novembro 24, 2003

O Dr Prado Coelho regressou do Brasil

Mais depressa do que tinha acontecido com Pedro Álvares Cabral, o Dr. Prado Coelho regressou do Brasil. Onde, afinal, esteve acompanhado do Dr Augusto Santos Silva que, como sabem, não é o do banco. E retomou a sua coluna habitual no jornal Público depois de ter participado num colóquio sobre o tema “os intelectuais são ainda necessários?”. À sua maneira faz a descrição muito analítica de tudo. De onde foi, de quem foram os apoios e a orientação e quem assessorou.

Acaba a afirmar que o intelectual tem que saber que a sua função é hoje sobretudo a de um tradutor de códigos culturais e que essa função implica uma análise cuidadosa e uma utilização sagaz do sistema dos “media”. É uma frase densa, fechada, hermética, como são muitas vezes expendidos os conceitos e os pensamentos do Dr. Coelho. Humildemente não sei o que quer ele dizer quando alude a um tradutor de códigos culturais e pergunto-me que tradução? E que códigos? Ainda por cima quando a função implica, como escreve, uma análise cuidadosa e uma utilização sagaz do sistema dos “media”. Análise cuidadosa em que sentido, com que critérios, de que vectores do tal dito sistema? E a utilização sagaz? As utilizações devem todas elas ser sagazes, sejam do que for, ou não? Mas quanto à utilização, qual utilização, com que princípios e com que finalidade?

Parece querer estar a reduzir-se o intelectual assim a um género de detergente que lava tudo, sem marca de fábrica, sem dignidade e sem verdades absolutas. Que nunca houve e que ninguém nunca teve. O problema dos intelectuais é, a meu ver, olharem demasiado para o umbigo, é arrolarem filosofias e correntes e, fora de tempo, criticarem e discordarem. E reincidirem no isolamento das suas cátedras e das suas redomas, à margem das sociedades do dia a dia. E pretende agora o Dr Coelho que eles sejam tradutores de códigos dessas sociedades, consultados os “media” – termo de que não gosto e que, presumo, não exista! – e utilizados sagazmente. É mais do mesmo, muita intelectualidade fica à porta do Teatro Nacional de D. Maria ou dos museus da Fundação Calouste Gulbenkian. Sem que haja capitais europeias da cultura que lhe valham!

Publicado por LFV em novembro 24, 2003 12:29 PM
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