Os denominados empresários portugueses têm andado demasiado activos. Coisa rara, atendendo, na generalidade dos casos, à provecta idade que o bilhete de identidade lhes confere e ao merecido descanso de que, há longo tempo, estão necessitados.
Primeiro, segundo os jornais, quarenta foram à Presidência da República para manifestarem a sua apreensão ao Dr Jorge Sampaio. Sentiam fugir-lhes para Espanha o seu sentimento patriótico e a gestão das empresas a que chamaram, muito sensatamente, "centros de decisão". Julgando, e bem, que o euro é a moeda única em cujo primeiro comboio viajamos, os accionistas da Somague entenderam que o patriotismo varia na razão directa dos euros que se possuem. Sendo assim, venderam aos nossos vizinhos do lado. Ficaram aliviados das responsabilidades e sobrecarregados com euros caindo-lhes dos bolsos. Patrioticamente.
Depois, ainda segundo os jornais, reuniram-se 500, muito religiosamente, no convento do Beato. No seguimento de uma iniciativa patriótica do Dr Carrapatoso que, como toda a gente sabe, é o maioral da portuguesíssima Vodafone, acidentalmente com sede numa qualquer obscura "street" londrina. Para bem do país e tranquilidade das consciências enunciaram trinta princípios essenciais, tão vazio o primeiro como o último. Para preservação da espécie reclamaram, mais uma vez e com acrisolado patriotismo, a liberalização dos despedimentos. Auto-denominaram-se "compromisso Portugal" e regressaram, triunfantes, ao remanso das famílias e ao seio descaído das mulheres.
Agora, ainda segundo os jornais, reuniram-se os chefões das associações patronais e, patrioticamente, reafirmaram a sua fé na ladainha do Beato. Pouco dados às letras e tendo visto recusado o convite endereçado ao Dr António Lobo Antunes para que fosse ele o relator, tiveram que ser eles a redigir o documento. Claro, linear e objectivo como impõe a objectividade dos números. Foram felizes e não se perdeu nada que o Dr Lobo Antunes tenha continuado entretido com os Cus de Judas. Senão atente-se no seguinte parágrafo:
Há que garantir o dinamismo da procura interna, assente no investimento e na evolução sustentada do consumo, sobretudo do consumo privado, por via da libertação de maior rendimento disponível das famílias.
... não basta termos passaporte europeu: importa sentirmo-nos, vivermos e trabalharmos como europeus.
A obtenção de níveis adequados de receita pública depende mais da criação de riqueza assente na redução dos custos de produção, que da impossibilidade de um esforço contributivo insuportável às empresas e aos cidadãos, que acaba por trair perversamente os seus objectivos, como a quebra da receita fiscal o vem demonstrando.
Ficamos na dúvida, porque tanto o senhor de La Palisse com o senhor Luiz Pacheco poderiam ter escrito tão belas linhas. Mas não temos dúvidas em relação a um aspecto: país que tem empresários destes, não precisa de trabalhadores. Força com a liberalização dos despedimentos. Avante por Nossa Senhora de Fátima e pelo Conde de Ourém!
Estes pseudo-empresários, estão agora como querem, com um Novo Código de Trabalho que lhes
faculta uma enorme mobilidade da força produtiva
quer através do despedimento por inadaptação, quer por outras razões que entendam. Dispondo agora face à invasão dos imigrantes dos paises de
leste de uma excelente oportunidade para utilizarem mão-de-obra qualificada a muito baixo
custo e sempre com a possibilidade de o trabalhador algum dia poder vir a ser efectivo.