Pronto: também tenho o direito de me fartar e fartei-me. Estou cansado de que ninguém localize, geograficamente, o país a que pertenço. Ou se riem por não fazerem a mínima ideia do sítio onde fica e pensarem que estou a inventar. Ou têm memorizadas uma ou duas palavras de uma qualquer canção brasileira e me associam desde logo ao Brasil. Ou, pior, à América latina por onde têm muito por onde escolher. Ou, se já tiverem estado de férias em Espanha, fazem de mim mais um dos súbditos do senhor rei D. Juan Carlos. Que, para já, ainda não sou.
Acho tudo isto particularmente esquisito e inacreditável, tanto mais que o Dr Barroso se tem cansado a dizer que o país vai estar no mapa, vai ser reconhecido internacionalmente, vai ser dos mais desenvolvidos da União Europeia - Grécia incluída! -, vai ter a gratidão do povo iraquiano que não sabe quem somos nem o bem que lhe iremos fazer. Acho que toda esta gente anda distraída, a pensar na morte da bezerra e nas possibilidades desta morrer com a doença da sua mãe louca.
Mas alterarei o meu comportamento e passarei a dizer que sou natural do país das comissões. Comissões parlamentares, em primeiro lugar. Com destaque para a de ética, cuja unanimidade, sob a batuta surrealista do Dr Lacão, ficou ainda há dias sobejamente comprovada quando deixou de haver presos políticos em consequência de um acordão do Tribunal da Relação que libertou o Dr Pedroso.
Comissões de inquérito ao desastre de Camarate que, já por mais de uma vez, concluiu ter havido mortes, mesmo que se não saiba se por acidente se por não acidente.
Comissões sobre a queda de pontes, sobre rios ou sobre estradas, nos reinos do Dr Teixeira ou do benfiquista, Dr Seara, com mortes ou sem elas.
Comissões de trabalhadores, de moradores, de vizinhos e de familiares que servem para que algumas pessoas se sintam importantes, adquiram algum protagonismo - como agora se diz, sem que eu saiba o que isso significa! - e beneficiem de algumas dispensas na hora de recolher a penates, que a patroa militarmente impõe.
Comissões que investigam, inquirem, observam, chateiam, ocupam, dão trabalho. E não concluem coisa nenhuma. Ou concluem que as suas conclusões devem ser secretas, confidenciais ou reservadas, não vá o Dr Vilarinho perder o mandato. Ou, se não for ele, outro qualquer, em qualquer lugar.
Há ainda as comissões sobre as vendas de produtos, de serviços, sobre favores, sobre direitos, sobre adjudicações, sobre concursos e até mesmo sobre comissões. Pela venda de selos, pelo fornecimento de viagens, pela marcação de uma cirurgia, pela publicação de um encómio no semanário da moda, pela empreitada da construção da auto-estrada entre raios de cima e raios de baixo, sobre um prémio do totobola que, se não saiu desta, há-de sair da próxima.
Não é exaustivo, mas creio que passaremos a ser mais e melhor conhecidos. E, se calhar, passaremos a estar à frente dos nossos parceiros europeus como muito quer o Dr Barroso. Para nosso bem!
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Afixado por: Rosa em outubro 23, 2003 07:09 PM