outubro 21, 2003

Imagens do quotidiano vulgar - 1

Quando ontem, a pé e ao início da noite, me dirigia a casa, fui abordado por dois emigrantes de leste. Provavelmente ilegais, seguramente sem trabalho, sem alojamento e sem alimentação. O acto não é invulgar. Bem ao contrário, é cada vez mais frequente, em todas as cidades, vilas e aldeias deste pequeno país.

Um deles, pronunciando com dificuldade algumas palavras em português, pedia tanto como a moeda necessária para comprar um pão. Respondi-lhe que, se o quisesse, me acompanhasse porque entraria na primeira padaria e lhe daria o pão que me pedia.

Acompanhou-me, balbuciando algumas palavras em inglês. Língua que depois concluí não conhecer porque não foi capaz de compreender as respostas que lhe fui dando. E, mesmo que o meu inglês não seja de primeira, creio que no mínimo é inteligível sem grandes esforços.

Não resolveu coisa nenhuma aquilo que, a troco de algumas duas moedas, lhe dei no estabelecimento em que ambos entrámos. Mas dá que pensar, mais do que nunca.

Esta gente vem de longe, de países ainda mais pobres do que o nosso, onde não ganhavam para a subsistência, nem própria, nem da família. Correram riscos e endividaram-se, gastando aquilo que não tinham. Aqui chegados estão desde logo impedidos de regularizar a sua permanência. Ilegais, sem emprego, sem dinheiro, sem alojamento, arrastam-se pelas ruas e arrumam-se pelos cantos mais esconsos de alguns parques.

Muitas vezes são vítimas continuadas de compatriotas seus, que os exploram e lhe vão extorquindo o que conseguem, se o conseguem. E, como se isso não bastasse, vem ainda ao de cima, bastas vezes, a prática esclavagista de compatriotas nossos, portugueses, que os exploram também a troco de um caldo muitas vezes frio, muitas vezes intragável.

E que fazem os nossos poderes públicos? Aquilo que de há muito nos habituaram a fazer: nada! Fazem reuniões atrás de reuniões, olham para o umbigo, frequentam saraus e jantares no Casino do Estoril. E esperam que o próximo ano, apesar da apregoada austeridade da Dra Manuela Leite e da anunciada contenção dos salários, o sistema lhes permita trocar de carro (de serviço, obviamente) e aumentar alguma coisa ao limite do cartão de crédito que utilizam.

Por estas e por outras é que o Sr José Vilhena é quase o único historiador credível da nossa realidade contemporânea. Porra, que é demais!

Publicado por LFV em outubro 21, 2003 10:02 AM
Comentários

acho k deviam mudar isto pk isto e uma porcaria

Afixado por: irene lopes mendes em maio 29, 2004 11:59 AM