outubro 24, 2003

As listas de espera da saúde

Hoje de manhã, no Porto, tive que me deslocar a um centro de saúde para tratar de um assunto pessoal. A funcionária que me atendeu foi extraordinariamente atenciosa e simpática, contra todas as ideias que, de um modo geral, temos sobre a administração pública.

Mas, acidentalmente, acabei por saber que há naquele centro uma lista de utentes, à espera que lhe seja indicado um médico de família, que ultrapassa as três mil pessoas. Não quis afrontar a senhora, tão correcta ela tinha sido para comigo, dizendo-lhe que o que me dizia não era verdade e que, muito simplesmente, estava enganada.

Porque estas foram, naturalmente, as primeiras listas de espera a ser reduzidas a zero pelo ministério do Dr Pereira. Depois delas já foram extintas as relativas às consultas médicas que, actualmente, se marcam e realizam no próprio dia. E até as listas que havia para intervenções cirúrgicas também, como o ministro tem repetidamente afirmado e as televisões todas têm noticiado, já passaram à história. E renderam significativos proventos a entidades do sector privado, então a quem deveria ser?

Isto recorda-me uma mensagem que, em tempos e sem objectivo especial, deixei no "site" da sub-Admistração Regional de Saúde de Santarém salientando que uma freguesia daquele distrito, com mais de cinco mil habitantes, estava há pelo menos seis meses sem um único médico, fosse a tempo inteiro, fosse a tempo parcial.

Tiveram aqueles serviços a cortesia de me responder por correio electrónico, passados quinze dias. Para descaradamente me chamarem mentiroso, salientando saber eu muito bem que não era verdade aquilo que tinha escrito. Quando o que suponho é que o Dr ou a Dra que dirigiam ou dirigem aqueles serviços nem conhecem os concelhos que servem, quanto mais as freguesias e, muito menos, aquilo que por lá se passa. Com velhos de mais de oitenta anos a irem para filas às cinco da manhã, seja Verão ou seja Inverno, na tentativa sebastiânica de conseguirem uma consulta.

O exercício da política é, definitivamente, cada vez mais um exercício de sem vergonhas, mais do que de demagogos. E, contrariamente ao que pretende o Dr Sampaio, não podemos partir do princípio que os políticos são pessoas honestas e trabalhadores que dão o seu melhor pelo bem público. Ao contrário, temos que partir do oposto. E exigir que sejam eles a provar o contrário! Para que se decida depois sobre eles e sobre o futuro.

Publicado por LFV em outubro 24, 2003 12:31 PM
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