleo, dos diamantes e do José Eduardo dos Santos. Entretanto prosseguem as obras para que o Euro 2004 comece sem sobressaltos, a tempo e horas, satisfazendo as condições que, ditadora, a UEFA impõe aos donos da bola. Nesse dia nenhum subalimentado sentirá o estomâgo colar-se-lhe às costelas. Estarão todos fartos, de barriga cheia.
A fome e a miséria não são nem uma fatalidade nem uma vergonha. São um crime de que nos deveríamos acusar todos, voluntariamente, sem necessidade do Ministério Público. Ser julgados sem direito a nenhuma defesa. Condenados sem prerrogativa de recurso para nenhuma outra instância. Não é apenas o ministro que anda distraído. Esse anda-o por função e exigência do protocolo, ninguém espera nada dele, pelo menos de bom. Mas nós não, nós vemo-los pelas esquinas da noite, quebrando o frio à força de alcóol, aquecidos por dentro à custa do tabaco. Esgaravatando sacos e contentores dos nossos restos, como crianças de África, avidamente procurando os restos que ninguém deixou. Nós, afinal, esbanjamos. Os nossos animais de estimação recusam o alimento que evitaria a morte de duas crianças antes de chegaram à escola. Recusamos a misericórdia de uma moeda para um pão e ficamos a aguardar os resultados do estudo do ministro.
É uma espécie rara a espécie humana. Tanto se degladia, tanto se agride, tanto se flagela e nunca se extingue. Como uma praga. Não temos, quanto a isto, muito de que nos orgulhar. E, estupidamente, estamos convencidos que sim!
Em vez de se preocuparem com os números apurados para poderem, ou não, arranjarem argumentos para os contestarem o importante era através das várias confissões religiosas existentes no nosso País, lhes perguntassem quantas pessoas recorrem
às mesmas a solicitarem apoio de alimentos e outros. Possívelmente ficariam surpreendidos com
os números que seriam largamente ultrapassados em
relação aqueles que foram divulgados.