Primeiro, quanto às fundações, que tempos houve em que proliferaram como cogumelos pelos pinhais, acompanhando as primeiras chuvas de Outono. Criadas por todo o bicho careta, sempre no propósito altruísta de perseguirem fins não lucrativos e muitas vezes mesmo de benemerência. Mas, quando falo de bichos caretas, não me refiro propriamente a associações de moradores, a associações de pais, a clubes de desempregados ou a adeptos do Salgueiros. Sempre gente graúda, de governantes a empresários, de futebolistas a professores catedráticos. As estatísticas dizem-me depois que os pobres são cada vez mais e mais pobres e que os ricos são cada vez menos e mais ricos. Linearmente concluo, sem pretensões de erudição, que as fundações não cumprem os seus objectivos. Até que aquele ex-ministro que é do Benfica e que esteve mesmo com um pé na administração da SAD - olha!, esqueci-me destas! - deitou tudo a perder com uma tal fundação para a segurança rodoviária e com os serviços atribuídos a amigos, sem concurso. De forma criativa, que é um eufemismo vago quanto chegue para classificar a vigarice.
Depois o mecenato e ainda não encontrei um sem abrigo - mesmo daqueles que segundo Nuno Santos, 36 anos, assessor de marketing, pai de um menino de três anos que frequenta o infantário Pom Pom, vizinho da instituição Coração da Cidade - que tenha sido mecenas fosse onde fosse, mesmo frequentando luxuosas festas com fados e guitarradas que perturbam o sossego da rua e partam em luxuosos automóveis de grande cilindrada, invetivando o Sr Nuno Santos e fazendo-lhe manguitos. O mecenato é sempre praticado por outros e com outros destinos. Qual seria o gozo de atribuir benefícios ao Coração da Cidade ou à Associação Espírita Migalha de Amor, cujos nomes não dizem nada, são perfeitamente indiferentes e irrelevantes e que, seguramente, os iriam estroinar a comprar nabos e grelos no mercado do Bolhão? Não promovem exposições em Serralves nem patrocinam concertos de Ano Novo na Praça de D. João I. Quanto à sopa, felizmente, todos a têm em casa, longe dos sovacos sem banho e sem desodorizante dos esfarrapados.
Por último o Sr Miguel Sousa Cintra. Tem sido esta manhã a notícia e que diabo, pelos esforços desenvolvidos nesse sentido já a merecia. Ao que dizem os jornais e as rádios foi ontem interceptado ao volante de um veículo todo o terreno, vulgo Jeep, de valor superior a 20.000 contos, equipado com sirene, quando a accionou para rapidamente ultrapassar algum daqueles condutores de domingo, com latas de merda e que não saiem da frente. Que, em boa verdade, até deveriam estar proíbidos de circular em vias rápidas. Acontece é que o jeep estava registado em nome dos bombeiros de Sacavém aos quais, de forma magnânina, o mesmo o tinha oferecido depois de utilizar algumas vantagens no acto de compra e de, por descuido, ainda o estar a usar ele próprio. Mas pagando o combustível, o seguro, a manutenção e as portagens, logo veio, solícito, esclarecer o respectivo comandante. Que até já tinha experimentado o veículo, excusando-se a revelar se o mesmo lhe agradara ou se pensava recusar a oferta do Sr Cintra.
Este Sr Cintra - não vá confundir-se com o outro! - não faz nada disto por questões de dinheiro, que é coisa que lhe sobra por tudo quanto é lado e disso, prodigamente, se vai gabando. Há ainda pouco tempo se recordarão de ter amealhado em bolsa uns saborosos tostões apenas por ter tido o fado de conhecer informação sobre uma empresa de que era administrador e de a ter utilizado, que ele não é burro. Foi considerado crime, foi julgado e condenado e nunca mais se soube nada. Nem da pena nem tão pouco dos tostões. Depois, de família, já lhe vinha a herança. Dono e senhor de todo e de tudo no Algarve, de barlavento a sotavento, incluindo minúsculos caracois apanhados a trepar ervas daninhas, como se fossem o professor Cavaco empoleirado num coqueiro de S. Tomé e Princípe. Como castigo pela invasão de propriedade, eram apanhados e enviados para Lisboa. Para a panela!
Cada vez mais se impõe a necessidade de criar uma
entidade reguladora e fiscalizadora das acções empreendidas pelas Fundações existentes neste País de forma a evitar que no fundo elas sirvam apenas e só como se tem vindo ultimamente a constatar, para tirarem chorudos dividendos, praticando, como contrapartida, um caridadezinha sem expressão para enganar os incautos.
Espero que este caso do jipe oferecido aos Bombeiros mas ainda nas mãos deste senhor não venha a contaminar as águas que hão-de encher as suas garrafinhas de cerveja.
Afixado por: OLima em dezembro 29, 2003 08:29 PM