Fazer humor é uma tarefa difícil e complicada a que apenas tem acesso um pequeno e raro número de praticantes. E mesmo estes, frequentemente, sem sucesso em grande número de casos, por não atingirem os objectivos. Mas, no entanto, as matérias primas de que se alimentam as situações de humor – as conseguidas e as desconseguidas! – estão permanentemente ao nosso redor, na sequência trágica de acasos e acontecimentos de que a própria vida se vai construindo dia a dia. É a partir dessa realidade concreta onde, dificilmente, se descortina presente para os nossos jovens e futuro para os nossos filhos, que se criam situações que levem o destinatário a uma reacção em que, ao menos, se divise o esboço ténue de um sorriso.
Mas a população de destinatários é demasiado heterogénea para que se consiga uma reacção única, em cadeia e que, por momentos que seja, consiga unir todos eles numa satisfação comum. E estes resultados são fortemente influenciados por um conjunto de factores muitas vezes opostos entre si. O país, a raça, a religião, a instrução, a cultura, a idade, eu sei lá. O sentido de humor, falando de Portugal e do Porto, da D. Agustina não tem que ser comparável ao do Sr Manuel do Laço, mesmo que ambos residam ou passem parte do seu tempo para os lados da Boavista. E nem assim seria mesmo que ambos fossem ilustres escritores da nossa praça – os meus respeitos, Sra D. Agustina! – ou acérrimos simpatizantes do Boavista Futebol Clube – a minha compreensão, Sr Manuel do Laço!
É preciso transportar algo que se exercita mas que se não cria. E olhar para todas as coisas e para todos os factos com a isenção que quase nunca se possui em relação a nada. Fazer interpretações em que predominem a ironia e o sarcasmo. É preciso ridicularizar a atitude pretensamente séria com que as figuras da nossa sociedade, em sentido lato, se nos apresentam nas mais variadas oportunidades. A única coisa que se pode fazer em relação à seriedade do deputado Cruz, de Águeda, que começa por alegar não estar disponível para ser ouvido por um tribunal porque o Parlamento o não autorizou, é rir com a seriedade grotesta de um homem que os portugueses elegeram, democraticamente, para os representar. Porque, com argumentos que nem ele entende, faz de palhaço, sem sequer precisar de vestuário apropriado ou de pinturas na cara.
Então alguém pode tomar a sério o Dr Lacão, que preside à Comissão de Ética da Assembleia da República, quando o mesmo, nas instalações do Parlamento, creio que após reunir a comissão a que preside, diz um chorrilho de barbaridades que, apesar de tudo, o Dr Pedroso talvez não merecesse? E depois, angelicamente, vem declarar que se pronunciou a título individual, na sua mera condição de cidadão igual a qualquer um dos sem abrigo que habitam as entradas dos prédios da cidade? Em consciência deveria, neste caso, ter remetido as câmaras de televisão para os locais onde os sem abrigo se desabrigam menos, para que aí fizessem o seu trabalho. Porque televisões à volta já ele tem, de vez em quando, no exercício de outras funções. Alturas em que se apresenta usando sapatos com salto um pouco mais alto porque isso melhora os planos e o beneficia um pouco.
Pode-se tomar a sério o ar emproado, o fato às riscas e o nariz ameaçadoramente aquilino do Dr Portas, travestido de ministro das guerras, com motorista e assessores às ordens? Mesmo quando viaja no banco de trás de um dispendioso Jaguar com um motor de doze cilindros. Ou quando beija todas as peixeiras do mercado da Ribeira e lhes promete bons casamentos para as filhas, enquanto as mesmas vão descamando a chaputa e apregoando a sardinha? Ou será de lhe dar mais crédito quando joga duas partidas de sueca com os reformados que, pelo bom tempo, se concentram no Jardim da Estrela em que, por solidariedade, até aceitou perder, desde que se jogasse a feijões e nenhum adversário fizesse batota?
Alguém, mesmo no decurso da Festa do Avante, com a melhor das boas vontades, acredita nas declarações do Dr Soares, sim, o Bernardino, quando tem dúvidas sobre a não democracia que é o regime implantado sei lá em que país? Sendo certo que estes meus olhos cansados e ligeiramente míopes, viram parangonas em jornais apregoando as excelsas virtudes das ditaduras democráticas do proletariado? Que o exemplar democrata, Sr José Estaline, tanto difundiu e defendeu, mesmo à força e contra os camaradas divisionistas que não enxergavam nada do futuro.
Posso eu, que sou pobre e trabalhador por conta de outrém, conceder algum crédito ao Dr Louçã quando me enche os ouvidos, a mim e aos mais pobres do que eu, de promessas, de benesses, de bens essenciais e até de pasteis de Belém para levar para casa? Eu, que me habituei a ser sistematicamente extorquido por todos os ministros das finanças, mesmo os do governo do Dr Salazar? Tudo em nome do saudável equilíbrio das contas públicas(?) e, agora, dos critérios de convergência que a UE, democraticamente e por consenso, com a amiga Alemanha à cabeça, nos impõs a par do Euro. E que não cumprimos!
O pobre já se não limita a desconfiar do tamanho da esmola. Em época de crise – por mais sinais de retoma que o Dr Barroso vislumbre, mesmo a partir de Angola – o pobre desconfia desde logo da esmola. Alguém a querer dar-me alguma coisa? Só pode ser laracha de mau gosto!
É por isso que o humor é um acto difícil e complicado. E invariavelmente trágico!