O Conselho de Administração, consciente do papel central do Hospital de S. João na modernização e na implementação das necessárias reformas estruturais que têm vindo a ser preconizadas por Sua Excelência o Sr. Ministro da Saúde, vem, publicamente, informar os utentes do SNS dos resultados do seu exercício relativos a 2003. Com esta divulgação, o Conselho de Administração pretende ainda homenagear a dedicação e o esforço dos profissionais de saúde deste Hospital, responsáveis últimos pelo êxito que estes resultados demonstram. As considerações são a transcrição por extenso do que pode ler-se nos quadros e, no essencial, salientam que se fizeram mais consultas, por exemplo, com menos dinheiro, menos horas extraordinárias e menos funcionários. O que talvez queira significar que o funcionamento será optimizado sem nenhum dinheiro, sem horas extraordinárias e com os funcionários todos disfrutando das merecidas pensões de reforma. Já agora, sem aumentos! O presidente do conselho de administração, que deve muito provavelmente ser um médico, poderia ter-se previamente aconselhado com alguém que soubesse alguma coisa de números. Bastar-lhe-ia até que chamasse, directamente da janela do gabinete, algum aluno da Faculdade de Economia que passasse na rua e que lho perguntasse. Quando se fala de resultados, fala-se inevitavelmente de resultados contabilísticos e o Hospital de S. João, à semelhança de outros, passou a ser uma sociedade anónima, embora com o capital social com uma estrutura esquisita. Ou, melhor dizendo, sem estrutura nenhuma: é de accionista único, neste caso o Estado. Portanto o Hospital S.A. deveria divulgar contas e não indicadores sobre os quais se não sabe sequer como foram obtidos e a que critérios obedecem. E, mesmo assim, deveriam essas contas ser certificadas por entidade externa e independente, vulgarmente referida como auditores ou, no caso português, como revisores oficiais de contas. Assim fica-se pelo desbragado elogio do ministro, para que contenha qualquer remoto pensamento de exonerar seja que administrador for. E ainda pelo auto-elogio que, magnânimo, torna extensivo aos profissionais de saúde ao serviço. Como se diz, elogio em boca própria é vitupério. Ou pior!
Seguem-se dois quadros preenchidos, como se disse atrás, com números vazios e sem certificação de rigor, acompanhados de considerações inúteis e patetas. Comparam-se, relativamente aos anos de 2002 e 2003, os números de consultas externas, hospital dia, urgências, intervenções cirúrgicas e internamentos. Depois, num segundo quadro, os subsídios à exploração, as horas extraordinárias e o número total de funcionários.
Nunca tive dúvidas e agora consigo concretizar a ideia que sempre formulei àcêrca desta classe profissional. A contestação ao governo, pela classe não tem sido visível o que significa que as reformas do respectivo titular da saúde não vão de todo contra ao que os mesmos ambicionam, ou seja dinheiro. Quanto mais houver, menor se tornam as suas reivindicações. O problema da saúde, quem tem falta dela, que se vire, porque eles não andaram a queimar as pestanas para verem
reduzidos os seus honorários, portanto quem se quizer tratar que puxe os cordões à bolsa.
O respeitinho é muito lindo e o Sr. Ministro há-de gostar.