outubro 15, 2003

O cortejo do Dr Pedroso

Na semana passada o Dr Pedroso foi libertado do regime de prisão preventiva em que se encontrava, por decisão proferida pelo Tribunal da Relação. Na altura entenderam ele e o seu partido dirigirem-se triunfalmente à Assembleia da República como se estivesse ganho o Mundial da Coreia ou o Euro 2004. Alguns deputados choraram e outros emocionaram-se. E um deles até, em português que toda a gente percebe, clamou por respeito, porra!

O Dr Pedroso, definitivamente, tem vocação para a política. Porque, se a não tivesse, nunca teria participado naquele cortejo grotesto e, mesmo depois dele, se teria contido em vez de se multiplicar em entrevistas aos jornais do país. Apenas porque o Tribunal da Relação, por dois juízes a um, o não ilibou de coisa nenhuma: ele era e continua a ser arguido no processo conhecido como da Casa Pia. E não era mais arguido por estar submetido ao regime de prisão preventiva. Nem sequer passa a ser menos arguido por lhe ter sido aplicado apenas o termo de identidade e residência.

Mas a sua vocação política fá-lo comportar-se como político num processo de natureza criminal e que, de político, apenas o inclui como arguido que tem esse meio de vida. O seu propósito, para já, passa por declarar-se inocente aos quatro ventos. O que é legítimo, sem precisar de ser afixado em anúncios televisivos de duração ilimitada. Porque até agora não foi acusado de coisa nenhuma e se diz a toda a gente que só será considerado culpado se vier a ser acusado, se for condenado em julgamento e se a sentença que o condenar tiver transitado em julgado. Quer dizer, apregoar a sua inocência, é apenas chover no molhado.

Diz ir assumir o seu cargo de deputado para se não refugiar no ambiente tranquilo da sua casa. Mas, como deputado, o Dr Pedroso está ao serviço do país que o elegeu. E o país não é ele, para que faça do seu caso pessoal uma questão fulcral na miserável vida política do país. Como deputado deve interessar-se por todos aqueles que, presos preventivamente, não têm acesso a dispendiosos advogados nem a todos os meios de comunicação, que não vendem mais se os forem ouvir.

O que aparentemente o Dr Pedroso pretende com o seu regresso imediato ao parlamento é utilizar o mandato para que foi eleito em benefício próprio. O que é mais que lamentável, mas que não deixa de ser previsível. Como deputado deveria naturalmente preocupar-se com todos os presos preventivos, com os indícios que os mantem nesse regime, com a duração dessas prisões preventivas, com a celeridade da justiça que não ocorre. Porque o seu assunto pode ser de facto o mais importante. Mas para si, pessoalmente. Nunca na sua condição de deputado à Assembleia da República.

Mas quando as coisas se confundem e as pessoas não conseguem separar o trigo do joio!...

Publicado por LFV em outubro 15, 2003 05:14 PM
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