outubro 22, 2003

A comunicação do Dr Sampaio

Eu, que não nasci em Lisboa e que ali não frequentei a Faculdade de Direito, creio ser de todo insuspeito. Soube alguma coisa mais a sério sobre o Dr Sampaio quando ele foi eleito para secretário geral do PS. Nessa altura a revista do jornal Expresso publicou um trabalho sobre o homem, as suas origens e o seu percurso. E recordo-me que alguém, que tinha sido seu professor, inquirido sobre o cargo para que o seu ex-aluno tinha sido eleito, dizia sem meias palavras que a situação lhe causava admiração. Apenas porque pessoalmente achava que o Dr Sampaio era demasiadamente honesto para os golpes de rins e os maniqueismos a que a actividade política obriga. A todos e aos seus dirigentes em particular.


Agradou-me que alguém que o conhecia de trás lhe avalizasse a honestidade e lhe fossem enaltecidas a cultura e a educação. Passei a seguir-lhe o percurso com certa simpatia, sabendo que, como dirigente, privilegiava os consensos em detrimento das soluções impostas.

Como se esperava, não vingou como secretário geral do seu partido, onde se aguentou por curto período. Ganhou a Câmara Municipal de Lisboa e foi levando a água ao seu moinho. Jogou cedo na sua intenção de ser candidato à presidência da república, e ganhou. Está na recta final do seu segundo e último mandato que, em minha opinião, tem desempenhado como pessoa íntegra e honesta, às vezes de maneira muito subtil e demasiadamente macia, de acordo com a sua educação e a sua cultura.

Assim sendo, e como aliás acontece com a quase totalidade dos políticos da nossa praça, o povo não o entende quando fala. E mesmo a classe política que, salvo muito raras excepções, tem também uma cultura pimba, sofre e esperneia para interpretar as suas palavras e, bastas vezes, o não consegue.

A sua comunicação de ontem, feita ao País na sua condição de Supremo Magistrado da Nação, enferma desse excesso de boas maneiras, de educação, de afirmações subtis e de subentendidos. Não admira que algumas vezes já eu tenha visto escrito que são muito mais objectivas as suas comunicações em língua inglesa, seguramente porque esta não tem a flexibilidade do português que é, também aqui, uma língua traiçoeira.

Não acredito, pessoalmente, que o Dr Sampaio tenha cedido a quaisquer pressões relativamente aos tristes e inverosímeis acontecimentos que têm povoado a nossa vida pública dos últimos meses. Da mesma forma que não duvido que terá sido pressionado nesse sentido, à semelhança de outros orgãos de soberania e de outros actores políticos ou não.

Mas seria necessário que o comum dos portugueses que, com o seu voto, também contribuiu para a sua dupla eleição, entendesse claramente aquilo que quis ele dizer e que de facto o disse. E esse português, como eu, não nasceu em Lisboa e não foi aluno da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Nasceu pelo país dentro, às vezes mal completou a escola primária, outras abandonou a meio a escolaridade obrigatória por razões que a política desconhece e triunfalmente ignora. E hoje não se lhe chama analfabetismo mas ileteracia sendo que, no seu conjunto, aquele e esta representarão talvez mais de trinta por cento de todos os que somos, com censo ou sem ele.

Teria sido importante que o Dr Sampaio chamasse as coisas e as pessoas claramente pelo nome. Contra todos os seus princípios, desse um forte murro na mesa. Esta chafurdice em que o País foi mergulhando não vai a lado nenhum com lindas palavras e com paninhos quentes.

Porque, por este andar, acabaremos por assistir, em directo, às conversas telefónicas daqueles que, mesmo legalmente de todo, são escutados. Como se isso fosse apenas mais uma dita novela da vida real, sem que ninguém se importe com isso, a não ser com a expulsão do próximo figurante. Quem será ele? O Dr Ritto, o Sr Cruz, o Dr Ferro ou o Dr Moura? Ou outro qualquer, cujo apelido, para já, não consta da relação.

Sabe-se onde está e à responsabilidade de quem está determinado processo. Creio eu! E não se consegue saber quem é que distribui, como papel velho, documentos que dele fazem parte? Meu caro e admirado Mário Cesariny: por favor ajude a que eu perceba alguma coisa disto. Ou, se não tiver disponibilidade, meta uma cunha ao Sr Luís Pacheco! Em cujo reino continuamos a viver, para mal de todos.

Publicado por LFV em outubro 22, 2003 12:19 PM
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