Foi esta manhã, enquanto uma qualquer emissora de rádio me sacudia do sono com música aos berros, piadas alarves e algumas notícias. Apercebi-me de que divulgavam os resultados de mais uma sondagem de opinião. Não, não era sobre o detergente para roupa que lava mais branco nem sequer sobre o detergente para louça que lava mais hectómetros de pratos sujos, alinhados nas bermas da estrada. Nem sequer sobre o sexo dos anjos ou as preferências literárias das D. Corin Tellado e Margarida Pinto. Era, mais uma vez, sobre a intenção de voto dos portugueses em hipotéticas eleições legislativas que se sabe se não vão realizar, como poderia ser sobre a responsabilidade pelo conserto da chuteira do Sr Deco, saída com estragos do estádio do Bessa na pretérita segunda-feira: se o Sr Paulo Paraty, se o Sr José Mourinho.
Retive ainda, pela leitura daquilo a que chamam ficha técnica e que dizem sempre em surdina e à velocidade a que o defunto Concorde rumava de Londres a Nova Iorque, que tinham sido inquiridas mais de mil – notem bem: mais de mil! – pessoas. O que, naturalmente, não podendo ser um número que se possa comparar com o dos simpatizantes do Benfica é largamente superior ao número dos senhores deputados que fazem o favor de nos representar na Assembleia da República. Não me apercebi de quantas tinham dito o mesmo de sempre e que fazem parte do grupo que, pela designação que lhe atribuem, mais me delicia: não sabem ou não respondem. Nem sequer isso era importante.
Mas ouvi que os maiores partidos do Campo Pequeno que é a nossa política tinham, todos eles, descido em relação aos resultados da sondagem anterior. E extraio uma conclusão ousada mas que é imediata para quem, como eu, aprendeu a tabuada dos dois a cantar ao ritmo da marcha do Bairro da Bica. Se todos desceram, os “não sabem ou não respondem” avançaram o que, desde logo, revela uma maior consciência do valor e do peso das sondagens. Quer dizer, foram eles que ganharam.
Infelizmente acabo sempre por sentir-me meio falhado quando a divulgação destes resultados não é acompanhada dos comentários sensatos, lógicos e até científicos dos líderes partidários. E às vezes até mesmo hilariantes que são, honestamente, aquilo que mais me diverte. E em que acabam sempre todos a ganhar mesmo quando os números dizem que todos perderam. Mas lá descobrem uma recôndita freguesia onde, finalmente, um eleitor pôs a cruz na casinha deles!